Era Uma Vez em Hollywood

Quentin Tarantino · Capítulo 10 de 29

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Era Uma Vez em Hollywood

Capítulo Seis: “Hollywood ou nada”

Capítulo Seis

 

“Hollywood ou nada”

 

Arredores de Dallas, Texas

Quatro anos atrás

O caubói de rodeio dirigindo o Cadillac Coupe de Ville 1959 branco e imundo, puxando um reboque branco e imundo com um cavalo marrom empoeirado dentro dele, vê uma garota com o dedão esticado pedindo carona no acostamento da estrada que leva a Dallas cerca de 400 metros antes de chegar nela. Ela veste uma camiseta cor-de-rosa justa, uma minissaia amarela, está com suas longas pernas de fora, tem seus pés descalços, um grande chapéu branco em sua cabeça, e uma mochila de lona ao seu lado. Quando o caubói se aproxima, ele vê que a camiseta rosa apertada esconde dois peitos enormes, e que suas longas pernas de fora são inusitadamente brancas.

Quando ele para o carro no acostamento e ela se curva para olhar para ele pela janela do banco do carona, ele vê que ela tem longos cabelos louros debaixo do grande chapéu branco; tem por volta de 22 anos, e é uma gata gostosa pra caralho.

— Quer uma carona? — pergunta ele, retoricamente.

— Com certeza — diz a loira, sem sotaque do Texas.

O caubói abaixa o volume do rádio em que Merle Haggard está cantando “Tulare Dust”, e pergunta:

— Tá indo pra onde?

— Califórnia — foi a resposta da loira peituda.

Cuspindo o sumo do tabaco de marcar num copo de café de papel da Texaco cheio de saliva marrom, o caubói ri.

— Califórnia? Bom, isso é bem longe.

— Eu sei — diz ela, assentindo. — Você me dá uma forcinha?

— Olha, Califórnia eu não sei — diz o caubói —, mas pretendo estar fora do Texas até as sete horas desta noite. Eu posso te largar no Novo México.

— Já é alguma coisa, vaqueiro — diz ela, sorrindo.

Ele sorri de volta.

— Bom, então entra aí, vaqueira.

Antes de assumir o compromisso de entrar no Cadillac do camarada, ela examina o caubói mais de perto. Ele tem algo perto de 47 anos, é bonitão, embora maltratado pelo sol (um pouco como o carro); está usando um chapéu branco de palha, uma camisa de caubói bege com manchas de suor nas axilas, e tem os lábios bem sujos de tabaco de mascar. Ela olha para o banco traseiro, que tem uma mochila de lona não muito diferente da dela. Exceto que a dele é verde-oliva, com um aspecto meio militar, enquanto a dela é preta e tem um logotipo da 7 Up. Ela olha para o reboque preso à traseira do Cadillac e pergunta:

— Tem um cavalo dentro desse reboque?

— Você sabe que tem.

— Qual o nome dele?

— O nome dela é Bonequinha — diz ele, bem devagar.

— Bom — diz ela, sorrindo. — Imagino que um cara que batiza sua égua de Bonequinha não vai me estuprar.

— Bom, esse é o seu primeiro erro — devolve ele, sorrindo. — Um cara que tem um garanhão negro chamado Estrangulador de Boston, bom, nesse aí você pode confiar.

O caubói dá uma piscadinha.

— Bom, vamos arriscar — diz ela jogando sua mochila de lona no banco traseiro, ao lado da mochila dele. Ela abre a porta e entra no Cadillac.

— Essa porta tá meio fodida — diz o caubói. — Você precisa bater com força.

Ela abre a porta mais uma vez e segue suas instruções, batendo com toda a força.

— É isso mesmo — diz ele, enquanto vai retornando para a estrada.

* * *

O caubói puxa conversa.

— Então, para qual parte da Califórnia você vai?

Ele volta a deixar o Merle Haggard num volume aceitável.

— LA, San Francisco ou Pomona?

— Quem pediria carona do Texas para Pomona? — pergunta ela.

— Bom, eu, talvez — confessa o caubói. — Mas eu não sou uma beldade loirona.

— Los Angeles — diz ela.

— Vai virar surfista? Que nem a Annette Funicello?

— Não acho que ela seja surfista de verdade — diz a loira. — Na verdade, nem ela nem o Frank sequer são bronzeados. Você é mais bronzeado do que eles.

— Sim, e eu tenho umas cinco rugas a mais na minha testa do que eles também.

E então, olhando para sua linda passageira, ele diz:

— E Deus lhe abençoe por chamar essa pele arruinada de sol de bronzeado.

A jovem caroneira se apresenta para o caubói maduro; eles dizem seus nomes e apertam suas mãos.

— Então, pra onde cê tá indo? —, pergunta o caubói.

— Los Angeles. Meu namorado está me esperando.

A loira não tinha um namorado esperando por ela em Los Angeles. Isso era apenas o que ela havia planejado dizer para os homens sozinhos com quem talvez pegasse uma carona. Depois, ela passaria os próximos 45 minutos falando sobre esse namorado imaginário, tudo parte do seu método de viajar de carona. Ela chamou esse namorado de Tony.

Foi durante o seu blá-blá-blá sobre Tony que ela começou, por algum motivo, a confiar no caubói de chapéu branco, uma vez que ele não ficou decepcionado nem mostrou desinteresse na sua nova vida em LA com Anthony.

— Bom, se você me perguntasse — disse ele, alongando as palavras —, eu diria que esse Tony é um sujeito de sorte!

— Para onde você e Bonequinha estão indo?

Essa foi a vez de o caubói ficar um pouco relutante. Ele e Bonequinha estavam a caminho de Prescott, no Arizona. Sabe, o caubói era um cavaleiro de rodeio; ele tinha acabado de participar de um rodeio em Dallas no fim de semana, chamado Wild West Weekend, em que havia ganhado uma bolada e transado com tudo o que encontrou pela frente. Agora, ele estava voltando para Prescott, sua cidade natal, para participar de um outro rodeio, daqui a dois finais de semana. O Prescott Frontier Days tinha sido o primeiro rodeio da história, realizado em 1888, e o caubói ficaria arrasado se o perdesse na frente dos moradores de sua cidade natal. Tudo isso ele omitiu daquela loira de pernas longas cruzadas que nem índio e sentada no seu banco do carona, porque, sinceramente, ele não sabia se queria a companhia dela por muito tempo. Então, ele descreveu em detalhes o rodeio do qual havia acabado de participar em Dallas, e falou vagamente sobre o lugar para onde ele e seu cavalo estavam indo. Porém, à medida que seguiam viajando e conversando, eles foram se conhecendo melhor e, pouco a pouco, foram baixando a guarda.

Por ser do Texas e filha de um militar do Exército, ela gostou daquele caipira engraçado de bom coração. E ele gostou dela também, e não só porque ela era bonita. Ela era muito inteligente também — isso ficou evidente apenas com uma conversa casual. À medida que foram conversando, ela acabou revelando que era fluente em italiano, por conta de uma época em que a família se mudara para a Itália por causa da carreira militar do pai. Aquilo já era o suficiente para o caubói classificá-la como gênia, especialmente levando em conta que a maioria das garotas com quem ele se relacionava mal falava inglês (ele tinha uma queda por mexicanas).

A loira descalça precisaria ser muito tapada para não perceber o quanto era bonita. Mas sua personalidade não era definida pela aparência. Era por seu temperamento gentil, sua curiosidade em relação às pessoas, e sua atração sincera pela aventura, e, embora estivesse um pouco receosa em relação aos perigos que uma mulher poderia enfrentar na estrada, estava bastante empolgada. E pode-se dizer que o caubói estava encantado com ela. Na verdade, seria justo dizer que ele chegou a se sentir atraído por ela. Mas como aquela jovenzinha provavelmente não devia ter mais do que uns 22 anos, não se qualificava de acordo com seus parâmetros morais. Ele tinha uma regra de nunca dar uns amassos em ninguém que fosse mais jovem que a filha de 25 anos. Agora, essa regra poderia ser substituída por uma orientação caso a passageira insistisse. Mas ele estava bem ciente de o quanto aquilo era improvável. Sua relação era a de uma linda passageira seminua com um motorista amigável, e, para ele, estava bom desse jeito.

Eles pararam para jantar em uma espelunca assim que cruzaram a fronteira estadual do Texas com o Novo México. Se ela estivesse sem grana, ele teria se oferecido para lhe pagar uma tigela de chili, mas como ela não estava, ele não o fez. Eles viajaram por mais duas horas, e então ele parou em um motel por volta de nove da noite.

OK, pensou a loira, se o caubói vai dar em cima de mim, a hora é agora.

Mas ela nem deu essa oportunidade. Antes que ele sequer pudesse oferecer o banco de trás do carro para que ela dormisse, ela já havia pegado a mochila e estava lhe dando um abraço de despedida. Ele ficou olhando enquanto ela levava aqueles seus pés enormes para longe, em meio à escuridão.

* * *

No tempo que passaram juntos (cerca de seis horas), depois que se sentiu à vontade com ele, a loura revelou o motivo real pelo qual estava indo para Los Angeles. Ela queria ser atriz, e trabalhar no cinema, ou, no mínimo, na televisão. Ela admitiu que não quis dizer isso antes porque aquilo era muito clichê. Além do mais, dito por uma vencedora de um concurso de beleza do Texas, aquilo soaria como um delírio tão grande que a faria parecer meio burra. E se as pessoas pensassem isso, elas não seriam as únicas, porque isso era exatamente o que o pai dela pensava.

Mas o caubói cuspiu o sumo do tabaco em seu copinho de papel e discordou. Ele disse a ela que burra seria uma garota bonita pra caralho como ela que não tentasse fazer uma carreira no cinema em Los Angeles. Não apenas isso, como ele acreditava que a garota tinha boas chances.

— Agora, se a minha prima Sherry quisesse ir para Hollywood para ser a próxima Sophia Loren, isso sim seria um delírio. Mas uma garota linda como você — especulou o caubói —, eu vou ficar muito surpreso se não te vir contracenando com o Tony Curtis rapidinho.

* * *

Enquanto ela desaparecia noite adentro, quando estava quase saindo do alcance de sua voz, instantes antes de se hospedar no motel, ele gritou uma última frase de incentivo:

— Não esquece o que eu te disse! Quando você estiver contracenando com o Tony Curtis, diz que eu mandei um abraço.

A loira se virou e gritou de volta para o caubói:

— Pode deixar, Ace, te vejo no cinema.

Ela acenou uma última vez e seguiu andando.

E quando Sharon Tate finalmente fez sua estreia no cinema contracenando com Tony Curtis, na comédia bobinha Não Faça Onda, ela disse a ele:

— Ace Woody te mandou um abraço.