Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Dezessete: A Medalha de Valor
Capítulo Dezessete
A Medalha de Valor
Quando deu baixa do Exército após a Segunda Guerra Mundial, Cliff tinha dinheiro e duas Medalhas de Valor no bolso. Ele também precisava decidir o que fazer com o resto de sua vida. Algo que, sinceramente, a julgar pelos últimos anos, não era uma decisão que ele realmente achou que teria de tomar. Quando estava na Sicília, durante a guerra, achou que seria muito provável que morresse por lá mesmo. Mas, depois que foi transferido para as Filipinas para lutar ao lado dos guerrilheiros locais contra o exército de ocupação japonês, Cliff teve a certeza de que nunca mais voltaria para casa. E então, quando foi capturado pelos japoneses e ficou preso num campo de prisioneiros improvisado no meio da selva filipina, Cliff Booth passou a se considerar um homem morto. Se, em sua cabeça, Cliff já não tivesse dado adeus à sua própria vida, ele jamais teria feito a arriscada tentativa de fuga que permitiu que ele liderasse os prisioneiros filipinos na vitória sobre seus captores e executasse todo o pessoal do campo de prisioneiros e, depois de tudo isso, fugir pela selva para se juntar novamente aos seus irmãos guerrilheiros da resistência.
Sua fuga foi tão ousada e emocionante que a Columbia Pictures chegou a fazer um filmeco de guerra a respeito, dirigido por Paul Wendkos, intitulado A Batalha do Mar de Coral. O filme de Wendkos era uma versão altamente divertida, embora tremendamente ficcional, da história. No filme, não era Cliff junto com um bando de filipinos que conseguia escapar do campo de prisioneiros. Era a tripulação de um submarino, liderada pelo capitão interpretado por Cliff Robertson, que realizava a façanha heroica. E, numa estranha coincidência, bem antes de Cliff conhecê-lo, Rick Dalton interpretava um dos homens de Robertson.
O filme ignorou boa parte dos fatos reais. Deixou Cliff Booth de fora, deixou os filipinos de fora, e os japoneses do filme não tinham o hábito de decapitar quase todos os prisioneiros, como eles faziam na vida real. Ele também não mostrava os prisioneiros sobreviventes decapitando o pessoal do campo depois da virada de mesa. E o brutamontes japonês que comandava a prisão também não era sofisticado, afável, intelectual e honrado como aquele retratado pelo filme.
Caralho, pensou Cliff, quando assistiu ao filme, se aquele cabeça-dura, aquele sádico filho da puta fosse legal assim, eu teria ficado quieto até o final da guerra. Na verdade, na opinião de Cliff Booth, o verdadeiro babaca do filme era o Cliff Robertson. Mais tarde, ele admitiria para Rick (que amava o filme): “Aquela merda de filme praticamente me fez torcer pros malditos japas.”
Apesar de tudo, os detalhes sobre a fuga em si estavam mais ou menos corretos. Mas, como Cliff tinha certeza quase absoluta de que nunca sairia vivo daquela selva, uma vez que ele tinha conseguido, sua sobrevivência acabou se revelando um tanto quanto inconveniente. Quando precisou decidir o que faria com o resto da vida, Cliff não fazia a menor ideia.
* * *
Pra começar, ele não tinha a menor pressa em voltar para os Estados Unidos. Então, assim que recebeu baixa do Exército, achou que seria uma boa ideia visitar Paris. E foi durante essa estadia de alguns meses em Paris, comendo queijo e baguete e bebendo vinho tinto como se fosse Coca-Cola, que Cliff foi apresentado a uma profissão que ele desconhecia totalmente antes da guerra: “mercador do prazer”.
Uma profissão mais conhecida como “cafetão”. Assim como para muitos homens americanos contemporâneos de Cliff, o conceito da cafetinagem era totalmente estranho para eles. Eles entendiam a lógica da mulher que administrava um bordel. Mas, em Paris, Cliff conheceu esses sujeitos franceses chamados le maquereau, ou maqs, abreviando (pronunciado como “macs” em inglês). Esses sujeitos se vestiam muito bem, passavam o dia inteiro em bares, e botavam mulheres para trabalhar na rua vendendo o corpo por dinheiro que, depois, era entregue ao maq. Para um homem americano daquela época, a ideia de uma mulher vendendo o corpo e depois entregando o dinheiro para um homem era algo inconcebível. Mas os franceses tinham feito disso uma ciência. Graças à sua boa aparência, Cliff tinha manipulado mulheres para fazer coisas que iam contra os seus próprios interesses a vida inteira. Fazer com que elas oferecessem a buceta para ele era muito fácil. Agora, fazer com que elas vendessem a buceta para os outros e depois entregassem o dinheiro para ele? Cara, aí já era todo um outro nível de manipulação. Se ele conseguisse descobrir como os franceses faziam aquilo, isso era uma coisa que ele poderia fazer quando voltasse para casa. Então, Cliff começou a andar com alguns desses caras.
— O que a garota ganha com esse tipo de arranjo? — perguntou Cliff.
O francês explicou para ele do seguinte modo:
— As mulheres pagam para que você cuide delas. E você cuida mesmo delas. Você as protege. Dos clientes, dos tiras, dos bandidos, de outras mulheres. Você as leva para sair para serem vistas pelos outros. Sim, elas te dão todo o dinheiro que recebem, mas você também gasta muito com elas. Você poderia simplesmente dar a elas uma parcela do que elas ganham, mas não seria romântico. E, em algum momento, elas perceberiam, e, quando percebessem, não iriam gostar. Agora, se você pega o dinheiro que elas ganham e gasta um monte com elas, comprando coisas de que elas gostam, como vestidos, perfumes, joias, perucas, meias-calças, revistas, chocolates, e se você leva elas nos lugares que elas gostam, como restaurantes, bares, cinemas, para dançar, elas esquecem que o dinheiro é delas. Enquanto elas fizerem o que o Papai disser, o Papai vai cuidar delas.
— Mas tem que ter mais alguma coisa aí — disse Cliff.
— Nunca subestime o desejo de uma mulher por um papai que cuide delas — disse o maq francês. — Mas, sim, você tem razão — admitiu o maq. — Tem mais alguma coisa aí. Uma coisa que é mais importante do que todas as outras. Por exemplo, encontrar o tipo certo de garota é importante. Mas, por mais importante que isso seja, tem uma coisa que é ainda mais importante do que isso. Tá cheio de caras por aí que são capazes de conquistar uma mulher, mas mantê-las nesse estilo de vida? Essa é a marca de um verdadeiro maq. Conquistar diversas mulheres e manter todas elas desse jeito? Bem, isso aí é só pra quem é um puta de um profissional. E, pra fazer isso, você precisa fazer uma coisa acima de todas as outras.
— Qual é o segredo? — perguntou Cliff.
— Simples — disse o maq. — Tem que comer bem. Tem que comer elas de jeito. Comer bem e comer sempre.
Cliff sorriu, mas o sujeito francês garantiu a ele:
— E isso é mais difícil do que parece, tá? Você não pode comer essas mulheres como você come sua namorada. Nem como você come a melhor amiga da sua namorada. Nem como você come a amante do seu pai. Tudo isso aí é foder por diversão. Mas aqui estamos falando de trabalho. No trabalho, elas dão em troca de dinheiro. No trabalho, você come elas em troca de dinheiro. E, vai por mim, não é fácil satisfazê-las, tá? Se você quer manter todas elas na linha, vai precisar comer todas bem direitinho, e o tempo todo. E quanto mais vadias você tiver, mais você vai ter que trepar. Mais vadias significa mais foda. Não dá pra dormir no ponto. Se você moscar, nem que seja por quatro dias, a vadia vai se ligar. O feitiço vai se quebrar. E quando o feitiço se quebra, não é tipo Beleza, foi; a gente se fala. Quando o feitiço se quebra, a filha da puta vai te odiar. E ela não vai só te odiar, ela vai querer que você morra. E talvez ela tente te matar mesmo. E talvez ela tente te roubar. E talvez ela ligue para o pai dela, ou para o irmão dela, ou para o namorado de quando ela era uma garotinha, pedindo que ele venha salvá-la. E aí ele vai vir atrás de você com uma faca, ou o irmão com uma pistola, ou o pai com a porra de uma escopeta. Ou então ela usa a buceta que você ensinou ela a usar para recrutar algum idiota pra matar você. Em outras palavras, um maq não tira um dia de folga. Não tem feriado nem fim de semana para um verdadeiro maq. Você come ela, e você comendo fodendo ela, você nunca pode parar de comer e nunca pode parar de comer bem. Você não pode se entediar, não pode ficar puto, ninguém tá nem aí se você não estiver no clima. Você é o macho dela e tem que comer ela sempre. E o grande lance: posições diferentes. Você não precisa comer ela melhor do que todos os outros caras, você tem que comer ela diferente de todos os outros caras. Você quer saber o que ela ganha com isso? Isso é o que ela ganha. E quer saber do que mais? É um belo de um negócio, tá? Ela cuida de você, e é melhor que você cuide muito bem dela também. Beleza, ela traz dinheiro pra você, mas, mon ami, você precisa merecer pra caralho esse dinheiro.
Cliff entendeu. Entendeu bem direitinho. Mas também entendeu que não queria se esforçar tanto assim. Ele preferia bater um carro a cem quilômetros por hora numa parede de tijolos (como, de fato, ele seria pago para fazer mais tarde) do que comer uma vadia que ele não estava a fim. É como diz aquele velho ditado, as únicas pessoas que não gostam de montar a cavalo são os caubóis.
Então, quando Cliff se deu conta de que ele não queria ser cafetão, voltou para os Estados Unidos e ficou vagabundeando pelo país por alguns anos, até finalmente acabar em Cleveland, em Ohio. Uma vez lá, ele procurou por uma velha amiga dos tempos de colégio, Abigail Pendergast. Abigail era uma gatinha de cabelo oxigenado que também era uma das amantes do meliante Rudolfo “Patsyface” Genovese, que tinha conexões na máfia.
Cliff Booth e a Srta. Pendergast estavam numa pizzaria Gay Nineties, com serragem no chão, toalhas xadrez nas mesas, música emanando de uma pianola, e um filme em 16mm de Charlie Chaplin projetado na parede.
Quando a Srta. Pendergast mordeu uma fatia de pizza e a muçarela derretida escorreu pelo seu queixo, ela se virou em sua cadeira para pedir um guardanapo ao garçom. Foi aí que ela os viu: Pat Cardella e Mike Zitto, sentados no balcão, bebendo cerveja e olhando feio para sua mesa.
Puta merda, pensou a diva platinada.
Ela virou-se para o seu acompanhante, que, como não comia a borda, tinha acabado com a sua fatia em duas mordidas e meia.
Ela inclinou-se na direção de Cliff por cima da mesa:
— Nós não estamos sozinhos.
Com a boca cheia de pizza grudenta, Cliff perguntou:
— Quê?
Os olhos dela apontaram para o balcão.
— Aqueles dois caras no balcão.
Ele estava começando a se virar em sua cadeira para olhar para o balcão, quando ela esticou o braço para segurá-lo pelo pulso e disse:
— Não olha.
Suas sobrancelhas se arquearam, formando um ponto de interrogação.
Ela sussurrou.
— Pat e Mike. Trabalham para o Rudy.
Então, apesar dos seus protestos, ele se virou para dar uma boa olhada nos dois clientes mal-encarados sentados nos banquinhos de bar, bebendo cerveja. Eles olharam para o ex-soldado como quem diz vai se foder.
Ele tirou seus olhos da fatia de pizza em sua mão e olhou para a loira oxigenada pálida do outro lado da mesa.
— Ah, são, é?
Abigail fez uma cara de culpada e começou a se desculpar.
— Desculpa, Cliff, eu não imaginei que o Rudy fosse reagir desse jeito. Quer dizer, não é como se eu fosse a porra da mulher dele, ou como se ele não tivesse outras oito namoradas.
— É — disse Cliff. — Mas provavelmente você é a favorita. Dá pra ver.
Aquilo faz Abby corar.
Então, ele mandou que ela pedisse licença e fosse até o banheiro feminino. Ela começou a reclamar, e ele repetiu a ordem:
— Pede licença e vai até o banheiro feminino. Tranca a porta, e não abre até eu dizer que está tudo bem.
Ela não entendeu.
— Vai — mandou ele.
Ela cumpriu suas ordens, e ficou de pé, pediu licença, foi até o banheiro feminino, e trancou a porta.
Assim que a Srta. Pendergast saiu do salão do restaurante, os dois delinquentes italianos vieram até a mesa de Cliff.
Mike Zitto sentou na cadeira antes ocupada por Abigail, e Pat Cardella pegou uma cadeira de uma mesa desocupada e puxou para si.
Cliff tirou seus olhos do filme de Charlie Chaplin na parede e voltou-os para os dois sujeitos grandalhões sentados à sua mesa enquanto dava mais uma mordida em sua pizza.
Pat colocou seu copo de cerveja na mesa e disse para Cliff.
— Escuta aqui, viadinho, eu vou te dizer o que vai acontecer agora. Você vai levantar dessa mesa, vai arrastar seu rabo por aquela porta — disse, apontando o dedão para trás, na direção da porta —, e, se ou eu ou ele — falou, apontando o dedo para Mike e para si mesmo — encontrarmos você perto da Srta. Abigail novamente, você vai passar uma temporada bem longa no hospital.
Cliff continuou mastigando sua fatia de pizza.
— Você me entendeu, cara de pizza? — perguntou Mike.
Cliff engoliu o que mastigava e pôs a pizza que segurava de volta no prato. Ele pegou um guardanapo e, enquanto limpava a gordura dos dedos, perguntou aos dois sujeitos:
— Cavalheiros, vocês dois não seriam, por acaso, de ascendência italiana, seriam?
Os dois homens de cabelo escuro trocaram um olhar e depois se voltaram para o homem loiro.
— Sim — disse Pat.
Cliff ficou apontando um dedo esticado para um e depois para o outro.
— Vocês dois?
Mike estufou seu peito e disse:
— Sim, nós dois somos italianos, e daí?
Um sorriso se espalhou pelo rosto de Cliff enquanto ele dizia, inclinando-se para frente:
— Vocês sabem quantos italianos eu já matei?
Pat inclinou-se para a frente e perguntou, em voz baixa:
— Como assim?
— Ah, você não ouviu? Deixa que eu repito — disse Cliff, e então perguntou uma segunda vez: — Vocês têm ideia de quantos italianos eu já matei?
Cliff enfiou a mão no bolso da frente de sua jaqueta.
— Deixa eu dar uma ideia pra vocês.
Pat e Mike ficaram olhando enquanto ele puxou a Medalha de Valor do seu bolso e a jogou na mesa à sua frente. Ela caiu pesadamente na mesa de madeira, fazendo um tremendo barulho.
— No dia em que eu ganhei isso — disse ele, apontando para a Medalha de Valor —, eu matei, pelo menos, uns sete. Quem sabe, até uns nove. Mas, no mínimo, sete. E isso foi só em um dia. Quando eu estava na Sicília, eu matava italianos todos os dias.
Sentando para trás em sua cadeira, ele disse:
— E eu fiquei por muito, mas muito tempo mesmo na Sicília.
Os rostos dos dois gângsteres italianos ficaram vermelhos.
— Na verdade — continuou Cliff —, eu matei tantos italianos que eles me tornaram um herói de guerra. Consequentemente, por ser um herói de guerra, eu tenho uma licença para carregar isso.
Cliff tirou um 38 de cano curto do outro bolso da jaqueta e o largou, fazendo bastante barulho, sobre a mesa, ao lado da Medalha de Valor. Pat e Mike deram um pulo em suas cadeiras quando o viram tirar a arma do bolso e colocá-la sobre a mesa.
Cliff inclinou-se para frente e sussurrou para os dois valentões do outro lado da mesa.
— Sabem do que mais? Aposto que eu poderia pegar esse revólver e matar vocês dois, agora mesmo, aqui nessa pizzaria de merda. Bem na frente do dono, dos garçons, dos clientes, e do Charlie Chaplin. E sabem do que mais? Eu aposto, simplesmente aposto, que não aconteceria nada comigo. Porque eu sou um herói de guerra. E vocês dois são dois porcos nojentos.
Mike Zitto perdeu a paciência e decidiu que era a sua vez de falar. Ele apontou um dedo enfurecido para o louro metido a espertinho.
— Escuta aqui, sua bichinha do Exército…
Cliff o interrompeu pegando seu 38 de cano curto sobre a mesa e metendo uma bala no crânio de Pat e outra no crânio de Mike. Sangue vivo jorrou dos buracos que ele tinha acabado de fazer em suas cabeças, espalhando-se por cima da mesa, espirrando no rosto e na camisa de Cliff e, praticamente, por todo o restaurante.
As mulheres começaram a gritar enquanto os homens se jogaram no chão. Os dois mafiosos desabaram de suas cadeiras, caindo no chão coberto de serragem. Assim que atingiram o chão, Cliff atirou neles mais duas vezes só para garantir.
Mais tarde, quando o Departamento de Polícia de Cleveland interrogou Cliff sobre o incidente, ele disse:
— Bem, os caras estavam tentando sequestrar a mim e à Srta. Pendergast. O gordão disse que pretendia me dar um tiro e jogar ácido no rosto da Srta. Pendergast para dar uma lição nela. Eu não sabia o que fazer, eu fiquei muito assustado.
A teoria de Cliff acabou se mostrando correta. Os policiais de Cleveland sabiam exatamente quem eram Pat Cardella e Mike Zitto. E, se um herói da Segunda Guerra Mundial quisesse matá-los dentro de uma pizzaria, a polícia pagaria a conta. A história de Cliff não precisava sequer ser convincente. Ela só precisava ser plausível.
E foi assim que Cliff Booth escapou de ser preso por homicídio… pela primeira vez.