Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 7 de 31

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Erário mineral

II - Dos critérios de normalização editorial e modernização da linguagem

Dos critérios de normalização

editorial e modernização da

linguagem

 

Bruno Flávio Lontra Fagundes; Eliane Scotti Muzzi

 

Da partição do Erário Mineral em dois volumes

A partição do livro Erário Mineral em dois volumes é um critério de publicação adotado pela Fundação João Pinheiro e não corresponde ao original. Obedeceu a um princípio de comodidade. Enfeixado em dois volumes, ficam facilitados o uso e o manuseio do livro para o leitor.

 

Do plano gráfico

Notas de rodapé foram utilizadas para comentários sobre prováveis lapsos e contradições cometidos pelo autor e para esclarecimentos sobre a adoção eventual de procedimentos divergentes das normas gerais adotadas na modernização do texto do documento, como é o caso de algumas intervenções particulares no texto poético.

Obedecendo ao layout gráfico do documento, os índices existentes foram conservados conforme a publicação utilizada. A edição, no entanto, como não poderia deixar de ser, refez os números das páginas anotadas nos índices, sem sinalizar essa mudança. Os números de página estão conforme a repaginação sofrida pelo documento nesta nova edição.

As chamadas de assunto laterais estão conforme o documento, conservadas rigorosamente nas passagens do texto a que se referem.

Um glossário de termos médicos, de ervas e plantas e de substantivos e adjetivos completa esta edição.

 

A modernização do texto poético

Como regra geral, foi adotado procedimento comum de modernização da linguagem no texto poético e no texto em prosa. Não houve ênfase filológica nas intervenções lingüísticas efetuadas, tendo sido o documento percebido mais como informação de uma realidade social de que procura tratar o seu texto. Tal critério de modernização combinou-se, porém, com a manutenção de particularidades lingüísticas e estilísticas, que, realçadas, atestam o caráter de testemunho de época do documento. Na modernização dos poemas, algumas particularidades lingüísticas foram conservadas em razão de nuances ortográficas e fonéticas, sem as quais os textos perderiam a expressividade de que são portadores.

No tratamento lingüístico dos poemas, as normas de modernização submeteram-se - além dos critérios gerais e eventualmente contra eles - a outro tipo de exigência, de ordem formal e estilística, o que determinou, algumas vezes, a manutenção de arcaísmos. É o caso de arcaísmos como pírola, índice da inserção do texto na língua do século XVIII e na estética barroca, assim como Uentages e Iulgando, que, por razões lógicas, foram conservados, uma vez que o acróstico de que fazem parte se tornaria ilegível sem a presença deles.

 

A modernização do texto em prosa

Na modernização da linguagem do texto em prosa, os critérios adotados conceberam-no como atestado das formulações discursivas com que um saber médico se exprimia na realidade social do século XVIII na região das Minas, independentemente do valor de monumento de época que o livro e a grafia antiga do Erário Mineral podem ostentar para os leitores de hoje.

A linguagem está modernizada visando a uma leitura do texto sem tropeços por parte do leitor de agora. Palavras como huma, sahe, mãy, leytor, officina, villa e tantas outras foram atualizadas. Palavras ainda hoje existentes no léxico da língua portuguesa, mas de conotação arcaica, também sofreram processo de atualização, como mui, cousa, dous, doudo e outras.

Em notas de rodapé, ao longo do documento, foi anotada a modificação evolutiva de algumas palavras, de cujas características ortográficas e fonéticas vigentes no século XVIII mineiro se distanciou a grafia atual e cuja atualização não suscita dúvidas, tais como paralisia, por parlesia e pílula, por piróla, dentre algumas outras. As notas de rodapé trazem ainda comentários sobre construções vocabulares expressivas de que faz uso o autor.

As construções sintáticas foram preservadas sempre em função da clareza dos enunciados. A pontuação, quando necessário, foi refeita; foram respeitadas as regências verbal e nominal de época, assim como contrações de preposição e artigos. Esse procedimento preserva, sem detrimento de uma leitura atual, as características gramaticais formais do texto relacionadas a uma escrita que, a rigor, além de não científica, em muitos momentos se aproxima de relatos orais, dos quais o autor lança mão para discursar sobre a adaptação da medicina a uma realidade empírica nova.

Alguns conjuntos de palavras foram mantidos com suas iniciais maiúsculas, conforme o texto: nomes de instituições políticas, médicas e religiosas, nomes de santos e congêneres, antropônimos e topônimos.

As palavras Medicina e Cirurgia foram conservadas com as iniciais maiúsculas. Esse procedimento preserva o realce que o autor mesmo fazia do saber médico da época e sua inserção social. Os médicos e cirurgiões relacionavam entre si como portadores de saberes ainda não totalmente distintos, além de lidarem com práticas autóctones de cura que nem sempre reconheciam e com as quais muitas vezes se espantavam, embora eventualmente tivessem de aceitar seus resultados eficazes.

As maiúsculas mantidas das palavras Medicina e Cirurgia auxiliam o leitor a localizar as passagens do texto em que se insinua a disputa e o intercâmbio entre os dois saberes e as práticas de cura adotadas pela gente das Minas.

As iniciais maiúsculas foram mantidas para os nomes das vilas, das cidades, dos sítios e das paragens citados, os topônimos, tais como Vila do Carmo, Vila Real do Sabará, Cidade da Bahia, Cidade do Porto, etc.

Instituições políticas e ordens religiosas mantiveram as iniciais maiúsculas, tais como Ordem de São Bernardo, Ordem de Santiago, Câmara Real, Hospital Real, etc.

A palavra Minas/minas oscila entre a inicial maiúscula e a minúscula. Alguns enunciados são dúbios, por não se poder saber se se trata do território ou das escavações minerais. A palavra Minas do Ouro está maiúscula, pois é termo com que era referida a região mineradora colonial.

Os nomes de lugares, territórios e nações que aparecem, normalmente, como segundo termo de palavras compostas de ervas e remédios não foram ligados por hífen e, assim isolados, foram mantidas as suas iniciais maiúsculas. Dessa forma, segundo esse critério, e não obstante hoje terem se tornado substantivos comuns, foram mantidas grafias como aguardente do Reino, goma Arábia, salitre da Índia, banana de São Tomé, mal de Luanda, raiz da China, etc. Esse procedimento preserva o significado das palavras como expressão da origem e procedência das coisas, procedimento fundamental para exprimir a intenção do autor de revelar que o saber médico e sua execução deviam sempre variar conforme os recursos naturais e humanos dos lugares em que se praticava a medicina. A manutenção dessas palavras com iniciais maiúsculas revela que o autor fazia questão de assinalar que as palavras e as coisas tinham uma pátria, um lugar que demarcava a necessidade de a Medicina estar se adaptando sempre àqueles lugares em que era exercida.

A grafia de antropônimos foi modernizada segundo as regras gramaticais ortográficas hoje vigentes, como Luís, Sousa, Manuel, etc.

Foram realçadas em itálico palavras e expressões latinas - Recipe, noli me tangere etc. - e nomes de obras e tratados médicos citados -Polianthea Medicinal, etc. O procedimento de realçar em itálico nomes de médicos e suas obras e tratados visa facilitar ao leitor a visualização de trechos em que se apresenta o debate da época sobre os procedimentos de cura de doenças e moléstias que atacavam a humanidade e já então compendiadas. Em muitas passagens do texto, o autor justifica seus argumentos no interior dos debates e das polêmicas médicas existentes à época e informa ao leitor os diversos posicionamentos de médicos nas polêmicas da época. O recurso ao itálico facilita ao leitor encontrar os momentos no texto em que o autor, ora discordando, ora concordando, recoloca a discussão das idéias vigentes e tenta justificar os procedimentos que adota na cura dos seus pacientes mineiros do século XVIII.

Pelo recurso do hífen foi modernizada a grafia de diversos substantivos comuns, hoje dicionarizados, com destaque para nomes de ervas, animais e males da saúde, tais como mosca-varejeira, fumo-bravo, erva-doce, pau-santo, gota-serena, gota-coral, etc. O procedimento da hifenização seguiu as regras gramaticais e modernizou as palavras conforme os dicionários atuais.

Palavras com dupla grafia, e que ainda hoje permanecem dicionarizadas, foram mantidas nas formas em que aparecem no texto, tais como bêbedo/ bêbado, costumar/acostumar, limpar/alimpar, etc., assim como palavras que ora aparecem traduzidas, ora não, como é o caso de cremor tartari/cremor tartáreo.

 

Do glossário Um glossário de termos médicos, de ervas e plantas e de substantivos e adjetivos, e outro de nomes de médicos/cirugiões completam esta edição. Em sua maioria, a grafia das palavras foi atualizada, principalmente quando evoluíram para formas ortográficas hoje vigentes. Foram mantidos, no entanto, termos e palavras que desapareceram do léxico da língua portuguesa. Essas palavras estão no glossário, onde podem ser encontradas na sua grafia de época: os arcaísmos vocabulares. Ao glossário também foram remetidas palavras que, embora grafadas como na língua de agora, possuía então significados diferentes: os arcaísmos semânticos.

Utilizou-se o recurso do asterisco a título de remissivas para fazer assinalar termos que se encontram no próprio glossário, com o fim de auxiliar, ampliar ou completar a significação dos termos e palavras.

O glossário de substantivos e adjetivos privilegia todas aquelas palavras que, sendo da linguagem prosaica e coloquial e originalmente não pertencentes a um vocabulário médico como entendemos hoje, exprimem o processo de apropriação necessária que o saber médico fazia de termos que descreviam coisas e seres alheios à medicina e que faziam parte da realidade mineira do século XVIII. Esse procedimento, ao destacar do texto palavras e termos, tais como cova do ladrão, cavalo, mula, madre, goma, cana, chaminé, lagarto, etc, revela não só a inserção social da medicina na colônia mineira e sua interação com o meio em que era exercida, mas demonstra, também, o modo próprio como a medicina associava os recursos lingüísticos existentes no território mineiro e a linguagem médica, que necessitava daqueles recursos, sem os quais não se exprimiria.

Nomes de ervas e plantas medicinais e de termos de medicina, cirurgia e farmácia assinalados no glossário atendem a uma expectativa mediana do leitor. Alguns nomes e termos devem ser consultados em dicionários e compêndios específicos, ou porque ausentes do glossário, ou porque o verbete que os descreve suscita no leitor maiores informações. Num documento como o Erário Mineral, a seleção de nomes principais de ervas e plantas, assim como de termos médicos, é imprescindível, seleção sem a qual o editor estaria obrigado a escrever outro livro que contivesse rigorosamente todos os nomes e termos arrolados em profusão no texto.