Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Doze: “Pode me chamar de Mirabella.”
Capítulo Doze
“Pode me chamar de Mirabella.”
A porta do trailer de maquiagem do set de Lancer se abre, e Rick Dalton sai por ela. Só que ele não se parece mais com Rick Dalton. Sonya pôs uma peruca de índio em sua cabeça, cujos cabelos castanhos ela aparou até a altura dos ombros, além de colar um “bigodão comprido, caído, ao estilo Zapata” em sua boca. E Rebekkah o vestiu em uma jaqueta marrom de couro cru, com franjas ao estilo Custer descendo pelos braços, que não pareceria deslocada se Rick estivesse se apresentando no palco de Woodstock, ao lado de Country Joe and the Fish. Em outras palavras, aquele era Caleb DeCoteau, à la Sam Wanamaker.
Sam, Sonya e Rebbekah não podiam estar mais felizes. Rick não estava tão convencido assim.
Mas Sam está tão entusiasmado, tanto com o talento de Rick como ator quanto com a sua concepção de um Caleb da contracultura, que Dalton acha melhor não contrariá-lo. Então, decide que a melhor maneira de agir é sendo um ator tão bom quanto Sam pensa que ele é, e atuando como se ele estivesse tão entusiasmado quanto os outros três a respeito da construção do personagem Caleb. Na verdade, pensa Rick, eu pareço um cruzamento entre um viadinho hippie e o Leão Covarde de O Mágico de Oz. E ele não sabe qual dos dois ele odeia mais.
Sonya estica a cabeça para fora do trailer e o avisa:
— Rick, eu sei que está na hora do almoço, mas você precisa esperar pelo menos uma hora antes de comer. Tem que dar um tempo pra cola do bigode secar.
Rick, muito boa-praça, olha pra ela como quem diz não esquenta, baby, e puxa um livro de faroeste do bolso traseiro e acena com ele para ela.
— Não se preocupe, querida, eu trouxe o meu livro.
Que maravilha, pensa Rick, tô morrendo de fome e agora vou perder a porra do almoço.
Uma das coisas que Rick mais gosta em trabalhar em sets de filmagens é que precisam alimentar a equipe. Na opinião de Rick, qualquer refeição que ele não preparou, ou pela qual não pagou, é uma boa refeição. Muitos dos atores com quem ele cruza nos sets são uns ingratos filhos de uma puta. Como não amar isso? Os caras pagam um monte de grana pra você fingir, dão comida, levam você para lugares diferentes, pagam a estadia, dão dinheiro pra você gastar no que quiser, e fazem o melhor que podem para que você fique bem na tela. E ainda tem ator que reclama. Ah, não, frango hoje de novo? Rick nunca entendeu.
Então, durante sua meia hora de almoço, como não pode comer, ele decide se aclimatar com o cenário do saloon, onde a gangue de bandoleiros que seu personagem lidera costuma se encontrar. Vestindo seu figurino completo de Caleb DeCoteau, Rick caminha pelo set de filmagens de faroestes da Twentieth Century Fox, que, neste programa, chama-se Royo del Oro. Quando o horário de almoço terminar, esse lugar estará repleto de membros da equipe, caubóis, equipamentos de filmagem e cavalos. Mas, durante esse intervalo, ele se transforma numa cidade-fantasma. Não chega a ficar completamente deserta, porque membros aleatórios da equipe usam o set como atalho para algum outro lugar. Mas, na maior parte do tempo, ela está deserta.
Desfilando seu figurino e suas botas pela rua principal de chão batido, cercado pelos estabelecimentos comerciais típicos de uma cidade do Velho Oeste (estábulos, armazéns, uma funerária, um hotel bom, um hotel ruim), Rick começa a se sentir como Caleb DeCoteau.
No piloto, Caleb é o líder de um bando sanguinário de ladrões de gado — ao qual o programa se refere com o eufemismo rebuscado “piratas terrestres” — que aportou na região de Royo del Oro e está roubando tranquilamente as vacas do maior pecuarista do vale, Murdock Lancer. E, sem nenhuma presença da lei no vilarejo, com o xerife mais próximo a mais de 200 quilômetros de distância, e nada além do velho Lancer e meia dúzia de peões mexicanos para espantá-los, a situação não parece que vai mudar no curto prazo. Para piorar, como se o roubo constante do gado de Murdock Lancer já não fosse ruim o bastante, acontecimentos recentes deixaram as coisas ainda mais letais, quando Caleb mandou atiradores dispararem seus rifles contra a casa da fazenda (onde Mirabella, a preciosa filhinha de 8 anos de idade de Murdock dormia) e o barracão (onde os peões dormiam), resultando no assassinato de George Gomez, o capataz do Rancho Lancer e amigo mais antigo de Murdock, além da fuga de um quarto de seus homens.
Murdock Lancer estava desesperado. E momentos desesperados pedem medidas desesperadas. Aparentemente, a única alternativa de Murdock seria contratar um grupo de bandidos e se envolver numa sangrenta batalha campal, que deixaria muitos mortos (sem falar que colocaria sua filha em risco). Mas não apenas Murdock não achava que seu dinheiro deveria ser usado para financiar assassinatos (mesmo de canalhas como os homens de DeCoteau), como, em última análise, o velho Lancer acreditava que o homicídio não valia o preço de seus bovinos.
Então, em vez de fazer o óbvio, Murdock Lancer deu uma guinada em direção ao inusitado.
O velho tinha dois filhos, com duas mulheres diferentes (toques de Bonanza), que ele não via desde que eram crianças. E, se suas reputações fossem legítimas, ambos pareciam amplamente capazes no tocante ao manuseio de armas de fogo.
O mais velho dos dois, Scott Lancer, era quem mais impressionava o velho. Scott tinha sido educado nos sagrados corredores de Harvard e criado em meio à riqueza, a cultura e a honra pelos Foster, a distinta família da mãe, em Boston.
Atualmente, na opinião de Murdock, ele estava jogando fora seu pedigree levando uma vida de apostador profissional. Também corriam boatos de que ele tinha matado o filho de um senador dos Estados Unidos em um duelo de pistolas, sob a acusação de ter violado a honra de uma beldade sulista.
Apesar disso, o jovem tinha uma distinta carreira militar, tendo lutado ao lado da Cavalaria Britânica na Índia. Quando deixou Calcutá, voltou para casa trazendo duas medalhas de bravura no combate ao inimigo e um ferimento na perna direita que lhe deixou manco.
John Lancer, o filho mais novo, era totalmente diferente. A última vez que Murdock viu o garoto ele tinha 10 anos de idade. Após transar com um dos peões do marido, sua mãe, Marta Conchita Louisa Galvadon Lancer, pegou o filho pequeno e fugiu no meio da noite. Marta era uma vagabunda do mesmo jeito que algumas pessoas são bêbadas. Isso era o que ela era, embora não necessariamente o que ela queria ser. Mas, assim como um legítimo alcoólatra, ela talvez fosse capaz de resistir às suas tendências para a sedução por algumas semanas, ou meses, ou até mesmo anos, mas, eventualmente, acabaria sucumbindo. No caso de Marta, enquanto esposa de Murdock Lancer e mãe de John Lancer, ela resistiu por dez anos (após o nascimento do filho). Mas, no fim das contas, acabou chegando o momento em que ela se entregou à sua verdadeira natureza.
A primeira vez que Marta viu o deslumbrante Lázaro Lopez montado numa sela, reunindo os novilhos, ela sabia que seria simplesmente uma questão de tempo até perder sua honra, dinheiro e posição social. Marta talvez jamais tenha amado seu marido, mas, como Tina Turner cantaria mais tarde, “what’s love got to do with it?”, o que o amor tem a ver com isso? Meninas de 15 anos se apaixonam por peões que não têm nem um penico para mijar ou uma janela para jogar o mijo fora, enquanto ricos latifundiários trocam, de bom grado, uma dúzia de bons cavalos por uma mão em casamento. O amor é para meninas que pensam com a bunda. O que Marta sentia por Murdock era muito mais significativo: respeito.
Quando o humilhou em sua casa, na frente de seus homens, Marta pulverizou a coisa que mantinha sua espinha ereta, seu orgulho. Ela havia brincado de casinha durante dez anos, mas agora tinha mostrado quem realmente era. Uma puta imunda em quem não se podia confiar. Quando ele a confrontou por sua traição, ela viu em seus olhos que a vida que tinham feito juntos no Rancho Lancer havia se destruído. Mesmo que a perdoasse, Murdock jamais esqueceria. Mas, mais catastrófico ainda, era o respeito que ela havia perdido por si própria, e que ela jamais recuperaria. Murdock Lancer tinha os seus problemas, mas era um homem bom. E ele não merecia que uma vagabunda jogasse fora a vida que ele dera a ela apenas para rolar na grama com um boçal imbecil e arrogante. Então, quando o marido foi dormir, ela pegou seu filho de 10 anos e a carroça que Murdock havia lhe dado em seu aniversário de 28 anos e fugiu para o México.
Nas cidades da fronteira mexicana, Marta poderia parar de fingir ser qualquer outra coisa que não fosse o que ela havia nascido para ser. Sem que o menino jamais soubesse, Murdock passou cinco anos procurando pela esposa e pelo filho, sempre com resultados infrutíferos. Depois que um cliente insatisfeito cortou sua garganta dois anos depois no quarto dos fundos de uma cantina em Ensenada, Marta finalmente encontrou a paz pela qual suplicava desde sua transgressão. Sua autodegradação chegaria ao fim, a honra de seu marido finalmente seria restituída, e o filho finalmente se livraria da bola de ferro em seu tornozelo, sempre puxando-o para profundezas da humanidade. Como Jesus Cristo era o único que sabia o quanto ela se sentia mal pelo que havia feito, talvez ele lhe perdoasse, como sempre prometeu que faria. Então Marta poderia, finalmente, deixar para trás as pocilgas, os quartinhos dos fundos das cantinas, e os bordéis. Um paraíso, no qual todos os seus pecados seriam perdoados, era o que se apresentava à sua frente (isso se toda essa coisa de Jesus pudesse realmente ser levada a sério).
De alguma maneira, Marta Lancer foi quem teve mais sorte, porque Murdock nunca teve paz de espírito por não saber o paradeiro dos filhos. O velho nutria uma mágoa terrível pela primeira esposa, Diane Foster Lancer, por sua fraqueza e falta de brio. Por ter feito votos, perante os olhos de Deus, durante uma cerimônia de casamento, que ela não teve a firmeza de cumprir. Cumprir uma promessa é sempre um teste para uma pessoa. Um teste no qual as mulheres que ele colocou em sua vida fracassaram, e terrivelmente. Porém, no caso de Scott, pelo menos, o velho sabia que ele estava a salvo, seguro, e bem alimentado. No futuro, talvez se tornaria o oposto de um pecuarista e herdeiro de um império construído do nada, mas, pelo menos, estaria bem cuidado por seus parentes, em Beacon Hill, com toda a porcelana chinesa.
Mas John, coitado... Só Deus sabia o que ele havia passado. Após cinco anos de buscas, um dos detetives da Pinkerton contratados por Lancer finalmente descobriu o último paradeiro de Marta Galvadon Lancer, em um pequeno cemitério em Ensenada, no México. Era evidente que a cruz de madeira e seu nome escrito na lápide tinham sido obra do filho de 12 anos de idade. O velho viajou até Ensenada. O último vestígio de seu filho era sua presença no julgamento do assassino da mãe, um cidadão de dinheiro e prestígio da Cidade do México. O mexicano rico foi absolvido em circunstâncias injustas, por um júri comprado, que parecia inclinado a se posicionar contra Marta. O parasita que cortou a garganta de Marta poderia ter ateado fogo nela que, mesmo assim, o júri não o condenaria. E, apesar de Murdock ter continuado as suas buscas pelo garoto, todos os seus esforços foram em vão. Quando Murdock Lancer assinou o último cheque para a agência de detetives Pinkerton, foi com a amarga certeza de que seu filho estava morto. E, pelo jeito, ficaria por isso mesmo.
Foi por volta de quinze anos depois que a reputação de um pistoleiro mortal mestiço de branco e mexicano, chamado Johnny Madrid chegou aos ouvidos dos californianos. Sua reputação era a de um patife, mas de um patife com enorme destreza e velocidade no manuseio de uma pistola. Pelos relatos de testemunhas e escritores de romances baratos, Madrid tinha a velocidade no gatilho de Tom Horn, a pontaria de Annie Oakley, a maldade no coração de John Wesley Hardin, e a ausência de empatia pelo ser humano de William H. Bonney. Era um dos assassinos mais temidos do lado mexicano da fronteira, conhecido pelos peões dos pueblos por onde passava como El Asesino de Rojo (tradução: “O Assassino de Vermelho”), devido à extravagante camisa vermelha de babados que sempre vestia.
Porém, apenas três anos antes, um dos detetives da Pinkerton que haviam trabalhado para Lancer lhe enviou um telegrama, informando ao barão do gado que seu filho perdido havia muito tempo estava, de fato, vivo, e era conhecido pelo nome de Johnny Madrid.
O velho chorou por três dias, sem que ninguém no rancho entendesse o porquê.
* * *
Todavia, agora que a batalha de Murdock Lancer com Caleb DeCoteau e seus piratas terrestres havia evoluído da simples perda de gado para a trágica perda de vidas, era apenas uma questão de tempo até que o barão da pecuária contratasse seus próprios assassinos. Mas antes que chegasse esse dia inevitável, Murdock teve uma ideia maluca. Ele rastrearia seus dois filhos perdidos, John e Scott, e entraria em contato com eles. Mandaria dinheiro para que viajassem até o Rancho Lancer, com uma promessa de mil dólares por cabeça, apenas para que ouvissem a sua proposta.
Sua oferta era simples. Eles deveriam ajudá-lo a defender o rancho de Caleb e de seus assassinos e, assim que tivessem expulsado os piratas, Murdock dividiria, em partes iguais, todo o seu império entre seus dois filhos. Era uma oferta muito generosa, mas não viria de mão beijada. Os dois teriam de fazer por merecer. E teriam de escapar de serem mortos por Caleb e seus homens.
Porém, se estivessem dispostos a ajudar Murdock a triunfar sobre aqueles pulhas, e dispostos a derramar o sangue, suor e lágrimas que eram necessários para administrar com sucesso um rancho daquele tamanho, os três homens da família teriam de se unir. E, se todas essas coisas milagrosamente funcionassem, Murdock Lancer e seus filhos havia muito perdidos seriam, finalmente, uma família.
* * *
Levando tudo em consideração, até que não era uma premissa ruim para um seriado de TV, pensou Rick. Boa história e bons personagens.
Lembrava um pouco Bonanza e Chaparral, porém mais sombrio, mais violento e cínico.
Para começar, Murdock Lancer não era como Ben Cartwright, um patriarca benevolente e severo, mas justo. Murdock era um filho da puta intransigente pra caralho. Dá para imaginar suas duas ex-mulheres enchendo o saco daquela merda muito rápido, e fugindo para longe daquele desgraçado rancoroso na primeira oportunidade. E o ator com cara de cavalo que eles chamaram para interpretar Murdock, Andrew Duggan (com quem Rick contracenara no teatro uma vez), não tinha um pingo de carisma no corpo. O sujeito era duro como uma barra de ferro, e tinha mais ou menos a mesma simpatia. O personagem de Scott Lancer era o mocinho popular que se encontrava na maioria dos programas de faroeste dos anos 1960. Seu guarda-roupa de dândi da Costa Leste, no entanto, definitivamente lhe dava uma aparência diferente. Ele fazia com que outros dândis, como Bat Masterson e Yancy Derringer, parecessem mendigos. E o seu passado como Lanceiro de Bengala dava um pano de fundo muito interessante. Mas o protagonista sui generis no ramo dos seriados de faroeste era mesmo Johnny Lancer/Johnny Madrid. O Jake Cahill de Dalton tinha sido o ápice do papel de anti-herói nos seriados de faroeste, mas Johnny Lancer, pelo menos no roteiro do piloto, ia muito além de onde Jake havia se aventurado.
Johnny Lancer, o malandro bonito e misterioso que chega a Royo del Oro, é o tipo de personagem que geralmente faz uma participação especial num programa de faroeste, mas nunca é o protagonista. Esse é o tipo de personagem que costumava aparecer no Rancho Ponderosa, em Bonanza, ou no Rancho Barkley em Big Valley, ou no Rancho Shiloh em O Homem da Virgínia, e eles eram sempre jovens, arrogantes, sensuais, e um pouco ambíguos. Eles faziam amizade com Little Joe, ou Heath, ou Trampas, mas, em algum momento, em geral no primeiro ato, ficamos sabendo que eles escondem algum segredo sombrio. Ou estão fugindo de alguém, ou de alguma coisa, ou de quem eles eram, ou de alguma coisa que fizeram ou não fizeram. Ou estão na região por algum motivo escuso (geralmente vingança, o planejamento de um roubo, ou para se encontrar com alguém do passado). Nós (o público), sabemos que eles são suspeitos. Mas também sabemos que teremos de esperar até o terceiro ato para descobrir se o personagem é um bandido ou um mocinho incompreendido. E, no terceiro ato, Michael Landon, Lee Majors ou Doug McClure ou os ajudam a se redimir ou os matam a tiros. Esses personagens são sempre os melhores papéis do programa, e os caras que se especializam em interpretá-los geralmente acabam virando estrelas (Charles Bronson, James Coburn, Darren McGavin, Vic Morrow, Robert Culp, Brian Keith e David Carradine).
Mas o papel de Johnny Lancer, embora tenha sido escrito como se fosse para um ator convidado, era simplesmente o protagonista da porra do seriado. E ele não se parecia em nada com nenhum dos demais caubóis que apareciam nas três principais emissoras de TV.
Quem quer que seja esse merda desse Jim Stacy, pensa Rick, ele com certeza tirou a sorte grande quando conseguiu esse papel.
Mas Caleb DeCoteau também não era um mero vilão convencional. Aquele era um papel muito bom, e ele tinha alguns dos melhores diálogos do roteiro. Andando pelas ruas empoeiradas e desertas de Royo del Oro, Rick repassa algumas de suas falas, enquanto se dirige para o saloon nos fundos do set. Ao passar por uma das lojas da rua principal, ele vê o próprio reflexo com o canto do olho no vidro de uma janela. A visão o faz parar por um instante para se examinar.
Olhando para o resultado final no espelho do trailer de maquiagem, rodeado pela garota das perucas, a garota do figurino e o diretor, ele não tinha ficado muito contente. A menos que a pessoa leia no Guia da TV, ninguém vai saber que sou eu, foi o que ele pensou na hora. Mas, agora que já está um pouco mais acostumado, saiu andando por aí (as botas são confortáveis) e viu seu reflexo numa janela ao estilo do Velho Oeste cercado por um ambiente de faroeste, pensava até que não ficou tão ruim assim. Ele tinha gostado do chapéu desde o primeiro momento, mas, agora, a jaqueta marrom de hippie também o havia conquistado. As franjas penduradas nas mangas eram bem legais. Ele começa a apontar e gesticular com os braços, e fica observando o efeito no reflexo da janela. A maneira como as franjas enfatizam seus movimentos é sensacional. Dá para fazer muita coisa com aquilo. Nada mal, Rebekkah, pensa Rick. E ele pensa também:
Esse cara não se parece comigo. Mas talvez Sam tenha razão, talvez isso não seja tão ruim assim. Ele se parece com Caleb. Talvez não o Caleb que eu tenha imaginado na minha cabeça na primeira vez que li o roteiro. Aquele Caleb era parecido comigo. Quer dizer, se eles me queriam, eles queriam que o personagem fosse parecido comigo, né?
Mas talvez Sam tenha razão. Pelo menos, quando Johnny Lancer me matar, ele não estará matando o Jake Cahill.
Mas, ao olhar para Caleb que, do reflexo, encara Rick de volta, Rick enxerga mais uma coisa. Ele enxerga um pouco do que Marvin Schwarz lhe disse ontem em seu escritório. Em dado momento, ele chamou Rick de “um ator dos tempos de Eisenhower na Hollywood de Dennis Hopper”.
Olhando para o seu reflexo, paramentado com o figurino completo de Caleb DeCoteau, ele entende com um pouco mais de clareza, e de uma forma menos defensiva, o que Marvin Schwarz estava querendo dizer. Os cabeludos estavam na moda. E aquele cara na janela, com aquele casaco com franjas, poderia ser o Michael Sarrazin. Sem o topete, Rick não apenas parece outro tipo de personagem, como também, outro tipo de ator. Ele vinha usando o cabelo do mesmo jeito havia tanto tempo que, em algum ponto do processo, ele acabou virando o topete. Mas agora? Olhando para o reflexo na janela sem ele? Ele está parecendo mais um ator que interpretou muitos caubóis nos anos 1950 e que está envelhecendo. Ele meio que parece um desses atores modernos de hoje em dia. Esse cara não é mais uma relíquia dos tempos de Eisenhower. Esse cara poderia estar em um filme do Sam Peckinpah.
Após se descolar do seu próprio reflexo na janela e das reflexões sobre sua carreira, Rick vê o Gilded Lily, o saloon que Caleb e seus homens usavam como quartel-general do bando criminoso. Quando vai se aproximando do pórtico do saloon, vê uma cadeira de diretor com o nome do seu personagem nela. Nos programas de TV, os personagens recorrentes ganham uma cadeira de diretor com o nome do ator escrita nela. Mas os atores convidados normalmente recebem cadeiras com o nome do personagem, porque é comum que sejam escolhidos poucos dias antes das gravações.
Sentada ao lado de sua cadeira vazia na plataforma de madeira que fica exatamente na frente das portas de vaivém do saloon, vestindo roupas de época, está a garotinha que ele tinha visto conversando com Sam quando chegou ao set. Ele não sabia qual era o seu nome nem lembrava o nome de seu personagem, mas ela interpretava a filha de 8 anos de idade de Murdock Lancer (de uma terceira mãe, mas essa não deu no pé na primeira chance que teve. Em vez disso, tragicamente quebrou o pescoço ao cair do lindo cavalo malhado que Murdock lhe dera de presente de aniversário de 31 anos. O mesmo cavalo malhado em que Murdock Lancer atirou duas vezes na cabeça quando voltou para casa após seu funeral.)
Mais adiante no roteiro, Caleb sequestraria a garotinha e pediria um resgate de 10 mil dólares por ela.
O sequestro da criança acabaria sendo a virada emocional da história. Apesar de Johnny Lancer ter sido trazido por seu pai ao vilarejo para defender o rancho de Caleb e de seus homens, os roteiristas do piloto tinham bolado uma reviravolta para aquele cenário corriqueiro. Em primeiro lugar, Johnny odiava o pai que não via desde os 10 anos de idade. Em segundo, num golpe de sorte desconhecido por todos os que frequentavam o rancho, Johnny Madrid e Caleb DeCoteau não apenas se conheciam, como eram amigos. E Johnny gostava muito mais de Caleb do que do pai que ele culpava pela morte da mãe. Vingar-se por ela, assassinando o pai, era um sonho que ele nutria desde que a havia enterrado dezoito anos antes, em Ensenada.
Uma vingança que Caleb DeCoteau está executando de maneira muito bem-sucedida. O que acaba colocando Johnny na posição difícil, embora muito gratificante do ponto de vista dramático, de decidir não apenas de que lado ele está, como quem ele é. Lancer ou Madrid? Quando Caleb sequestra a criança, temos aí o catalisador emocional que acaba catapultando Johnny para o lado dos mocinhos, consolidando-o como o protagonista do programa semanal de faroeste ao lado da família que ele acaba de encontrar.
Mais tarde no mesmo dia, Rick tem uma cena com a atriz mirim na qual ele negocia suas exigências com Scott Lancer, enquanto a garotinha fica sentada em seu colo com o cano do revólver encostado na cabeça. Mas é amanhã que ele e a garotinha têm sua principal cena juntos. Enquanto ele olha para a garotinha de cabelo loiro-escuro de longe, sentada em sua cadeira de diretor, lendo um pesado livro de capa preta, Rick acha que ela deve ter uns 12 anos de idade. Ela está passando o intervalo do almoço sentada sozinha no set, sem o menor sinal de um adulto para supervisioná-la ou de comida por perto. Ela não tira os olhos do livro quando ele começa a subir os degraus que levam ao pórtico do saloon. Nem depois, quando ele pigarreia e diz:
— Olá!
Ih, rapaz, pensa ele, essa megerazinha vai ser um pé no saco. Subindo muito o volume de sua voz, ele repete:
— Olá!
Tirando os olhos do livro aberto em seu colo, aparentemente chateada, ela diz “olá” para o caubói cabeludo de pé no primeiro degrau do pórtico.
Mostrando o livro de faroeste em sua mão, ele pergunta a ela:
— Você se incomoda se eu sentar ao seu lado para ler meu livro também?
Ela olha para ele sem demonstrar nenhuma emoção, com o timing de uma Bette Davis de meio metro de altura:
— Não sei. Você vai me incomodar?
Essa foi bem esperta, pensa Rick. Será que essa pirralha tem uma equipe de roteiristas escrevendo tiradas sarcásticas só pra ela usar pra responder perguntas retóricas?
— Vou evitar fazer isso — responde Rick gentilmente.
Ela solta o livro de capa preta em seu colo, o examina por um instante; depois, se vira para a cadeira vazia de diretor, a examina, e então volta a olhar para Rick.
— Aquela é a sua cadeira, não é?
— É.
— Bem, quem sou eu para dizer para você não sentar na sua cadeira?
Tirando seu chapéu de caubói e acenando graciosamente com a cabeça, Rick diz, carregando no charme:
— Mesmo assim, muitíssimo obrigado.
Ela não ri nem sorri, apenas volta a olhar para o seu material de leitura.
Foda-se essa escrotinha, pensa Rick. Então, fazendo mais barulho do que o necessário, ele sobe os degraus de madeira do pórtico com suas botas de caubói. Vai em direção à cadeira de diretor e senta-se nela, dando o leve gemido que sempre dá quando se senta em sua cadeira de diretor.
Ela o ignora.
Então, ele tira um maço todo amassado de cigarros do bolso de sua calça jeans preta, puxa um deles e enfia em sua boca, debaixo da bola de pelos grudada em seu lábio superior. Ele acende seu pirulito de câncer com o Zippo prateado à maneira escandalosa (e barulhenta) de um garanhão dos anos 1950. Quando consegue acender a ponta, ele fecha a tampa do isqueiro com o que parece ser um golpe diagonal de caratê; o metal bate no metal, produzindo um tremendo estalo.
Ela o ignora.
Ele dá uma profunda tragada em seu cigarro e enche seus pulmões de fumaça, como costumava ver o Michael Parks fazendo quando era um jovem ator. Mas, no caso deste Rick de ressaca, ao soltar a fumaça, ele tem um acesso de tosse e logo cospe mais um de seus catarros verdes misturados com vermelho, que explode, numa bolha colorida, sobre o chão de madeira.
Isso ela não ignora.
Um olhar de horror brilha no rosto da garotinha, como se Rick tivesse acabado de mijar no seu café da manhã; ela fica olhando, incrédula, tanto para Rick quanto para o catarro gosmento no chão.
OK, isso já foi um pouco demais, pensa Rick, de modo que ele se desculpa sinceramente com sua pequena coadjuvante. Ela pisca os olhos para tentar apagar a imagem de sua mente enquanto abaixa a cabeça para reencontrar o lugar em que havia parado no seu livro preto.
Para ser honesto, a verdade é que depois de ter garantido a ela que não a incomodaria durante sua leitura, Rick não fez outra coisa além disso. E ele ainda não tinha terminado. Fingindo estar lendo seu livro para tentar disfarçar um dedo enfiado no nariz para tirar uma meleca, ele pergunta casualmente:
— Você não almoça?
— Eu tenho uma cena depois do almoço — responde ela, secamente.
— Ah, é? — pergunta ele como quem diz E daí?
Agora ele finalmente prendeu sua atenção; então ela fecha o livro, acomoda-o em seu colo, e vira-se para ele para explicar sua metodologia.
— Se eu almoço antes de fazer uma cena, eu fico muito lenta. Acredito que é um dever do ator, e digo ator, não atriz, porque acho que a palavra “atriz” não faz sentido, que é um dever do ator evitar qualquer obstáculo à sua interpretação. É um dever do ator se esforçar para atingir cem por cento de eficácia. Naturalmente, nunca conseguimos chegar lá, mas essa busca é o que importa.
Rick fica olhando para ela por um ou dois segundos sem falar nada, até que finalmente diz:
— Quem é você?
— Pode me chamar de Mirabella.
— Mirabella do quê?
— Mirabella Lancer — responde ela, obviamente.
Rick gesticula para longe com a mão e pergunta:
— Não, não, não, eu quis dizer, qual é o seu nome de verdade?
Mais uma vez, ela responde como se estivesse lhe dando um tutorial:
— Quando estamos no set, prefiro ser chamada apenas pelo nome do meu personagem. Isso me ajuda a entrar na realidade da história. Eu já tentei das duas formas, e sinto que me saio um pouquinho melhor quando não saio do personagem. E, se eu posso ser um pouquinho melhor, eu quero ser um pouquinho melhor.
Rick não consegue pensar em nada para responder àquilo. Então, ele simplesmente fuma.
A garotinha que diz se chamar Mirabella Lancer olha para o caubói em sua jaqueta de couro cru com franjas de cima abaixo e lhe diz:
— Você é o bandido, Caleb DeCoteau — afirma ela, não pergunta, e pronuncia seu nome como o de Jean Cocteau.
Rick solta um pouco mais de fumaça e diz:
— Achei que a pronúncia era Caleb De-cotô.
Voltando-se para o seu livro preto, Mirabella diz, como uma espertalhona que sabe tudo:
— Tenho certeza absoluta de que a pronúncia é de-coc-tô.
Observando-a enquanto ela lê seu livro, ele pergunta, sarcástico:
— O que é tão interessante assim?
Ela tira seus olhos do livro, sem captar o sarcasmo.
— Hã?
— O que você está lendo? — pergunta Rick novamente, agora sem sarcasmo.
A menina seriíssima tem um forte pico de empolgação, e exclama, entusiasmada como uma garotinha:
— É uma biografia do Walt Disney! É fascinante — elogia ela, e, em seguida, dá sua opinião ao seu colega de profissão. — Ele é um gênio, sabe. Do tipo que surge a cada cinquenta ou cem anos, quero dizer.
Finalmente, Rick pergunta o que está louco para saber:
— Você tem o quê, 12 anos?
Ela sacode a cabeça para dizer que não. Ela está acostumada aos adultos cometendo esse erro, e adora quando isso acontece.
— Eu tenho 8.
Ela passa o livro preto sobre Walt Disney para Rick examiná-lo. Ele fica olhando para o livro, folheando suas páginas, e pergunta:
— Você entende todas essas palavras?
— Nem todas, mas na metade das vezes o contexto das frases te dá uma boa ideia do significado. E as palavras que eu não consigo entender nem assim, faço uma lista e depois pergunto pra minha mãe.
Impressionado, ao devolver o livro para a garotinha, ele diz:
— Nada mau ter seu próprio seriado aos 8 anos de idade.
Enquanto pousa o livro novamente em seu colo, ela coloca seu elogio em perspectiva:
— Lancer não é nem de longe meu seriado. É o seriado do Jim, do Wayne e do Andy. Eu sou apenas a pirralha do seriado.
Em seguida, apontando seu minúsculo indicador para o ator, ela acrescenta:
— Mas pode anotar que, um dia desses, eu vou ter a minha própria série. E quando isso acontecer, sai de baixo.
Porra, essa garotinha é inacreditável, pensa Rick. Ao longo de sua carreira, ele conheceu e trabalhou com muitos atores mirins inacreditáveis. Mas antes da Lillie Langtry aqui, o mais inacreditável que ele já tinha visto tinha sido um menino de 11 anos cujo nome ele não lembrava, mas de quem jamais se esqueceria. Um ano antes de ir parar em Lei da Recompensa, ele fora escalado para um piloto de um seriado que nunca foi adiante; seu nome era Terra do Céu Infinito. Era estrelado pelo chatíssimo ator dos anos 1950 Frank Lovejoy. Contava a história do xerife viúvo de um vilarejo (Frank Lovejoy) e sua família. Rick interpretava o filho mais velho, e ele tinha um irmão de 11 anos e uma irmã de 9. O programa acabou sendo recusado pela emissora, mas a Four Star Productions, que foi responsável pela produção, o exibiu uma vez para os seus realizadores no auditório da produtora. No dia da exibição, à qual Rick compareceu, ele se encontrou com o menino de 11 anos que interpretava seu irmãozinho no banheiro da Four Star. Rick estava se encaminhando para o mictório enquanto o garotinho terminava de lavar suas mãos na pia. Se o seriado tivesse sido aceito, e tivesse feito sucesso, os dois teriam trabalhado juntos pelos próximos cinco anos, ou mais. Rick teria acompanhado aquele menininho virar um adolescente e, quem sabe, um homem. O rapazinho teria se tornado um irmão para ele, ou apenas um colega mais novo irritante, ou, quem sabe, as duas coisas. Por conta daquela associação, talvez ficassem ligados pelo resto da vida. Ou, como de fato aconteceu, o programa não seria aceito, e aquela seria a última vez na vida que se encontrariam. Tirando seu pinto da calça e mirando na parede do mictório, Rick perguntou, por cima do ombro, como seu jovem colega estava. O pequeno ator lhe respondeu, enquanto secava raivosamente suas mãos com uma toalha de papel:
— Bom, uma coisa eu te digo, vou demitir o desgraçado do meu agente, com toda a certeza!
Enquanto Rick está se lembrando daquela criança, esta criança pergunta, referindo-se ao livro de faroeste em sua mão:
— O que você está lendo?
Rick dá de ombros e diz a ela:
— É só um faroeste.
— O que isso significa? — pergunta ela, não entendendo o aparente desdém. — É bom?
Ele responde, muito menos empolgado com seu livro do que ela estava com o dela:
— Sim, é bem bom.
Ela quer saber mais.
— Qual é a história?
— Ainda não acabei.
Jesus, pensa ela, o cara leva tudo ao pé da letra.
— Eu não quero saber a história inteira — enfatiza ela, tentando investigar por um outro ângulo: — Qual é a premissa da história?
O livro se chamava Domando um cavalo selvagem, e tinha sido escrito por Marvin H. Albert, autor de livro muito bom sobre as Guerras Apaches do qual Rick gostava, chamado A rebelião dos Apaches, que acabou virando um filme bem medíocre com o James Garner e o Sidney Poitier, chamado Duelo em Diablo Canyon. Rick, então, pensa sobre a história desse novo livro por um instante, organiza os acontecimentos na ordem certa e, por fim, começa a relatá-los para a garotinha.
— Bom, é sobre um domador de cavalos. É a história da vida desse cara. O nome dele é Tom Breezy. Mas todos o chamam de “Easy Breezy” Então, quando Easy Breezy tinha uns 20 e poucos anos, era jovem e bonito, ele domava qualquer cavalo. No passado ele… bom, ele tinha um jeito pra coisa. Entende o que eu estou querendo dizer?
— Sim, — ela responde. — Ele tinha um talento para domar cavalos.
— Isso, exatamente. Ele tinha um talento. Mas enfim, ali pelo final dos 30 e poucos, ele leva um tombo feio… Ele não fica aleijado nem nada, mas seus membros inferiores não são mais os mesmos. E agora, ao contrário do passado, ele passa boa parte dos seus dias sentindo dor…
— Puxa vida — exclama ela —, parece um bom livro.
Ele meio que concorda.
— Não é ruim.
— Em que ponto você está? — pergunta ela.
— Mais ou menos na metade.
Curiosa, ela pergunta:
— E o que está acontecendo agora com o Easy Breezy?
Rick vinha lendo livros baratos de faroeste desde os 12 anos de idade. E, desde que se tornara ator, era isso que ele fazia entre uma cena e outra, em seu trailer, enquanto esperava que o segundo assistente de direção viesse convocá-lo para o set. Às vezes ele alterna com uma história de detetive, um mistério, ou uma aventura na Segunda Guerra Mundial, mas a literatura para a qual ele sempre acaba voltando é a de faroeste. Ele sabe os nomes dos autores dos quais gosta — o já mencionado Albert, Elmore Leonard, T. V. Olsen, Ralph Hayes —, mas não se lembra dos títulos dos livros. Levando em conta o quanto costumam ser genéricos — O texano, Gringo, O fora da lei, Emboscada, Duas pistolas para o Texas —, é perfeitamente compreensível. Mas, em todos esses anos sentado nos sets lendo faroestes, embora algumas pessoas tenham perguntado o que ele estava lendo, ninguém jamais havia lhe pedido para contar a história. Apesar de Rick nunca ter pensado naquilo até então, ele agora meio que se dá conta de que ler livros de faroeste era uma das atividades mais solitárias em que ele se envolvia. Então, explicar para alguém o que está acontecendo naquele momento no livro que ele está lendo não é algo que ele está acostumado a articular.
Mas, por ela, ele dará o melhor de si.
— Bom, ele já não é mais o melhor. Na verdade, está bem longe disso. E ele está começando a aceitar… — Rick pensa na palavra certa para descrever o dilema de Easy Breezy. — Como é se tornar… hã… um pouco mais… hã…
Rick abre a boca para dizer a palavra “inútil”, mas a única coisa que sai de sua boca é um sonoro suspiro.
O suspiro pega Rick de surpresa, e chama a atenção de Mirabella. Ele abre a boca e tenta dizer “inútil” novamente, mas a palavra fica presa em sua garganta. Em sua terceira tentativa, ele consegue resmungar:
— Inútil, a cada dia que passa.
A isso se segue uma torrente de lágrimas que escapam dos olhos e descem pelo rosto peludo, fazendo ele se dobrar como um canivete.
Que beleza, pensa ele, agora estou chorando na frente de uma criança por causa da minha vida de merda? Puta que pariu, eu me transformei no meu tio Dave.
Mirabella levanta da cadeira o mais rápido que pode e se ajoelha aos pés de Rick, acariciando seu joelho direito num esforço para consolá-lo. Enxugando violentamente os olhos com a mão, numa mistura de constrangimento e autodepreciação, Rick dá uma risadinha para sinalizar que está bem.
— Rapaz... Olha, acho que estou ficando velho. Não posso mais falar sobre nada sem ficar todo emotivo, veja só.
A garotinha acha que entende, e continua a consolar o caubói chorão que, agora, aos seus olhos, começa a se parecer com o Leão Covarde.
— Está tudo bem, Caleb, está tudo bem. Parece mesmo um livro bem triste — diz ela, e, balançando a cabeça em solidariedade, acrescenta: — Pobre Easy Breezy!
Ela então dá de ombros e diz:
— Estou quase chorando também, e eu nem li!
— É, mas quando tiver 15 anos, você vai passar por isso.
Ela não entende e pergunta:
— O quê?
Ele abre um sorriso por trás do seu bigode falso e diz:
— Nada, pipoquinha, só estou brincando com você.
E então, erguendo seu livro de faroeste, ele proclama:
— E, sabe, talvez você tenha razão. Talvez esse livro seja mais pesado do que eu estava esperando.
A garotinha aperta os olhos, fica de pé novamente, e o informa:
— Eu não gosto de ser chamada de “pipoquinha” e coisas do tipo. Mas como você está desse jeito, falamos sobre isso uma outra hora.
Ele ri discretamente de si mesmo e da reação dela, enquanto ela volta a se sentar na cadeira de diretor ao seu lado. Depois que está confortavelmente sentada mais uma vez, ela olha para Rick dos pés à cabeça, em sua gloriosa jaqueta de couro cru com franjas e com o bigode falso grudado na cara.
— Então, esse é o visual de Caleb DeCoteau?
— É. O que você achou? Não gostou?
— Não, ficou muito bacana.
Ela tem razão. Não ficou tão ruim assim, pensa ele.
— Só que… eu não sei se era pro Caleb ter um visual tão bacana assim.
Puta merda, eu sabia, pensa Rick.
— Estou muito parecido com um hippie?
— Bom...
A pequena atriz o contempla.
— Eu não diria muito.
— Mas estou parecendo um hippie?
— Bem, era essa a ideia, não?
— Aparentemente — resmunga Rick, desdenhoso.
A pequena atriz faz uma avaliação mais elaborada de sua primeira impressão.
— Olha, não foi o que eu imaginei quando eu li o roteiro, mas não é uma má ideia.
Prestando ainda mais atenção no figurino de Rick, e mergulhando fundo em sua própria caracterização:
— Na verdade, quanto mais eu olho pra você, mais eu gosto.
— Sério? Por quê?
A menina de 8 anos reflete sobre o tema.
— Bem… Eu acho os hippies… meio sensuais… meio esquisitos… e meio assustadores. E sensual, esquisito e assustador é um bom conjunto de qualidades para Caleb.
Rick dá uma bufada e pensa: O que essa pirralha sabe sobre ser sensual? Mas suas palavras aplacam seu nervosismo em relação ao visual de Caleb DeCoteau.
Agora que as perguntas de Rick foram respondidas, Mirabella tem, também, algumas perguntas a fazer.
— Caleb, posso fazer uma pergunta íntima?
— Manda.
Ela faz uma pergunta ao colega cuja resposta ela sinceramente gostaria de saber:
— Como é interpretar o vilão?
— Bom, na verdade é uma coisa bem nova pra mim. Eu já tive o meu próprio seriado de caubói um dia. E, nele, eu interpretava o mocinho.
— Qual dos dois você prefere interpretar? — pergunta ela.
— O mocinho — diz ele, sem nenhuma ambiguidade.
— Mas Charles Laughton sempre dizia que os vilões eram os melhores papéis.
Claro que aquela bicha gorda diria isso, pensa Rick. Entretanto, em vez de falar sobre bichas gordas com uma garotinha, ele tentou explicar a ela por que preferia interpretar os mocinhos.
— Olha, quando eu era criança e brincava de caubói e índio, eu não fazia de conta que era um pele-vermelha. Eu era o caubói. Além disso, é o herói quem beija a mocinha, ou, no caso de um seriado de TV, a atriz convidada da semana. Os heróis fazem as cenas de amor. O mais próximo de uma cena de amor a que um vilão chega é quando ele estupra alguém. E os bandidos sempre perdem a briga para os mocinhos.
— E daí? A briga não é real.
— Sim, mas as pessoas assistem e ficam pensando que aquele cara pode me vencer.
Ela revira os olhos e diz:
— Que bom, então. Isso quer dizer que elas acreditam na história.
— É constrangedor.
Meu Deus, ela pensa, esse cara é inacreditável.
— Quantos anos você tem? — pergunta ela, irritada. — Pra pensar desse jeito você só pode ser muito velho.
— Opa, opa, calma lá. Quando alguém me pergunta qual eu prefiro, eu parto do princípio de que não existe uma resposta certa ou errada.
Isso faz sentido dentro da lógica da jovem atriz.
— Sabe do que mais, Caleb? Você tem cem por cento de razão.
Ela lhe faz um aceno com a cabeça que funciona como um agradecimento.
Então, ela o lembra de uma coisa:
— Você sabia que a nossa cena principal é amanhã?
— Sim, a nossa cena principal é amanhã mesmo, né?
— É, sim. E, nessa cena, você grita comigo, e me agarra e me assusta.
Ele a tranquiliza:
— Não precisa ficar assustada. Eu não vou te machucar.
Ela faz uma ressalva àquela afirmação.
— Bom, eu não quero mesmo que você me machuque — diz, e então olha nos olhos de Rick e aponta seu dedinho para ele. — Mas eu quero que você me assuste. Grite comigo o mais alto que puder. Me agarre com força. Me sacuda com violência. Me assuste. Não me faça agir como se eu estivesse com medo, me faça reagir. Se você fizer qualquer coisa mais branda do que isso, você estará me tratando como um bebê, e eu não gosto quando os adultos me tratam assim.
Depois de apontar intensamente aquele dedinho em sua cara, ela retorna ao seu comportamento arrogante convencional.
— Eu quero colocar no meu portfólio a cena que faremos amanhã. O único motivo pelo qual eu não coloco as cenas que eu faço no meu portfólio é porque os atores com quem eu contraceno não são bons. Não use a minha idade como desculpa para ser qualquer coisa menos do que excelente, combinado?
— Combinado.
— Promete? — insiste ela.
— Prometo — garante ele.
— Vamos dar um aperto de mãos? — sugere ela.
Tendo chegado a um entendimento, os dois atores dão um aperto de mãos.