Era Uma Vez em Hollywood

Quentin Tarantino · Capítulo 5 de 29

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Era Uma Vez em Hollywood

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Capítulo Um

“Pode me chamar de Marvin”

 

O alarme do ditafone na mesa de Marvin Schwarz emite um ruído. Os dedos do agente da William Morris mantêm a alavanca do aparelho pressionada.

— Está tocando para me avisar sobre a reunião das dez e meia, Srta. Himmelsteen?

— Isso, Sr. Schwarz — diz a voz de sua secretária pelo pequeno alto-falante. — O Sr. Dalton está aguardando aqui fora.

Marvin pressiona a alavanca novamente.

— Pode mandá-lo entrar quando você quiser, Srta. Himmelsteen.

Quando a porta do escritório de Marvin se abre, sua jovem secretária, a Srta. Himmelsteen, é a primeira a entrar. É uma jovem de 21 anos meio hippie. Está vestindo uma minissaia branca que exibe suas longas pernas bronzeadas, e os longos cabelos castanhos estão presos ao estilo Pocahontas, uma trança de cada lado. O galã de 42 anos Rick Dalton e seu topete castanho de rigueur, reluzindo de gel, surge logo atrás dela.

O sorriso de Marvin vai se abrindo à medida que ele se levanta da cadeira atrás da mesa. A Srta. Himmelsteen faz menção de apresentá-los, mas Marvin a interrompe.

— Srta. Himmelsteen, como eu acabo de ver uma porra de um festival dedicado a Rick Dalton, não precisa apresentar esse cara pra mim — diz ele, e então cruza a distância que os separa, estendendo a mão para que o intérprete de caubóis possa apertá-la. — Toca aqui, Rick.

Rick sorri e dá um tremendo aperto de mão efusivo ao agente.

— Rick Dalton. Muito obrigado, Sr. Schwartz, por arrumar um tempo para me encontrar.

Marvin o corrige.

— É Schwarz, não Schwartz.

Jesus Cristo, mal cheguei e já caguei tudo, pensa Rick.

— Puta que pariu… me desculpe por isso… Sr. Sch-WARZ.

Dando uma última sacudida na mão de Dalton, o Sr. Schwarz diz:

— Pode me chamar de Marvin.

— Marvin, pode me chamar de Rick.

— Rick…

Eles soltam as mãos.

— Quer que a Srta. Himmelsteen lhe traga alguma coisa gostosa para beber?

Rick gesticula, recusando a oferta.

— Não, não. Estou bem.

Marvin insiste.

— Nada? Tem certeza? Café, Coca, Pepsi, Simba?

— Beleza — diz Rick. — Um cafezinho, então.

— Boa.

Dando um tapinha no ombro do ator, Marvin volta-se para sua jovem Sexta-Feira.

— Srta. Himmelsteen, você faria a gentileza de trazer um cafezinho para o meu amigo Rick aqui? E eu também vou querer um.

A jovem assente e cruza a extensão do escritório. Quando começa a fechar a porta às suas costas, Marvin grita para ela:

— Ah, e não me traz aquele chorume da Mawell House que eles bebem lá no lounge. Vai no escritório do Rex — orienta. — Ele sempre tem uns cafés classudos. Menos aquela merda turca.

— Sim, senhor — responde a Srta. Himmelsteen, e depois se vira para Rick. — Como gosta do seu café, Sr. Dalton?

Rick vira-se para ela e diz:

— Ora, nunca ouviu falar? Preto é lindo!

Marvin solta uma gargalhada que parece o som de uma buzina, enquanto a Srta. Himmelsteen cobre a boca com suas mãos, escondendo uma risadinha. Antes que a secretária consiga fechar a porta às suas costas, Marvin grita:

— Ah, e Srta. Himmelsteen, a menos que minha mulher e meus filhos tenham sido atropelados, suspenda minhas ligações. Na verdade, se minha mulher e meus filhos estiverem mortos eles vão continuar tão mortos daqui a meia hora quanto estão agora; então, suspenda todas as minhas ligações.

O agente gesticula para que o ator se sente em um dos dois sofás de couro virados frente a frente, com uma mesinha de centro entre eles, e Rick se acomoda.

— Em primeiro lugar — diz o agente —, quero transmitir os cumprimentos de minha esposa, Mary Alice Schwarz! Fizemos uma sessão dupla de Rick Dalton na nossa casa ontem à noite.

— Uau. Isso me deixa feliz e também um pouco constrangido — diz Rick. — O que vocês assistiram?

— As cópias de exibição de O Curtidor e Os 14 Punhos de McCluskey.

— Bom, esses são dois dos bons — diz Rick. — Quem dirigiu McCluskey foi Paul Wendkos. Ele é meu diretor favorito, dirigiu Gidget. Quase participei desse. Tommy Laughlin ficou com o meu papel — explica, e segue em frente em tom magnânimo: — Mas tudo bem, eu gosto do Tommy. Ele me colocou na primeira peça realmente grande que eu fiz.

— É mesmo? — pergunta Marvin. — Você fez muito teatro?

— Não muito — diz ele. — Enchia o saco fazer a mesma merda todo dia.

— Então Paul Wendkos é o seu diretor favorito? — pergunta Marvin.

— Pois é. Comecei a carreira com ele. Estou no filme dele com o Cliff Robertson, A Batalha do Mar de Coral. Dá pra ver eu e o Tommy Laughlin nos fundos do submarino durante a porra do filme inteiro.

Marvin solta um de seus clássicos aforismos sobre a indústria:

— Maldito Wendkos. O cara era especialista em ação, mas totalmente subestimado.

— É muito verdade. E quando eu lancei Lei da Recompensa, ele dirigiu uns sete ou oito episódios — diz Rick e então, mendigando um elogio, acrescenta: — Espero que a sessão dupla de Rick Dalton não tenha sido muito dolorosa para você e a sua esposa…

Marvin ri.

— Dolorosa? Pare com isso. Achei maravilhoso, mil vezes maravilhoso. Mary Alice e eu assistimos a O Curtidor juntos. Ela não gosta da violência dos filmes de hoje em dia; então, eu deixei pra assistir a McCluskey sozinho, depois que ela foi se deitar.

Ouve-se então uma leve batida na porta do escritório, segundos antes da entrada da Srta. Himmelsteen de minissaia, trazendo duas xícaras de café fumegante para Rick e Marvin. Ela entrega cuidadosamente as bebidas quentes aos dois cavalheiros.

— Esse é do escritório do Rex, né?

— O Rex disse que você está devendo um charuto pra ele.

O agente dá uma bufada.

— Aquele judeu sovina filho de uma puta, a única coisa que estou devendo a ele é uma surra.

Todos riem.

— Obrigado, Srta. Himmelsteen; isso é tudo por enquanto.

A secretária sai, deixando os dois homens a sós para conversarem sobre o mercado de entretenimento, a carreira de Rick Dalton e, mais importante que isso, sobre seu futuro.

— Onde eu estava? — pergunta Marvin. — Ah, sim, a violência nos filmes de hoje em dia, Mary Alice não gosta. Mas ela ama um faroeste. Sempre amou. Vimos muitos filmes desse tipo durante todo o nosso namoro. Ver faroeste juntos é uma das nossas coisas favoritas, e nós gostamos demais de O Curtidor.

— Ahhh, que legal — diz Rick.

— Agora, sempre que fazemos essas sessões duplas — explica Marvin —, quando chega ali pelos últimos três rolos do primeiro filme, Mary Alice já está dormindo no meu colo. Mas com O Curtidor ela aguentou quase até o último rolo, e já eram nove e meia. É uma marca muito boa para a Mary Alice.

Enquanto Marvin explica a Rick os hábitos que o casal feliz cultiva ao assistir a filmes, Rick toma um gole do café quente.

Cara, isso é bom, pensa o ator. O tal Rex tem mesmo uns cafés classudos.

Marvin continua:

— O filme acabou, ela foi pra cama. Eu abri uma caixa de Havana, me servi um conhaque, e assisti ao segundo filme sozinho.

Rick toma outro gole do delicioso café de Rex.

Marvin aponta para a xícara.

— Bom esse troço, né?

— O quê? — pergunta Rick. — O café?

— Não, o pastrami. Claro que é o café — diz Marvin, com a típica malandragem de Catskill.

— Porra, sensacional — concorda Rick. — Onde ele consegue isso?

— Em uma delicatéssen aqui em Beverly Hills, mas ele não diz qual — diz Marvin, e então volta a descrever os hábitos de espectadora de Mary Alice. — Hoje de manhã, depois do café, e depois que eu já tinha saído para trabalhar, o projecionista, Greg, foi lá em casa e rodou o último rolo para que ela pudesse ver como o filme termina. E essa é a nossa rotina quando vemos filmes. Gostamos muito dela. Mary Alice estava muito ansiosa para saber como O Curtidor acabava. Acho que ela já percebeu que até o final do filme você vai acabar matando seu pai, Ralph Meeker.

— Bom, pois é, esse é o problema desse filme — diz Rick. — Não é se eu vou matar o patriarca dominante, mas quando. E não é se o Michael Callan, meu irmão sensível, vai me matar, mas quando.

Marvin concorda.

— Verdade. Mas nós dois achamos que você e o Ralph Meeker tinham muita química em cena.

— Sim, eu também — responde Rick. — Formamos mesmo uma boa equipe de pai e filho. O maldito Michael Callan parecia adotado. Mas, no meu caso, dá para acreditar que o Ralph era o meu velho.

— Bom, o motivo da química de vocês é que os dois falam um dialeto parecido.

Rick ri.

— Principalmente comparado ao maldito Michael Callan, que mais parecia um surfista de Malibu.

Ok, pensa Marvin, essa é a segunda vez que o Rick fala mal de Michael Callan, seu parceiro de cena em O Curtidor. Não é um bom sinal. Sugere uma mesquinhez de espírito. Uma pessoa que aponta dedos. Mas Marvin guardou os pensamentos para si.

— Eu achei o Ralph Meeker sensacional — diz Rick ao agente. — Porra, o melhor ator com quem já trabalhei, e olha que eu trabalhei com o Edward G. Robinson! Ele também apareceu em dois dos melhores episódios de Lei da Recompensa.

Marvin continua falando sobre a sessão dupla de Rick Dalton na noite anterior.

— O que nos leva a Os 14 Punhos de McCluskey! Que filme! Muito divertido.

Marvin faz de conta que está atirando com uma metralhadora.

— Todos aqueles tiroteios e mortes! Quantos nazistas filhos da puta você mata nesse filme? Uns cem? Cento e cinquenta?

Rick ri.

— Nunca contei, mas acho que deve ser isso mesmo, uns 150.

Marvin os xinga para si mesmo.

— Nazistas de merda… E é você mesmo operando aquele lança-chamas, né?

— Pode apostar que sim — diz Rick. — E, meu amigo, deixa eu te dizer uma coisa: você não ia querer ficar do lado errado dessa arma maluca. Eu treinei com aquele dragão três horas por dia durante duas semanas. E não só para ficar bem em cena, mas porque eu me cagava de medo daquela porra, juro.

— Extraordinário — diz o agente impressionado.

— Foi pura sorte eu ter conseguido esse papel — diz Rick a Marvin. — Originalmente ele era do Fabian. Mas aí, oito dias antes do começo das filmagens, ele deslocou o ombro gravando um episódio de O Homem da Virgínia. O Sr. Wendkos lembrou de mim e conseguiu convencer a Columbia a pedir para a Universal me liberar para fazer McCluskey — explica Rick, e então conclui a história da maneira que sempre faz: — No fim, eu fiz cinco filmes quando era contratado da Universal. Mas qual foi o de maior sucesso? O que eu fiz cedido para a Columbia.

Marvin retira uma cigarreira de ouro do bolso interno do casaco e a abre fazendo um barulho. Ele oferece um cigarro a Rick.

— Aceita um Kent?

Rick pega um cigarro.

— Gostou da cigarreira?

— É muito bonita.

— Foi um presente. Do Joseph Cotten. Um dos meus clientes mais queridos.

Rick dá a Marvin a expressão impressionada que o agente está esperando.

— Recentemente consegui um papel para ele em um filme do Sergio Corbucci e outro em um do Ishiro Honda, e esse foi o jeito dele de me agradecer.

Aqueles nomes não significavam nada para Rick.

Enquanto o Sr. Schwarz escorrega a cigarreira de ouro de volta para dentro do bolso interno do casaco, Rick puxa rapidamente o isqueiro do bolso da calça. Ele abre a tampa do Zippo prateado e acende os dois cigarros fazendo um charme. Depois, fecha a tampa do Zippo estilosa e ruidosamente. Marvin ri daquela exibição de fanfarronice, e depois dá um trago.

— O que você fuma? — pergunta Marvin.

— Capitol W Lights. Mas também fumo Chersterfield, Red Apple e, não ria, Virgina Slims.

Marvin ri mesmo assim.

— Ah, eu gosto do sabor — diz Rick, à guisa de justificativa.

— Estou rindo do Red Apple — explica Marvin. — Esse cigarro é um pecado contra a nicotina.

— Eles patrocinavam Lei da Recompensa, acabei me acostumando. Além disso, achei que seria esperto ser visto fumando a marca em público.

— Muito esperto — diz Marvin. — Agora, Rick, o Sid é o seu agente. E ele me pediu para que eu te recebesse.

Rick balança a cabeça.

— Você sabe por que ele me pediu isso?

— Para saber se você gostaria de trabalhar comigo? — responde Rick.

Marvin ri.

— Bom, em última análise, sim. Mas o que eu estou querendo dizer é: você sabe o que eu faço aqui na William Morris?

— Sei — diz Rick. — Você é agente.

— Sim, mas o Sid já é o seu agente. Se eu fosse apenas um agente, você não estaria aqui — explica Marvin.

— Sim, você é um agente especial.

— De fato, eu sou — concorda o agente, e então, apontando para Rick com seu cigarro fumegante, acrescenta: — Mas eu quero que você diga para mim o que você acha que eu faço.

— Bom, o que me disseram foi que você coloca atores americanos famosos em filmes estrangeiros.

— Nada mau — diz Marvin.

Agora que os dois cavalheiros estão entendidos, ambos dão profundas tragadas em seus Kents. Marvin solta um longo jato de fumaça e começa seu discurso:

— Agora, Rick, como vamos nos conhecer melhor, uma das primeiras coisas sobre mim que você vai aprender é que nada, e quando digo isso é porque é nada mesmo, é mais importante para mim do que a minha carteira de clientes. O motivo pelo qual eu tenho os contatos que eu tenho na indústria cinematográfica italiana, alemã, japonesa e filipina é tanto pelos clientes que eu represento quanto pelo que a minha carteira de clientes representa. Ao contrário dos outros agentes, eu não trabalho com quem já-foi-alguma-coisa. Eu estou no ramo da realeza de Hollywood. Van Johnson, Joseph Cotten, Farley Granger, Russ Tamblyn, Mel Ferrer.

O agente diz cada nome como se recitasse a escalação de um Monte Rushmore hollywoodiano.

— A realeza de Hollywood com uma filmografia temperada por clássicos atemporais!

O agente dá um exemplo lendário.

— Quando o bêbado do Lee Marvin abandonou o papel do Coronel Mortimer em Por uns Dólares a Mais três semanas antes do início das filmagens, fui eu quem convenceu o Sergio Leone a arrastar aquela bunda gorda até o Sportsmen’s Lodge e tomar um café com o Lee Van Cleef, que estava limpo e sóbrio.

O agente deixa que a magnitude da história se acomode ao ambiente. Em seguida, dá uma tragada despretensiosa em seu Kent, assopra a fumaça, e solta mais um de seus famosos aforismos sobre a indústria:

— E o resto, como dizem, é mitologia dos faroestes do novo mundo.

Marvin olha fixamente para o intérprete de caubóis sentado do outro lado da mesa de vidro.

— Lei da Recompensa era um bom seriado, Rick. Você estava bem nele. Um monte de gente vem pra cá e fica famoso fazendo qualquer merda. Pergunta pro Gardner McKay.

Rick ri da alfinetada em Gardner McKay. Marvin continua:

— Mas Lei da Recompensa era um seriado de faroeste muito bom. E esse mérito é seu, e você deve se orgulhar. Mas, agora, você precisa pensar no futuro… Mas antes de falar do futuro, deixa eu entender um pouco melhor essa história.

Enquanto os dois homens fumam seus cigarros, Marvin começa a fazer perguntas para Rick como se ele estivesse em um game show ou sendo interrogado pelo FBI.

—Tá, Lei da Recompensa. Passava na NBC, né?

— Isso. NBC.

— Quanto tempo?

— Quanto tempo o quê?

— Quanto tempo tinha o programa?

— Bom, era um programa de meia hora; então, tinha vinte e três minutos, mais os comerciais.

— E quanto tempo durou?

— Nós entramos na grade de exibição no outono da temporada de 1959-1960.

— E quando vocês saíram do ar?

— Na metade da temporada de 1963-1964.

— Chegou a ser colorido?

— Nunca foi colorido.

— Como você foi parar no programa? Você veio do nada, ou a emissora lapidou você?

— Apareci num episódio de Histórias da Wells Fargo. Interpretei Jesse James.

— E foi isso que chamou a atenção deles?

— Isso, mas mesmo assim precisei fazer um teste, e tive de me sair muito bem. Mas, sim, foi isso.

— Você pode me descrever os filmes que você fez durante o seu hiato?

— Bom, o primeiro foi A Revolta dos Comanches, estrelado por um Robert Taylor já bem velho e bem feio. Mas essa acabou virando a temática de quase todos os meus filmes — explica Rick. — Uma parceria entre um cara velho e um cara jovem. Eu e Robert Taylor. Eu e Stewart Granger. Eu e Glenn Ford. Nunca era eu sozinho — explica o ator, frustrado. — Era sempre com um velho de merda.

— Quem dirigiu A Revolta dos Comanches? — pergunta Marvin.

— Bud Springsteen.

Marvin faz uma observação:

— Eu notei no seu currículo que você trabalhou com uma caralhada desses diretores antigos da Republic Pictures, Springsteen, William Witney, Harmon Jones, John English…

— Os caras que resolvem a bronca — diz Rick, com uma risada, e em seguida esclarece: — Mas Bud Springsteen não era um cara que só resolvia a bronca. Ele não fazia só isso. O Bud era diferente dos outros.

A declaração deixa Marvin interessado.

— Qual é a diferença?

— Hã?

— Entre o Bud e os outros caras que só resolvem a bronca — pergunta Marvin. — Qual é a diferença?

Rick não precisa pensar na resposta porque já havia chegado a ela anos atrás, quando participava de um episódio de Whirlybirds com Craig Hill, dirigido por Bud.

— O Bud tinha a mesma quantidade de tempo que todos esses outros diretores de merda — diz Rick, com autoridade. — Nem um dia, nem uma hora, nem um pôr do sol mais do que qualquer outro. Mas era o que ele fazia com aquele tempo que o tornava bom. A gente tinha orgulho de trabalhar pro Bud — afirma, com sinceridade.

Marvin gosta daquilo.

— E o maldito do Wild Bill Witney foi quem me abriu as portas — diz Rick. — Foi ele que me deu meu primeiro papel de verdade. Um personagem com nome, sabe? E depois me deu meu primeiro papel principal.

— Em qual filme? — pergunta Marvin.

— Ah, era um desses filmes de carros e delinquentes juvenis da Republic — explica Rick.

— Qual era o título? — pergunta Marvin.

— Corredores sem limite. E eu participei de uma porra de um Tarzan com o Ron Ely nesse último ano.

Marvin ri.

— Então vocês se conhecem há muito tempo?

— Eu e o Bill? Pode apostar.

Rick está mergulhando em suas lembranças e percebe que está indo muito bem; então, decide ir mais fundo.

— Vou te falar uma coisa sobre aquele desgraçado do Witney: ele é o diretor de ação mais subestimado dessa cidade de merda. O Bill Witney não era apenas um diretor de ação; ele inventou a direção de ação. Você disse que gosta de faroeste... Sabe aquela sequência de ação do Yakima Canutt em que ele salta de um cavalo pro outro e depois deita no chão com tudo em movimento em No Tempo das Diligências, do John Ford?

Marvin faz que sim com a cabeça.

— O desgraçado do Witney tinha feito isso antes, um ano antes do John Ford e com o desgraçado do Yakima Canutt!

— Eu não sabia disso — diz Marvin. — Em qual filme?

— Ele ainda nem tinha dirigido o primeiro filme — explica Rick. — Ele fez essa sequência pra um maldito seriado. Agora deixa eu te falar como é ser dirigido por William Witney. O Bill trabalha partindo do princípio de que não existe nenhuma cena já escrita que não possa ser melhorada acrescentando-se uma briga de soco.

Marvin ri.

Rick continua:

— Eu estava lá gravando um episódio de Riverboat, sendo dirigido pelo Bill. Eu e o Burt Reynolds em cena. A gente estava lá fazendo a cena, falando as nossas falas. Daí o Bill diz: “Corta, corta, corta! Vocês estão me deixando com sono desse jeito. Burt, quando ele disser isso, você dá um soco nele. E Rick, quando ele der o soco, você vai ficar puto e vai bater nele de volta. Entenderam? OK, ação!” Daí a gente gravou daquele jeito. E quando terminamos, ele gritou, ‘Corta! Pronto, rapazes, agora temos uma cena!’

Os dois riem dentro da nuvem de fumaça que tomou conta do escritório. Marvin está começando a gostar da percepção que Rick tem sobre sua experiência em Hollywood, conquistada a duras penas.

— Agora me fala sobre esse filme com o Stewart Granger que você mencionou — pede Marvin.

— A Caçada — diz Rick. — Uma montanha de merda sobre um grande caçador branco na África. Até quem assistiu nos aviões queria sair da sala.

Marvin dá uma gargalhada.

Rick informa ao agente:

— Stewart Granger foi disparado o maior babaca com quem já trabalhei. E olha que eu trabalhei com o Jack Lord!

Os dois riem da alfinetada, e Marvin pergunta:

— E você fez um filme com o George Cukor?

— Sim — diz Rick. — Um tremendo abacaxi chamado A Vida Íntima de Quatro Mulheres. Ótimo diretor, péssimo filme.

— Foi difícil trabalhar com Cukor?

— Tá brincando? — pergunta Rick. — George gostou de mim pra caralho!

Então, Rick se inclina levemente sobre a mesa de centro e diz, de uma forma insinuante, em um tom de voz mais baixo:

— E digo pra caralho literalmente.

O agente sorri, fazendo com que o ator saiba que ele entendeu a insinuação.

— Eu acho que o George tem essa coisa — especula Rick. — Em todo filme ele fica maluco por algum dos garotos. Nesse filme estava entre mim e o Efrem Zimbalist Jr., mas acho que fui eu quem ganhou — diz ele, e segue ilustrando: — Nesse filme, todas as minhas cenas eram com a Glynis Johns. Nós dois dentro de uma piscina. A Glynis de maiô. Tudo o que dá pra ver são as pernas e os braços, o resto está todo coberto. Já eu estou usando a menor sunga que os censores permitiriam. Agora pensa, uma sunga cor de pele. Em um filme preto e branco? Parece que eu tô pelado, porra! E não é só uma cena minha pulando na piscina. Eu estou com essa sunga minúscula em cenas com diálogos enormes, e a minha bunda ali na tela por uns dez minutos ao longo da porra do filme inteiro. Quer dizer, que merda é essa? Eu virei a Betty Grable agora?

Novamente os dois homens riem, enquanto Marvin retira um caderninho de capa de couro do bolso interno do casaco, oposto ao que contém a cigarreira de ouro de Joseph Cotten.

— Eu pedi para algumas fontes darem uma sondada nos seus números na Europa. E, pelo que disseram, até agora, você está bem — diz, e, depois de procurar algumas anotações no caderninho, pergunta em voz alta: — Lei da Recompensa foi exibido na Europa?

Então, Marvin encontra a página que está procurando e tira os olhos dela para olhar para Rick.

— Sim, foi. Bom.

Rick sorri.

Marvin olha novamente para o caderno:

— Onde? — pergunta para si.

Quando encontra a página com a informação, responde:

— Itália, bom. Inglaterra, bom. Alemanha, bom. Mas França, não.

E então, ele olha para Rick e diz, em tom de consolo:

— Mas Bélgica, sim. Então, conhecem você na Itália, na Inglaterra, na Alemanha e na Bélgica. OK, esses são dados do seriado de TV. Mas você fez alguns filmes. Qual foi o desempenho deles?

Marvin volta a olhar para o caderninho em suas mãos, folheando suas páginas pequenas, pesquisando seus conteúdos.

— Na verdade — diz ele, encontrando o que procura. — Seus três faroestes, A Revolta dos Comanches, Hellfire, Texas e O Curtidor, foram relativamente bem na Itália, na França e na Alemanha. Sendo que O Curtidor foi muito bem na França. Você lê em francês?

— Não — responde Rick.

— Pena — diz Marvin, enquanto retira uma xerox dobrada de dentro do caderninho e a oferece a Rick por cima da mesa de centro. — Essa é uma crítica de O Curtidor publicada na Cahiers du Cinéma. É uma crítica positiva, muito bem escrita. Você deveria mandar traduzir.

Rick pega o papel e balança a cabeça, concordando com a sugestão do agente, embora o ator saiba muito bem que jamais fará aquilo.

Mas então Marvin ergue a cabeça para olhar Rick nos olhos e diz, em uma empolgação repentina:

— Mas a melhor notícia dessa porra toda: Os 14 Punhos de McCluskey!

O rosto de Rick se ilumina. Marvin continua:

— O lançamento dele por aqui foi bom, para um filme da Columbia. Mas, na Europa, puta que pariu!

Marvin abaixa sua cabeça para ler a informação à sua frente.

— Aqui diz que Os 14 Punhos de McCluskey foi um sucesso estrondoso em toda a Europa. Passou em todos os lugares, e ficou tempo para cacete em cartaz! — informa Marvin, que fecha o caderno e conclui: — Então, eles sabem quem você é na Europa. Eles conhecem o seu programa de TV. Mas, além de ser o cara do Lei da Recompensa, lá você é aquele bambambã de tapa-olho e lança-chamas que mata 150 nazistas em Os 14 Punhos de McCluskey.

Após essa declaração impactante, Marvin apaga seu Kent no cinzeiro e pergunta:

— Qual foi o seu último filme a ser lançado?

Agora é a vez de Rick apagar o cigarro no cinzeiro, enquanto resmunga:

— Um filme infantil horrível feito para o público das matinês chamado Salty, a Lontra Falante.

Marvin sorri.

— Vou partir do princípio que você não é o protagonista.

Rick abre um largo sorriso para a piada do agente, embora não considere engraçado nada a respeito daquele filme.

— A Universal me desovou nesse filme pra encerrar meu contrato de quatro filmes — explica Rick. — O que só serve pra mostrar o quanto eles estavam pouco se fodendo pra mim. Eu lembro daquele babaca do Jennings Lang me vendendo todo um pacote de benefícios. Me seduzindo para eu ir trabalhar com a Universal com um contrato de quatro filmes. A Avco Embassy estava me oferecendo um contrato. A National General Pictures estava me oferecendo um contrato. A Irving Allen Productions estava me oferecendo um contrato. Recusei todos e assinei com a Universal porque eles eram os maiores. E porque Lang me disse: “A Universal quer entrar no ramo do Rick Dalton.” Depois que eu assinei, nunca mais vi aquele babaca de novo.

E então, fazendo alusão à vez em que o produtor de Invasores de Corpos, Walter Wanger, deu um tiro na virilha de Lang por estar comendo Joan Bennett, mulher dele, Rick diz:

— Se tem alguém que merece ter o saco arrancado com um tiro é aquele babaca do Jennings Lang. A Universal nunca quis entrar no ramo do Rick Dalton.

Rick pega sua xícara de café e toma um gole. Esfriou. Ele o coloca de volta na mesa dando um suspiro.

Marvin continua:

— Então, nos últimos dois anos, você esteve fazendo participações especiais em episódios de seriados de TV?

Rick faz que sim com a cabeça.

— Isso. Estou fazendo um piloto para a CBS agora, Lancer. Eu faço o vilão. Eu fiz um Besouro Verde. Um Terra de Gigantes. Um Tarzan com o Ron Ely, aquele que eu disse que fiz com o William Witney. E também um Bingo Martin com aquele moleque, Scott Brown.

Rick não gosta de Scott Brown; então, quando menciona seu nome, não consegue esconder um olhar de desprezo.

— E acabei de fazer um FBI pro Quinn Martin — acrescenta ele.

Marvin toma um gole do seu café, embora esteja um pouco frio.

— Então você está muito bem.

— Eu tenho trabalhado — diz Rick, como se estivesse corrigindo.

— Você interpretou o vilão em todos esses programas? — pergunta Marvin.

— Em Terra dos Gigantes, não, mas no resto, sim.

— E todos acabam em cenas de luta?

— Mais uma vez, em Terra dos Gigantes, não, nem em FBI, mas no resto, sim.

— Agora, a pergunta de 64 mil dólares — diz Marvin —, você perdia a luta?

— É claro — diz Rick. — Eu sou o vilão.

Marvin solta um enorme “ahhhh” para reforçar seu ponto.

— Esse é um truque antigo das emissoras. Veja Bingo Martin, por exemplo. Você tem um novato como Scott Brown, e quer fazer a imagem dele. Então, você chama um cara de algum programa cancelado para fazer o papel do vilão. E aí, no final do episódio, quando eles lutam, é o herói quem leva a melhor sobre o vilão.

Marvin continua, explicando:

— O que o público vê ali é o Bingo Martin enfiando a porrada no cara do Lei da Recompensa.

Ai, pensa Rick. Essa doeu, caralho.

Mas Marvin ainda não tinha acabado.

— Na outra semana, é o Ron Ely de tanga. E, na semana seguinte, é o Bob Conrad com uma calça justinha enfiando a porrada em você — diz Marvin, batendo com o punho direito fechado na palma da mão esquerda aberta para dar efeito. — Continue interpretando o saco de pancada para todo novato arrogante que surgir na emissora, e isso vai surtir um efeito psicológico na maneira como a audiência enxerga você.

A humilhação masculina contida no que Marvin está insinuando, embora esteja se referindo especificamente à interpretação dramática, faz a testa de Rick transpirar. Eu sou um saco de pancadas? Foi isso o que virou a minha carreira? Perder a luta para o novato arrogante da temporada? Foi assim que Tris Coffin, estrela de 26 Homens, se sentiu quando perdeu a luta para mim em Lei da Recompensa? Ou Kent Taylor?

Enquanto Rick mergulha nesses pensamentos, Marvin muda de assunto.

— Agora, pelo menos quatro pessoas já me contaram uma história sobre você — começa Schwarz —, mas nenhuma delas sabe a história inteira; então, eu quero que você me conte. Que história é essa de você quase ter feito o papel do McQueen em Fugindo do Inferno?

Ah, caralho, essa merda dessa história de novo, pensa Rick. Embora não esteja nada feliz, ele ri, para o deleite de Marvin.

— Essa história só faz sucesso com o público do Sportsmen’s Lodge — diz Rick. — Sabe como é, o papel que você quase conseguiu. O peixe que escapou.

— Essas são as minhas histórias favoritas — diz o agente. — Me conta.

Rick já tinha sido obrigado a contar aquela anedota tantas vezes que havia reduzido o conto aos elementos mais básicos. Engolindo seu ressentimento, Rick interpreta um papel que está um pouco além de suas capacidades: o de ator humilde.

— Bem, dizem que na mesma época em que John Sturges ofereceu para McQueen o papel de Hilts, o Rei da Solitária, protagonista de Fugindo do Inferno, Carl Foreman — diz Rick, fazendo referência ao poderoso roteirista e produtor de Os Canhões de Navarone e A Ponte do rio Kwai — estava fazendo a sua estreia na direção com um filme chamado Os Vitoriosos. Ele ofereceu a McQueen um dos papéis principais, e, aparentemente, McQueen ficou tão indeciso que Sturges foi obrigado a fazer uma lista de possíveis substitutos para o personagem. E, aparentemente, eu estava nessa lista.

Marvin pergunta:

— Quem mais estava na lista?

— Eram quatro nomes. Eu e os três Georges: Peppard, Maharis e Chakiris.

— Bem — reforça Marvin, entusiasmado —, dessa lista, eu consigo ver facilmente você pegando esse papel. Quer dizer, se o Paul Newman estivesse na lista, talvez não, mas com esses merdas desses Georges?

— Bom, o McQueen acabou ficando com o papel; então, que diferença faz? — pergunta Rick, dando de ombros.

— Não — insiste Marvin —, essa é uma boa história. Dá pra ver você nesse papel. Os italianos vão adorar!

Marvin Schwarz, então, explica a Rick Dalton como funciona a indústria do cinema de gênero na Itália.

— McQueen não trabalha com os italianos de jeito nenhum. Que se fodam os carcamanos, é o que ele diz. Fala pra eles chamarem o Bobby Darin, é o que diz o maldito. Ele vai pra Indochina por nove meses pra filmar com o Robert Wise, mas não passa dois meses na Cinecittà com o Guido DeFatso por dinheiro nenhum nesse mundo.

Se eu estivesse na posição do Steve, eu também não perderia meu tempo numa porra de um faroeste de carcamano, pensa Rick.

Marvin continua:

— Dino De Laurentis se ofereceu para comprar uma casa de campo pra ele em Florença. Produtores italianos ofereceram meio milhão de dólares e uma Ferrari zero-quilômetro por dez dias de trabalho em um filme da Gina Lollobrigida — diz Marvin, e faz um adendo: — Isso sem contar que quase com certeza a buceta da Lollobrigida estava incluída no pacote.

Os dois riem.

Bom, aí já é uma outra história, pensa Rick. Eu faria qualquer filme do mundo se eu achasse que poderia comer a Anita Ekberg.

— Mas — diz Marvin —, isso só fez com que os italianos o quisessem ainda mais. Então, por mais que o Steven sempre diga não, e o Brando sempre diga não, e o Warren Beatty sempre diga não, os italianos continuam tentando. E quando não conseguem nenhum deles, os caras aceitam.

— Eles aceitam? — repete Rick.

Marvin ilustra em maiores detalhes:

— Eles querem o Marlon Brando, aceitam o Burt Reynolds; querem o Warren Beatty, aceitam o George Hamilton.

Enquanto Rick suporta a autópsia que Marvin está fazendo em sua carreira, sente a ardência e a pontada das lágrimas que começam a se formar em seus globos oculares.

Marvin, indiferente à angústia de Rick, conclui:

— Não estou dizendo que os italianos não querem você. Estou dizendo que eles vão querer. Mas o motivo pelo qual vão querer você é porque eles querem o McQueen, mas eles não vão conseguir o McQueen. E quando eles finalmente se derem conta de que não vão conseguir o McQueen, eles vão querer o McQueen que eles podem conseguir. E esse é você.

A franqueza cristalina e brutal das palavras de Marvin choca Rick Dalton tanto quanto se o agente tivesse lhe dado um tapa na cara com a maior força possível com a mão encharcada.

Por outro lado, do ponto de vista de Marvin, todas aquelas notícias eram boas. Se Rick Dalton estivesse sendo cogitado com frequência como protagonista para os filmes dos estúdios, não estaria tendo uma reunião com Marvin Schwarz.

Além disso, Rick era quem havia pedido para se encontrar com Marvin. Rick é quem quer expandir a carreira de protagonista de cinema em vez de interpretar o bandido da vez na televisão. E é o trabalho de Martin explicar para ele as realidades e possíveis oportunidades de uma indústria cinematográfica sobre a qual ele não sabe merda nenhuma. Uma indústria na qual Marvin é um especialista reconhecido. E, na opinião especializada de Marvin, o fato de Rick Dalton ser parecido com um dos maiores astros do cinema do mundo é uma oportunidade maravilhosa para um agente que coloca atores americanos famosos em filmes do cinema italiano. Então, é compreensível que Marvin fique confuso ao notar as lágrimas rolando pelo rosto de Rick Dalton.

— O que é isso, garoto? — pergunta o agente, atônito. — Você está chorando?

Incomodado e constrangido, Rick Dalton enxuga os olhos com o dorso da mão e diz:

— Me desculpe, Sr. Schwarz, eu peço perdão.

Marvin pega uma caixa de lenços na sua mesa e oferece a Rick, consolando o ator de dramalhão.

— Não precisa pedir desculpas. Todo mundo fica mexido de vez em quando. A vida é dura.

Rick puxa dois Kleenex da caixa, produzindo um som abrupto de rasgadura. Da maneira mais viril que é capaz de se mostrar dada a circunstância, ele enxuga os olhos com o lenço de papel.

— Tá tudo bem, só estou um pouco constrangido. Desculpe por essa cena humilhante.

— Cena? — resmunga Marvin. — Do que você está falando? Somos seres humanos, Rick. Seres humanos choram. Isso é uma coisa boa.

Rick termina de enxugar as lágrimas e estampa um sorriso forçado no rosto.

— Viu? Já passou. Foi mal.

— Foi mal nada — repreende Marvin. — Você é ator. Os atores precisam ser capazes de acessar as próprias emoções. Nós precisamos que os nossos atores chorem. Às vezes, essa habilidade cobra um preço. Agora me diga: qual é o problema?

Rick se recompõe, respira fundo, e diz:

— É só que eu venho fazendo isso há mais de dez anos, Sr. Schwarz. E é um pouco difícil ficar aqui sentado depois de todo esse tempo e encarar o fracassado que me tornei. Encarar o fato de que joguei minha carreira no lixo.

Marvin não entende.

— Como assim, fracassado?

Rick olha da outra ponta da mesa de centro e diz ao agente, de forma sincera:

— Sabe, Sr. Schwarz, houve uma época em que eu tinha potencial. Eu tinha. Dá pra ver em alguns dos meus trabalhos. Dá pra ver em Lei de Recompensa. Principalmente quando eu tinha uns atores convidados bons. Quando era eu e o Bronson, e eu e o Coburn, e eu e o Meeker, ou eu e o Vic Morrow. Eu tinha alguma coisa ali! Mas o estúdio insistia em me colocar naqueles filmes com aqueles velhos cagados. Agora, eu e o Chuck Heston? Aí era diferente. Eu e o Richard Wildmark, eu e o Mitchum, eu e o Hank Fonda, aí era diferente! E, em alguns dos filmes, a coisa está lá. Eu e o Meeker em O Curtidor. Eu e o Rod Taylor em McCluskey. Porra, até eu e o Glenn Ford em Hellfire, Texas. Àquela altura o Ford já estava pouco se fodendo, mas ele ainda parecia forte pra cacete, e nós dois ficávamos bem juntos na tela. Então, sim, eu tinha potencial. Mas, qualquer que fosse esse potencial que eu tinha, aquele babaca do Jennings Lang da Universal jogou tudo fora.

Então, o ator solta o ar de uma forma dramática e derrotada, e diz para o chão:

— E, que merda, eu também joguei.

Ele levanta seus olhos para encarar o agente.

— Eu joguei fora uma quarta temporada de Lei da Recompensa. Porque estava de saco cheio da TV. Eu queria ser um astro de cinema. Eu queria ser como o Steve McQueen. Se ele conseguia fazer aquilo, eu também conseguia. Se durante toda a terceira temporada eu não tivesse sido um pé no saco que não colaborava, poderíamos facilmente ter emplacado uma quarta. E a gente poderia ter feito tudo muito bem-feitinho e terminado tudo como amigos. Mas agora a Screen Gems me odeia. Aqueles merdas dos produtores do Lei da Recompensa vão me odiar pro resto da vida. E eu mereço! Eu fui um babaca naquela última temporada. Eu fiz questão de deixar bem claro pra todo mundo que eu tinha coisa melhor pra fazer do que estar ali gravando aquele programinha de TV de merda.

Os olhos de Rick se enchem de água novamente.

— Eu fiz aquele programa, Bingo Martin, odiando aquele babaca do Scott Brown. Mas eu nunca fui tão ruim quanto ele. Pode perguntar para os atores com quem eu trabalhei, para os diretores: eu nunca fui tão ruim quanto o Brown. E eu já tinha trabalhado com muitos caras babacas antes dele, mas sabe o que me pegou nesse babaca? Eu vi o quão ingrato ele era. E, quando eu notei isso, eu me enxerguei nele.

Rick olha para o chão novamente, sentindo pena sincera de si mesmo.

— Talvez ficar apanhando do novato arrogante da vez seja o meu destino.

Marvin fica escutando toda a explosão que emana de Rick Dalton com a boca bem fechada e os ouvidos bem abertos. Após um instante, o agente diz:

— Sr. Dalton, você não é o primeiro jovem ator a emplacar um seriado e deixar o sucesso subir à cabeça. Pra falar a verdade, é uma doença bastante comum por aqui. E mesmo assim… olhe pra mim…

Rick levanta seu olhar para encontrar o do agente.

— É perdoável — diz Marvin, mas acrescenta: — Mas você vai precisar fazer uma pequena reinvenção.

— E vou me reinventar como quem? — pergunta Rick.

— Como uma pessoa humilde — responde o agente.