Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Dezesseis: James Stacy
Capítulo Dezesseis
James Stacy
Jim Stacy tinha esperado pouco mais de dez anos para ter sua própria série na TV. E, agora, no primeiro dia de gravação do piloto de sua nova série, Lancer, esse momento finalmente havia chegado.
No meio da década de sessenta, ele havia estrelado dois pilotos: uma sitcom de meia hora em que interpretava um jovem pediatra, Três é Demais, que tinha Joan Blondell e um Gavin MacLeod antes de Mary Tyler Moore no elenco de apoio. E uma aventura chamada O Xerife, sobre um xerife de uma cidade de praia interpretado pelo astro do cinema mexicano Gilbert Roland e uma gangue de surfistas arruaceiros liderada por Stacy. Nenhum dos dois acabou indo ao ar. Porém Lancer, que foi produzido pela Twentieth Century Fox para a CBS, era um piloto caro que, certamente, entraria na grade de programação de outono.
O homem que agora era conhecido como James Stacy havia nascido em Los Angeles como Maurice Elias. O jogador de futebol bonitão com pinta de malandro acabou se tornando ator por conta de uma história muito similar à de diversos garotos de sua época. Maurice já era uma estrela no colégio por conta de sua aparência e desempenho esportivo. O fato de ele idolatrar James Dean (como, também, muitos dos garotos de sua época) o levou a adotar uma persona sisuda, como a de Dean, e fazer algumas aulas de teatro. E, assim como vários outros garotos e garotas que eram as pessoas mais bonitas em seus colégios, Maurice decidiu se mudar para Hollywood para tentar uma carreira como ator. Como era de Glendale, o bonitão nem precisou ir muito longe.
Maurice Elias mudou seu nome para James Stacy. O primeiro nome em homenagem a James Dean; o segundo, em homenagem ao seu tio favorito, Stacy. Ele passava gel no cabelo, usava jeans apertados, e circulava pelos arredores da farmácia Schwab, esperando ser descoberto.
Seu primeiro papel foi o de um personagem recorrente, um dos amigos de Ricky Nelson no seriado As Aventuras de Ozzie e Harriet. Durante sete anos, ele frequentava a lanchonete local junto com a turma de Ricky, comendo hambúrgueres e bebendo milk-shakes. E fazia figuração em filmes de temática militar com outros futuros astros da TV: Lutando Só pela Glória com Tom (Billy Jack) Laughlin, Clint (Rawhide) Eastwood, David (Richard Diamond) Jansen e Will (Sugarfoot) Hutchins. E em No Sul do Pacífico, também com Tom Laughlin, Doug (Overland Trail) McLure, e Ron (Tarzan) Ely.
Stacy ganhou seus primeiros papéis de verdade fazendo participações especiais em episódios de programas de TV: Paladino do Oeste, Perry Mason, Cheyenne e Hazel, a Empregada Maluca. Seu primeiro papel no cinema foi atuando ao lado de Hayley Mills, em Doce Verão dos Meus Sonhos, da Disney.
Mais tarde, ele e o filho do diretor de Lutando Só pela Glória, William Wellman Jr., estrelariam dois filmes de praia que não se passavam em praias. Em Farra no Gelo, de 1964, que se passa num resort de esqui no Lago Tahoe, Stacy troca carícias com a gatinha dos anos 1960 Beverly Adams (que, mais tarde, se casaria com Vidal Sassoon). Jim chegava até mesmo a cantar a empolgante “Hip Square Dance”, composta pelos criadores de sucessos dos Monkees, Boyce e Hart. Um ano depois, ele se juntaria novamente a “Wild Bill” Wellman Jr. em A Swingin’ Summer, que se passa no lago Arrowhead. Esse filme inclui uma boa participação dos Righteous Brothers, cantando a única música de sucesso da trilha sonora, “Justine”. Mas o verdadeiro motivo pelo qual todos lembram desse filme é por conta de uma das primeiras aparições de Raquel Welch, que rouba a cena como uma rata de biblioteca de quatro olhos que joga fora seus óculos de Buddy Holly e se transforma numa gostosona enquanto canta “I’m Ready To Groove”, acompanhada por Gary Lewis and the Playboys!
Nesse período, Stacy casou-se com uma das atrizes mais encantadoras dos anos 1960, Connie Stevens; a união durou quatro anos. Por fim, após numerosas participações especiais no final da década, Stacy embarcaria no projeto que pavimentou seu caminho rumo ao estrelato na televisão.
* * *
Na época, uma das atrações mais populares na grade de programação da CBS era Gunsmoke. Mas, no final dos anos 1960, o astro de Gunsmoke, James Arness, se esforçava para aparecer no programa o mínimo possível. Apesar de Arness estar praticamente fazendo participações especiais no seu próprio programa, o seriado era tão popular na emissora que isso nunca afetou sua audiência. Então, a CBS permitia que ele fizesse aquilo (Arness não queria sair do programa para fazer filmes; ele simplesmente não queria trabalhar). Mas isso deu à CBS a oportunidade de fazer episódios centrados em convidados especiais. E, quando a participação desses convidados em Gunsmoke tinha uma boa resposta, era bem recebida pelo público, era praticamente garantido que eles teriam um programa próprio na grade da emissora na próxima temporada.
Bom, James Stacy emplacou um dos melhores episódios da história do seriado; o que, levando em conta o fato de que Gunsmoke era um dos programas de maior qualidade de sua época, é um feito e tanto.
O episódio em que Stacy aparece, na décima terceira temporada da série, era intitulado Vingança. Fora escrito por Calvin Clements, um dos maiores roteiristas de séries de faroeste de seu tempo, e dirigido por Richard C. Sarafian, que já era um talentoso diretor de seriados de TV quando fez sua transição para o cinema, produzindo clássicos cultuados como Corrida contra o Destino e Fúria Selvagem (Barry Newman até que está bem com sua camisa branca abotoadinha e sua cabeleira volumosa no papel de Kowalski, o motorista do Dodge Challenger, em Corrida Contra o Destino, mas James Stacy teria ficado muito mais sexy e muito mais bacana do que ele nesse filme). Vingança era um episódio em duas partes que tinha como atores convidados Stacy, John Ireland, Paul Fix, Morgan Woodward, Buck Taylor (pouco antes de ele entrar para o elenco fixo como Newly O’Brien, o assistente do delegado Matt Dillon), e Kim Darby, em 1968, um ano antes de ela fazer Bravura Indômita.
Stacy interpreta Bob Johnson, que, ao lado de seu irmão mais velho, Zack (Morgan Woodward), e seu pai adotivo, Hiller (James Anderson), cavalgam sem destino trabalhando eventualmente como vaqueiros. Experientes na lida do gado, eles conhecem uma lei tácita do campo que diz que os bezerros feridos devem ser abatidos, para que não atraiam lobos para o rebanho. Então, quando se deparam com um animalzinho ferido no meio de um rebanho, os três homens fazem o que precisa ser feito, e se preparam para um jantar com filé. É aí que o pecuarista de quinta categoria Parker (John Ireland), acompanhado por seus filhos, seus peões, e o xerife que come em sua mão (Paul Fix), entra em cena. O bezerro que eles tinham encontrado era de Parker, e ele tinha sido encontrado em suas terras. Os irmãos Johnson tentam explicar a situação, mas Parker os rotula como ladrões de gado.
Eles matam Hiller, deixam Zack paralítico, e Bob, ferido e abandonado para morrer, tudo sob a supervisão oficial do xerife comprado por Parker (ecos de Consciências Mortas).
Bob sobrevive e vai com seu irmão até o vilarejo próximo de Dodge City, onde o delegado federal Matt Dillon (James Arness) é quem manda. O delegado Dillon informa os irmãos Johnson que Parker é o dono do seu próprio vilarejo, chamado Parkertown, que, supostamente, rivaliza com Dodge City. Porém, enquanto Dodge cresceu e se tornou uma referência na produção de carroças, Parkertown permaneceu um vilarejo insignificante, controlado por uma família rica, uma espécie de família Bórgia do Velho Oeste. Apesar do delegado Dillon acreditar na história dos irmãos Johnson e saber muito bem que Parker é totalmente capaz de ter feito o que eles alegam, permanece o fato de que eles estavam nas terras de Parker, e que aquele bezerro era dele. E o xerife que acompanhou a execução, embora fosse uma marionete sem vontade própria nas mãos de Parker, era a autoridade legal em Parkertown. Então, por mais injusta que fosse, a execução era legal.
O delegado Dillon aconselha Bob a ficar de molho, recuperando-se de seu ferimento, e permitir que Doc (Milburn Stone) cuide do seu irmão acamado.
Mas o que ninguém sabia, nem em Dodge e nem em Parkertown, era que Bob Johnson era rápido como um raio no gatilho. Bob era sensato o bastante para saber que não podia simplesmente matar Parker e seus filhos sem acabar sendo enforcado por isso. Mas ele também sabia que poderia atrair Leonard (Buck Taylor), o filho babaca de Parker, para um duelo, no qual poderia matá-lo legalmente. Então, Bob começa a falar mal dos Parker para todo mundo em Dodge, na tentativa de fazer com que Leonard venha até a cidade. E o plano de Bob funciona. Ao fazer um jogo psicológico com o filho idiota de Parker, ele faz com que Leonard saque sua arma contra ele no meio da cidade, durante um baile, na frente de praticamente todos os moradores de Dodge City.
E o mata legalmente com um tiro.
Naturalmente, Parker e seus homens entram cavalgando na cidade prontos para o confronto, exigindo um desagravo. Mas o delegado Dillon informa o barão do gado sedento de sangue que vento que venta lá, venta cá. Embora Dillon não pudesse, legalmente, interferir na execução por conta do roubo do bezerro, ele também não podia fazer nada em relação àquele assassinato, uma vez que Bob tinha toda a cidade como testemunha de que ele havia atirado em legítima defesa.
Mesmo assim, Dillon sabia muito bem que Bob havia orquestrado aquele incidente. E ele não gostava da ideia de um andarilho vindo até Dodge City para transformar sua rua principal em palco de matança para sua vingança pessoal. Então, ele diz a Bob que, assim que seu irmão estivesse recuperado e pudesse viajar, ele queria que os dois dessem o fora de Dodge. Infelizmente, Zack jamais deixaria Dodge. Parker envia um matador no meio da noite para assassinar o irmão acamado de Bob.
Todos sabiam que Parker era o responsável, mas provar aquilo já era outra questão.
Então, quando Vingança, Parte 1, vai chegando ao fim, vemos James Stacy cavalgando (sozinho) em direção ao chiqueiro conhecido como Parkertown para enfrentar o Parker de John Ireland e todos os seus homens.
Uau! Isso que é um gancho!
Vingança, Parte 2, também escrito por Clements e dirigido por Sarafian, começa exatamente no ponto em que a Parte 1 termina. E o que se segue é um dos tiroteios mais emocionantes da história dos programas de TV de faroeste dos anos 1960. O começo de Vingança, Parte 2, não se parece com um episódio de Gunsmoke, mas com o empolgante clímax de um excelente filme de faroeste de vingança dos anos 1970.
O que acontece? O que você acha? Bob mata cada filho da puta naquele vilarejo.
Viva! Fodam-se esses filhos da puta!
E você nem precisa esperar, a coisa simplesmente acontece — bum — bem no começo. Agora, após a abertura de Parte 2, como qualquer pessoa que conheça a estrutura de um episódio de Gunsmoke poderia lhe dizer, a emoção acaba. Porque, a partir dali, todo mundo sabe que Matt Dillon terá de matar Bob Johnson, e nós só estamos matando tempo até que isso aconteça. E então, quase no final, é exatamente isso o que acontece. Fique ligado para as cenas do emocionante próximo capítulo de Gunsmoke!
Qualquer jovem ator novato na cidade gostaria de interpretar Bob Johnson. Rick Dalton teria dado seus molares para fazer esse papel. Em vez disso, na semana em que Jim Stacy estava filmando Vingança, Rick estava de bobeira num jardim botânico, usando um chapéu de explorador e contracenando com um Ron Ely praticamente nu, no papel de Tarzan. Mas, depois que você assiste a esse episódio, é difícil imaginar qualquer outra pessoa além de Jim Stacy no papel.
Outra trama paralela nesse episódio era o romance incipiente entre Bob e uma jovem inocente de Dodge City interpretada por Kim Darby. No programa, Darby era uma garota boazinha que se apaixonava por Johnson, o malandro perturbado. E, durante as filmagens do programa, Kim Darby, a garota boazinha, apaixonou-se por Jim Stacy, o malandro perturbado. Os dois se casaram após as filmagens e se divorciaram um ano depois.
* * *
Os executivos da CBS acreditaram ter uma mina de ouro nas mãos quando escalaram Stacy para aparecer no cobiçado espaço para os atores convidados em Gunsmoke. Agora que tinham visto os resultados de sua escolha, tinham certeza disso.
CORTA PARA Jim Stacy, vestindo a camisa de babados vermelho-sangria de Johnny Lancer por baixo de um casaco curto de couro marrom, sentado numa cadeira de madeira na frente do Hotel Lancaster, no set de filmagens de faroestes da Twentieth Century Fox, no primeiro dia de gravações do piloto de sua nova série. Com as pernas cravejadas de botões prateados esticadas à sua frente, ele bebe da garrafinha verde de 7 Up.
Naquele momento, ele está levemente incomodado. O motivo é a visão do bigode de Rick Dalton. Quando ficou sabendo que Rick Dalton — Jake Cahill em pessoa — interpretaria o vilão Caleb DeCoteau no piloto de seu programa, ele ficou empolgado.
Por vários motivos. Primeiro, porque sempre gostou de Dalton. Tanto em Lei da Recompensa quanto em Os Quatorze Punhos de McClusky (ele também tinha gostado dele naquele faroeste com Ralph Meeker, cujo nome ele não conseguia lembrar).
Segundo, porque o fato de que tanto a Fox quanto a CBS estarem gastando dinheiro para que um verdadeiro astro da TV interpretasse o vilão no piloto significava que levavam o potencial do programa muito a sério. E, terceiro, por uma questão de ego: finalmente havia chegado o dia em que alguém como Rick Dalton interpretaria um bandido contra o mocinho de Jim Stacy. Aquela também era uma maneira muito dinâmica de apresentar seu personagem, Johnny Lancer. No final, quando Johnny derrotasse Caleb, ele não estaria apenas vencendo o vilão da semana. A plateia veria Johnny Lancer enfrentando Jake Cahill (um ícone dos seriados de faroeste) e triunfando sobre ele. Ele se lembra de conversar sobre aquilo com o diretor do episódio piloto, Sam Wanamaker. Para o papel de Caleb DeCoteau, havia duas possibilidades. Uma era Dalton, o ator convidado famoso. A outra era um jovem ator muito interessante chamado Joe Don Baker, que tinha interpretado um dos detentos em Rebeldia Indomável e um dos sete homens no último filme da série Sete Homens e Um Destino, com George Kennedy (Jim havia feito um teste para o papel de McQueen, mas acabou perdendo para Monte Markham). E Wanamaker gostava de Baker. Ele tinha cara de ator de cinema, e Sam gostava do seu porte físico (Baker era maior do que Stacy). Mas a ideia de trazer um conhecido caubói da TV e subverter sua imagem era deliciosa demais para Wanamaker deixá-la passar. Wanamaker não queria que o seu seriado ficasse igual a Bonanza ou Big Valley, ou a qualquer das outras dezenas de séries televisivas de faroeste dos anos 1960. Os spaghetti westerns italianos tinham introduzido um novo visual ousado que finalmente estava começando a pegar entre os seus correspondentes americanos. Claro, ainda existiam aquelas bombas dirigidas pelo Andrew McLaglen e pelo Burt Kennedy, estrelando Wayne, Stewart, Fonda, Mitchum e todos os velhotes que seguiam produzindo toneladas de filmes carregados de nostalgia para uma plateia que diminuía a olhos vistos. Mas os faroestes americanos de 1969 começaram a apresentar algo diferente. Em parte por conta do tremendo sex appeal de Eastwood nos filmes de Leone, os astros começavam a ser mais jovens. Eles se vestiam de forma muito mais extravagante do que o que se via nas vitrines da Western Costume, no Santa Monica Boulevard. E podiam ser classificados, com grande frequência, na categoria de “anti-herói”. De tal maneira que alguns dos astros mais velhos, remanescentes dos tempos de Eisenhower, começaram a modificar suas personas.
Em Meu Ódio Será sua Herança, William Holden é o líder de um bando de filhos da puta assassinos. Sua primeira fala no filme, referindo-se aos clientes inocentes do banco que estão assaltando, é: “Se eles se mexerem, atirem neles!”
Henry Fonda inicia sua interpretação em Era Uma Vez no Oeste, de Leone, atirando no rosto de um menino de 5 anos.
Atores que tinham passado suas carreiras inteiras interpretando bandidos em filmes de faroeste e praticamente todos os seriados de TV, como Lee Marvin, Charles Bronson, Lee Van Cleef e James Coburn, agora, de repente, estavam entre os heróis… e eram astros do cinema!
E os vilões desses novos faroestes não eram apenas homens maus; eram maníacos sádicos com sede de sangue. E qualquer paralelo com os assuntos mais polêmicos do noticiário político da época eram encorajados. Em O Pequeno Grande Homem e Quando É Preciso Ser Homem, criticaram a Guerra do Vietnã. Em Willie Boy, o índio de Robert Blake que foge “do cara” é, na verdade, um Pantera Negra. E quando os personagens eram mortos nesses filmes, eles não apenas colocavam as mãos sobre a barriga: faziam caretas e gemiam antes de cair lentamente no chão. Eles eram totalmente estraçalhados, e o sangue jorrava na tela. Quando Sam Peckinpah estava por trás das câmeras, esses personagens eram totalmente estraçalhados em 120 quadros por segundo, e o derramamento de sangue vermelho alcançava um grau de poesia visual que ia muito além da simples brutalidade de Don Siegel.
* * *
Naturalmente, Sam Wanamaker não conseguiria fazer muitas dessas coisas numa série televisiva que a CBS exibiria às 19h30 aos domingos. Mas ele podia fazer um esforço para ambientá-la de acordo com esse novo estilo de faroeste. E ele pretendia fazer isso de duas maneiras. A primeira era por meio do visual, especialmente em relação aos figurinos. E a segunda era com a personificação de um dos três protagonistas da série, o personagem Jonny Lancer, vulgo Johnny Madrid, interpretado por Jim Stacy. De todas as séries de faroeste exibidas pela televisão na época (e Lancer, na verdade, marcaria o fim desse período), Johnny Lancer era, sem sombra de dúvida, a coisa mais próxima de um anti-herói em todo o gênero.
Era justamente esse aspecto ambíguo do personagem que fascinava tanto Stacy quanto Wanamaker. E uma ideia que ambos tiveram para explorar esta característica do personagem era colocar um bigode na cara de Johnny Lancer. Agora, Jim Stacy queria que Johnny Lancer tivesse um bigode não somente por conta de uma preocupação relativa à integridade de sua caracterização. Um dos clichês dos seriados de faroeste dos anos 1960 era que, sempre que o elenco tinha dois protagonistas, um tinha o cabelo escuro e o outro tinha o cabelo claro. O coadjuvante de Stacy, Wayne Maunder, que interpretava seu meio-irmão, Scott Lancer, era o cara de cabelo claro. E Jim era o moreno. Mas Jim também sabia que, se ele usasse um bigode, tiraria ainda mais a atenção dos espectadores de seu colega, além de avançar nas inovações.
A emissora disse a Stacy e Wanamaker, “Valeu a tentativa, mas: nem fodendo. Se vocês quiserem colocar um bigode na cara de alguém, que seja na do vilão.”
E agora aqui estamos, no primeiro dia no set, e Rick Dalton com um visual descoladíssimo, vestindo uma jaqueta de couro cru cheia de franjas e usando um fabuloso bigodão que não permitiram que Stacy usasse nem em um milhão de anos. Aqueles babacas de merda, pensa Stacy. Eu sabia que um dia eles deixariam um idiota usar um bigode no programa; e aí todo mundo vai começar a usar bigode também. E esse idiota podia ser eu!
Mas havia mais coisas na mente acelerada de Stacy além do bigode de Rick. Na noite anterior, Jim havia repassado os diálogos para a sua grande cena com Rick, e lhe ocorreu que Dalton tinha as melhores falas. Sam tinha ficado chateado por Stacy quando a emissora cortou a ideia do bigode. Mas o diretor não conseguiu esconder sua empolgação ao ficar sabendo que escalariam Rick Dalton para interpretar Caleb.
Tanto que agora Jim acredita que não é com a apresentação de Johnny Lancer que o diretor está mais empolgado, mas com a reconstrução da persona de Rick Dalton. E é este pensamento que ele não consegue evitar, sentado em seu set, no primeiro dia de filmagens da sua série, enquanto vê Rick Dalton e o seu diretor, sentado em suas cadeiras, rindo e conversando como se esse fosse o quinto filme que faziam juntos. Que merda é essa que está rolando entre os dois?, se pergunta Stacy enquanto bebe seu refrigerante.
* * *
Justamente nesse momento, Trudi Frazer, a atriz mirim que faz sua meia-irmã, Mirabella Lancer, vem saltitando na direção de Jim e pula em seu colo.
— O que é que há, velhinho? — pergunta ela.
Trudi percebe que ele está olhando na direção do ator que interpreta Caleb e do diretor, Sam, sentados em suas cadeiras, batendo um papo animado.
— Avaliando a concorrência? — pergunta ela, atrevida.
Desviando o olhar abruptamente, Jim se volta para a garotinha em seu colo e diz:
— O que é que há, baixinha?
— Bom — observa ela —, eu percebi que você estava todo incomodado com o Caleb lá do outro lado do set; então, achei que seria uma boa vir até aqui te dar um carinho.
Ele não se justifica para a criança, dizendo que não está incomodado com o seu antagonista dramático. Em vez disso, confessa:
— Não acredito que enfiaram um maldito bigode na cara dele. Eu queria que o Johnny Madrid usasse bigode, mas esses merdas da emissora que não sabem de nada não toparam.
Ela pergunta a Jim:
— Você conheceu o ator que vai interpretar Caleb?
— Ainda não.
— Bom — diz ela, apontando seu braço para o ator com a cara peluda —, ele está bem ali. O que você está esperando? O programa é seu. Ele é seu convidado. Vá até lá se apresentar e dar as boas-vindas.
— Eu já vou, querida. Ele está conversando com o Sam agora.
Ela balança a cabeça de um lado para o outro como quem solta um muxoxo e em seguida murmura, baixinho:
— Desculpas, desculpas, desculpas.
— Ei, baixinha, eu vou lá — diz ele, começando a ficar irritado. — Para de pegar no meu pé.
Trudi levanta as mãos.
— OK, OK, OK — diz ela. — O programa é seu, você sabe o que está fazendo. Sem pressa.
Jim Stacy bufa e dá um gole na garrafinha verde de 7 Up.
Trudi se mexe em seu colo e pergunta:
— Você conhece o trabalho de Caleb como ator?
— Como ator? — repete ele. — Claro que eu conheço o…
Ela o interrompe rapidamente.
— Não fala o nome dele de verdade. Eu quero que ele seja apenas Caleb para mim!
— Bem, nesse caso, Caleb tinha o seu próprio seriado de caubói uns seis anos atrás.
Trudi pergunta a Jim Stacy com sinceridade:
— E ele era bom?
Jim olha para Rick Dalton, que está muito bacana, e muito diferente em seu figurino de Caleb, com o bigode que ele queria usar, se dando muito bem com o seu diretor, e diz, mais para si mesmo do que para ela:
— Não era ruim.
* * *
Rick Dalton, sentado na sombra em sua cadeira de diretor, vestindo seu figurino de Caleb, lê seu livro, Domando um cavalo selvagem. Enquanto mata o tempo até a sua primeira cena importante (o primeiro assistente de direção disse a ele que provavelmente a fariam dentro de uma hora e meia), ele leva o livro muito mais a sério do que antes de seu encontro emotivo com a atriz mirim. A garotinha estava certa, o livro era bom pra cacete. E Tom “Easy” Breezy era um personagem bom pra cacete. Talvez fosse uma boa ideia tentar comprar os direitos para transformá-lo num filme, com Rick no papel de Easy Breezy. Quem sabe ele convencesse Paul Wendkos a dirigi-lo.
Sua primeira cena do dia é, também, sua primeira aparição na história. E é uma cena de introdução muito bacana. Antes de conhecermos seu personagem, vários outros falam sobre ele. E isso vai aumentando as expectativas para o momento em que o personagem é finalmente revelado para os espectadores. Se estivessem gravando um filme, Rick teria exigido que essa cena não fosse filmada na porra do primeiro dia! Mas aquilo era TV, e na TV eles não filmam um roteiro, filmam um cronograma. E, se fizer sentido filmar a sua cena principal no primeiro dia, talvez até mesmo na primeira hora da manhã, é isso o que eles farão. Nessa cena ele está com outros dois atores, James Stacy, que interpreta o protagonista da série, Johnny Lancer, e Bruce Dern, interpretando seu capanga Bob “Homem de Negócios” Gilbert. Rick conhecia Bruce havia alguns anos (todo mundo conhecia o maldito Bruce Dern). E Rick conhecia o coprotagonista Wayne Maunder dos tempos em que ele estrelava seu outro programa, no qual interpretava Custer. Rick nunca participou, mas seu amigo Ralph Meeker, sim. E, uma noite, quando Dalton e Meeker bebiam no Riverbottom Bar and Grill (do outro lado da rua, em frente à Burbank Studios), Maunder se juntou a eles para tomar uns drinques. Rick e Wayne não tinham mais se visto desde aquela noite, de modo que trocaram olás e Wayne lhe deu as boas-vindas ao programa. Assim como Andrew Duggan, que fazia o patriarca, Murdock Lancer (Duggan tinha aparecido duas vezes em Lei da Recompensa). Assim que Dalton saiu do trailer de maquiagem, ele e Duggan fumaram alguns cigarros e colocaram o papo em dia. Dalton parabenizou Duggan pelo que parecia ser uma nova série de sucesso. Mas Rick Dalton ainda não havia sido oficialmente apresentado a seu antagonista, James Stacy.
Ele o havia visto mais cedo, mas a etiqueta do set ditava que quando um ator conhecido — especialmente um que havia tido o seu próprio seriado de sucesso — era convidado de um programa, era obrigação do protagonista da série abordar o visitante e agradecê-lo por participar do episódio.
Exatamente como Rick tinha feito quando Darren McGavin participou de Lei da Recompensa, e também Edward G. Robinson, Howard Duff, Rory Calhoun, Louis Hayward, e até mesmo Doug Fairbanks Jr. Tinha sido Rick o responsável por dar as boas-vindas a todos e agradecê-los por sua contribuição. Mas, às duas horas da tarde, Jim Stacy ainda não havia nem se apresentado a Rick, e nem lhe dado as boas-vindas. Van Williams tinha feito isso em O Besouro Verde. Ron Ely, em Tarzan. Gary Conway, em Terra de Gigantes. Efrem Zimbalist Jr., em FBI. Mas aquele pau no cu do Scott Brown, do Bingo Martin, não. Se você fosse importante e o protagonista da série não se apresentasse a você antes de estarem os dois diante da câmera, é como se praticamente ele dissesse a você, na frente de toda a equipe: Vai se foder!
Os dois homens já estavam no set havia tempo suficiente para que Jim tivesse se apresentado. Mas Dalton estava disposto a dar uma colher de chá a Stacy. Aquele era o primeiro dia de sua primeira série. Talvez ele estivesse nervoso de verdade. Porém, se ele não botasse sua cabeça no lugar rapidinho, ele teria um inimigo para o resto de sua vida.
Mas Rick não precisou esperar por muito mais tempo. Enquanto lia seu livro, ele viu, por cima das páginas, o novato arrogante do momento, em sua camisa de babados vermelha e jeans preto com botões prateados descendo pelas pernas, atravessando o cenário empoeirado de faroestes da Twentieth Century Fox, vindo em sua direção.
Porra, já não era sem tempo, pensa Rick. O ator age como se não tivesse visto Jim se aproximando, e continua lendo seu livro.
Quando o belíssimo protagonista da série para ao lado da cadeira de Rick, ele diz seu nome com um ponto de interrogação no final.
— Rick Dalton?
Rick tira os olhos do livro de faroeste, colocando o volume em seu colo.
— Pode apostar — responde ele.
Jim Stacy estende a mão e diz:
— Jim Stacy. Bem-vindo a bordo do meu programa.
Rick sorri e aperta a mão do novato arrogante.
— Nós estamos muito felizes de ter um profissional como você fazendo o vilão no piloto. Eu só queria que você soubesse que sou um grande fã de Lei da Recompensa. Aquele programa era muito bom, e você deveria se orgulhar dele.
— Puxa, obrigado, Jim — respondeu Rick. — Era bom mesmo, e eu me orgulho dele.
— E preciso dizer — continua Jim Stacy —, que quase me juntei a você em Os Quatorze Punhos de McCluskey.
— Não brinca? — indaga Rick.
— Sério — diz Stacy. — Eu ia fazer o papel do Kaz Garas. Quer dizer, eu não tinha a menor chance contra ele. Ele já tinha feito um filme do Henry Hathaway àquela altura, mas eu queria muito aquele papel.
Boa-praça, Dalton responde com:
— Bom, deixa eu te dizer que eu consegui meu papel por pura sorte. Até duas semanas antes do início das filmagens, meu papel era do Fabian. Daí, ele quebrou o ombro fazendo um episódio d’O Homem da Virgínia, e foi assim que eu consegui. Paul Wendkos, o diretor, tinha trabalhado comigo no começo da minha carreira, e também em alguns episódios de Lei da Recompensa; então, ele sugeriu meu nome para a Columbia.
Jim Stacy se senta na cadeira vazia ao lado de Rick, que estava, anteriormente, ocupada por Sam, inclina-se na direção do astro de Lei da Recompensa, e pergunta, num tom confidencial:
— Rick, preciso te perguntar uma coisa que eu ouvi falar por aí. É verdade que você quase conseguiu o papel do McQueen em Fugindo do Inferno?
Puta merda, pensa Rick, lá vamos nós outra vez. O mesmo novato arrogante imbecil fazendo a mesma pergunta passiva-agressiva imbecil.
Rick se lembra da vez em que estava sentado no set de O Besouro Verde, quando o protagonista da série, Van Williams, vestindo a fantasia completa de seu personagem, perguntou sobre esse mesmo boato. Ou Ron Ely, praticamente nu com sua minúscula tanga de Tarzan. E, em nenhum desses dois casos, eram bons atores o suficiente para esconder a pena no olhar.
Rick dá a Jim Stacy a versão curta da resposta à pergunta que Marvin Schwarz lhe havia feito no dia anterior.
— Eu não fiz teste, não tive reunião, nunca conheci John Sturges. Então, não acho que dá pra dizer que eu quase peguei o papel…
Rick para de falar; porém, um “mas” implícito fica pairando no ar, e Stacy diz:
— Mas...?
Relutante, Rick continua:
— Mas… reza a lenda… que, por um breve momento, McQueen quase recusou o convite. E, durante esse breve momento, eu, aparentemente, era um dos quatro nomes de uma lista.
Stacy levanta as sobrancelhas e se aproxima ainda mais.
— Você e mais quem?
— Eu e os três Georges: Peppard, Maharis e Chakiris.
Stacy se contorce de dor e, instintivamente, dá um tapa no ombro de Rick, dizendo:
— Puta merda, isso deve doer. Mas com essas três bichonas, você, com certeza, teria conseguido. Quer dizer, com o Paul Newman talvez não, mas com esses merdas desses Georges?
Aborrecido, Rick responde rapidamente:
— Bom, eu não consegui. McQueen conseguiu, e, sinceramente…. Eu nunca tive a menor chance.
Stacy ri e faz que sim, mas em seguida diz:
— Mesmo assim…
Stacy faz um gesto como se estivesse enfiando uma faca em seu coração e depois girando a lâmina.
Rick olha para o babaca sorridente sentado ao seu lado por um ou dois segundos, e então pergunta:
— Ei, Jim, eu estava aqui pensando… O que você achou do meu bigode?