Erário mineral
3. Poemas ludatórios: ao Erario Mineral, que compos o senhor Luís Gomes Ferreira
Ao Erário Mineral, que compôs o
senhor Luís Gomes Ferreira.
Romance heróico por um seu amigo.
Doutor Ferreira, cujo raro engenho,
Fatigando do prelo a dura estampa
Imortal substitui ao vosso nome,
Quantas as letras, tantas as estátuas.
Sem dúvida, ao sair à luz do mundo
Este tomo de normas soberanas,
Se verá com sutil metamorfose
Ser o pasmo clarim, Argos a fama.
Quem vos não louvará, vendo que douto
A Medicina dais regras tão sábias?
Como se esta ciência peregrina
Infusa dentro em vós se procriara?
Quem vos não louvará, outra vez digo,
Vendo que desta América tão vasta
Com novos aforismos, mais Galeno,
Mestre vos hão de ouvir de Europa as aulas?
Quatro lustros, com célebre fadiga,
Da natureza investigando as causas,
Escrevendo formastes doutamente
Dos troncos pena, se papel das ramas.
Lestes com hipocrática viveza
Nas numerosas folhas dessas plantas
Um verdadeiro antídoto, que possa
Cortar da escura morte as negras asas.
Quem duvida que, quando de Aqueronte
O comércio impedis da imunda barca,
Nunca esquecido do imortal aplauso
Do Letes passareis as claras águas?
Da silvestre campanha à intonsa mata,
Que a vil Loto, mudando a natureza,
Consagre ao vosso nome só lembranças.
Nunca serão do tempo maltratados
Esses tratados,que o aplauso aclama,
Mas antes brilharão com cores vivas,
Retratados em lâminas de prata.
Doze tratados dais tão bem compostos
Que bem mostrais com agudezas altas,
Que se doze no céu signos rutilam,
Que signos também há na vossa lavra.
Doze muralhas são, belas e fortes,
Com que cercais da vida a inerme praça,
Que sem receio viverá segura
Das três esquadras das soberbas Parcas.
Pois no profundo mineral tesouro,
Que descobris nas terras da observância,
Dais para a humana vida mais riqueza,
Do que essa, que a ambição nas Minas cava.
Um precioso metal, mina abundante,
Em cada folha desse livro se acha,
Com que hoje enriqueceis a natureza
da ambiciosa vida desejada.
Em cada letra um pomo de ouro vejo,
Que, Hipomenes de idéia mais preclara,
Lançais, porque não fique vencedora
Da escura morte a mísera Atalanta.
Qual outro Alcides, esse vosso livro
Da Hespéride o dragão devora e mata,
Porque colher se possa o áureo pomo,
Que a terra em seus arcanos ocultava.
Se de Plutão no campo verde-negro
Uma árvore de ouro o Estígio lava,
Donde por mais que a rama se lhe tire,
A natureza faz com que outra nasça.
Quem duvida também, Ferreira insigne,
Que a ela o vosso livro se equipara?
Porque sempre imortal, sempre fecundo,
Por mais ouro que dê, nunca se gasta.
O mais sublime trópico da idéia,
Essa mina influiu em cópia tanta,
Que subindo ao quilate mais supremo,
De vinte e quatro o seu valor se exalta.
Já vejo que desse ouro o mais subido
Que o vosso mineral hoje derrama,
Artífice o aplauso ao vosso nome
Trombetas forja, se memória frágua.
E se a influxo de Délio nasce o ouro,
E o mesmo Délio a Medicina ampara,
Em vosso livro uniu o Deus de Delfos
De metal e ciência as glórias ambas.
Como filho de Sol (não Faetonte)
Mas Esculápio sim do novo mapa,
Em ouro transformais a Medicina,
Por que a pírola1 seja mais dourada.
À sombra já das folhas desse livro,
A saúde se vê refugiada,
Porquanto à delinqüente, frágil vida
Mil cartas de seguro o livro passa.
Só vós agora, ó ínclito Ferreira,
Mostrastes com ciência aventajada
Que a delícia do ameno paraíso
No américo terreno se retrata.
Pois no livro, que ao prelo dais facundo,
Se vê com sutileza sempre grata,
Que essa árvore da vida apetecida
Se admira em cada página estampada.
Mas que muito, se quando especulastes,
Qual outro Plínio, a natureza vária,
A árvore da ciência em vós primeiro
Floresceu em purpúreas madrugadas.
Mas já, Ferreira insigne, é bem que ponha
Aos curtos elogios termo e pausa;
Quando a fama suspensa nesta empresa
Retórica emudece, e muda canta.
Em louvor do Senhor Luís Gomes
Ferreira, autor do livro discreto e
proveitoso Erário Mineral
Por Tomás Pinto Brandão
Décima
Se a quem cava nas areias
Que cria o planeta louro
O descobrir veias de ouro
Lhe custa o sangue das veias,
Hoje nas vossas idéias,
Discreto Ferreira, estude,
Que minas de ouro e virtude
Cavará com pouca lida,
Onde não só busque a vida,
Mas também ache a saúde.
Outra do mesmo
Pois, douto Luís, nos dais
Folhas de ouro em medicina,
O vosso livro é uma mina,
Que aberta ao prelo mostrais;
A todo o pobre sarais,
Que mais desse ouro faminto
Andava, e segundo eu sinto,
Talvez sendo ouro de lei,
Que não pagueis quinto ao rei,
E antes vos pague o rei quinto.
Ao autor, em aplauso do seu Erário
De Tomás Barroso Tinoco
Assustando as esferas de diamante,
Liberal tu só nos dás minas de ouro,
Usurpando do mesmo o luzimento,
Intimando ao mundo ser novo sol.
Sabiamente e com engenho nos descreves
Grande antídoto no teu novo Erário,
Ostentando nele o quanto pudeste
Marte submeter ao teu domínio.
Em as elegâncias que nos dispensas,
Sujeita já te fica a etérea Pito
Facundos elogios conservando
Em a mortal vida imortal fama.
Raios não vibra Júpiter sentido,
Repete sim, no ardor de seu tesouro,
Entre incêndios da dor, cinzas caducas.
Imortal na fama, tu, com teu engenho,
Repartes ao mundo novo tesouro
Adornado com um novo diadema
De pérolas e ouro de tua mina
Aumentando ao mundo com tal riqueza.
Nas cinzas de um Fênix abrasado,
Desperta novo Fênix ultrajando
Os mais altos vôos de uma águia
Alcançando dela mesma o valimento.
Luís, como Fênix, também descobre
Uentages postas em caducas cinzas,
Sendo novo Fênix já renascido,
Ostentando mais que a águia o subir alto.
Em louvores a fama te publica,
Reclamando com vozes do seu clarim
As suaves harmonias do teu nome,
Rasgando os ares com mil clamores,
Iulgando seres Fênix, que traspassas
Os antecipados vôos de tal águia.
Do Mesmo
Soneto
Nas Minas, em que por ouro e diamantes
Provida tem mostrado a natureza
O quanto de seus montes a rudeza
Cerrava de tesouros abundantes,
Com notas descobriste vigilantes
De forte observação, rara agudeza,
Erário Mineral, cuja riqueza
Dá remédios à vida relevantes.
Daqueles se sustenta a mesma vida
Com asseio, com pompa e majestade,
Deste porém se faz já mais crescida:
Mas se de ouro se alenta a qualidade
Neste Erário tem para mais cumprida
Uma quase segura eternidade.
************
Suspende, ó Parca, já, suspende o corte,
Com que tantos triunfos roubar lidas;
Olha, que o braço estende a mil vidas
Luís Gomes Ferreira, alento forte.
Consente um pouco que o melhor Mavorte
Veja de louro as fontes mais cingidas,
Pois não dá as vitórias por perdidas
No destroço de tua cruel sorte.
Mas não te movas, não, desse teu mundo
Porque seus troféus com a fama tão segura
Com o clarim nos ares lhe retundo:
Não chores do Brasil, ó novo mundo,
Que a Parca te prepare a sepultura,
Pois que tens em Luís um sem segundo.
[Ejusdem]
Quod longinqua tegit tenebrarum in nocte vetustas,
Detegit ingenii vena opulenta tui:
Qui latuere diu morbi, et medicamina quondam
Nominis orba sui, nomen habere facis.
Quidquid adhuc picea in caligine merserat artes
Quidquid morborum vasta ruina premit,
Tu calamo ilustras, caecus nunc exulat error,
Et veri facies semisepulta viget.
Mundi opifex multum tibi dat de luce; gubernat
Ille diem; noctem sed tamen ipse regis.
Orbis sic duplici fulgebit lumine: mundo
Dat Deus hanc lucem; mortibus ipse dabis.
Pristina complures viderunt faecula doctos
Sed tibi consimilem faecula nulla dabunt
SONETO
De um seu amigo
A Hipócrates, Galeno e Avicena,
Nas três partes do mundo canta a fama
Igualando os ternários; porém clama
Não ter para a nova parte nova pena.
Se aí a lusa nação mortes ordena,
Cujo triunfo a gritos esta aclama,
Compassiva a dar a vida a Luís chama,
E a desterros a morte já condena.
Porém, se aos três Atlantes do universo
Por coroas corta a fama verde louro,
Ao quarto as compõem de melhor preço:
Pois erigindo-lhe jaspes sem desdouro,
Ao quarto levanta com excesso
Diademas de diamante, estátuas de ouro.
Do mesmo
Novo achado, ó novo Lusitano,
Novamente achais no novo mundo,
Onde só se acha um buscar profundo,
É tal o achado raro, e soberano.
Mais que Chirurgo, ainda mais ufano
Em novos dogmas, alto, douto e fundo,
No vosso Erário, que enriquece o mundo
Valeis mais que um mundo americano:
Diamantes, esmeraldas, fino ouro
Com mão larga produz lá nessa parte
O deus, de que são parto rico e louro;
Do mesmo Deus produto a vossa arte
Mais inclui em si melhor tesouro,
Pois por riquezas saúde nos reparte.
Do mesmo
Deixais aos mais autores eclipsados,
E a mesma arte pondes mais luzida;
É a matéria deles dela traduzida,
Por ver são vossos remédios inventados.
Os seus estavam já quase avassalados
De Libitina e Loto homicida;
A uma e outra pondes em fugida,
E os pendões da saúde levantados.
Mas se quase perigando a Medicina,
Para crédito seu destina a sorte
Vossa experiência douta e peregrina,
Não tememos da Parca o duro corte,
Porque o vosso Erário nos destina
Muros para desprezar golpes da morte.
Do mesmo
Tanto a todos te vejo aventajado
Nesse livro, ou mais próprio céu aberto,
Em que por cada signo descoberto
De várias complexões é um tratado;
Que hás a ti mesmo nele levantado
Estátua perdurável, sendo certo
De teus novos remédios o concerto
Muito mais é que o novo mundo achado.
A Américo que lá na quarta parte
Tão rica nos descobre tal porção,
Ó Ferreira, não posso comparar-te:
Do que aquele descobre, és conservação,
E a que conserva é mais nobre arte
Que a arte que acha, sem comparação.
De João Bernardes
soneto
É no mundo, Luís, bem decantado,
O que o sábio nos diz, como entendido,
Que debaixo do Sol, astro luzido,
Novidade nenhuma tenha encontrado;
Mas este vosso livro tem mostrado,
O que com todos tenho conhecido,
Que o nome de mui novo há merecido
Com tanta novidade este tratado;
É se alguém duvidar da habilidade
E de ser tudo novo o que dissestes,
Fundado na sentença ser verdade,
Confesse vendo o livro que escrevestes,
Que ou debaixo do Sol há novidade,
Ou que em cima do Sol vós o fizestes.
Do mesmo
Décima
Causais no livro famoso
Dous motivos diferentes,
Um gostoso aos viventes,
Outro à morte mui penoso:
Para os que vivem gostoso,
Quando para essa homicida
Amargura conhecida,
Ficando assim desta sorte
Com grande tristeza a morte,
Com muita alegria a vida.
Nomes coletivos são
Aqueles em que se vê
O singular, ainda que
Signifiquem multidão:
Logo com muita razão
Os vossos doze tratados
Por singulares chamados
Devem ser por muitos modos,
Sendo singulares todos
Ainda que multiplicados.
Tendes, Luís, conseguido,
O que nenhum alcançado,
Pois fazeis não ser lembrado,
Nenhum dos que têm havido:
O vosso livro entendido
Ainda vos dá maior glória
A qual fica bem notória, Romance heróico
Tirando em tratados puros
Esperanças dos futuros,
Dos passados a memória.
Um Luís muito famoso,
Na poesia afamado,
Nela é certo ter logrado
Príncipe ser majestoso:
De outro Luís portentoso
Este conceito formei,
E confessarem já sei,
Pois ninguém negar
podia Príncipe ele em poesia,
Vós na Medicina rei.
Vemos que em doze tratados
O livro está dividido,
E nos doze desmentido
O que dirão os malvados:
Que não devem ser louvados
Quando das dúzias são;
Mas eu digo, e com razão,
O que não devem negar,
Que nos quisestes mostrar
Serem da regra exceção.
Um Ferreira em Cirurgia,
E muito douto Ferreira,
Fez uma luz verdadeira
Mais clara que a luz do dia;
Ferreira, com mais notícia,
Este livro nos compôs,
Confessando todos nós,
Com muito justo motivo,
Que se aquele fora vivo
Aprendera de vós.
Do mesmo
Este tesouro só por vós achado,
Por vosso raro engenho descoberto,
Nele a vida parece fica isenta,
Do tributo que paga ao monumento.
Mineral precioso, em que logramos
Os maiores dous bens que ter podemos,
Que é a vida e saúde, em que só acha
A riqueza maior nossos desejos.
A vida e saúde, bens tão grandes,
Por cem milhões de mundos não daremos
Pois é qualquer dos dous maior que todos,
E sobre todo o bem, que é bem terreno.
Estes bens entre os bens mais desejados,
Por vós, Luís, lograr todos já vemos,
Pois esta mina rica entre as mais ricas
Nos descobriu o vosso raro engenho.
Mais preciosas minas para todos
Achamos nos tratados todos régios,
Que se o ouro não livra de caducos,
Parece que nos faz o livro eternos.
Para a vida lograr, e mais saúde,
Descobristes, Luís, um novo meio
Cavando nestas minas tão profundo,
Como elevado o vosso entendimento.
Com tanta erudição e novidade,
No vosso Mineral falar vos vemos,
Que só por vós ouvimos doutamente
O que estava até agora no silêncio.
Descobristes nas minas com assombro
Um tesouro escondido de remédios,
Confessando os peritos nestas artes
Que até agora não fora descoberto.
Mas duas faculdades que escrevestes,
Com tanta novidade discorrendo,
Os gigantes, que nelas têm havido,
Convosco comparados são pequenos.
Escreverem doutores singulares
Com novidades grandes confessemos,
Mas vós mais singular que os singulares,
E com maior extremo entre os extremos.
As riquezas que neles descobristes,
Eu com todos, Luís, por certo tenho,
Que não pode o conceito mais subido,
Para bem vos louvar, fazer conceito.
Louve-se pois a si mesmo o livro,
Que suposto em louvar-se comete erro,
Para louvar-se dignamente é justo
Tenha de se louvar o privilégio.
Vosso nome no mundo excelso seja,
E como para o nome é mui pequeno,
Multiplique-se o mundo para o nome,
Se em pouco para o nome o mundo temos.
E se o livro fazeis com novidade,
E com muitas mui douto discorrendo,
Para em novo altar o colocares,
A fama vos levante novo templo.
Luís Gomes Ferreira, rei das Minas
Vos aclama este livro sem exemplo,
Que havendo em Portugal marquês das Minas,
Só vós ficásseis rei em os mais reinos.
Por um amigo do autor
Soneto
A América ilustras no que ensinas,
Tanto, sábio Luís, novo Galeno,
Quanto tua ciencia o reino ameno
Faz no assombro maior com novas minas.
Excedes no valor as diamantinas,
Porque és delas enfim contraveneno,
Não há enfermos que temam o seteno,
Se tuas suas são as medicinas;
Se a todo o bem excede o bem da vida,
E já neste teu livro cousa certa,
Teres a América mais enriquecida
Na mina que tens nele descoberta;
Pois deste bem a idéia esclarecida
Em folhas de ouro a todos faz oferta.
Outro
Do mesmo
Hipócrates à ciência escurecera
Vendo o vosso livro, idéia clara,
E com ele Luís se consultara,
Porque com ele só mais aprendera.
Em claros aforismos conhecera,
Quando em estudo maior não alcançara,
Ainda ponto sutil, ciência rara,
Com assombro fatal o suspendera.
Não seria no mundo celebrado
Sem deste livro ter sábia doutrina;
Que como se acha o orbe em outro estado,
Dá novos remédios no que ensina
Com tão superior estilo, e elevado,
Que parece ouro toda a Medicina.
Ex-voto retratanto o milagre do Senhor Bom Jesus de
Matosinhos a Manuel de Pereira e Sá.
1 Pílula - grafia atualizada da forma antiga pírola, utilizada pelo autor.