Era Uma Vez em Hollywood

Quentin Tarantino · Capítulo 11 de 29

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Era Uma Vez em Hollywood

Capítulo Sete: “Good Morgan, Boss Angeles!”

Capítulo Sete

 

“Good Morgan, Boss Angeles!”

 

Sábado, 8 de fevereiro de 1969

6h30

Cliff dirige seu Karmann Ghia pela rua praticamente deserta conhecida no mundo inteiro como Sunset Strip. Para Cliff, este é o começo do seu dia de trabalho: dirigir até a casa do patrão e de lá levar o patrão até os estúdios da Twentieth Century Fox para o compromisso às oito horas. Enquanto Cliff faz o motor do Volkswagen trabalhar descendo a Sunset Boulevard às seis e meia da manhã, ele pensa, Se Nova York é a cidade que nunca dorme, Los Angeles, na madrugada e nas primeiras horas do dia, volta a ser o deserto que era antes de ser coberta de concreto. Um coiote solitário fuçando numa caçamba de lixo é a prova de o quanto este raciocínio está correto. No rádio do carro, Cliff escuta a voz de Robert W. Morgan (“The Boss Tripper”), o disc jockey das manhãs da estação AM 93 KHJ, berrando para sua audiência de madrugadores, “Good Morgan, Boss Angeles!”

Na década de 1960 e começo dos anos 1970, Los Angeles inteira vibrava no ritmo da 93 KHJ. Ela era chamada de Boss Radio, e era conhecida por tocar o som dos melhores disc jockeys em Boss Angeles. Quer dizer, a menos que você morasse em Watts, Compton ou Inglewood. Nesses casos, sua alma vibraria no ritmo da KJLH.

A KHJ tocava todas aquelas músicas transadas dos anos 1960: Beatles, Rolling Stones, Monkees, Paul Rever and the Raiders, The Mamas and the Papas, Box Tops, Lovin’ Spoonful, bem como os grupos que acabariam caindo no esquecimento mais tarde, como Royal Guardsmen, Buchanan Brothers, Tompall and the Glaser Brothers, 1910 Fruitgum Company, Mojo Men, Love Generation, e outros dessa categoria. Fora isso, a estação tinha uma seleção estelar de disc jockeys, incluindo, além de Morgan, Sam Riddle, Bobby Tripp, Humble Harve (que, assim como Cliff, acabaria matando sua esposa no futuro. Porém, Harvey não escaparia da prisão), Johnny Williams, Charlie Tuna, e The Real Don Steele. Além disso, Robert W. Morgan, Sam Riddle e Don Stelee tinham, cada um, o seu próprio programa musical na emissora local de Los Angeles, o Canal 9, KHJ-TV. Morgan apresentava o Groovy, Riddle, o Boss City, e Steele tinha, naturalmente, The Real Don Steele Show.

As emissoras de rádio e TV da KHJ dominavam o mercado tocando as músicas do momento, promovendo concursos malucos, patrocinando shows selvagens, e emanando um senso de humor genuíno por meio do elenco de apresentadores.

Sam Riddle cumprimentava seus ouvintes das nove da manhã ao meio-dia com o seu bordão: “Olá, amantes da música!”. E Real Don Steele lembrava constantemente aos seus ouvintes que “Tina Delgado está viva!” (sua piada recorrente mais popular, embora jamais explicada).

Subindo para um dos bairros residenciais nas colinas de Hollywood, enquanto um anúncio do bronzeador Tanya Tanning Butter feito ao vivo por Robert W. Morgan se mescla ao do do do melódico da abertura do onipresente sucesso das paradas “Mrs. Robinson”, de Simon and Garfunkel, Cliff vê quatro garotas hippies, com idades entre os 16 e 20 e poucos, atravessando a rua na frente do seu carro e de uma placa de pare. Elas estão terrivelmente sujas, não com o tipo de sujeira normal nesses hippies que não tomam banho, mas como se tivessem feito uma orgia dentro de uma caçamba de lixo.

Todas pareciam estar carregando algum tipo de comida. Uma garota levava um caixote cheio de cabeças de repolho, outra levava três pacotes de pão de cachorro quente, e uma terceira trazia no colo um monte de cenouras. Mas a quarta — uma morena alta, magra, sensual, com uma cabeleira volumosa e um jeitão de flower power, vestindo um short jeans que deixava à mostra suas pernas brancas e compridas, e com pés grandes, descalços e imundos —, que é o último vagão desse trem de gatas hippies, leva um pote gigante de picles preso às costas, como se fosse uma criança indígena.

A beldade morena olha na direção de Cliff e o enxerga através do para-brisa do ruidoso Karmann Ghia. Um sorriso se abre em seu lindo rosto, endereçado para o loirão. Cliff sorri de volta. A morena solta uma das alças, segurando o pote de picles com o braço direito, e deixando o outro livre para fazer o sinal da paz para o motorista do Karmann Ghia.

Cliff levanta dois dedos, respondendo ao sinal.

Eles compartilham um momento, que então se acaba, e ela está do outro lado da rua, e as garotas imundas seguem andando em seu passo de elefantinho pelas calçadas do bairro residencial. Cliff fica olhando para a hippie do pote de picles pelas costas enquanto ela segue andando, na esperança de que ela se vire para olhar para ele mais uma vez. Um… dois… três, ele conta em sua cabeça, e então ela se vira para olhar para ele por cima do ombro mais uma vez. Vitória. Ele sorri para ela e para si, pisa no acelerador vestindo um mocassim em seu pé, e sai zunindo morro acima.

6h45

Quando o radiorrelógio de Rick o acorda com a voz do disc jockey matinal da 93 KHJ, Robert W. Morgan, ele sente instantaneamente que seu travesseiro está encharcado e gelado de seu suor alcoólico. Hoje é seu primeiro dia de trabalho em um novo piloto de um seriado de faroeste para a CBS chamado Lancer. Naturalmente, ele interpreta o vilão. Um sequestrador e assassino de sangue-frio, líder de uma gangue de ladrões de gado que o roteiro descreve como “piratas terrestres”.

O roteiro é muito bom, e seu papel é bastante decente, muito embora Rick preferisse estar interpretando o protagonista da série, Johnny Lancer. Rick perguntou quem havia ficado com o papel. Era um sujeito chamado James Stacy, que havia feito uma participação tão boa em Gunsmoke que a CBS decidiu fazer um programa só com ele. Os coadjuvantes eram o enrugadíssimo Andrew Duggan, com sua cara de cavalo, como o pai, Murdock Lancer, e Wayne Maunder, que recentemente havia estrelado uma série cancelada na ABC sobre George Armstrong Custer, como o outro irmão, Scott Lancer.

O roteiro não apenas era bom, como também tinha bons diálogos, incluindo muitos deles logo no primeiro dia. Rick acordou atrasado justamente por ter passado a noite ensaiando falas com o seu gravador.

Ele costuma fazer isso boiando em sua piscina, sentado em sua cadeira inflável, enquanto fuma e bebe uns whiskey sours. Ele faz os drinques e os serve em uma caneca alemã de cerveja de sua coleção de canecas alemãs de cerveja. Quantas eu tomei? Ele se pergunta, deitado em sua cama, começando a sentir uma ressaca que mais se parece com uma poliomielite, e a perceber que está com a barriga cheia da bebida da noite anterior.

A caneca de cerveja comporta duas doses padrão de whiskey sour.

Quantas canecas?

Quatro.

Quatro?

Quatro!

Foi aí que ele vomitou em si mesmo, em sua cama.

A maioria dos atores e atrizes dos anos 1960 tomava um ou dois drinques ou taças de vinho para relaxar quando chegava em casa. Porém, Rick transformou um ou dois whiskey sours no final do dia em oito wiskey sours até apagar. Rick não tinha nenhuma lembrança de ter saído da piscina, ou tirado as roupas, ou deitado na cama. Ele simplesmente acordou sem fazer ideia de como tinha ido parar lá. Ele olha para a nojeira que fez em si mesmo e depois para o radiorrelógio ao lado da cama. São 6:52. Cliff estará aqui dentro de vinte minutos; então, é melhor ele se recompor. A parte ruim de vomitar em si mesmo ao acordar de manhã é que você se sente um porco nojento e um patético derrotado. A parte boa é que, sem todo esse veneno no organismo, você se sente muito melhor.

O que Rick não sabia, e levaria anos para descobrir, é que ele sofria de uma condição que não era muito conhecida na época. Desde o Ensino Médio, Rick experimentava violentas oscilações de humor. Sua tristeza era mais profunda do que a da maioria das pessoas, e, quando ele estava feliz, beirava o estado maníaco. Porém, após o encerramento de seu contrato de quatro filmes para a Universal (e, especificamente, após Salty, a Lontra Falante), seus baixos pareciam chegar a profundidades muito maiores. Especialmente sozinho em casa à noite, quando a solidão, o tédio e a autopiedade se misturavam em um caldo tóxico de autodepreciação que só podia ser remediado com a administração de tranquilizantes no formato de whiskey sours.

Sete meses depois, quando Rick voltou da temporada que Marvin Schwarz arranjou para ele na Itália, com uma esposa italiana novinha em folha, ele recebeu uma ligação do seu antigo mentor e diretor, Paul Wenklos. Eles não se falavam havia três anos, e Rick ficou feliz de ouvir notícias suas.

— Alô — disse Rick ao telefone.

— Dalton, seu filho de uma égua, é o Wendkos.

— Paul! E aí, como você tá?

— Como eu tô? Como você tá? — pergunta Wendkos. — Fiquei sabendo que uns hippies de merda invadiram a sua casa e você deu uma de Mike Lewis pra cima deles.

Rick deu uma risadinha humilde, como quem diz “isso não foi nada de mais”, e disse:

— Tudo o que eu fiz foi reconhecer a distância entre mim e o Mike Lews. Ele mata 150 nazistas sem mexer um músculo do rosto. Eu ateei fogo numa hippiezinha e praticamente me caguei nas calças.

— Bom, honestamente, Rick — disse Paul —, quando Lewis matou aquele bando de gente sem mexer um músculo do rosto não foi porque ele era muito corajoso. Foi porque você não sabe atuar.

Os dois riram em cada ponta da ligação.

Ao que Wendkos estava se referindo: pouco tempo depois que Rick e sua nova namorada chegaram de Roma e foram morar numa mansão em Benedict Canyon, três hippies (duas garotas e um cara) invadiram sua casa brandindo facas de açougueiro e uma pistola, e ameaçando sua família. Rick e Cliff deram um jeito nos invasores rapidinho, matando os três num confronto brutal. Cliff, na sala de estar, protegendo a nova esposa de Rick, Francesca, esmagou a cabeça do cara e de uma das garotas. Rick, que estava boiando em sua cadeira inflável na piscina na hora do ataque, quase foi baleado pela garota hippie, que tinha uma pistola. Mais tarde, ele declarou às autoridades: “Aquela hippie desgraçada quase arrancou minha cabeça!”

E, numa cena digna do filme de Wendkos Os Quatorze Punhos de McCluskey, Rick carbonizou a invasora com o lança-chamas com o qual havia treinado para o filme, que ele havia guardado de recordação em seu galpão de ferramentas. (“Eu queimei aquela hippie desgraçada até virar carvão”, diria ele mais tarde ao vizinho.)

Nunca ficou claro quais eram as intenções dos invasores armados, mas pareciam tanto mortais quanto perversas. Quando Cliff perguntou ao homem o que ele queria, o rapaz evocou Satã, dizendo: “Eu sou o diabo, e vim aqui para fazer o seu trabalho!”

O Departamento de Polícia de Los Angeles tem a teoria de que os hippies estavam derretendo de ácido e resolveram realizar um ritual satânico. Agora, se tem uma coisa que não é teoria é que aqueles hippies de merda, com certeza, escolheram a casa errada pra fazer isso.

No dia seguinte, a aventura de Rick chegou ao noticiário e se transformou no assunto da cidade. Do noticiário local, a história foi parar nos telejornais noturnos, e, por fim, ganhou o mundo. Havia alguma coisa em Jake Cahill matando três delinquentes hippies cabeludos com o lança-chamas de Os Quatorze Punhos de McCluskey que atiçava a imaginação das pessoas. Então, rapidamente, toda aquela noite de violência terrível adquiriu um tremendo peso simbólico, transformando Rick, o ex-caubói da TV, num herói folclórico para a “maioria silenciosa” de Nixon.

Esse interesse renovado não passou despercebido pela indústria. Pouco tempo depois do ocorrido, Dalton foi convidado para fazer uma ponta num dos mais importantes programas da TV, Missão: Impossível de Bruce Geller. Após o incidente com o lança-chamas, o Guia da TV publicou um perfil dele (o seu terceiro na revista). E ele foi convidado para aparecer pela primeira vez no The Tonight Show com Johnny Carson. A entrevista com Rick acabou sendo um tremendo sucesso, e, ao longo da década de 1970, Carson o convidou para voltar todas as vezes em que Dalton tinha um papel em um filme para o cinema ou para a TV, participava de algum programa de sucesso, ou tinha um novo seriado para promover. Dalton confessaria, mais tarde, para seu amigo Cliff: “No fim das contas, aqueles hippies desgraçados acabaram me fazendo um favor.”

Paul Wendkos não havia ligado para Rick apenas para jogar conversa fora. Ele estava fazendo a ligação que todo ator quer receber. Estava ligando para saber qual era a disponibilidade de Rick, porque ele estava prestes a dar início às gravações de um filme sobre a Segunda Guerra Mundial que teria como base a Inglaterra, mas seria todo filmado em Malta. O incidente com os hippies e o lança-chamas não fez subir apenas a cotação de Dalton, como também a do filme de Wendkos, Os Quatorze Punhos de McCluskey.

Wendkos estava produzindo esse filme para uma pequena produtora britânica chamada Oakmont Productions, que possuía um contrato de distribuição internacional com a MGM. A Oakmont era especializada em filmes de ação com orçamentos modestos sobre a Segunda Guerra Mundial, gravados (em sua maioria) na Pinewood Studios, em Londres, com elencos ingleses, exceto pelo protagonista, que era, geralmente, um ator americano conhecido na TV. Alguns exemplos foram O Ataque dos Mil Aviões, de Boris Sagal, estrelando Christoper (Ratos do Deserto) George; Esquadrão Mosquito, estrelando David (O Agente da U.N.C.L.E.) McCallum; Submarino X-1, de Billy Graham, estrelando um James Caan antes de O Poderoso Chefão, porém depois de El Dorado; Sob Fogo Cruzado, de Walter Grauman, estrelando Stuart (Cimarron) Whitman; e Fortaleza do Inferno, de Wendkos, estrelando Lloyd (Aventura Submarina) Bridges. Wendkos estava se preparando para filmar mais um, uma aventura sobre a Marinha com o título apelativo de Torpedos da Morte. Originalmente, o filme seria estrelado pelo ator loiro da TV James (Mr. Novak) Franciscus. Mas, quando as filmagens de De Volta ao Planeta dos Macacos, no qual Franciscus era o protagonista, estouraram o cronograma, Wendkos foi obrigado a ir atrás de outra estrela da TV americana. E, assim como em McCluskey, quando perdeu Fabian por conta de um ombro quebrado, Wenklos pensou em Rick Dalton. Então, quando deu por si, Rick já estava num avião junto com Cliff em direção a Londres, e depois, Malta, para as cinco semanas de filmagem de Torpedos da Morte.

Todas as produções da Oakmont Productions eram muito parecidas entre si, com Esquadrão Mosquito e Sob Fogo Cruzado sendo seus maiores destaques. Mas, para o que se propunham a ser, não eram filmes ruins. Embora não fossem lá muito memoráveis, eram bastante divertidos. Em geral, eram meio sem graça, mas tinham ótimos efeitos especiais e altas pirotecnias nas sequências de batalha. Quando Torpedos da Morte entrou em cartaz nos cinemas americanos em 1970, ele pegou o horário de menor destaque numa sessão dupla com o empolgante novo filme de ação da Segunda Guerra Mundial filmado na Itália por Phill (Hellfire, Texas) Karlson, Ninho de Vespas, com Rock Hudson e Sylva Koscina. Que tinha, basicamente, a mesma história de Os Quatorze Punhos de McCulskey, exceto que em vez de ser o Rod Taylor liderando uma gangue de brutamontes que explode uma represa para inundar uma fortificação nazista, era o Rock Hudson liderando um grupo de crianças órfãs de guerra que explode uma represa para inundar uma fortificação nazista. De todo modo, era uma noite de cinema muito divertida em 1970.

Além de mais um papel de protagonista num filme de cinema, Torpedos da Morte ofereceu a Dalton a oportunidade de restabelecer sua relação com o diretor e mentor Paul Wendkos. E Wendkos não perdeu tempo e enfiou Dalton em seu próximo filme. Havia alguns anos, quando Wendkos filmava o terceiro filme da série Sete Homens e Um Destino, para a Mirisch Company, ele queria que Dalton fizesse o que, essencialmente, era o papel de McQueen. Mas como Rick estava preso com a Universal contracenando com um roedor aquático, ele teve que deixar passar. Wendkos fez um trabalho tão bom que a Mirisch Company lhe ofereceu o quarto filme da série, que na época se chamava Canhões para Sete Homens. O roteiro foi escrito por Stephen Kandel, que também havia sido o roteirista do filme de Wendkos A Batalha do Mar de Coral, que foi aquele em que Dalton trabalhou pela primeira vez com o cineasta. A história era sobre Chris (Yul Brynner, nos primeiros dois filmes, e George Kennedy no terceiro, dirigido por Wendkos) e seus seis compadres lutando contra um bandido mexicano com pose de revolucionário chamado Córdoba. O exército de Córdoba possui cem homens, e eles têm seis canhões surrupiados do Exército dos Estados Unidos.

Chris e seus Sete Homens, a mando de ninguém menos do que o general John J. Pershing, tinham de ir até o México, se infiltrar na fortaleza impenetrável de Córdoba, destruir seus canhões, capturar o chefão, e levá-lo de volta aos Estados Unidos para enfrentar um julgamento. É como o general Pershing diz à Chris, soando como uma das mensagens que se autodestroem em Missão: Impossível: “Se vocês aceitarem essa missão, irão sem superiores, sem ordens, e sem uniformes. Se forem pegos, serão executados.” A história tinha ares de Missão: Impossível em versão faroeste, o que não era nada surpreendente, levando-se em conta o fato de que Kandel era o redator final do seriado na época. Quando Kandel estava escrevendo o roteiro, ele simplesmente partiu do princípio de que o grandalhão George Kennedy repetiria seu papel como o líder do grupo, Chris. Ao longo de todo o roteiro, sua prosa fazia referência à estatura descomunal de George. Mas, depois que ele entregou o roteiro aos irmãos Mirisch, eles gostaram tanto que decidiram que poderiam usar alguém melhor do que George Kennedy naquele papel. Então, eles o ofereceram para George Peppard. Peppard gostou do roteiro, mas fez uma exigência para aceitar o convite. Ele não queria ser o terceiro cara a interpretar Chris na série Sete Homens e Um Destino. Então, pediu que o filme não tivesse ligação alguma com a série, e que seu personagem se chamasse qualquer coisa menos Chris. Kandel reescreveu o roteiro, e o personagem de Peppard passou a se chamar Rod. E os Sete Homens passaram a ser Cinco Homens. E o título do filme mudou para Canhões para Córdoba. Wendkos ofereceu a Dalton o papel do segundo membro mais importante da equipe, Jackson Harkness. Entretanto, dessa vez, o papel do segundo-tenente não era um clone de McQueen. Rod e Jackson tinham uma dinâmica similar à de Gregory Peck e Anthony Quinn em Os Canhões de Navarone. O Jackson de Dalton culpa o Rod de Peppard, que fora seu amigo no passado, pela morte de seu irmão. Embora o personagem de Rick aceite participar da missão no México para destruir Córdoba e seus canhões, Jackson também promete matar Rod — caso eles sobrevivam.

Embora ficar na sombra de McQueen durante toda a década de 1960 tenha sido algo que incomodou Dalton, ele ficou possesso de ter que ficar também na sombra de Peppard. Todavia, àquela altura, os dois atores, que tinham sido arrogantes no passado, já haviam baixado bastante a bola. Se deram muito bem no México, tanto nas telas quanto fora delas. Eles combinaram bem, também, e a dinâmica do antagonismo entre os dois soou muito poderosa. Na verdade, Peppard tentou convidar Dalton para aparecer em seu seriado na TV, Banacek, mas as agendas nunca bateram.

Mas foi com um outro ator de Canhões para Córdoba que Rick se deu bem de verdade. Pete Duel era um galã de 31 anos que já havia atuado em duas séries para a televisão. Ele havia contracenado com Sally Field quando interpretou o cunhado de Gidget em Gidget. E também tinha estrelado uma sitcom chamada Love on a Rooftop, ao lado da esposa de Burt Reynolds, Judy Carne. Ele era um dos membros da equipe dos Cinco Homens. Dois anos depois, se tornaria um grande astro da TV com o seu seriado de faroeste na ABC, Smith & Jones (que era uma imitação de Butch Cassidy, embora fosse uma imitação muito bem-feita). Tanto Dalton quanto Duel, no período das filmagens no México, gostavam de: beber tequila, correr atrás das mexicanas, e falar mal de Hollywood e da companhia um do outro. Mas havia ainda outra coisa que os dois compartilhavam, algo que eles não sabiam que de fato existia, embora ambos sofressem com isso internamente. Tanto Dalton quanto Duel eram bipolares não diagnosticados. E o álcool era a sua única forma de automedicação. Mas, como nenhum dos dois sabia daquilo, para eles, o ato de beber era um sintoma de sua fraqueza interna.

Porém, o quadro de Pete Duel era muito pior do que o de Rick, e culminou – no auge do sucesso de Smith & Jones – com o ator dando um tiro em si mesmo no meio da noite. Todo mundo ficou se perguntando por que Duel havia feito aquilo. Mas Rick, do fundo de seu coração, sentia que sabia a resposta. Após a morte de Duel, em 1971, Dalton decidiu fazer o que fosse preciso para deixar de depender tanto da bebida. Em 1973, quando participou do faroeste de vingança Fúria no Sangue, no qual contracenou com Richard Harris, em Durango, no México, os dois homens (ambos beberrões) conseguiram encontrar uma espécie de equilíbrio. Ficavam sem beber de segunda a quinta. Porém, da noite de sexta até a tarde de domingo, os dois bebiam tequila, sangria, margaritas e Bloody Marys suficientes para encher uma piscina.

Enquanto Rick se olha no espelho do banheiro, dando os últimos retoques ao seu topete, ele escuta o Karmann Ghia de Cliff subindo pela entrada dos carros. Ele olha para o relógio de pulso: sete e quinze em ponto. Embora a vomitada que dera ao acordar tenha, inicialmente, feito com que ele se sentisse melhor, ela não limpara seu organismo por completo. Ainda havia muita bebida da noite passada revirando em seu estômago e fazendo sua barriga doer, seu rosto suar, e deixando a sua pele levemente esverdeada. Ele vai ter que se medicar com café e cigarros até por volta de uma ou duas da tarde. Mas, Jesus Cristo, pensa Rick, isso são sete horas! Aposto que a porra do James Stacy não vai começar o seu primeiro dia no seu novo programa de TV com uma ressaca fodida.

Ele olha para si mesmo no espelho do banheiro e diz em voz alta:

— E você se perguntando por que caralhos a CBS botou ele para estrelar o novo seriado e não você! Porque eles acham que esse babaca tem potencial. O único potencial que você tem é o de foder com a sua vida!

Cliff bate na porta da frente. Rick grita do banheiro:

— Já vou!

Ele dá mais uma olhada para o merda patético no espelho do banheiro.

— Não se preocupe, Rick — diz ele, intimamente, para o seu reflexo —, é o primeiro dia. Vai demorar um tempinho pra eles ajustarem a porra toda. É só ir bebendo café aos poucos.

Então, estampando uma expressão de “o show tem que continuar” no rosto, ele se anima dizendo o bordão que o Jackie Gleason tinha na época: “E lá vamos nós!” Antes de sair do banheiro, ele cospe na pia, olha para baixo, e percebe um pouquinho de sangue misturado à saliva. Rick examina o cuspe mais de perto e pergunta:

— E essa, agora?

7h10

Os pés imundos de Squeaky atravessam o piso de linóleo rachado da cozinha de George, cruzam o piso de madeira empoeirado da sala de estar, e ainda o tapete emaranhado do corredor que leva ao quarto de George no fim do trajeto. Ela bate à porta e se dirige a ele, alegremente:

— Bom dia.

Ela ouve as molas rangendo enquanto o homem desperta e se movimenta na cama. Então, após um instante, ela escuta sua voz mal-humorada do outro lado da porta.

— Sim?

Ela pergunta:

— Posso entrar, George?

O velho Spahn tem o seu tradicional ataque de tosse matinal e diz, em seguida, com a voz encatarrada:

— Pode entrar, querida.

Ela gira a maçaneta e adentra o quarto abarrotado do homem de 80 anos. George, deitado sob os lençóis de sua cama, vira-se na direção da jovem. Squeaky se encosta no marco da porta, apoia seu pé direito no seu joelho esquerdo, e diz ao velho:

— Bom dia, querido, estou fazendo uns ovos fritos. Você prefere uma linguiça da Jimmy Dean ou um bacon da Farmer John?

— Jimmy Dean — diz o velho.

Ela segue com as perguntas:

— Você quer tomar o seu café da manhã mais casual e confortável, ou quer que eu te ajude a se vestir e ficar bonitão?

George pensa por um instante, e então decide:

— Acho que eu quero me vestir.

Um sorriso se abre em seu rosto de fadinha.

— Ah, você quer ficar todo elegante pra me conquistar.

— Pare com isso — resmunga George.

— Fique deitado só mais um segundo, querido. Eu vou tirar os ovos do fogo, e volto aqui para te deixar bem bonito — diz Squeaky, e acrescenta: — Você vai arrasar o coração das garotas, seu bonitão.

— Querida, pare de me provocar — se queixa ele.

— Ah, eu sei que você gosta — flerta Squeaky.

Ela retorna ao corredor para atravessar a sala de estar, entrar na cozinha, e tirar os ovos borbulhantes na frigideira de cima da boca do fogão. Ela vai até o rádio da General Electric em cima do balcão da cozinha e o liga. O novo sucesso de partir o coração de Barbara Fairchild, “The Teddy Bear Song”, invade a cozinha.

I wish I had button eyes and a red felt nose

Shaggy cotton skin and just one set of clothes

Sittin’ on a shelf in a local department store

With no dreams to dream and nothing to be sorry for

Quando George está acordado, o rádio fica sempre sintonizado na KZLA, a estação de música country de Los Angeles.

I wish I was a teddy bear

Not living nor lovin’ or goin’ nowhere

I wish I was a teddy bear

And I’m wishin’ that I hadn’t fallen in love with you

Nos últimos meses, o trabalho de Squeaky vinha sendo tomar conta daquele velho cego. O líder de sua comunidade, Charlie, sempre reforçava o quanto seu trabalho era importante. Após a Família ter passado meses perambulando por Los Angeles como uma tribo nômade, o antigo set de filmagens de faroestes de George Spahn finalmente lhes havia fornecido um lar. Um lugar onde eles podiam criar raízes, testar as teorias sociais de Charlie, ampliar seus números e, talvez, quem sabe, criar uma nova ordem mundial.

Ela seria a cozinheira do velho cego, sua enfermeira e companhia amistosa, e, se ela não se importasse de masturbá-lo de vez em quando, isso ajudaria muito a garantir a permanência da “Família” no rancho. Ou, como Charlie havia dito, quando explicou tudo para a garota de 21 anos, “às vezes, menina, a gente tem que se sacrificar pelo time”.

A noite em que Charlie disse a ela que ela teria que masturbar periodicamente aquele velho e, talvez, fazer até mais do que isso, foi o único momento durante toda a sua estadia com Charles Manson em que ela pensou em voltar correndo para San Francisco e, talvez, até acertar as coisas com os pais. Mas, então, aconteceu uma coisa engraçada, que Squeaky jamais teria imaginado. Ela se apaixonou por aquele velho cego filho da puta. Não era uma paixão do tipo Romeu e Julieta; era algo mais profundo. Aquele velho rabugento não era um filho da puta, no fim das contas. Ele só estava sozinho e havia sido esquecido.

A indústria que tinha usado seu rancho para fazer seus faroestes de segunda linha e seus programas de TV durante quatro décadas o havia esquecido. Sua família o havia esquecido, deixando-o para morrer numa pocilga caindo aos pedaços, soterrado de esterco de cavalo e feno. Squeaky ofereceu ao velho a única coisa que todo o dinheiro que ele tinha guardado não poderia comprar. Um toque amoroso, uma voz delicada, e um ouvido sensível. Quando Squeaky dizia para George, ou para qualquer outra pessoa, que ela amava o velho, não era mera lenga-lenga hippie. Aquilo era Squeaky expressando sinceramente suas emoções mais profundas sobre o velho que ela tinha prazer em ajudar.

Quando retorna ao quarto, ela ajuda o velho cego a vestir uma camisa branca de caubói e depois a abotoa. Ela segura uma calça bege na qual ele coloca uma perna de cada vez. A jovem cuidadora amarra uma gravata de caubói que dá a volta no colarinho rígido de sua camisa. E penteia o cabelo ralo e branco em sua cabeça com uma escova. Em seguida, segurando-o pelo pulso e pelo cotovelo, ela o ajuda a caminhar pela casa até a mesa da cozinha. Enquanto vão andando no passo lento e constante de George, Squeaky lhe diz:

— Viu só como você ficou bonito? Eu sou uma garota de muita sorte por você querer sempre ficar tão bonitão assim para mim.

— Pare de fazer graça — reclama George, brincando.

— Quem está fazendo graça? — pergunta Squeaky. — Você sabe que o café da manhã fica até melhor quando você faz um esforço para cuidar de si mesmo.

Ela ajuda o velho a se sentar numa cadeira na mesa da cozinha. Ela repousa suas mãos em seus ombros encurvados e pergunta em seu ouvido:

— Sanka descafeinado ou Postum?

— Postum — diz George.

— Eu estou dizendo: você ainda vai se transformar numa caneca de Postum — brinca Squeaky. — Agora, eu ia começar a fazer ovos mexidos porque é isso que eu tenho feito ultimamente. Mas pensei que talvez você esteja enjoado disso, e queira alguma coisa diferente.

— Tipo colocar carne de porco desfiada nos ovos mexidos? — pergunta George.

— Não — diz Squeaky, sorrindo. — Eu estava pensando se você queria os ovos mexidos mesmo ou talvez só eles fritos.

O velho pensa por um instante e diz:

— Só fritos.

Ela dá um beijo no topo de sua cabeça e vai fazer o seu café.

Na KZLA, um comercial da farmácia Sav-on emana dos alto-falantes:

— Entre para a parada de sucessos da Sav-on. Você pode economizar em todos esses produtos. Farmácias Sav-on, farmácias Sav-on, BUM BUM! SAV-ON!

A ruiva pega o pote de Postum (um substituto barato para o café que os velhos gostam muito) no armário da cozinha. O pó dentro dele está duro como pedra. Ela precisa usar o cabo da colher para quebrar um pedaço.

Ela coloca a pedra de Postum dentro da caneca de café de George e despeja água quente por cima. Ela põe a caneca na frente de George e coloca sua mão na alça, avisando:

— Cuidado, está quente.

— Você diz isso todo dia — diz George.

— É que todo dia está quente — diz Squeaky.

Ela joga dois novos ovos numa frigideira pelando de quente untada com manteiga derretida e borbulhando. Ela tira a linguiça de puro porco da Jimmy Dean de dentro de um pote de plástico, corta três pedaços, e joga em outra frigideira. A linguiça chia. Usando uma espátula, Squeaky tira os dois ovos fritos da frigideira e os coloca num prato. Após acrescentar a linguiça, ela o coloca na frente de George.

— Quer que eu corte a linguiça e estoure as gemas para você?

George solta um grunhido para dizer que sim. Agachada, usado um garfo e uma faca, Squeaky corta as rodelas de linguiça em pedacinhos menores. Em seguida, ela pega o garfo de George e estoura uma das gemas amarelas, e, depois, a outra.

— OK, prontinho.

Por trás dele, ela passa as mãos em volta de seu pescoço e sussurra em seu ouvido:

— Bom apetite, querido. Foi feito com muito amor.

Ela o beija na lateral do rosto e sai da cozinha deixando George sozinho para tomar seu café da manhã em paz.

Na KZLA, Sonny James canta a folclórica história de amor de “Running Bear”.

Running Bear loved Little White Dove with a love big as the sky

Running Bear loved Little White Dove with a love that couldn’t die

7h30

Jay Sebring, o homem responsável por promover uma revolução nos penteados masculinos, e cuja preeminência nos cortes de cabelo de Hollywood é inquestionável, está deitado em sua cama, usando seu pijama de seda negra, assistindo a Johnny Quest, o desenho animado de aventura da Hanna-Barbera. Na tela da TV, Hadji, o companheiro de Johnny que usa um turbante, está jogando um de seus feitiços usando suas palavras mágicas: “Sim-sim-salabim!”

Um leve toque na porta fechada de seu quarto chama a sua atenção.

— Sim, Raymond — diz Jay para a pessoa que bateu.

Uma voz com um sotaque britânico perfeito fala do outro lado da porta:

— Preparado para o seu desjejum, senhor?

Sentando-se em sua cama, Jay responde:

— Estou, sim. Pode entrar.

A porta do quarto se abre, e Raymond, o assistente pessoal britânico de Jay, vestindo os trajes clássicos de um mordomo e carregando, com as duas mãos, uma sofisticada mesinha de café da manhã, adentra a peça com um animado:

— Bom dia, mestre Sebring.

— Bom, dia, Raymond — responde Jay.

Atravessando o quarto em direção ao homem na cama, Raymond pergunta:

— A noite de ontem foi boa, senhor?

— Foi, sim. Obrigado por perguntar.

O mordomo coloca a mesinha na frente de seu mestre, e Jay fica examinando os itens à sua disposição. A mesa contém uma cafeteira de prata, uma xícara de porcelana sobre um pires, uma tigela de torrões de açúcar, uma jarra em miniatura com leite, um croissant morno num prato, um pote com um pouco de manteiga, uma coleção de geleias de sabores variados em potes pequenos, e uma rosa de cabo longo num vaso prateado comprido.

— Tudo parece uma delícia — diz o jovem. — O que teremos para comer esta manhã?

Enquanto caminha até o janelão e abre as cortinas, inundando o quarto escuro repentinamente com a luz solar, ele diz:

— Eu estava pensando num saboroso prato de ovos mexidos com salmão, acompanhado de queijo cottage e meia toranja.

Jay faz uma careta e diz:

— Acho que vai ser um pouco demais comer tudo isso agora. Nós comemos chili burgers no Tommy’s ontem de madrugada.

Agora é a vez de Ray fazer uma careta. O mordomo tem a mesma opinião quando Jay encerra sua noite comendo um chili burger no Tommy’s ou quando seu patrão começa o dia com uma tigela grande de Cap’n Crunch, e ele responde àquela nova informação com uma alfinetadinha sarcástica.

— Bem, nesse caso, se o seu organismo ainda está digerindo um chili burger, não imagino que você vá querer saborear coisa alguma.

Raymond se afasta do janelão, anda de volta até a lateral da cama do seu mestre, e diz:

— Posso servir o café, senhor?

— Isso seria ótimo, Raymond.

Raymond pega a cafeteira de prata e serve o café preto na porcelana chinesa, enquanto diz:

— Muito bem, senhor. Por que não trocamos a meia toranja por um copo pequeno de suco de toranja?

O mordomo pega o jarro em miniatura, serve o leite na xícara e pergunta:

— E vamos continuar bebendo café ou, quem sabe, você gostaria de passar para um chocolate quente?

Enquanto Jay fica pensando, Raymond pega uma colherzinha da bandeja e mexe o café com leite até que ele fica na cor que seu mestre Sebring prefere.

— Acho que vamos de chocolate quente — pronuncia Jay, com convicção.

Então, de maneira igualmente teatral, Raymond diz:

— Chocolate quente, então. Você prefere continuar na cama assistindo a esses desenhos, ou o chocolate quente precipitará uma mudança de ambiente?

Jay faz uma cara pensativa e fica ponderando.

— Bom, eu estava assistindo ao Johnny Quest. Mas será? — diz ele, olhando para o assistente. — O que você acha, Raymond?

— Bem — diz Raymond, gesticulando em direção ao exterior luminoso do outro lado de sua janela —, como o senhor pode ver por si mesmo, faz uma manhã muito ensolarada e agradável na Califórnia. Se eu tivesse vindo de Londres e tivesse a sorte de acordar num dia como este, eu não ficaria na cama assistindo a esses desenhos. Num dia lindo assim, o senhor não deveria sequer trabalhar. Então, posso sugerir que tome o seu chocolate quente no jardim, para que possa aproveitá-lo adequadamente? — pergunta, acrescentando, por fim: — O senhor sabe o quanto gosta de tomar sua bebida matinal com o fantasma de Jean Harlow no jardim.

Na década de 1930, a casa que Jay comprou três anos atrás havia sido de Jean Harlow e de seu marido, o diretor Paul Bern, e ambos tinham morrido nela. E Jay tinha certeza de que os fantasmas de Jean e Paul assombravam aquela casa. Até mesmo sua ex-noiva, Sharon Tate, achava ter visto uma coisa assustadora e misteriosa certa noite.

— Raymond — convoca Jay grandiosamente —, você me convenceu. Tomarei meu chocolate quente debaixo do sol, no meu jardim.

Ao que Raymond respondeu:

— Esplêndido.

7h45

Roman Polanski caminha pelo quintal dos fundos de sua casa em Hollywood Hills contemplando a vista vibrante para o centro de Los Angeles que ele oferece para os seus moradores bem-sucedidos. O minúsculo Polanski está com o cabelo de quem acaba de acordar, um robe de seda sobre os ombros, e traz, numa das mãos, uma caneca vazia, e, na outra, uma prensa francesa cheia de café. Enquanto vai andando pela grama molhada do seu quintal dos fundos, seus chinelos de plástico duro produzem sons de estalos batendo em seus calcanhares.

Ele é seguido por um empolgado Dr. Sapirstein, o pequeno Yorkshire terrier de sua esposa, batizado em homenagem ao sinistro pediatra que Ralph Bellamy interpreta no filme de Roman, O Bebê de Rosemary. Mais tarde, naquele ano, quando Sharon estava em Montreal fazendo um filme, Voytek Frykowski, um velho amigo e convidado de Roman em sua casa, mataria acidentalmente Dr. Sapirstein ao passar por cima do cãozinho dando uma ré enquanto manobrava seu carro. Roman estava em seu escritório trabalhando no roteiro de seu próximo filme, O Dia do Golfinho, quando Voytek apareceu em sua porta.

— Roman — disse Voytek, timidamente.

Polanski virou-se em sua cadeira para encarar seu velho amigo. Voytek admitiu:

— Acho que acabo de matar sem querer o cachorro da Sharon.

O rosto de Roman explodiu como o de um ator ruim num filme mudo.

— Você matou o Dr. Saperstein?

Roman saltou da cadeira e correu ao lado do amigo, condoendo-se, em meio a uma crise de pânico:

— Ai, meu Deus, o que foi que você fez?

Quando o diretor chegou à porta da frente, viu o corpinho peludo morto na vaga dos carros na frente de sua casa. Ele levou as mãos à cabeça e ficou andando em círculos, dizendo para Voytek, em polonês:

— Ai, meu Deus, o que foi que você fez? O que foi que você fez?

Voytek estava se sentindo meio mal, mas não esperava que Roman fosse reagir daquela maneira. Em polonês, ele dizia:

— Desculpe, Roman, foi um acidente.

Roman virou-se para encará-lo, gritando em polonês:

— Sabe o que você fez? Você arruinou a porra da minha vida! Ela amava esse cachorro!

— Não se preocupe — prometeu Voytek —, eu vou dizer a ela que a culpa foi minha.

Roman respondeu gritando:

— Não, você não vai dizer nada pra ela! Ela nunca vai perdoar você!

Roman tentou explicar os americanos para o seu amigo polonês:

— Você não está entendendo; ela é americana. Os americanos amam essas merdas desses cachorros mais do que os seus próprios filhos! Seria melhor se você tivesse jogado um bebê escada abaixo!

Sharon nunca ficou sabendo o que realmente aconteceu com o Dr. Sapirstein. Para salvar seu amigo da fúria e do desprezo da texana filha de militar, Roman disse a Sharon que o Dr. Sapirstein tinha fugido e ou acabou se perdendo, ou foi pego por um coiote. Sozinha em seu hotel em Montreal, Sharon chorou a noite inteira.

Mas, no dia de hoje, o Dr. Sapirstein ainda está vivo, e, quando o cachorrinho vem correndo na direção de Roman com uma bolinha vermelha em sua boca, ele quer que o homenzinho brinque com ele. Roman pressiona o êmbolo na prensa francesa e ignora o animal.

Roman está meio de mau humor essa manhã; assim como seu vizinho de porta, Rick Dalton (que ele nunca conheceu), ele também está um pouco de ressaca. Porém, diferentemente de Rick, não é graças a uma noite de bebedeira solitária. Na noite passada, Roman e Sharon, junto com seus amigos Jay Sebring, Michelle Phillips e Cass Elliot, foram a uma festa na Mansão da Playboy de Hugh Hefner. Depois, foram até um lugar por volta das três da manhã para comer uns chili burgers nojentos em meio a uns tipos bem suspeitos de LA (mexicanos em carros pintados em cores extravagantes, vestindo seus uniformes de trabalho, ao lado de membros brancos de gangues de motoqueiros em suas ruidosas motocicletas). Na Europa, teriam encerrado aquela noite com um bom conhaque e charutos cubanos, ou uma visita noturna a uma adega subterrânea, onde beberiam um Bordeaux de vinte anos. Mas esses americanos infantis acham que é muito legal encerrar a noite comendo um hambúrguer gorduroso e bebendo Coca-Cola. E não só isso: Roman também tinha a forte impressão de que ninguém gostava daqueles hambúrgueres ensebados. Ele tem certeza de que Sharon não gostou, muito embora ela jamais vá admitir. Mas, naturalmente, todos se comportaram como se aquela fosse a coisa mais legal do mundo. Sharon até tentou pedir um hambúrguer sem chili, mas Jay não quis nem ouvir. Então, ela cedeu à pressão do grupo, dizendo, “Tá bem, tá bem, tá bem”, e pedindo ao homem do outro lado do balcão, que usava um chapéu de papel, “um chili burger pra mim”. Aquilo caiu em seu estômago como uma bomba, e a faz passar mal durante todo o percurso de volta para sua casa, na Cielo Drive. Roman adorava seus amigos americanos, mas sempre ficava um pouco surpreso com as coisas infantis que lhes davam prazer, ou, nesse caso, que eles fingiam que lhes davam prazer.

E não só isso: ele também teve que aturar aquele cretino do Steve McQueen a maior parte da noite. Roman e McQueen não gostavam um do outro, mas como Steve era um dos amigos mais antigos de Sharon em Los Angeles, eles se toleravam.

Era óbvio que Sharon e McQueen tinham transado no passado. Ele nunca confirmou isso perguntando a ela, mas Roman sabia que McQueen era o tipo de cara que não teria continuado amigo de Sharon se eles não tivessem transado algumas vezes no passado. Normalmente, algo assim não incomodaria Roman. Jay tinha sido noivo de Sharon, eles haviam transado milhares de vezes. E Roman também tinha um passado sexual com mais da metade das mulheres que gravitavam ao seu redor. Mas McQueen parecia fazer questão de enfatizar aquilo pela maneira como sorria para Roman. Toda vez que ele olhava para aqueles olhos azuis e para aquele sorriso sarcástico em sua boquinha, parece que eles estavam dizendo Eu já comi a sua mulher.

Além disso, Roman não gosta da interação física que McQueen tem com Sharon, levantando a loira grandona do chão e girando-a enquanto ela diz “Ieeee!”, como se fosse uma garotinha. Coisas que, pelo seu tamanho, Roman é fisicamente incapaz de fazer. E McQueen sabe disso, e é por isso que ele faz.

Esse cara é um cretino, pensa Roman.

Depois de ser ignorado de propósito pelos últimos vinte segundos, o cãozinho late para chamar a atenção do homem. Cachorro de merda, pensa Roman, eu não posso nem tomar um café em paz que esse tirano vem aqui estragar tudo. Ele arremessa a bola, e o cachorrinho corre atrás dela. Roman não odeia o Dr. Sapirstein como ele odeia o Steve McQueen. Ele só está de mau humor esta manhã. Primeiro, porque está de ressaca, e segundo, porque Sharon o acordou.

Porque, vejam só, Sharon ronca.