Era Uma Vez em Hollywood

Quentin Tarantino · Capítulo 28 de 29

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Era Uma Vez em Hollywood

Capítulo Vinte e Quatro: Nebraska Jim

Capítulo Vinte e Quatro

 

Nebraska Jim

 

Após deixar o seu adieu para Jim Stacy e para os habitués do Hall da Fama dos Bebuns, Cliff deixou Rick em sua casa por volta das dez e meia aquela noite. Haveria tempo o suficiente para que Rick decorasse as falas para o trabalho do dia seguinte e fosse se deitar por volta da meia-noite, meia-noite e meia. Assim que Rick passa pela porta, como é um costume de todo ator desse mundo, ele confere seus recados na secretária eletrônica para descobrir se recebeu algum importante. E, é claro, há um do agente Marvin Schwarz.

Uau, que rápido, pensa Rick.

Então, ele disca rapidamente o número que o agente lhe deixou, e Marvin atende o telefone no terceiro toque.

Marvin Schwarz atende:

— Marvin Schwarz.

— Olá, Sr. Schwarz — diz Rick para o telefone —, aqui é Rick Dalton.

— Rick, meu garoto — responde de modo sociável o agente —, que bom que você ligou. Tenho duas palavras para você: Nebraska Jim – Sergio Corbucci.

— Nebraska o quê? Sergio de quê? — pergunta Rick.

— Sergio Corbucci — repete Marvin.

— E quem é esse?

— O segundo melhor diretor de spaghetti westerns do mundo. Ele está fazendo um novo faroeste. Chama-se Nebraska Jim. E, graças a mim, ele está pensando em você.

— Nebraska Jim. E eu sou o Nebraska Jim?

— Sim, você é.

— Então, ele está me oferecendo esse papel?

— Não, não está.

— Então eu não consegui?

— O que você conseguiu foi um jantar. Ele acaba de se encontrar com três jovens atores. Graças a mim, ele agora vai se encontrar com o quarto. Você, sem ser essa quinta-feira, a outra, Sergio e a esposa dele, no Nori, o restaurante japonês favorito dele em Los Angeles.

— Quem são os outros três? — pergunta Rick.

Marvin abre o bico:

— Robert Fuller, Gary Lockwood, Ricky Nelson e Ty Hardin.

— Então, são quatro — observa Rick.

— Ah, tem razão — concorda Marvin. — Desculpe por isso, você é o quinto.

— Ricky Nelson? — pergunta Rick, incrédulo. — Ele está considerando a porra do Ricky Nelson?

— Ah, meu querido, Ricky Nelson foi um dos astros de Onde Começa o Inferno. E esse filme é muito melhor do que todos os que você fez.

— Olha, Sr. Sch-Sch-Schwarz — gagueja Rick —, isso é ótimo. Mas posso ser sincero com o senhor?

— Sempre — diz Marvin.

— Sobre spaghetti western — começa Rick.

— Sim?

— Eu não gosto deles.

— Você não gosta deles?

— Não, não gosto. Na verdade, eu acho eles horríveis.

— Horríveis?

— Sim.

— Quantos você já viu?

— Alguns.

— Então, essa é a sua opinião de especialista?

— Olha, Sr. Schwarz, eu me criei assistindo ao Hopalong Cassidy e ao Hoot Gibson. Essas merdas de caubói italiano não são muito a minha praia.

— Porque eles são horríveis? — reforça o agente.

— Exato.

— Em contraste com o trabalho memorável, de alta qualidade, de Hopalong Cassidy e Hoot Gibson?

— Poxa, você entendeu o que eu quis dizer.

— Olha, Rick — diz o agente —, eu não quero bancar o insensível aqui, mas o seu histórico no cinema não é tão fantástico que você possa se dar o luxo de ficar esnobando qualquer filme em que estejam considerando você como protagonista.

— Eu reconheço isso, Sr. Schwarz — admite Rick. — Mas, em vez de ir correndo para Roma, talvez seja mais inteligente da minha parte ficar por aqui e tentar uma tacada certeira nos pilotos da próxima temporada. Quer dizer, alguém vai se dar bem; pode ser que seja eu.

— Olha, garoto — diz Marvin —, deixa eu te contar uma história que aconteceu com um cliente meu. Antes de começar a mandar caubóis pra cavalgar pelos sets da Cinecittà, a gente costumava mandar os caras pra Berlim. Antes da porra dos italianos terem a brilhante ideia de fazer faroestes, os alemães fizeram isso. Existe um escritor alemão chamado Karl May, e ele escreveu uma série de livros que se passam no noroeste americano durante a época dos pioneiros. Agora, o fato de Karl May nunca ter pisado nos Estados Unidos não impediu que estes livros se tornassem muito populares entre o público alemão.

“Os livros narram as aventuras de dois homens. Um deles era um chefe apache chamado Winnetou. E o outro, seu amigo fiel, um montanhista branco chamado Old Shatterhand. Então, nos anos 1950, uma produtora alemã começou a fazer filmes baseados nesses livros. Eles escalaram um ator francês chamado Pierre Brice para interpretar o índio. Mas eu consegui convencê-los a escalarem meu cliente, o americano Lex Barker, para interpretar o Old Shatterhand. Mas, antes de ir para a Alemanha, o Lex tinha feito alguns filmes nos Estados Unidos. Ele chegou a interpretar o Tarzan, e um Tarzan bom pra caralho, se você quer saber. Mas ele era casado com a Lana Turner. Então, não importava o que ele fizesse, ele continuava sendo o marido da Lana Turner.

“Então eu o coloquei no filme alemão. E ele não quis ir. Um faroeste alemão? Que porra é essa? Um faroeste alemão com um índio francês?

“Ele disse: ‘Marvin, que porra você está querendo fazer comigo? Precisa existir um limite pras coisas que um ator pode fazer por dinheiro.’ Então eu disse a ele, assim como estou dizendo a você: ‘Puta que o pariu, mas qual é o seu problema?

“Em primeiro lugar, as pessoas não estão exatamente fazendo fila para te convidar para estrelar seus filmes nos Estados Unidos.

“Em segundo lugar, você não está se alistando na porra do Exército. Você está indo para a Alemanha, fazer um filme, por umas cinco, seis semanas, ganhar uma boa grana, e voltar pra casa. É uma tremenda barbada. Jogo rápido.’

“Então, eu o convenci a ir. E o resto, como eles dizem, é história do cinema alemão.

“O filme foi um sucesso estrondoso! E não só na Alemanha, como em toda a Europa. Lex acabou interpretando o Old Shatterhand seis vezes! Ele se tornou um dos atores mais populares da história do cinema alemão! Mas seus filmes foram exibidos por toda a Europa. Ele ficou tão popular na Itália que o Fellini o escalou para fazer La Dolce Vita. E você sabe que papel ele fez? De Lex Barker! Pra você ver o tamanho do astro que ele é.

“Depois de seis filmes, ele se aposentou do papel. Eles o substituíram por grandes astros americanos, como o Stewart Granger e o Rod Cameron. Mas eles não os chamaram de Old Shatterhand. Eles os chamaram de coisas como Old Skatterhand, e Old Surehand, e Old Firehand. Sabe por quê? Porque todo mundo na Alemanha conhece o Lex Barker e só o Lex Barker é o Old Shatterhand!”

Nesse ponto, o agente resolve abrir o jogo:

— Olha, querido, você me perguntou se podia ser sincero comigo. Pois agora eu vou ser sincero com você. Você tentou fazer a transição da TV para o cinema, e não deu certo. Bom, raramente dá, então, bem-vindo ao clube. Sim, deu certo para o McQueen e para o Jim Garner e para o mais inacreditável de todos, o Clint Eastwood. Mas caras como você, Edd Byrnes, Vince Edward e George Maharis, que passaram suas carreiras tirando um pente do bolso pra alisar o topete, vocês estão todos no mesmo barco agora.

“Vocês se distraíram por um segundo, e a cultura mudou.

“Hoje em dia, para ser um astro do cinema, você tem que ser um hippie que é filho de alguém. Peter Fonda, Michael Douglas, o filho do Don Siegel, Kristoffer Tabori, a porra do Arlo Guthrie! Uns sujeitos andróginos e cabeludos; esses são os protagonistas hoje em dia.”

Marvin faz uma pausa para criar um clima, e então diz:

— Você ainda usa a porra dum topete. Nem a porra do Elvis usa topete hoje em dia! Nem a porra do Ricky Nelson usa a porra de um topete hoje em dia! A porra do Edd “Kookie” Byrnes está na TV fazendo comercial de laquê dizendo: “Morte ao cabelo molhado, vida longa ao cabelo seco.” A porra do Kookie! Mas você não, Rick, você continua usando essa merda desse topete!

Rick conta a ele, empolgado:

— Bom, sabe esse troço que eu filmei hoje? Eu não estava de topete.

— Porra, já não era sem tempo! — diz Marvin. — Sendo sincero, se você me perguntasse eu diria que você deveria ter começado a usar laquê e chapinha há muitos anos.

Então, Marvin muda de assunto.

— Mas isso não importa. O que importa é: na Itália você pode fazer o que você quiser. Se você quiser se tornar um cara todo extravagante como o Tony Curtis: divirta-se. Se quiser usar o seu cabelo do mesmo jeito que usou pelos últimos vinte anos, tudo bem também, porra. Os italianos estão pouco se fodendo. Você sabe toda essa merda hippie que você vê aí em todos os cantos da cidade, em todos os cantos do país? A mesma merda aconteceu em Roma. A diferença? Bem, a diferença é que italianos acabaram com essa palhaçada. Consequentemente, a cultura jovem não dominou a cultura popular do mesmo jeito que esses viados desses hippies fizeram por aqui.

— Esses viados desses hippies — repete Rick, rancoroso, numa voz baixa.

Então, o grande Marvin Schwarz prepara o seu encerramento:

— Então, Rick, eis a pergunta de 64 mil dólares. Onde você quer estar daqui a um ano? Em Burbank, apanhando daquele crioulo do Mod Squad? Ou em Roma… estrelando faroestes?