Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Dois: “Eu sou curioso (Cliff)”
Capítulo Dois
“Eu sou curioso (Cliff)”
Com 46 anos da idade, o dublê de Rick Dalton, Cliff Booth, está sentado na sala de espera do escritório de Marvin Schwarz no terceiro andar do prédio da agência William Morris, folheando um exemplar exageradamente grande da revista Life que o agente oferece àqueles que aguardam.
Cliff veste um conjunto de calça e jaqueta jeans da Levi’s sobre uma camiseta preta. Seu look é um figurino descartado de um filme de motoqueiros de baixo orçamento no qual Cliff trabalhara três anos atrás. O ator e diretor Tom Laughlin, um velho camarada de Rick e amigo de Cliff (todos fizeram juntos Os 14 Punhos de McCluskey), o contratou para trabalhar como dublê de dois motoqueiros no filme de motoqueiros que ele estava estrelando e dirigindo para a American International Pictures (AIP), Nascidos Para Perder (que acabaria se tornando o maior sucesso da AIP daquele ano). No filme, Laughlin interpretava, pela primeira vez, o papel que daria vida a um dos mais populares personagens da cultura pop no cinema dos anos 1970, Billy Jack. Billy Jack era um veterano do Vietnã, metade nativo americano, especialista em Hapkido e que não se fazia de rogado em demonstrar sua arte para a violenta gangue de motoqueiros que, no filme, chamava-se Nascidos Para Perder (livremente inspirada nos Hells Angels).
Cliff trabalhou como dublê de um dos membros da gangue batizado de Gangrena, interpretado pelo velho amigo de Jeff Carradine, Jeff Cooper, com quem Cliff era meio parecido. Entretanto, na última semana de filmagens, o dublê de Tom deslocou o cotovelo (andando de skate no seu dia de folga). Então, Cliff o substituiu nas cenas de ação de Tom durante toda a última semana de filmagens.
Ao final da produção paupérrima, quando lhe deram a opção de receber 75 dólares ou ficar com o figurino de Billy Jack — que incluía um par de botas de couro — Cliff optou pelas roupas.
Quatro anos depois, Tom Laughlin estrelou e dirigiu Billy Jack, o filme, para a Warner Bros. Laughlin não estava contente com a maneira como o estúdio estava promovendo o filme. Então, adquiriu ele mesmo os direitos e saiu vendendo, de estado em estado, e de mercado em mercado, como o produtor de um circo nos velhos tempos. Laughlin arrendou salas de cinema e inundou a programação das emissoras de TV locais com propagandas instigantes voltadas para as crianças que assistiam à televisão à tarde, depois da escola. As inovações propostas pela distribuição independente de Laughlin, aliadas ao fato de que ele havia feito um filme excelente, tornaram Billy Jack um dos maiores sucessos improváveis da história de Hollywood. E quando isso aconteceu, o visual jeans de Cliff ficou tão fortemente identificado com o herói que distribuía chutes que ele teve que parar de usá-lo.
Enquanto a Srta. Himmelsteen atende ao telefone sentada atrás de sua escrivaninha na sala de espera (“Escritório do Sr. Schwarz”, pausa, “Perdão, ele está com um cliente agora; quem gostaria?”), Cliff está sentado no sofá colorido desconfortável ao lado dela, com a enorme Life aberta em seu colo, folheando as páginas. Acaba de ler a crítica de Richard Schickel sobre o novo filme sueco que estava deixando os puritanos americanos, e muitos formadores de opinião na imprensa, de cabelos em pé. O novo filme fez com que tanto Johnny Carson quanto Joey Bishop, bem como todos os humoristas, de Jerry Lewis a Moms Mabley, fizessem piadas com seu título peculiar.
Do sofá, Cliff fala com a Srta. Himmelsteen do outro lado da mesa:
— Você ouviu falar desse filme sueco, Eu Sou Curiosa (Amarelo)?
— Sim, acho que sim — diz a Srta. Himmelsteen. — É pra ser um filme de sacanagem, né?
— De acordo com a Corte de Apelações dos Estados Unidos, não — informa Cliff.
Lendo diretamente da revista, Cliff recita:
— “A pornografia é um trabalho que carece de um valor social redentor.” E, de acordo com o juiz Paul R. Hays, “Independentemente de considerarmos ou não as ideias do filme particularmente interessantes ou sua execução bem-sucedida do ponto de vista artístico, está bastante claro que Eu Sou Curiosa efetivamente apresenta ideias e efetivamente se esforça para apresentá-las de uma maneira artística.”
Ele abaixa a enorme revista e olha nos olhos da jovenzinha de tranças sentada do outro lado da mesa.
A Srta. Himmelsteen pergunta:
— O que isso quer dizer, exatamente?
— Exatamente — repete Cliff —, quer dizer que o sueco que dirigiu o filme não fez apenas um filme de sacanagem. Ele estava tentando fazer arte. E não importa se a pessoa acha que ele fracassou completamente. Não importa se a pessoa acha que o filme é o maior tolete de merda que já viu na vida. O que importa é que ele tentou fazer arte. A intenção não era fazer um filme indecente — explica Cliff, que, sorrindo e dando de ombros, acrescenta: — Pelo menos foi isso o que eu entendi dessa crítica.
— Parece provocante — é o comentário final da jovem de tranças.
— Concordo. Quer assistir comigo?
Um sorriso sarcástico se espalha pelo rosto da Srta. Himmelsteen, enquanto ela pergunta, com um timing perfeito de humor judeu:
— Você está me convidando pra assistir a um filme de sacanagem?
— Não — corrige Cliff. — De acordo com o juiz Paul Sei lá o que Hays, eu só estou te convidando pra assistir a um filme sueco. Onde você mora?
Sem conseguir se conter, ela responde instintivamente:
— Brentwood.
— Bom, eu conheço muito bem os cinemas em toda a região de Los Angeles. Você me deixaria escolher a sala?
Janet Himmelsteen está plenamente ciente de que ela nem sequer concordou em sair com Cliff. Mas tanto ela quanto Cliff sabem que ela vai dizer sim. A William Morris agora tem uma regra que impede as secretárias de minissaia de saírem com seus clientes. Mas esse cara não é um cliente. Rick Dalton é o cliente. Esse cara é só um amigo do Rick.
— Pode escolher — diz a jovem mulher.
— Sábia escolha — diz o homem mais velho.
Os dois sorriem quando a porta do escritório de Marvin se abre e Rick Dalton, usando sua jaqueta de couro marrom, emerge da sala do agente.
Cliff levanta-se rapidamente do sofá desconfortável e fixa o olhar em seu patrão para tentar deduzir como havia sido a reunião que tinha acabado de encerrar. E como Rick parecia meio suado e perturbado, Cliff achou que o resultado não havia sido muito bom.
— Tudo bem? — pergunta Cliff baixinho.
— Sim, tudo bem — responde Rick, secamente. — Vamos dar o fora daqui.
— Pode crer — diz Cliff.
Então Cliff, o dublê, gira sobre os calcanhares até ficar de frente para Janet Himmelsteen, num movimento tão ágil que ela chega a tomar um susto. Ela não dá um pio, mas se encolhe instintivamente. Agora que Cliff está de pé exatamente à sua frente (na verdade, em cima dela), sorrindo como um Huck Finn loiro embrulhado em jeans, a Srta. Himmelsteen percebe o quanto o cara é realmente atraente.
— Entra em cartaz na quarta — informa Cliff à jovenzinha. — Quando você quer ir?
Agora que ele vem com tudo pra cima dela, arrepios percorrem a parte carnuda de seus braços. Debaixo da mesa, seu pé direito, calçando uma sandália, sai do chão para acariciar a pele desnuda da panturrilha esquerda.
— Que tal sábado à noite? — pergunta ela.
— Que tal sábado à tarde — negocia Cliff. — Eu te levo numa Baskin-Robbins depois.
— Baskin-Robbins? — repete ela de uma maneira sarcástica e exageradamente empolgada. — Bom, eu não queria dizer sim, mas, agora, como posso dizer não?
— Você não é a única — revela Cliff. — Eu causo esse efeito nas pessoas. Você não quer me dizer sim, mas não consegue me dizer não.
Aquilo atiça Himmelsteen além da risadinha, fazendo-a emitir uma gargalhada. A gargalhada da garota é linda. Cliff diz isso a ela e descobre que ela também fica linda corada.
Ele estica o braço, puxa um dos cartões de visita dela de dentro do que parece ser um ponto de ônibus para cartões de visita feito de plástico transparente, e o traz até a altura dos olhos para ler.
— Janet Himmelsteen — lê ele em voz alta.
— Sou eu — diz ela, e ri, encabulada.
O dublê retira sua carteira de couro marrom do bolso de trás do jeans, abre, e faz toda uma cena para deslizar o cartão de visita branco da William Morris para dentro dela. Depois, o loirão começa a andar de costas pelo corredor para alcançar o patrão, sem deixar de proferir o blá-blá-blá engraçadinho para a secretária:
— Agora, lembre-se: se sua mãe perguntar, eu não estou te levando pra ver um filme de sacanagem. Estou te levando pra ver um filme estrangeiro. Com legendas.
Ele acena para ela um segundo antes de desaparecer pela quina da parede, dizendo:
— Te ligo na sexta.
* * *
Quando Cliff e a Srta. Himmelsteen assistiram a Eu Sou Curiosa (Amarelo) no Royal Cinema, em West LA naquela tarde de sábado, os dois gostaram. No tocante ao cinema, Cliff se aventura muito mais do que o patrão. Para Rick, cinema é aquilo que Hollywood produz e, com exceção da Inglaterra, todas as demais indústrias cinematográficas de outros países são apenas o melhor que podem fazer, uma vez que não são Hollywood. Mas, depois de todo o sangue e violência que Cliff testemunhou de perto durante a Segunda Guerra Mundial, assim que voltou para casa, ficou surpreso ao perceber o quanto considerava pueris os filmes de Hollywood. Havia algumas exceções — Consciências Mortas, Corpo e Alma, Fúria Sanguinária, O Terceiro Homem, Os Irmãos Rico, Rebelião no Presídio —, mas esses eram anomalias de uma falsa normalidade.
Assim que alguns países da Europa e da Ásia voltaram, lentamente, a fazer filmes após a devastação da Segunda Guerra Mundial, frequentemente seu pano de fundo eram os destroços dos bombardeios de guerra (Roma, Cidade Aberta; Os Eternos Desconhecidos), e assim descobriram que estavam dialogando com uma plateia muito mais adulta.
Enquanto isso, nos Estados Unidos — e, quando eu digo “Estados Unidos”, estou me referindo a “Hollywood” —, um país no qual os integrantes do front doméstico foram poupados dos detalhes mais sórdidos do conflito, seus filmes permaneceram teimosamente imaturos e lamentavelmente comprometidos com o conceito de entretenimento para toda a família.
Para Cliff, que havia testemunhado os terrores do extremismo humano (como as cabeças dos aliados de guerrilha filipinos cravadas em pontas de lanças pelos invasores japoneses), mesmo os atores mais populares da época — Brando, Paul Newman, Ralph Meeker, John Garfield, Robert Mitchum, George C. Scott — soavam o tempo todo como atores, e reagiam aos acontecimentos apenas como personagens de cinema fariam. Havia sempre um grau de artificialidade no personagem que os impedia de ser convincentes. Quando voltou aos Estados Unidos, o ator favorito de Cliff passou a ser Alan Ladd. Ele gostava da maneira como o diminuto Ladd ficava praticamente nadando dentro dos figurinos dos anos 1940 e 1950 que ele usava. Não gostava dos seus filmes de faroeste ou de guerra, porque Ladd desaparecia dentro das roupas dos caubóis e dos uniformes militares. Ele precisava vestir terno e gravata e, de preferência, usar um chapéu com a aba inclinada. Cliff gostava desse visual. Ladd era um cara bonito sem ser aquele bonito-galã-de-cinema. E, por ele mesmo ser bonito pra cacete, Cliff era fã de homens que não eram bonitos, mas que nem precisavam ser. Alan Ladd se parecia com alguns dos caras que serviram com ele. Ele também gostava do fato de Alan ter cara de americano. Mas ele simplesmente adorava a maneira como aquele tampinha brigava nos filmes. Ele adorava o jeito em que ele sentava a porrada em atores especializados em interpretar gângsteres. Adorava aquela mecha de cabelo que caía em seu rosto durante a luta. E adorava como Ladd costumava rolar no chão com os bandidos. Mas a coisa que ele mais gostava sobre Ladd? A voz. Ele dizia as falas de uma maneira direta, sem firulas. Quando Ladd contracenava com William Bendix, Robert Preston, Brian Donlevy ou Ernest Borgnine, todos pareciam amadores comparados a ele. Quando Ladd ficava irritado em um filme, ele não saía se comportando como um louco. Ele simplesmente ficava puto, como uma pessoa real. Na opinião de Cliff, Alan Ladd era o único cara no cinema que sabia pentear o cabelo, usar um chapéu, ou fumar um cigarro (OK, Mitchum também sabia fumar um cigarro).
Isso demonstra o quão pouco realistas Cliff achava os filmes de Hollywood. Quando assistiu a Anatomia de um Crime, de Otto Preminger, riu quando os jornais disseram que o filme tinha uma “linguagem escandalosamente adulta”. Ele brincou com Rick dizendo que “Só num filme de Hollywood para ‘espermicida’ ser considerado ‘escandalosamente adulto’”.
Por outro lado, quando assistia a filmes estrangeiros, via nos atores um grau de autenticidade que simplesmente não existia no cinema de Hollywood. O ator favorito de Cliff, sem sombra de dúvida, era Toshiro Mifune. Cliff ficava tão encantado olhando para o rosto de Mifune que, às vezes, se esquecia de ler as legendas. Outro ator estrangeiro que ele curtia era Jean-Paul Belmondo. Quando Cliff viu Belmondo em Acossado, pensou, O cara parece a porra de um macaco! Mas eu gostei desse macaco.
Assim como Paul Newman, de quem Cliff gostava, Belmondo tinha o carisma de uma estrela de cinema.
Porém, quando o Paul Newman interpretava algum filho da puta, como em O Indomado, o filho da puta era muito aprazível. Já o cara em Acossado não era um galãzinho babaca qualquer. Era um ladrãozinho filho da puta desprezível. E, ao contrário dos filmes de Hollywood, ele não era retratado com sentimentalismo. Em Hollywood, sempre retratavam merdas como esse com sentimentalismo, e essa era a coisa mais falsa que essa indústria fazia. No mundo real, aqueles mercenários de merda não tinham um pingo de sentimento em seu corpo inteiro.
E esse era o motivo pelo qual Cliff gostava de Belmondo, por não ter feito isso com o merdinha que interpretou em Acossado. Filmes estrangeiros, pensava Cliff, eram mais parecidos com livros: não davam a mínima se você gostava dos protagonistas ou não. E Cliff achava aquilo intrigante.
* * *
Então, nos anos cinquenta, Cliff começou a dirigir até Beverly Hills e Santa Mônica e West Los Angeles e Little Tokyo para assistir a filmes estrangeiros em preto e branco com legendas em inglês.
A Estrada da Vida, Yojimbo, Viver, A Ponte da Desilusão, Rififi, Ladrões de Bicicleta, Rocco e Seus Irmãos, Cidade Aberta, Os Sete Samurais, Técnica de um Delator, Arroz Amargo (que Cliff considerava sexy pra caralho).
— Eu não vou ao cinema pra ler — dizia Rick para provocar Cliff por sua cinefilia.
Cliff respondia à provocação do patrão com um simples sorriso, mas sempre sentia orgulho de si mesmo por assistir a filmes legendados. Ele se sentia mais inteligente. Gostava de expandir a mente. Gostava de se esforçar para lidar com conceitos difíceis que não se apresentavam logo de cara. Depois dos primeiros vinte minutos, não havia mais surpresa alguma num filme de Rock Hudson ou Kirk Douglas. Mas, com os filmes estrangeiros, às vezes era preciso assistir ao filme inteiro para entender o que você assistiu. Mas isso não o intimidava. De um jeito ou de outro, esses roteiros ainda precisavam funcionar como filmes, senão, qual seria o sentido? Cliff não entendia tanto de cinema a ponto de ser capaz de escrever uma crítica para a Films in Review, mas entendia o bastante para saber que Hiroshima, Meu Amor era um monte de merda. Ele entendia o bastante para saber que Antonioni era uma fraude.
Ele também gostava de enxergar as coisas por perspectivas diferentes. A Balada do Soldado lhe deu um respeito pelos aliados soviéticos que ele nunca havia sentido antes. Kanal lhe mostrou que sua experiência nos tempos de guerra, comparada às de algumas pessoas, talvez não tenha sido tão ruim. A Ponte da Desilusão, de Bernhard Wicki, fez com que ele fizesse uma coisa que imaginava ser impossível: chorar pelos alemães. Em geral, Cliff não compartilhava essas tardes dominicais com ninguém (as tardes de domingo eram reservadas aos filmes estrangeiros). Nenhuma outra pessoa em seu círculo estava interessada (era quase cômico o quão pouco a comunidade de dublês se interessava por cinema). Mas Cliff gostava de assisti-los mesmo sozinho. Era seu momento de privacidade com Mifune, Belmondo, Bob, o Jogador, e Jean Gabin (tanto a versão jovem e bonita quanto a velha e grisalha); aquele era o seu momento com Akira Kurosawa.
* * *
Yojimbo não foi a primeira vez que Cliff viu um filme de Mifune nem de Kurosawa; ele havia assistido a Os Sete Samurais havia alguns anos. Achou magnífico. E também achou que aquela seria a única vez que achara isso. Mas os críticos dos jornais convenceram o dublê a investigar a nova empreitada de Mifune e Kurosawa. Depois de sair de uma sala de cinema do tamanho de uma caixa de sapatos em um shoppingem Little Tokyo, região central de LA, Cliff já havia se tornado fã de Mifune, mas ainda não de Kurosawa. Não era da natureza dele acompanhar a obra de um diretor. Não tinha o cinema em tão alta conta assim. Diretores de cinema eram apenas os caras que rodavam o filme de acordo com o cronograma. E por ter trabalhado com vários deles, Cliff sabia muito bem disso. Essa ideia do diretor como um pintor atormentado que sofre tentando decidir qual tom de azul aplicar na tela era uma fantasia totalmente desproporcional a respeito de o que era fazer cinema. William Witney se arrebentava pra cumprir o cronograma do dia e ter um bom material no final do trabalho. Mas não existe comparação entre ele e um escultor que transforma um pedaço de pedra em uma bunda feminina que dá vontade de apalpar.
Mas alguma coisa em Yojimbo, além de Mifune, além da história, impactou Cliff. E ele achou que esse elemento a mais poderia ser Kurosawa. O terceiro filme de Kurosawa que ele assistia provou que os dois anteriores não haviam sido um acidente. Trono Manchado de Sangue explodiu sua cabeça. Ele tinha ficado um pouco ressabiado quando ouviu falar que era baseado em Macbeth, de Shakespeare, de quem ele nunca havia gostado (embora quisesse muito gostar). Agora, Cliff costumava ficar um pouco entediado quando assistia a um filme. Quando queria adrenalina, dava umas voltas de carro em uma pista de corrida, ou percorria uma trilha acidentada com uma moto de motocross. Mas, em Trono Manchado de Sangue, Cliff ficou totalmente absorto. Assim que viu a imagem de Mifune, filmado em um preto e branco em que o preto parecia carvão, vestindo sua armadura militar, cravejado por uma centena de flechas, ficou oficializado que: Cliff Booth era fã de Akira Kurosawa.
Depois de toda a violência a que o mundo fora submetido durante os anos 1940, os anos 1950 foram dos melodramas emocionais. Tennessee Williams, Marlon Brando, Elia Kazan, Actors Studio, Playhouse 90. Em todos os sentidos, Akira Kurosawa era o diretor perfeito para esta década pomposa, época em que sua sequência mais renomada de filmes surgiu. Os críticos de cinema americanos incensaram Kurosawa desde o começo, colocando seus melodramas no patamar de arte elevada, em parte porque não os compreendiam. Cliff tinha a sensação de que, tendo lutado contra os japoneses por tanto tempo, e tendo sido feito prisioneiro de guerra por eles, entendia os filmes de Kurosawa muito melhor do que qualquer crítico. Cliff achava que Kurosawa tinha um talento nato para encenar tragédias, melodramas e tramas populares, bem como a visão de um desenhista de histórias em quadrinhos (Cliff era um grande fã das revistas da Marvel) para os enquadramentos e composições. Na opinião dele, nenhum diretor que tinha visto compunha cenas com mais inteligência dinâmica do que “o Velho” (que era como Cliff chamava o cineasta). Mas Cliff achava que os críticos americanos se equivocavam ao se referir ao diretor como um “artista”. Kurosawa não começou como artista. Originalmente, ele trabalhava para viver. Era um operário que fazia filmes para outros operários. Kurosawa não era um artista, embora tivesse um talento artístico sensacional para encenar dramas e filmes populares.
Mas mesmo o Velho era suscetível a erros em virtude de seus próprios padrões. Na metade dos anos 1960, com O Barba Ruiva, o Velho fez uma mudança de Kurosawa, o diretor de cinema, para Kurosawa, o romancista russo.
Cliff só não saiu do cinema durante a exibição do filme em respeito a seu antigo diretor favorito. Porém, mais tarde, ao descobrir que o motivo pelo qual Toshiro Mifune prometera nunca mais trabalhar com Kurosawa tinha sido justamente o quanto o Velho havia se tornado chato com O Barba Ruiva, Cliff ficou do lado de Mifune.
MELHORES FILMES DE KUROSAWA
PARA CLIFF
1. (Empate) Os Sete Samurais e Viver;
2. Yojimbo;
3. Trono Manchado de Sangue;
4. Cão Danado;
5. Homem Mau Dorme Bem (só pela cena de abertura).
A conexão e devoção (embora ele jamais usasse essas palavras) de Cliff ao cinema japonês não se limitavam apenas a Kurosawa e Mifune.
Embora não soubesse o nome dos outros diretores, gostava muito de Três Samurais Fora da Lei, A Espada da Maldição, Harakiri e Tirania. E, mais tarde, nos anos 1970, ele adorou o personagem Zatoichi, de Shintaro Katsu, em O Espadachim Cego. Tanto que, durante um tempo, Katsu chegou a tomar o lugar de Mifune como ator preferido de Cliff. E Cliff ficou totalmente maluco pela série de filmes do irmão de Katsu, Lobo Solitário, especialmente o segundo, O Andarilho do Rio Sanzu. Nos anos 1970, ele também assistiu àquele filme japonês sexy e selvagem no qual a garota corta fora o pau do cara: O Império dos Sentidos (Cliff levou várias meninas diferentes para assistir a esse filme). Ele também curtiu o primeiro filme da série Lutador de Rua, do Sonny Chiba (aquele em que ele arranca o pau do cara negro). Mas quando foi até o Vista e assistiu a Trilogia Samurai, do Mifune (os três em uma só tarde de domingo), ele achou tão chato que passou dois anos sem assistir mais nenhum filme japonês.
* * *
Mas havia muitos bastiões do cinema estrangeiro dos anos 1950 e 1960 por quem Cliff não se apaixonou. Ele tentou Bergman, mas não se interessou (chato demais). Tentou Fellini e, no começo, gostou muito. Ele poderia ter feito aquilo tudo sem aquela besteirada à la Charles Chaplin da esposa. Aliás, ele poderia ter feito aquilo tudo sem a esposa e ponto final. Mas gostou muito dos primeiros filmes em preto e branco. Porém, assim que Fellini decidiu que a vida era um circo, Cliff disse arrivederci.
Tentou assistir Truffaut duas vezes, mas não gostou. Não porque os filmes fossem chatos (e eram); esse não foi o único motivo pelo qual Cliff não gostou deles. Os dois a que ele assistiu (em uma sessão dupla de Truffaut) simplesmente não o conquistaram. O primeiro, Os Incompreendidos, não lhe causou qualquer espécie. Ele realmente não entendia por que aquele molequinho fez metade das merdas que fez. Cliff nunca conversou com ninguém sobre isso, mas, se tivesse, a primeira coisa que questionaria seria a cena em que o menino reza pra Balzac. As crianças francesas fazem esse tipo de coisa? Isso foi pra mostrar que ele é normal, ou pra mostrar que ele é meio esquisito? Sim, Cliff entende que isso poderia significar a mesma coisa que uma criança americana pendurando uma foto do Willie Mays na parede. Mas ele não acha que a coisa foi feita pra ser tão simples assim. E, além do mais, parece absurdo. Um garotinho de 10 anos amaria Balzac tanto assim? Não, é claro que não. Já que é supostamente esse garotinho deveria ser o próprio Truffaut, aquilo é Truffaut nos mostrando o quanto ele é impressionante. E, francamente, o garoto na tela não era nada impressionante. E definitivamente não merecia que fosse feito um filme sobre ele.
Cliff também achou os maconheiros em Jules e Jim chatos pra caralho. Na verdade, ele não gostou de Jules e Jim porque não gostou da garota. E esse é o tipo de filme em que, se você não curte a garota, você não vai gostar do filme. Cliff achava que o filme seria muito melhor se tivessem simplesmente deixado a vadia se afogar.
Como era um grande fã de provocações, Cliff curtiu Eu Sou Curiosa (Amarelo), e não só pelas cenas de sexo. Depois que as absorveu, Cliff gostou do discurso político também. Adorou a fotografia em preto e branco do filme. A fotografia de Acossado lembrava a de filmagens de guerra. Mas aquilo era tão monocromático e luminoso que Cliff queria lamber a tela, especialmente sempre que aquela garota Lena aparecia. A história (mais ou menos) de Eu Sou Curiosa (Amarelo) é sobre uma universitária de 22 anos chamada Lena, interpretada por uma atriz de 22 anos chamada Lena Nyman, que namora um cineasta de 44 anos chamado Vilgot, interpretado pelo diretor de 44 anos Vilgot Sjöman.
As duas Lenas (a verdadeira e a personagem) são as protagonistas do novo filme de Vilgot. No começo, a história se divide entre Lena e Vilgot e fragmentos do controverso documentário pseudopolítico que os dois estão fazendo. A Srta. Himmelsteen fica um pouco confusa no começo, assim como Cliff. Mas logo ele começa a entender, e percebe que o filme é desafiador de uma maneira que o faz sentir-se inteligente por estar conseguindo acompanhar a trama. Cliff a princípio pensou que o cineasta estava usando a namoradinha universitária como uma boneca, só mais um rostinho bonito na tela. Porém, logo de cara, Vilgot joga a garota no meio de algumas discussões e debates políticos muito estimulantes. As imagens do começo do filme mostram Lena, armada com um microfone e uma câmera portátil, praticamente atacando cidadãos de classe média suecos na rua com questões acusatórias (“O que você está fazendo pessoalmente para pôr um fim ao sistema de classes na Suécia?”) Cliff achou algumas partes do filme monótonas e não entendeu algumas outras, mas, na média, achou bem interessante.
Uma cena em que se discute o papel e a necessidade do Exército sueco na sociedade atual chamou particularmente sua atenção. O debate é conduzido na rua, entre um grupo de jovens cadetes do Exército sueco e um grupo de outros jovens suecos, que acreditam que todos os cidadãos deveriam recusar o serviço militar e, em vez disso, cumprir um serviço obrigatório de paz durante quatro anos. Cliff achou que ambos os lados tinham bons argumentos, e ficou feliz de ver que ninguém ficou irritado com ninguém do outro lado da discussão.
Como teve espaço para evoluir, o debate também deu origem a questões mais práticas e pertinentes. Como: o que exatamente o Exército faria caso a Suécia fosse invadida por um adversário estrangeiro? E o que eles deveriam fazer?
Cliff nunca se perguntou o que os americanos fariam se os russos, ou os nazistas, ou os japoneses, ou os mexicanos, ou os vikings, ou Alexandre, o Grande, ocupassem os Estados Unidos à força. Ele sabia o que os americanos fariam. Eles cagariam nas calças e chamariam a porra da polícia. E, quando entendessem que a polícia não apenas não poderia ajudá-los, como também trabalhava a favor dos invasores, após um breve período de desespero, eles se resignariam.
Mas quanto mais o filme se desenrolava, mais confuso ficava. Cliff percebeu que muito dessa confusão era de propósito, mas que outras confusões se justificavam apenas por aquele ser um filme estranho.
Porém, quanto mais ele assistia, mais intrigado ele ficava com a ambiguidade do filme. O que era a verdadeira história de Lena, e o que era o filme de Vilgot?
A certa altura, ele começou a se perguntar por que o filme estava ficando tão melodramático. Então, se deu conta de que era o filme de Vilgot que estava ficando melodramático. O Vilgot do filme não era um cineasta tão bom quanto o Vilgot verdadeiro.
As implicações sobre o que era real e o que era cinema interessavam a Cliff. Principalmente quando refletiu sobre isso posteriormente e percebeu as implicações do envolvimento do pai de Lena no filme. Espera aí: então, toda a história do pai de Lena não era real? Ele é mesmo o pai dela, ou era apenas um ator interpretando esse papel? E isso era reconhecer que, na vida real, ele era um ator interpretando o pai. Mas ele é o pai da Lena do filme ou um ator interpretando o pai dela no filme de Vilgot?
Essas questões cinematográficas deixavam Cliff muito mais intrigado do que a Srta. Himmelsteen. Ele teve a sensação de que ela estava se inclinando para longe da tela, enquanto ela sentia que ele estava se aproximando. Em dado momento, ele a ouviu dizendo, em meio a um suspiro:
— Estou amarela de tão entediada.
Tudo bem, pensou ele. O filme é esquisito.
Está bom, todo esse lance de cinema verdade era legal e coisa e tal; mas e quanto ao suposto motivo pelo qual o filme ficou famoso, a sacanagem? Foi por isso que Cliff quis assisti-lo (não só por isso), mas ele estava curioso. E, sem sombra de dúvida, era esse o motivo pelo qual havia convidado a Srta. Himmelsteen. O homem que contracenava com Lena nas cenas de sexo — as que fizeram com que o filme fosse retido na alfândega quando foi enviado da Suécia — não era Vilgot (Cliff ficou feliz por não precisar ver aquele bosta trepando). Era um homem casado e infiel (interpretado por Börje Ahlstedt) que Lena conhecia por causa do pai.
Quando assistiu à primeira cena de sexo real projetada em uma sala de cinema nos Estados Unidos, entre Lena e Börje, no apartamento da garota, Cliff teve a sensação de assistir a algo completamente novo. Recentemente, outros filmes populares haviam lidado com cenas desse tipo de modo pueril. A chupada de mamilo na cena de sedução lésbica entre Susannah York e Coral Browne em Triângulo Feminino. A cena de masturbação de Anne Heywood em Apenas Uma Mulher. Oliver Reed e Alan Bates lutando nus diante de uma lareira em Mulheres Apaixonadas (Cliff não tinha assistido esse, mas o trailer o deixara embasbacado). Mas a cena de nudez e sexo de Sjöman quebrou barreiras para a distribuição de filmes nas salas de cinema. O filme foi originalmente retido pela alfândega dos Estados Unidos sob acusação de obscenidade. O distribuidor americano, Grove Press, recorreu aos tribunais para liberá-lo, e perdeu a primeira batalha quando um tribunal distrital federal sustentou a proibição. Mas essa era a estratégia da Grove Press. Eles queriam recorrer e reverter a decisão. Assim, a decisão criaria uma jurisprudência que se aplicaria não apenas a este filme, como a todos os filmes que contivessem o mesmo tipo de material sexual provocativo. E foi exatamente isso o que aconteceu quando a Corte de Apelações dos Estados Unidos reverteu a decisão do tribunal federal, transformando o filme Eu Sou Curiosa (Amarelo) de Vilgot Sjöman na película polêmica do momento. O caso abriu as portas para uma nova onda de sexualidade no cinema popular moderno. O filme de Vilgot se tornou o primeiro e, de longe, o mais lucrativo, de uma pequena onda de filmes eróticos com uma vocação artística que prosperaria durante alguns anos, enquanto a indústria cinematográfica e as plateias tentavam decidir até que ponto estavam dispostos a percorrer aquele caminho. Os pornógrafos, por sua vez, mantiveram-se momentaneamente em compasso de espera, observando até que ponto o mainstream estaria disposto a fazer concessões.
Quando Cliff e a Srta. Himmelsteen assistiram à cena de sexo no apartamento de Lena, ambos foram tomados pela sensação excitante de estarem vendo uma coisa nova pela primeira vez, e entrelaçaram os dedos quando ela começou.
Cliff se lembrou do que Richard Schickel havia escrito naquele exemplar da Life que estava no escritório de Martin Schwarz.
Dez – ou até mesmo cinco – anos atrás, algo assim seria terrivelmente chocante do ponto de vista estético e cultural, isso sem falar do moral. Entretanto, flertamos tão de perto e por tanto tempo com este grau de franqueza explícita em todas as áreas do pensamento e das artes que é um alívio finalmente termos chegado a esse ponto.
A primeira cena de sexo em Eu Sou Curiosa (Amarelo), levando em conta todas as intenções e propósitos do cinema moderno, não é exatamente erótica (Cliff não teve uma ereção), apesar do primeiro flash de nudez explícita ter sido, certamente, excitante. Mas o que a tornou memorável foi o quão espirituosa ela era. O diretor Vilgot Sjöman filmou a primeira cena de sexo real a desembarcar nestas praias como a comédia de erros que costuma ser a maioria dos encontros amorosos fortuitos. Sjöman se esforçou para enfatizar o constrangimento real envolvido no ato da cópula. O casal quer fazer aquilo; nós, a plateia, que esperamos por isso o filme inteiro, queremos que eles façam aquilo; mas o diretor coloca um obstáculo realístico atrás do outro no caminho daquela rapidinha de meio do dia. Depois de muitas tentativas, Börje não consegue abrir as calças de Lena, e ela reclama um pouco da inabilidade dele (“Você não vai conseguir?”), até que ela é obrigada a parar de beijá-lo para resolver o assunto com as próprias mãos, tirando ela mesma as calças. Ele tenta comê-la de pé; ela o interrompe (“Não consigo fazer desse jeito”), uma declaração claramente fundamentada em experiências pregressas. Quando precisam ir até outro cômodo para buscar um colchão, os dois vão arrastando os pés, como soldadinhos de brinquedo, com as calças presas na altura dos tornozelos. Eles praticamente destroem o quarto no processo de retirar o colchão e levá-lo até a sala. Uma vez na sala, percebem que o equipamento de gravação de Lena está espalhado por todos os lados (gravadores de rolo, fitas, microfones), de modo que precisam empilhar toda aquela merda num canto se quiserem deitar o colchão no chão para transar.
Cliff achou aquela uma das melhores cenas que já tinha visto num filme. Definitivamente a mais realista. Ele havia estado em apartamentos como aquele e comido garotas como aquela em colchões como aquele sobre chãos como aquele. Cliff havia empilhado às pressas muitas revistas, quadrinhos, livros e discos para comer garotas no chão, em sofás, camas, e no banco traseiro de carros. Cliff também sabia como era percorrer grandes distâncias com as calças presas aos tornozelos tendo apenas o pênis ereto como guia.
E Cliff achou a cena da trepada na ponte mais sensual ainda. Ele adorava transar em público. Adorava trocar uns amassos em público, que chupassem seu pau em público, que lhe batessem uma punheta em público. Após aquelas duas cenas, Cliff pensou ter visto os dois maiores momentos do filme. Mas nem ele, nem a Srta. Himmelsteen estavam preparados para a cena dos pelos pubianos. Esta é a cena em que Lena e Börje, deitados lado a lado, nus, conversam enquanto trocam carícias, o rosto dela ao lado do pênis flácido dele, os dedos dele entrando e saindo de seu generoso tufo de pelos pubianos, ela dando vários beijinhos no pau dele. Sentado em um cinema em Westwood, de mãos dadas com a Srta. Himmelsteen, assistindo a uma cena como essa em um filme de verdade, com uma atriz de verdade, Cliff sentiu como se estivesse testemunhando o nascimento de uma nova era do cinema.
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Mais tarde, Rick perguntou a Cliff se ele havia comido a Srta. Himmelsteen.
— Nã — respondera Cliff.
Mas ele contou a Rick que ela chupou o pau dele dentro do Karmann Ghia quando ele a levou para casa em Brentwood, embora aquele tenha sido seu único encontro.
Em 1972, Janet Himmelsteen já estava totalmente estabelecida como agente na William Morris, e, em 1975, era um dos nomes mais importantes da empresa de gerenciamento de talentos.
Daquele ponto em diante, decidiu reservar seus boquetes apenas para o alto escalão.