Era Uma Vez em Hollywood

Quentin Tarantino · Capítulo 24 de 29

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Era Uma Vez em Hollywood

Capítulo Vinte: Um Hamlet sensual e perverso

Capítulo Vinte

Um Hamlet sensual e perverso

 

Rick Dalton, com o auxílio do seu gravador de fita, estava repassando as falas para a próxima cena quando escuta uma batida na porta do trailer. Ele pressiona o botão de pausa no aparelho e a fita para de rodar.

— Sim? — diz ele para a porta.

— Olá, Sr. Dalton — diz o terceiro assistente de direção. — Quando estiver pronto, o Sam gostaria de trocar uma palavrinha com você no set.

— Já estou saindo — diz Rick.

Rick olha em volta do seu trailer. Puta merda, vou ter que dar uma geral nesse lugar antes de ir embora, pensa ele. E vou ter que pensar numa boa desculpa pra essa janela quebrada. O verdadeiro motivo pelo qual a janela está quebrada é: quando Rick voltou para o trailer após gravar a última cena, estava tão furioso consigo mesmo que arremessou a bota de caubói com tanta força que ela acabou quebrando a janela. E o motivo pelo qual estava tão furioso consigo mesmo era por causa de um momento constrangedor no set, quando errou várias falas em sequência. Atores erram as falas o tempo todo. Mas o motivo que causou tanta angústia a Rick foi como aquilo o fez parecer. Por três horas, na noite anterior, Rick havia trabalhado duro para memorizar tudo. Rick sabia que tinha muitas falas na cena que seria gravada naquele dia. Profissionais decoram tudo, e Rick era um profissional.

Mas profissionais geralmente não bebem oito whiskey sours até desmaiarem e irem parar na cama sem lembrar como. Agora, alguns profissionais da atuação fizeram isso. Porém, ao longo dos anos, eles foram aprendendo a lidar com aquilo. Mas estes atores (Richard Burton e Richard Harris) eram bêbados profissionais. Rick ainda era um amador.

* * *

Uma geração antes de as drogas e a maconha se tornarem a regra entre os membros do Sindicato dos Atores Profissionais, o álcool era o vício da maioria. Muitos tinham começado a beber pelos mesmos motivos que os filhos começaram a usar drogas. Era só uma válvula de escape, até que as coisas saíam do controle. Alguns, no entanto, haviam desenvolvido seu alcoolismo de uma forma mais honesta.

Você deve se lembrar que muitos dos protagonistas masculinos dos anos 1950 serviram na Segunda Guerra Mundial. E muitos dos homens que se tornaram atores no final dos anos 1950 e começo dos 1960 serviram na Guerra da Coreia. E muitos deles viram coisas durante a guerra que jamais conseguiriam esquecer. E como isso era algo que toda a sua geração entendia, seu alcoolismo era tolerado em larga escala.

Tanto o herói da Segunda Guerra Mundial, Neville Brand, quanto o recruta clássico Lee Marvin podiam encher a cara no set de filmagem sem que a seguradora quisesse interromper a produção. Conforme foi ficando mais velho, Marvin aparentemente foi ficando mais e mais atormentado pelos fantasmas dos soldados que havia matado nos campos de batalha. No final do seu faroeste de 1974, Os Três Discípulos da Morte, quando o personagem de Marvin deveria atirar no seu jovem coadjuvante, Gary Grimes (o rapazinho de Houve uma Vez um Verão), aparentemente ou a cara ou a idade (ou ambos) de Grimes o fez lembrar de um jovem soldado que Marvin havia matado durante a guerra. O cara durão, vencedor do Oscar, ficou sentado em seu trailer bebendo até ter coragem suficiente para encarar o que havia feito e o que, agora, fingiria fazer. E basta assistir à cena para saber qual foi o resultado. O resto de Três Discípulos da Morte é OK para um faroeste dos anos 1970. Divertido o bastante para assistir, mas não memorável o suficiente para ficar na mente. Exceto pelo violento tiroteio no final do filme, e a expressão sombria e implacável no rosto de Marvin.

No contrato de George C. Scott havia uma cláusula que estipulava que três dias de produção seriam perdidos por conta do alcoolismo do ator.

Antes de se tornar praticamente um morador de rua nos anos 1970, até mesmo a bebedeira excessiva de Aldo Ray era tolerada até certo ponto pelas produtoras.

Rick Dalton não tinha essas desculpas. Seu alcoolismo era causado por uma combinação de três fatores: autodepreciação, autopiedade e tédio.

* * *

Rick pega o chapéu de Caleb, veste sua jaqueta de franjas de couro cru marrom, e sai do trailer, tomando o cuidado de impedir que o terceiro assistente de direção veja a bagunça que ele havia feito no camarim. Enquanto a equipe corre para lá e para cá, e cavalos estalam seus cascos no chão, Rick é conduzido pela rua principal da cidade cenográfica de Royo del Oro e levado de volta até o quartel-general de Caleb DeCoteau, o saloon Gilded Lily. Quando atravessa as portas de vaivém, Rick vê a equipe ajustando a câmera numa parte do set. Diante das lentes da câmera de 35mm, Sam Wanamaker está de pé, perto de uma linda cadeira de mogno de encosto alto. Seu diretor o convoca com um gesto.

— Ei, Rick, dá um pulinho aqui, quero te mostrar uma coisa.

— Claro, Sam — diz Rick, acelerando o passo em direção ao Sr. Wanamaker.

De pé, atrás da robusta cadeira de madeira, Sam coloca suas mãos no encosto e diz:

— Rick, esta é a cadeira da qual você fará as exigências pelo resgate de Mirabella.

— Muito bom, Sam — fala Rick, de forma arrastada. — Essa cadeira é bonita pra caralho.

— Mas eu não quero que você pense nela como uma cadeira — corrige Sam.

— Você não quer que eu pense nela como uma cadeira? — repete um Rick perplexo.

— Não, eu não quero — diz Sam.

— Então, como você quer que eu pense nela? — questiona Rick.

— Eu quero que você pense nela como um trono. O trono da Dinamarca! — continua ele.

Como não tinha lido Hamlet, Rick não fazia ideia de que Hamlet era dinamarquês, de modo que ele não captou a referência ao “trono da Dinamarca”.

Ele repete, um tanto incrédulo, para o seu diretor:

— Trono da Dinamarca?

— E você é um Hamlet sensual e perverso — diz Sam, gesticulando exageradamente.

Jesus Cristo, lá vem essa merda desse puto desse Hamlet de novo, pensa Rick.

Mas, em vez de dizer isso, ele apenas repete o que Sam disse.

— Um Hamlet sensual e perverso.

Sam lhe aponta firmemente um indicador e diz:

— E-xa-ta-men-te — responde Sam, como quem diz eureca, e então segue com sua própria interpretação shakespeariana. — E a pequena Mirabella será sua Ofélia em miniatura!

Rick não tem muita ideia de quem seja Ofélia, mas ele parte do princípio de que ela seja um personagem de Hamlet, de modo que ele simplesmente faz que sim enquanto Sam continua a tecer seus paralelos com Shakespeare.

— Caleb, Hamlet. Ambos no controle. Ambos com o poder.

— Ambos com o poder — repete Rick.

— Ambos furiosos — diz Sam.

— Ambos furiosos? — pergunta Rick.

Sam faz que sim.

— No caso de Hamlet, pelo fato de o tio ter assassinado seu pai — explica ele, e faz um adendo: — Tio esse que também está comendo a sua mãe.

— Na verdade, disso eu não sabia — murmura baixinho Rick.

— E, no caso de Caleb, sífilis — diz Sam.

— Sífilis? — fala Rick, surpreso. — Eu tenho sífilis? Eu sou louco?

Sam balança a cabeça em resposta afirmativa a cada uma das perguntas.

— Olha, Sam, eu te disse que não li muito Shakespeare — aponta Rick.

Desconsiderando aquilo com um gesto, Sam garante a Rick que:

— Isso não importa. Tudo o que você tem de fazer é ocupar esse trono.

— Ocupar esse trono? — repete Rick.

— Você tem que reinar sobre a Dinamarca — declara Sam.

Acho que o Hamlet é dinamarquês, pensa Rick.

E Sam finaliza sua analogia com o príncipe da Dinamarca:

— E o seu reinado precisa ser violento, cruel, você precisa reinar como um Marquês de Sade em versão caubói, mas você precisa reinar!

Marquês de Sade? Quem é esse?, pergunta-se Rick, outro personagem de Hamlet?

Sam continua declamando seu discurso motivacional.

— Mirabella é a coisa mais preciosa do mundo para os homens da família Lancer.

— Ela é uma menina linda — interrompe Rick.

— Ela é a pureza personificada — retruca Sam. — E estes homens duros, que tiveram vidas duras, idolatram essa menininha. E agora, aconteceu a pior coisa que poderia ter acontecido. Você, um patife sem escrúpulos, roubou a joia mais preciosa e reluzente de suas vidas! E, agora, você precisa fazer com que eles acreditem, sem nenhuma sombra de dúvida, que você a matará assim — Sam estala os dedos, e Rick estala os dele em resposta —, a menos que eles dancem ao som da sua música. Sacou? — pergunta o diretor ao seu ator.

— Saquei! — responde Rick.

Então, com um último gesto teatral, Sam aponta para a cadeira de madeira.

— Caleb, assuma o trono da Dinamarca!

Rick passa andando pelo seu diretor, senta-se na cadeira e, uma vez sentado, endireita a coluna e faz o melhor que pode para imitar a postura de um rei em seu trono.

O rosto de Sam se ilumina, enquanto ele declara para o set e a equipe:

— Contemplem o príncipe Hamlet!

Rick não entende três quartos do que Sam acabou de dizer, mas fica feliz com o seu entusiasmo. E, aparentemente, Sam havia esquecido dos erros de Rick com suas falas anteriormente. O diretor lhe dá as costas para lidar com sua equipe, enquanto Rick fica sentado em seu trono, repassa suas falas em sua cabeça, e tenta pensar em si mesmo como o príncipe da Dinamarca.

* * *

A atriz de oito anos de idade que interpreta Mirabella entra no saloon, comendo um bagel de cebola carregado de cream cheese branco e fofinho, que se espalha pelo seu rosto toda a vez que ela dá uma mordida.

— Pensei que você tinha me dito que não comia no set — diz Rick.

— Eu disse que eu não almoço se tiver que gravar uma cena logo depois, porque me deixa lenta — corrige ela —, mas, por volta das três, quatro horas, tenho que comer alguma coisa, senão fico sem energia.

— Bom, você não vai sentar no meu colo até terminar de comer essa monstruosidade e limpar os dedos — diz Rick. — Eu não quero essa merda branca aí sujando minha peruca.

— Você só está com inveja porque não pode dar uma mordida — provoca a menina.

— Nem me fala — diz ele. — Eu não pude comer nada a porra do dia inteiro por causa dessa maquiagem de Leão Covarde na minha cara. Cada mordida que eu dei naquela coxa de galinha durante a cena veio cheia de cabelo.

Aquilo faz a garotinha rir.

— Mas eu tenho que admitir: essa ideia de não almoçar, especialmente quando você tem uma cena em que tem que comer depois, acabou sendo uma excelente escolha.

— Viu? Eu disse.

O assistente de direção, Norman, vem até os dois atores e instrui Mirabella a se sentar no colo de Rick. Ela dispensa o bagel e começa a subir nele. Então, as cabeleireiras e figurinistas vêm e começam a arrumar e ajustar os atores, preparando-os para a sua cena. Depois que as cientistas da beleza concluem seus preparativos e saem de cena, os dois atores ficam esperando que Sam termine de falar com a equipe e lhes dê a sua deixa para dar início à cena. Entretanto, há um problema com a claridade intensa do dia, que está entrando pela enorme janela panorâmica do saloon. O diretor então suspende as gravações enquanto um dos contrarregras usa uma fita crepe para diminuir a incidência do sol da tarde.

Sentada no colo de Rick, esperando para interpretar sua primeira cena juntos, a garotinha pergunta ao companheiro de cena:

— Caleb… posso te fazer uma pergunta?

— Manda bala — responde ele.

— Se Murdock Lancer não pagar o resgate, ou se alguma coisa acontecer com o dinheiro — pergunta ela —, você realmente me mataria?

— Mas ele vai entregar o dinheiro — diz Rick, falando apenas a verdade.

— Ai, meu Deus — diz ela, revirando seus olhos, exasperada. — Eu não estou falando com o Rick, que leu o roteiro. Estou falando com o Caleb, que não sabe o que vai acontecer até que aconteça. Então, de novo, Caleb, se Murdock Lancer não pagar o resgate, você me mataria?

— Com certeza — responde Rick imediatamente.

Ela fica um pouco surpresa com a ausência de hesitação em sua resposta.

— Sério? Com certeza? Sem questionar nem hesitar?

— De forma alguma — responde ele. — É uma coisa que eu faço quando interpreto um vilão. Eu os faço como se fossem uns caras realmente maus, sem conversinha fiada. Tipo, quando eu fiz aquela merda daquele Tarzan com o Ron Ely. O seriado era uma merda, mas o cara que eu interpretei era um baita filho da puta. Eu era um caçador ilegal. Você sabe o que é um caçador ilegal? — pergunta ele à criança.

Ela sacode a cabeça pra dizer que não.

— É um cara que mata animais selvagens que não deveria — explica ele. — Então, eu entrei no programa carregando um lança-chamas, botando fogo na selva para levar os animais para uma área onde eu pudesse matá-los. Como eu disse, o programa era uma merda, mas eu curti fazer aquele filho da puta. Mesma coisa aqui. Eu estou comprometido com a crueldade de Caleb. Acho que é uma excelente escolha.

Enquanto ouvia sua explicação, ela fazia que sim; então, quando ele termina, ela oferece a sua interpretação.

— Bom, naturalmente, eu entendo o que você está dizendo. Quer dizer, você é o vilão da história; então, seu personagem tem determinadas preocupações dramáticas que o meu não tem. Mas, deixando de lado o rótulo de “vilão” — diz a menina, fazendo no ar as aspas de “vilão” —, você ainda é um personagem, e personagens podem ser afetados por uma enorme variedade de coisas que podem levá-los a agir fora do personagem.

Esta é uma linha de raciocínio muito interessante, pensa Rick, e inclina a parte de cima do corpo para mais perto dela, para demonstrar que está dando toda a sua atenção.

Ela dá um exemplo do que está querendo dizer:

— Quer dizer, do jeito que você fala na nossa cena principal de amanhã, parece que você meio que gosta de mim. Mas não nessa cena — esclarece ela, rapidamente. — Nessa cena você nem me conhece ainda. Eu ainda sou apenas a filhinha de Murdock Lancer. Mas, na nossa última cena, a principal, nós já nos conhecemos melhor.

— Tem razão — explica ele —, nós passamos alguns dias e noites juntos, cavalgando em direção ao México.

— Exatamente o que eu estou dizendo — insiste a garotinha. — E… aparentemente… você gosta de mim?

— Aparentemente.

Ela fixa seu olhar nele e, no momento em que Trudi faz isso, ouve-se um clique muito nítido no ar. Talvez tenha sido só um dos figurantes de pirata terrestre brincando com o gatilho de sua pistola, mas o timing foi perfeito.

— O que você gosta em mim? — pergunta ela.

Ele fica irritado ao se sentir forçado a dar uma resposta inteligente, e diz:

— Ah, eu não sei, Tru…

Ela o interrompe antes que ele possa dizer seu verdadeiro nome.

— Mirabella!

Rick se corrige e repete em tom penitente:

— Ah, eu não sei, Mirabella.

— Não, isso não é resposta, cara. Você sabe, sim. Se o Caleb gosta de mim, ele sabe o porquê. E você deveria saber o motivo.

— Ele gosta…

— Você gosta — interrompe ela.

Ele revira os olhos, mas segue as regras do jogo que ela decidiu que será jogado.

— Perdão — corrige-se. — Eu gosto do fato de que eu não preciso tratá-la como uma criança.

— Olha só, que excelente escolha — diz ela, dando um miniaplauso. — Gostei dessa resposta.

Ele dá um sorrisinho irônico.

— Aposto que sim.

Apontando seu dedo para dar ênfase às suas palavras, ela diz:

— Então, voltando à minha pergunta original: você me mataria… mas não quer fazer isso?

— Não.

— Não o quê? — provoca ela.

Ele desiste, e diz a ela o que ela quer ouvir, falando lentamente:

— Não, eu não quero matar você…

Então, ela retruca rapidamente:

— Mas mesmo assim vai matar?

— Sim, vou — responde ele, convicto.

Ela para por um instante e então pergunta, com as sobrancelhas arqueadas:

— Tem certeza?

Sua pergunta o faz piscar.

— Sim… tenho bastante certeza.

O rosto dela se ilumina.

— Ah, então você tem bastante certeza agora. Ou seja, talvez você não o faça?

— Talvez — confessa ele.

Então, numa vozinha de quem conta um segredo, ela pergunta:

— Você quer saber o que eu acho que vai acontecer?

Com um tom um tanto cômico, ele responde:

— Bom, eu sei que você quer me dizer; então, por que não me diz?

Ela continua a falar na sua vozinha de segredo, e se enreda na própria rede que está tecendo.

— Bom, eu acho que você acha que consegue me matar. E diz pros outros piratas que você é capaz disso. E diz a si mesmo que é capaz disso. Mas, quando chegar a hora e você tiver de fazer a coisa que disse que faria, ou seja, me matar... Você não vai conseguir.

— Muito bem, espertinha — diz ele —, e por quê?

— Porque — diz ela — você percebe que se apaixonou por mim. E você me pega em seus braços e me leva até o seu cavalo. E então nós dois cavalgamos rápido como a Pony Express até o padre mais próximo. E, sob a mira de sua arma, você o obriga a nos casar.

Aquilo provoca um sorriso em Rick, mas um sorriso debochado.

— Ah, é mesmo?

— Com certeza.

— Eu não vou me casar com você — diz ele, desdenhosamente.

— Você não vai se casar comigo, ou Caleb não vai se casar comigo?

— Nenhum de nós dois vai se casar com você.

— Por quê?

— Você sabe o porquê, você é muito jovem.

— Bom, nos dias de hoje, sim, eu sou muito jovem. Mas nós estamos nos tempos do Velho Oeste. Os homens se casavam com crianças o tempo todo naquela época — explica ela, corretamente. — Quer dizer, naquela época não era nada de mais casar-se com uma menina de 13 anos de idade.

— Você não tem 13 anos, você tem 8 — esclarece ele.

— E o que significa para Caleb DeCoteau? — pergunta ela, incrédula. E o relembra: — Cinco minutos atrás, você falou sobre como me mataria assim.

Ela estala seus dedos para enfatizar a palavra “assim”.

— Você disse para o Scott que me jogaria num poço. Ou seja, matar uma criança de 8 anos de idade tudo bem, mas casar com ela? Esse é o limite de Caleb DeCoteau?

Rick fica um pouco sem saber como responder. Ela percebe isso e dá um sorriso sarcástico, dizendo a ele:

— Acho que você não pensou muito sobre isso.

— É claro que eu não pensei muito sobre isso — retruca ele, na defensiva. — Essa ideia furada veio da sua cabecinha.

— Não é uma ideia furada. Talvez seja provocativa, mas não é furada.

Rick fica irritado, e começa a dizer a ela o quanto aquela conversa o está deixando incomodado.

— Trudi, eu não estou gostando…

Mas ela o interrompe antes que ele pudesse terminar.

— Meu bom Jesus, Rick, nós não vamos fazer isso! É só um exercício básico de consciência de personagem. Eles fazem isso o tempo todo no Actors Studio. O roteiro é o roteiro. E nós vamos fazer o que está no roteiro. No roteiro, Lancer paga o resgate. Então, você não precisa fazer essa escolha. No roteiro, Johnny mata você; então, nada disso que estou falando jamais acontecerá. Mas, no Actors Studio, eles fazem a pergunta: e se o roteiro não dissesse isso? O que o seu personagem faria? Que escolhas ele faria? É apenas para entender quem é o seu personagem quando suas ações não são ditadas pelo roteiro.

— Bom, talvez, e isso é apenas uma possibilidade, eu não queira me casar — retruca ele.

— Bom, está vendo? — diz ela, gesticulando — Isso é uma escolha.

E investigando mais a fundo:

— Então, não é uma questão de idade. E não quer dizer que você não me ame…

— Eu nunca disse que eu te amo — interrompe ele.

Ela desconsidera essa última afirmação.

— Não seja ridículo; é claro que você me ama. Então, não é por causa da minha idade, e não é porque você não me ama, é só que Caleb não é o tipo de cara que quer se casar, certo?

Ele dá de ombros.

— É, acho que sim.

— Então, vamos apenas ter um caso?

— Não foi isso o que eu disse.

— Bom, essa é a conclusão lógica — afirma ela. — Se nós estamos juntos, estamos apaixonados, mas não estamos casados; então, estamos tendo um caso. Eu posso fazer isso.

Em seguida, ela explica:

— Por algum tempo. Mas, em algum momento, eu te obrigaria a se casar comigo.

Incrédulo, ele repete:

— Você me obrigaria?

— Sim — explica ela —, seria uma parte importante de nossa dinâmica.

— O que seria uma parte importante?

— O fato de você ser o chefe, de comandar o bando. Eles fazem tudo o que você manda, sem questionar. Por outro lado, quando não tem ninguém por perto, o chefe sou eu! E você faz tudo o que eu mando.

Puta que me pariu, não tô acreditando nessa fedelha, pensa Rick.

— Ah, eu faço, é?

— Sim, você faz.

— E por que eu faço tudo o que você manda?

— Por causa de um poder que eu exerço sobre você. Se eu não tivesse esse poder, você teria me jogado naquele poço, como disse que faria. Mas tudo bem, porque você gosta do poder que eu exerço sobre você. Quer dizer, eu sou o chefe, mas eu sou um chefe bonzinho, e eu nunca usaria o meu poder de uma forma negativa contra você. Porque eu te amo. Não tanto quanto você me ama. Mas, ainda assim, amo.

— OK, mas e se eu não fizer?

— Se você não fizer o quê?

Pondo sua teoria em xeque:

— E se eu não fizer o que você me diz para fazer?

— Escute, lembre-se que eu jamais revelaria o poder que exerço sobre você na frente do bando ou de qualquer outra pessoa, pra falar a verdade. Pro resto do mundo, quem manda é você.

— OK, isso eu entendi — diz ele. — Mas você disse que eu faria tudo que você mandasse, certo?

— Sim. Como um cachorro. É tipo um comando. E você tem que obedecer.

— Sério? — diz ele, com um sorriso irônico. — E se eu não obedecer?

— Mas você obedece.

— Mas olha só quem está se prendendo ao texto agora — provoca ele. — Você não queria brincar de e se? E se eu não obedecer?

— Bem… — diz ela, e pensa sobre aquilo por um instante. — Pela lógica, haveria alguns momentos — no começo — em que você não me obedeceria. E aí eu teria de castigá-lo.

— Você me castigaria? — pergunta ele.

Ela faz que sim, e então conclui:

— E, depois que eu terminasse de castigá-lo, você nunca mais deixaria de fazer o que eu mandar.

E é nesse momento, quando Rick está tentando pensar em alguma coisa para dizer, que Sam Wanamaker grita para os seus atores:

— Ação!

E Caleb e Mirabella interpretam a sua cena.