Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 11 de 31

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Erário mineral

3. Poemas ludatórios: ao Erario Mineral, que compos o senhor Luís Gomes Ferreira

Ao Erário Mineral, que compôs o

senhor Luís Gomes Ferreira.

 

Romance heróico por um seu amigo.

Doutor Ferreira, cujo raro engenho,

Fatigando do prelo a dura estampa

Imortal substitui ao vosso nome,

Quantas as letras, tantas as estátuas.

Sem dúvida, ao sair à luz do mundo

Este tomo de normas soberanas,

Se verá com sutil metamorfose

Ser o pasmo clarim, Argos a fama.

Quem vos não louvará, vendo que douto

A Medicina dais regras tão sábias?

Como se esta ciência peregrina

Infusa dentro em vós se procriara?

Quem vos não louvará, outra vez digo,

Vendo que desta América tão vasta

Com novos aforismos, mais Galeno,

Mestre vos hão de ouvir de Europa as aulas?

Quatro lustros, com célebre fadiga,

Da natureza investigando as causas,

Escrevendo formastes doutamente

Dos troncos pena, se papel das ramas.

Lestes com hipocrática viveza

Nas numerosas folhas dessas plantas

Um verdadeiro antídoto, que possa

Cortar da escura morte as negras asas.

Quem duvida que, quando de Aqueronte

O comércio impedis da imunda barca,

Nunca esquecido do imortal aplauso

Do Letes passareis as claras águas?

Da silvestre campanha à intonsa mata,

Que a vil Loto, mudando a natureza,

Consagre ao vosso nome só lembranças.

Nunca serão do tempo maltratados

Esses tratados,que o aplauso aclama,

Mas antes brilharão com cores vivas,

Retratados em lâminas de prata.

Doze tratados dais tão bem compostos

Que bem mostrais com agudezas altas,

Que se doze no céu signos rutilam,

Que signos também há na vossa lavra.

Doze muralhas são, belas e fortes,

Com que cercais da vida a inerme praça,

Que sem receio viverá segura

Das três esquadras das soberbas Parcas.

Pois no profundo mineral tesouro,

Que descobris nas terras da observância,

Dais para a humana vida mais riqueza,

Do que essa, que a ambição nas Minas cava.

Um precioso metal, mina abundante,

Em cada folha desse livro se acha,

Com que hoje enriqueceis a natureza

da ambiciosa vida desejada.

Em cada letra um pomo de ouro vejo,

Que, Hipomenes de idéia mais preclara,

Lançais, porque não fique vencedora

Da escura morte a mísera Atalanta.

Qual outro Alcides, esse vosso livro

Da Hespéride o dragão devora e mata,

Porque colher se possa o áureo pomo,

Que a terra em seus arcanos ocultava.

Se de Plutão no campo verde-negro

Uma árvore de ouro o Estígio lava,

Donde por mais que a rama se lhe tire,

A natureza faz com que outra nasça.

Quem duvida também, Ferreira insigne,

Que a ela o vosso livro se equipara?

Porque sempre imortal, sempre fecundo,

Por mais ouro que dê, nunca se gasta.

O mais sublime trópico da idéia,

Essa mina influiu em cópia tanta,

Que subindo ao quilate mais supremo,

De vinte e quatro o seu valor se exalta.

Já vejo que desse ouro o mais subido

Que o vosso mineral hoje derrama,

Artífice o aplauso ao vosso nome

Trombetas forja, se memória frágua.

E se a influxo de Délio nasce o ouro,

E o mesmo Délio a Medicina ampara,

Em vosso livro uniu o Deus de Delfos

De metal e ciência as glórias ambas.

Como filho de Sol (não Faetonte)

Mas Esculápio sim do novo mapa,

Em ouro transformais a Medicina,

Por que a pírola1 seja mais dourada.

À sombra já das folhas desse livro,

A saúde se vê refugiada,

Porquanto à delinqüente, frágil vida

Mil cartas de seguro o livro passa.

Só vós agora, ó ínclito Ferreira,

Mostrastes com ciência aventajada

Que a delícia do ameno paraíso

No américo terreno se retrata.

Pois no livro, que ao prelo dais facundo,

Se vê com sutileza sempre grata,

Que essa árvore da vida apetecida

Se admira em cada página estampada.

Mas que muito, se quando especulastes,

Qual outro Plínio, a natureza vária,

A árvore da ciência em vós primeiro

Floresceu em purpúreas madrugadas.

Mas já, Ferreira insigne, é bem que ponha

Aos curtos elogios termo e pausa;

Quando a fama suspensa nesta empresa

Retórica emudece, e muda canta.

 

Em louvor do Senhor Luís Gomes

Ferreira, autor do livro discreto e

proveitoso Erário Mineral

 

Por Tomás Pinto Brandão

Décima

Se a quem cava nas areias

Que cria o planeta louro

O descobrir veias de ouro

Lhe custa o sangue das veias,

Hoje nas vossas idéias,

Discreto Ferreira, estude,

Que minas de ouro e virtude

Cavará com pouca lida,

Onde não só busque a vida,

Mas também ache a saúde.

Outra do mesmo

Pois, douto Luís, nos dais

Folhas de ouro em medicina,

O vosso livro é uma mina,

Que aberta ao prelo mostrais;

A todo o pobre sarais,

Que mais desse ouro faminto

Andava, e segundo eu sinto,

Talvez sendo ouro de lei,

Que não pagueis quinto ao rei,

E antes vos pague o rei quinto.

 

Ao autor, em aplauso do seu Erário

 

De Tomás Barroso Tinoco

Assustando as esferas de diamante,

Liberal tu só nos dás minas de ouro,

Usurpando do mesmo o luzimento,

Intimando ao mundo ser novo sol.

Sabiamente e com engenho nos descreves

Grande antídoto no teu novo Erário,

Ostentando nele o quanto pudeste

Marte submeter ao teu domínio.

Em as elegâncias que nos dispensas,

Sujeita já te fica a etérea Pito

Facundos elogios conservando

Em a mortal vida imortal fama.

Raios não vibra Júpiter sentido,

Repete sim, no ardor de seu tesouro,

Entre incêndios da dor, cinzas caducas.

Imortal na fama, tu, com teu engenho,

Repartes ao mundo novo tesouro

Adornado com um novo diadema

De pérolas e ouro de tua mina

Aumentando ao mundo com tal riqueza.

Nas cinzas de um Fênix abrasado,

Desperta novo Fênix ultrajando

Os mais altos vôos de uma águia

Alcançando dela mesma o valimento.

Luís, como Fênix, também descobre

Uentages postas em caducas cinzas,

Sendo novo Fênix já renascido,

Ostentando mais que a águia o subir alto.

Em louvores a fama te publica,

Reclamando com vozes do seu clarim

As suaves harmonias do teu nome,

Rasgando os ares com mil clamores,

Iulgando seres Fênix, que traspassas

Os antecipados vôos de tal águia.

 

Do Mesmo

Soneto

Nas Minas, em que por ouro e diamantes

Provida tem mostrado a natureza

O quanto de seus montes a rudeza

Cerrava de tesouros abundantes,

Com notas descobriste vigilantes

De forte observação, rara agudeza,

Erário Mineral, cuja riqueza

Dá remédios à vida relevantes.

Daqueles se sustenta a mesma vida

Com asseio, com pompa e majestade,

Deste porém se faz já mais crescida:

Mas se de ouro se alenta a qualidade

Neste Erário tem para mais cumprida

Uma quase segura eternidade.

************

Suspende, ó Parca, já, suspende o corte,

Com que tantos triunfos roubar lidas;

Olha, que o braço estende a mil vidas

Luís Gomes Ferreira, alento forte.

Consente um pouco que o melhor Mavorte

Veja de louro as fontes mais cingidas,

Pois não dá as vitórias por perdidas

No destroço de tua cruel sorte.

Mas não te movas, não, desse teu mundo

Porque seus troféus com a fama tão segura

Com o clarim nos ares lhe retundo:

Não chores do Brasil, ó novo mundo,

Que a Parca te prepare a sepultura,

Pois que tens em Luís um sem segundo.

[Ejusdem]

Quod longinqua tegit tenebrarum in nocte vetustas,

Detegit ingenii vena opulenta tui:

Qui latuere diu morbi, et medicamina quondam

Nominis orba sui, nomen habere facis.

Quidquid adhuc picea in caligine merserat artes

Quidquid morborum vasta ruina premit,

Tu calamo ilustras, caecus nunc exulat error,

Et veri facies semisepulta viget.

Mundi opifex multum tibi dat de luce; gubernat

Ille diem; noctem sed tamen ipse regis.

Orbis sic duplici fulgebit lumine: mundo

Dat Deus hanc lucem; mortibus ipse dabis.

Pristina complures viderunt faecula doctos

Sed tibi consimilem faecula nulla dabunt

 

SONETO

De um seu amigo

A Hipócrates, Galeno e Avicena,

Nas três partes do mundo canta a fama

Igualando os ternários; porém clama

Não ter para a nova parte nova pena.

Se aí a lusa nação mortes ordena,

Cujo triunfo a gritos esta aclama,

Compassiva a dar a vida a Luís chama,

E a desterros a morte já condena.

Porém, se aos três Atlantes do universo

Por coroas corta a fama verde louro,

Ao quarto as compõem de melhor preço:

Pois erigindo-lhe jaspes sem desdouro,

Ao quarto levanta com excesso

Diademas de diamante, estátuas de ouro.

Do mesmo

Novo achado, ó novo Lusitano,

Novamente achais no novo mundo,

Onde só se acha um buscar profundo,

É tal o achado raro, e soberano.

Mais que Chirurgo, ainda mais ufano

Em novos dogmas, alto, douto e fundo,

No vosso Erário, que enriquece o mundo

Valeis mais que um mundo americano:

Diamantes, esmeraldas, fino ouro

Com mão larga produz lá nessa parte

O deus, de que são parto rico e louro;

Do mesmo Deus produto a vossa arte

Mais inclui em si melhor tesouro,

Pois por riquezas saúde nos reparte.

Do mesmo

Deixais aos mais autores eclipsados,

E a mesma arte pondes mais luzida;

É a matéria deles dela traduzida,

Por ver são vossos remédios inventados.

Os seus estavam já quase avassalados

De Libitina e Loto homicida;

A uma e outra pondes em fugida,

E os pendões da saúde levantados.

Mas se quase perigando a Medicina,

Para crédito seu destina a sorte

Vossa experiência douta e peregrina,

Não tememos da Parca o duro corte,

Porque o vosso Erário nos destina

Muros para desprezar golpes da morte.

Do mesmo

Tanto a todos te vejo aventajado

Nesse livro, ou mais próprio céu aberto,

Em que por cada signo descoberto

De várias complexões é um tratado;

Que hás a ti mesmo nele levantado

Estátua perdurável, sendo certo

De teus novos remédios o concerto

Muito mais é que o novo mundo achado.

A Américo que lá na quarta parte

Tão rica nos descobre tal porção,

Ó Ferreira, não posso comparar-te:

Do que aquele descobre, és conservação,

E a que conserva é mais nobre arte

Que a arte que acha, sem comparação.

 

De João Bernardes

soneto

É no mundo, Luís, bem decantado,

O que o sábio nos diz, como entendido,

Que debaixo do Sol, astro luzido,

Novidade nenhuma tenha encontrado;

Mas este vosso livro tem mostrado,

O que com todos tenho conhecido,

Que o nome de mui novo há merecido

Com tanta novidade este tratado;

É se alguém duvidar da habilidade

E de ser tudo novo o que dissestes,

Fundado na sentença ser verdade,

Confesse vendo o livro que escrevestes,

Que ou debaixo do Sol há novidade,

Ou que em cima do Sol vós o fizestes.

 

Do mesmo

Décima

Causais no livro famoso

Dous motivos diferentes,

Um gostoso aos viventes,

Outro à morte mui penoso:

Para os que vivem gostoso,

Quando para essa homicida

Amargura conhecida,

Ficando assim desta sorte

Com grande tristeza a morte,

Com muita alegria a vida.

Nomes coletivos são

Aqueles em que se vê

O singular, ainda que

Signifiquem multidão:

Logo com muita razão

Os vossos doze tratados

Por singulares chamados

Devem ser por muitos modos,

Sendo singulares todos

Ainda que multiplicados.

Tendes, Luís, conseguido,

O que nenhum alcançado,

Pois fazeis não ser lembrado,

Nenhum dos que têm havido:

O vosso livro entendido

Ainda vos dá maior glória

A qual fica bem notória, Romance heróico

Tirando em tratados puros

Esperanças dos futuros,

Dos passados a memória.

Um Luís muito famoso,

Na poesia afamado,

Nela é certo ter logrado

Príncipe ser majestoso:

De outro Luís portentoso

Este conceito formei,

E confessarem já sei,

Pois ninguém negar

podia Príncipe ele em poesia,

Vós na Medicina rei.

Vemos que em doze tratados

O livro está dividido,

E nos doze desmentido

O que dirão os malvados:

Que não devem ser louvados

Quando das dúzias são;

Mas eu digo, e com razão,

O que não devem negar,

Que nos quisestes mostrar

Serem da regra exceção.

Um Ferreira em Cirurgia,

E muito douto Ferreira,

Fez uma luz verdadeira

Mais clara que a luz do dia;

Ferreira, com mais notícia,

Este livro nos compôs,

Confessando todos nós,

Com muito justo motivo,

Que se aquele fora vivo

Aprendera de vós.

Do mesmo

Este tesouro só por vós achado,

Por vosso raro engenho descoberto,

Nele a vida parece fica isenta,

Do tributo que paga ao monumento.

Mineral precioso, em que logramos

Os maiores dous bens que ter podemos,

Que é a vida e saúde, em que só acha

A riqueza maior nossos desejos.

A vida e saúde, bens tão grandes,

Por cem milhões de mundos não daremos

Pois é qualquer dos dous maior que todos,

E sobre todo o bem, que é bem terreno.

Estes bens entre os bens mais desejados,

Por vós, Luís, lograr todos já vemos,

Pois esta mina rica entre as mais ricas

Nos descobriu o vosso raro engenho.

Mais preciosas minas para todos

Achamos nos tratados todos régios,

Que se o ouro não livra de caducos,

Parece que nos faz o livro eternos.

Para a vida lograr, e mais saúde,

Descobristes, Luís, um novo meio

Cavando nestas minas tão profundo,

Como elevado o vosso entendimento.

Com tanta erudição e novidade,

No vosso Mineral falar vos vemos,

Que só por vós ouvimos doutamente

O que estava até agora no silêncio.

Descobristes nas minas com assombro

Um tesouro escondido de remédios,

Confessando os peritos nestas artes

Que até agora não fora descoberto.

Mas duas faculdades que escrevestes,

Com tanta novidade discorrendo,

Os gigantes, que nelas têm havido,

Convosco comparados são pequenos.

Escreverem doutores singulares

Com novidades grandes confessemos,

Mas vós mais singular que os singulares,

E com maior extremo entre os extremos.

As riquezas que neles descobristes,

Eu com todos, Luís, por certo tenho,

Que não pode o conceito mais subido,

Para bem vos louvar, fazer conceito.

Louve-se pois a si mesmo o livro,

Que suposto em louvar-se comete erro,

Para louvar-se dignamente é justo

Tenha de se louvar o privilégio.

Vosso nome no mundo excelso seja,

E como para o nome é mui pequeno,

Multiplique-se o mundo para o nome,

Se em pouco para o nome o mundo temos.

E se o livro fazeis com novidade,

E com muitas mui douto discorrendo,

Para em novo altar o colocares,

A fama vos levante novo templo.

Luís Gomes Ferreira, rei das Minas

Vos aclama este livro sem exemplo,

Que havendo em Portugal marquês das Minas,

Só vós ficásseis rei em os mais reinos.

 

Por um amigo do autor

Soneto

A América ilustras no que ensinas,

Tanto, sábio Luís, novo Galeno,

Quanto tua ciencia o reino ameno

Faz no assombro maior com novas minas.

Excedes no valor as diamantinas,

Porque és delas enfim contraveneno,

Não há enfermos que temam o seteno,

Se tuas suas são as medicinas;

Se a todo o bem excede o bem da vida,

E já neste teu livro cousa certa,

Teres a América mais enriquecida

Na mina que tens nele descoberta;

Pois deste bem a idéia esclarecida

Em folhas de ouro a todos faz oferta.

 

Outro

Do mesmo

Hipócrates à ciência escurecera

Vendo o vosso livro, idéia clara,

E com ele Luís se consultara,

Porque com ele só mais aprendera.

Em claros aforismos conhecera,

Quando em estudo maior não alcançara,

Ainda ponto sutil, ciência rara,

Com assombro fatal o suspendera.

Não seria no mundo celebrado

Sem deste livro ter sábia doutrina;

Que como se acha o orbe em outro estado,

Dá novos remédios no que ensina

Com tão superior estilo, e elevado,

Que parece ouro toda a Medicina.

 

Ex-voto retratanto o milagre do Senhor Bom Jesus de

Matosinhos a Manuel de Pereira e Sá.

1 Pílula - grafia atualizada da forma antiga pírola, utilizada pelo autor.