Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Vinte e Cinco: O último capítulo
Capítulo Vinte e Cinco
O último capítulo
Roman e Sharon Polanski estão em seu Roadster conversível inglês, descendo a Sunset Strip a toda velocidade. Sharon detesta esse carro.
Ela detesta o quanto ele é velho.
Ela detesta os barulhos que ele faz quando Roman troca as marchas.
Ela detesta a recepção de merda do seu rádio.
Mas, mais do que tudo, ela detesta o fato de ele ser um conversível, e Roman sempre insistir para dirigi-lo com a capota abaixada.
Roman havia brincado com Warren Beatty, ao dizer que “A vida é muito curta pra não dirigir um conversível”.
Para ele é fácil falar, com aquele cabelinho de pajem que ele usa. Mas Sharon se esforçava muito para arrumar o seu cabelo. E, depois que ele ficava lindo e deslumbrante, ela precisava escondê-lo debaixo de um lenço?
Aquilo era um crime contra a beleza.
O casal de Hollywood havia concluído sua participação no programa de TV de Hugh Hefner, Playboy After Dark. Eram dez da noite quando eles saíram do prédio Sunset 9000, onde o programa é gravado, e passaram voando pelo Ben Frank’s Coffee Shop e pelo Tiffay Theater, que anuncia o filme Lonesome Cowboys, de Andy Warhol, em sua marquise.
Roman sabe que não deveria ter combinado um outro evento no dia seguinte à festa na Mansão da Playboy, e percebe a hostilidade no silêncio dela. Ele sabe muito bem que ela planejava passar a noite em casa, lendo na cama. E também está ciente de que para ela é muito mais trabalhoso se embonecar toda para essas aparições televisivas do que para ele.
Mesmo assim, ela se embonecou toda, saiu de casa, e aturou tudo aquilo por ele.
Mas, naquele momento: clima de ressentimento de guerra fria. A presença de Sharon era tão solar que, sempre que ela bloqueava esse sol, o efeito causava arrepios.
Na 93 KHJ, a voz do disc jockey da noite, Humble Harve, ficava entrando e saindo de sintonia, bem como uma música ridícula da Diana Ross com as Supremes: “No matter what sign you are, you’re gonna be mine, you are”. Era chegada a hora de Roman demonstrar remorso e gratidão, e fazer um afago em sua ursa loira.
— Olha, querida, eu sei que você não queria fazer isso essa noite...
Dá pra ver o telhado vermelho do Dr. Wienerschnitzel, na Larrabee, pelo para-brisa do carro, quando Sharon vira-se para ele e faz que sim com a cabeça.
— E eu sei que você está chateada porque eu não te consultei, e isso foi muito indelicado.
Mais uma vez, ela demonstra sua concordância balançando sua cabeça.
— E eu sei que você está levando tudo isso numa boa mesmo assim.
Na verdade, Sharon tinha passado a tarde reclamando para Jay, mas Roman não sabia disso.
Finalmente, a esfinge loira se manifesta:
— É, tudo isso é verdade.
— Você está sendo um anjo, e eu te amo por isso.
Ah, então é por isso que você me ama?, pensa ela, revirando os olhos.
A virada de olhos diz a ele que provavelmente aquela não foi a melhor coisa que ele poderia ter dito.
Quando estão passando pela London Fog de um dos lados da Strip, e pelo Whisky a Go Go do outro, Roman tenta negociar com ela.
— Então, saiba que eu estou ciente de que te devo uma.
Rapidamente, ela lhe responde com uma pergunta.
— Me deve o quê?
— Eu quis dizer que eu te devo por você ter feito isso.
— Eu sei. E eu concordo. Mas o que você pretende me dar em troca?
Roman não tinha, sinceramente, levado sua declaração tão a sério quanto Sharon aparentemente tinha, de modo que ele ficou um pouco desnorteado.
— Bom, quer dizer, eu acho que…
Roman pensa rápido.
— Você pode, de repente, me obrigar a fazer alguma coisa que eu não queira fazer.
Sim, é isso mesmo, pensa ela. Isso seria uma compensação à altura.
Dando a ela um exemplo do que poderia ser, ele diz:
— Quer dizer, se você de repente encontrar alguma causa social que realmente queira…
Ela o interrompe com três palavras:
— Festa. Na. Piscina.
— O quê?
— Festa. Na. Piscina.
— Festa na piscina? Claro. Quando?
— Esta noite.
— Esta noite?
— Isso, esta noite.
— Ah, querida, estou muito cansado. Eu viajo pra Londres amanhã. Eu estava louco pra chegar em casa e…
— Blá-blá-blá! Foi isso o que te eu disse ontem à noite quando você nos comprometeu com essa merda hoje. Mas onde eu estou? Eu estou bem aqui. Toda arrumada, interpretando meu papel de “gatinha sensual” para o Hugh Hefner, para as câmeras de TV, e para um bando de lunáticos de Hollywood.
Em seguida ela diz, em tom acusatório:
— Você sabia que eu estou lendo um livro neste exato momento?
Ele faz que sim com a cabeça.
— Você sabia que eu queria estar na minha cama neste exato momento?
Ele faz que sim com a cabeça.
— Você sabia que eu não gosto de me embonecar duas noites seguidas se eu não preciso?
Ele faz que sim com a cabeça.
— Mas eu fiz isso, não fiz?
Roman solta um gemido.
— Não geme pra mim, seu bobo — repreende ela.
Roman tenta se esquivar.
— Mas você acabou de arrumar seu cabelo.
Boa tentativa, amigo, pensa Sharon.
— Tem algum motivo pelo qual eu deva manter o meu penteado de Playboy After Dark até amanhã?
— Não — diz ele, e dá de ombros, derrotado.
— Nenhum compromisso que eu não saiba? Nenhuma aparição ao vivo?
— Não.
— Vou poder ler o meu livro?
— Sim — responde ele em meio a um suspiro
— Beleza, então: uma festa na piscina hoje à noite e sua dívida estará paga integralmente — retruca ela, e então, para dar impacto, acrescenta: — se é que isso significa alguma coisa pra você.
— OK — diz Roman, soltando o ar e reconhecendo sua derrota.
— OK, agora diga isso com um sorriso no rosto.
Ele sorri e diz:
— Podemos dar uma festa na piscina.
Então, ela exige:
— Agora me pede.
Isso o faz revirar seus olhos.
— Sério? Você quer que eu chegue a esse ponto?
— Pede — insiste ela.
Roman engole sua irritação, faz uma cara simpática, e dá a Sharon o que ela quer:
— Sharon, vamos dar uma festa na piscina esta noite?
Sharon solta um gritinho, bate palmas, e diz:
— Roman, que ideia fantástica!
Então ela se inclina para beijá-lo e diz:
— Vamos para casa. Preciso fazer umas ligações.
* * *
Rick percebe uma fila constante de carros chegando à residência dos Polanski. Eles devem estar dando uma festa, ele pensa. Rick Dalton está na frente de casa, vestindo o quimono de seda vermelho que comprou numa de suas viagens ao Japão, molhando as rosas em seu jardim com uma mangueira enquanto repassa as falas do dia seguinte com a ajuda do gravador. Um jardineiro japonês lhe disse uma vez para sempre molhar as roseiras à noite para que elas possam se hidratar de forma abundante, sem o sol evaporando grande parte da água. Ele está repassando os diálogos da cena que tem com a garotinha terrível amanhã. Não existe a menor chance de ele permitir que aquele monstrinho o pegue desprevenido.
Cliff o havia deixado em casa, depois daquele bar em San Gabriel, por volta das dez e meia.
Ele conversou com Marvin Schwarz no telefone por cerca de vinte minutos. Preparou uma caneca de cerveja de whiskey sour e começou a estudar suas falas. Ele já as está repassando há cerca de uma hora (são cinco para a meia-noite), e está bastante confiante de tê-las memorizado. Antes de cair na tentação de preparar mais uma caneca de whiskey sour, Rick pretende ir para a cama.
Ele consegue ouvir os ruídos da festa dos Polanski ecoarem até a sua casa. Ele escuta a música, as risadas, as frivolidades, o barulho esporádico das pessoas pulando na piscina. O ator ainda não conheceu nem o diretor, nem sua esposa. A primeira vez que os vira tinha sido na tarde do dia anterior. O cara parece ser um babaca, mas ela parece ser legal. Quem sabe um dia ele não a pega indo buscar sua correspondência?
Um Porsche conversível sobe a Cielo Drive a toda velocidade, e para na frente do portão da residência dos Polanski. Rick lança um olhar irritado para o carro, mas para repentinamente ao identificar seu motorista. Puta que me pariu, é o Steve McQueen!
— Steve! — chama Rick.
O homem por trás do volante do Porsche olha na direção do som do seu nome e vê um cara vestindo um quimono vermelho de seda japonês, segurando uma caneca de cerveja, um gravador, e uma mangueira. Ele estreita seus olhos, e então reconhece o homem de quimono. E responde, um tanto quanto hesitante:
— Rick?
Dalton vem andando até o carro.
— E aí, cara, há quanto tempo!
— Pois é, tem razão. Como você está?
Dalton se inclina e aperta a mão de McQueen.
— Ah, eu não tenho do que reclamar.
Na verdade, Rick só tem do que reclamar sobre sua carreira, sua vida, e sobre o mundo, mas ele não vai dizer isso a Steve.
O astro do cinema olha para a casa.
— Sua casa é aquela?
— Aham — responde Rick, sorrindo. — É a casa que Lei da Recompensa construiu.
McQueen ergue as sobrancelhas.
— Você construiu?
— Não — diz Dalton —, é só uma expressão. Seu idiota.
Steve dá um de seus tradicionais sorrisinhos com aquela sua boca que era um risquinho.
— Bem, que bom pra você. Você soube usar o seu dinheiro. Ouvi dizer que o Will Hutchins e o Ty Hardin estão totalmente quebrados.
Em outras palavras, pensa Rick, você está melhor do que todos esses outros fracassados. Você tem uma casa, diz o Bullitt.
— Bom, eu não estou estrelando O Canhoneiro de Yang-Tsé — diz Dalton, citando a única indicação de McQueen para o Oscar —, mas estou conseguindo me sustentar.
— Bom, isso te coloca na frente de oitenta por cento dos caras — fala McQueen, dando um sorriso e apontando um dedo.
O astro de cinema mais bem pago do mundo está me dando os parabéns por eu estar conseguindo me sustentar como ator. Valeu mesmo.
— Por sinal, eu torci por você naquela sua indicação para o Oscar — comenta Dalton, referindo-se novamente a O Canhoneiro de Yang-Tsé.
McQueen não diz nada; apenas sorri.
Rick sabe o que aquilo significa. Aquela conversinha tinha chegado ao fim.
Mas antes que o portão se abra e McQueen e seu Porsche sumam em alta velocidade de sua vida, Rick quer se conectar a ele. Não nas duas realidades distintas em que eles agora existem. Mas, no passado, quando os dois moravam no mesmo lugar, houve um episódio do qual ambos participaram que Rick poderia citar sem parecer muito patético.
— Ei, Steve, eu estava pensando — disse Rick —, você se lembra daquela vez, durante a primeira temporada do meu programa, e a segunda do seu, que a gente jogou sinuca na Barney’s Beanery?
McQueen realmente se lembrava.
— Lembro, sim. Nós jogamos três partidas, né?
— Isso — diz Rick, feliz por Steve se lembrar daquilo. — Foi uma coisa e tanto na época. Você sabe, Josh e Jake jogando sinuca.
McQueen reconhece.
— Tem razão, foi mesmo uma coisa e tanto. Josh e Jake jogando sinuca. A gente deveria ter vendido uns ingressos.
Rick ri da piada de Steve.
Pensando naquilo, McQueen diz:
— Na verdade, eu lembro que o bar inteiro ficou vendo a gente jogar a primeira partida — diz McQueen, e aponta para ele. — Você venceu. E só metade do bar assistiu à segunda partida, que eu venci. E ninguém deu a mínima para o terceiro jogo — relembra ele, rindo.
Muito comovido, Rick faz que sim com a cabeça. Ele lembra.
— Mas eu não lembro quem venceu o terceiro — diz McQueen.
— Ninguém — responde Rick. — Nós não terminamos. Você teve que ir embora.
McQueen sabe que isso provavelmente quer dizer que ele estava perdendo.
Então, outro carro vindo para a festa de Sharon para atrás do Porsche de McQueen, pondo um fim ao reencontro. Os dois homens olham para o outro carro e, depois, um para o outro.
— Então, é aqui que você mora? — pergunta McQueen, apontando para a casa de Rick.
— Sim — diz Rick.
— Bom, quem sabe um dia eu dou uma passada e a gente pode ir lá no Barney’s terminar aquele jogo?
Rick sabe que aquilo jamais acontecerá, mas é legal da parte dele dizer isso.
— Isso seria ótimo — diz Rick, e, sendo muito sincero: — Bom te ver, Steve.
— Você também. Cuide-se.
Então, Steve vira-se para o interfone na frente da casa dos Polanski e aperta o botão.
A voz de Sharon sai pelo alto-falante.
— Oi?
Steve diz para o interfone:
— Sou eu, baby, pode abrir.
O portão da casa dos Polanski se abre. O carro de Steve, e o carro atrás dele, sobem a rampa e desaparecem do campo de visão de Rick.
Rick fica parado ali, segurando sua caneca de cerveja, o gravador e a mangueira, e vê o portão da frente da residência dos Polanski se fechando. Ele toma um gole do seu whiskey sour. Então, escuta o telefone tocando em sua casa.
Mas quem diabos está me ligando à meia-noite?
* * *
Ele entra em sua casa e atende o telefone pendurado na parede da cozinha.
— Alô? — diz ele.
— Rick? — chama a voz feminina do outro lado da linha.
— Sim?
— Você está decorando suas falas?
Que porra é essa?
— Quem é?
— É a Trudi. Você sabe, a Mirabella, do trabalho.
Genuinamente surpreso, Rick diz:
— Trudi? Trudi, você sabe que horas são?
Ela dá um gemido do outro lado do telefone.
— Que pergunta besta; é claro que eu sei que horas são! Eu não vou pra cama até saber todas as minhas falas de cor e salteado. Eu não acredito nessa baboseira de você-decora-suas-falas-durante-o-dia. Especialmente não na televisão. Pela sua voz não parece que eu te acordei. Acordei?
— Não, não me acordou.
— Então, qual é o problema?
— Você sabe qual é o problema — diz ele, deixando sua irritação transparecer em sua voz. — Sua mãe sabe que você está me ligando?
Trudi dá uma gargalhada do outro lado da linha e diz a Rick:
— Olha, por volta das quinze pras onze, minha mãe já tomou três ou quatro taças de chardonnay, e, geralmente, está dormindo de boca aberta no sofá com a TV ligada, esperando que o encerramento da programação com o hino nacional a acorde e a mande para a cama.
— Trudi, você não pode me ligar a essa hora — insiste Rick.
— Você está insinuando que não é apropriado?
— Não é apropriado.
— Pare de tentar mudar de assunto e responda à pergunta.
— Que pergunta?
— Você está decorando suas falas?
— Ah. Bom, pra falar a verdade, Senhorita Sabichona, estou.
— Até parece — diz ela com sarcasmo.
— Estou sim!
— Você está assistindo ao Johnny Carson — diz ela, com desdém.
— Não estou não. Eu estou decorando as minhas falas, sua escrotinha!
Após perder a calma e chamá-la de escrotinha, ele a escuta rindo em sua vozinha do outro lado do telefone. O som de sua risada faz com que ele ria também.
Então, no meio da risada, ela pergunta:
— Você está repassando as falas da nossa cena?
— Sim, eu estou.
— Eu também — responde ela, acrescentando: — Quer repassar comigo?
Ok, pensa ele, isso já foi longe demais. Ele precisa dar um basta naquela encrenqueira.
— Olha, Trudi, eu realmente não acho que é legal a gente estar falando ao telefone à meia-noite sem que a sua mãe saiba — diz ele, sinceramente.
Com uma paciência infinita, Trudi responde a Rick:
— Você está agindo como se eu fosse acordar amanhã de manhã e ir para uma escolinha. Eu vou trabalhar com você. E nós vamos interpretar essa cena. Você está acordado, eu também. Você está estudando suas falas, eu também. Então, vamos estudá-las juntos. Aí, amanhã, quando a gente aparecer para trabalhar, ninguém vai saber que a gente fez isso, e nós vamos deixar todo mundo de boca aberta!
E então, quase como se o estivesse insultando, ela diz:
— Sabe, Rick, eles não nos pagam só pra fazer isso. Eles nos pagam pra fazer isso muito bem.
Essa pestinha tem razão. Quer dizer, ela é apenas uma colega de trabalho. E depois da maneira como Sam reagiu à última cena que fizemos juntos, se eu e ela aparecermos amanhã com tudo na ponta da língua, vamos realmente deixar todo mundo de boca aberta.
— Você está com tudo bem ensaiadinho? — pergunta ele à garotinha.
— Acho que sim.
— Acho que eu também. Beleza, pirralha, você começa.
Do outro lado da linha, Trudi muda de voz abruptamente para emular a intensidade dramática da traumatizada vítima de sequestro Mirabella.
— O que você pretende fazer comigo?
Andando de um lado para o outro em sua cozinha, vestindo seu quimono de seda vermelha, Rick toma um gole do seu whiskey sour na caneca de cerveja e adota o dialeto de caubói de Caleb DeCoteau.
— Sabe, mocinha, eu ainda não decidi. Eu poderia fazer um monte de coisas com você. Eu poderia fazer um monte de coisas em você. Mas eu também posso te soltar, se o seu pai fizer tudo direitinho.
Trudi, como Mirabella, pergunta:
— O que ele precisa fazer para você me soltar?
Rick, como Caleb, declara, como um maníaco:
— Ele tem que me deixar rico, isso é o que ele tem que fazer! Ele tem que me dar um cesto cheio de dinheiro, e aí ele pode me esquecer pra sempre. Ou eu posso dar pra ele um cesto cheio de filha morta, e aí ele nunca mais vai me esquecer.
A criança inocente pergunta ao criminoso depravado:
— Então você vai me matar? Não porque você está furioso comigo, nem mesmo com o meu pai — diz Trudi, e, depois de uma pausa dramática, acrescenta: —, mas só por ganância?
Caleb responde, num tom suave:
— Ganância é o que faz o mundo girar, mocinha.
A mocinha diz seu nome em voz alta:
— Mirabella.
— Quê? — pergunta Caleb.
A menina de 8 anos de idade repete seu nome para o líder dos criminosos.
— Meu nome é Mirabella. Se você vai me matar a sangue-frio, eu não quero que você pense em mim apenas como a filhinha de Murdock Lancer.
Alguma coisa na maneira como ela diz aquilo toca o bandido. E, de repente, torna-se importante para Caleb fazê-la entender o seu lado naquela questão.
— Olha, você não tem nada com que se preocupar. É óbvio que o seu pai vai me dar o meu dinheiro. Você vale isso, e ele tem o suficiente. Então, quando ele me der o meu dinheiro, eu vou te soltar, sã e salva.
Há um silêncio do outro lado do telefone por um segundo e meio. Então, sua voz volta a ser ouvida, só que agora, em vez de falar num tom excessivamente dramático, ela faz uma surpreendente observação analítica.
— Escolha de palavras interessante.
— Quê? — pergunta um confuso Caleb.
Então, Mirabella Lancer, soando extraordinariamente similar a Trudi Frazer, explica sua observação ao líder dos piratas terrestres:
— Você disse “meu dinheiro”, mas esse dinheiro é do meu pai. Dinheiro que ele ganhou, não roubou, criando gado e vendendo no mercado. Mas você disse “meu dinheiro”. Você acha mesmo que tem direito ao dinheiro do meu pai?
E, com essa fala, a pequena Mirabella e a pequena Trudi apertam alguns botõezinhos dentro da psiquê tanto do bandido quanto do ator e, no meio de sua cozinha, vestindo um quimono vermelho de seda, Rick Dalton, como Caleb DeCoteau, volta a se transformar no bandido raivoso, megalomaníaco e homicida que ele sempre foi, e responde sua pergunta num único fôlego explosivo.
— É isso mesmo, Mirabella, eu acho! Eu tenho o direito a tudo o que eu puder pegar! E, depois que eu pego, eu tenho direito a tudo o que eu puder! Se o seu pai quiser me impedir de explodir essa sua cabecinha, é melhor ele pagar o meu preço!
Em outras palavras: uma cascavel numa motocicleta.
A criança faz uma pergunta simples:
— E o meu preço é dez mil dólares?
— É — responde o ofegante bandido e ator.
— Isso parece muita coisa pra alguém tão pequena quanto eu.
Com sinceridade, Caleb responde:
— É aí que você se engana, Mirabella — diz ele, e então, tomado pela emoção, Rick improvisa: — Se eu fosse seu pai...
— Quê? — exige saber a voz do outro lado da linha.
Rick abre sua boca, mas as palavras não saem.
A criança do outro lado da linha o intima:
— Se eu fosse seu pai o quê?
— Eu daria o meu braço para te trazer de volta — explode Rick.
O silêncio toma conta do ambiente e da cena, mas Rick consegue ouvir um sorriso satisfeito se formando no rosto de Trudi do outro lado da linha.
Então, após uma pausa dramática do tamanho de três caminhões, Trudi, como Mirabella, volta a falar, e pergunta:
— Isso foi um elogio, Caleb?
Então, Trudi sai do personagem e descreve a cena como aparece no roteiro. Ela lê:
— Então, Johnny vai até a porta. Toc-toc.
— Quem é? — pergunta Caleb.
Trudi adota uma voz grossa de caubói e diz:
— Madrid.
— Entra — ordena Caleb.
— O resto do seu diálogo é com Johnny. Então, eu vou dizer as falas dele — explica Trudi, e, com sua vozinha rouca de Johnny Madrid, pergunta: — Qual é o plano?
— Lancer vai encontrar com a gente no México daqui a cinco dias com dez mil dólares.
Ela pronuncia as palavras de uma maneira arrastada:
— Isso é muito dinheiro pra levar numa viagem tão longa.
Caleb dá uma bufada:
— Isso é problema do Lancer.
Trudi, como Johnny, observa:
— Se acontecer alguma coisa com esse dinheiro, o problema é nosso.
Caleb vira-se para Johnny e diz, violentamente:
— Se acontecer alguma coisa com esse dinheiro, o problema é dela!
E então, com sangue nos olhos, ele diz a Johnny Lancer:
— Presta atenção, rapaz! Dentro de cinco dias, Murdock Lancer vai me dar meus dez mil dólares! E, se qualquer coisa acontecer com os meus dez mil dólares antes de eles chegarem até mim, acabou o acordo. O nome desse jogo não é “Eu tentei”. Ou Murdock Lancer bota dez mil dólares bem aqui na minha mão ou eu esmago a cabeça dela com uma pedra.
Rick e Caleb respiram com força depois dessa explosão. Então, depois de fazer a merecida pausa dramática que George Cukor lhe negou, Rick pergunta:
— Você tem algum problema com isso… Madrid?
Então, Trudi, como Johnny, responde:
— Meu único problema, Caleb, é que você não para de me chamar de Madrid.
Caleb dá uma bufada:
— Este é o seu nome, não é?
— Não é mais. Agora… meu nome é Lancer. Johnny Lancer.
Rick tenta puxar o revólver imaginário em sua cintura, enquanto Trudi, do outro lado da linha, grita:
— Bangue, bangue, bangue!
Rick solta um grito excruciante enquanto desaba no piso de linóleo de sua cozinha, retorcendo seu rosto como se Johnny tivesse atirado nele.
Do outro lado do telefone, Trudi pergunta:
— O que foi isso?
Do chão de sua cozinha, Rick lhe diz:
— Eu atuei como se tivesse levado um tiro no rosto.
— Ahh, boa ideia — murmura ela, entusiasmada,
Então, após um instante, ela diz, empolgada:
— Caramba, essa cena ficou boa à beça!
Rick senta-se no chão, encostando-se na geladeira.
— É, ficou mesmo.
— A gente vai arrasar nessa cena amanhã!
Ela tem razão.
— É, acho que sim.
Os dois atores compartilham um instante de silêncio.
Então, a jovenzinha o relembra:
— Uau, Rick, o nosso trabalho não é o máximo? Nós temos muita sorte, não temos?
E, pela primeira vez em dez anos, Rick se dá conta de o quanto ele foi e é sortudo. Todos aqueles atores incríveis com quem ele trabalhou ao longo dos anos — Meeker, Bronson, Coburn, Morrow, McGavin, Robert Blake, Glenn Ford, Edward G. Robinson. Todas as atrizes diferentes que ele beijou. E todos os casos que teve. Todas as pessoas interessantes com quem trabalhou. Todos os lugares que visitou. Todas as histórias divertidas que viveu. Todas as vezes que viu seu nome e sua foto nos jornais e revistas. Todos os ótimos quartos de hotel. Todo o alvoroço que ele provocava por onde passava. Todas as cartas de fãs que ele nunca leu. Todas as vezes em que ele dirigiu por Hollywood como um cidadão respeitável. Ele olha à sua volta, para a casa fabulosa que possui. Uma casa que foi paga com o seu trabalho, fazendo aquilo que ele costumava fazer de graça quando era um garotinho: fingindo ser um caubói.
Então, ele diz a Trudi:
— Sim, nós temos, Trudi. Temos muita sorte.
Sua parceirinha de cena lhe deseja uma boa noite.
— Boa noite, Caleb, te vejo amanhã.
Muito grato, Rick Dalton diz:
— Boa noite, Mirabella, te vejo amanhã.
* * *
E, no dia seguinte, no estúdio da Twentieth Century Fox, no set de Lancer, os dois atores deixaram todo mundo de boca aberta.
Este livro é dedicado à minha esposa DANIELLA
E ao meu filho Leo
Obrigado por criarem um lar feliz onde eu posso escrever.
E também
A todos os atores veteranos que me contaram histórias extraordinárias
desse período.
Bruce Dern * David Carradine * Burt Reynolds * Robert Blake *
Michael Parks * Robert Forster
E especialmente a Kurt Russell
Agradecimentos pela permissão para reimprimir material publicado anteriormente: letra de “Little Green Apples”, letra e música de Bobby Russell (Copyright © 1968 UNIVERSAL – SONGS OF POLYGRAM INTERNATIONAL, INC. Copyright renovado. Todos os direitos reservados. Usado com autorização. Reimpresso com autorização de Hal Leonard LLC.); letra de “Lookin’ Out My Back Door”, letra e música de John Fogerty (Copyright © 1970 Jondora Music c/o Concord Music Publishing. Copyright renovado. Todos os direitos reservados. Usado com autorização. Reimpresso com autorização de Hal Leonard LLC.); letra de “Secret Agent Man” (da série de televisão), letra e música de P. F. Sloan e Steve Barri (Copyright © 1965 UNIVERSAL MUSIC CORP. Copyright renovado. Todos os direitos reservados. Usado com autorização. Reimpresso com autorização de Hal Leonard LLC.); letra de “Teddy Bear Song”, letra e música de Don Earl e Nick Nixon (Copyright © 1971 SONGS OF UNIVERSAL, INC. Copyright renovado. Todos os direitos reservados. Usado com autorização. Reimpresso com autorização de Hal Leonard LLC.); letra de “There But For Fortune”, letra e música de Phil Ochs (Copyright © 1963 BARRICADE MUSIC, INC. Copyright renovado. Todos os direitos nos Estados Unidos são controlados e administrados por ALMO MUSIC CORP. Todos os direitos reservados. Usado com autorização. Reimpresso com autorização de Hal Leonard LLC.).
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