Era Uma Vez em Hollywood

Quentin Tarantino · Capítulo 22 de 29

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Era Uma Vez em Hollywood

Capítulo Dezoito: Meu nome não é palerma

Capítulo Dezoito

Meu nome não é palerma

 

Caleb DeCoteau.

Quando Murdock Lancer mencionou que o nome do líder dos piratas terrestres que vinha roubando seu gado era Caleb DeCoteau, Johnny precisou utilizar toda a sua destreza como jogador de pôquer para não demonstrar emoção alguma em seu rosto. Aquele velho arrogante, rancoroso e filho da puta do Murdock Lancer, seu pai, estava desesperado. E o responsável por aquele desespero era Caleb DeCoteau. Quando Johnny e seu meio-irmão, Scott, viajaram de lugares diferentes até sua antiga casa da infância, foi para receber os 10 mil dólares que seu pai havia oferecido a eles para que escutassem a sua proposta. Nenhum dos dois achou que teria qualquer interesse em algo que um pai que eles não viam desde que eram crianças, teria para propor.

Ambos estavam errados.

Num raio de cerca de trezentos quilômetros, seu pai, Murdock Lancer, era o homem mais rico do lado americano da fronteira da Califórnia com o México. Ele tinha o maior rancho, era dono da maior casa, e possuía mais cabeças de gado do que qualquer outro homem no Vale de Monterey. Mas, agora, aquele homem rico e arrogante estava desesperado, e o desespero não era uma emoção com a qual ele estivesse acostumado. Aquilo não o havia feito parecer mais fraco. Murdock Lancer tinha a força, a dignidade e a expressão de um cavalo de tiro. Contudo, ele parecia preocupado. As coisas, definitivamente, estavam ruins, mas a preocupação que exibia na face era o reconhecimento de que elas poderiam piorar muito mais.

Desde que Caleb DeCoteau e seu bando de calhordas tinha chegado à região de Royo del Oro, eles se concentraram no gado de Murdock de tal forma que parecia até que Caleb estava se vingando pessoalmente do homem por alguma transgressão do passado. Porém nada poderia estar mais distante da verdade. Naquele cenário, Murdock Lancer era, simplesmente, o prego mais alto, e o prego que se destaca é o que leva a martelada.

Tudo começou com o furto de umas poucas cabeças de gado, todas as noites. No começo, Murdock mandou que alguns peões ficassem de guarda, passando as madrugadas em sacos de dormir para desencorajar a ação de algum entusiasta do filé. No começo, aquilo pareceu funcionar. Mas então, um peão, Pedro, foi atacado brutalmente por um grupo de oito homens de Caleb. Eles espancaram violentamente o pobre Pedro, o amarraram numa árvore, e o açoitaram com chicotes até quase a morte. Os filhos da puta roubaram vinte novilhos aquela noite, e mataram outros seis só de sacanagem.

* * *

O problema de ser o maior latifundiário da região é que, a menos que você tenha um exército pessoal de assassinos desalmados, é praticamente impossível se proteger de um ataque com tamanho grau de violência. A autoridade mais próxima era um delegado federal que estava a mais de duzentos quilômetros de distância. (E, verdade seja dita, proteger a propriedade de homens ricos era uma coisa que não angariava muita simpatia entre agentes da lei que recebiam 50 dólares mensais.) Caleb não apenas estava roubando números significativos de cabeças de gado durante a noite como também estava vendendo-as abertamente em currais a cem quilômetros dali (com a marca do Rancho Lancer em seu couro e tudo mais).

Mais tarde, Caleb e seus homens se mudaram para o vilarejo mais próximo ao Rancho Lancer, Royo del Oro. Primeiro, tomaram conta do saloon da cidade, transformando seu dono, Pepe, num empregado aterrorizado dentro de seu próprio estabelecimento.

O prefeito, um homem que encarava o civismo em sua comunidade como um dever, tentou dialogar com Caleb. Acabou chicoteado no meio da rua principal por essa tentativa. Os piratas terrestres informaram aos comerciantes de Royo del Oro que, a menos que quisessem que sua linda escolinha vermelha fosse queimada até as cinzas e que suas mulheres fossem estupradas diariamente, no tocante a Pepe e seu estabelecimento e a Murdock e suas vacas, o melhor que todos faziam era cuidar de suas vidinhas de merda.

Em seguida, Caleb mudou-se para a suíte presidencial do Hotel Lancaster. E não demorou muito até que os piratas começassem a cobrar uma taxa semanal de todos os comerciantes do vilarejo.

O plano de Caleb era simples. Um experimento lento, gradual e implacavelmente constante para descobrir quanto abuso Murdock e os cidadãos de Royo del Oro estavam dispostos a engolir. E o que o experimento demonstrou é que aquela comunidade tinha, aparentemente, um apetite insaciável.

Mas Caleb não estava tão embriagado com o poder a ponto de acreditar que aquele tipo de terrorismo poderia durar indefinidamente. Em algum momento, o Exército seria convocado. Mas eles contavam com uma vantagem de três dias. Ou seja, quando os soldados chegassem, Caleb e seus homens já estariam bem longe dali. Caleb tinha apenas um obstáculo: o dinheiro de Murdock Lancer. Quando um homem de princípios enfrenta um bandido, o bandido sempre começa em vantagem. Porque há certas coisas que um homem de princípios jamais fará. Já o bandido há de fazer o que for preciso. Isto é, até que o homem de princípios seja forçado a sair dos seus limites, forçado a trair sua natureza. Quase toda tragédia grega, metade de todo o teatro inglês, e três quartos do cinema americano operam com base nessa premissa.

Fora deixar o vilarejo, os cidadãos de Royo de Oro não tinham muita opção. Mas o dinheiro de Murdock lhe dava algumas. Ele poderia usá-lo para contratar seus próprios bandidos. E, com o delito mais recente de Caleb — o assassinato do capataz de confiança de Murdock, George Gomez —, ele finalmente havia cruzado a fronteira autoimposta pelo pecuarista.

* * *

A proposta que Murdock Lancer apresentou aos filhos era simples. Dividir com eles todo o seu império em três partes. Nisso estava incluso seu gado, suas propriedades, a casa do rancho, e todas as suas contas bancárias. Para ficar com tudo isso, eles precisavam concordar com duas coisas: ajudá-lo a expulsar Caleb e seus ladrões assassinos da área, e trabalhar no rancho, comprometendo-se com a administração daquele império pecuário durante dez anos. Após esse período, se eles quisessem ir embora e levar sua parte do dinheiro, estariam livres para fazê-lo. Os dois jovens tinham passado os últimos anos se sustentando com imensas dificuldades; Scott, o apostador, vivendo entre uma mesa de pôquer e a próxima; Johnny, o pistoleiro, vendendo seus serviços para quem pagasse mais, evitando sempre se juntar a um bando. Em ambos os casos, os irmãos sempre arriscavam mais do que poderiam ganhar. Não nutriam qualquer tipo de sentimento pelo pai; entretanto, ambos levaram a oferta em consideração porque não havia nenhum outro cenário neste planeta em que qualquer um deles pudesse ganhar a quantia que Murdock oferecia. Nem legal nem ilegalmente. Murdock Lancer não era simplesmente rico. Murdock Lancer concentrava riqueza. Murdock Lancer não possuía apenas muitas terras e um negócio de sucesso: ele era o dono de um império. Um império que ele se declarou disposto a dividir em três.

Na opinião de Johnny, havia apenas um problema. Ele odiava aquele merda. Murdock era o mesmo merda que tinha expulsado ele e sua mãe de casa no meio da chuva. O mesmo merda que havia transformado sua mãe numa prostituta avarenta. O mesmo merda que, em última análise, tinha sido o responsável por colocar sua mãe naquele quarto de hotel com aquele outro merda rico que cortou a garganta dela. Johnny tinha 12 anos quando aquele outro merda enfrentou um julgamento pelo assassinato dela e foi considerado inocente. Ele tinha 14 quando matou aquele merda. E passou os próximos dez anos matando cada membro daquela merda de júri que absolveu aquele filho de uma puta. Johnny degolou todos, para que soubessem como sua mãe havia morrido. Afogados no próprio sangue, incapazes de falar, perdendo a vida lentamente, apavorados, olhando para o seu assassino. Então, Johnny sorria enquanto eles agonizavam e dizia: “Marta Conchita Louisa Galvadon Lancer mandou dizer hola”.

Levou dez anos para que as treze pessoas fossem mortas, mas, finalmente, Marta Conchita Louisa Galvadon Lancer foi vingada. Mas a última pessoa que ainda precisava pagar o preço final pelo assassinato de sua mãe era o homem que a colocara em seu caminho de degradação. Seu pai. Murdock Lancer.

Mesmo assim, era muito gado, eram muitas terras, um rancho enorme, e muito dinheiro. Mais do que Johnny seria capaz de ganhar sozinho em dez vidas. E tudo o que ele tinha de fazer para ficar com tudo aquilo era evitar matar seu velho e ser morto por um bando de ladrões de gado assassinos. Mas Johnny tinha um segredo. Uma coisa que nem Murdock, nem Scott, nem ninguém no Rancho Lancer sabia.

Johnny Madrid e Caleb DeCoteau eram amigos.

* * *

Johnny Madrid cavalgava pela rua principal de Royo del Oro. Quando chegara, dois dias antes, na diligência da Butterfield Wells Fargo, o vilarejo lhe pareceu igual a uma centena de outros em que ele havia estado. Mas isso foi antes de ouvir a história que Murdock contou a ele e ao seu meio-irmão. Agora, Johnny sabia o que diferenciava Royo del Oro dos demais lugares: a população estava aterrorizada. Quando Johnny chegou, avistou o grande saloon do vilarejo e os marginais encostados na frente. Agora, muitos vilarejos tinham saloons com muitos marginais encostados na frente. Mas Johnny sabia que aqueles não eram marginais quaisquer. Aqueles eram alguns dos homens que ele havia sido convocado ao vilarejo para expulsar ou matar. Aqueles homens eram os responsáveis pelo sofrimento de Murdock. Aqueles eram os piratas terrestres que trabalhavam para Caleb DeCoteau.

Quando passou cavalgando pelo Gilded Lily, Johnny sentiu que os olhos daqueles homens o acompanharam. Com o canto do olho, ele contou quatro bandidos. Um era um sujeito negro vestido de bandoleiro. Dois eram bandoleiros vestidos de bandoleiros. Mas foi o quarto homem que chamou a atenção de Johnny. Um homem grande, branco, mais velho do que os outros. Enquanto os demais adotavam um visual de bandido mexicano, ele vestia um terno negro de caubói e sofisticadas botas de caubói de couro negro. Também usava um impecável chapéu negro de caubói e tinha um tremendo bigodão no lábio superior, besuntado com uma generosa camada de cera para bigode. O grandalhão estava sentado numa cadeira de balanço no pórtico do Gilded Lily, esculpindo um cavalinho em madeira com um canivete. Lasquinhas de madeira se acumulam numa pequena pilha ao lado de sua bota reluzente. Além da idade e dos trajes, ainda outro detalhe o diferenciava dos outros marginais no pórtico. Os três eram capangas, mas ele era um caubói de primeira. Johnny não o reconheceu. Mas, mesmo não sabendo quem ele era, sabia o que ele era. O grandalhão de terno e botas negras e bigodão era um nome conhecido, tinha uma reputação. Todos aqueles outros vira-latas dividiam migalhas pelo tumulto e pela destruição que provocavam. O grandalhão recebia como pagamento um saco de ouro entregue pelo próprio Caleb antes mesmo de qualquer trabalho ser feito.

Numa história de gângsteres, ele seria conhecido como “um assassino forasteiro”. Num capítulo anterior da história do grandalhão, talvez ele tenha sido um herói — e, de fato, foi. Mas nesta página — no dia em questão — ele havia vendido seus serviços de pistoleiro para aquele que lhe pagara mais. E, nessa história, quem fez isso foi Caleb DeCoteau.

* * *

Johnny desmontou e amarrou o cavalo ao poste que ficava na frente do Hotel Lancaster. O grandalhão de preto dobrou seu canivete e o guardou no bolso. Johnny começou a atravessar a rua principal de Royo del Oro na direção do saloon. O grandalhão de preto pôs o cavalinho de madeira que estava esculpindo num pequeno barril à sua frente, levantou-se da cadeira de balanço, e começou a se mover na direção da área externa do lugar. Johnny estava a nove passos do primeiro degrau dos três que levavam ao pórtico do salão quando ouviu o grandalhão de preto falar:

— Pode parar por aí, palerma.

Johnny parou de andar.

— Meu nome não é palerma — corrigiu Johnny.

— O que você está fazendo por estas bandas, rapaz? — perguntou o grandalhão.

— Estou com sede — respondeu Johnny, apontando para o estabelecimento. — Aquilo ali é um saloon, não é?

O grandalhão de preto virou-se e olhou para cima, para a grande placa escrita SALOON pendurada na fachada, e então, virou-se para Johnny e disse:

— Sim, é um saloon. Só que você não pode entrar.

— Por quê? — perguntou Johnny. — Vocês estão fechados?

O grandalhão sorriu e deu um tapinha no cabo de sua arma, que estava enfiada em suas calças, encostada em sua barriga.

— Ah, não, nós estamos abertos.

Johnny, entendendo a situação, sorriu de volta e perguntou:

— Então só eu que não posso entrar?

O grandalhão abriu ainda mais seu sorriso, dessa vez arreganhando os dentes, e disse:

— Isso mesmo.

— E por quê?

O grandalhão explicou:

— Bom, sabe como é, nós só servimos mulheres na Noite das Mulheres.

Os outros três marginais que estavam no pórtico riram daquela piadinha.

Johnny riu um pouco também e disse:

— Essa foi boa. Preciso me lembrar dela.

O grandalhão o advertiu:

— Se você der mais um passo na direção desse saloon, nunca mais vai precisar lembrar de coisa nenhuma.

Colocando suas mãos na cintura, o pistoleiro de preto explicou para o rapaz com a camisa de babados vermelho-sangria qual seria o seu futuro imediato.

— Agora, olha aqui, seu palerma, você vai montar nesse pangaré em que você cavalgou até aqui e vai dar no pé, rapidinho. Você me ouviu, garoto?

Johnny estreitou os olhos e disse:

— Ah, eu ouvi você muito bem, mas, pelo jeito, você é que não me ouviu. Porque eu já disse-que-meu-nome-não-é-palerma.

Nesse momento, Johnny desce sua mão até o revólver dentro do coldre em sua cintura e solta a pequena faixa de couro que restringe o cão de sua arma.

Em resposta, o grandalhão desce sua mão pela frente do seu corpo, até o ponto em que o cabo do seu trabuco repousa na cintura de suas calças.

Então, quando o pórtico, a rua, o vilarejo e o estado ficavam em silêncio enquanto os dois homens assumiam suas posturas de duelo — DE REPENTE — as portas do saloon se abrem como asas de morcego, rangendo e, por elas, sai o vilão dessa história, Caleb DeCoteau.

O líder da gangue de foras da lei, usando uma jaqueta marrom de couro cru com franjas que lhe desciam pelas mangas, comia uma coxa de galinha frita. Johnny percebeu que Caleb havia saído, mas estava tão compenetrado encarando o encrenqueiro que não moveu seus olhos para cumprimentar o velho amigo.

— Sr. Gilbert — disse Caleb, dirigindo-se ao grandalhão às suas costas —, eu não quero impedir que faça o trabalho pelo qual estou lhe pagando, e eu sei o quanto você fica entediado e agitado quando acabam os seus tamales.

Caleb dá uma tremenda mordida em sua coxa de galinha e, enquanto mastiga a carne gordurosa, ele diz, de boca cheia:

— Mas, se eu fosse você, eu tentaria descobrir o nome desse palerma aí.

Gilbert perguntou ao chefe:

— Quem é ele, Caleb?

Caleb encostou-se no marco da porta do saloon, engoliu a carne em sua boca, e disse:

— Permita-me que eu apresente vocês dois.

Apontando para o homem de preto com o osso da galinha, Caleb falou:

— Esse aqui é o Bob Gilbert.

Então esse é o Homem de Negócios, pensou Johnny.

— O Homem de Negócios? — perguntou Johnny.

— Isso mesmo — disse Bob. — Bob Homem de Negócios Gilbert. E você, quem é?

Antes que Johnny pudesse responder, Caleb arrancou, com seus dentes, outro pedaço enorme de carne do osso da galinha e disse:

— Este aí é um sujeito chamado Madrid. Johnny Madrid.

— Quem é Johnny Madrid? — perguntou sarcasticamente Bob, pronunciando o nome de uma maneira caricata, para ridicularizá-lo.

Os três outros marginais no pórtico começaram a rir, mas Caleb lançou um olhar de calem-a-porra-da-boca-quando-os-adultos-estão-falando. Todos fecharam suas matracas.

Bob Homem de Negócios ficou confuso, irritado, e também um pouco preocupado. Ele tinha sido contratado por Caleb para espantar ou matar sujeitos como aquele palerma de vermelho. E estava sendo muito bem pago em moedas de ouro por isso. Então, por que é que, assim, do nada, o cara que o havia contratado estava agindo daquele jeito?

— Tô falando sério, Caleb, quem diabos é esse palhaço?

Caleb arremessou o que havia sobrado da coxa de galinha na rua entre os dois homens e disse para o pistoleiro:

— Você está prestes a descobrir, Homem de Negócios.

E, com isso, Caleb desapareceu por trás das portas de vaivém do saloon. Johnny Madrid virou-se e encarou Bob de lado, sua posição de duelo, mostrando ao Homem de Negócios que não estava de brincadeira. A garganta de Bob Gilbert ficou seca quando Johnny, imóvel como uma estátua, disse:

— Estou pronto quando você estiver, Gil-bert.

Bob aproxima sua mão do seu coldre.

Johnny pisca.

O corpo de Bob moveu-se para a esquerda enquanto sua mão envolvia o cabo do revólver, e, em seguida, retorceu-se com violência quando a bala de Johnny enterrou-se exatamente em seu coração.

A arma que ele havia acabado de tirar das calças escapou de seus dedos inúteis, quicou na madeira do pórtico, e caiu no chão empoeirado e marrom. O grandalhão vestido de preto tombou para frente e saiu tropeçando escada abaixo em suas botas pretas reluzentes, até cair por cima de um barril de picles, espalhando picles e água de conserva pelo chão.

E assim termina a impressionante carreira de Bob Homem de Negócios Gilbert, pensou Johnny. O homem com a camisa de babados vermelho-sangria, parado no meio da rua, com um monte de picles espalhado pelo chão à sua volta, apontou o cano ainda fumegante de sua arma na direção dos três marginais do pórtico e lhes perguntou, em espanhol:

— Mais alguém?

* * *

Quando Johnny entrou no saloon, sete dos outros piratas de Caleb, que jogavam pôquer nas mesas, fumavam charutos ou bebiam álcool no bar, ergueram seus olhares até o sujeito da camisa de babados vermelha que havia encerrado os negócios de Bob. Ninguém parecia muito contrariado com o que havia acontecido. Pelo jeito, Bob não era muito bem-sucedido no negócio de fazer amigos. Então, de algum lugar muito acima de sua cabeça, Johnny Lancer ouviu alguém gritando:

— Johnny Madrid!

Ele olhou para cima e viu seu velho amigo Caleb DeCoteau de pé no segundo andar, no topo da escada, encostado num imponente corrimão de madeira, olhando para ele, lá embaixo, com um sorriso do tamanho do Texas em seu rosto peludo.

— Quanto tempo faz? — perguntou o bandido de marrom para o bandido de vermelho.

Johnny nem precisou pensar; ele sabia.

— Ah, desde aquela vez em Juárez. Faz uns três anos.

Caleb soltou a fumaça do charuto e disse:

— Bom, seja bem-vindo e tome um drinque.

Atravessando o saloon na direção do pé da escada, Johnny perguntou:

— Então, eu não vou ter de esperar até a Noite das Mulheres?

Dois valentões fazendo piadas de valentão.

— Bom, regras existem para serem quebradas.

Ha ha, pensou Johnny.

— Bom, nesse caso — propôs Johnny —, posso te pagar uma bebida, Caleb?

— Claro, Johnny — disse Caleb, descendo lentamente a escada. — Que tal um mezcal? Como daquela vez em Juárez.

Johnny deu uma risadinha balançando a cabeça enquanto se lembrava do episódio e disse:

— Muita gente morreu aquele dia.

— Isso é verdade — devolveu Caleb, terminando de descer as escadas. — Mas foi legal, não foi?

— Isso é verdade.

Com um sorrisinho cúmplice, Johnny se lembrou do episódio sombrio, embora divertido. Então, gesticulando na direção do balcão comprido do outro lado do salão, disse:

— Você primeiro, DeCoteau.

Enquanto os dois caminhavam em direção ao bar, Caleb convocou o trapo humano patético que era o dono do estabelecimento:

— Pepe, arrasta essa tua bunda lá pro bar que eu tenho um convidado!

Conforme ia atravessando o salão, Johnny ficou prestando atenção no Gilded Lily. Era um saloon bem imponente, compatível com uma cidade construída com o dinheiro da pecuária. Ele também ficou pensando em seus próximos passos. Ou teria pensado neles, caso tivesse um plano. Depois que ficou sabendo que receberia um terço de uma fortuna pelo assassinato de um velho amigo, naturalmente lhe pareceu apropriado ir até lá falar com esse velho amigo. Mas com que intenção, exatamente? Bem, exatamente, ele ainda não sabia. Como ele conhecia Caleb, caso decidisse levar o plano de Murdock adiante, talvez fosse uma boa ideia oferecer seus serviços a DeCoteau. Dessa maneira, ele poderia agir por dentro das entranhas do inimigo. Ora, se esse ainda fosse o plano, seria um excelente, pois Caleb não fazia ideia de que Johnny era filho de Murdock. Se Caleb algum dia fizesse, esse dia seria o fim de Johnny. Então, se o plano era fazer com que Caleb parasse de roubar o gado de seu pai, até aqui ele estava indo muito bem. Porém, desde que tinha 12 anos de idade e havia cavado a cova da mãe, Johnny tinha um outro plano: fazer com que Murdock Lancer pagasse pelo que havia feito a eles dois. E, sinceramente, neste departamento, Caleb estava fazendo um serviço muito melhor do que Johnny jamais faria. O velho estava no fio da navalha. Ele estava desesperado. Então, a verdadeira questão era: o que Johnny desejava mais? Dinheiro ou sangue? O rancho do pai ou vingar a mãe? Segurança ou satisfação?

Pepe foi para o lado de trás do balcão para pegar os pedidos dos dois homens.

— Dos mezcal — disse Johnny, e então perguntou: — ¿Tienes comida?

— Só feijão e tortillas — respondeu Pepe.

Johnny se virou para Caleb:

— Que tal o feijão?

— Já comi piores.

Johnny voltou-se para Pepe e pediu:

— Un plato de frijoles.

— Um dólar — foi a resposta hostil de Pepe, em inglês.

Johnny virou-se para falar com Caleb e comentou:

— Um dólar por um prato de feijão é meio caro, ou estou ficando maluco?

Esmagando alguns amendoins sobre o balcão com o punho, Caleb justificou:

— Ei, o Pepe também tem o direito de ganhar um dinheiro.

Em seguida, ele pegou os amendoins em meio às cascas esmagadas e os arremessou em sua boca.

Johnny bufou.

— Por quê? Os seus homens não estão abrindo os bolsos?

O Sr. Madrid colocou uma moeda grande sobre o balcão com um tapa. Pepe a arrastou ruidosamente até sua mão, fez uma careta para Johnny, e pegou a garrafa de mezcal. Ele serviu a bebida em dois copos de barro.

— Um brinde! — declarou Caleb, erguendo o copo no ar, ao que Johnny fez a mesma coisa. — À minha esposa e a todas as minhas namoradas… que elas jamais se encontrem!

Johnny e Caleb brindaram com os copos de barro, e, em seguida, jogaram a bebida incendiária goela abaixo. Caleb gesticulou para uma mesa solitária nos fundos do saloon.

— Señor Madrid, me acompanharia até a minha mesa, onde eu bebo com os meus convidados?

Johnny inclinou a cabeça e lhe assegurou:

— Seria um prazer, monsieur DeCoteau.

Caleb partiu em direção à mesa, latindo sobre seu ombro:

— Traz a garrafa junto.

Johnny virou-se e pegou a garrafa de mezcal de cima do balcão.

O líder dos piratas terrestres puxou ruidosamente uma cadeira de madeira de baixo da mesa e sentou sua bunda em cima dela.

— Então, Johnny, o que o traz a Royo del Oro?

— Ah, você me conhece, Caleb — disse ele, servindo mais uma dose de mezcal para si mesmo e para o seu anfitrião. — Dinheiro.

Caleb virou sua aguardente e perguntou:

— E quem está bancando a sua vinda para cá?

Johnny tomou um gole da sua bebida e disse:

— Você, eu espero.

Dando toda a sua atenção ao seu convidado, Caleb fez a pergunta de um milhão de pesos:

— E o que você ouviu falar sobre mim?

— Ouvi sobre o Rancho Lancer — disse Johnny, com sinceridade. — Ouvi que você andou se apropriando do gado deles. Muita terra, muita vaca, muita grana, nenhuma autoridade de que se tenha notícia. E nada além de um velho e meia dúzia de peões mexicanos pra te impedir.

Pepe chegou trazendo um grande prato de feijões embebidos em um caldo e uma grande colher de madeira, e os colocou na frente de Johnny.

Caleb serviu-se de um pouco mais de bebida e perguntou:

— E posso perguntar em que ramo você está pensando em atuar?

— O mesmo de Bob Homem de Negócios. Quero um emprego — disse Johnny, direto e sem rodeios, e, por fim, acrescentou: — E como, pelo visto, acaba de abrir uma vaga na sua empresa, eu gostaria de ocupá-la.

— Para fazer o quê? — perguntou o fora da lei.

Johnny tomou mais um gole da bebida e, depois de uma pequena pausa dramática, respondeu:

— Matar Murdock Lancer.

Isso fez com que seu velho amigo erguesse suas grossas sobrancelhas.

Johnny pegou o gomo de limão que veio junto com o mezcal e o espremeu em cima do prato de feijão.

— Você está partindo pra cima do velhote com muita força. Só que ele tem dinheiro. E, pra você, Caleb, meu velho, o dinheiro dele é um problema com P maiúsculo. Pode ter certeza que, assim como é certo que o sol vai nascer amanhã, um dia desses o velhote vai contratar uns pistoleiros pra ir pra cima de você também. E aí não vão ser os homens dele contra os seus, e que vença o melhor. O nome do jogo será Matem Caleb DeCoteau.

Aquela afirmação fez com que Caleb fizesse uma careta.

Johnny pegou uma moringa cheia de molho de pimenta e começou a jogar por cima dos feijões, enquanto prosseguia:

— E com você morto? Toda essa cachorrada que você colocou pra trabalhar aqui vai achar algum outro buraco pra se enfiar. E com você morto? A vida voltará a ser como era. E quando você é o desgraçado do Murdock Lancer, a vida é boa pra caralho. É — disse Johnny, pegando um pouco do feijão que ele tinha acabado de temperar com a colher de madeira —, Murdock Lancer vai pagar uma nota preta por isso.

Johnny enfiou a colher na boca e começou a mastigar.

O fora da lei estreitou os olhos e disse:

— Talvez ele já tenha pagado.

— Talvez — retrucou Johnny, de boca cheia, e, depois de engolir, disse: — Mas talvez eu não goste do Lancer, e nem de suas botas.

— Qual o problema com as botas de Murdock Lancer? — perguntou Caleb.

— O jeito que ele as usa — respondeu Johnny.

— E de que jeito ele as usa? — perguntou Caleb.

— Para pisar nas pessoas — respondeu Johnny.

Então, apontando seu dedo para seu anfitrião na outra ponta da mesa, Johnny acrescentou:

— Mas de você, Caleb, de você eu gosto. Prefiro trabalhar para você e enfiar um galho no cu daquele velho do que lutar contra você para defender as vacas de Murdock Lancer.

Fazendo uma pausa dramática, Johnny encerrou:

— Isso se você puder pagar o meu preço.

Depois que Johnny disse aquilo em voz alta, ele se deu conta de que: Isso até que não é mentira.

Caleb sorriu e perguntou:

— E qual é o seu preço atualmente, Johnny?

Johnny enfiou a colher de madeira cheia de feijões em sua boca, mastigou um pouco enquanto pensava, e, por fim, disse, de boca cheia:

— Bom, hoje eu acho que valho mais para você do que você pagou para o Bob Homem de Negócios.

Johnny engoliu a comida e sorriu para Caleb.

Caleb sorriu de volta e ordenou:

— Pegue seu cavalo. Coloque-o em nosso estábulo.

E então, apontando para uma das portas no topo das escadas, disse:

— Você dormirá ali essa noite. Nós iremos ao Rancho Lancer amanhã pela manhã. Eu pago homens de primeira em moedas de ouro de 14 quilates.

— Quantas? — perguntou Johnny.

Caleb fez um gesto para descrever um saco de ouro de tamanho médio com suas mãos.

— Ah, mais ou menos isso.

Durante todo o tempo em que contemplou o assassinato de Murdock Lancer, Johnny nunca havia imaginado que poderia lucrar algo com isso. Mas, agora, ele certamente contemplava isso quando abriu um sorriso e disse:

— Eu mato Murdock Lancer — falou Johnny, e então descreveu um saco bem maior com suas mãos —, mas quero este tanto.

Caleb ergueu seu copo de barro e bateu no de Johnny. Os dois homens levaram a aguardente até os lábios e beberam.

Mas a que exatamente Johnny estava brindando? À execução de uma bem-sucedida operação secreta que o colocou dentro do covil dos inimigos de seu pai? Ou a uma nova parceria com um velho amigo contra um inimigo terrível? O que era mais importante para ele: seu futuro ou seu passado? Ele era Johnny Lancer ou Johnny Madrid? Parece que ele teria até a manhã seguinte para descobrir.