Erário mineral
9. Tratado II – Das obstruções
Tratado II
Capítulo I
Das obstruções
1. As obstruções nestas Minas têm dado grande cuidado aos professores, por ser este clima muito conducente a elas, assim para os brancos como para os pretos ainda que para estes com maior razão, por andarem pela maior parte sempre metidos dentro da água, principalmente os que são mineiros; e, também, porque os humores deles estão mais arraigados e infiltrados nas partes onde se formam do que em outros quaisquer achaques, pela qual razão são mui dilatadas em sua cura; e como eu tenho curado muitas de outro modo que os mais professores e do que os autores ensinam, pela razão e a experiência me terem ensinado, como se verá no discurso deste tratado, exporei o meu método curativo; cada um seguirá o que melhor lhe parecer.
2. São muito diferentes as partes que podem padecer obstruções,
mas não tratarei senão de três, por serem as mais comuns1 e as mais principais: as do fígado, as do baço e as do mesentério, e apenas não farei pouco, pela ocupação com que de presente me acho mo não permitir. Isto assim suposto, darei princípio pela do fígado, por ser a mais perigosa, de que tenho visto morrer a muitos hidrópicos sem remédio por causa dela.
Capítulo II
Da obstrução do figado, seus sinais e sua cura 1. A obstrução do fígado se conhecerá estando o doente em jejum, e, deitado de costas com os pés encolhidos, se lhe carregará brandamente com os dedos de ambas as mãos da parte direita, naquele vão que medeia entre as costelas mendosas e o estômago, junto das costelas, ou da arca, como diz o povo, e, achando-se naquela parte dureza e dor, não teremos dúvida que o fígado está obstruto, e, segundo a maior ou menor dureza, assim também será a obstrução maior ou menor, de sorte que, se a dureza for grande, haverá menos dor, e, se for pequena, será a dor maior; havendo grande dor e menos dureza, será mais curável e, se houver pouca dor e a dureza for grande, será mais dificultosa a sua cura, e, sendo a dureza grande e sem nenhuma dor, será incurável e se reputará por obstrução cirrosa; e, se o cansaço for muito quando andar e tiver dificuldade na respiração, os pés e pernas inchados, e o rosto magro, fora do seu natural, e as maxilas, ou maçãs do rosto, vermelhas, pela maior parte vêm a morrer hidrópicos, falando até de todo se sufocarem.
obstrução cirrosa
2. Nota. Que, algumas vezes, sucede haver grande inflamação no fígado que os doentes não podem consentir que se lhe ponha a mão, como já vi; estas tais inflamações sempre são perigosas, sem embargo que uma, que sucedeu a um escravo meu, não teve perigo, porque como os pretos são dotados de natureza mais forte e robusta que os brancos, resistem mais a todas as enfermidades; e, ainda que pareça, é perigosa e mortal, sempre se lhe devem aplicar os remédios, porque em tal estado estará a natureza que os receba e livre do perigo; e sempre será bom conselho que o doente faça seu testamento e receba os sacramentos, o que se deve praticar em todas as doenças que prometerem qualquer perigo.
Como se curará esta obstrução
3. A primeira coisa que se deve fazer ao doente é dar-lhe um vomitório de tártaro emético, de cinco até seis grãos de peso, sendo bom, e, se for mais inferior, serão sete até oito, para evacuar as cruezas da primeira região, que, sem esta evacuação, serão infrutíferos os mais remédios. Depois que tiver tomado este, descansará o doente o dia seguinte, para vermos se ainda tem necessidade de tomar outro, o que se conhecerá porque haverá amargores de boca, ou pouca vontade de comer, ou o estômago estará duro, ou cheio como empanzinado; e sendo que tenha estes sinais ou parte deles, tomará outro, mas sempre com advertência que sejam antes mais pequenos que maiores, para não causarem ânsias, nem grande trabalho ao doente, e, também, para que não fique prostrado de forças, porque quem faz uma jornada comprida a fará mais seguramente indo devagar que indo depressa; e, outrossim, é de advertir que, quando a primeira região está bem limpa e evacuada, aproveitam e obram melhor os mais remédios que depois se lhe aplicam, mais segura e breve a cura. E, como nestas Minas não faltam nunca cruezas nos estômagos, por isso mais convenientes serão os vomitórios.
vomitório
4. Evacuada a primeira região com um vomitório, se obrar bem, ou com dois, obrando pouco com o primeiro ou havendo necessidade de segundo, nestes termos tomará o enfermo por cinco ou seis dias contínuos, de manhã, em jejum e de tarde, antes do Sol posto, seis onças por cada vez, do remédio seguinte. Tomem uma raiz pequena de capeba e duas, ou três, de salsa das hortas, conforme forem que não seja a salsa espigada, e as raízes de um pé de artemija e uma raiz de funcho, e, se estas não forem também espigadas, será melhor; as folhas e o tronco se cortem por junto das raízes e se lancem fora, as raízes se lavem e, limpas, se metam em uma panela, ou tacho, bem areado com três frascos de água comum, que ferva até ficar em frasco e meio, e, coada esta água, se lhe lançará meia libra, ou meio arrátel, de açúcar, e com ele torne a ferver e a purificar ao fogo, até que fique em um frasco, e, coado outra vez, se guarde; e dele irá tomando o doente, como tenho dito, e sempre morno; e, assim que o doente tomar as bebidas e fora delas, fará exercício moderado, porque é uma grande circunstância para o remédio obrar melhor, digerir o que comer e abrir os poros para transpirarem as fuligens e alguns humores; e assim continuará até acabar o dito frasco.
remédiode sobstruente
exercício
Sendo em Portugal e querendo-se mandar fazer na botica, se fará o medicamento com os seguintes simples. Raiz de salsa das hortas, de funcho, de artemija, de grama, de aipo e de borragens, de cada uma duas onças; folhas de agrimônia, de douradinha, de borragens e de hissopo, de cada uma meia onça. Ferva tudo em duas canadas de água comum, até ficar em uma, e, coado, se lhe ajunte meia libra de açúcar, com que ferverá até diminuir meio quartilho, e, coado outra vez, se lhe ajunte, de oximel, duas onças, e se guarde para o uso.
O oximel que mando misturar é grande remédio para abrir e incidir, sendo veículo para melhor obrarem os mais, e facilita o curso, que nesta queixa é de grande utilidade andar a natureza lúbrica. Não ponho aqui os caracteres das onças e libras para serem entendidos de quem os ignora, por ser aqui o seu próprio lugar.
Para fomentar a obstrução, é maravilhoso o lenimento seguinte: sumos de folhas de salsa fresca, de funcho, de aipo; sumos de raiz de salsa e de lírio, de cada um duas onças; sumo de cebola branca quatro onças; banha de porco sem sal quatro onças; óleo de lírio, o que baste para fazer lenimento brando, fervendo os sumos até se
lhes consumir a umidade. 2 S.A.
Nesta mesma forma receitei estes dois remédios para curar uma obstrução nesta Cidade do Porto ao mui reverendo padre Manuel João de Carvalho, que a trouxe das Minas no fígado, repetindo várias vezes a bebida acima, tomando primeiro de tudo dois vomitórios e purgando-se todas as vezes que acabava de beber uma receita, fazendo dois e três jatos cada dia em que tomava o desobstruente, por virtude do oximel e pelo medicamento das ervas ser laxativo, com que, ao compasso que ia tomando as bebidas, tomava também as purgas no fim delas, e, fomentando a parte com o sobredito lenimento, se ia achando cada vez melhor e veio a sarar de todo, como é bem notório nesta parte da cidade das hortas e ferradores, andando sempre de pé com os desobstruentes.
5. Nota que, como a raiz de capeba é quente, se o doente for de natureza cálida, ou se não lance no cozimento ou, se se lançar, seja em pouca quantidade, mas, como é muito desobstruente, sempre será conveniente ajuntar-se alguma, porque, ainda que pareça se não devem ajuntar medicamentos quentes na obstrução do fígado, eu sempre os ajuntei com bom sucesso, sem se esquentarem os doentes, porque as mais raízes são temperadas e temperam esta; e demais, como os humores que têm feito a obstrução são de sua natureza mais frios que quentes, não se esquentam os enfermos com facilidade; nem mandei nunca sangrar nesta doença, nem aconselho tal se faça.
6. Nota mais. A salsa, a capeba, a artemija e o funcho que atrás digo não sejam espigadas é porque, estando com semente, têm posto toda a sua força nela, por cuja causa ficam as raízes mais endurecidas e fracas, ou, para melhor dizer, com pouca virtude; e para o remédio obrar melhor, o doente aproveitar o tempo e alcançar o fim que pretende, não hão de ter semente e, se for possível, nem flor ou grelo. Mas no caso que seja em Portugal, ou em parte aonde não hajam todas as ditas raízes, se podem ajuntar ao cozimento raiz de espargos, raiz de gilbarbeira, ou douradinha, ainda que estas são mais fracas que as outras, por virem de Portugal e passarem a linha, onde todas as coisas degeneram.
7. Acabado o dito frasco que acima fica referido, se purgará o
doente com uma oitava de pós cornaquinos3 verdadeiros, porque, se acharem algumas cruezas ainda no estômago, as lançarão pela boca, por serem também vomitórios, e, não as achando, farão a sua obra por curso, lançando os humores da obstrução que estão diluídos ou brandos com os desobstruentes que já tem tomado.
pós comaquinos 8. Tendo o doente tomado esta dita purga, poderá já usar da fomentação a seguinte: derreta-se ao fogo enxúndia de galinha com banha de porco sem sal, de cada uma partes iguais, e, quanto mais velhas forem, melhor será; com este medicamento fomentem toda a região do fígado, estando morno, e, por cima da fomentação, se lhe ponha folha de capeba, passada primeiro pelo fogo, ou, em sua falta, folhas de almeirão silvestre, a que o povo chama fumo-bravo, ou folhas de almeirão verdadeiro, e, em falta de tudo, papel, e a parte bem coberta do ar; e se algum achar que este remédio é fraco, por não levar muitos símplices, eu lhes digo que é excelente e que sempre me sucedeu bem com ele; ou fomentem a parte com ungüento desopilativo de fumos, que se mandará buscar à botica, ou se fará em casa pela receita que se achará no tratado da miscelânea; e por cima a dita folha, ou papel.
fomentação
9. Melhor que todos os outros remédios é o seguinte, de que tenho usado infinitas vezes com bom sucesso, o qual é invento meu, porque, ao compasso que se vão tomando os desobstruentes e purgas, vai fazendo melhor o seu efeito, e, por conseqüência, ajuda a abreviar a cura em menos tempo, desfazendo este por fora, os desobstruentes por dentro e as purgas lançando-os fora, o qual se faz do modo seguinte:
remédio excelente para fomentar, invento do autor
10. Pise-se uma boa mão cheia de folhas de picão, ou, por outro nome, carrapicho, que é uma erva de pouca altura e tem na ponta dos botões de sua semente uma espiga, ou arestas, que, depois de secas, se pegam muito aos vestidos de quem passa por junto dela, e duas ou três cebolas brancas, conforme forem, quatro onças de banha de porco sem sal, tudo pisado de per se, e depois se torne a pisar junto, que fique uma boa massa, a qual se lançará em um tacho pequeno com quatro onças de óleo de lírio, ou, em sua falta, de óleo rosado; e, quando seja em parte onde não haja nenhum destes, será de azeite doce; ferverá tudo a fogo brando, até que se consumam os sumos, o que se conhecerá tirando dele e lançando-o no fogo, não espirrará; e depois se coe por pano ralo e se guarde para o uso, com que se fomentará todas as noites ao recolher na cama com um bocado deste remédio morno, e, por cima, o que fica dito, resguardando-se muito do ar.
11. No tempo que se vai usando destas fomentações, irá o doente tomando pela boca outro desobstruente, feito na forma que fica referido, e, neste mesmo tempo, como este remédio não é purgativo e só desobstruente, tomará o doente todos os dias à noite ajuda purgativa, ou ao menos um dia e outro não, para irem aliviando a natureza, e fazendo sempre exercício, como já disse, o que recomendo muito, por ser de grandíssimo proveito.
12. Acabado o dito frasco, se o doente tiver sinais de humores frios, o que se conhecerá pelos que ficam apontados no volume 1, nas páginas 249, 256 e 257, se purgará com uma oitava, ou três quartos, de resina de batata, com segurança e sem receio, para purgar universalmente todo o corpo, e, depois dela, um ou dois dias, poderá tornar a continuar com outro frasco de medicamento desobstruente, feito como fica dito, e tomando as ajudas purgativas. Mas, se o doente for de compleição branda e tiver receio de tomar a dita purga que atrás fica referida, de pós cornaquinos, ou esta acima de resina, poderá tomar outra mais branda, como são os trociscos de Fioravanto na forma seguinte. Em cinco onças de cozimento de chicória ou de almeirão, se lance oitava e meia dos ditos trociscos feitos em pó com duas onças de conserva pérsica, ou, em seu lugar, onça e meia de maná; tudo desfeito e coado, se dê morno ao doente em jejum, que é uma purga muito perfeita, suposto branda, mas advirto que sendo robusto e tendo sinais de humores frios, que quase sempre assim há de ser, principalmente depois de ter tomado um ou dois vomitórios e um ou dois frascos do dito medicamento e continuado as fomentações; e sendo assim, são as purgas de pós cornaquinos e as de resina de batata singularíssimas, o que experimentará o doente e o professor que lhe assistir, sendo de mais ou menos peso, segundo as forças e a idade, por uma ou mais vezes interpoladas, conforme os sinais que o doente tiver, porque, tendo alguns de ter algumas cóleras no estômago, são os pós cornaquinos admiráveis pelo grande efeito que fazem nestas obstruções, purgando por uma e outra via os humores prejudiciais; e tendo sinais de abundância de humores frios, são as de resina muito excelentes, porque, além de serem purgas universais, purgam e arrancam valorosamente os humores de que se formam todas as obstruções.
purga de resina
purga de trociscos, de fioravanto
purgas de pós cornaquinos e de resina
13. Também se pode usar das pílulas4 mesentéricas de Lemeri, mas eu tenho-as por fracas e de pouco proveito, ou, para melhor dizer, obram mui devagar e fazem a cura mui dilatada, porque, suposto elas sejam desobstruentes, é massa ou simples que vem de Portugal com a sua virtude muito diminuta quando cá chegam, fora o tempo que cá estarão nas boticas; e como cá pela maior parte os doentes querem medicamentos que façam cursar muito, mandam-lhe os professores ajuntar diagrídio, e a força dele é que fazem cursar muito, mas não fazem desobstruir, que é o primeiro intento e muito principal, porque, usando os medicamentos purgantes sem que os humores estejam diluídos e preparados, não só se não curarão as obstruções, mas se acrescentarão mais e as queixas do enfermo se aumentarão, de sorte que o porão em miserável estado; e por isto é que eu digo que se usem primeiro os desobstruentes e depois os purgantes para os lançar fora, e não preparar e purgar ao mesmo tempo com um mesmo medicamento; mas não entram nesta conta um ou dois vomitórios no princípio, porque estes não carecem de preparação antecedente, salvo se for uma ajuda.
14. Tomada a purga que parecer mais conveniente, conforme for o sujeito e as forças o permitirem, se tornará a fazer outro frasco de medicamento desobstruente na mesma forma que está dito, e, acabado, se tornará a purgar, e assim, nesta mesma forma, se irá procedendo na cura preparando os humores, e, depois de preparados e adelgaçados, purgá-los pelo modo que fica dito, usando das mesmas fomentações e ajudas. O regimento que o doente há de guardar no comer e beber será o seguinte. No tempo que tomar as purgas, comerá galinha, como se não ignora, e fora delas, em todo o mais, comerá vaca assada ou cozida, depois de seca no forno, ainda que não fique muito apertada, que será melhor no forno que em moquém; também poderá comer em algumas ocasiões ovos quentes, somente com pão ou farinha, e não assados ou cozidos que fiquem duros e menos frios; também poderá comer migas, franga assada, veado e aves do monte; a água que há de beber será cozida com um molho de raízes de sapé, que é muito melhor que grama, o qual não falta nestas Minas e em todo o Brasil.
regimento e água que há de beber
15. Por ter visto a alguns professores curarem doentes desta enfermidade sem lhes mandarem fazer exercício, e morrerem, ainda que não fosse por esta causa, como eu pela experiência e razão tenho visto que o exercício é muito preciso nesta obstrução e em todas as mais, por isso torno a recomendá-lo, pois com ele se aumenta o calor, consomem as cruezas, abrem os poros, e lhe facilita a transpiração e o suor, resolve os flatos, fortalece os nervos, promove a circulação do sangue e outros proveitos essencialmente necessários para a cura desta e das mais obstruções; e os mesmos proveitos faz nas hidropisias, que muitas procedem desta obstrução, como tenho visto e se verá nas observações que adiante escreverei, as quais folgará de ver o curioso; nem me parece seja possível curarem-se obstruções sem exercício. O doente se não molhe, nem traga os pés úmidos, que lhe será de grande dano.
proveitos do exercício
16. Sendo esta obstrução em mulher, se lhe darão os vomitórios necessários e os mesmos medicamentos desobstruentes; porém, no que toca a purgar, se purgarão com purga de rom, feita em pó de fresco e em quantidade de meia até uma oitava, conforme as forças e a idade, ou também segundo a preparação que se houver feito com os desobstruentes, porque, se for de poucos dias, será menos o peso da purga, e será dada ou desfeita em um bocado do mesmo cozimento, tépido somente, ou se lançará em uma gema-de-ovo, assim fria dentro da sua casca, e mexida, porque assim se tomam com mais facilidade; e não só são boas estas purgas para se curar obstruções nas mulheres, senão também que são excelentes para promover o sangue mensal dos seus meses, de que tenho usado muitas vezes com feliz sucesso, principalmente quando lhe não vem a sua conjunção por causa de alguma obstrução, como quase sempre é certo; e promovendo-se os meses às mulheres, mais brevemente saram da obstrução. Em quem tenho usado das purgas de rom mais vezes é em mulheres pretas com bom sucesso, e sempre usei do rom que está em pedra, porque, estando em pó, perde muito a sua virtude. Destas mesmas purgas tenho usado muitas vezes em homens que tinham paralisias, estupores ou ramo de ar; e também faz promover o sangue mensal e alimpar a madre o seguinte: duas partes do sumo de artemija e uma de sumo de arruda com uns pós de açúcar, de tudo uma onça até onça e meia para cada vez, morno, em jejum e de tarde, se quiserem, lançando-lhe umas pingas de água ao pisar e também o cozimento acima referido.
sendo em mulher
paralisia ou ramo de ar
17. Esta obstrução é de mais perigo que nenhuma das outras, por estar em membro muito principal, e, como assim seja, se deve tratar dela com todo o cuidado no princípio, se o doente der parte a tempo, e não se despreze, porque, ainda que são perigosas, eu tenho curado muitas e algumas delas já em ruins termos; nem se faça pouco caso dos remédios que aplico na consideração de serem fracos, que, antes, eu lhes chamo muito valentes por estarem no seu natural e obrarem com toda a sua virtude.
Se o doente estiver esquentado, que se fará
1. Muitas vezes acontece, e é mui ordinário nestas obstruções sendo antigas, haver grande calor, e, sucedendo assim, se não dará o vomitório que digo no princípio deste tratado, senão depois que o tal calor estiver temperado, salvo se houverem bastantes sinais de enchimento de estômago, que, neste caso, se dará e será em diminuta quantidade; e depois dele se temperará o doente se estiver esquentado com grande calor, o que se fará com banhos de água morna em canoa, que fique só a cabeça de fora, no qual banho estará enquanto a água estiver tépida, sendo em tempo quente e estando o sol alto; e não sendo com estas condições, se não devem tomar, e, nesse caso, se refrescará o doente com frangos feitos na forma seguinte: Limpo um franganito de pena e suas entranhas, se porá a cozer em uma panela de barro com folhas de chicória e de almeirão, ou de borragens, em quanto baste de água comum, que ferva e se coza bem para ficar em cinco ou seis onças de cozimento, que o doente tomará morno em jejum todos os dias sem mais coisa alguma; destes frangos usará, até se achar mais temperado e sem os calores que antes deles sentia, os quais me parecem mais convenientes que os banhos; cada um escolherá o que melhor lhe parecer, advertindo que os frangos não só me parecem mais convenientes para temperar e refrigerar os calores, senão também que em menos dias hão de fazer o seu efeito, do que os banhos, porque estes, não sendo tomados em grande número, como de sessenta até cem, não poderão fazer efeito, além de se não poderem tomar em todo o tempo; e, achando-se temperado, ainda que não seja de todo, poderá tomar o vomitório, se antes o não tiver tomado, e, não obrando bem ou havendo sinais que prognostiquem haver ainda enchimento no estômago, poderá tomar segundo e depois continuar com os mais medicamentos desobstruentes pela ordem que fica referida, ou se refrescará com algumas emulsões.
calores em obstruções
banhos de canoa
frangos
o numero de banhos há de ser grande 2. Digo que, ainda que não fique de todo refrescado, se continue a cura, porque, como o corpo está cheio de humores, não será fácil achar-se fresco de todo; e, tanto que o corpo se descarregar e ficar aliviado, terá a natureza aqueles inimigos menos e não terá já quem a oprima tanto, e com os remédios desobstruentes se desobstruirão as vias e canais para o sangue e mais líquidos se circularem melhor e, conseqüentemente, melhorará dos calores, como se verá na obstrução de Domingos Francisco de Oliveira que adiante escreverei; e não se use de soros em corpos cheios de humores, porque nada hão de obrar, como tenho visto e pelas razões acima apontadas.
causa por que os calores se não podem acabar de tirar com remédios frescos
3. Segundo as observações que tenho feito, assim nos meus doentes, como nos dos mais professores, médicos e cirurgiões, tenho achado com toda a certeza ser mais conveniente dar aos doentes os medicamentos preparantes e desobstruentes simples, quero dizer, sem nada purgativo, por discurso de seis dias, pouco mais ou menos, e, depois dos seis dias, tomar a purga, tornar a preparar outros seis dias e tornar a purgar, e assim enquanto for necessário, porque os preparantes ou desobstruentes preparam e desobstruem, ou abrandam os humores que estão duros e coagulados na obstrução e abrem os caminhos, vias ou canais para os purgantes acharem os caminhos abertos e os humores brandos, para melhor fazerem o seu efeito e lançá-los fora com menos moléstia e mais alívio do enfermo, porque, deste modo, são as curas de menos duração; o que não pode suceder misturando purgantes com os preparantes, porque obram muito pouco na doença, a meu parecer, salvo melhor juízo, e também porque os preparantes, misturados com purgantes, estes agravam e dão fadiga à natureza, pelos humores de que se formam as obstruções serem crassos e viscosos e por estarem infiltrados, coagulados e endurecidos, não podem os purgantes fazerem a sua operação; e, demais que, quem aplica os preparantes com purgantes, alguns lhe mandam ajuntar diagrídio para esporear os purgantes e, por força dele, é que os doentes fazem boa obra por curso, mas não na enfermidade, porque é fazê-los obrar por força; e, nesta forma, são eternas as curas, o que assim tenho visto fazer a médicos e cirurgiões, e não faltará nestas Minas quem tenha notícia, com toda a certeza, de serem estas curas de anos; e, pelo contrário, também há de haver alguém ainda vivo que tenha notícia, ou que tenha experimentado em si mesmo o contrário, tomando medicamentos pelo meu método, o que mais claramente se verá nas observações, onde nomearei alguns doentes, os quais servirão de testemunhas, se vivos forem; aliás, vizinhos ou parentes.
causa por que algumas curas são eternas
4. Digo o que tenho visto e o que entendo para bem dos enfermos, e não obrigo, nem violento o querer alheio; suposto isto, passo a tratar das observações desta obstrução no capítulo seguinte.
Capítulo III
De observações em obstruções do figado
Observação I
Do capitão Manuel Dias Leite
1. A primeira observação que fiz foi na Vila Real do Sabará, em o capitão Manuel Dias Leite, o qual me chamou para o curar de uma obstrução que tinha no fígado, não grande, e, seguindo o método curativo que atrás fica referido, ficou quase são, e como não tinha queixa que lhe desse moléstia, não quis mais cura, sem embargo que eu lhe dizia não estava são, por lhe achar ainda alguma dureza; passados tempos, tornou a crescer a obstrução, como assim havia de suceder; chamou médico para lhe assistir, mas não sei em que estado estava a obstrução, nem sei que remédios tomou; sei, sim, que lhe cresceu, de sorte que, ouvindo dizer que estava perigoso, o fui ver de curioso, e o achei meio assentado e meio deitado para poder tomar a respiração, que de outra sorte se sufocava; e assim esteve algum tempo, até que, da mesma sorte, veio a morrer hidrópico, sufocando-se-lhe a respiração pela compressão que o fígado fez ao bofe com a sua inflamação ou inchação e falando claramente em seu juízo perfeito até o último instante, com o corpo bastantemente inchado, principalmente o ventre, sem que o dito médico que lhe assistia lhe pudesse valer. E desta mesma sorte morrem todos aqueles que se não curam no princípio até ficarem sãos ou aqueles a quem se não aplicam os remédios mais genuínos a seu tempo.
Observação II
Do sargento-mor Gaspar de Brito Soares
1. No ano de 1719 me mandou chamar o coronel Francisco do Amaral Coutinho para ver ao dito sargento-mor Gaspar de Brito Soares, seu cunhado, morador em Ribeirão Abaixo, na freguesia de Bom Jesus do Furquim, e, por longe donde eu morava, pernoitei em casa do dito enfermo para o apalpar pela manhã em jejum, por me dizer cansava muito quando andava e tinha a respiração cansada, de sorte que, quando subia alguma subida, lhe era preciso parar e descansar; e, apalpando-o, lhe achei uma grande obstrução no fígado.
2. Depois de o ver, lhe perguntei em presença do dito coronel, seu cunhado, se queria lhe falasse a verdade do que entendia, à vista do que lhe disse tinha uma grande obstrução no fígado, membro muito principal, e que, se lhe não acudisse logo, mudando-se para a Vila do Carmo ou para a do Ouro Preto, onde havia médicos, corria a sua vida grande perigo de morrer hidrópico, como tinha visto morrer a outros nas Minas, e que, naquela paragem que era o seu engenho, chamado da Barra, mui distante, se não podia curar como convinha, por ficar longe de todo o necessário; ao que respondeu não podia mudar-se, porque lhe ficava a sua fazenda ao desamparo; entre outras razões me despedi, dizendo lhe não podia assistir.
3. Passado algum tempo, como viu que as queixas iam em crescimento, como sem dúvida haviam de ir, mandou chamar um médico de boa nota, o qual lhe deu uns pós para ir tomando em sua casa, dizendo que eram específicos, os quais tomou sem efeito algum; daí a duas semanas, pouco mais ou menos, mandou chamar a um cirurgião, o qual lhe disse que a sua doença não tinha perigo, e, dizendo-lhe o enfermo que eu lhe tinha dado o prognóstico de morte, respondeu que fosse para a Vila do Carmo, que ele lhe prometia assistir-lhe e restituí-lo a sua casa são, fazendo-lhe companhia e passando pela minha, por morar em caminho, para saber se morrera ou estava são.
4. Passados poucos dias com o bom prognóstico, se resolveu ir para a dita vila, e, indo eu dela para minha casa, o encontrei em companhia do sargento-mor José Cardoso Homem e do capitão Francisco do Rego Barros, aonde me apeei para lhe falar e ver o estado em que ia, o qual vi meio assentado e meio deitado em uma rede em que ia, que assim lhe era preciso para poder tomar a respiração, e, dando-me algumas palavras, vi que as não podia pronunciar sem grandes faltas e que se estava sufocando; dei-lhe algumas de consolação e que, já que não tratara da saúde do corpo a tempo, tratasse da saúde da alma e do seu testamento, enquanto Deus lho dava. Chegou à dita vila de noite, porque recomendei aos ditos dois companheiros não permitissem que o doente apanhasse sol no caminho, porque tinha grande perigo com ele de morrer sufocado dentro da rede em que ia, sem ninguém saber da tal morte; chegou na dita noite à dita vila, onde morreu sufocado daí a vinte dias, pouco mais ou menos.
Observação III
De uma obstrução no figado em André Rodrigues Lima
1. No ano de 1722 veio a esta minha fazenda de São Miguel do Bom Retiro de Itacolomi, freguesia da Vila do Carmo, André Rodrigues Lima, morador no arraial da Passagem, freguesia da mesma vila, a pedir-me o curasse, e, pernoitando em minha casa, lhe apalpei o ventre em jejum e lhe achei uma obstrução no fígado muito grande, que lhe causava bastante cansaço quando andava, e tinha o rosto desfeito e as maxilas, ou maçãs dele, vermelhas mais do natural, os pés inchados pela parte de cima e os tornozelos alguma coisa; à vista de tantas e tão grandes queixas, estava desconfiado de remédio, mas como sabia que eu tinha curado alguns achaques a que outros professores não tinham dado remédio, me pediu que - pois tinha muita experiência das Minas -lhe acudisse e valesse em tão grande aflição; e dizendo-lhe que tinha a minha lavra a que acudir, lhe não podia fazer assistência, que chamasse médico ou outro cirurgião, que não faltavam nas duas vilas vizinhas, a do Carmo e a do Ouro Preto, além de outros arraiais, onde não faltava quem lhe assistisse melhor do que eu, por lhe ficarem todos mais vizinhos e eu lhe ficava distante duas léguas e meia; ao que respondeu que ele viria em pessoa, a cavalo, se pudesse, ou em rede, a minha casa, ou mandaria informação para lhe ordenar o que havia de fazer; e que, quando eu pudesse ir vê-lo algum dia, seria grande favor além da satisfação, e, quando não pudesse ou não tivesse algum negócio para aquela parte, teria paciência só com as informações, e que assim se contentava. À vista disto, lhe ordenei fosse para sua casa e tomasse um vomitório de tártaro emético e depois disto me avisasse da obra, e como obrou bem, lhe mandei um frasco cheio do remédio desobstruente, na forma que fica dito, e, depois de acabado o dito frasco, lhe ordenei tomasse uma purga de pós cornaquinos verdadeiros de uma oitava de peso, para que, se tivesse algumas cruezas ainda no estômago, as alimpasse, para que os mais remédios que havia de tomar daí por diante obrassem melhor; o que assim sucedeu, porque obrou por uma e outra via admiravelmente.
2. Depois que me deu este aviso, lhe mandei outro frasco de medicamento desobstruente, e, depois que o acabou, o mandei purgar com uma oitava de resina de batata e, finalmente, assim foi tomando daí por diante medicamentos desobstruentes e purgas de resina em menos quantidade, recomendando-lhe muito a cautela no uso venéreo e mais coisas prejudiciais, e que, no tempo que tomasse o medicamento desobstruente, fizesse exercício moderado, com que sarou radicalmente, e, até o dia de hoje, que vão perto de dez anos, nunca mais se queixou da tal enfermidade, como ele mesmo dirá, pois ainda é vivo e morador ainda no mesmo arraial.
3. Em escravos meus tenho curado algumas destas obstruções pelo mesmo modo, e sempre sararam, como também a outros pretos e brancos para quem fui chamado, que, por haver muitos anos, me não lembram os nomes.
Observação de umas câmeras contínuas que não obedeceram
senão depois que lhe curei uma obstrução que tinha no figado
4. No ano de 1720 fui chamado para curar um bom escravo de Miguel Dias de Sousa, morador nas Lavras Novas, distrito da Vila do Ouro Preto, o qual tinha umas câmeras contínuas, de dia e de noite, havia perto de um ano, e, dizendo-me o dito seu senhor que tinha gasto muito com boticas, médicos e cirurgiões, e até remédios de curiosos, sem terem os tais cursos diminuição alguma, lhe respondi que não aplicava remédio sem lhe apalpar o ventre no outro dia, estando em jejum, para ver se tinha alguma obstrução, como presumia, por ter visto em outras ocasiões cursos e algumas outras doenças que não sararam, senão ao depois que se lhe curavam obstruções que tinham; e, com efeito, me não enganei, porque, apalpando-o no outro dia, lhe achei uma obstrução no fígado e levando-o para minha casa por ficar distante da sua e me pedir que, já que eu lhe conhecia a causa da doença, lhe havia de fazer mercê curá-lo, porque seria mais fácil a mim que a quem não tivesse experiência ou conhecimento da tal causa.
Foi, com efeito, e, curando-o na forma que fica referida, dando-lhe, por fim, algumas purgas de ruibarbo e, ultimamente, os pós de poalha, ou por outro nome pacacoanha, uma só vez, como se diz no tratado sétimo, cap. 17, núm. 7, sarou radicalmente, sem nunca mais lhe tornarem os tais cursos; e é de advertir que estava já resolvido a mandá-lo curar ao Rio de Janeiro, por lhe dizerem que nas Minas não havia de sarar.
Notícia de vários enfermos que perderam a vida por causa da
mesma obstrução 1. Na Vila Real do Sabará morreu um guarda-mor de datas de terras minerais hidrópico de uma obstrução no fígado, sufocado da respiração. Na dita vila, onde chamam o Arraial Velho, morreu um vendilhão, ou taverneiro, por nome João Pereira, de uma obstrução no fígado, hidrópico e sufocado da respiração. No rio de São Francisco morreu Pascoal Ferreira Ferro, hidrópico de uma obstrução no fígado e sufocado da respiração. Na Vila do Carmo morreu um homem chamado Brás Martins da mesma enfermidade. Na dita Vila do Sabará morreram mais dois homens da mesma enfermidade e do mesmo modo. No distrito da Vila do Ouro Preto, no arraial chamado o Corgo Seco, morreu um clérigo de tal enfermidade e do mesmo modo. Em Ribeirão Abaixo, distrito da Vila do Carmo, morreu Agostinho Monteiro da mesma enfermidade. No dito Ribeirão Abaixo morreu um homem de estimação, da mesma enfermidade.
2. Por não parecer ladainha e por não enfadar aos leitores, não aponto mais; estes bastarão para se saber que é mui freqüente esta enfermidade nestas Minas, e, à vista das observações que ficam referidas, poderão ter remédio, acudindo-lhes a tempo, antes que a obstrução do fígado se faça grande e passe à hidropisia, porque, ao depois, o seu remédio será a sepultura.
3. Ainda que para algumas pessoas pareça indecência o que agora direi, para outras que se quiserem aproveitar será de grande utilidade, e, por isso e não por outro motivo (que só Deus é verdadeira testemunha do meu zelo para com o próximo), digo que a maior parte destas obstruções procederam de beberem aguardente de cana continuadamente e com excesso, pois desta bebida continuada se formam, e, depois delas formadas, passam a hidropisias, e destas se segue a morte. E os que a não continuam com excesso não experimentam obstruções, sendo trabalhadores, mas nunca terão boas cores, nem boa vontade de comer e experimentarão muita secura; e, quanto mais bebem dela, mais sede experimentam, porque parece que uma está chamando pela outra, principalmente os que estão já tão casados com ela que, ou ela há de estar em casa ou eles; e o pior é que dizem os afeiçoados a ela que é maravilhosa para todos os achaques, dizendo dela milagres, porque a não podem largar; e se algum o faz, ou por vergonha de se ver desprezado ou porque se acaba de persuadir que é tão prejudicial à vida, à saúde e à bolsa, vendo morrer a tantos, a outros com o juízo perdido e a outros pobres logo tornam ao tal vício, até que, ultimamente, perdem a vida, depois de ficarem pobres.
4. Se me fora lícito nomear a muitos que hoje vivem, assim como falei em alguns que já faleceram, acabariam todos de se desenganarem do que é esta bebida, e, ainda que alguns têm notícia e conhecimento de algumas pessoas que perderam a vida por respeito dela, nem por isso se desenganam, assim como os viciosos de outros vícios, ainda que se vejam a espelhos muitos claros. Queira Deus acabem de conhecer que, não só estraga a saúde e tira a vida, senão também o crédito e a fazenda, ficando trêmulos de mãos, pés e cabeça, descorados, e outras muitas misérias, enquanto não acabam.
razões da ponderação
5. Os escravos não podem ter número, porque, como todos são os que a bebem, são infinitos os que morrem sem que seus senhores saibam a causa, sendo que não morrem por outra. Falo como testemunha de vista, e como tal advirto aos senhores deles que, quando algum lhe adoecer, examinem bem se será procedido da tal bebida, para que se lhe não faça a cura errada e morra sem sacramentos, que será o pior, sobretudo.
Capítulo IV
Da obstrução do baço e do mesentério, seus
sinais e sua cura
1. A obstrução do baço se conhece estando o doente em jejum, e, deitado de costas com os pés encolhidos, se lhe carregará com os dedos brandamente da parte esquerda naquele vão que medeia entre o estômago e as costelas mendosas, junto às ditas costelas, inclinando para a dita parte esquerda; e, se naquela parte se achar dureza e dor, será certo estar o baço obstruído, ou mais, ou menos.
obstrução cirrosa
2. A obstrução do mesentério se conhece estando o doente em jejum e, posto na dita forma, se lhe carregará com os dedos brandamente em cima do embigo e sua circunferência, carregando mais e menos, mandando que o doente tome a respiração em si, nem muito, nem pouco, em forma que a dita parte fique branda e não dura, porque, desta sorte, se perceberá melhor com os dedos se tem dureza e se é grande ou pequena; e também se verá se naquela parte tem alguma palpitação fora do natural, porque a natural é a mesma que tem as artérias nas mais partes do corpo, e a preternatural é indício certo de haver obstrução na artéria celíaca e seus ramos, e nas veias meseraicas ou mesentéricas; e, segundo a maior ou menor palpitação fora do natural, com a maior ou menor dureza, ou no mesmo embigo e sua circunferência, ou para alguma parte dele, assim será a obstrução maior ou menor.
3. Nota. Que a maior ou menor palpitação não é tanto perigosa, como a maior dureza, principalmente sendo a dureza sem dor, carregando-lhe que, se assim for, se pode reputar por obstrução cirrosa, como também na do fígado ou na do embigo, ou em algum lado dele, e, como tal, dificultosa de curar, por não ser fácil obedecer aos remédios e por estarem os humores muito coagulados, duros, frios e inobedientes aos remédios, que pelo tempo adiante vêm a matar ao enfermo, principalmente não obedecendo nada, mas, antes, indo a mais; sendo assim, ainda que se entenda é perigosa e que não obedecerá, sempre se lhe devem aplicar os remédios, recomendando muito que faça o exercício que puder e trate da obstrução com mais cuidado, antes que as vias ou canais se obstruam de todo e, de todo, pare a circulação do sangue e mais líquidos naquela parte e lhe comece a inchar todo o ventre e os pés; pois, tanto que se põem nestes termos, não podem os doentes fazer nenhum exercício, nem os remédios obram nada, por acharem os canais impedidos, por cuja causa vêm a morrer, como tenho visto morrer muitos, de que apontarei algumas observações.
o exercício é a melhor âncora para salvar os obstrutos
Capítulo V
De como se deve curar a obstrução do baço e do
mesentério
1. Conhecidas estas obstruções pelos sinais que ficam apontados, se curarão não do mesmo modo que a do fígado, mas com a diferença seguinte: o cozimento desobstruente se fará das mesmas raízes que ficam ditas, acrescentando-se mais da raiz de capeba, sem receio, porque nestas obstruções não podemos temer que a tal raiz, por quente, faça calor ou esquente o enfermo, como na do fígado; além disto, o cozimento se poderá purificar ao fogo com mel de pau ou lançado todas as vezes que o doente tomar a mezinha depois de quente, lançando-lhe duas ou três colheres em cada porção, que será de seis onças, mexendo com uma colher muito bem, e se tome quente, duas vezes ao dia, em jejum e antes do sol posto um bom pedaço. Este dito mel se lançará em lugar de açúcar, pois nestas obstruções lhe leva muito grande vantagem; e, em falta dele, servirá o de Portugal, sendo do melhor, tomando primeiro que tudo os vomitórios que forem necessários.
2. Os vomitórios de tártaro se devem aplicar nestas obstruções assim e da mesma forma que tenho dito na do fígado, e alguns mais interpolados no meio dos desobstruentes, havendo alguns sinais, ainda que poucos, de haver enchimento no estômago, porque nunca os obstrutos fazem bons cozimentos; e, no mais, se observará o mesmo método em preparar e purgar como fica referido, com tal condição que as purgas devem ser mais fortes e mais próprias para arrancar os humores frios de que estas se formam, como são as de resina de batata e de pós cornaquinos verdadeiros, as quais se darão em mais ou menos quantidade, respeitando o humor que estiver preparado, a idade do enfermo, o temperamento dele, as forças e a necessidade ou grandeza do mal, que a tudo se deve atender com muita aplicação e cuidado.
purgas na obstrução do baço devem ser mais fortes que na do fígado
3. A maior quantidade a que se pode estender o peso das purgas de resina é uma oitava, e também se podem dar de meia e de três quartos, quando o doente estiver com poucos dias desobstruente; as de pós cornaquinos se devem procurar que sejam dos verdadeiros, e o peso a que se pode estender é de uma oitava até oitava e meia; e são estas purgas maravilhosas em todas as obstruções.
peso das purgas de resina e de pós cornaquinos
4. Nota. Que algumas vezes acontece, principalmente sendo estas obstruções antigas, esquentarem-se os doentes, como é terem alguma febre e tanto calor nas costas que, dizem eles, podem assar ovos nelas, e com ânsia no ventre; ao que muitos professores tenho visto aplicar soros de leite, frangos, tisanas etc., parecendo-lhes que estes calores provêm de causa quente; e, na minha opinião, é engano, porque não procedem senão da mesma causa fria de que procedem as obstruções, e a razão é por estarem os canais obstrutos e não ter passagem livre, assim, a circulação do sangue, como as dos mais líquidos; e daqui se levantam vapores, que causam a dita febre e os ditos calores que tanto afligem alguns enfermos, e, por estarem estagnados e encrassados os humores frios naqueles vasos de que procedem os tais calores preternaturais, estes se desvanecem não com os ditos soros, frangos ou tisanas, que estes acrescentarão mais causa pela natureza fria e úmida de que constam, mas sim se remediarão com os desobstruentes que ficam referidos, e, logo, com purga de resina, para diminuir a maior carga de humores que são a causa, porque, diminuída ela, já o doente ficará com mais alívio, como a mim me tem sucedido e adiante mostrarei nas observações; e, se alguém tiver receio de purgar neste caso e quiser temperar o doente, sendo os calores demasiados, o poderá fazer com os frangos que ficam ditos na obstrução do fígado, ou com algumas emulsões, e, de nenhum modo, com soros de leite, ainda que sejam medicados, nem com tisanas ou banhos de canoa, ou de água corrente, de que muitos têm usado com pouco ou nenhum fruto, pois, desta sorte, estarão a curar as obstruções um ano e dois, e sem nunca sararem.
engano de calores
frangos e emulsões
um ano e dois, sem nunca sararem
5. Se o doente tomar os ditos frangos, advirto que não sejam continuados por muito tempo, salvo se for de natureza seca, que, neste caso, os continuará por mais algum, para se temperar e umedecer, que em naturezas ressecadas é preciso, e, depois que se achar mais temperado e úmido, então se purgará com a dita purga de resina em diminuta quantidade, para não fatigar ao enfermo; e, descansando um ou dois dias, se continuarão os desobstruentes, ou se purgará com meia oitava de pós cornaquinos verdadeiros, ou ad summum três quartos, e assim se irá prosseguindo a cura, como tenho dito; e também se poderá umedecer e nutrir com leite bebido, assim que sair do animal, sendo vaca, cabra ou burra.
natureza seca ou ressecada
6. Depois que o doente estiver purgado uma ou duas vezes, poderá beber de ordinário água cozida com raízes de capeba, que, por ser amargosa, não será muito cozida a primeira; e, depois que já estiver costumado a bebê-la, se cozerá mais, de sorte que fique alambreada, e, ainda que o doente a ache amargosa, tenha paciência, pela grande utilidade que se lhe segue, e não a beba com açúcar, se de algum modo puder passar sem ele, porque logo se acostumará, pois com ele sera de menos proveito.
água de raiz de capeba para beber de ordinário
7. Se a obstrução for grande, ou o doente quiser sarar mais brevemente, pode lançar na água de capeba, quando a quiser beber, cinco ou seis pingas de espírito de ferrugem, ou de cocleária para cada vez, pois é singular descoagulante, ou, em sua falta, as ditas pingas de tintura Martis, que, sendo a dita água de capeba admirável para ver circular o sangue e mais líquidos, podendo o doente bebê-la com o dito espírito, será um grande remédio desobstruente; e não havendo a raiz de capeba por não ser parte aonde a haja, poderá o doente beber água cozida com raízes de sapé, um molho para cada um dos cozimentos, e, na falta desta, será cozida com raízes de espargos e grama com algum dos ditos espíritos; mas a de capeba leva a palma a todas e depois dela a de sapé, e muito mais por estarem no seu natural.
espírito de ferrugem e tintura martis
8. Estando o doente já purgado uma ou duas vezes, poderá usar da fomentação que fica dita na obstrução do fígado, acrescentando-lhe meia cabeça de alho ou alguns dentes, conforme forem as mais coisas; e, feito o ungüento, se fomentará a obstrução do baço ou do mesentério, todos os dias à noite, pondo-lhe por cima uma folha de capeba passada pelo fogo, ou de papel; e se a dureza for grande, será melhor que tudo um pedaço de baço de boi ou de vaca, rachado ao meio e posto quente ao fogo; e, se for aonde não haja o picão, se faça o ungüento com as mais coisas de cebolas brancas, banha de porco, alhos, que agora acrescento, e alguns dos óleos que ficam ditos na dita obstrução, ou, em sua falta, com azeite doce, que o tal ungüento é o de que comumente tenho usado com admirável sucesso; porque, ao compasso que os desobstruentes e purgas vão obrando, vai esta fomentação desfazendo a dureza e a palpitação, sendo no embigo; e, nos dias em que tomar os desobstruentes, tomará ajudas purgativas das que ficam ditas no volume 1, página 253, todos os dias à noite, ou ao menos um dia e outro não.
fomentação
ajudas purgativas
9. No tempo que o doente tomar os desobstruentes, fará bom exercício, não sendo, porém, com demasia, mas sempre será maior o desta obstrução que o da do fígado; e advirtam todos que se não cansem, nem gastem o tempo ou dinheiro em quererem curar obstruções, sejam em qualquer parte que forem, sem o doente fazer exercício, pois faz os proveitos que se diz e outros muitos, ou use da receita na miscelânea.
não se gaste tempo, nem dinheiro em curar obstruções sem exercício
10. Achando-se o doente já sem queixa alguma, se o cirurgião achar que tem ainda alguma relíquia das queixas, se não empenhará a discutir todas as ditas relíquias, salvo se o doente as quiser acabar de extinguir, porque, no caso que não queira ou não possa, a natureza as poderá acabar de consumir, sendo, porém, ajudada de bom regimento e exercício, e bebendo água, de ordinário cozida com raiz de capeba ou, por outro nome no Rio de Janeiro, pariparoba, que, desta sorte, poderão esperar com bom fundamento que as relíquias se acabem e fique o doente seguro; e podem beber a tal água pelo tempo que quiserem, ainda que seja sem regimento, tomando algumas ajudas por dias interpolados, para que a natureza se vá costumando ao natural.
11. Eu conheci um homem, morador no Sabará, por nome Manuel Gomes Soares, e por apelido o Paciência, que, indo eu a sua casa, pedi água para beber, e, trazendo o portador um copo dela alambreada, lhe disse seu senhor fosse buscar outra, que aquela era particularmente sua; e disse então que aquela água era cozida com raízes de capeba e que a ela devia grandes obrigações, porque, curando-o o licenciado João da Rosa, húngaro, de uma obstrução e de uma oftalmia mui grande em ambos os olhos, lhe aconselhara, por fim, que fosse bebendo daquela água o mais tempo que pudesse, para ficar de todo são; e que havia já dois anos que a bebia, pela grande afeição com que lhe ficara e que nunca bebera de outra, e por isto o vi disposto, gordo e bem rosado.
exemplo
12. Depois que o doente acabar de tomar os medicamentos, observará os preceitos seguintes, por espaço de dois meses ou ao menos por cinqüenta dias, bebendo sempre a dita água: não molhará o corpo, nem trará os pés úmidos, nem enxugará camisa no corpo por nenhum caso, se a suar, que não será mau, tirando-a logo; não comerá coisas crassas ou de ruim digestão, nem coisa frias e úmidas, nem frutos ou frutas da terra, salvo, por necessidade, alguma banana de São Tomé assada; fuja de andar em jejum e de mulher, porque lhe fará gravíssimos danos.
preceitos que devem guardar inviolavelmente os enfermos desta enfermidade
13. Por este modo curativo se dará fim a estas curas em dois até três meses, e, quando a causa seja muito antiga ou as obstruções sejam muito grandes, tendo o doente bom regimento, poderão chegar quando muito a quatro, e não a um ano e a dois, como tenho visto a bons professores; mas estes usam de desobstruentes misturados com purgantes e eu nunca tal usei, nem usarei, nem aconselho tal se use, porque os desobstruentes purgativos agravam sendo fortes e, sendo brandos, ainda que causem menos gravação, também não têm fortaleza para fazerem destacar os humores de que elas se formam, por serem de sua natureza pegajosos e frios; e muito mais não sendo com boa preparação neles, o que digo pela experiência assim me ter ensinado, pois, aonde esta fala, emudecem todas as autoridades; e, demais, que os autores que até agora escreveram não sabiam deste clima das Minas, nem esta matéria de obstruções se acha muito adiantada neles.
tempo que poderá levar esta cura
um ano e dois
aonde fala a experiência, emudecem as autoridades 14. Do que tenho visto e observado nelas, apontarei algumas observações para melhor clareza e luz dos principiantes, quanto o tempo mo permitir, ainda que falto deste e do mais que em si têm os escritores, o que tudo a mim me falta; e não sou de parecer se use pílulas de aço, por ter visto delas ruins sucessos a alguns, e a outros muito pouco proveito, ainda que o aço seja bem preparado, nem tal remédio usei nunca, por saber que os que ficam referidos são mais seguros.
Advertência muito necessária
1. Antes que dê princípio às observações, quero advertir que, das raízes de capeba de que falo é da verdadeira, e desta há grande cópia em Ribeirão Abaixo, comarca da Vila do Carmo, no Gama, na Guarapiranga e em toda a comarca da Vila Real do Sabará, e em algumas partes mais, e é tão singular esta raiz que tem as virtudes seguintes:
2. Não sei que haja raiz mais desobstruente, nem mais vulnerária, nem que mais promova a circulação do sangue e mais líquidos, nem que mais purifique os humores, liquidando-os e desfazendo apostemas internos; e, sendo cozida com um bocado de raiz de butua, ainda melhor os desfará, que também há nestas Minas grande abundância, e a mais preta é a melhor, por cuja causa é admirável bebida nas quedas, por grandes que sejam, e desfaz também os inchaços ou contusões por fora do corpo, sendo fomentados por algum espaço de tempo com água bem quente deste cozimento, com uma pouca de aguardente do Reino, e pondo-lhe panos molhados as vezes necessárias, que tudo isto me tem ensinado a experiência que dela tenho e das mais ervas e raízes de que falo neste volume. As folhas têm diferente virtude, porque são adstringentes e se dá o seu sumo com grande aproveitamento aos que deitam sangue pela boca, adoçado com uns pós de açúcar em pouca quantidade.
desfaz apostemas internos infalivelmente, estando no princípio
também desfaz apostemas externos e contusões
sangue pela boca
3. Vejam agora os que costumam receitar para as boticas tudo quanto lhes é necessário para curar os seus doentes, sem atenderem a gastos, principalmente dos pobres, e muitas vezes baldados, com quanta maior razão e virtude obrarão os que estão no seu clima e natural com toda a sua força e vigor? Se obrarão melhor estes ou os que vêm das boticas de Portugal, passando a linha, onde tudo degenera, depois às boticas dos povoados desta América e delas as destas Minas, onde, em umas e outras, estarão anos e anos? Julguem os afeiçoados destes e pouco curiosos dos outros, quanta diferença irá, se será como de vivo a pintado; nem estes poderão negar que há muitos remédios, assim vegetáveis, como raízes, minerais e animais, a quem nosso Senhor deu virtudes excelentes (umas, que já descobriram, outras, que se vão descobrindo e se descobrirão ainda) para remédio de muitas enfermidades que eram trabalhosas de curar e hoje fáceis, como se não pode negar e se verá em muitas partes deste volume.
4. Advirto mais que, se houver algum enfermo desobstrução que não possa tomar, ou por medo ou por fraqueza, alguma das purgas de resina ou de pós cornaquinos, poderá tomar alguma mais branda, interpolada, como são os trociscos de Fioravanto, na forma que fica dito na obstrução do fígado, ou outra semelhante, como a cada um lhe parecer melhor; mas sempre devem propender para as que ficam ditas, se quiserem sarar mais breve e seguramente, porque só os medicamentos vigorosos arrancam e lançam fora maravilhosamente os humores frios às postas, que metem medo, e os brandos não têm fortaleza que façam isto, ainda que se esporeiem com diagrídio, que, na minha opinião, não é o melhor. O contrário disto é engano e diga cada um o que quiser.
se por medo ou por fraqueza não puder tomar purgas fortes, tomará trociscos de fioravanto
as purgas fortes lançam os humores frios às postas 5. Pelo modo que fica referido, tenho curado infinitas obstruções sempre com bom sucesso, e também tenho curado bastantes no baço e no mesentério com os remédios seguintes; mas era em escravos ou homens robustos.
6. Uma de raiz de capeba, sendo grande, ou duas, sendo pequenas, se cozam em dois frascos de água até ficar em um e meio, para o que se lançará o frasco e meio na vasilha em que há de ferver; estando com as raízes dentro, se lhe meterá um pau e se lhe porá uma marca pela medida da água, e depois se lhe lançará o meio frasco, que há de diminuir, e ferverá até ficar na dita medida, ou menos alguma coisa; estando assim, se tirem as raízes, e, no dito cozimento, se lance uma onça de batata em roda e outra de jalapa, também em roda; tudo pisado que fique grosso, se ponha a ferver em tacho bem limpo, ou panela vidrada, que será melhor, até que se gaste a terça parte; então, se lhe lancem duas oitavas de sene, com que dê uma leve fervura, e, tirado do fogo, se coe e torne a ele a purificar com sete ou oito onças de mel de pau, dando algumas fervuras, e, sendo necessário coado, se coe e guarde para o uso. Estando o cozimento de todo feito, se poderá guardar, e, quando o doente quiser tomar a sua porção, então se poderá lançar até duas colheres do dito mel, estando a dita porção quente para se mexer e beber.
7. Bem sei que quem entender da farmacêutica que há de condenar o mandar ferver a batata e jalapa, por serem resinosas, de que se não pode extrair a resina por este meio, que é a virtude purgativa, mas a mim me parece que, como são simples mucilaginosos, se lhe extrai a tal virtude e será bastante para ficar purgativo, quando se lhe não extrai da resinosa alguma parte; mas o que posso afirmar é que o tenho feito muitas vezes e que faz purgar muito bem, produzindo grandes efeitos, e o vi usar a um médico em muitos enfermos, o qual o tinha em segredo para curar os opilados que eram robustos, e é, sem dúvida, grande remédio, porque leva a água de capeba e o mel de pau, que ambos são grandes desobstruentes; e, no caso que não haja batata, se fará o cozimento com a jalapa e o sene somente.
a virtude mucilaginosa se extrai no cozimento para ficar purgativo
a água de capeba e o mel de pau são grandes desobstruentes
8. Deste remédio se dará ao doente, pela manhã em jejum e de tarde antes do sol posto, de duas onças até três, morno, o que se executará conforme a obra que fizer, porque, se obrar bem, tomará em jejum somente, e, se quiser tomar duas vezes cada dia, será menos quantidade, e assim se continuará até acabar o cozimento; e querendo-se fazer mais, se fará pelo mesmo modo, que, com este remédio, lançará o doente frialdades em grande quantidade; pode andar de pé fazendo seu exercício, mas não se molhará, nem andará por lugares úmidos, e, se suar a camisa, será obrigado a tirá-la logo; beberá de ordinário água cozida com raiz de capeba, e não será muito cozida, porque, tanto esta água como o dito remédio são quentes e não convém que o sejam muito; e, ainda que o doente sinta algum calor, veja se pode passar tomando banhos por baixo, sem largar o tal remédio, pois daí lhe resulta muito proveito; mas não podendo passar, continuando o remédio e bebendo a tal água, largue-a e beba água comum morna, e a outra a poderá beber fria a toda a hora, se a beber.
9. Também tenho curado algumas obstruções destas com urina de menino macho, sendo fresca e não antiga, ou de homem sadio misturada com mel de pau, a saber: três partes de urina e uma de mel, tudo bem misturado e quente se tome pela manhã em jejum e de tarde, em quantidade de três até quatro onças por cada vez, bebendo também água cozida com raiz de capeba, e fazendo exercício e tomando ajudas purgativas, ou todos os dias, ou um dia e outro não, por este remédio não ser purgativo. Estes dois remédios acima são remédios de pobres, ou também se poderá fazer outro de pouco custo, que eu tenho feito muitas vezes com bom sucesso, e é o seguinte: água de raiz de capeba bem cozida se lhe lance, de mel de pau, duas ou três colheres em quatro ou cinco onças do tal cozimento quente, e, mexido, se tome pela ordem acima; e advirto que todos os doentes que tomarem remédios purgantes, ainda que sejam ajudas, tenham muito cuidado de tomarem seus banhos por baixo, depois que acabarem de purgar, e também todos os que se sentirem com dores de cabeça ou moimento do corpo, por não caírem na grave enfermidade a que chamam corrupção-do-bicho, tão perigosa e tão fácil de curar, como se verá no seu tratado. E o mais a respeito destas obstruções se verá em algumas observações que adiante escreverei, aonde se alcançará alguma doutrina e circunstâncias que atrás não disse. A urina acima há de ser fresca e não de muitas horas.
urina com mel de pau cura opilados
remédios de pobres
a água de capeba com mel de pau cura opilados
quem tomar remédios purgantes, no fim deles tome banhos
Para curar obstruções em mulheres e fazer-lhe vir a sua
conjunção, quero escrever as observações seguintes
Observação em uma boa escrava do alferes João Rodrigues
Cortez
10. Morava este alferes na Vila Real do Sabará, em o arraial do capitão João de Sousa Neto, e tinha a dita escrava com febre contínua, dores muito grandes no embigo e por todo o ventre, e fastio grande, e estava muito magra e seca; chamou um médico, o qual lhe assistiu e deu variedade de remédios sem proveito e, por fim, lhe aplicou tomasse banhos de água fria em canoa, metendo todo o corpo nela, ficando só a cabeça de fora, para temperar e refrescar aquele grande incêndio de febre e umedecer a secura e magreza que tinha no corpo; e, tendo medo de lhe aplicar os tais banhos, me chamou, e, vendo a doente em jejum, apalpando-lhe o ventre, lhe achei uma obstrução no mesentério muito boa, e alguma no baço, tendo no embigo e sua circunferência uma grande palpitação; nestes termos, entendi que a febre, as dores, fastio e magreza lhe procediam das tais obstruções, e muito mais me certifiquei, perguntando se lhe vinha a sua conjunção, e, dizendo-me que não, tratei da obstrução dando-lhe um vomitório pequeno, com que obrou bem, e, dando-lhe os desobstruentes e purgas de rom, como fica referido no número 16 deste livro, se lhe extinguiu a febre e todas as mais queixas, ficando inteiramente sã e vindo-lhe a conjunção direitamente. É verdade que, como quando tomou uma purga de meia oitava de rom, pisado de fresco, lhe deram tanta água fria que fez uma obra extraordinária, e estava expirando se a não visito no mesmo dia de manhã e lhe acudo com confortantes ao estômago, de marmelada, vinho e pós de canela, e, pela boca, colheres de caldo-de-galinha temperado com pós de pedra-bazar e umas pingas de vinho; e os emplastos do estômago, estando frios, os renovava, com que se suspendeu a operação e ficou livre de todas as queixas em poucos dias.
Outra observação fiz em uma preta de um sapateiro por nome Hilário Simões, morador na dita vila, no arraial da Igreja Velha, a qual, estando como quem tinha o juízo perdido, com dores insuportáveis por lhe não vir a conjunção, lhe dei um frasco do medicamento desobstruente e uma purga de rom, com o que lhe veio o sangue e ficou sã.
Nesta enferma houve uma grande dúvida, porque, passando um médico, o chamou o senhor da escrava, e a mandava sangrar três ou quatro vezes cada dia, por ver os grandes terremotos que com as dores fazia, e que, se assim o não fizessem, morria; e, chegando eu depois, respondi que, se a sangrassem, teria uma doença dilatada, quando não fosse perigosa, e, se se não sangrasse e se curasse por meu voto, lhe faria vir a conjunção sem sangrias, o que disse por ter experimentado o remédio desobstruente que fica referido em outras muitas enfermas com bom sucesso. E, estando o tal Hilário Simões irresoluto no que faria, se seguiria a minha opinião ou a do médico, se resolveu, em conclusão, em seguir a minha.
Fiz logo um frasco do remédio desobstruente que fica dito na cura das obstruções do fígado no número 4 e, tomando-o pela manhã e tarde, se lhe foram diminuindo as dores e o sangue lhe veio ao terceiro dia; e tanto que se lhe acabou o mênstruo, que não correu muito, passados alguns dias lhe dei uma purga de rom e ficou sã, bebendo ambas estas enfermas água, de ordinário cozida com raízes de capeba, que, para desembaraçar o sangue mensal, tem particular virtude.
Capítulo VI
De observações nas obstruções do baço e do
mesentério
Observação I
De uma hidropisia em um religioso de São Francisco, de que
escapou milagrosamente, não bebendo água de nenhuma
qualidade no discurso de quarenta dias, comendo seco e
urinando muito
1. Na Vila Real do Sabará, em casa de Antônio Gomes, marido de uma mulher que cozia pão, moradores no arraial do capitão João de Sousa Neto, estava um religioso de São Francisco por seu hóspede, de idade, pouco mais ou menos, de 25 anos, ao qual não sei por que causa começou a inchar o ventre e a ressecar-se-lhe a câmera, de tal modo que nem com ajudas, nem sem elas podia evacuar coisa alguma. Chamaram-me para o ver e ao licenciado João da Rosa, húngaro, e lhe achamos alguma obstrução no baço e no mesentério, sem embargo que mal se podia perceber pela grande inchação com que estava. Aplicamos-lhe algumas ajudas brandas, por dizer que tinha usado das fortes, e com elas não obrou nada; aplicamos-lhe outras mais fortes, metendo no cozimento folhas de sene e depois azeite-de-mamona, por ser purgativo e laxante, e também óleos de amêndoas doces, com as quais obrava coisa mui pouca, e o que saía eram umas bolinhas redondas, duras e requeimadas; tomou alguns xaropes laxantes, tomou purgas e apózemos desobstruentes; com tudo isto fazia muito limitada obra por curso e na enfermidade se não via melhora alguma, antes, cada vez, ia crescendo mais a inchação, pela muita água que bebia, ainda que algumas vezes, dizia ele, que a bebia cozida com raiz de capeba, mas o mais do tempo a bebia da fonte, por estar já de todo desconfiado de remédio, não podendo obrar senão com puros gritos, coisa mui limitada e duríssima. Nesta consternação não havia remédio, senão o da morte, no que estava conforme e desenganado, tendo o ventre tão crescido e disforme que, andando de pé muito devagar, parecia um monstro, metendo medo a quem o via; e para se saber cabalmente o que seria esta inchação, desfez o seu cordão, e, pondo-o singelo no ventre, o atava pelas pontas. Neste último aperto, como o dito húngaro lhe não assistia havia muitos tempos, e eu passava todos os dias pela sua porta a ver outros doentes, o via também a ele lastimosamente, ao qual fui aconselhando que ainda tinha um remédio e que era o mais equivalente para aquela enfermidade que quantos tinha o mundo, e que, se o pusesse por obra, poderia nosso Senhor dar-lhe saúde com muitos anos de vida, e rompendo no remédio, que era não beber água pouca, nem muita, por discurso de trinta ou quarenta dias, e que tudo quanto comesse havia de ser assado; respondeu que mais depressa acabaria os dias de sua vida, que bem poucos seriam, ao que acudi, dizendo que o primeiro dia, o segundo e até o terceiro, que experimentaria grande secura e vontade de beber, a qual sempre teve grande, mas que, passado o terceiro, não sentiria a falta de água e urinaria bem, e comeria o comer seco, assim pão, como biscoito, carne, galinha, frango, etc., com boa vontade. Levou-me esta diligência alguns dias para o convencer, dizendo-lhe que, visto estar em tão manifesto perigo, experimentasse o que eu lhe dizia e veria se era certo; ultimamente, ajudado do dono da casa e de outras pessoas, acabei com ele a fazer a tal experiência, recomendando-lhe muito não fraqueasse na tal empresa, e foi caso prodigioso, porque tudo quanto lhe disse experimentou.
cordão franciscano desfeito pelas pontas 2. Nos primeiros dois dias experimentou grande necessidade de água, mas como tinha quem o confortava e vigiava por ordem minha, custou-lhe muito; ao terceiro dia, já lhe custou menos, porque até a este lhe concedi que comesse galinha cozida e bebesse o seu caldo ao jantar somente, e os mais comeres, tudo seco; ao quarto, começou a comer seco, almoço, jantar e ceia, e neste dia já experimentou menos sede, urinando muito bem; ao quinto, já pouco lhe lembrava o beber água; ao sexto, nada. Em um deles começou a cursar e, daí por diante, comendo sempre seco, carne de vaca, galinha, frango e franga com biscoito bem seco, começou a ver melhoras, abaixando-se-lhe o ventre e fazendo melhor exercício, de tal modo que, ao compasso que iam passando os dias, iam as melhoras em aumento, até que, no discurso de quarenta dias, ficou de todo são e com o corpo em sua forma natural; e tanto que eu o vi neste termos, lhe disse que despejasse as Minas, e assim o executou.
Observação II
De uma obstrução no mesentério
1. Na Vila Real do Sabará curei a um molecão de Manuel da Silva Gramacho, no ano de 1712, de uma obstrução no mesentério, não muito grande, mas fazia-o cansar constantemente, porque todo o corpo, ou seus canais, tinha bem obstrutos, o que se manifestava pelos olhos e língua, porque tudo tinha bastantemente branco, por cuja causa não servia bem a seu senhor, sendo que era bom escravo; e, pedindo-me o dito seu senhor que lhe aplicasse algum remédio de pobre, porque lhe era muito necessário para vender a sua hortaliça, de que vivia, e que havia de andar na rua, lhe ordenei bebesse todos os dias da sua própria urina, por não haver outro na casa mais sadio, misturada com mel de pau, duas vezes cada dia, sempre morna, e bebesse água cozida com raiz de capeba e tomasse algumas ajudas purgativas; assim o executou, fazendo exercício, comendo carne assada e farinha seca, com os quais remédios, pelo discurso de dois meses, pouco mais ou menos, veio a sarar sem purga, nem mais coisa alguma, de que o dito seu senhor, por muitas vezes, me deu o agradecimento de cura tão barata.
2. A outras muitas pessoas curei com este mesmo remédio, de quem me não lembram os nomes, porque se têm passado muitos anos. Do remédio de batata e jalapa que fica dito pudera escrever muitas observações, se me lembrassem também os nomes das pessoas, mas só digo que lhe chamava remédio particular, o qual era buscado de muitas pessoas pela facilidade com que curava; da obra que fazia, do pouco que custava, andando de pé, se admiravam as gentes.
Observação III
De uma obstrução no mesentério e na artéria ilíaca, ou celíaca,
em Domingos Francisco de Oliveira
1. No ano de 1729, morando eu nesta minha fazenda de São Miguel do Bom Retiro, de Itacolomi, veio ter comigo Domingos Francisco de Oliveira, morador meu vizinho rio abaixo no seu engenho, e me disse que, havia perto de dois anos, se andava curando de uma obstrução; que, no princípio da cura, chamara um médico e que alguns meses lhe assistira na Vila do Carmo, para onde ele dito se tinha mudado, deixando a sua casa para melhor ser assistido, porque se achava com grandes calores, aonde tomara vários remédios frescos, e que não tivera com eles melhora alguma, antes se achara mais esquentado; e, como era de pouca paciência, se mudara para o arraial da Passagem e chamara outro médico, o qual lhe assistira dois meses, pouco mais ou menos, refrescando-o pelos grandes calores com que se achava e, não sentindo melhoras, chamara uma castelhana curadeira, ou, para melhor dizer, comedeira, com quem ajustara dar-lhe, por cada dia, uma oitava de ouro ficando são, a qual lhe tinha assistido perto de dois meses e não achara melhora alguma com as suas mezinhas, antes com pioras; e, como tinha gasto muito ouro e padecido gravíssimas moléstias, me pediu o curasse e lhe pedisse da cura o que quisesse, pois não queria que outro cirurgião ou médico o curasse mais; ao que respondi que, à vista de tão bons professores lhe terem assistido por tantos tempos, pouco poderia eu fazer, ou nada; e instando com toda a força, dizendo que não reparava em ouro, lhe disse que viesse no outro dia, em jejum, para o apalpar, e que veríamos o estado em que estava a obstrução, e, se na minha mão estivesse o remédio, lho daria.
2. Veio no segundo dia e lhe achei uma grande obstrução no mesentério e com grande palpitação nas suas veias e na artéria ilíaca, e também tinha alguma obstrução no baço, e me disse tinha tão grandes calores pelos lombos que bem podia neles assar ovos, tendo também alguma febre; e dizendo-lhe a enfermidade que tinha, me disse que, ficando são, daria uma libra de ouro, ou, por outro nome, um arrátel, ao que não pus dúvida, sendo os medicamentos da botica e os mais que eu não tivesse, à sua custa, no que ficamos ajustados e entrei a curá-lo na forma seguinte:
3. Não fazendo caso dos calores, lhe dei um vomitório de tártaro emético de seis grãos de peso, com que fez muito boa operação, por uma e por outra via; e, descansando um dia, começou a tomar o medicamento desobstruente que fica dito na cura destas obstruções; e, depois que tomou um frasco dele, lhe dei uma purga solutiva de resina de batata com uma oitava de peso, por estar com forças e em boa idade, com a qual fez uma copiosa obra; e, descansando dois dias, se achou com menos calores, por estar a natureza com menos carga de humores, os quais calores eram a maior queixa que o atormentava; e, por isso, eu dizia que estes tais se não curavam com leites, banhos ou tisanas, mas sim com preparar os humores e lançá-los fora, pois são a causa material dos tais calores preternaturais. No fim dos ditos dois dias tornou a continuar outro frasco do medicamento desobstruente, que cada um lhe durava seis dias, e no fim dele o tornei a purgar com outro vomitório do mesmo tártaro, por ter sinais de ter algum enchimento ainda no estômago, com que fez boa obra e ficou com melhoras nos calores, que antecedentemente experimentava; e, descansando dois dias, tornou a tomar meio frasco do medicamento desobstruente, e, acabado, o purguei com três quartos de peso de resina, com que fez boa obra; e, depois disto, o mandei descansar alguns dias para lhe ver a obstrução em jejum, a qual achei muito diminuída, com menos dureza e menos palpitação. Foi continuando do mesmo modo, desobstruindo e purgando, com o que ia passando com grandes alívios, advertindo que, depois que tomou o primeiro vomitório e deu princípio a tomar os primeiros desobstruentes, lhe mandei beber água pouco cozida com raiz de capeba; e, depois que tomou a segunda purga de resina e se achou melhor dos calores e mais descarregado do corpo, lhe ordenei mandasse cozer a água de capeba mais e lhe fiz em minha casa a fomentação que fica referida, para ele usar dela em sua casa, fomentando o embigo e sua circunferência e a região do baço, todos os dias à noite, com ela quente; e lhe ordenei mais que, no tempo que tomasse os desobstruentes, tomasse também ajudas purgativas, um dia e outro não.
calores se não curavam com leites, banhos, frangos ou tisanas
4. Na dita forma foi continuando com gosto de ambos e admiração de muitos, por ele publicar as muitas melhoras que tinha alcançado; e, imaginando eu que o tinha quase são, me mandou chamar um dia, dizendo que lhe fosse acudir, porque estava para morrer, ao que respondi por um escrito que, visto fazer desmanchos, o não curava mais, e, tornando a repetir o aviso dizendo estava com o corpo todo inchado e que, sem dúvida, morria se lhe não acudisse, fui vê-lo e o achei inchado desde a cara até os pés, de tal modo que a camisa lhe não chegava no pescoço, o peito fazia cova onde se lhe carregava com o dedo, o ventre bem crescido, a bolsa dos testículos bastantemente inchada e luzente e, finalmente, as pernas e os pés muito bem inchados, cedendo ao tato, ou fazendo cova, carregando-lhe; andava de pé, mas mui devagar, porque a bolsa dos testículos lho impedia, andando com as pernas abertas; o peso que sentia em todo o corpo e o susto com que estava lhe faziam a enfermidade maior e mais perigosa; e, sem embargo que nunca quis confessar a desordem que fizera, fiquei certo em que tinha feito desmancho grande e com excesso.
inchação de todo o corpo e bolsa dos testículos
5. Nestes termos dispus que logo tomasse uma oitava de pós cornaquinos, por me persuadir que ainda tinha enchimento no estômago e em todo o corpo dos mais humores, com que fez uma extraordinária obra, assim pela boca vomitando cóleras e venenos que a ele o pôs em admiração, como por baixo frialdades aos pedaços e outros humores. Depois desta grande descarga, ficou quase desinchado de todo e, no outro dia, lhe mandei tomar umas pingas de espírito de ferrugem, lançadas na água que havia de beber a toda a hora que quisesse, a qual havia de ser cozida, primeiro com raiz de capeba e de salsa das hortas; e, descansando dois ou três dias, lhe mandei tomar outra purga dos mesmos pós cornaquinos, com que fez boa obra, mas não tanta, e ficou de todo desinchado.
pós cornaquinos para o corpo todo inchado
espírito de ferrugem na água, para beber
6. Nota. O primeiro vomitório que lhe mandei tomar foi para tirar as cruezas da primeira região, que sempre nestas Minas abundam, pelos mantimentos se converterem nelas pela maior parte, e, muito principalmente, nos obstrutos, que, quase tudo quanto comem, se lhe converte em cruezas no estômago; e com os desobstruentes preparava e diluía, ou descoagulava, os humores, e com as purgas os lançava fora, uma e tantas vezes quantas eram necessárias; e, desta sorte, cada dia a natureza se ia achando mais aliviada e os calores diminuídos, pela circulação do sangue e mais líquidos se acharem mais desembaraçados; e o inchar-lhe o corpo não só teve por causa o desvario que teve no uso venéreo, (que depois me chegou a notícia) como por estarem os humores muito adelgaçados com os preparantes e pouca descarga para respeitar à grandíssima abundância deles, que tinha adquirido em perto de dois anos que estava com esta queixa, convertendo se-lhe o que comia em cruezas, sem tomar mais remédios que os frescos e algumas purguinhas brandas (respeitando os calores) aplicadas pelos dois médicos que lhe assistiram, temendo-se que as fortes exasperassem os tais calores. E, pela dita extraordinária obra que fez com a oitava de pós cornaquinos, se verificou a grande abundância que ainda tinha de humores, tendo tomado as outras purgas que ficam ditas. Depois que tomou a segunda purga dos ditos pós cornaquinos, ficou com o corpo em sua forma natural, e, daí por diante, lhe ordenei não bebesse de outra água, senão da que fosse cozida com raiz de capeba e de salsa das hortas, e que, ao tempo que a quisesse beber assim fria, lhe lançasse umas pingas de espírito de ferrugem, com a qual urinava mais do natural, por serem as ditas raízes diuréticas e com o espírito diuréticas e descoagulantes. Assim foi continuando e tomando algumas ajudas purgativas para irem evacuando a natureza e regular melhor os remédios, continuando sempre com a fomentação que fica dita no volume 1, página 300.
os obstrutos, pela maior parte, tudo quanto comem se lhe converte em cruezas
raízes diuréticas
7. Daí a alguns dias lhe apalpei as obstruções em jejum e lhas achei quase de todo extintas; foi continuando com a dita bebida por espaço de vinte dias, pouco mais ou menos, ajudas e fomentações; e, passados eles, tomou uma purga de resina de três quartos de peso, para acabar de alimpar o corpo dos humores que estivessem diluídos e preparados, com que ficou de todo sem cansaço, sem calores e sem queixa alguma até o dia de hoje, tendo-se já passado três anos.
8. Das obstruções do baço e do mesentério não tenho que tratar mais, por me não dilatar; e, quem as curar pelo modo que tenho exposto, não poderá deixar de alcançar bons sucessos, mediante a graça divina, como eu há tantos anos tenho alcançado, não sendo estas curas de tanta despesa, nem de tanto tempo, como sendo curadas por outros meios, como outros professores as curam.
9. Quem se achar em parte onde não hajam as raízes que deixo referidas, poderá fazer o cozimento das seguintes: raízes de grama, de funcho, de salsa, de aipo, de borragens, de alcaçus, folhas de agrimônia, de douradinha, de avenca, de borragens, de orégãos, de nêveda, de hissopo, todas, ou parte delas.
10. A purga também poderá ser do modo seguinte; suposto branda, repetir-se-á mais vezes. Recipe. No que baste do cozimento acima, altere de sene oitava e meia, e se infunda, de agárico trociscado de fresco meia oitava, e, coado, solte de xarope de Nicolau onça e meia, xarope Pérsico uma onça, aromatizado com grãos, cinco de canela fina, faça-se bebida.
Um cirurgião lanceta um bulbo de um paciente. (Gravura em
madeira, anônima)
Um médico discute com o farmacêutico a composição dc um
medicamento. (Gravura em madeira, anônima)
1 Grafia atualizada de comuas, forma antiga utilizada pelo autor.
2 S.A. - Abreviação latina de secundun arten, "conforme, de acordo com a arte".
3 Cornaquinos - Grafia atualizada de cornachinos, forma antiga utilizada pelo autor.
4 Pilula - Grafia atualizada da forma antiga pirola, utilizada pelo autor.