Era Uma Vez em Hollywood

Quentin Tarantino · Capítulo 15 de 29

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Era Uma Vez em Hollywood

Capítulo Onze: O furgão da Twinkies

Capítulo Onze

O furgão da Twinkies

 

Enquanto Charles Manson pilota o furgão surrado da Hostess Twinkies Continental Bakery subindo as ruas sinuosas que levam à casa de Terry Melcher na Cielo Drive, ele sabe que está fazendo uma aposta.

Quando Charlie dirigiu de San Francisco até Los Angeles, foi com o objetivo de registrar suas músicas, gravá-las cantadas por ele mesmo, assinar um contrato para lançar um disco e, finalmente, se transformar em um astro do rock and roll. Todo esse negócio de ser o líder espiritual de um bando de adolescentes chapados e guru de um harém de garotas que fugiram de casa era para ser apenas uma coisa que ele fazia nesse meio-tempo. E, no começo, tudo estava indo bem. Na verdade, no começo, tudo estava indo muito bem. Suas garotas haviam permitido que ele estabelecesse uma relação com o baterista dos Beach Boys, Dennis Wilson, um verdadeiro e legítimo astro do rock, levou Manson a estabelecer relações também com seus amigos Gregg Jakobson e o filho de Doris Day, Terry Melcher.

E isso levou a encontros, festas, rodinhas de maconha e jam sessions com outros músicos de sucesso da cena musical de LA. Quando se deu conta, Charlie estava passando um baseado para o cantor dos Raiders, Mark Lindsay, curtindo com Mike Nesmith, dos Monkees, e Buffy Sainte-Marie, e improvisando no violão com Neil Young, com o maldito Neil Young!

E Charlie não apenas tocou violão com ele; Young ficou muito impressionado com seu talento musical para o improviso. (Aquela noite, improvisando com Young, foi o mais próximo que Charles Manson chegou de ser legitimado como músico.) Charlie torcia para que aquele improviso com o grande astro fosse lhe garantir um encontro com o Bob Dylan, mas o Bobby era um cara difícil de encontrar. O mais perto que Charlie chegou de conhecê-lo foi quando trocou meia dúzia de palavras com o parceiro de Bob na época, Bobby Neuwirth, no London Fog. Não há a menor dúvida de que, durante a época em que Charlie Manson e sua “Família” frequentavam a casa de Dennis Wilson, suas aspirações musicais começaram a se concretizar. Houve até mesmo uma sessão na qual Charlie gravou algumas de suas canções numa fita U-matic. Dificilmente Melcher levou a sério a ideia de assinar um contrato com Charlie na Columbia Records. Mas não se pode excluir do campo das possibilidades que tenha considerado a ideia de dar algumas das canções de Charlie para que outros artistas gravassem. Apesar de toda a sua experiência de cadeia e conhecimento filosófico, Manson era ingênuo de uma maneira quase encantadora no tocante à indústria musical. Charlie sabia que Terry Melcher não botava muita fé no seu potencial para vender discos, mas ele nunca se deixou abater por isso. É quase admirável que, no que dizia respeito a si mesmo, Charlie sempre fora um eterno otimista. Ele sempre dizia que tudo de que ele precisava era que lhe abrissem uma porta. E uma porta lhe foi aberta quando Terry Melcher garantiu que, em algum momento, ele sentaria para escutar Charlie tocando algumas composições suas no violão.

Manson pensou que a sua relação com Melcher era mais do que realmente era? Com certeza.

Charlie intrigava Melcher de alguma maneira? Talvez.

Mas a chance mais quente de Charlie descolar um contrato com uma gravadora era sua relação muito próxima com Dennis Wilson. Dennis era o único astro do rock de verdade dos Beach Boys. Brian era gordo, e seguia engordando, Al Jardine parecia um esqueleto, e Mike Love estava ficando careca desde os 18 anos de idade. Dennis era um bonitão sexy que, desde o começo dos anos 1960, já vinha emanando a vibe zen do final da década. Por um tempo, Dennis Wilson acreditou realmente no potencial musical de Charlie. Em algumas ocasiões, consumiu drogas na madrugada com Manson, e a sua filosofia e visão de mundo o impressionaram verdadeiramente (Wilson também compartilhava com o Manson a mesma desconfiança e medo em relação aos homens negros). Nas jam sessions em sua casa, Dennis testemunhava o inegável talento de Charlie quando improvisava com o violão. Mesmo assim, é difícil acreditar que Manson, um doidão sem qualquer treinamento ou disciplina, seria capaz de capturar o melhor de sua música no ambiente estéril, pesado e nervoso de um estúdio profissional de gravação. (Neste quesito, Charlie teria a companhia de alguns verdadeiros gênios da música. As gravações de Woody Guthrie ou Leadbelly servem mais como um registro histórico do que como representações evocativas de seu talento musical.) Mas não seria absurdo imaginar Charles Manson tendo feito uma trajetória tocando em cafés e passando o chapéu no Greenwich Village no final dos anos 1950 e começo dos 1960, e no circuito alternativo, onde o seu talento para o improviso musical, seu domínio do violão, e seu passado na prisão o teriam ajudado muito. Durante um tempo, Dennis Wilson incentivou sinceramente Charlie a perseguir seus sonhos musicais, chegando ao ponto de gravar uma das canções dele (“Cease to Exist”, o tema musical da Família), que foi reescrita sob o título de “Never Learn Not to Love”, e gravada no álbum 20/20, dos Beach Boys.

E embora a ideia de Terry Melcher assinando um contrato com Charlie para gravar um disco para a Columbia Records ter estado sempre fora de cogitação, os Beach Boys criaram seu próprio selo, o Brother Records, e um álbum de Charles Manson para esse selo poderia ter rolado. O motivo pelo qual isso nunca aconteceu foi a irritação de Wilson — que por fim se tornaria medo — com os tipos suspeitos que Manson começou a deixar que criassem raízes em sua casa. O que inicialmente fez com que Dennis se aproximasse da “Família” foram as garotas. Mais tarde, foi uma conexão verdadeira com Charlie o que o manteve dentro da órbita do grupo. Mas foi a exasperação de Wilson com a família de hippies imbecis de Charlie que acabou fazendo com que ele queimasse a ponte com os Beach Boys que Charlie estava prestes a atravessar.

O ethos anti-establishment, de dar e receber, da comunidade hippie da indústria do entretenimento de Hollywood, que frequentava o Vale de Topanga no final dos anos 1960 foi o que Dennis Wilson quis dar àqueles vagabundos. Todavia, muito rapidamente, aquele monte de comedores de lixo, fritos de ácido, poços de gonorreia, fugitivos de papo mole acabaram se revelando um bando de aproveitadores ingratos. Eles arruinaram a casa de Wilson e o fizeram gastar milhares de dólares em remédios contra doenças venéreas e com o roubo, perda ou destruição de propriedade. Até que, por fim, Wilson simplesmente foi embora de casa e deixou que seu agente expulsasse os invasores encardidos.

* * *

Se a “Família” não tivesse transformado a casa de Dennis em zoológico e feito com que seus colegas de banda se preocupassem e perdessem o respeito por ele, Charles Manson teria sido a aposta perfeita para o novo selo dos Beach Boys. Você pode até questionar qual seria o destino desse disco, ou até mesmo, se Manson, com todas as suas peculiaridades, seria capaz de gravar um álbum inteiro. Mas é totalmente plausível imaginar que, caso os outros membros da banda não tivessem associado Charlie àquele grupo de malucos que estavam se aproveitando de Dennis, Manson poderia ter transformado sua conexão em alguma coisa.

Mas, do jeito que as coisas foram, a “Família” acabou saindo tão cara a Dennis que, mesmo quando os Beach Boys gravaram uma das músicas de Charlie, eles não incluíram seu nome nos créditos, partindo do princípio de que as caríssimas extravagâncias cometidas por seus discípulos já tinham sido pagamento mais do que suficiente. (Circulam rumores de que, em troca de não colocar seu nome nos créditos da música, Wilson deu uma motocicleta a Charlie).

* * *

Então, no dia 8 de fevereiro de 1969, todas as conexões promissoras que Charlie tinha no mundo da música haviam evaporado. Só uma permanecia: a promessa vaga que Terry Melcher havia feito de que, um dia, sentaria para ouvir Charlie tocando suas músicas para ele. Só que ele havia perdido o contato com Terry. Houve uma época em que Charlie via Terry, se não todos os dias, com frequência o suficiente para marcar um encontro. Mas isso foi antes de ele ter se tornado persona non grata na casa de Dennis Wilson. E até Charlie sabia que aquilo era motivo suficiente para acabar com a possibilidade de qualquer negócio. Mas, por outro lado, talvez não fosse. Charlie havia conseguido emplacar uma de suas músicas no novo álbum dos Beach Boys. OK, ele não tinha sido creditado, mas uma das poucas pessoas que sabia que a música era inspirada numa canção de sua autoria, Cease to Exist, era Melcher. Ou seja, talvez agora Terry enxergasse Manson como um compositor musical legítimo, capaz de produzir música vendável, em vez de um cafetão cabeludo que fornecia menores de idade infestadas de sífilis ao produtor musical.

* * *

Agora, Terry Melcher já havia concordado em ir até o Spahn Ranch para escutar Charlie tocando suas músicas. Uma data foi marcada, um horário foi combinado, um compromisso foi confirmado, uma tremenda festança foi organizada no rancho, e… Terry não apareceu.

Para Charles Manson, levar um cano como aquele foi devastador por diversos motivos. Em primeiro lugar, Charlie havia se preparado a semana inteira para aquela oportunidade de finalmente mostrar sua música para Terry. A Família havia se arrumado e decorado o rancho inteiro para o grande evento, incluindo ensaios com instrumentos de apoio e garotas seminuas harmonizando e dançando no fundo… e Terry não apareceu.

Além disso, aquele era o dia.

Charlie estava em ponto de bala naquele dia.

Manson nunca se perdoou por ter deixado suas emoções estragarem tudo em sua única sessão de gravação profissional.

Mas este dia seria diferente.

Neste dia, Charlie estava implacável, sua mente estava calma, seu coração, tranquilo, e a música estava na ponta dos dedos.

Este era o dia com o qual ele vinha sonhando desde a primeira vez que ouvira os Beatles na prisão.

Neste dia, os sonhos de Charlie se tornariam realidade, e sua vida mudaria para sempre.

Neste dia, a música transbordaria por seus poros. Ele tinha controle total sobre a própria criatividade. Ele não erraria sequer uma nota.

Ele estava em comunhão com o seu talento, com as suas inspirações, e com Deus… e Terry não apareceu.

O bolo de Terry não apenas embotou a criatividade de Manson e o magoou de verdade, como também o deixou mal diante dos seguidores.

Os moleques do rancho não faziam muita ideia de sobre o quanto Charlie queria se tornar um astro do rock. O quanto ele desejava fama, dinheiro e reconhecimento. Porque, para eles, Charlie pregava contra esses desejos primitivos.

Eles achavam que Charlie estava em uma jornada espiritual rumo à iluminação.

Eles achavam que o verdadeiro desejo de Charlie era compartilhar essa iluminação.

Eles achavam que o objetivo de Charlie era criar uma nova ordem mundial, guiada pela iluminação e pelo amor por toda a humanidade.

Eles achavam que Charlie tinha um propósito mais elevado, porque ele dissera a todos que tinha, e todos acreditaram nele. Nunca lhes teria ocorrido que ele trocaria toda essa baboseira em um segundo para vestir um uniforme da Guerra da Independência e trocar de lugar com o Mark Lindsay.

Nunca lhes teria ocorrido que ele diria adeus à Família, e a tudo o que havia criado, e a tudo o que lhes havia ensinado, para trocar de lugar com Micky Dolenz e entrar para os Monkees.

Eles achavam que o único motivo pelo qual Charlie queria gravar um disco, antes de qualquer outra coisa, era para ampliar sua influência. Para levar sua iluminação para plateias maiores, para uma audiência global, em um planeta que estava sedento por aquilo.

Como os Beatles. Como Jesus Cristo. Como Charlie.

Ele não queria a fama para si; ele a queria em virtude do que sua música poderia significar para os outros. A música seria apenas a porta de entrada para que o mundo conhecesse Charlie. Com Deus agindo por meio dele, Charlie seria autor de algumas das maiores músicas já escritas, da mesma forma que Jesus era autor de algumas das maiores poesias já escritas. Não para ter discos de platina pendurados na parede, como Dennis Wilson. Não para ser o dono de carros esporte, como Dennis Wilson. Não para estar na capa da revista Crawdaddy. Não para emplacar uma música na trilha sonora de Sem Destino. Não para participar de concursos malucos na KHJ com o Real Don Steele. Mas para salvar a humanidade.

O primeiro vislumbre dos discípulos de que as motivações e desejos de Charlie talvez não fossem tão nobres quanto os deles aconteceu quando o líder não conseguiu esconder sua ansiedade em relação à audição de Terry Melcher.

Todo mundo queria que tudo desse certo, mas nenhuma outra pessoa no rancho achava que tudo dependia daquilo.

A coisa rola… ou não rola. Não esquenta, baby. O que tiver de ser, será. O homem faz planos, Deus ri. Era isso o que Charlie tinha ensinado a eles.

Então por que Charlie estava tão preocupado com o que Terry Melcher pensava dele?

Por que Charlie estava pirando de ansiedade para saber se Terry Melcher gostaria ou não de sua música, ou se divertiria ou não com ele?

Por que Charlie estava perdendo a porra da cabeça para causar uma boa impressão no bosta do Terry Melcher?

Mas, à medida que o compromisso com Terry Melcher às três e meia passou para as três e quarenta, e depois, três e cinquenta, e depois, quatro horas, e depois, quatro e quinze, e depois, quatro e vinte, e depois, quatro e meia, e depois, ficou evidente pra todo mundo que Terry Melcher não apareceria, também ficou evidente o quanto Charlie ficou mal com aquilo. O cano de Terry fez com que Manson parecesse fraco aos olhos de seus seguidores. Nada que havia acontecido perante “a Família” até então tinha feito Charlie parecer assim. Nem pais furiosos, às vezes, portando espingardas; nem antigos membros, que, às vezes voltavam ao rancho trazendo amigos e exigindo dinheiro, carros ou bebês. Nem os Panteras Negras. Nem mesmo os porcos. Charlie encarava todos eles com uma piscadinha e um sorriso. Confiante na ideia de que Deus estava ao seu lado. Mas não dessa vez. Dessa vez, era Charlie quem parecia bobo. Uma outra coisa ficou evidente aquele dia, algo que os moleques no Spahn Ranch nunca haviam levado em consideração. Talvez Charlie fosse apenas mais um hippie cabeludo com um violão querendo que sua música tocasse nas rádios. Eles não queriam acreditar naquilo, e não acreditaram. Mas, pela primeira vez, a possibilidade ocorreu a alguns deles.

Sabe-se lá como, Melcher enviou um recado a Charlie dizendo que não tinha lhe dado um cano por falta de respeito. Ele era um homem ocupado, e uma coisa importante tinha surgido. Mas isso já fazia algum tempo, e, desde então, nenhum esforço havia sido feito para remarcar o compromisso. E agora, Charlie e Terry não frequentam mais os mesmos círculos. A ideia de encontrá-lo por acaso e marcar uma nova data para a audição parecia pouco provável.

De certa forma, Charlie estava aprendendo uma boa lição sobre como funcionava a indústria do entretenimento. Pessoas entram e saem dos círculos sociais. Alguém de quem você era muito próximo ontem, hoje mal te acena de longe. Oportunidades promissoras simplesmente não se concretizam. Ou, como Pauline Kael escreveu certa feita: “Em Hollywood, você pode morrer por excesso de incentivo.”

Bom, como Maomé não iria simplesmente esbarrar na montanha no Whisky a Go Go enquanto bebia um Cutty Sark, ele teria que ir mesmo até a montanha que, neste caso, era Hollywood Hills.

Seria a cartada final de Charlie.

Como já havia estado na casa de Terry Melcher, Charlie lembrava do endereço. Ele tinha ido inclusive a festas lá, de modo que simplesmente aparecer no portão de sua casa e dizer oi, embora não fosse o ideal, não era algo totalmente fora de cogitação.

Aquilo era um ato de desespero, parecia um ato de desespero, e Charlie tinha bastante certeza de que Terry interpretaria aquilo como tal. Mas, do jeito que as coisas estavam, aquela era a única carta que ainda tinha na manga. Terry havia dito que escutaria as músicas de Charlie um dia. E Terry lhe devia uma depois de tê-lo deixado esperando. E Charlie simplesmente não ia mais encontrá-lo casualmente na casa do Wilson. A única chance que ele tinha de resgatar sua oportunidade perdida era tentando a sorte e pegando Terry em casa para fazer essa pressão. Uma pressão de leve. Só o suficiente para ele se sentir culpado o bastante para não dizer não na cara de Charlie. Porém, sem a pressão, Charlie nunca mais veria Terry de novo. E se aquilo não funcionasse, e provavelmente não funcionaria, pelo menos Charlie poderia dizer que tentou.

Quando Charlie encosta o furgão na frente da casa de Terry na Cielo Drive, ele vê que o portão está aberto. Esse pessoal costuma deixar o portão aberto nos dias em que tem muitas entregas, para não precisar ficar correndo o tempo todo para abri-lo. Charlie achava que seria barrado pelo interfone pendurado no poste de metal perto da entrada dos carros, do lado de fora do portão da frente.

Oi, o Terry está?

Quem é?

Charlie, sou amigo dele.

Charlie do quê?

Charlie Manson.

Ele saiu.

Foi assim que Charlie imaginou que seria a conversa, mesmo que fosse Terry no interfone, fingindo ser alguém que trabalhava para ele. Portanto, o fato de o portão estar aberto já contava como um golpe de sorte. Alguns dizem que a sorte ocorre quando a preparação se encontra com a oportunidade. A parte da preparação foi escolher o final da manhã começo da tarde de sábado para fazer sua visita. Se ele pretendia pegar Terry em casa, seria no final da manhã/começo da tarde de sábado. Talvez, quem sabe, ele conseguisse até um encontro cara a cara com ele.

Charlie pensa em dirigir o furgão da Twinkies pela longa e sinuosa entrada de carros, mas aquilo já seria demais. Melhor ser humilde. Ir andando até a casa, mostrando as palmas das mãos, e com um grande sorriso no rosto.

Causar uma impressão leve.

Charlie sai do furgão da padaria. Terry mora no topo de uma colina no final de uma rua sem saída. O único outro ser humano à vista é um cara loiro sem camisa, mexendo numa antena no telhado da casa ao lado. Charlie não lhe dá bola enquanto sobe pela entrada dos carros na direção da porta da frente da casa de Terry.

* * *

Sharon coloca a agulha do gramofone na primeira faixa do disco The Spirit of ‘67, de Paul Revere and the Riders. O criador da banda e produtor do álbum costumava morar na casa na Cielo Drive que Sharon e Roman agora alugam do proprietário, Rudi Altobelli, que mora na casa de hóspedes, nos fundos, perto da piscina. Quando o antigo inquilino, Terry Melcher, foi embora, ele morava com a atriz Candice Bergen. Mas antes de Candy mudar-se para lá, Terry dividia a casa com o vocalista dos Raiders, Mark Lindsay. Então, fez sentido quando Sharon encontrou uma pilha de cópias de The Spirit of ‘67 embrulhadas em papel-celofane enfiada no armário do quarto de hóspedes. Ela mencionou ter encontrado os discos para o marido, Roman, que fez uma careta e disse:

— Eu odeio essa merda grudenta que nem chiclete.

Sharon não discutiu, embora não concordasse com aquilo. Ela gostava das músicas grudentas que tinha ouvido na KHJ. Ela gostava daquela música “Yummy Summa Yummy” e da canção que eles lançaram logo depois, “Chewy Cely”. Ela gostava do Bobby Sherman e daquela música, “Julie”. E ela amava aquela música “Snoopy vs. the Red Baron”.

Ela não diria isso para Roman nem para qualquer dos seus amigos descolados, como o John e a Michelle Phillips, ou a Cass Eliott, ou o Warren Beatty, mas, sendo totalmente sincera, ela gostava mais dos Monkees do que dos Beatles.

Ela sabia que eles não eram sequer um grupo de verdade. Que eram apenas um programa de TV feito para capitalizar em cima da popularidade dos Beatles. Mesmo assim, do fundo de seu coração, ela gostava mais deles. Ela achava o Davy Jones mais bonito do que o Paul McCartney (como evidenciado pela sua atração por Roman e Jay, Sharon tinha uma queda por caras baixinhos e bonitinhos que pareciam meninos de 12 anos). Ela achava o Micky Dolenz mais engraçado do que o Ringo Starr. Ela era mais atraída pelo “quietão” Mike Nesmith do que pelo George Harrison. E ela achava o Peter Tork tão hippie quanto o John Lennon, porém menos pretensioso, e também que ele, provavelmente, devia ser um cara mais bacana. Sim, claro, os Beatles escreviam suas próprias músicas, mas Sharon estava pouco se fodendo para isso.

Se ela gostava mais de “Last Train to Clarksville” do que de “A Day in the Life”, que se dane, ela não se importava com quem tinha escrito. De todo modo, Paul Revere and the Raiders eram meio como os Monkees. Eles cantavam músicas animadas e grudentas, eram engraçados, e estavam o tempo todo na TV. Ela gostava muito das músicas “Kicks, Hungry” e, principalmente, “Good Thing”. Rudi Altobelli disse a ela que Mark Lindsay e Terry Melcher haviam composto “Good Thing” no piano branco que ficava em sua sala de estar. Que legal. Ela pensa nisso quando coloca a agulha no vinil e fica escutando o riff de guitarra da abertura saindo pelos alto-falantes. Ela começa imediatamente a mexer ombros e quadris ao som da batida grudenta. Em seguida, ela volta a fazer o que estava fazendo. Que era arrumar a mala de Roman. Roman viajará para Londres no dia seguinte, e ela sempre faz a mala dele. É uma coisa bonitinha que ela começou a fazer para ele e que, agora, é só uma coisa bonitinha que ela faz.

Seu ex-noivo, Jay Sebring, está na cozinha, fazendo um sanduíche para comer antes de levar Sharon até seu salão, em Fairfax, e arrumar seu cabelo para uma aparição que ela e Roman farão na TV esta noite (Jay trabalha exclusivamente com cabelos masculinos. Sharon é a única mulher que ele atende.) Os três haviam estado em uma festa na Mansão da Playboy de Hugh Hefner na noite anterior. E, ao longo da noite, Hefner convidou Roman para aparecer em seu semi-talk show, Playboy After Dark, filmado na cobertura do prédio 9000, perto do final da Sunset Strip. Sharon ficou irritada por Roman ter se comprometido a levá-la a dois compromissos em sequência sem consultá-la. Não só isso, como ela também estava lendo Myra Breckinridge, de Gore Vidal, e Roman sabia que ela preferia passar a noite na cama ao lado dele, lendo. Em vez disso, ela teria de se arrumar toda pela segunda noite seguida e fazer o papel de “gatinha sensual” (“gatinha sensual” era o apelido depreciativo que Sharon usava para se referir à sua persona de atriz dos anos 1960).

Enquanto dobra o suéter branco de gola rulê que comprou para Roman quando estiveram na Suíça e o coloca dentro da mala aberta em cima da cama do quarto de hóspedes, ela não percebe que um hippie baixinho, moreno e descabelado, vestindo uma camisa comprida de brim para fora das calças com um colete marrom de couro cru por cima, sandálias de Jesus e imundas calças jeans emerge da folhagem e começa a caminhar pela área pavimentada para os carros na frente de sua casa. Mas Jay o vê pela janela da cozinha enquanto dá uma mordida em seu sanduíche de pão de forma, peito de peru e tomate. Acompanhando com os olhos o trajeto do hippiezinho moreno da entrada para os carros até a frente da casa, Jay pensa, Quem é esse babaca cabeludo andando pela casa como se fosse dono do lugar?

Sharon, que fazia a mala nos fundos da casa, ouve a voz de Jay vindo da porta da frente dizendo, de forma autoritária, a alguém:

— Olá? Posso ajudar?

Depois, do lado de fora da casa, ela escuta a voz abafada de alguém que ela não conhece respondendo.

— Ah, oi, cara. Estou procurando Terry. Eu sou amigo dele e do Dennis Wilson.

Quem diabos é esse?, pensa ela, prestando atenção na conversa.

Então, ela escuta a resposta de Jay ao estranho:

— Bom, Terry e Candy não moram mais aqui. Essa é a residência dos Polanski agora.

Sharon larga a camisa de caxemira que está dobrando e deixa o quarto dos hóspedes para ir ver com quem Jay está falando. Enquanto anda pelo corredor acarpetado que leva à sala de estar, de pés descalços e vestindo um short da Levi’s, ela escuta o estranho dizendo, surpreso e desapontado:

— Sério? Ele se mudou? Putz! Você sabe pra onde?

Sharon vira num canto e entra no hall de entrada que tem um pôster de A Dança dos Vampiros enquadrado na parede. (Roman considerava constrangedor e infantil pendurar, em sua casa, os pôsteres dos filmes que havia feito, mas Sharon lembrou a ele que ele sabia muito bem que ela era constrangedora e infantil quando se casaram.)

A porta da frente está totalmente aberta, e Jay está do lado de fora conversando com aquele cara assustador com um cabelo de espantalho e uma barba de dois dias cobrindo o rosto.

Ela chega até a porta e pergunta ao ex-noivo:

— Quem é, Jay?

Os olhos do estranho desgrenhado sobem até a beldade loira parada na soleira da porta. Seu olhar radiante se desvia de Jay por um instante e se concentra no moreno baixinho.

Jay se vira para ela e diz:

— Está tudo bem, querida. É um amigo do Terry.

Então, ele se volta para o estranho descabelado e o encaminha para o lugar em que o dono da casa vive.

— Eu não sei para onde o Terry se mudou, mas o dono da casa, Rudi, talvez saiba. Ele está na casa de hóspedes — diz Jay, acenando na direção. — Siga esse caminho até os fundos.

O estranho desgrenhado sorri e diz:

— Muitíssimo obrigado.

Quando vai se virando para sair, ele dirige seu olhar mais uma vez na direção da loura dourada na soleira da porta, com suas pernas compridas, vestindo uma camiseta listrada que parece ter sido comprada na seção infantil masculina de uma loja de departamentos. Ele ergue a mão para fazer um aceno e diz:

— Senhora.

Muito embora ela tenha achado o invasor moreno sinistro, ela acena com a cabeça e lhe responde com um discreto sorriso. Enquanto o baixinho vai contornando a casa, os olhos de Sharon o acompanham até desaparecer do seu campo de visão.

* * *

Rudi Altobelli tinha acabado de sair do chuveiro quando escutou seu cachorro, Bandit, latindo para alguém na sua porta da frente, que estava aberta. Ele sabia que era alguém, e não alguma coisa, porque, no tocante aos invasores em sua propriedade, o cão tinha três latidos distintos. Gatos recebiam uma latida, lagartos, guaxinins e outros animais selvagens recebiam outra e os humanos dos quais o cachorro não gostava, uma terceira. Rudi enrola uma toalha em sua cabeça, veste seu corpo nu e ainda molhado em um roupão felpudo, e sai do seu banheiro em direção à porta da frente, para averiguar.

Altobelli é um empresário de Hollywood do baixo escalão, que — um dia — havia agenciado (de certa forma) Katharine Hepburn e Henry Fonda. Atualmente, entretanto, sua lista de clientes exibia nomes como os de Christopher Jones, Olivia Hussey, Sally Kellerman e dois dos três integrantes do trio de música pop Dino, Desi e Billy (ele também representava os Juniors, Desi Arnaz e Dean Martin). Sua propriedade era um excelente investimento; ele morava na casa dos fundos e alugava a casa grande, na frente do terreno, para os figurões de Hollywood. Enquanto ele se aproxima da porta da frente aberta, que é, na verdade, sua porta lateral, o aparelho de TV exibe uma reprise da série em preto e branco Combate. Os créditos de abertura do programa aparecem na tela, e seu tema musical militar sai pelos alto-falantes. A voz grave do locutor anuncia:

— Combate! Estrelando Vic Morrow. E Rick Jason.

O cachorro está latindo intensamente para o baixinho cabeludo do outro lado da tela da porta. Quando Rudi se aproxima do visitante, ele grita para que Bandit se acalme, pega-o pela coleira, e puxa-o para o lado. O homem molhado de roupão olha através da tela da porta e percebe que ele conhece o homem na sua soleira.

— Rudi? — pergunta Charlie.

Rudi responde a uma pergunta de uma palavra com uma resposta de uma palavra:

— Sim?

Charlie vai direto ao assunto:

— Ei, Rudi, não sei se você lembra de mim, mas eu sou amigo do Terry Melcher e do Dennis Wilson…

— Eu sei quem você é, Charlie — diz Rudi, de forma nada calorosa. — O que você quer?

Esse cara não está sendo muito amigável, pensa Charlie, mas, pelo menos, ele sabe que eu conheço o Terry.

— Bom, eu vim aqui para falar com o Terry, e o cara lá na casa falou que ele se mudou.

— Sim, ele se mudou há cerca de um mês — confirma Rudi.

Charlie faz uma ceninha, chutando a grama e xingando, “Puta que pariu, caralho! Pelo jeito, eu vim até aqui pra nada”. Então se volta para o homem do outro lado da tela e pergunta, de um jeito muito amistoso:

— Você sabe pra onde ele foi ou o telefone dele? Eu preciso muito entrar em contato com ele. É meio que uma emergência.

O que, do ponto de vista de Charlie, não era mentira.

Mas Rudi mente para Charlie quando diz:

— Putz, desculpa, Charlie, mas não posso te ajudar nessa. Eu não sei.

— Putz, que pena — diz Charlie.

Mudando de tom, Charlie faz ao homem do outro lado da tela uma pergunta cuja resposta ele já sabe.

— No que você trabalha, Rudi?

— Eu sou empresário, Charlie, você sabe disso.

Enquanto Vic Morrow, Rick Jason e Jack Hogan explodem nazistas no fundo, Charlie começa o seu discurso, antes que Rudi Altobelli consiga mandá-lo embora.

— Bom, o motivo pelo qual eu preciso entrar em contato com o Terry é que ele ia conseguir uma audição pra mim na Columbia Records. Mas o xis da questão é que eu não tenho agentes, então, se tudo correr bem e eles quiserem me contratar, vou estar sozinho nessa. E você sabe que essa não é a melhor situação para um artista. Especialmente em relação a um gigante da indústria como a Columbia Records. Então, talvez eu possa voltar e te mostrar umas músicas que eu tenho gravadas. Ou talvez tocá-las pra você no violão. Se você gostar do que ouvir, você me contrata e eu começo a minha relação com a Columbia Records com o pé direito.

Charlie percebe que Rudi não está interessado; então, é hora de lançar sua isca.

— Eu tô sempre com um monte de garotas. Quem sabe eu não trago elas comigo, elas fazem os backing vocals. Todo mundo se diverte com elas, pergunta pro Terry. Pergunta pra ele se ele não se divertiu muito com as minhas garotas.

Rudi começa a abrir sua boca, mas, antes que qualquer coisa possa sair dela, Charlie lhe fuzila com uma pergunta.

— Você ouviu o novo disco dos Beach Boys, 20/20?

— Não.

— Bom, tem uma música minha lá, composição minha — ressalta — e o Dennis Wilson mexeu nela, estragou com tudo, e aí os Beach Boys conseguiram foder ainda mais com ela.

— Olha… — Rudi tenta interrompê-lo, mas Charlie não deixa.

— Na real, eles foderam tanto com a minha música que eu até prefiro que você não escute. Eu prefiro tocar a minha versão pra você. Quem sabe eu volto aqui, toco as minhas fitas, toco um pouco de violão… sabe como é, no improviso. Eu sou muito bom nisso — diz Charlie, com sinceridade.

Por fim, Rudy diz:

— Bom, eu gostaria de continuar conversando com você, Charlie, mas eu estou indo pra Europa amanhã, e preciso arrumar a mala.

Um sorrisão se espalha pelo rosto de Charlie, e ele diz, rindo enquanto fala:

— Putz, então hoje eu não estou mesmo com sorte, não é mesmo?

Agora é a vez de Rudi mudar de assunto.

— Como você sabia que eu estava aqui nos fundos?

Charlie gesticula com o dedão sobre seu ombro.

— O cara na casa da frente me mandou aqui.

— Olha — diz Rudi Altobelli em um tom severo —, não gosto que perturbem meus inquilinos. Então, de agora em diante, não incomode mais o pessoal, beleza, Charlie?

Charlie abre um grande sorriso e acena para mostrar que entendeu.

— Beleza, beleza, tudo bem — garante Charlie. — Não quero ser um incômodo.

Na tentativa de encerrar aquela conversa com alguma dignidade, Charlie diz:

— Então, eu vou atrás do Terry. Ou ele vai vir atrás de mim. E, quem sabe, uma hora dessas, eu toco as minhas músicas pra você?

Finalmente! Rudi pensa.

— Aham — diz Rudi —, pode crer, Charlie.

Charlie dá um grande aceno e um sorriso ainda maior ao homem do outro lado da tela e diz:

— Boa viagem!

* * *

Em cima do telhado de Rick, Cliff conseguiu arrumar a antena. Usando um alicate, ele enrola um arame em sua base para mantê-la no lugar quando, dali de cima, avista o hippie baixinho que tinha visto chegar no furgão da Twinkies deixar a residência dos Polanski e descer a entrada dos carros em direção ao seu automóvel. Enquanto segue enrolando o arame, ele acompanha o suspeito com seus olhos.

Charlie está prestes a embarcar no furgão da Twinkies quando sente que está sendo observado. Ele faz uma pausa. E então se vira. Ele vê um cara loiro, sem camisa, mexendo em uma antena de TV, olhando para ele de cima do telhado da casa do outro lado da rua.

Os homens estão muito distantes para que tenham um bom vislumbre um do outro.

Charlie estampa um dos seus sorrisões que se espalha pelo rosto inteiro, e dá um grande aceno ao cara loiro sem camisa.

Cliff não sorri nem acena de volta. Fica apenas fuzilando o hippiezinho moreno com o olhar enquanto enrola o arame na antena usando o alicate.

O sorriso desaparece do rosto de Charlie.

Então, de repente, Charlie começa a fazer uma de suas danças de homem das cavernas, gritando um monte de palavras sem sentido ainda por cima. Quando o Sr. Manson termina seu número espasmódico de dança, ele mostra o dedo médio para o babaca no telhado.

— Vai se foder, babaca!

O Sr. Manson embarca em seu furgão, liga o motor, engata a primeira marcha na caixa de câmbio e desce, entre engasgos e estalos, a ladeira da Cielo Drive.

Cliff fica olhando ele ir embora.

Em seguida, diz a si mesmo, em voz alta:

— Mas que porra foi essa?