Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Vinte e Três: O Hall da Fama dos bebuns
Capítulo Vinte e Três
O Hall da Fama dos bebuns
Olhando para si mesmo no espelho de seu camarim, dentro do seu trailer, no set de Lancer, Rick esfrega uma bolinha de algodão embebida em removedor de cola no bigode falso e no lábio superior. Ele já havia retirado a peruca de cabelo comprido, revelando seu cabelo natural, cor de chocolate, todo suado e bagunçado. Após encharcar completamente seu lábio superior e sentir os vapores do álcool preenchendo as narinas, ele pega dois dedos e, lentamente, e de maneira um tanto quanto dolorosa, vai descascando o bigode falso de pelo de cavalo do seu rosto, e depois o deposita cuidadosamente sobre a mesa de maquiagem.
Na televisãozinha em seu trailer, o astro do futebol americano Rosey Grier, no seu programa sindicalizado de variedades, The Rosey Grier Show, canta “Yesterday”, de Paul McCartney. Lá pela metade da música, Rick pega um pote de creme para a pele Noxzema, coloca um bocado em seus dedos, e começa a espalhar em seu rosto. Ouvindo um suave toc-toc, ele se inclina para trás, sentado em sua cadeira, gira a maçaneta na porta do seu trailer e a empurra para fora, revelando a pequenina Trudi Frazer, parada de pé no chão de concreto, com a cabeça inclinada para cima, olhando para ele. Essa era a primeira vez que Rick a via em suas roupas cotidianas. Que, neste caso, consistiam de uma camisa branca toda abotoada com um colarinho impecável debaixo de um macacão bege de veludo cotelê. A roupa a faz parecer menos com a menina de 12 anos que ela finge ser, e mais com a garotinha de 8 que realmente é.
— Bom, estou indo embora — informa a menina —, e eu só queria que você soubesse que eu achei que você estava excelente na nossa cena de hoje.
— Ah, puxa, obrigado, querida — diz ele, modestamente.
— E eu não estou apenas sendo gentil — garante a menina. — Foi uma das melhores atuações que eu já vi na minha vida.
Uau, pensa Rick, com aquilo o afetando muito mais do que ele esperava. Dessa vez, a modéstia não é forçada.
— Bom… obrigado, Mirabella.
— O trabalho já acabou, pode me chamar de Trudi.
— Bem, obrigado mesmo, Trudi — diz Rick, com o rosto coberto com o creme gelado. — E você é uma das melhores atrizes…
— Ator — insiste ela.
— Perdão, ator, de qualquer idade, com quem eu já trabalhei — diz ele, com sinceridade.
— Puxa, obrigada, Rick — responde ela, sem querer parecer fofinha.
— Na verdade — elogia mais ainda Rick —, não tenho dúvida de que um dia eu vou me gabar por ter tido a oportunidade de trabalhar com você.
— Depois que eu ganhar meu primeiro Oscar, você vai se gabar de ter trabalhado comigo quando eu tinha apenas 8 anos de idade — diz Trudi, muito confiante. — E você vai dizer pra todo mundo que eu era tão profissional naquela época quanto eu sou agora.
Então, ela acrescenta baixinho, só para deixar bem claro:
— Quando digo “agora” eu quero dizer no futuro, quando eu ganhar um Oscar.
Rick não consegue segurar um sorriso perante a petulância daquela baixinha.
— Tenho certeza de que eu farei isso, e que você também fará o que diz. Mas trate de fazer isso logo, OK? Enquanto eu ainda estou vivo para ver.
Ela sorri de volta.
— Darei o melhor de mim.
— Como sempre.
Ela balança a cabeça dizendo que sim. Então, a voz de sua mãe grita de dentro do carro que a espera:
— Trudi, vamos lá, pare de incomodar o Sr. Dalton. Você o verá amanhã novamente!
Trudi, irritada, gira o corpo na direção de sua mãe e grita de volta:
— Não estou incomodando ele, Mamãe! — E, gesticulando de maneira teatral com seu braço: — Eu o estou parabenizando pela sua atuação!
— Bom, vamos logo com isso! — ordena a mãe.
Trudi revira os olhos e volta sua atenção para Rick.
— Desculpe por isso. Onde eu estava? Ah, lembrei… Bravo, senhor. Você fez exatamente o que eu pedi. Você me assustou de verdade naquela cena.
— Ah, puxa, desculpe, não foi por mal — diz Rick.
— Não, não me peça desculpas, essa foi justamente a melhor coisa da sua atuação — enfatiza ela —, e, consequentemente, foi isso o que me fez atuar tão bem. Você não me fez fingir que eu estava com medo. Você me fez reagir com medo. Que foi exatamente o que eu pedi para você fazer. Você não me tratou como uma atriz mirim de 8 anos de idade. Você me tratou como uma colega de trabalho. E você não me tratou como um bebê. Você tentou roubar a cena — diz ela, com admiração.
— Puxa, obrigado, Trudi — diz ele, com falsa modéstia novamente —, mas não acho que eu tenha roubado a cena.
— Mas é claro que roubou — diz ela, desconsiderando seu protesto. — Era você quem tinha todas as falas. Mas, na nossa grande cena de amanhã, a história será diferente. Então, fique esperto!
— Fique esperta você — avisa ele de volta.
Ela exibe um enorme sorriso e diz:
— É assim que se fala! Tchau, Rick, te vejo amanhã.
Trudi acena para Rick.
Rick acena de leve para Trudi e diz:
— Tchau, querida.
Quando Rick se vira para voltar a se olhar no espelho de maquiagem, ela começa a fechar a porta, mas, antes de fechá-la por completo, diz, bem baixinho:
— E vê se decora suas falas pra amanhã.
Isso faz com que Rick vire-se novamente em sua cadeira, sem acreditar no que acabou de ouvir.
— O que foi isso?
O rostinho de Trudi fica olhando para ele através da frestinha da porta do trailer quase fechada.
— Eu disse: vê se decora suas falas pra amanhã. Sabe, eu fico muito surpresa com o tanto de adultos que não decoram suas falas, sendo que é isso que vocês são pagos para fazer — disse Trudi, acrescentando, com um toque de arrogância no final de sua observação: — Eu sempre decoro as minhas.
— Ah, você decora, é?
Enfatizando cada palavra:
— Decoro sim — diz ela, e rapidamente acrescenta: — Se você não decorar as suas falas, eu vou falar isso na frente de toda a equipe.
Mas que pirralha filha da puta, ele pensa.
Ele pergunta a ela:
— Você está me ameaçando, sua fedelha?
— Não, eu estou mexendo com a sua cabeça. O Dustin Hoffman faz isso o tempo todo. Além do mais, não é uma ameaça, é uma promessa. Tchau.
Ela fecha a porta antes que ele possa responder qualquer coisa.
Trudi Frazer jamais ganhou um Oscar da Academia.
Mas foi indicada três vezes. A primeira foi em 1980, quando tinha 19 anos e recebeu uma indicação para o prêmio de melhor atriz coadjuvante, por interpretar o que se poderia chamar de namoradinha de Timothy Hutton em Gente Como a Gente, do Robert Redford. Ela perdeu para Mary Steenburgen, de Melvin e Howard.
Sua segunda indicação para melhor atriz coadjuvante foi em 1985, quando ela tinha 24, pelo papel da Irmã Agnes, no filme de Norman Jewison, Agnes de Deus. Ela perdeu o Oscar para Anjelica Houston por A Honra do Poderoso Prizzi, mas ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante. A única indicação de Frazer para o Oscar de melhor atriz foi por The Lady in Red, o épico mafioso com roteiro de John Sayles que Quentin Tarantino refilmou em 1999. Frazer interpreta a prostituta-de-bordel-dos-anos-trinta-que-vira-líder-de-uma-gangue-de-ladrões-de-banco Polly Franklyn, que contracenava com Michael Madsen, no papel do inimigo público número um, John Dillinger. Ela perdeu sua última estatueta para Hilary Swank, por Meninos Não Choram.
Rick torceu por ela todas essas vezes.
Quarenta minutos depois, Rick já havia removido o creme gelado do rosto, penteado o cabelo para trás até esculpir uma versão meia-boca do habitual topete, vestido suas roupas normais, e dado uma geral no trailer por conta do chilique de antes. Tinha acendido um cigarro Red Apple, e estava se preparando para encontrar Norman, o primeiro assistente de direção, para lhe contar alguma mentira sobre como havia acidentalmente quebrado a janela, quando ouviu outra batida na porta do trailer. Ele imagina que seja o segundo assistente de direção, com o cronograma do dia seguinte, que lhe dirá a que horas ele precisa estar no set. De modo que Rick fica um pouco surpreso quando gira a maçaneta e encontra, do lado de fora, Jim Stacy parado na frente do seu trailer.
— Ah, e aí, cara? — diz Rick.
— E aí, Rick, muito boa essa sua última cena, hein, cara? — comenta Jim Stacy.
— Porra, você também foi muito bem, Jim — responde Rick. — E parabéns pelo primeiro dia do seu novo programa.
— Primeiro dia do piloto — corrige-o Jim.
Rick faz um gesto com a mão desconsiderando o comentário de Stacy.
— Ah, que nada, você sabe que a CBS vai aceitar. Eles não investiriam tanto dinheiro se não estivessem interessados.
— Essas são as famosas últimas palavras — lembra-o Stacy.
— E… é um bom programa — acrescenta Rick.
— Bom, definitivamente ele ficou melhor depois dessas suas duas cenas — diz Stacy. — Escuta, Rick, eu estava pensando: você quer sair pra tomar umas hoje à noite?
— Puta que o pariu! — exclama Rick. — Mas é óbvio que sim.
Stacy sorri.
— Aonde você quer ir? — pergunta Rick.
— Tem um lugarzinho perto da minha casa, em San Gabriel — explica Stacy. — Eles meio que estão esperando que eu dê uma passada por lá pra comemorar meu primeiro dia. Espero que não fique muito fora de mão pra você.
— Porra, até parece — diz Rick. — Meu carro está na oficina, meu dublê vai me dar uma carona.
— Ele não vai se incomodar? — pergunta Jim.
— De jeito nenhum, cara — garante Rick. — O Cliff é um cara legal pra cacete, você deveria conhecê-lo.
— Bom, deixa só eu trocar de roupa e tirar essa maquiagem da cara pra que ninguém pense que eu sou alguma bicha de Kansas City, e depois você pode seguir minha moto até o bar.
* * *
Com Rick no banco do carona e Cliff ao volante, eles seguem Jim Stacy em sua motocicleta até ele entrar no estacionamento de um bar pintado num tom vermelho de celeiro, com o curioso nome “Hall da Fama dos Bebuns”. Caricaturas de bêbados famosos de Hollywood estão pintadas nas paredes vermelhas do bar. W. C. Fields, Humphrey Bogart e Buster Keaton, além de um desenho de Lee Marvin em Dívida de Sangue.
Jim Stacy estaciona sua motocicleta no chão de cascalho e depois desliga o motor. Cliff para o Cadillac de Rick ao seu lado. Aquele é claramente um dos bares que James Stacy mais frequenta.
Os três machões entram no estabelecimento. Às oito da noite, o bar escuro ainda não está lotado, mas todos os frequentadores assíduos já estão lá. O Hall da Fama dos Bebuns é um aconchegante ponto de encontro carregado de nostalgia para os atores, músicos e moradores de San Gabriel. Lembranças de cidadãos famosos de Hollywood que arruinaram suas vidas com o álcool poluem as paredes. Os quatro maiores cartazes emoldurados nas paredes, que ocupam lugares de honra, foram reservados para os quatro santos patronos do bar.
W. C. Fields, com sua cartola cinza, olhando para uma mão de pôquer. Humphrey Bogart, tremendamente sexy com o seu sobretudo e seu fedora de aba dobrada. Um John Barrymore todo bonitão, da época de seus filmes mudos, exibindo seu famoso perfil. E o grande Buster Keaton, com seu rosto impassível, em seu famoso chapéu pork pie e colete preto dos tempos de estrela do cinema mudo.
Outros bêbados famosos aparecem enfileirados nas áreas mais elevadas do bar, em cima das prateleiras de bebida, em retratos em preto e branco que ficaram amarelados com o tempo. Algumas das fotos são de divulgação, outras foram tiradas de filmes específicos, e algumas foram autografadas com dedicatórias para o bar. Lee Marvin, vestindo sua camisa branca e colete preto de Liberty Valance, lançando um olhar malicioso enquanto sorri para a câmera (retrato autografado por Lee para o Hall da Fama). Sam Peckinpah, com uma bandana invocada em seus cabelos, sentado ao lado de uma câmera de cinema, apontando para alguma coisa (retrato autografado por Sam para o bar). O corpulento Aldo Ray, numa regata suada, num still de Pequeno Rincão de Deus (retrato autografado por Aldo para o barman, Maynard). Uma foto bastante recente de um Lon Chaney Jr. gordo e com papada (autografada por Lon para o bar). Richard Harris, no filme Juramento de Vingança (sem autógrafo). Martha “Boca Grande” Raye olhando para a câmera com os olhos arregalados e a boca escancarada num retrato cômico de divulgação dos anos 1930 (sem autógrafo). E Richard Burton, num still de A Noite do Iguana (sem autógrafo).
Num canto, à esquerda do balcão do bar, em volta de uma máquina de escrever antiga, há quatro retratos enquadrados de notórios escritores alcoólatras: F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, William Faulkner e Dorothy Parker (todos sem autógrafo).
Outros bricabraques temáticos expostos nas prateleiras no fundo do bar incluem um abajur de W. C. Fields, que consiste de uma caricatura de Fields bêbado apoiado num poste de iluminação.
Um kit da Aurora para montar uma miniatura de lobisomem (Lon Chaney Jr.) fica ao lado do pote de gorjetas do bar.
Na porta do banheiro masculino, há um pôster com uma ilustração psicodélica que Elaine Havelock fez de John Barrymore. Na porta do banheiro feminino, uma ilustração psicodélica que ela fez de Jean Harlow.
Na área reservada para o piano, na parede ao fundo, há um enorme cartaz de três painéis do novo filme Meu Ódio Será Sua Herança, dirigido pelo frequentador e membro do Hall da Fama Sam Peckinpah (autografado para o Hall da Fama por Sam, William Holden e Ernest Borgnine).
Na parede na área próxima à mesa de sinuca, há um pôster com ilustrações psicodélicas que Elaine Havelock fez de W. C. Fields e Mae West, um panfleto de divulgação de um novo filme do Lee Marvin chamado Clamor de Justiça, e uma nova impressão de um cartaz do antigo filme de Bogart, Balas Contra a Gestapo.
Exceto pelos quatro grandes pôsteres de Fields, Bogart, Barrymore e Keaton, nenhum dos demais está emoldurado. Estão simplesmente pregados à parede com tachinhas.
* * *
Quando os três sujeitos atravessam a porta, eles escutam o pianista tocando “Little Green Apples”, de O. C. Smith.
God didn’t make little green apples
And it don’t rain in Indianapolis in the summertime
There’s no such thing as Dr. Seuss, no Disneyland,
no Mother Goose, no nursery rhyme
Jim Stacy acena para o homem sentado ao piano, e o homem sentado ao piano acena de volta com a cabeça. Stacy conduz Rick e Cliff até a área do bar, onde cumprimenta o barman com um caloroso aperto de mão por cima do balcão.
— E aí, Maynard?
O simpático barman diz:
— Como foi o primeiro dia?
Ainda segurando a mão do homem, Jim diz:
— Bom, eles querem que eu volte amanhã; então, acho que poderia ter sido pior.
Virando-se para os seus dois novos amigos, Jim os apresenta para o homem mais importante do Hall da Fama.
— Rapazes, este é o Maynard. Maynard — gesticulando na direção de Rick e Cliff —, estes são os rapazes, Rick Dalton, e o seu dublê, Cliff.
Maynard aperta as mãos dos dois, começando por Cliff.
— Cliff.
Cliff repete o nome do barman.
— Maynard.
Depois, Maynard se empolga ao apertar a mão de Rick.
— Puta merda, Jake Cahill em pessoa. Prazer em conhecê-lo, caçador de recompensas.
Ao terminar o aperto de mão, Rick diz:
— Prazer em conhecer também, Maynard. O doutor está atendendo?
Maynard solta uma gargalhada.
— O doutor definitivamente está atendendo. O que posso fazer para vocês?
— Whiskey sour — pede Rick.
— E quanto a você, dublê? — pergunta o barman.
— Que cerveja você tem aí? — pergunta Cliff.
— Em lata: Pabst, Schlitz, Hamm’s e Coors. Em garrafa: Bud, Carlsberg e Miller High Life. Na chopeira: Busch, Falstaff, Old Chattanooga e Country Club.
— Old Chattanooga — diz Cliff.
Maynard aponta um dedo para Jim, o habitué, e declama seu pedido:
— Brandy Alexander para o Lancer ali.
Em seguida, o doutor sai de cena para atender os seus pacientes.
Jim grita para ele:
— Pra você é Johnny Madrid, seu babaca!
Os três sujeitos riem.
Um outro ator de San Gabriel aproxima-se lentamente do trio. É um sujeito com a cara toda vincada, tão feio que chega a ser sexy, com um cabelo volumoso, desgrenhado e cor de areia, vestindo uma jaqueta de couro preta. O ator, que se chama Warren Vanders, junta-se aos três homens, segurando uma Pabst Blue Ribbon em sua mão.
Jim e Warren cumprimentam-se calorosamente, e depois Jim olha para Rick e gesticula na direção de Warren com seu dedão.
— Rick, você conhece esse cara?
Rick dá um sorriso de reconhecimento.
— Porra, você sabe que sim.
Rick e Warren apertam suas mãos, enquanto Rick explica:
— O Vanders aqui deve ter feito uns três Lei da Recompensa.
— Quatro, seu filho da puta ingrato. Uma vez por temporada eu ia até o Spahn Ranch para tomar uma surra do Rick Dalton — declara Warren. — Foram quatro anos suando a camisa por Lei da Recompensa.
O pianista começa a tocar a música instrumental “Alley Cat”.
Maynard vai colocando os drinques de seus clientes sobre o balcão, enquanto os quatro homens sentam em seus banquinhos. O barman fica com eles até ser chamado por outro cliente sedento.
Cliff e Warren ainda estão bebendo suas cervejas, mas Rick já sugou seu whiskey sour rapidamente pelo canudinho, e Jim secou seu copo de Brandy Alexander.
O barman volta e pergunta a Jim e Rick:
— Mais um?
— Sim — diz Jim.
— Whiskey sour — repete Rick.
O pianista, Curt Zastoupil, termina de tocar “Alley Cat” bem quando Jim e seus três amigos, com seus drinques em punho, se aproximam do piano.
— E aí, Curt, como você está?
Tomando um gole do seu Harvey Wallbanger, Curt responde:
— Tudo bem, Jim, e com você?
— Tudo muito bem — diz Jim. — Hoje foi o primeiro dia de gravações do meu piloto.
— Porra, cara, que ótimo.
Curt começa a tocar “Happy Days Are Here Again” no piano.
— Calma aí, Liberace — alerta Jim. — Vamos terminar o piloto primeiro. Vamos ver se fica bom. Vamos ver se entra na grade de outono da CBS. Aí você pode tocar “Happy Days Are Here Again”. Pelo menos por algumas semanas.
Jim apresenta o pianista do bar para seus dois novos amigos. Warren já conhecia Curt. Na verdade, Warren havia dado ao filho de Curt o seu primeiro cachorro, chamado Baron. O ator e o dublê cumprimentam o pianista. Jim se vangloria do seu amigo músico:
— Curt consegue tocar qualquer música no piano e no violão. E toca todas muito bem, especialmente “Me and Bobby McGee”. Ele toca como se fosse uma música country….
— É uma música country — explica Curt.
— Eu sei, mas não é assim que as pessoas tocam — diz Jim.
— Isso porque elas usam o arranjo da Janis Joplin. Mas se você prestar atenção nessa música, ela fica melhor num violão, em levada country.
Então, Curt explica melhor:
— Não o country do Ernest Tubb. Um country moderno.
Jim continua elogiando seu amigo músico para Rick e Cliff:
— Tô falando, se o Curt tivesse gravado Me and Bobby McGee, ela teria sido um tremendo sucesso. As coisas do Creedence Clearwater também. Especialmente aquela música do doo doo doo.
Curt fica confuso.
— Qual música?
— Você sabe qual — diz ele, e canta: — Doo doo doo, lookin’ out my back door.
Curt começa a tocar a abertura da música no piano e canta:
Just got home from Illinois
Lock the front door, oh boy! […]
Look at all the happy creatures
Dancing on the lawn
Dinosaur Victrola, listenin’ to Buck Owens
Singin’ doo doo doo, lookin’ out my back door
Os quatro homens o aplaudem.
— Excelente — diz Rick.
— Excelente também não, mas nada mal — diz Curt, com modéstia, e depois acrescenta: — Meu filho gosta dessa música. Então eu sempre toco pra ele quando estou em casa praticando.
— Seu filho tem quantos anos? — pergunta Cliff.
— Sete — diz Curt.
Jim encoraja o músico:
— Deixa esse piano pra lá e mostra pra esses caras o que você sabe fazer com um violão.
— Beleza.
Curt pega o violão e coloca em seu colo. Enquanto afina o instrumento, diz a Rick:
— Eu tenho que te dizer, Rick, que sou um grande fã seu. Eu adorava Lei da Recompensa. Lei da Recompensa e O Homem do Rifle são os meus dois programas favoritos daquela época. Eu ainda assisto a eles até hoje. Também tem um faroeste seu que eu gosto muito.
— Qual deles? — pergunta Rick. — O Curtidor? Esse é o filme que a maioria das pessoas curte.
Ainda tentando encontrar a afinação correta, Curt pergunta:
— Quem mais está nesse?
— O Curtidor sou eu e o Ralph Meeker — diz Rick.
— Não, não era com o Meeker. Eu gosto do Meeker, mas não era com ele.
Curt fica pensando por um momento, e aí se lembra:
— Glenn Ford!
— Ah, Glenn Ford — diz Rick. — Esse é Hellfire, Texas. É, esse não ficou muito ruim. Eu e o Glenn não nos demos muito bem. Ele estava menos comprometido com o filme do que eu. Quer dizer, sabe como é, às vezes o cara faz filmes demais, e esse era o problema do Glenn. Mas, no fim das contas, não é um filme ruim.
Curt está terminando de afinar o violão. Quando Jim diz:
— Toca alguma coisa pra se exibir um pouco.
— Ah, então eu vou me exibir. Não tinha me dado conta. Obrigado por me dizer.
— Bom, isso é o mínimo — provoca Rick. — Você disse que gosta do que eu faço. O mínimo que eu posso fazer é julgar o que você faz pra ver se eu gosto também.
Curt começa a tocar o acorde reconhecível da abertura de The Secret Agent Man Theme, de Johnny Rivers. Os outros homens sorriem quando reconhecem. Então, Curt começa a cantar o primeiro verso:
There’s a man who leads a life of danger
To everyone he meets he stays a stranger […]
Oh, be careful what you say, or you’ll give yourself away
Odds are you won’t live to see tomorrow
Secret Agent Man
Secret Agent Man
They’ve given you a number I Know they’ve taken ‘way your name
Curt para e fica esperando pelos aplausos, que ele recebe.
— Essa também é uma das favoritas do meu filho.
Em seguida, olhando para Rick, ele pergunta:
— E então, estamos num patamar de respeito mútuo?
— Porra, sem a menor sombra de dúvida — diz Rick, erguendo seu whiskey sour. — Viva o menestrel.
Todos levantam seus copos e garrafas e brindam a Curt.
— Aliás, já que estou falando sobre o meu filho, nós dois somos grandes fãs de Os Quatorze Punhos de McCluskey — diz Curt.
— Ah, esse é um dos bons — fala Rick.
— Você sabe quando você assiste a um filme desses — explica Curt —, que tem um grupo de caras fazendo alguma coisa, e você meio que escolhe o seu favorito e fica torcendo por ele o filme inteiro, querendo que ele sobreviva no final?
Os homens, todos, balançam a cabeça involuntariamente, concordando.
— Bom, pro meu filho, você era o favorito.
— Ah, isso é muito legal — diz Rick.
— Na verdade, eu mostrei um episódio de Lei da Recompensa outro dia pra ele, na TV — explica Curt. — Estava passando e eu apontei pra você e disse, ‘Ei, Quint, o nome dele é Quentin, ‘ei, Quint, você sabe quem é esse cara?’ Ele disse que não e eu disse, ‘Você lembra daquele cara em Os Quatorze Punhos de McCluskey com o tapa-olho e o lança-chamas que queimava todos os nazistas?’ Ele disse que sim e eu disse, ‘É o mesmo cara.’
Então, Curt pergunta retoricamente:
— Você sabe o que ele disse? Ele disse, ‘Então isso foi na época em que ele tinha os dois olhos?’
Todos riram.
— Você daria um autógrafo para ele? — pergunta Curt.
— Claro — diz Rick. — Você tem uma caneta aí?
Curt não tem, mas Warren Vanders sim.
Então, Rick autografa um guardanapo do Hall da Fama dos Bebuns para o filho de Curt, Quentin, dedicando-o ao “Recruta Quentin”, prestando muita atenção para não errar na grafia, e depois escreve, “O Maj. McCluskey e o Sgt. Lewis o cumprimentam.” Em seguida ele assina seu nome, “Rick Dalton”, e escreve “Sargento Mike Lewis” logo abaixo. Por fim, ele acrescenta um desenho do Sgt. Mike Lewis usando um tapa-olho e vestindo uma camiseta escrito Quentin É Maneiro, e encerra com um P.S. que diz “Queime os Nazistas!” embaixo dele.
Jim Stacy dá um gemido.
— Cara… Os Quatorze Punhos da porra do McCluskey. É foda. O viado do Kaz Garas. Que se foda esse cara... Desculpa, provavelmente ele é teu amigo — diz Stacy a Rick —, mas, mesmo assim: foda-se esse cara.
Ele explica para Curt, Cliff e Warren Vanders como ele quase ficou com o papel de Kaz Garas em McCluskey.
— Ficou entre três caras. Garas, Clint Ritchie, e eu. Mas o Garas já tinha feito um filme do Henry Hathaway na época. Então, o Hathaway ligou para os chefões da Columbia para defender o seu garoto, e foi o fim da linha pra mim e pro Ritchie — fala Stacy, dando um suspiro.
— Qual foi o filme do Hathaway que o Garas fez? — pergunta Vanders.
— Uma merda africana qualquer com o Stewart Granger — responde Stacy.
— Eu fiz uma merda africana qualquer com o Stewart Granger — diz Rick, e depois acrescenta: — Maior babaca com quem eu já trabalhei.
— Falando em babacas — interrompe Stacy —, Henry Hathaway, esse sim é um puta de um babaca! Quer dizer, ele é um bom diretor, ele faz bons filmes. Mas é grosso pra caralho! E quando ele começa a gritar e a xingar, o general Sherman, perto dele, fica parecendo alguém que marchou pela Georgia colhendo flores. Minha esposa fez o último filme dele. Ela é uma garota sensível, frágil como um passarinho. Ele gritava com ela o dia inteiro, todos os dias. Quando o filme terminou, a coitadinha estava praticamente com estresse de guerra. Deixa eu encontrar esse babaca num bar qualquer dia desses — diz Stacy, virando seu drinque.
— Quem é a sua esposa? — pergunta Rick.
— Kim Darby — retruca Stacy.
— Puta merda — diz Rick. — Você é casado com a Kim Darby? De Bravura Indômita?
— Sim, eu a conheci quando participei de um Gunsmoke, ano passado — explica Stacy. — A gente se casou e, no máximo, dois meses depois, ela conseguiu o papel principal em Bravura Indômita.
— Puta que me pariu, você é casado com uma estrela — diz Rick, empolgado.
— Você chegou a fazer o teste para o papel do Glen Campbell em Bravura Indômita? — pergunta Curt.
— Nãããããããão — responde Jim, dramaticamente. — Quando Hathaway ficou sabendo que Kim era casada, e não casada com um qualquer, mas com um desses galãzinhos arrogantes, eu não podia nem visitar o set. Ele não me queria por perto de jeito nenhum.
Todos riram.
— Não acho que fizeram teste com ninguém — especula Jim. — Simplesmente deram o papel pro Glen Campbell.
Rick desconta sua frustração dando um tapa no piano.
— Qual é o problema do Duke? Ele tem um monte de papéis de caubóis que seriam excelentes pros atores jovens, mas ele fica dando pra uns cantores viados que não sabem atuar. Ricky Nelson. Frankie Avalon. Glen Campbell. A porra do Fabian. Dean Martin.
Jim se intromete:
— Bom, o Dean Martin é um pouco diferente desses outros caras.
— Ele é uma porra dum cantor, que nem todos os outros — enfatiza Rick.
— Sim, mas ele sabe atuar.
— Sim — diz Rick —, pra um carcamano, até que ele sabe atuar.
Todos riem.
— E eu nem vou começar a falar da porra do Frankie Avalon morrendo na porra do Álamo.
Mais risadas. Olhando para Rick, mas apontando para Jim, Warren Vanders acrescenta:
— Vocês sabem com quem esse cara foi casado, né?
Rick e Cliff fazem que não com a cabeça.
— Connie Stevens — diz Warren.
Rick dá um pulo involuntário.
— Caralho, você foi casado com a foda da Connie Stevens?
— Eu fui casado com a Connie Stevens.
Rick lamenta, sacudindo a cabeça.
— Seu filho da puta egoísta. Eu tinha uma tremenda queda por ela.
— Você e todos os Estados Unidos, meu velho — acrescenta Jim.
— Eu ficava insistindo pra que ela participasse de Lei da Recompensa, mas a ABC não deixava ela aparecer nos programas da NBC; então, nunca rolou. Mas, se tivesse rolado — acrescenta Rick —, poderia ser eu esperando ela no altar.
Stacy não tem lá muita certeza disso, mas deixa aquela afirmação passar batida, sem contestar. Ele está acostumado a outros homens tendo inveja do seu histórico com as mulheres. Então, ele retoma seu ressentimento com McCluskey:
— Bom, pois é, você ficou com McCluskey, e eu fiquei com a Stevens. Só que eu não tenho mais a Stevens, e você sempre terá McCluskey. Eu poderia ter sido parte de uma equipe do caralho, num filme foda, e arrebentado com uns nazistas. Em vez disso, acabei apanhando daquele tampinha do Michael Anderson Jr. em The Monroes.
Os homens riram do comentário sobre Michael Anderson Jr.
— Mas, ainda assim, quem sou eu para reclamar? — prossegue Stacy. — Beleza, eu poderia ter sido o quarto cara em Os Quatorze Punhos de McCluskey, mas você — diz ele, apontando seu alexânder para Rick —, poderia ter sido a porra do Cooler King.
Ah, porra, essa merda sobre o McQueen de novo não, pensa Rick.
Cliff se contorce, sabendo o quanto Rick odeia aquela história. Rick tenta deixar a história para lá, dizendo a Stacy:
— Ah, cara, deixa essa merda pra lá, já falamos disso.
Warren Vanders pergunta a Stacy do que ele está falando.
Jim pega o seu alexânder, o aponta novamente para Rick, e começa a fazer sua interpretação perante o grupo de homens.
— Esse babaca aí… chegou perto assim — diz ele, mostrando dois dedos da outra mão a um centímetro de distância — de conseguir o papel do McQueen em Fugindo do Inferno.
Tanto Curt quanto Warren Vanders reagem muito fortemente àquela revelação.
Rick mostra dois dedos de sua mão a um centímetro de distância e diz:
— Eu não cheguei perto assim. — Em seguida, ele abre seus braços o máximo que pode e diz: — Eu cheguei perto assim.
Os outros homens riem, mas rebatem o que interpretam, erroneamente, como sendo falsa modéstia.
— Isso aí já é perto pra caralho na minha opinião — comenta Warren Vanders.
Curt Zastoupil dá de ombros.
— Ah, então quer dizer que esse cara quase conseguiu o papel que é a marca registrada da carreira do McQueen. Grande coisa.
Stacy aponta para Curt.
— E-XA-TA-MEN-TE — diz, e então, ele se vira para Rick e gesticula com o dedo na direção do grupo de homens. — Conta pra eles.
Puta que o pariu, pensa Rick, eu não vou contar essa mesma história de merda duas vezes no mesmo dia, especialmente a pedido do mesmo idiota.
— Falando sério, gente. Não tem nada pra contar. Isso aí é tudo fofoca do Sportsmen’s Lodge.
Então, como Rick estava sendo modesto, Jim Stacy se intromete e começa a contar ele mesmo a história.
— Aparentemente, o McQueen quase não aceitou o papel. Então, o diretor fez uma lista. Quatro nomes. Quem estava no topo? — diz ele, apontando para Rick. — Esse cara aí, porra!
— Ele está inventando essa parte aí do topo da lista — esclarece Rick.
— Quem eram os outros três? — pergunta Vanders.
Jim responde por Rick:
— Os outros três eram os três George.
— Que três George? — pergunta Curt.
— Peppard, Maharis e Chakiris — diz Jim.
Tanto Curt quanto Warren se contorcem, com Curt dizendo:
— Puta merda, entre essas três bichonas você teria sido escolhido com certeza!
— Não foi o que eu disse? — diz Jim, para Rick, e depois para Curt, — Foi exatamente isso que eu disse pra ele.
Então, Maynard grita, de trás do balcão:
— Curt, eu espero que você tenha aproveitado bem o seu intervalinho. Agora, volte a tocar para as outras trinta pessoas que estão aqui!
Jim, Rick, Cliff e Warren saem de perto do piano, e Curt senta de volta no seu banco e começa a tocar.
These eyes cry every night for you
These arms long to hold you again
Os outros homens voltam a colar suas barrigas no balcão do bar, onde Maynard lhes serve mais uma rodada (essa já é a terceira rodada de drinques para Rick e Jim, e o segundo chope para Cliff). Cliff paga pela rodada. Warren Vanders paga a sua conta, diz adeus para os rapazes, e vai embora enquanto ainda é capaz de dirigir.
Em noites como aquela, Cliff não costumava falar muito. Ele não chegava a se segurar para não dizer nada; de tempos em tempos ele até se metia nos assuntos, mas sabia que noites como aquela não eram para ele. Eram para que dois colegas atores interagissem, estabelecendo uma relação tanto artística quanto de trabalho. Aquela noite era deles.
Os dois atores de televisão restantes continuam conversando e bebendo e fazendo o que os atores de sua época costumavam fazer: comparando impressões. Normalmente sobre diretores e atores com os quais ambos trabalharam. No fim das contas, Stacy também conhecia Tommy Laughlin, por ter atuado em sua estreia como diretor, The Young Sinner. Stacy tinha trabalhado com o diretor de O Curtidor, Jerry Hopper, em Paladino do Oeste. E ambos tinham trabalhado com Vic Morrow. Vic fez um Lei da Recompensa, e Jim fez um episódio do programa de Morrow, Combate! Eles também falaram sobre os diretores dos quais gostavam, que, em geral, eram os diretores que gostavam deles e os contratavam. Rick puxou o saco de Paul Wendkos e William Witney, enquanto Stacy endeusou Robert Butler.
— Como foi que você ficou tão prestigiado assim na CBS? — pergunta Dalton a Stacy.
— Bom, sabe como é — diz Stacy. — Você trabalha com um diretor de TV, trabalha com outro. E daí você trabalha com um que realmente gosta de você. E daí você vira um dos preferidos dele. Se ele dirigir, por ano, quatro episódios em programas diferentes, quando ele tiver a oportunidade, ele vai te encaixar em um ou dois.
— Sim, eu estive nessa situação com o Paul Wendkos e o Bill Witney — comenta Rick.
— Então, o meu diretor que me tinha como preferido — diz Stacy — era o Robert Butler. Ele me colocou em alguns dos seus programas, e, mesmo nos programas em que eu não entrei porque eles queriam um nome mais conhecido, tipo um Andy Prine ou um John Saxon, eu impressionei os diretores de elenco e os produtores. Então, o meu nome começou a circular pela CBS, e aí pintou esse episódio do Gunsmoke de duas partes. E eles não me deram de bandeja, eu precisei conquistar. Eu precisei impressionar os executivos da emissora, os produtores do seriado, e o diretor do episódio, Dick Sarafian.
— Foi o Sarafian que escreveu o roteiro do meu primeiro papel de protagonista num filme — disse Rick.
— Sério? Qual?
— Um filme de corrida para a Republic chamado Corredores Sem Limite. Bill Witney dirigiu. Tinha um bom elenco, Gene Evans, John Ashley, Dick Bakalyan. Eu disputei o papel com o Bob Conrad e ganhei. O Witney não queria ter que cavar um buraco todos os dias para que os outros atores pudessem olhar Bob na altura dos seus olhos.
Todos riem da piada sobre a altura de Robert Conrad.
Então, Rick pergunta a Stacy sobre o episódio de Gunsmoke.
— Então, os executivos da emissora estavam se metendo na escolha de elenco do episódio de um programa?
— Bom, o negócio é o seguinte — explica Stacy. — Eles poderiam ter optado pelo caminho dos atores famosos, e chamado o Chris George. Mas eles não queriam um grande nome. A CBS queria escalar um novato e usar aquele episódio de Gunsmoke para consolidá-lo com a audiência dos programas de faroeste para depois botá-lo no seu próprio programa na próxima temporada.
— Bem — diz Rick, saudando Jim com seu copo vazio de whiskey sour —, você é um filho da puta muito sortudo, e eu espero que você reconheça isso.
Jim fica meio incomodado com o comentário.
— Eu não diria que eu sou sortudo. Eu diria que sou afortunado. Quer dizer, não é como se eu tivesse chegado hoje na cidade, caído de um caminhão de mudança. Eu passei sete anos naquela merda d’As Aventuras de Ozzie e Harriet dizendo: Ei, Ricky, você quer um hambúrguer?
Rick se explica:
— Calma, calma, eu não disse que você não merecia. E nem quis insinuar isso. Eu fiquei te assistindo atuar hoje, você merece pra caralho. Eu só estou dizendo que: eu já estive no seu lugar. Foi a minha participação em Histórias da Wells Fargo que deixou todo mundo nessa cidade empolgado comigo. E isso me levou diretamente até Lei da Recompensa. Seja como for, o que estou querendo dizer é: este momento é seu. E eu espero que você seja mais capaz de reconhecer isso do que eu fui.
— Você acha que não reconheceu? — pergunta Jim.
— Reconheci — garante Rick. Mas, em seguida bate com o copo vazio no ombro de Jim e diz: —, mas não tanto quanto agora.
Depois que Maynard abastece Rick com seu quarto whiskey sour, Jim com seu quarto alexânder, e Cliff com sua terceira cerveja, eles começam a falar sobre o assunto preferido entre os atores bonitões: buceta.
Jim quer saber se Rick tinha comido Virna Lisi, e Rick quer saber se Jim tinha comido Hayley Mills.
Jim não tinha, ou, se comeu, não quis falar. Rick também não, mas ele tentou. Rick conta a Jim que ele comeu Yvonne De Carlo e Faith Domergue quando elas participaram de Lei da Recompensa. Comeu De Carlo basicamente porque, desde os seus 12 anos de idade, ele queria comer a Elizabeth Taylor. E ele imaginou que a Yvonne De Carlo seria o mais próximo que ele chegaria disso.
— Foi difícil começar um caso com a Yvonne De Carlo? — pergunta Jim.
Rick levanta seu copo vazio e diz:
— Quase tão difícil quanto pedir mais um whiskey sour.
Os três riem da frase de Rick e do seu timing de comédia. Jim pede mais uma rodada, mas Cliff recusa a quarta cerveja. Os atores ficam esperando que Maynard traga sua última rodada de bebidas.
Rick sabia que ainda precisava voltar para casa e ensaiar suas falas para as gravações do dia seguinte. Deus o livre de não saber suas falas de cor e salteado quando tivesse de contracenar com aquela vadiazinha.
Ela provavelmente terá decorado as suas falas e as dele.
Isso significa que aquele é o seu último drinque. Quando ele for se deitar, esta noite, vai se lembrar, no dia seguinte, de ter ido se deitar.
Mas antes que ele e seu colega de cena digam adiós, Rick diz:
— Jim?
— Diga.
— Sabe aquela história de Fugindo do Inferno que você me perguntou?
— Sei.
— Eu não gosto dessa história tanto quanto a maioria das pessoas, aparentemente, gosta — confessa Rick. — Quer dizer, se eu fosse o Cesare Danova, beleza. Mas a minha situação é bem diferente da dele.
— Espera um pouquinho — diz Stacy, confuso —, que porra o Cesare Danova tem a ver com isso, e qual é a situação dele?
— Bom, uma vez, por uns dois minutos, o William Wyler considerou seriamente escalar o Cesare Danova no papel de Ben-Hur.
— Sério? Porra, eu não sabia dessa.
— Você não sabia porque dois minutos depois, o Wyler recuperou sua sanidade e escalou o Charlton Heston — explica Rick. — Mas você pode dizer que o Cesare Danova quase foi o Ben-Hur porque ele quase foi mesmo. Mas a situação dele não é igual à minha.
Jim fica olhando fixamente para Rick, tentando entender aonde aquilo vai dar.
— Olha, eu trabalhei muito em Lei da Recompensa. Mas a coisa que parece interessar mais as pessoas não é o programa que eu fiz. É uma porra dum papel que eu nunca interpretei. Um papel que eu não tinha a menor chance de conseguir.
— Você estava na lista — argumenta Jim.
— A lista, a porra da lista! — diz Rick, subindo a voz, frustrado.
Maynard e alguns outros clientes viram-se na sua direção. Jim aproxima-se de Rick e dá tapinhas em sua mão, que repousa sobre o balcão, dizendo baixinho:
— Tudo bem, se acalme. Tome um gole da sua bebida.
Rick suga mais um pouco de whiskey sour pelo canudinho, enquanto Jim fica olhando para ele com os olhos arregalados.
— Essa lista — repete Rick, sussurrando num tom sarcástico — que todo mundo acha tão incrível é altamente questionável. Quer dizer, eu nunca nem a vi. Mas vamos dizer que existisse uma lista, e eu estivesse nela, e os três George também. Você já parou pra pensar quantas coisas malucas e impossíveis teriam de acontecer para que eu conseguisse esse papel?
Jim afirma:
— Não entendi.
— Pra começar, o McQueen teria de fazer a coisa mais idiota de sua vida: recusar Fugindo do Inferno para fazer Os Vitoriosos. Sabe como é, aquela coisa que ele não fez, porque ele não é um idiota.
“Mas, hipoteticamente, vamos dizer que o McQueen seja um idiota e recuse um papel excelente num filme épico escrito para ele pelo seu mentor, John Sturges. Isso significa que eu interpretaria o Hitls, o Cooler King?” — pergunta Rick.
Antes que Jim pudesse responder, Rick diz:
— É claro que não. Se realmente existiu uma lista, naquela época, seria o George Peppard quem estaria no topo dela — insiste Rick. — Quer dizer, não tem nem por que questionar isso. E se o McQueen tivesse recusado o papel, eles teriam simplesmente virado as costas e oferecido para o Peppard. E como o papel que o Peppard interpretou foi justamente o papel que o McQueen recusou em Os Vitoriosos, se tivessem oferecido Fugindo do Inferno para ele, o Peppard não teria sido idiota, e teria aceitado imediatamente. E isso, Sr. Stacy, é o que teria acontecido — conclui Rick.
Faz sentido, pensa Jim, sorrindo para Rick. Mas mal sabia James Stacy que Rick ainda não havia terminado.
— Mas… — recomeça Rick —, hipoteticamente, vamos dizer que, antes que pudesse aceitar o papel, o Peppard derrapasse para fora da Mullholland no seu Aston Martin. Não, espera, isso seria clichê demais. Que o Peppard fosse comido por um tubarão, surfando em Malibu, e que, assim, não estivesse mais disponível.
Rick resume a situação para Stacy mais uma vez, esforçando-se para fazê-lo acompanhar o seu raciocínio.
— Então, o McQueen faz a coisa mais idiota que poderia fazer em toda sua vida, e o Peppard é comido por um tubarão. Agora o papel fica comigo? — pergunta o ator ao outro ator.
Jim faz que sim.
Mas Rick faz que não. Então, explicando para James Stacy como se ele fosse uma criança de 5 anos de idade:
— Não, não fica. Ele vai para o George Maharis.
Jim Stacy faz menção de retrucar, mas Rick ergue sua mão para interrompê-lo antes mesmo que ele comece.
— Agora, por que eu digo isso? Eu vou explicar para você. Seguinte, em 62, graças àquele programa que ele tinha na TV, ele era muito popular. Não apenas isso, como, dois anos depois, Sturges escalou o Maharis para fazer o protagonista em um filme de suspense chamado O Mundo Marcha para o Fim, o que sugere que ele tinha uma preferência por Maharis. Quer dizer, ele não me chamou pra fazer a porra do Mundo Marcha para o Fim.
“Então, se o Steve McQueen tivesse feito a coisa mais idiota em sua vida inteira, e George Peppard tivesse sido comido por um tubarão, aí… o George Maharis seria o Hilts, o Cooler King.”
Rick ergue o seu drinque, toma um gole da bebida azeda pelo canudinho, e faz um brinde a Maharis.
— Mas, hipoteticamente, vamos dizer que, antes do começo das filmagens, Maharis seja flagrado transando com um homem num banheiro público.
Jim Stacy explode numa gargalhada.
— Então, agora que o Maharis está fora de cogitação, o Sturges volta para a sua lista. Então, agora o papel é meu?
— Contra o George Chakiris, com certeza, porra! — insiste Stacy.
Rick faz que não e diz a Jim:
— Não, não, não, não, não, Jim, é claro que eles oferecem o papel para o George Chakiris.
Stacy faz uma cara que indica que ele discorda, e Rick começa a defender o seu argumento levantando uma das mãos e contando em seus dedos os motivos. Dedo número um:
— Em primeiro lugar, tem aquele Oscar inexplicável que ele ganhou.
Stacy faz que sim, concordando, É verdade, tem isso.
Dedo número dois:
— Em segundo, Fugindo do Inferno foi produzido pelos irmãos Mirisch, para a Mirisch Company.
Dedo número três:
— George Chakiris tinha um contrato com a Mirisch Company. Ele fez Inferno Nos Céus com eles. Ele fez Os Tiranos Também Amam com eles. Ele fez aquele filme asteca idiota com eles. Não é que os caras simplesmente gostavam dele... Chakiris tinha a porra dum contrato com os caras!
Vendo lógica na hipótese de Rick, Jim Stacy balança sua cabeça concordando.
Dalton resume:
— Então, o papel fica com o George Chakiris, e fim de papo.
Stacy concorda com sua cabeça e começa a dizer alguma coisa, quando Rick o interrompe com um dedo indicador apontando para cima.
— Mas… vamos dizer, hipoteticamente, que McQueen faça a coisa mais idiota em toda a sua vida, Peppard seja comido por um tubarão em Malibu, Maharis seja flagrado transando com um cara num banheiro público… e, no fim das contas o cara com quem ele estava transando… era o Chakiris!
Aquilo faz Stacy cuspir parte do seu drinque.
— Bom, aí é tchau e um abraço — diz Rick, que acena grandiosamente e, dando de ombros, pergunta a Jim Stacy. — Agora o papel é meu?
Jim larga o seu drinque.
— É claro que é seu, você é o último cara nessa porra dessa lista!
— É isso o que eu estou dizendo, Jim — explica Rick. — Quando é que alguém contrata o último cara da porra da lista? Quando você chega no último cara da porra da lista, você joga a porra da lista fora e começa uma lista nova, caralho!
Caralho, pensa Stacy, os caras fazem isso mesmo.
— Então, agora não são mais os três Georges agora são os dois Bob. Redford e Culp. E aí eles decidem que agora o cara é britânico, e, do nada, o papel vai para o Michael Caine. Ou — conclui Rick — eles decidem que foda-se, paguem o quanto o Paul Newman pedir. Ou o pessoal do Tony Curtis liga e faz uma oferta boa para colocar o Tony no filme. Independentemente de qualquer coisa, eu nunca tive a menor chance.
Então, Rick troca um olhar com Cliff e, ao colocar seu copo vazio sobre o balcão num grandioso gesto teatral de encerramento, indica ao dublê que está na hora de ir embora.
— E, com isso, Sr. Lancer, fique com o meu adieu. Ainda tenho uma caralhada de falas pra decorar essa noite, e é melhor eu decorar bem, senão vou levar um baile amanhã daquela fedelha metida a besta.