Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Dezenove: “Meus amigos me chamam de Pussycat”
Capítulo Dezenove
“Meus amigos me chamam de Pussycat”
Quando Cliff viu que o filme com Carroll Baker que estava passando no Eros na Beverly Boulevard era proibido para menores, ele imaginou que havia uma boa chance de vê-la transando de verdade com alguém. Mas ele não teve essa sorte. Ao contrário de Eu Sou Curiosa (Amarelo), em que Lena Nyman realmente parecia estar transando em cena, no filme italiano de Carroll Baker é tudo transa cenográfica.
Transa cenográfica europeia, que era mais insinuante e violenta, embora ninguém estivesse fodendo de verdade naquele set.
Uma pena.
De todo modo, era um bom filme de mistério, com uma ótima reviravolta no final. No fim das contas, não tinha sido a pior maneira de passar a tarde. Mas, se ele soubesse que Carroll Baker não fodia de verdade naquele filme, provavelmente teria assistido a Estação Polar Zebra no Cinerama Dome.
* * *
Na rádio 93 KHJ, Real Don Steele apresenta uma nova música dos Los Bravos (os caras de Black is Black) chamada “Bring a Little Lovin’”, enquanto Cliff acelera Forrest Lawn Drive abaixo, vira à direita na Hollywood Way, e passa para a pista da esquerda para fazer o retorno. Ele para no sinal, esperando que a luz fique verde, momento em que dobrará à esquerda para pegar a Riverside Drive.
Curtindo a energia que a música vibrante dos Los Bravos passa, Cliff tamborila os dedos no volante no ritmo da canção.
Então, na esquina da Riverside Drive com a Hollywood Way, ele a vê parada na frente de um ponto de ônibus com uma propaganda do apresentador do telejornal do Canal 9, George Putnam. Assim como da vez em que a viu na frente do Aquarius Theater, ela estava pedindo carona.
Só que agora ela está sozinha.
Jesus,pensa Cliff, quais as chances de ver a mesma menina pedindo carona três vezes no mesmo dia em três partes diferentes de Los Angeles? Ele pensa, Vai saber, com essa molecada toda pedindo carona hoje em dia, talvez isso não seja lá grande coisa. Mas com certeza parecia grande coisa. Só que dessa vez, a bonequinha curvilínea estava indo na mesma direção de Cliff. Na verdade, assim que o sinal abrir, ele vai parar exatamente ao lado dela. Uma carona rápida poderia facilmente se transformar num boquete por baixo do volante (a modalidade favorita de Cliff). Ou, no mínimo, uma sessão de vinte minutos de beijo de língua. Ele se apruma um pouco no banco do motorista antecipando o que a carona pode lhe reservar.
Enquanto Cliff ruminava o pensamento, a garota hippie morena dos picles o vê parado esperando o sinal em seu Cadillac amarelado.
Assim que avista Cliff, ela dá um salto e agita freneticamente seus braços. Ele demonstra que a viu. Ela levanta a mãozinha no final do seu braço longo e faz um gesto com o dedão esticado, querendo dizer: Me dá uma carona?
Ele faz um gesto com a mão para ela, como quem diz: Te dou uma carona.
Em resposta ao gesto, ela dá um gritinho e faz uma dancinha espasmódica na esquina. Sua dancinha pode ser mais bem descrita como uma mistura de piruetas com polichinelos.
Mas olha só esse gafanhoto na esquina, pensa Cliff. “Gafanhoto” é a palavra que Cliff usa para se referir às garotas altas, magras e sensuais, que são puro cotovelo e joelho. Ele as chama desse jeito porque, quando elas o envolvem em suas longas pernas e seus braços desengonçados, é como se você estivesse trepando com um gafanhoto.
Porém, para Cliff, a ideia de trepar com um gafanhoto era uma coisa sexy. Então, para ele, aquilo era como se fosse um elogio.
Então, enquanto espera sentado no Coupe de Ville de Rick pelo sinal de abrir, Cliff vê um Buick Skylark azul seguindo na direção contrária da Hollywood Way, virando à direita na esquina com a Riverside Drive e parando bem ao lado da garota hippie morena dos picles.
Inclinando-se para frente no banco do motorista, Cliff diz em voz alta:
— Que porra é essa?
Por entre os carros, ele vê a garota hippie abaixar-se para falar com o motorista pela janela aberta do lado do passageiro.
Após conversar por alguns instantes com o motorista, a caroneira faz que sim com a cabeça.
Ela fica de pé por um instante, olha por entre os carros para o cara louro no Cadillac amarelo-claro, dá de ombros e mergulha no Skylark.
Assim que o carro arranca levando a garota dos picles, o sinal fica verde para Cliff. Ele vira à esquerda para pegar a Riverside Drive e acaba ficando atrás do Buick Skylark. Real Don Steele volta a falar, lembrando aos seus ouvintes que “Tina Delgado está viva!”.
Através do vidro traseiro do Skylark, Cliff consegue ver perfeitamente as silhuetas do motorista e da passageira. O motorista parece ser um outro hippie, com o cabelo longo, ruivo, e crespo. Talvez seja aquele cara engraçado que faz o Bernie em Room 222. Ele fica olhando as duas silhuetas cabeludas conversando animadamente. O ruivo cabeludo do Skylark diz alguma coisa, e a garota dos picles ri e dá um tapa em seu joelho desnudo em resposta.
Cliff pensa, OK, agora ela está tirando uma com a minha cara.
Ele vira o volante para a esquerda, e o Cadillac sai da Riverside Drive e entra na Forman, até estacionar num espaço na rua, em frente ao grande prédio bege de uma loja de tapetes. Cliff vira a chave na ignição, desligando o motor e o Real Don Steele, e, em seguida, sai do Cadillac e atravessa a movimentada Riverside Drive a pé. Ele segue pela calçada, passando pelo bar e restaurante Money Tree, em direção à loja de discos Hot Waxx, em Toluca Lake.
* * *
O sucesso chiclete dos Monkees, “The Last Train to Clarksville”, acerta seus ouvidos em cheio assim que ele abre a porta da loja de discos. O lugar tem o mesmo cheiro da maioria dos lugares em que os jovens se reúnem hoje em dia. Uma mistura de incenso com cecê. Quatro outros clientes, todos com menos de 25 anos, vasculham os discos da loja.
Um cara negro vestindo uma bata dashiki examina o álbum homônimo de Richie Havens.
Uma garota parecida com aquela cantora gordinha e hippie Melanie, por quem Cliff tinha uma queda, segura o disco Bookends, de Simon and Garfunkel.
Um rapazinho com cara de que poderia ser filho de alguém com quem Cliff serviu no Exército procura alguma coisa na seção de trilhas sonoras de filmes.
O quarto cliente, assim como o cara do Buick Skylark, é um outro desses caras de cabelo crespo que parece um cruzamento entre Jesus Cristo e Arlo Guthrie. Ele está no meio de uma discussão com o funcionário da loja, um magrelo feioso de 22 anos, sobre o futuro da carreira de Ringo Starr após o fim dos Beatles.
Aquela música do Tom Jones, Delilah, não saía da cabeça de Cliff desde que ele a havia ouvido pela primeira vez, três semanas antes, no rádio. Ele queria prestar atenção na história da música, mas a única de que conseguia se lembrar era do refrão. E tentar entender enquanto tocava no rádio não estava dando certo. Naturalmente, Cliff tem uma queda por canções sobre caras que matam a mulher.
Ele vai até o balcão e pergunta para o Feioso onde ficam as fitas.
— Susan é quem tem a chave — diz o Feioso. — Você precisa falar com ela e pedir que ela abra a vitrine para você.
Aparentemente, a loja considerava as fitas tão valiosas que precisavam ser guardadas em cofres, trancadas a chave. Você não podia simplesmente examiná-las, escolher a que queria, e levá-la até o balcão. Você tinha que pedir para um funcionário abrir uma vitrine trancada com uma chave, e ele ficava lá te vigiando enquanto você examinava as opções e fazia a sua escolha. Depois, o funcionário continuava de olho em você até que você fosse até o balcão e comprasse aquela merda. Bem, é verdade que seria mais fácil enfiar uma fita do Rubber Soul dentro do bolso interno de uma jaqueta do que um LP. Mas, ainda assim, parecia que os caras estavam vendendo diamantes. Fora isso, é meio estranho partir do princípio de que todos os seus clientes são ladrões.
Antes que Cliff pudesse perguntar “Cadê a Susan?”, o Feioso apontou para uma loirinha dourada estilo rata de praia vestindo um colete da Levi’s todo abotoado e uma calça jeans branca apertadinha, com um retalho que dizia KEEP ON TRUCKIN’ costurado no bolso traseiro. Ela estava dando uma organizada no quadro de avisos comunitário quando Cliff aproximou-se dela e perguntou:
— Você é a Susan?
Susan se vira para encará-lo, e dá a Cliff o sorriso que o Feioso estava esperando havia seis meses. Os cabelos dos dois são tão loiros que, quando suas cabeças se aproximam, Cliff e Susan parecem dois sóis com duas galáxias diferentes orbitando às suas voltas. Ela confirma ao outro loiro que é, de fato, Susan.
— Você poderia abrir a vitrine das fitas para mim?
Involuntariamente, ela faz uma careta que diz a Cliff que ela considera essas fitas um saco, muito embora ele duvide que o dono daquela loja, quem quer que ele seja, esteja pagando-a para organizar o quadro de avisos comunitário.
Num tom monocórdio, que parece se encaixar perfeitamente nesse tipo de loira californiana praieira, sensual e atlética, Susan lhe diz:
— Ahh… claro, pode crer. Deixa eu pegar a chave. — Então, aponta para a vitrine das fitas: — Me encontra na vitrine das fitas.
Cliff fica olhando para a bunda da garota, comprimida pelo jeans branco, desaparecer por trás de uma cortina de contas enquanto ela vai buscar a chave que, sendo ela a única responsável por isso, deveria estar em seu bolso, e não dentro de uma gaveta de escrivaninha em algum quartinho nos fundos, atrás de uma cortina de contas.
Ele consegue captar no ar o ressentimento que o Feioso sente por ele enquanto se dirige à vitrine das fitas. Caso lhe perguntassem, Cliff diria ao Feioso que ele provavelmente teve alguma chance com Susan uns quatro ou cinco meses atrás. Mas, se ele não tinha feito nenhum avanço até aquele momento, ela provavelmente já o havia classificado como um eunuco, e não importava quantas vezes eles saíssem para comer pizza ou beber cerveja depois do trabalho. E, na opinião de Cliff, sua melhor aposta seria se concentrar nas clientes bonitas.
Cliff examina a seleção de fitas através do vidro trancado, procurando por Delilah de Tom Jones em meio aos outros nomes. Steppenwolf. The Fifth Dimension. Ian Whitcomb. Crosby, Stills & Nash. A trilha sonora de Hair, o musical da Broadway. A trilha sonora do filme Zorba, o Grego. Alice’s Restaurant, de Arlo Guthrie. O disco solo de Mama Cass. Dois discos de Bill Cosby. Uma dupla de comediantes chamada Hudson e Landry, de quem Cliff nunca tinha ouvido falar.
A rata de praia retorna e destranca a porta de vidro, que desliza após um ruidoso puxão. Cliff inclina-se para frente para examinar melhor os títulos. Ele consegue sentir que Susan o está vigiando com uma mão sobre o quadril quebrado para o lado. Cliff encontra o que está procurando, e puxa a fita Tom Jones Greatest Hits. Susan solta uma risadinha baixa, porém audível, e esconde seu sorriso com a mão.
Ele ergue as sobrancelhas.
— Que foi? É engraçado eu escolher o Tom Jones?
Ela balança sua cabeça dourada como se dissesse: É, um pouquinho.
* * *
Cliff deixa a loja de discos (ainda meio puto com Susan) e sai andando pela calçada, carregando uma sacola bordô com o logotipo da Hot Waxx. Ele vai até a esquina da Riverside Drive com a Forman para atravessar a rua e voltar para o seu veículo. Então, por entre os carros, ele a vê mais uma vez. A morena cabeluda dos picles com seu short jeans, de pés descalços e frente única de crochê, aparentemente esperando pelo seu retorno, ao lado do Cadillac. Quando ela o vê parado na esquina, prestes a atravessar a rua e voltar para o carro, começa a pular e acenar freneticamente para ele. Enquanto aproveita o sinal verde para atravessar a rua movimentada em direção tanto ao seu carro quanto à hippie morena descalça dos picles, ele percebe uma coisa: essa garota é mais jovem do que parecia através do seu para-brisa sujo. O quão mais jovem, ele não sabe. Mas, enquanto estiverem conversando, ele tentará descobrir.
Encostada em seu Cadillac, a hippie morena, descalça, cabeluda, dos picles diz:
— Pelo jeito, a terceira vez é a que dá sorte.
— Pra mim, quando eu te vi na Riverside Drive com a Hollywood Way, foi a nossa terceira vez — diz o dublê louro em sua camisa havaiana. — E, definitivamente, ali não demos sorte.
— Detalhes, detalhes, detalhes — provoca a hippie morena, descalça, cabeluda, dos picles. — Ok, Sr. Detalhista, como você quiser — diz, e, em seguida, enuncia a frase de uma forma excessivamente teatral: — A quarta vez é a que dá sorte.
Caralho, quantos anos ela tem?, pensa Cliff.
— Que tal estavam aqueles picles? — pergunta Cliff.
— Muito bons — diz a hippie morena, descalça, cabeluda, dos picles. — Eram daqueles mais caros.
Cliff levanta suas sobrancelhas, como quem diz Bom pra você.
— Me dá uma carona? — implora ela em sua voz de garotinha, mordendo em seguida o lábio inferior para criar um impacto.
— O que aconteceu com o Bernie? — pergunta ele.
— Quem?
— O cara do Buick Skylark — diz ele.
Ela suspira.
— Acho que ele não ia pra onde eu ia.
— E pra onde você vai? — pergunta Cliff.
Ela definitivamente era menor de idade, Cliff deduz, mas quantos anos tinha? Ela não tinha 14 ou 15. De modo que a pergunta era: 16 ou 17? Ou, talvez, quem sabe, dezoito? Nesse caso, oficialmente, ela não seria menor de idade, pelo menos no que diz respeito ao Departamento de Polícia do Condado de Los Angeles.
— Estou indo para Chatsworth — diz ela.
Aquilo o faz soltar uma risadinha involuntária:
— Chatsworth?
Usando sua linguagem corporal de boneca, ela faz que sim com a cabeça.
Com um sorriso sarcástico, Cliff pergunta:
— Quer dizer que você fica andando pra cima e pra baixo pela Riverside Drive pedindo carona até que alguém com muito tempo livre e muita gasolina concorda em te levar até Chatsworth, lá na puta que o pariu?
Ela faz um gesto desconsiderando sua reação de incredulidade.
— Isso só prova que você não sabe de nada. Os turistas adoram me dar carona. Eu sou a parte favorita da viagem para L…
Conforme ela vai gesticulando com as mãos enquanto fala, ele nota o quanto elas são grandes. Meu Deus, os dedos dela são muito compridos, pensa ele. Seria uma delícia ter esses dedos em volta do meu pau, me apertando, com aquele dedão gigante esmagando a cabeça.
— … eles vão contar pelo resto de suas vidas a história da garota hippie de Hollywood…
Enquanto ela seguia com aquele papo furado, ele olhou para os seus pés. Puta merda, eles também são enormes.
— … pra quem eles deram uma carona até o rancho do cinema.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
— Você está falando do Spahn Movie Ranch? — pergunta, por fim, Cliff.
O rosto de Debra Jo se ilumina.
— Sim!
Cliff joga o peso do seu corpo da perna esquerda para a direita e, inconscientemente, troca sua sacolinha bordô da Hot Waxx contendo a fita da mão esquerda para a direita enquanto procura esclarecer:
— Então é pra lá que você está indo, para o Spahn Movie Ranch?
Mais uma vez, ela sacode sua cabeleira como uma bonequinha para dizer sim, acompanhado de um “Aham”.
Cliff pergunta, com curiosidade genuína:
— Por que você está indo pra lá?
— Eu moro lá — responde ela.
— Sozinha? — pergunta ele.
— Não — garante ela. — Eu e os meus amigos.
Quê? Pensa ele. No começo, quando ela disse Spahn Movie Ranch, Cliff simplesmente imaginou que ela fosse ou a neta hippie do George Spahn ou a hippie que cuidava do velho. Mas, quando hippies dizem “amigos”, isso quer dizer “outros hippies”.
— Então, deixa eu ver se eu entendi... Você e um bando de amigos iguais a você moram no Spahn Movie Ranch?
— Isso.
O dublê processa a informação no seu cérebro, e então abre a porta do carona para ela.
— Entra aí, eu te dou uma carona.
— Beleza! — comemora ela, enquanto vai se acomodando no banco do carona.
Cliff bate a porta para fechá-la. Dando a volta no Cadillac até a porta do motorista, ele reflete sobre a informação que a hippie morena, descalça, cabeluda dos picles acabou de lhe dar. Se o que ela diz é verdade, pelo jeito tem alguma coisa estranha acontecendo em Spahn Ranch. Em última análise, ele acha que não deve ser nada demais. Mesmo assim, George Spahn era um homem idoso, e não faria mal dar uma conferida. Tudo o que isso lhe custaria seria dirigir até Chatsworth. Cliff não tinha nada melhor para fazer naquele finzinho de tarde. Poderia, muito bem, fazer uma visita a um velho amigo. No meio-tempo, ele pretendia seguir flertando com a senhorita Cotovelos e Joelhos e, quem sabe, descobrir um pouco mais sobre esses seus “amigos” e de onde eles vieram.
Dentro de pouco tempo eles já aceleravam pela Riverside Drive. No rádio, Real Don Steele está fazendo suas tiradas cômicas durante um comercial para o bronzeador Tanya Tanning Butter. Debra Jo, que pegava muitas caronas, imediatamente começa a dar as instruções sobre como chegar ao Spahn Ranch.
— Então, você tem que pegar a Hollywood Freeway…
Cliff a interrompe.
— Eu sei onde fica.
Ela encosta sua cabeleira no encosto do banco e fica olhando com curiosidade para o cara loiro de camisa havaiana.
— Você é um desses caubóis das antigas que fazia filmes lá no rancho?
— Eia — diz Cliff, com tanto entusiasmo que Debra Jo leva um susto.
— Que foi? — pergunta ela.
Ele responde enquanto vai manobrando o Cadillac em meio ao tráfego:
— Só fiquei surpreso com o quanto você foi precisa nessa descrição. Um caubói das antigas que fazia filmes no Spahn Ranch.
Debra Jo ri.
— Então você filmava faroestes lá no rancho?
Cliff faz que sim.
— Nos bons tempos do passado? — acrescenta ela.
— Bom, se por bons tempos do passado você quer dizer na televisão oito anos atrás, então sim.
Debra Jo põe seus enormes pés sujos sobre o painel do Cadillac, encosta suas solas imundas no vidro lisinho e gelado do para-brisa, e pergunta:
— Você era ator?
— Não — diz Cliff. — Eu sou dublê.
— Dublê? — repete ela, empolgada. — Isso é muito melhor!
— Sério? — pergunta ele. — Por que isso é “muito melhor”?
— Atores são impostores — diz ela com um ar de autoridade. — Eles só repetem frases escritas por outras pessoas. Eles fingem que estão matando pessoas nos seus programas estúpidos na TV enquanto pessoas de verdade estão sendo mortas todos os dias no Vietnã.
Bom, essa é uma maneira de encarar esse assunto, pensa Cliff.
— Mas um dublê? Vocês são diferentes. Porra, vocês se atiram dos prédios. Colocam fogo em si mesmos. Vocês encaram o medo.
Então, pregando a filosofia que havia aprendido com Charlie:
— E a única maneira de domar a si mesmo é encarando o seu medo. E quando você doma o seu medo, você se torna indomável — diz ela, com um sorriso satisfeito em seu lindo rosto.
Que porra é essa?, é o que Cliff está pensando mas não diz enquanto sobe a rampa de acesso para a Hollywood Freeway.
Na parada de sucessos da KHJ 93, a nova música dos Box Tops, “Sweet Cream Ladies, Forward March”, sai pelos alto-falantes.
Após entrar na autoestrada, Cliff decide perguntar:
— Qual o seu nome?
— Meus amigos me chamam de Pussycat.
— Qual o seu nome de verdade?
— Você não quer ser meu amigo?
— É claro que eu quero ser seu amigo.
— Então, eu te disse, os meus amigos me chamam de Pussycat.
— Beleza então. Prazer em te conhecer, Pussycat.
— Aloha. Você sabia que “aloha” quer dizer tanto oi quanto tchau?
— Na verdade, eu sabia.
Tocando o ombro de sua camisa amarela, ela pergunta:
— Você é havaiano?
— Não.
— Então, qual é o seu nome, Sr. Louro?
— Cliff.
— Cliff?
— É.
— Clifford ou só Cliff?
— Só Cliff.
— Clifton.
— Só Cliff.
— Você não gosta de Clifton?
— Não é o meu nome.
Ela tira as pernas de cima do painel e pega a sacolinha bordô da Hot Waxx que estava no banco dele.
— O que você comprou?
Cliff protesta:
— Ei, espera um pouquinho, Senhorita Mal Educada. Pede antes.
Ela enfia sua mãozona na sacolinha, puxa a fita de Tom Jones Greatest Hits de dentro dela, e implode numa gargalhada.
Ao contrário de como havia reagido à risadinha irônica de Susan, Cliff sorri da troça de Pussycat.
— Ah, vai se foder, sua hippiezinha de merda. Eu gosto de “Delilah”. Algum problema?
Segurando a fita com a foto de Tom Jones na capa, ela diz, de forma sarcástica:
— Que foi? Os discos do Engelbert Humperdinck estavam esgotados?
Aproximando-se dela:
— Eu gosto dele também, espertinha.
Ela faz um gesto com as mãozonas na ponta dos seus braços compridos como quem diz: Sem problema.
— Ei, Mark Twain disse que “Se as pessoas não tivessem opiniões diferentes, não haveria corridas de cavalo.”
— Mark Twain disse isso?
Ela dá de ombros.
— Algo do gênero.
Seus dedos compridos rasgam o celofane que embala a fita até remover tudo. Ela retira o pedaço de papelão em cima do qual a fita de plástico está posicionada, e depois estica o seu braço na direção do som do Cadillac, mudando de rádio para toca-fitas.
Os Box Tops se calam.
Enquanto Cliff mantém um de seus olhos em Pussycat e o outro na Hollywood Freeway, ela enfia a fita no toca-fitas. O sistema faz um ruidoso clic-clac, e, por um instante, os dois ficam apenas escutando o chiado emitido pelas caixas de som. Então, a bombástica “What’s New Pussycat?” começa a tocar bem alto, e em estéreo.
— OK — admite Pussycat. — Dessa música eu gosto.
Ela estica o braço para aumentar o volume e começa a mexer os ombros ao ritmo da música, fazendo uma dancinha sensual no banco do carona do Cadillac de Rick, para o deleite de Cliff. Ela tira suas pernas do assoalho e senta em cima delas. Então, ficando de joelhos, ela abre o botão de metal do seu short da Levi’s.
Cliff, que ainda não havia dito uma palavra, levanta suas sobrancelhas.
Beleza, talvez isso valha a gasolina para ir até Chatsworth, pensa ele.
Em resposta à sua reação, a morena ergue as duas lagartas castanhas que tem no lugar das sobrancelhas enquanto abre o zíper do seu short. Em seguida, ela o desliza pela sua bunda e suas coxas, e então, segura-o em suas mãos, revelando uma calcinha rosa e suja, com cerejinhas estampadas. Ela começa a girar o short da Levi’s em seu dedo bem quando entra o pianinho à la calíope da música e, em seguida, o arremessa no assoalho.
Enquanto balança a bunda de um lado para o outro acompanhando os vocais de Tom, Pussycat enfia um dedão por dentro da calcinha de cerejas e desliza a roupa de baixo imunda por suas pernas, até tirá-la. Então, ela se joga para trás, contra a porta do carona, e abre as pernas, revelando ao motorista a fabulosa maçaroca de pelos pubianos escuros no meio delas. A cabeleira entre as pernas é tão selvagem e abundante quanto a que ela tem na cabeça.
— Está gostando da vista, Cliff? — pergunta ela.
— Pode apostar — responde Cliff, sinceramente.
Ela deita de costas no banco do carona do Coupe de Ville de Rick, encostando sua cabeça castanha contra a porta. Levanta a perna esquerda e apoia o calcanhar no encosto de cabeça do motorista, e depois levanta a perna direita e enfia seu outro pé entre o painel do carro e o para-brisa, do lado de Cliff, exibindo-se completamente arreganhada para o satisfeito motorista.
Então, em sincronia com a música de Tom Jones sobre outra Pussycat, ela lambe dois dedos e começa a esfregá-los no clitóris.
Cliff segue dirigindo pela Hollywood Freeway, mantendo um olho na estrada e o outro na xoxota escura e peludona de Pussycat.
Pussycat fecha os olhos e diz, numa voz afetada pela excitação:
— Enfie seus dedos em mim.
— Quantos anos você tem? — pergunta Cliff.
Os olhos de Pussycat se abrem.
Fazia tanto tempo que ninguém se importava com aquilo que ela nem tinha certeza de que tinha ouvido direito.
— O quê?
— Quantos anos você tem? — repete Cliff.
Ela ri, incrédula, enquanto diz:
— Uau, cara, faz muito tempo que ninguém me faz essa pergunta.
— E qual é a resposta? — pergunta ele novamente.
Ela ergue-se sobre os cotovelos, mas mantém as pernas bem arreganhadas enquanto diz, sarcasticamente:
— OK, então você quer jogar esse joguinho? Dezoito. Tá te sentindo melhor agora?
Cliff pergunta a ela:
— Você tem algum tipo de identidade? Tipo uma carteira de motorista ou algo assim?
— Você está brincando? — pergunta ela, e uma expressão de surpresa se espalha pelo seu rosto.
— Não, eu não estou — garante Cliff. — Eu preciso ver algum documento oficial que comprove que você tem 18 anos. Documento esse que você não tem, porque você não tem 18 anos.
Com isso, Pussycat fecha as pernas e se puxa para cima até ficar sentada, sacudindo sua cabeleira, incrédula.
— Cara, que baixo-astral que você é.
Ainda sem calcinha, ela estica suas pernas compridas novamente e despeja seus pezões sobre o painel mais uma vez, colocando as mãos atrás de sua cabeça, numa posição completamente reclinada.
— Obviamente eu não sou nova demais para dar pra você, mas você é obviamente velho demais pra me comer.
Cliff enxerga a situação por uma perspectiva diferente, e a apresenta para Pussycat.
— Eu sou velho demais é pra ir pra cadeia por causa de buceta. Os caras têm tentado me pegar a minha vida inteira, mas ainda não rolou. E, no dia que rolar, não vai ser por sua causa. Sem ofensa.
Como levar uma dedada estava fora de cogitação, a jovenzinha que dizia chamar-se Pussycat veste suas calcinhas novamente, e os dois voltam a conversar durante o trajeto até Chatsworth, sem que Cliff jamais revelasse à sua passageira que conhecia George Spahn pessoalmente, nem suas verdadeiras intenções por trás daquela carona.
Ele tenta pescar mais alguma informação sobre estes tais “amigos” dela que moram no rancho de George.
E ela fica feliz de encher seu ouvido falando sem parar sobre eles. Especialmente sobre um cara chamado Charlie, que ela tem certeza que vai curtir muito o Cliff.
— Eu acho que o Charlie vai curtir muito você — foram suas palavras exatas.
No começo, Cliff estava mais interessado no grupo de garotas de 20 e poucos anos que acreditavam no amor livre, e o praticavam. Mas, quanto mais ela fala do tal de Charlie, e quanto mais repete seus ensinamentos, menos ele se parece com um guru de paz e amor, e mais, com um cafetão.
* * *
Pois é, parecia que esse sujeito, Charlie, tinha pegado o livro de regras da cafetinagem e o reescrito engenhosamente para uma geração de garotas chateadas com os pais. Enquanto escuta Pussycat vomitando sinceramente o papo furado daquele sujeito, Cliff fica tentando imaginar de onde ela vinha. Se ele tivesse, nos anos 1950, colocado em prática sua intenção de fazer uma experiência no mundo da cafetinagem, jamais teria se aproximado de uma garota tão bonita e, obviamente, instruída, como aquela. Mas toda aquela baboseira dos hippies tinha colocado o mundo de pernas para o ar. E agora ela estava oferecendo a xaninha em troca de uma carona até Chatsworth.
Garotas que, antes, talvez batessem uma punheta para você no drive-in agora transavam com você e com o seu amigo.
Se aqueles sujeitos franceses davam champanhe, batons, meias-calças e maquiagens da Max Factor para as suas garotas, Charlie dava ácido, amor livre, e uma filosofia que explicava todas as coisas.
É meio brilhante até, pensa Cliff. Estou começando a ficar ansioso pra conhecer esse tal de Charlie.
— Então, como você conheceu esse cara? — pergunta Cliff.
— O Charlie?
— É, o Charlie.
— Eu conheci o Charlie quando eu tinha 14 anos — diz Pussycat. — Eu morava em Los Gatos, na Califórnia, e o meu pai deu uma carona pra ele.
— Peraí — surpreso, Cliff pergunta: — Você conheceu o Charlie pelo seu pai?
— Sim — diz Pussycat. — Ele encontrou o Charlie na estrada, deu uma carona, e o levou pra jantar lá em casa. Daí, nós jantamos. E, como tínhamos ficado definitivamente atraídos um pelo outro, saímos escondido de casa aquela noite, depois que todo mundo foi deitar. Transamos no banco traseiro do carro do meu pai, e depois fugimos nele.
Uau, pensa Cliff, esse filho da puta tem colhões. Roubar o carro do cara e a filha gostosinha de 14 anos? Não simplesmente comer ela no meio da noite, o que já seria uma grosseria do caralho. Mas roubar o carro do cara e fugir com ela? Tem gente que toma tiro de espingarda de algum pai por fazer muito menos do que isso. Esse seria o motivo perfeito para ganhar um passe livre para o homicídio, cara. Nenhum policial o prenderia, nenhum júri o condenaria.
— E depois, o que aconteceu? — pergunta Cliff.
— Bom, nós tivemos uns dois dias bem divertidos na estrada. Mas aí o Charlie me disse que eu precisava voltar. Ele disse que os meus pais provavelmente tinham mandado a polícia atrás de mim. E que, se seguíssemos adiante, nós chegaríamos à fronteira do estado, e não poderíamos atravessá-la num carro roubado.
O filho da puta sabe o que tá fazendo, pensa Cliff.
A menina de Los Gatos continua explicando para o dublê de Hollywood:
— Mas o Charlie me disse que, se eu quisesse ficar com ele, o que eu precisava fazer era voltar para casa. Voltar para o colégio. Voltar para o meu quarto. Voltar e ficar assistindo à TV com a minha família. E então eu tinha que me casar com o primeiro imbecil que eu encontrasse pela frente. Porque, assim que eu estivesse casada com esse imbecil, eu estaria imediatamente emancipada dos meus pais. Então, eu me casei com um palhaço qualquer, e mandei uma mensagem pro Charlie dizendo que eu estava emancipada. Ele me mandou uma mensagem me dizendo onde eu poderia me encontrar com ele. Terminei com o Bostalhão e fui encontrar com o Charlie.
Cliff não tinha muita simpatia por caras que se deixavam ser manipulados por mulheres, mas até mesmo ele sentiu pena do coitado que havia se casado com essa figura aí.
— E depois? — pergunta Cliff.
— Depois, uma vida que consistia de mera existência se transformou numa vida com propósito.
E é nesse momento que Debra Jo fica com o olhar vidrado que todas as garotas de Charlie exibem quando lhes deixam falar durante muito tempo.
— Então, tudo isso aconteceu porque o seu pai deu carona pra um cara?
Ela ri sua risada espasmódica e ruidosa.
— Acho que sim! Eu nunca tinha pensado nisso dessa forma, mas acho que é isso aí mesmo.
— E o que o seu pai tem a dizer sobre essa reviravolta? — pergunta um curioso Cliff.
— Bom, essa é uma história meio engraçada. Minha mãe deixou o meu pai por causa disso.
E isso é engraçado?, pensa Cliff.
— E o meu pai tentou estourar os miolos do Charlie com uma espingarda.
Porra, até que enfim, pensa Cliff.
— Imagino que isso não tenha dado muito certo — diz Cliff.
A gatinha risonha balança sua cabeça de um lado para o outro.
— O que aconteceu?
— O que aconteceu — explica Pussycat — é que o Charlie é amor. E você não pode matar o amor com uma espingarda.
— O que isso quer dizer no velho e bom inglês americano?
— Isso quer dizer que Charlie transformou o ódio do meu pai em amor.
Pussycat começa a descrever:
— Charlie disse ao meu pai que ele estava preparado para a morte e que, se aquele fosse o dia dele, tudo bem. Meu pai se acalmou. Charlie acabou abrindo a mente do meu pai naquela noite. Depois, ele fez uma das garotas que estava com ele, Sadie ou Katie, não tenho certeza, porque eu não estava lá, chupar o pau dele. E quando cada um foi para o seu lado no dia seguinte, eles se despediram como amigos.
— Abrindo a mente do seu pai? — pergunta Cliff. — O que isso significa?
— Eles tomaram um ácido.
— Seu pai tomou um ácido com o cara que arruinou sua vida?
— Meu pai tomou um ácido com o cara que mostrou pra ele o quanto a vida podia ser maneira — diz ela. — Mais tarde, meu pai pediu ao Charlie para se juntar à Família.
— Puta merda, você só pode estar brincando! — exclama Cliff.
Pussycat balança a cabeça dizendo que não, ela não está brincando. E então explica:
— Mas o Charlie achou que isso seria muito estranho. Ele disse: “Jesus Cristo, não dá pra fazer isso, o cara é a porra do pai da Pussycat.” Então, meu pai não é um membro da Família, mas é um amigo dela.
Após ouvir a história selvagem de Pussycat, Cliff não consegue evitar de ter algum grau de respeito por esse tal de Charlie. Quer dizer, uma coisa é manipular um bando de garotinhas hippies fugitivas. Provavelmente Cliff poderia fazer aquilo. Mas Cliff nunca exerceu tamanho controle sobre pais furiosos portando espingardas.
Então, para encerrar, Cliff pergunta:
— Beleza, então, deixa eu ver se entendi: um cara dá carona pra um hippie. Ele leva o hippie para jantar em casa, com a sua esposa e sua filha de 14 anos. O hippie come a menina de 14 anos e foge com ela no carro do cara. O mesmo carro em que o cara havia lhe dado uma carona. Por causa do hippie, a filha se casa aos 15 anos e depois foge com ele. A mulher do cara o abandona por conta de todo o caos que ele provocou ao dar uma carona pra porra do hippie. O cara vai atrás do hippie com uma espingarda, mas, em vez de explodir sua cabeça, ele acaba tomando ácido e curtindo uma onda com o hippie. E, depois, pede pra ser um dos seus discípulos?
Pussycat balança a cabeça.
— Estou dizendo, Cliff, o Charlie é um cara fora de série. Você vai curtir ele, e eu tenho certeza de que ele também vai curtir você pra caralho.
Voltando a concentrar toda a sua atenção na estrada, Cliff admite:
— Bom, eu tenho que dizer que estou mesmo bem curioso pra conhecer esse tal de Charlie.