Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Vinte e Um: A mulher da casa
Capítulo Vinte e Um
A mulher da casa
Entre todas as garotas do Spahn Ranch, Squeaky goza de uma posição invejável. As mulheres do rancho são cidadãs de segunda classe dentro da “Família”; são, definitivamente, consideradas inferiores aos homens. Mas Charlie faz questão de enfatizar que elas também são inferiores aos cachorros que vivem no rancho. Sempre que uma mulher da Família quer comer um prato de comida, ela precisa oferecer primeiro a um cachorro. Praticamente nenhuma delas tem uma posição de autoridade (muito menos Mary Brunner, primeira integrante da Família, e mãe do filho de Charlie, Pooh Bear).
Eu digo “praticamente” porque duas mulheres ocupam lugares especiais dentro da hierarquia da Família. Uma delas é “Gypsy”, que, aos 34, é, de longe, a mulher mais velha do grupo. A posição de Gypsy seria equivalente à de um gerente de recrutamento. Sempre que um rapaz ou uma garota são atraídos até o rancho, a primeira atitude é apresentá-los a Gypsy.
Mas é a fadinha Squeaky quem detém o mais próximo de uma posição de autoridade dentro da estrutura social da Família. O motivo pelo qual a Família pode ficar no Spahn Ranch é um acordo que Charlie fez com o seu proprietário, George Spahn. E é responsabilidade de Squeaky tomar conta de George.
George Spahn é um homem de 80 anos que, por décadas, alugou a rua principal de uma cidade cenográfica do Velho Oeste que havia em seu rancho para Hollywood fazer seus filmes e produtoras fazerem programas de TV. No passado, O Cavaleiro Solitário, Zorro e Jake Cahill já desfilaram seus cavalos pela rua principal do Spahn Ranch. Mas, nos dias de hoje, Hollywood tinha se mudado para algum outro lugar, e o antigo set de filmagens estava largado. Ele ainda era usado, eventualmente, para alguma sessão de fotos de uma revista ou para uma capa de disco (a banda James Gang fez fotos para a capa de um de seus álbuns lá). O rancho ainda tinha cavalos, e ainda oferecia passeios guiados pelos cânions de Santa Susana para famílias.
Mas, agora, os únicos filmes rodados no rancho eram pornôs com temática western ou filmes Z, ao estilo do cinema exploitation de Al Adamson. Além disso, George Spahn tinha ficado praticamente cego. Esquecido pela indústria, o velho George acabou encontrando companhia na “Família” de Charlie. Na maior parte do tempo, ele ficava em sua casinha, postada no alto de um morro, com vista para a cidade cenográfica do Velho Oeste. A casa está abarrotada até o teto de lembranças que George não consegue mais ver, relíquias que representam os dias de glória de seu rancho: cartazes emoldurados de velhos filmes de faroeste que usaram o rancho de George como locação, e fotos desbotadas pelo sol de atores mais velhos ainda, que atuaram neles. Também havia uma coleção de selas, e até mesmo algumas estatuetas de caubóis e índios feitas pelo próprio George Montgomery.
E, tomando conta de George e de todos os seus pertences estava Squeaky. E no que diz respeito a cuidar de George, Squeaky havia se mostrado tão competente quanto inestimável.
Isso permitiu que ela conquistasse uma autonomia dentro da dinâmica da Família com a qual as outras mulheres do rancho apenas sonhavam. Para começar, ela ficava dentro da casa. E ela havia se colocado como a “mulher da casa”. Uma posição que nem George questionava. Aquele até podia ser o rancho de George, mas, em algum momento, aquela se tornou a casa de Squeaky. As demais garotas precisavam trabalhar no campo e revirar o lixo em busca de comida. Squeaky tinha de cozinhar para George, vesti-lo, tomar conta de sua casa, e lhe fazer companhia. As outras garotas comiam lixo rançoso, pão dormido, legumes horríveis, frutas machucadas e podres, e, às vezes, precisavam chupar o pau ou dar para algum funcionário de supermercado em troca do privilégio de revirarem seu lixo. Squeaky cozinhava e comia comida de verdade, comprada por George. É claro que ela precisava transar com George com alguma frequência e bater uma para ele de vez em quando, mas ela não se incomodava muito com isso. Além de tudo, era muito melhor trepar com George do que com aqueles motoqueiros babacas e desprezíveis que frequentavam o rancho. Mas, além disso, como George fica escutando a estação de música country o dia inteiro, Squeaky é a única integrante da Família que tem uma conexão com o mundo exterior. Mas, junto com o fato de poder comer comida de verdade, tirada de uma geladeira, e não algo saído de uma lata de lixo, a coisa mais invejável na posição de Squeaky, abrigada dentro daquela casa, com George, era o seu privilégio de assistir à TV.
* * *
Charlie não deixava seus discípulos assistirem à TV. Quando eram pequenos e seus pais proibiam ou regulavam seu hábito de ver TV, eles alegavam que ela prejudicaria seus cérebros. Charlie dizia que ela roubaria suas almas.
A verdade é que a única maneira de Charlie controlar aquela garotada seria controlando o seu ambiente e a sua realidade. Charlie não estava preocupado com eles assistindo a programas de TV. Os atrativos de A Família Buscapé, Gomer Pyle, Agente 86 ou A Ilha dos Birutas não ameaçariam sua autoridade. Era com os comerciais (o verdadeiro ópio das massas) que Charlie se preocupava. O reforço da tentação do fruto proibido, do qual um dia haviam provado, mas que agora tinham abandonado. Tudo o que ele não precisava era daqueles curtas-metragens, feitos pelos gênios da Madison Avenue, produzidos com o único propósito de atiçar, fazer seus discípulos lembrarem da vida que haviam deixado para trás. Num embate frente a frente com os pais nos quais eles não confiavam e dos quais se ressentiam, Charlie venceria. Num embate direto com uma filosofia que se opusesse à de Charlie, ele venceria. Mas, numa competição direta com a lembrança dos prazeres proporcionados por Tootsie Rools, Froot Loops, Clark Bars, Hires Root Beer, Kentucky Fried Chicken, batons da Revlon, maquiagem da Cover Girl e vitaminas comestíveis dos Flintstones, em algum momento, Charlie seria derrotado.
* * *
Mas Squeaky podia assistir a quanta televisão quisesse.
Embora talvez tenha sido a oferta de sexo com Squeaky o que inicialmente selou o acordo com George Spahn, na prática, era o seu papel como cuidadora que garantia um lugar para a Família naquele rancho. Squeaky fazendo companhia para o velho. Vestindo-o, conversando com ele durante suas caminhadas, cozinhando para ele, assistindo à TV com ele, descrevendo para o velho cego o que os Cartwright estavam fazendo quando assistiam a Bonanza.
Mas, hoje, Charlie e um grupo grande de seus discípulos estavam longe dali, em Santa Barbara. E, como se diz, quando o gato sai, os ratos fazem a festa.
Squeaky convidou alguns dos moleques para irem até a casa e assistirem à TV. Como era uma tarde de domingo, assistiram à programação de rock de Dick Clark na ABC. Primeiro, American Bandstand, apresentado pelo próprio Dick, e o programa It’s Happening, produzido por Clark e apresentado por Paul Revere and the Raiders. A convidada de hoje era a banda Canned Heat.
Condizente com sua posição dentro da casa, a sardenta Squeaky está sentada na confortável poltrona reclinável de George, completamente reclinada, vestindo um short jeans, com suas fantasmagóricas pernas brancas desnudas esticadas à sua frente, olhando para a tela da TV por entre seus pés imundos e descalços. Os outros cinco membros da Família compartilham um baseado, acomodados entre o sofá e o chão.
Na TV, o tema musical de It’s Happening, executado por Paul Revere and the Raiders, começa a emanar da minúscula caixa de som do aparelho, enquanto a abertura do programa é exibida. Ela consiste de imagens em preto e branco de Paul Revere e do vocalista Mark Lindsay pilotando bugues em dunas e fazendo manobras altamente perigosas (tão perigosas que Mark Lindsay quase se matou durante as filmagens dessa abertura).
Enquanto todos batiam seus pés e balançam suas cabeças no ritmo contagiante da música, Squeaky escuta, ao longe, um carro embicando na entrada do rancho. Imediatamente, a mulherzinha puxa a alavanca para tirar a poltrona de seu modo reclinado e seus pés descalços tocam o chão.
— Isso é um carro — diz, em voz alta.
Ela pega o controle remoto grandalhão, clica duas vezes no botão do volume, e fica prestando atenção. Ela escuta o barulho de um motor a distância, e o som de pneus percorrendo o chão batido.
— E é um carro de um estranho — deduz, e então emite uma ordem quase militar: — Snake, vá ver quem está lá fora.
“Snake”, que é a garota mais jovem da Família, salta do sofá e atravessa a sala de estar até a cozinha para olhar pela porta de tela. A garotinha fica olhando pela tela imunda enquanto seus olhos procuram pelo automóvel. A casa de George fica no alto de um morro, num dos cantos do terreno. De seu ponto de vista elevado, Snake consegue ver toda a propriedade. Ela olha para o que sobrou do velho set de filmagens de faroestes, vai até o começo da rua principal, e, depois, para o lugar onde as pessoas estacionam seus carros. E é ali que ela enxerga o enorme e antigo Cadillac amarelo-claro.
— Está vendo alguma coisa? — grasna Squeaky da sala de estar.
— Estou — responde Snake. — Um Coupe de Ville amarelo maneiríssimo. Tem um cara meio coroa usando uma camisa havaiana que deu uma carona pra Pussycat — relata para Squeaky.
Do outro cômodo:
— Ele só deu carona pra ela?
— Não, ela está levando ele para o rancho para conhecer o pessoal. Gypsy acaba de ir até lá recebê-los.
Squeaky volta a reclinar a poltrona e a pressionar o botão de volume no controle remoto de plástico, aumentando novamente o som da TV.
— Fique aí e me avise se ele estiver vindo nessa direção.
Snake fica olhando Pussycat e o cara havaiano conversando com Gypsy enquanto, pouco a pouco, outras mulheres do grupo também se juntam ao círculo. Pelo que Snake consegue ver, todos parecem muito sociáveis, e ela consegue ouvir risadas de tempos em tempos. Até mesmo “Tex” Watson aparece cavalgando a Lulu, conversa um pouco com o cara havaiano, e depois vai embora.
— O que está rolando? — pergunta Squeaky.
— O cara havaiano parece ser legal — relata Snake. — Tá todo mundo conversando numa boa com ele. Até o Tex foi lá falar com ele e depois saiu montado na Lulu.
— Fica de olho aí — ordena Squeaky. — Se ele vier nesta direção, me avisa.
Então, cerca de dez minutos após Tex e Lulu terem cavalgado para longe, Snake percebe uma mudança na dinâmica entre as garotas da Família e o forasteiro mais velho de camisa havaiana. Agora, as risadas parecem ter acabado. Assim como a linguagem corporal mais relaxada de paz e amor das garotas da Família. Elas agora estão mais paradas, tensas, e na defensiva. Então, Snake vê o cara havaiano olhando para a casa e gesticulando com seu dedo na direção dela.
— Tá rolando alguma coisa — comunica Snake. — As meninas estão agindo de um modo estranho, e o cara havaiano está apontando para cá.
— Filho da puta, eu sabia — diz Squeaky.
Clem, um membro da Família que tem vários dentes quebrados, pergunta a Squeaky:
— Você quer que eu dê um jeito nele?
Squeaky dá um sorriso maternal a ele e diz:
— Não precisa, querido. Deixa que eu resolvo isso.
— Puta merda — diz Snake.
Embora já soubesse a resposta, Squeaky pergunta:
— Que foi?
— O coroa havaiano tá vindo pra cá — responde Snake, alarmada.
Squeaky endireita a poltrona reclinável, levanta-se do seu trono, e vai andando até a cozinha para ver o que Snake está vendo pela porta de tela. E ela vê o cara de camisa havaiana andando sozinho na direção das escadas que levam até a porta pela qual estão olhando.
Squeaky morde o lábio e se pergunta: Quem diabos é esse cara?
Então, para os outros jovens:
— Beleza, galera, deem o fora daqui. Eu dou um jeito nesse otário.
Enquanto Squeaky fica parada ao lado da porta de tela, os demais saem da casa e descem, um atrás do outro, pela escadaria, passando pelo forasteiro com a camisa havaiana.
Todos ficam olhando feio para ele. Assim que o último membro da Família deixa a casa, Squeaky coloca o ganchinho da tranca da porta de tela de volta ao seu aro de metal.
O cara havaiano sobe as escadas até estar de pé, do outro lado da tela imunda, exatamente na frente de Squeaky.
— Então, você é a mamãe ursa? — diz ele, de uma forma amigável.
Squeaky considera lhe dizer um “aloha” sarcástico, mas acaba achando que aquilo seria muito encorajador. Então, em vez disso, ela diz, tão seca quanto um galho morto se partindo:
— Posso ajudar?
O cara havaiano enfia suas mãos nos bolsos de trás de suas calças e diz, tentando parecer simpático:
— Espero que sim. Eu sou um velho amigo do George. Pensei em dar uma passada aqui pra dizer um oi.
Levando à potência máxima os dois holofotes que ela tinha no lugar dos olhos, ela concentra toda a sua energia em encarar, de forma implacável, o intruso havaiano.
— Bom, isso é muito gentil da sua parte. Infelizmente, você não escolheu o melhor momento. George está tirando um cochilo agora.
O cara havaiano tira seus óculos escuros e fala:
— Puxa, que azar.
— Qual o seu nome?
— Cliff Booth.
— De onde você conhece o George?
— Eu sou dublê. Eu filmava Lei da Recompensa aqui.
— O que é isso?
Aquilo faz o cara havaiano dar uma risadinha.
— Era um seriado de faroeste que era gravado aqui — responde ele.
— Não me diga! — diz Squeaky.
— Pois digo.
Gesticulando com seu dedão para trás, na direção da cidade cenográfica, ele diz a ela:
— Eu devo ter caído de cavalos em cada pedacinho daquela rua principal, e pulado de cima dos telhados de todos aqueles prédios ali em cima de montes de feno. E provavelmente saí voando pela janela do Rock City Café bem mais do que eu deveria.
— Sério? Que incrível.
Seu olhar intenso fuzilava aquele intruso de tal maneira que faria inveja ao olhar que Ralph Meeker costumava usar em suas cenas dramáticas.
— E para o seu governo, não estou me exibindo — garante o cara havaiano —, só estou te mostrando que eu conheço o lugar.
Com o tom autoritário e impassível de um patrulheiro rodoviário, Squeaky pergunta ao cara havaiano:
— Quando foi a última vez que você viu o George?
Aquilo desconcerta o intruso, e ele precisa parar para pensar.
— Hmm, deixa eu ver, hã… eu acho que…. Ah, uns oito anos atrás.
Finalmente, um sorriso se insinua nos cantos da boca de Squeaky.
— Ah, me desculpe, eu não sabia que vocês eram tão próximos.
Como era fã do bom e velho sarcasmo, o cara havaiano dá uma risada.
— Bom, quando ele acordar — diz ela —, eu digo a ele que você apareceu.
O cara havaiano olha para o chão, coloca seus óculos escuros para fazer uma cena, e então ergue sua cabeça e olha para o rosto sardento de Squeaky do outro lado da tela.
— Bom, eu queria muito dar um oizinho rápido, agora, já que eu estou aqui. Eu vim de muito longe, e não sei quando virei para esses lados novamente.
Fingindo alguma simpatia, Squeaky diz:
— Ah, eu entendo. Mas temo que seja impossível.
— Impossível? — repete Cliff, incrédulo. — Impossível por quê?
Squeaky diz tudo num só fôlego:
— Porque eu e o George gostamos de assistir à TV nas noites de sábado: The Jackie Gleason Show, The Lawrence Welk Show e Johnny Cash. Mas o George tem dificuldade de ficar acordado até tão tarde. Então, eu faço ele tirar uma soneca de tarde, pra não perder minha diversão noturna com ele.
O cara havaiano sorri, tira seus óculos novamente, e fala através da tela:
— Olha só, Ferrugem, eu vou entrar aí. E vou dar uma boa olhada no George com os meus dois olhos. E isso aqui — diz ele, dando um tapinha na tela bem na altura do rosto de Squeaky — não vai me impedir.
Squeaky e o cara havaiano ficam se encarando através da porta de tela até que ela, de repente, dá uma piscada decisiva.
— Você é quem sabe.
Então, ela remove ruidosamente o ganchinho da tranca da porta, dá as costas ao cara havaiano, vai andando até a sala de estar, e se joga na poltrona novamente, reclinando-a para trás, pegando o controle, e aumentando o volume da TV.
Ela volta toda a sua atenção para a televisãozinha em preto e branco que fica em cima de um móvel todo quebrado. Em sua telinha, naquele momento, Paul Revere and the Raiders estão dando pulos enquanto tocam sua canção “Mr. Sun/ Mr. Moon”.
Quando se trata de persuadir George a fazer alguma coisa, Squeaky geralmente é muito boa. Mas quando se trata de persuadir um velho cego e sovina a gastar seu dinheiro para comprar uma TV em cores, aparentemente os poderes de persuasão de Squeaky conhecem o seu limite.
* * *
Ela escuta a dobradiça enferrujada da porta de tela ranger enquanto o cara havaiano a abre e entra na casa. Ela não vira a cabeça em sua direção, mas escuta quando ele adentra a sala de estar.
— Onde fica o quarto dele?
Usando seus pés descalços, ela aponta para o corredor.
— Porta no fim do corredor. Talvez você precise acordá-lo. A gente trepou loucamente essa manhã — diz Squeaky, e, então, se vira para o intruso havaiano e diz, com um sorrisinho malicioso em seu rosto: — Ele deve estar cansado.
O cara havaiano não lhe lança um olhar chocado, como ela esperava, nem esboça qualquer reação nesse sentido. Ele simplesmente passa por ela e entra no corredor. Quando está prestes a deixar o seu campo de visão, ela diz a ele:
— Ah, Sr. Oito Anos Atrás? O George está cego. Provavelmente você terá de dizer a ele quem você é.
Isso faz o cara havaiano parar por um instante, e depois ele segue pelo corredor e desaparece.
Na televisãozinha, os Raiders terminam de tocar sua música, e Mark Lindsay diz a todos que estão assistindo para continuarem sintonizados para “o anúncio das próximas atrações”, seguido por uma propaganda do seriado FBI, da ABC. Squeaky ouve o dublê havaiano bater de leve na porta do quarto de George e perguntar:
— George, você está acordado?
Squeaky grita bem alto da poltrona reclinada:
— Puta que o pariu, é claro que ele não tá acordado, eu disse! E ele também não vai escutar essas suas batidas de mulherzinha. Se você tem certeza de que quer acordar ele, abre essa porta, entra no quarto, e sacode o George até ele acordar, porra!
Squeaky escuta a porta do quarto do velho se abrir. Ela pega o robusto controle remoto e clica duas vezes nele, abaixando o volume da TV enquanto Efrem Zimbalist Jr. narra o comercial de FBI.
E então, Squeaky escuta o cara havaiano sacudir George e chamá-lo pelo seu nome, e depois ela escuta o velho confuso acordando esbaforido.
— Calma aí! O que está acontecendo? Quem é você? O que você quer?
— Está tudo bem, George. Está tudo bem. Desculpe te incomodar. É o Cliff Booth. Eu só dei uma passada pra dizer oi e ver como você estava.
Confuso, George pergunta:
— Quem?
O cara havaiano explica melhor.
— Bom, eu costumava filmar Lei da Recompensa aqui. Eu era o dublê do Rick Dalton.
— De quem? — grasna George.
— Rick Dalton — repete o cara havaiano.
George resmunga alguma coisa que Squeaky não consegue escutar do outro aposento. Então, ela escuta o cara havaiano repetir e enfatizar o nome:
— Rick. Dalton.
— E quem é esse? — pergunta George.
— Ele era o astro de Lei da Recompensa.
Novamente confuso, George pergunta:
— Quem é você?
— Eu era o dublê do Rick.
Squeaky ri quando escuta George dizendo:
— Rick do quê?
— Não interessa, George, Eu sou um velho colega do passado, e só quis me certificar de que você estava bem.
— Bom, eu não estou bem — responde George.
— Qual é o problema? — pergunta o cara havaiano.
— Eu não consigo ver porra nenhuma! — retruca George, e isso faz Squeaky rir novamente.
O cara havaiano diz alguma coisa que ela não consegue escutar, e depois George diz alguma coisa que ela não consegue escutar, e então o cara havaiano diz alguma coisa que ela não consegue entender direito, exceto pela palavra “ruivinha”.
Squeaky não tem problemas para entender a resposta de George:
— Eu te disse que eu não consigo ver porra nenhuma! Como é que eu vou saber qual é a cor do cabelo da garota que passa o tempo todo comigo, caralho?
Então, ela escuta o cara havaiano resmungar alguma coisa, e George diz a ele:
— Olha, eu não me lembro de você, mas obrigado por ter vindo até aqui me visitar, e…
Depois disso, seja lá o que o velho cego diz para o cara havaiano, Squeaky não consegue entender. A conversa se transforma numa troca de murmúrios em tons diferentes, até que ela escuta a voz do cara havaiano subir, porque ele quer que George o entenda bem.
— Então, você autorizou todos esses hippies ficarem aqui?
Com essa pergunta, George responde furiosamente:
— Porra, mas quem diabos é você?
Ela escuta o cara havaiano tentando explicar mais uma vez por que ele está aqui.
— Cliff Booth. Eu sou dublê. Nós trabalhávamos juntos, George. E eu só quero ter certeza de que você está bem, e que esse bando de hippies não está se aproveitando de você.
— Squeaky? — pergunta George. E depois responde: — Ela me ama, rapaz.
Isso faz a ruivinha sorrir. Ela pega o pesado controle remoto, clica três vezes nele, e fica assistindo a Canned Heat tocar “Going Up the Country” em It’s Happening.
* * *
Cerca de seis minutos depois, o cara havaiano sai do quarto e para bem no meio da sala, olhando para ela, sentada na poltrona reclinável. Sem olhar para ele, Squeaky pergunta:
— Satisfeito?
Ele enfia suas mãos nos bolsos.
— Eu não usaria exatamente essa palavra.
Ela vira a cabeça em sua direção, e diz, com um brilho no olhar e um sorriso no rosto:
— Mas acho que essa seria a palavra que George teria usado hoje de manhã.
Cliff dá um sorrisinho irônico ao ouvir seu comentário atrevido, e senta-se no sofá de dois lugares que fica de frente para a poltrona.
— Então você transa com o velho com frequência, é?
— Aham. George é ótimo. E eu aposto que ele consegue ficar duro por mais tempo do que você, vaqueiro.
— Olha — diz o cara havaiano —, George é um velho amigo…
Ela o interrompe:
— Ele nem sabe direito quem diabos você é!
— Seja como for, eu só quero ter certeza de que ele está feliz e ciente.
— Ele está ciente de que eu faço sexo com ele cinco vezes por semana, e está feliz com isso.
Squeaky aponta para o quarto e diz:
— Se quiser constrangê-lo, pode fazer essa pergunta diretamente para ele.
O cara havaiano tira seus óculos escuros, inclina-se para a frente, e pergunta:
— E o motivo pelo qual você faz sexo com George cinco vezes por semana é porque você o ama?
Squeaky dá um de seus olhares penetrantes ao babaca havaiano.
— Pode apostar que sim. Do fundo do meu coração, por tudo o que eu tenho, e por tudo o que eu sou, eu amo o George. E se você acredita ou não que eu seja capaz disso — diz ela abaixando a sua voz até virar um sussurro —, estou pouco me lixando.
O babaca havaiano confronta seu olhar penetrante com uma pergunta sarcástica:
— Então, você não está tentando convencê-lo a mudar o testamento ou algum outro documento desse tipo, não é?
Aquela pergunta faz Squeaky piscar, uma vez. Mas a piscada não abala sua postura ou compromete sua indignação sincera.
— Não, eu não falo com ele sobre mudar o testamento. Eu falo com ele sobre casamento.
Toma essa, Cliff.
Squeaky resume:
— Então, deixa eu ver se eu entendi... A última vez que você viu George foi na porra dos anos 1950, e agora, do nada, você aparece aqui para salvá-lo… do casamento? Você veio salvá-lo de fazer sexo cinco vezes por semana? Você tem certeza de que você era amigo do George na época em que vocês se conheciam? Você anda por aí salvando todo mundo do casamento ou tem alguma coisa especial com o George?
O cara havaiano fica sentado no sofá escutando tudo aquilo, e então diz:
— Sabe de uma coisa… você tem razão.
Então, ele se levanta, começa a andar pela casa, atravessa a porta de tela, e desce as escadas. Satisfeita, Squeaky cruza as pernas na altura dos tornozelos, e volta sua atenção para o programa musical produzido por Dick Clark.