Era Uma Vez em Hollywood

Quentin Tarantino · Capítulo 19 de 29

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Era Uma Vez em Hollywood

Capítulo Quinze: “Você é um Edgar nato”

Capítulo Quinze

 

“Você é um Edmund nato”

 

O ator Rick Dalton, vestido com o figurino de Caleb DeCoteau, e seu diretor, Sam Wanamaker, sentados em suas cadeiras de diretor, no set de Lancer, discutem a sua personagem.

— Eu quero que você imagine uma cascavel — diz Sam. — Eu acho que a cascavel é o seu animal espiritual.

Normalmente, diretores de programas de TV estão tão ocupados tentando cumprir seus cronogramas do dia que não têm tempo para ficar falando sobre animais espirituais. Mas Sam é um desses diretores sérios, da escola do teatro britânico. E como ele parece muito empolgado com Rick, Rick imagina que talvez ele também deva falar sobre essas coisas.

— Que engraçado você dizer isso — mente Rick. — Eu estava justamente tentando pensar num animal espiritual para o Caleb.

— Bom, eu acho que é a cobra — diz Sam.

O diretor aponta para o protagonista de Lancer, Jim Stacy, sentado do outro lado do set, com a atriz mirim que interpreta Mirabella Lancer, Trudi Frazer, em seu colo.

— Pense nele como um mangusto. É um duelo. Mais tarde, vamos filmar aquela cena com vocês dois. E eu quero ver tudo nos olhos.

Eu quero ver tudo nos olhos? Que porra isso quer dizer? pensa Rick.

Então, Rick repete, pensativo, em voz alta:

— Tudo nos olhos.

Sam o faz recordar.

— Lembra quando eu falei dos Hells Angels antes?

Rick balança a cabeça.

— Imagine que você está pilotando uma moto enorme — diz Sam, e aponta novamente para Stacy, do outro lado do set, usando sua camisa vermelha de babados. — E aquele cara ali quer entrar pra sua gangue. E você o faria passar pelo mesmo tipo de teste que um chefão dos Hells Angels aplicaria a um dos seus membros.

— Entendi — diz Rick. — Então, os cavalos são quase como motocicletas?

— São sim — concorda Sam. — Eles eram as motocicletas da sua época.

Balançando a cabeça, Rick diz:

— Certo.

— E o seu bando é como uma gangue de motoqueiros — orienta Sam.

— Certo.

— E eles invadiram esse vilarejo da mesma maneira que uma gangue de motoqueiros invade uma cidade, fazendo todo mundo se cagar de medo — diz Sam.

Apesar de Jim Stacy estar sentado do outro lado do set e não ser capaz de escutá-los, Rick inclina-se para perto de Sam e pergunta, de maneira confidencial:

— Então, o Stacy queria mesmo usar um bigode?

Rindo, Sam diz:

— Vai por mim, você não acreditaria nas brigas que eu tive por causa desse maldito bigode. Ele queria muito que o Johnny Madrid usasse bigode. Para ele, isso era o personagem. Stacy, assim como Madrid, é um cara que se destaca. Não é um desses atores sorumbáticos do Actors Studio. É do tipo que um dia poderia ir parar na cadeia — diz Sam, de forma provocativa. — Então, é claro que ele queria fazer esse seriado. Mas ele não queria ficar parecido com Doug McClure nem com Michael Landon. Então, o bigode o diferenciaria. Só que aí a CBS cortou essa porra toda de bigode.

Rick detestava aquela merda de lagarta peluda grudada na cara. Porém, era evidente que o fato de Stacy querer tanto usar um bigode estava fazendo com que Rick gostasse cada vez mais daquilo.

Sam continua:

— Falando em bigodes falsos, a última vez que eu usei um deles foi quando fiz Rei Lear no teatro, com Olivier. E ele costumava sair toda noite depois da cena da tempestade, encharcado, tanto de chuva quanto de suor. E aí ele olhava pra mim, eu interpretava o duque da Cornualha….

Então, como se tivesse sido repentinamente tomado por uma inspiração:

— Rick, meu caro, você já fez Shakespeare?

Rick ri, e então se dá conta, Puta merda, ele não está brincando.

— Eu? — pergunta Rick.

— Sim — diz Sam.

Porra, eu lá tenho cara de quem fez Shakespeare?

— Não — diz Rick. — Não fiz muito teatro.

— Bom, eu acho que você é um Edmund nato — diz Sam.

Rick pergunta:

— Ed-Edmund?

— É o filho bastardo — relembra Sam. — O filho bastardo que passou a vida inteira ressentido.

Qualquer personagem ressentido poderia ser um personagem que Rick nasceu para fazer.

— Bom, acho que consigo me imaginar fazendo isso — diz Rick, com sinceridade.

— Ele é ressentido porque o rei o exclui — explica Sam.

— Certo — responde Rick.

Sam declara:

— Você seria um Edmund do caralho.

Sério?, pensa Rick.

— Bem, obrigado — diz Rick. — Fico lisonjeado por você pensar assim.

Rick não consegue nem ler Shakespeare, quanto mais dizer as falas, quanto mais saber do que ele está falando quando as diz.

— E eu ficaria honrado em dirigi-lo — declara Sam.

Praticamente ficando corado, Rick repete:

— Bom, de novo, fico lisonjeado.

Sam começa a projetar um cenário:

— Quer dizer, isso poderia ser uma coisa pra gente fazer juntos. Acho que chegou o momento em que eu já tenho cabelos grisalhos suficientes na cabeça para interpretar rei Lear.

Rick admite, sinceramente:

— Bem, eu precisaria ler um pouco antes. Sendo bem honesto, não conheço muito Shakespeare.

Ou melhor, não conheço nada, pensa Rick.

— Isso não seria uma questão — insiste Sam. — Eu poderia ajudar você nisso.

— Eu teria de fazer um sotaque britânico? — pergunta Rick.

— Não, bom Deus, não! Eu não permitiria uma coisa dessas — explica Sam. — Eu sei que parece que os britânicos têm um monopólio sobre o Bardo.

Quem diabos é o Bardo?, pensa Rick.

— Mas, na minha opinião — declara Sam —, na verdade o inglês americano é mais próximo do inglês que era falado na época do Will.

Rick pergunta:

— Que Will? Ah, porra, o Shakespeare!

— Sim, não seria nada daquela prosa toda empoada e pomposa da escola do Maurice Evans.

Empoada e pomposa? Maurice o quê?

— Os melhores atores shakespearianos são os americanos. Na real, verdade seja dita, os espanhóis e mexicanos, quando atuam em inglês, são os melhores atores shakespearianos. O Macbeth do Ricardo Montalban é simplesmente maravilhoso! Mas os americanos são os que chegam mais perto de capturar a poesia das ruas, que é o que Shakespeare é, quando encenado da maneira correta, o que raramente é o caso. Quer dizer, menos quando o ator americano tenta fazer sotaque britânico. Esses são os piores.

— Sim, eu detesto isso — concorda Rick, mentindo. — Bom, como eu disse, eu não fiz muito Shakespeare. Na maioria das vezes me escalaram pra fazer faroestes.

— Bom, você ficaria surpreso se soubesse quantos faroestes têm suas tramas inspiradas em Shakespeare — diz Sam, e então aponta novamente para James Stacy, do outro lado do set, com a pequena Trudi Frazer ainda sentada em seu colo. — Sabe, sempre que existe uma disputa por poder, ou para decidir quem será o líder, isso é puro Shakespeare.

Rick balança a cabeça e diz:

— Sim, eu sei.

— E é esse o tipo de relação que vocês dois têm, Caleb e Johnny, uma disputa por poder. E quando filmarmos hoje a última cena de vocês, a cena do resgate da garotinha, podemos ter uma discussão sobre Hamlet.

— Você está querendo dizer que Caleb é como um Hamlet?

— E um Edmund.

— Bom, acho que não sei a diferença.

— Bom, ambos são jovens furiosos, em conflito. E foi por isso que escalei você para esse papel. Mas, por trás de Hamlet, e por trás de Edmund, há uma cascavel.

— Uma cascavel?

— Numa motocicleta.