Erário mineral
15. Tratado VIII – Da enfermidade a que chamam corrupção-do-bicho, suas causas, seus sinais, seus prognósticos, sua cura e suas observações
Tratado VIII
Da enfermidade a que chamam
corrupção-do-bicho, suas causas,
seus sinais, seus prognósticos, sua
cura e suas observações
Que coisa é corrupção-do-bicho?
1. Corrupção-do-bicho não é outra coisa senão uma largueza e relaxação do intestino reto e seus músculos, ou, por outro nome se chama o sesso, mais ou menos largo; e, segundo a maior ou menor largueza, assim será a maior ou menor corrupção.
As causas desta enfermidade quais são?
2. As causas desta enfermidade são um calor extraordinário que aquela parte adquire, ou por ser o tempo mui calmoso ou a região ser muito cálida, como são os Brasis, ou por haver pouca limpeza na tal parte, passando-se muitos dias ou semanas sem se tomarem banhos, ou também porque, havendo alguma febre, se não tomam, sendo então mais precisos, ou porque, havendo alguma pessoa que tenha cursos, não toma os ditos banhos, sendo muito necessários para lavar e refrescar aquela parte, pelas quais causas se relaxam os músculos daquela parte e se abre, umas vezes menos e outras mais, de tal modo que, não havendo grande cuidado em se remediar a tal largueza, em breves dias tira a vida.
3. Isto é o que se chama corrupção-do-bicho, e não porque haja bichos naquela parte, como imaginou Antônio da Cruz, escrevendo desta doença no fim do seu livro, um tratado extenso, dizendo que esta doença procedia de bicho ou bichos que se criavam na tal parte e que era necessário matá-los enquanto pequenos, o que fez por falsa informação que lhe deram; e o chamarem-lhe corrupção-do-bicho logo direi a razão que houve para isso.
Sinais desta enfermidade, estando no seu princípio
4. Conheceremos que algum doente tem princípio de corrupção porque terá dores de cabeça e de costas, moimento de corpo, espreguiçamento dele e com alguma febre ou muita, e o tempo será calmoso pela maior parte.
Os prognósticos quais são?
5. Os prognósticos desta enfermidade no seu princípio não têm perigo algum, mas, se não se remediar com todo o cuidado e vigilância, sem se desprezar, passará à largueza grande e grande corrupção, pondo-se o doente em perigo evidentíssimo.
Estando a corrupção no princípio, como se curará?
6. A primeira coisa que se deve fazer é assentar-se o doente em uma bacia de água morna e tomar um banho, lavando e chapejando o sesso muito bem e por muitas vezes; se o doente tiver notícia desta doença, meterá o seu próprio dedo na via para ver se tem alguma largueza, mas há de advertir que se há de espremer e tomar puxo para aquela parte se abrir, que, de outro modo, ainda que esteja com alguma largueza, o não conhecerá; e se não tiver a tal notícia, lavará e meterá o dedo quem a tiver, mandando que o doente puxe como quem quer fazer câmara ou, ao menos, que não aperte a via, para se vir em perfeito conhecimento se há ou não a tal largueza; e se não a houver, bastará tomar alguns banhos para sarar das ditas queixas, porque também poderão proceder de almorreimas, e com os ditos banhos ficar livre delas, como a muitos têm sucedido.
7. Mas, havendo alguma corrupção ou largueza e a pessoa for de melindre, como tenho visto, e não queira tomar ajudas, fará um limão em quartos, que será dos pequenos, e, estando no banho, meterá os quartos do limão que puder dentro da via e se deixará ficar com eles dentro e, sendo à noite, se deitará na cama e dormirá com eles dentro, que pela manhã acordará são das queixas antecedentes; e, não querendo meter o limão por causar algum ardor, que pouco será e se o não causar será sinal certo de largueza maior, e, então, com mais diligencia, se deve meter e tratar dela; ou, não havendo limão, se poderá usar de fios e panos molhados em leite de peito com algum pó de alvaiade que fique linimento e, depois de tomado banho, se porão os tais fios e panos molhados no linimento morno, e segurados para não caírem; ou se molharão em água-rosada com os mesmos pós; e também podem servir claras de ovos bem batidas com sumo de erva-moura, ou de tanchagem, ou de serralha, que todas estas coisas são frescas e temperam o grande calor daquela parte, e por isso muito convenientes nesta doença, e para as almorreimas que estão na mesma parte, são remédios muito bons; e [se] a qualquer deles ajuntarem um bocadinho, conforme a quantidade do remédio, de açúcar de chumbo, terão um remédio muito admirável, pois, em almorreimas saídas fora e tão dolorosas que nem água tépida podiam os doentes sofrer, têm feito sarar a alguns que estavam com dores insofríveis, fazendo um linimento brando com leite, água-rosada, poucos pós de alvaiade, e sutilíssimos, com açúcar de chumbo, tudo bem misturado, e pondo os fios molhados a miúdo e sempre com calor muito moderado.
quartos de limão
para as almorreimas, remédio admirável
8. Mas, se a pessoa não for de melindre, haja ou não haja corrupção ou largueza, havendo as tais dores de cabeça, moimento do corpo e dores nele, ou espreguiçamento depois de tomar o banho, tome ajudas de cozimento de erva-do-bicho, assim chamada por ser aprovadíssima para a tal enfermidade e na América de todos conhecida, que logo farei memória dela para se conhecer em Portugal, pois a há em várias partes sem dúvida alguma, e também posso afirmar com toda a certeza haver no dito Reino a tal enfermidade; esta dita erva, cozida muito bem, deste cozimento se tira a calda necessária para ajuda e se lhe lança algum sumo da dita erva e umas pedras de sal, sem mais coisa alguma, morna se aplica as vezes necessárias, com seus banhos ao menos duas vezes cada dia, manhã e tarde.
9. Havendo quaisquer queixas das referidas, se deve fazer todo o sobredito sem desprezo e sem descuido, porque tenho visto haver algumas e não se perceber largueza, havendo-a mais interna que externa e, pelo pouco caso ou ignorância, morrerem alguns doentes falando, pelo que recomendo muito se trate desta doença no princípio, pois custa tão pouco; para alimpar e refrescar aquela parte e proibir que se não laxem os músculos com o calor e umidade e se abra a via mais, antes se apertará com os ditos remédios, pela limpeza e frescura deles.
Descrição da erva-do-bicho, de que trato
10. Esta erva costuma nascer em touças com muitos nós e muitos braços, metendo-se uns pelos outros, não muito alta; as folhas são compridinhas a modo da folha da oliveira, mas mais compridas; dá umas espigazinhas compridas com flor, uma casta dela branca e a outra a modo de vermelha; a sua semente voa com o vento, por cuja causa um pé produz muitos; em pouco tempo nasce e dá-se bem em terras úmidas e por perto de água; nestas Minas há grande abundância dela, e, pela específica virtude que tem para doença chamada corrupção-do-bicho, todos a estimam muito, e porque ninguém pode estar sem ela, quem se muda para algum sítio novo a primeira coisa que leva para ele é alguns pés dela para plantar, porque a cada passo é necessária, principalmente para escravos. E o melhor sinal que tem para se conhecer é, mastigando as suas folhas, queimarem na boca, e tem os seus paus vermelhos. Em Portugal também a há, com certeza, e com a mesma certeza a tal enfermidade; eu a tenho visto neste Reino de Portugal em várias partes, a que chamam erva-pulgueira.
Sendo a corrupção grande, como se conhecerá
11. Conheceremos que algum doente tem grande corrupção porque a febre será ardente e as partes externas de todo o corpo estarão muito esquentadas, haverá muito sono, grandes dores de cabeça, o corpo todo moído com dores de costas e alguns chegam a ter delírios; e o sinal mais certo é fazendo-se o exame e achando-se a via larga, pois estas corrupções grandes com facilidades se conhecem.
Como se curam estas
12. A primeira coisa sempre deve ser o banho, para ver em que estado está a corrupção, metendo-lhe o dedo como deixo referido, e, se entrar somente a ponta do dedo, não se deve temer muito, mas se entrar o dedo todo com facilidade se deve temer mais; e, se a parte estiver tão larga que não só entre o dedo senão outra coisa mais grossa se se lhe metesse, este caso já é mui perigoso e se lhe deve acudir com todo o cuidado, pelo que, não estando ainda neste extremo, se lhe dará seu banho e logo sua ajuda de cozimento da dita erva bem cozida, para lavar e alimpar o intestino reto das viscosidades que neste caso sempre têm, lançando-se-lhe ajuda morna de tanto cozimento, como de sumo da dita erva, com algum sumo de limão e umas pedras de sal desfeito na dita calda, com a qual estará o mais tempo que puder sem a lançar fora; e, depois que a lançar, tomará outro banho, e nele meterá dentro na via algumas pílulas feitas da mesma erva pisada e amassada com algum sumo de limão, molhando as tais pílulas em água em que tenham desfeitos algumas pimentas malaguetas, e, se for em Portugal, desfarão na tal água um ou dois pimentões; e com estas pílulas metidas dentro da via estará o doente, ou o farão estar, o mais tempo que for possível, porque, assim retendo dentro tanto as ajudas como as pílulas, lhe resultará grande proveito.
entrando o dedo ou coisa ainda mais grossa
13. Estes banhos, ajudas e pílulas se continuarão três e quatro vezes cada dia, tomando o banho primeiro, depois a ajuda e, lançando-a fora, outro banho, e nele as pílulas, que, sendo assim, alcançará muito grande proveito e as melhoras que deseja.
14. Mas, se for algum acidente ou por descuido a corrupção for a mais, ou porque, quando se lhe acudiu, era já tarde e a corrupção era grande, neste caso tome um banho bom, que é o mesmo que lavar bem aquela parte, e, enxuta com um pano, se lhe lançarão ajudas como as ditas acima, espertando-as mais ou fazendo-as mais fortes, ajuntando-lhe no cozimento da erva algumas pimentas, ou sejam malaguetas, ou de qualquer das outras, pisadas e desfeitas, ou dos pimentões; e, depois de lançar ajuda fora, tome outro banho e nele meta dentro da via pílulas, balas ou buchas da dita erva pisada e de folhas dos olhos de algodão, ou das suas maçãs ou botões antes de abrirem as flores, e, depois de tudo isto pisado, se lance esta massa em um prato e se pulverize com pó de verdete em pouca quantidade, mas sejam os pós bem sutis, porque, em lugar de curarem, não vão fazer alguma chaga no intestino, o que não farão indo finos e com alguns grãos de pólvora desfeita em sumo de limão e umas pedras de sal, como deixo referido; se misture tudo na massa e dela se façam as pílulas que forem bastantes, que muitas vezes se metem seis, oito e dez, conforme a largueza que há, estando ou fazendo estar o doente com elas o mais tempo que puder, e, lançadas fora, tome outra ajuda para lavar o intestino e alimpar as corrupções e as viscosidades que estão pegadas às paredes do dito intestino que fazem a tal corrupção e largueza, as quais, algumas vezes, são tão fétidas e de mau cheiro que não há quem as possa tolerar; e, quando saem as pílulas ou buchas, trazem pegadas em si tal máquina de humor pegajoso que faz admirar, o qual, com o dito calor que deixo referido, faz as corrupções e algumas vezes chaguinhas no tal intestino.
indo a corrupção a mais
os pós de verdete sejam finos, por nao fazerem chaga
15. As pílulas, ou balas, serão mais ou menos conforme for a largueza, porque há algumas tão grandes que é necessário meterem-lhe muitas, como já mandei fazer muitas vezes, por ver que as larguezas eram grandes, como mostrarei em uma observação que fará admirar a quem lhe quiser dar crédito.
observação que fará admirar
16. Feita a massa como acima fica dito e a primeira cura assim, do mesmo modo se farão as mais, advertindo que esta corrupção se deve curar a miúdo, que será de duas em duas horas, ou de três em três, dando lugar a comer o doente e a fazer cozimento, porque, como é enfermidade perigosíssima, não admite demoras.
como e enfermidade perigosíssima, não admite demoras
17. Digo que é perigosíssima e que não admite demoras porque, quando os doentes chegam a este estado, estão muito prostrados de forças, amodornados e muitas vezes com delírios ou sem fala; então, é preciso acudir-se na forma que tenho dito, pelo grande perigo de vida que os está ameaçando, com tal condição que, se com duas ou três curas se não achar a via mais apertada, se façam as ajudas com mais pimenta, e, se forem das cumaris ou malaguetas, serão melhores, e a massa com mais pós de verdete bem finos, e a massa bem revolvida, mais pólvora e mais sumo de limão, carregando também mais no sal, assim nas ajudas, como na massa, porque é muito contra as corrupções todas; e se os limões forem dos pequenos, chamados galegos, serão melhores, por serem mais fortes e azedos.
com delírios ou sem fala
massa com mais pós de verdete e mais pólvora
18. Sendo possível fazer-se a massa com todos os simples que digo, se metam as pílulas dentro do intestino reto e, sendo necessário, se tape a boca dele com um pano, sendo a largueza grande para que a massa não saia para fora, como já vi e mandei fazer em uma largueza monstruosa, que, por estar muito larga, a via não retinha dentro ajudas, nem massa.
19. Digo que as ajudas e massa se sofram dentro ou se façam sofrer por algum tempo, porque, como aquelas viscosidades e humores pegajosos, grossos e languinhentos estão pegados às paredes do intestino reto, é preciso que haja dilação e assistência do remédio na parte para fazer o seu efeito, que é despegar os tais humores, as ajudas lavando e tirando os mais delgados e a massa os mais grossos.
viscosidades e humores pegajosos ou languinhentos pegados nas paredes do intestino reto
20. Assim se continuarão banhos, ajudas e massa e, sendo necessário, se ponha o doente com a cabeça mais baixa e os pés mais altos, e a traseira, para melhor se reterem os medicamentos dentro para fazerem o seu efeito e não adquirir a parte podridão e gangrena, como já vi, pois, se assim suceder, o seu remédio será a sepultura.
cabeça mais baixa e os pés mais altos
o seu remédio será a sepultura
21. Depois de saído os humores viscosos, ficam chaguinhas (como já disse), as quais se curam com os mesmos remédios que ficam apontados, como a experiência me tem mostrado inumeráveis vezes; digo que ficam chaguinhas ou escoriações porque tenho observado que, enquanto não saem os tais humores grossos, não sentem os doentes com ajudas nem massa dores algumas, e, tendo-os lançado, logo sentem dores e ardores mui grandes, pois, estando já as paredes do intestino limpas, ainda que as ajudas ou massa sejam brandas, as sentem, o que não acontece antes, como tenho observado e visto; e, tanto que os tais doentes sentem as ajudas brandas, é sinal de que o intestino está limpo, e, neste caso, se vê ou se mete o dedo na via, e, achando-a apertada ou mais apertada do que estava de antes, se pode findar a cura com as tais ajudas brandas ou com talhadas de limão e banhos, como digo no princípio deste tratado, ou com os outros remédios frescos.
22. E, se houver quem diga que os remédios que aponto são fortes para onde há calor grande e que deviam ser mui frescos, respondo que os frescos são muito bons para o princípio enquanto não há corrupção ou largueza grande, porém, para o depois, quando a via está carregada e cheia de humores, e larga, só os que têm virtude forte para os arrancar poderão vencer a tal enfermidade, apertar a via e, conseqüentemente, livrar ao doente da morte com toda a segurança; pois, quando estes o não fizerem ou outros semelhantes, os brandos, de nenhum modo o farão; responderei mais que a experiência de vinte anos a esta parte me tem ensinado que as ajudas do cozimento das folhas da dita erva com sumo das suas folhas são admiráveis para o princípio e para todo o tempo, o que alguma razão não pode contradizer, pela experiência ser melhor mestra; nem também se pode duvidar que Deus, Senhor Nosso, lhe tenha dado alguma virtude oculta para curar esta tão terrível enfermidade, e tão perigosa.
virtude oculta
23. É tão certo o seu perigo que ela tem metido na sepultura a muitas mil pessoas, assim pretos como brancos, principalmente no Sertão chamado do rio de São Francisco, caminho muito continuado das praças do Brasil para estas Minas, aonde eu estive doente cinco meses de sezões que se malignaram, de que escapei pela providência do Altíssimo, e nesse mesmo tempo corrupto e largo por muitas vezes, curando-me da tal largueza pelo mesmo método que tenho referido, aonde presenciei, curei e vi curar e morrer a multidão de pessoas, por ser aquele clima calidíssimo e as águas sempre quentes, encharcadas e corruptas, que, para se beber delas, se mandam tomar muito de madrugada; e algumas vezes os viandantes lhe põem lenços para beber em cima deles, das quais bebem também e se espojam quantos bichos imundos e venenosos há; e só se livra melhor de sezões e, conseqüentemente, de corrupções e larguezas quem a bebe quente no fogo, onde se apura, assentando no fundo da vasilha as suas fezes. As sezões, ou maleitas, que muito oprimem os habitadores e viandantes daquele Sertão também têm metido na sepultura a muitas mil pessoas, pela razão já referida, principalmente na seca, quando a força do sol é mais intensa e o dito começa a encher, por ter a sua origem daí muitos centos de léguas, segundo alguns afirmam, não havendo ninguém que até o dia de hoje saiba ao certo o seu princípio, e, por isso, se pode contar no número quinto dos grandes do mundo.
esta doença tem metido na sepultura a muitas mil pessoas
o autor esteve largo e corrupto por muitas vezes
muitas mil pessoas
rio de São Francisco com muito centos de léguas
24. Os que vi morrer sem os poder remediar foi por lhes ter passado de largueza a podridão, ou gangrena; uns morrendo falando, outros sem falarem palavra mais que gemendo e outros, por mais robustos, querendo resistir de pé, caíam no chão, e, nesse dia ou no outro, davam a alma a seu Criador; os que estavam sem fala, cuidavam os sãos que eles estavam dormindo e os achavam na outra vida; todos os que chegam a estar muito largos, ou corruptos, ou a morrerem, lhes sucede por culpa sua de se lavarem, tomarem banhos e ajudas, ou meter quartos de limão, assim que se sentem com dores de cabeça, fazendo pouco caso, como já vi, por quererem antes morrer que tomar uma ajuda; a um vi que, dizendo-lhe tomasse ajuda, que estava com corrupção, por ter más cores e andar com as queixas ou sinais que ficam apontados, respondeu uma leviandade, mas ia-lhe custando caro, porque cuidei que não escapasse; caiu no chão, sem já se poder ter em pé; só então consentiu banhos, ajudas e pílulas, tudo mui forte por estar muito largo, de que livrou com muito trabalho.
os que não se puderam remediar foi por lhes ter passado de largueza a podridão, ou gangrena
um sujeito, por não tomar uma ajuda, disse uma leviandade, mas ia-lhe custando a vida 25. Nota que, havendo largueza e corrupção-do-bicho, por nenhum caso se lance azeite, óleos ou coisas untuosas nas ajudas, porque, certamente, se laxará e abrirá mais a parte, e se tomar uma sangria que seja, o seu remédio será a sepultura; e a purga fará o mesmo pela maior parte.
óleos, azeite ou coisas untuosas não convêm, nemsangrias, nem purga em corrupção-do-bicho
26. Nota mais que a esta doença se chama corrupção-do-bicho não porque haja bicho vivente naquela parte, como deixo referido, mas sim porque os primeiros que no Brasil conheceram esta doença, de que morreu gente sem número em certo tempo, como logo mostrarei, lhe deram este nome, e daí por diante se lhe ficou chamando assim; e, suposto não acertaram no último nome, o primeiro lhe deram com muita propriedade, porque, sem dúvida, é corrupção e largueza.
os primeiros que no brasil conheceram esta doença lhe deram o tal nome
27. Dizem algumas pessoas antigas, e a mim me parece ser certo sem dúvida, que, naquela fatalíssima doença que há muitos anos houve na Cidade da Bahia, chamada "a bicha,” que naquele tempo era doença reputada por peste, da qual ficaram muitas casas de família sem pessoa alguma, morrendo todos largos e corruptos por baixo, sem que ninguém desse em tal causa, senão ao depois, procedia dos grandes calores que há na tal cidade a maior parte do ano e que, fazendo aos tais doentes todos os remédios da Medicina, não escapava pessoa alguma a quem dava o dito mal; e que, na consideração de ser peste, meteram nas ruas da cidade muito gado vacino, andando com ele de uma para outra parte, e que nela dormia; assim é tradição na dita cidade, aonde eu o examinei e é sem dúvida; e dizem mais que, depois que deram em se lavarem por baixo e a tomarem ajudas da erva-do-bicho, que logo foi o mal cessando e não morrera mais ninguém; e, como viram que o lavar e tomar banhos era o seu remédio, daí lhe ficou o costume que hoje há em todos os habitadores da América, e muito principalmente nas mulheres, em o fazerem a miúdo, ou todos os dias, como é certo, e quiçá que não haja outra razão para elas serem menos cometidas de tal doença, como sem dúvida o não são; e como a doença que matou a tantas mil pessoas se lhe deu o nome de "bicha,” e se viu a largueza e corrupção da via, se denominou o nome em corrupção-do-bicho; e também, como se deu naquela erva tão excelentíssima para curar doença tão terrível, se lhe deu também o nome de erva-do-bicho, como geralmente se chamam a estas duas coisas.
doença da bicha, que doença foi
tradição naquela cidade
costume na América
razões por que se chama corrupção-do-bicho e a erva por que se lhe deu o tal nome
28. Como a causa desta doença é o excessivo calor, como disse no princípio deste tratado, e esta região do Brasil foi reputada dos antigos por zona tórrida e inabitável, enganaram-se, porque é habitável, e também se enganaram em parte, porque não é tórrida, suposto bastantemente cálida quase todo o tempo do ano, que só nos meses de maio, junho, julho e alguma parte de agosto são meses mais temperados; que, nos mais, é calidíssima, por passar por ela o Sol duas vezes no ano e por ficar dentro nos trópicos, o que também sucede no Rio de Janeiro, suposto em tempo diverso, e é clima mais temperado e por tudo mais apetecido.
clima do Rio de Janeiro é mais temperado
29. É tão certo proceder esta doença de grande calor e dela morrer inumerável gente que a primeira vez que embarcou por capitão-de-mar-e-guerra José de Semedo acompanhando a frota para o Rio de Janeiro, com mais duas naus de guerra, se meteram muito na costa de leste, aonde as calmas e faltas de ventos são muito certas e se demoraram as naus muitos dias, por cuja causa foram adoecendo e morrendo muitos soldados, sem que os cirurgiões se entendessem com tal doença, porque, sangrando-os morriam, purgando-os morriam e de todo o modo se iam lançando ao mar.
costa de leste
30. Discorrendo todos em que os que adoeciam morriam e que as naus iam ficando sem soldados e marinheiros, resolveram em que se chamasse um médico filho do Rio de Janeiro que ia embarcado em um navio mercantil de passagem para a sua terra, por ter acabado o seu tempo de Coimbra, o qual, indo ver os doentes, os mandou lavar por baixo e ver no banho se estavam largos na via, e, fazendo-se a tal diligência, se acharam todos largos e corruptos, o que fez na consideração de que estavam os navios em calma e fazer tanto calor que ardia a gente e os doentes com os sinais de corrupção, o que percebeu por lhe lembrar que, na sua terra, era muito comum a tal doença; e, assistindo nas naus alguns dias, não morreu mais pessoa alguma pelos mandar lavar a miúdo e refrescá-los com todas as coisas frescas que havia. Isto me consta por pessoa fidedigna que embarcou na tal frota e diz que foi bem notório e bem lembrado este caso.
médico que ia embarcado deu remédio para não morrer mais gente
31. Neste Reino de Portugal, onde cheguei há poucos meses, é certo haver esta doença pela padecer já por duas vezes; e, falando eu nela a um sacerdote de verdade, me afirmou morrera no castelo de Lanhoso um médico, em poucos dias, sangrando-se, e que, indo a lavarem-no para o amortalharem, lhe acharam a via com uma largueza muito grande; e falando eu nisto a outras pessoas, dando-lhe os finais, me certificaram ter morrido algumas pessoas desta tal doença, e é certo que no estio e tempos calmosos, os doentes que têm febres ardentes são, pela maior parte, acometidos desta enfermidade, e como os médicos e cirurgiões que não têm passado a América a ignoram, não é muito de admirar que assim suceda.
em Portugal há esta doença e a cura dela se ignora, e o seu conhecimento 32. O padre Francisco Fernandes Paulino, morador na Cidade do Porto, no bairro chamado as Hortas, me certificou que, indo ver uma sua irmã que estava enferma junto a Guimarães, a achara com os sinais de corrupção-do-bicho, o que conheceu por ter andado pelo Brasil, e, vendo-a com perigo de vida, mandou metê-la em um banho de água morna e ensinou a uma mulher o que havia de fazer, e achando a via muito larga, assim que chegou o médico que lhe assistia, lhe disse a doença que sua irmã tinha, e lhe declarou o que tinha visto no Brasil e os que tinham morrido, e o remédio, ou remédios, que se lhe deviam aplicar; não esteve o tal médico por tais razões, antes respondeu que tal doença não podia haver e que ele bem sabia a doença que curava, e, ainda que o dito padre instou com toda a força como irmão, e dizendo que, se não curasse sua irmã daquela doença que certamente morria, lhe não valeu de nada; com efeito, dali a dois dias morreu; e disse mais o dito padre que, se não tivera receio de ficar irregular, lhe havia de fazer os remédios que entendesse para a tal corrupção, ou de ser denunciado pelo tal médico, por ficar agastado, no caso que ela morresse por estar perigosa, como veio a morrer. Há poucos dias, me disseram, morrera um moço com os sinais certos desta mesma doença, sem ninguém a conhecer.
quem tiver corrupção ou opilação sem se curar destas, se não curem outras queixas, ainda que as tenha, e a razão por que
33. Nota que, quem tiver esta queixa ou esta doença, ainda que padeça outras enfermidades, lhes não faça remédio algum sem primeiro curar esta, assim como os opilados, que ainda que tenham as queixas que tiverem, se não curarem primeiro a opilação estarão livres de curar a tal doença que, com a opilação, se complicar; e quem não observar estes dois preceitos ou advertências, ou não curará os tais doentes ou dará com eles na cova infalivelmente; e curada a corrupção, ou opilação, sucede algumas vezes ficarem as outras queixas curadas ou mais fáceis de se curarem.
34. Digo que, quando algum doente tiver corrupção junta com outras quaisquer queixas, não faça remédio algum a elas sem primeiro curar a tal corrupção ou largueza, porque se põe o doente em grandíssimo perigo de perder a vida, principalmente sangrando-se ou purgando-se.
35. Costuma esta doença fazer largueza tão grande e corrupção, como mostrarei na observação seguinte, a qual folgarão de ver curiosos, os principiantes e todos para fazerem muito caso desta doença, assim que sentirem dores de cabeça, pois, com um par de banhos, se podem livrar de chegarem a tão miserável estado, como chegou um pobre moço, de que entro a tratar.
Observação de um moço que estava já sem fala por causa de
uma corrupção e largueza tão grande que lhe cabia uma mão
fechada pela via dentro muito à vontade, da qual, por mercê de
Deus e indústria minha, recuperou a vida e a saúde
36. No ano de 1708, vindo eu da Cidade da Bahia pelo Sertão para estas Minas, estando doente de sezões, que se malignaram, e corrupção-do-bicho, que me acometeu por várias vezes, que por mercê de Deus escapei de ir povoar um cemitério de muitas cruzes, postas cada uma à cabeceira de cada defunto na mesma ordem que passava à estrada, na paragem chamada a barra do rio das Velhas, na fazenda do mestre-de-campo Manuel de Queirós, aonde me vieram chamar, estando de cama, para ver se podia ir ver um moço que estava expirando em outra casa que servia de hospital, em que não faltavam doentes curados à custa do dito mestre-de-campo dono da fazenda, com muita caridade e amor, fui ver o tal moço encostado a um bordão por ser muito perto, e me disseram que a causa de morrer era o estar tão largo por baixo que não retinha dentro na via ajudas, nem buchas ou pílulas, porque, assim que lhas lançavam, no mesmo ponto saíam, o qual estava agonizando sem dar mostras de que estava vivo, senão uns baixos gemidos. Tomei-lhe os pulsos e lhos achei com intercadências a miúdo e muito fraquíssimos; mandei logo chamar o dono da fazenda e lhe pedi mandasse vir dois pretos para pôr aquele doente com as pernas para cima, encostado a uma parede da casa; e fazendo-se assim, sustentando-o para que não acabasse de expirar, lhe mandei abrir as pernas; aqui, fiquei mais que admirado por ver a via tão larga que, muito à vontade, lhe cabia por ela uma mão fechada, que a todos fez pasmar o grande buraco que tinha, vendo-se por ele os intestinos. Confesso que me não parecia que a via se pudesse abrir tanto, mas, depois disto, me disse um amigo que, no Sertão, vira outro caso semelhante em um camarada seu; estando este doente nestes termos, o mandei pôr no chão a descansar, enquanto, com toda a pressa, se fazia uma massa, que ordenei fosse feita dos ingredientes seguintes:
massa forte para corrupção grande
37. Folhas bastantes de erva-do-bicho, cabeças ou olhos de algodão, e suas maçãs ou botões, tudo muito bem pisado e pulverizado com pós de verdete bem finos, lançando-lhe uma pouca de água em que se tenham pisado e desfeito algumas pimentas e um bocado de pólvora, tudo bem desfeito, misturado com a massa, e, depois, a mesma massa, tornada a pisar com sumo de limão, em forma que se pudessem fazer balas, buchas ou pílulas grandes, que toda a massa era um prato cheio; mandei levantar o doente na forma primeira e, abertas as pernas, lhe mandei lançar aquela massa, fazendo dela bolos ou bolas e, lançada dentro, lhe mandei pôr no buraco umas ceroulas amparando com a mão, para que a massa não saísse; mandei deitar o enfermo e assim descansou um quarto de hora em minha presença para ver se sentia a massa ou não, dando algum sinal de lhe arder.
38. Como vi que não dava sinal de sentimento, mandei tirassem o pano e, assim que se tirou, saiu tudo para fora, tão cheio de langanhos e humor viscoso que tudo veio coberto dele; e, vendo eu que a falta de sentimento não era por culpa da massa, mas sim por causa do muito humor que estava pegado às paredes do intestino, ou intestinos, lhe mandei fazer uma ajuda forte das que ficam ditas, para lavar e alimpar, ordenando que, ao lançar a ajuda, levantassem o doente com as pernas e a traseira mais do que o mais corpo, para reter a ajuda dentro, pois, de outro modo, era impossível retê-la, a qual, deste modo, esteve dentro algum tempo, e, quando a lançou, trouxe bastantes humores.
39. Enquanto tomou a dita ajuda, se fez outra massa mais forte com mais pós de verdete e mais pólvora, e os mais simples que ficam ditos, a qual se lhe meteu dentro estando com as pernas para cima, como da primeira vez; metida e tapada a via com um pano, se largou o doente a descansar, tendo-se conta que não saísse a massa; e, passado pouco tempo, como a outra massa e ajuda tinham tirado os humores e aquela parte ficou mais limpa, começou o enfermo a dar mostras de sentimento, remexendo-se, sinal que estimei sumamente por me dar melhor esperança de vida; deixei-o estar assim bastante tempo, e cada vez se mexia mais e gemia, sempre com o pano e a mão posta em cima dele, e, passado o que me pareceu, mandei tirar o pano e logo saiu a dita massa coberta do mesmo humor, como da primeira vez; mandei-lhe dar um banho para refrescar aquela parte e moderar os ardores externos, e também parte dos internos, e logo lhe mandei lançar outra ajuda do mesmo, estando do mesmo modo, a qual sentiu muito bem, e, lançada fora, tomou outro banho, sustentando-o nele e, dado, o deixei descansar para beber um caldo-de-galinha; e indo descansar para a minha cama, ordenei lhe dessem outro banho e, depois dele, lhe tornassem a meter mais massa.
40. Assim se continuou, ficando de cura em cura mais apertada a via, até que, em menos de oito dias, se levantou o doente são, sem queixa alguma, ficando assim os mais doentes como os sãos, admirados por não fazerem conta que aquele escapasse da morte, falando, no mesmo dia, em que havia de dar contas a seu Criador se não fora socorrido com os remédios que ficam ditos, e foi depois que sentiu a massa, como os que estão com modorras, que não sentem as ventosas, senão com muito fogo, ou sarjadas.
41. Esta foi a maior corrupção que tenho visto e por ela se pode fazer juízo certo de que uns perdem a vida por falta de diligência, outros por falta de indústria e também por falta de conhecimento.
42. Inumeráveis seriam as observações que tenho feito se as escrevesse, mas porque me parece escusado gastar tempo nelas pelo que deixo referido, e porque já hoje é enfermidade bem conhecida no Brasil, passo a tratar dos resfriamentos no seguinte tratado:
43. Depois de ter este tomo escrito, me certificam algumas pessoas, falando eu nesta doença, que é certo haver neste Reino a tal doença, sem que, até o presente, ninguém a conheça, e que o adágio de dizer o povo "tal está fulano que já não aguarda uma ajuda" é, sem dúvida, que é porque a via está muito larga; é, logo, conseqüência certa que este tal tem a tal doença, e como estes não hão de morrer, se não se lhe fazem os remédios para a tal queixa, nem há conhecimento dela! Ora, acabem todos de se desenganarem: façam-lhes os remédios que ficam referidos e verão se falo verdade. Eu já padeci esta doença neste Reino por duas vezes; de uma, se me foram as dores de cabeça com um lavatório por baixo, tendo alguma largueza, como coisa de milagre; de outra, não quis cessar a dor de cabeça, largueza na via e frios senão mantendo quartos de limão na via, que, ficando para o outro dia dentro, amanheci são.
Instrumentos cirúrgicos. (Gravura do livro Cirurgia, de Hieronymus
Brunschwig)