Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Oito: Lancer
Capítulo Oito
Lancer
Puxada por seis cavalos, a diligência da Butterfield Wells Fargo faz a curva bem onde fica o prédio de paredes de barro da missão, e desce ruidosamente a empoeirada rua principal do vilarejo em estilo espanhol de Royo del Oro, cem quilômetros ao norte da fronteira mexicana com a Califórnia. Os poderosos cascos dos cavalos suados castigam o chão de terra batida, deixando uma nuvem de poeira marrom em seu rastro.
Monty Armbruster, o veterano de cabelos brancos com quarenta anos de serviço na linha da Butterfield, puxa as rédeas de couro com suas luvas, puxando as cabeças dos cavalos pelas tiras enfiadas em suas bocas, fazendo com que os seis bichos poderosos façam uma parada suave na frente do Hotel Lancaster. Com seu leve sotaque anasalado texano, Monty diz “última parada, Royo del Oro!”. A luz dos raios do sol, filtrada pela nuvem de poeira castanha, todos os cineastas que dirigiram faroestes nos cem anos seguintes tentariam reproduzir.
Pequena em estatura, mas esperta para os seus 8 anos de idade, Mirabella Lancer, a filha de Murdock Lancer, o proprietário e administrador da maior fazenda de gado da região, salta do barril de madeira onde estava empoleirada. Empolgada por antecipação, ela se vira para o vaqueiro mexicano, que é poucos centímetros mais alto do que ela e usa um sombreiro ridiculamente grande em sua cabeça, e diz:
— Vamos lá, Ernesto!
Segurando a criança pela mão, o vaqueiro Ernesto a conduz pela rua principal do vilarejo em direção à diligência da Butterfield. Como seu pai era o homem mais rico da região, Mirabella conhecia o dono de cada negócio em Royo del Oro desde que tinha idade suficiente para dizer algo mais significativo do que “gugu-dadá”, o que resulta em uma série de sorrisos e acenos à medida que vai atravessando a zona comercial do vilarejo. Uma carroça puxada por um cavalo trazendo uma pilha enorme de barris de cerveja passa na frente dela e do diminuto vaqueiro. Eles ficam parados na passarela de madeira até que a carroça de cerveja libere o seu caminho. Atravessando a rua de chão batido e aproximando-se da diligência por trás, Mirabella prepara-se para ver, pela primeira vez, qualquer um de seus dois irmãos que ela nunca conheceu. Os filhos que seu pai não via há muito tempo haviam, ambos, enviado mensagens dizendo que viajariam em breve para o Rancho Lancer. Todavia, exatamente qual dos irmãos sairia da diligência da Butterfield era um mistério tanto para ela quanto para o empregado de Murdock Lancer, o vaqueiro Ernesto. O rancho recebeu um telegrama informando que o filho de Murdock Lancer havia embarcado em uma diligência da Butterfield que partira de Tucson, no Arizona, quatro dias antes e, descontando-se algum atraso, deveria chegar a Royo del Oro por volta do meio-dia de hoje. O que não foi informado no telegrama é exatamente qual filho chegaria.
Ao contrário de um trem, uma diligência que chegasse três horas após o horário previsto era considerada pontual. De modo que eram três da tarde quando a Butterfield parou em frente ao Hotel Lancaster. Mirabella e Ernesto ficaram parados no meio da rua, esperando que a porta da diligência se abrisse para revelar qual irmão sairia de lá.
* * *
Os dois irmãos tinham nascido no Rancho Lancer, mas um não conhecia o outro. E, desde muito pequenos, nenhum dos dois tinha visto novamente o pai fazendeiro de gado. Assim como Mirabella, os filhos de Murdock Lancer eram ponto de mães diferentes, ambas falecidas.
Scott Foster Lancer, criado pela família rica da mãe (Diane Foster Lancer Axelrod) em Boston, havia se formado em Harvard, e servido no Exército, onde lutou pela Cavalaria Britânica na Índia (os Lanceiros de Bengala).
O outro filho de Murdock, Johnny Lancer, fora criado no México por sua mãe, Marta Conchita Louisa Galvadon Lancer. Marta não tinha família no México, nem rica nem pobre. Todo dinheiro que ela conseguia era dançando e trepando e tocando castanholas em diversos bares espalhados pelos violentos vilarejos ao sul da fronteira. Durante toda sua infância, Johnny pensava que o sexo era uma coisa que os homens pagavam as mulheres para fazer, assim como dançar e cantar, cozinhar, ou lavar suas roupas.
A mãe de Scott, Diane, voltara para a costa leste, para morar com sua família, em Beacon Hill, quando ficara evidente que a vida em uma fazenda de gado, em meio ao esterco de cavalos e vacas, caubóis e mexicanos, não era para ela e nem para o seu filho. Scott tinha 3 anos quando embarcou na diligência que o levou para bem longe de Royo del Oro.
Johnny era mais novo do que Scott, mas era mais velho do que ele quando deixou o Rancho Lancer. Ele morou lá com o pai e a mãe até os 10 anos de idade. Então, em uma noite escura de chuva, com seu filho pequeno a reboque, Marta embarcou em uma carroça toda decorada que Murdock havia lhe dado de presente de aniversário, e percorreu cem quilômetros fronteira mexicana adentro. E essa foi a última vez que o pequeno John viu Murdock Lancer, o enorme Rancho Lancer, a opulenta sede da fazenda, e o vilarejo de Royo del Oro. Johnny deixou de ser o filho do homem mais rico do vale, que tinha aulas com um professor particular, comia os melhores cortes de Black Angus em pratos de porcelana preparados por um chef francês, e dormia em um colchão de penas, para se tornar o filho de uma prostituta mexicana, sobrevivendo à base de feijão e bolachas servidos em pratos de barro, bebendo água de cacto como antes bebia leite, comendo carne-seca como antes comia balas de hortelã, ouvindo piadas sujas de um bando de filhos da puta, dormindo em cima de sacos de café nos fundos de bares, e aprendendo a se defender dos ataques tanto de ratos quanto de vagabundos das pradarias dispostos a molestá-lo no meio da noite. Até que, em um desses vilarejos violentos, um cliente rico e insatisfeito da Cidade do México cortou a garganta de Marta. Johnny tinha 12 anos quando cavou a cova no chão duro e compacto em que enterrou a própria mãe. O homem rico enfrentou um julgamento pelo assassinato e foi absolvido por um júri comprado. Dois anos depois, Johnny matou o assassino. E, embora tenha levado uma década, também matou cada um dos membros do júri comprado.
* * *
Johnny nunca soube por que sua mãe fugira com ele no meio daquela noite de chuva, mas tinha um palpite. Ele achava que Murdock Lancer havia se cansado de brincar de casinha com uma mexicana espevitada e seu filho mestiço. Então, certa noite ele disse a ela: ándale!
Johnny sabia que se algum dia voltasse ao Rancho Lancer, ele estouraria os miolos de seu pai por ter expulsado ele e sua mãe de casa no meio da chuva. Mas ele também sabia que Murdock Lancer era um homem branco americano muito importante. E, se atirasse em seu pai, Johnny Lancer acabaria sendo enforcado por isso. Por sorte, Murdock nunca ia a parte nenhuma. Essa é uma das poucas desvantagens de ser um latifundiário rico. Qualquer um que desejar lhe encontrar, conseguirá fazê-lo. Johnny enterrou sua mãe e, um dia, faria a mesma coisa com seu pai. E, se o custo de vingar sua mãe fosse a perda de sua vida, que fosse, então. Ainda assim, Johnny não tinha pressa em perder a vida. Aquele ricaço filho da puta teria de esperar. Até lá, havia muito ouro a ser roubado, muita boceta a ser comida, e muita tequila a ser bebida. Então, imagine a surpresa de Johnny quando um telegrama apareceu no Hotel Felix, o ponto de contato onde ele recebia suas ofertas de trabalho, geralmente de natureza criminosa.
AOS CUIDADOS DE JOHN LANCER – PONTO – OFERTA DE
TRABALHO – PONTO – VIAJAR PARA O RANCHO LANCER
NOS ARREDORES DE ROYO DEL ORO CALIFÓRNIA – PONTO
– PAGAMENTO MIL DÓLARES NA CHEGADA – PONTO –
PAGAMENTO POR CONSIDERAR A OFERTA DE TRABALHO –
PONTO – SEM OBRIGAÇÕES – PONTO – MURDOCK LANCER
Junto com o telegrama havia uma ordem de pagamento de 50 dólares para cobrir a passagem até Royo del Oro. Puta que me pariu, pensou Johnny. Todavia, o grande atrativo ali não era a oferta de mil dólares. Era a oportunidade de, depois de todos esses anos, olhar nos olhos de Murdock Lancer — o homem que transformara a sua mãe em uma prostituta avarenta — e fazer seus miolos explodirem pela nuca.
* * *
Mirabella Lancer volta a respirar quando a diligência da Butterfield finalmente abre sua porta e um sapato preto e branco fino, coberto com uma polaina, surge e aterrissa no degrau. Seus olhos se arregalam quando um homem muito bonito de cabelos loiros emerge do vagão de passageiros, vestindo o traje azul mais elegante que ela já tinha visto um homem usar. Como havia se criado numa fazenda de gado, ela estava acostumada à vestimenta dos homens do campo. Mesmo quando os homens de negócios do vilarejo se arrumavam para ir à igreja, ou quando os peões penteavam seu cabelo para trás com gel para o culto dominical ou para ir a algum baile na cidade, as roupas elegantes que eles usavam ou eram preto carvão, ou cinza sem graça, ou marrom sem vida. O terno daquele almofadinha loiro da costa leste era todo azul bebê, e as costuras do seu colete haviam sido feitas com uma linha dourada. Ao desembarcar da diligência, ele põe uma cartola da mesma cor. Na base do chapéu havia uma faixa de seda cor de creme. O chamativo forasteiro caminha mancando da perna esquerda, apoiado numa bengala prateada que tem uma cabeça de cachorro em sua ponta. Porém, apesar desse impeditivo, ou talvez por conta dele, a graça e a postura com que se move são impecáveis. O nativo de Boston vestindo azul tira uma escova do bolso de seu paletó e começa a espanar, lenta e meticulosamente, a poeira de seus ombros, lapelas e punhos.
Mirabella fica extasiada. Com uma rápida olhadela para Ernesto, sua expressão de alegria diz, Esse é o meu irmão Scott.
Quando a garotinha termina de engolir a saliva e começa a abrir a boca para cumprimentar o parente que ainda não conhecia, outro passageiro sai da diligência.
Este outro também era terrivelmente fascinante, mas de uma maneira completamente diferente. Enquanto o loiro era absurdamente estiloso e incrivelmente requintado, o outro tinha a beleza diabólica de um bandoleiro mexicano, com uma cabeleira cor de caramelo que Mirabella só conseguia descrever como encantadora. As roupas do caubói moreno não eram tão elegantes quanto, as do passageiro loiro, mas eram tão coloridas quanto e, ao seu próprio modo, igualmente estilosas. O passageiro moreno vestia uma camisa de babados mexicana vermelho-sangria, com uma jaqueta curta de couro marrom por cima e calça jeans preta decorada com botões prateados nas laterais. Ao descer da diligência, ele põe um chapéu de caubói marrom. Não com a função de proteger seus olhos do sol, mas de complementar o visual matador. Após esticar suas longas pernas repletas de botões prateados, o caubói durão de camisa bordô vai andando até Monty, o cocheiro, e lhe pede, em espanhol, que ele lhe alcance sua sela, que viajou acomodada no topo da diligência. Monty arremessa a sela feita à mão pela lateral do vagão, passando por cima do telhado. Ela cai pesadamente sobre os braços esticados do forasteiro com a camisa de babados.
O almofadinha de cartola e terno azul bebê pergunta a Ramon, o copiloto que fica com a espingarda, sentado ao lado de Monty na cocheira de sua diligência, sobre a sua mala de roupas. Ele recebe sua valise — com um monograma bordado — do mexicano armado, e o agradece com um gracias em um forte sotaque de gringo.
Agora tanto Mirabella quanto o mexicano Ernesto demonstram confusão em seus rostos perplexos. Nenhum dos dois sabia, ao certo, qual dos dois abordar. A garotinha de 8 anos dá de ombros e, pensando Bem, vamos lá, pigarreia ruidosamente para chamar a atenção dos dois belos passageiros.
— Sr. Lancer? — pergunta ela, com um ponto de interrogação bem grande.
Os homens respondem em uníssono, com o Almofadinha dizendo:
— Sim?
E o Amassadinho dizendo:
— Eu.
Ambos se viram instintivamente um para o outro, com uma expressão contrariada em seus rostos.
Mais confusão distorce a expressão da garotinha, até que ela, repentinamente, entende tudo.
— Ai, meu Deus — exclama ela, empolgada. — Isso é demais! Vocês dois vieram juntos!
Após os dois trocarem mais um olhar desconfiado, o homem de cartola pergunta à garotinha, em sua dicção forjada nas salas de aula de Harvard:
— O que você quer dizer com “vocês dois”?
— Bem, a gente sabia que vocês vinham — explica —, mas não que vocês estavam vindo juntos.
Como Scott não tinha nenhuma notícia sobre a vida de seu pai desde que sua mãe havia voltado correndo para Boston, exceto pelo fato de que havia feito um império com a pecuária, ele demorou um pouco para entender o que a garotinha estava querendo dizer.
— Vocês estavam esperando por nós dois? — perguntou ele, apontando para o homem ao seu lado usando a camisa vermelha de babados.
— Sim, você é o Johnny — disse ela alegremente, apontando seu dedo para o moreno usando a camisa de babados vermelha; então, movendo o dedo na direção do loiro de azul, acrescentou: — E você é o Scott.
Bom, aqueles eram, mesmo, seus nomes. Os dois homens trocam um novo olhar intranquilo à medida que a realidade da situação vai ficando evidente.
Johnny aponta seu dedo para a pestinha de meio metro de altura e pergunta:
— E você, quem é?
— Eu sou Mirabella Lancer, e vocês são meus irmãos!
E com essa declaração, ela se lança como um vagão desgovernado para cima de Johnny, abraçando-o pela sua cintura em seus bracinhos, uma surpresa desagradável para o caubói de botas.
Uma expressão de terror se forma no rosto de Johnny Lancer. Ele tinha considerado muitas variáveis quando imaginou o momento em que se reencontraria com seu pai, mas uma meia-irmã rosada e eufórica de 8 anos de idade não era uma delas. Antes que Scott pudesse perguntar qual era o sentido de tudo aquilo, Mirella já havia soltado seus braços de Johnny e agora envolvia Scott com eles, apertando sua região pélvica com uma força surpreendente para uma criança daquele tamanho. Tentando manter algum decoro e adiar, nem que fosse por alguns segundos, a inevitável conclusão de sua revelação, Scott diz:
— Escute, garotinha…
Mirabella o interrompeu, repetindo seu nome uma segunda vez.
— Mirabella.
— Mirabella, minha mãe não teve nenhum outro filho.
— Não — diz Johnny, atestando o óbvio —, mas seu pai, pelo jeito, teve.
Scott se vira para Johnny e diz:
— Você quer dizer o nosso pai?
Johnny responde:
— Sim, o nosso pai, Murdock Lancer. Olha, eu não sei por que você fez essa viagem, Almofadinha, mas o velho me disse que me daria mil dólares se eu viesse visitá-lo.
— Ele me ofereceu a mesma coisa — confirma Scott.
— Eu quero esses mil dólares — diz Johnny —, e depois que ele me der, eu vou encher aquela cara dele.
Encher de quê, Johnny não disse.
Aparentemente, Scott teve a mesma ideia.
— Eu também, meu irmão.
Johnny balança a cabeça.
— Não me chama de irmão.
— Vocês estão prontos para ir? — pergunta Mirabella, amistosamente.
Ambos se viram para ela e dizem, em uníssono:
— Pra onde?
Os dois se incomodam com aquilo e fazem cara feia um para o outro.
Mas a irmãzinha acha engraçado, ri, e diz em voz alta:
— Pra onde vocês acham? Pro Rancho Lancer, seus bobocas.
Mirabella dá meia-volta, e ela e o vaqueiro Ernesto vão mostrando o caminho em direção à carroça que Ernesto havia conduzido por mais de 15 quilômetros até o vilarejo.
Scott pega a alça de sua valise com a cabeça de cachorro da bengala e a puxa até a sua outra mão, enquanto Johnny põe sua cela sobre o seu ombro. Os dois irmãos seguem sua irmãzinha, que começa a contar que eles deveriam esperar quando encontrassem o pai.
— Bem, talvez o Papai não demonstre assim de primeira, e ele também é meio cabeça-dura, mas, não importa o que ele diga, ele está muito feliz que vocês vieram — Johnny dá uma rosnada sarcástica.
— Ah, é? Bom, vamos ver se ele vai continuar feliz depois dessa reunião de família.
Mancando ao seu lado, Scott concorda:
— Sabe, irmão, essa é a primeira coisa que você diz com a qual eu concordo.
Porra, já chega, pensa Johnny, parando onde estava e apontando o dedo para o peito azul bebê de Scott.
— Almofadinha, eu acabei de te dizer pra não me chamar de irmão.
Os olhos de Scott descem até o dedo agressivo, depois sobem até o rosto agressivo e, então, ele faz um alerta:
— Não aponte o seu dedo para mim, Amassadinho.
— Meninos?
Os dois irmãos se viram na direção de sua irmãzinha, enquanto ela gesticula para a carruagem e pede, de forma condescendente:
— Podemos ir agora?
Os dois homens trocam um olhar que diz, Isso ainda não terminou, mas, por causa daquela bonequinha, eles deixariam sua briga para depois, e Johnny gesticula na direção da carroça.
— Depois de você, maninha.