Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 9 de 31

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Erário mineral

1. Prólogo: ao leitor

Prólogo: ao leitor

 

Grato leitor, se a tua gratidão fosse igual à vontade com que desejo servir-te, não teria lugar a maledicencia, nem faltaria quem te gratificasse o gosto com novos pratos de semelhante manjar; mas como é muito antigo o dissabor que causa a mordacidade dos críticos, por isso, e com razão, fogem muitos sujeitos de engenho o saírem à luz com seus escritos, e, pela mesma, estão sepultados muitos remédios que podiam dar saúde a muitos enfermos ou serem mais fáceis e breves as curas de muitas enfermidades, porque se não pode negar que quanto mais cresce o tempo, mais alcançam os homens; mas como a censura é já muito antiga em todos quantos autores dão ao prelo seus escritos, já eu estou desenganado de ser mais censurado que pessoa alguma, assim por ser o primeiro que escrevo das enfermidades das Minas do Ouro, como por reconhecer as muitas faltas que neste pequeno tomo ofereço.

Por ser o primeiro, não me deves argüir, antes merece a minha curiosidade algum louvor, pois saberás que, para escrever estas notícias de clima tão remoto e de remédios ainda não escritos em menos tempo de um ano tendo a precisa ocupação de mineiro, o não fizera se não fosse movido de alguns confessores e amigos e por servir à república destas Minas, povo tão dividido e tão numeroso, compadecendo-se das calamidades que padece, pelas ter visto.

Se for censurado por escrever da Medicina sendo professor de Cirurgia, respondo que a Cirurgia é parte inseparável da Medicina; e, demais, que, nas necessidades da saúde, os cirurgiões suprem em falta dos senhores médicos, e, com muita razão, em tantas e tão remotas partes que hoje estão povoadas nestas Minas, aonde não chegam médicos, nem ainda cirurgiões que professem Cirurgia, por cuja causa padecem os povos grandes necessidades. Para remediar estas e dar luz aos principiantes nesta região, sai a público este Erário Mineral Se o for por não escrever cirurgicamente, respondo que o meu intento não é satisfazer políticas, mas sim remediar necessitados, conforme o tempo me deu lugar; e como haviam de entender os ignorantes da Medicina e Cirurgia, se não fossem ensinados com o modo ordinário com que se explica o povo? Que esta é a maior razão por que assim o faço e por escrever para todos se aproveitarem nas suas necessidades, lembrando-me do que achei escrito, que disse Santo Agostinho (desejando aproveitar a todos) que, antes, queria ser censurado dos gramáticos que mal entendido dos rústicos, e, demais, que a galantaria no dizer, suposto dá mais graça, não dá melhor crédito; e, se o for por algum da minha faculdade, não causará isso admiração.

Conheço que, sem que valham estas e outras justificações, diz o grande doutor São Jerônimo que ninguém, por bem que escreva, se livra de censuras, porque, como adverte o ínclito Crisóstomo, as coisas não se julgam pelo que são, mas pelo afeto de quem as ajuíza: da mesma flor tira a vespa o amargoso e a abelha o suave.

Escrevo observações e não autoridades, e também te revelo os segredos que tenho alcançado por minha indústria sem alguma reserva, como fazem todos os autores, em que se acham alguns de prodigiosas virtudes para enfermidades grandes, e um excelentíssimo e único remédio, ainda não escrito mas bem experimentado, para escorbutos, ou mal de Luanda, que também, por minha indústria e diligência, alcancei assim de seu autor, como de um grande ministro, o que se manifesta no último tratado deste volume; e nisto poderás conhecer a vontade com que desejo servir a todos.

São os prólogos um antecipado remédio aos achaques dos livros, porque sempre andam de companhia os erros e as desculpas; eu não peço perdão de nada, quem achar que dizer não mo perdoe, nem será necessário encomendá-lo; os que forem mais amantes de palavras que de obras comprarão os livros mais pelo feitio. Tudo o que escrevo é para honra e glória de Deus e para proveito do próximo, e nem espero o teu agradecimento, nem temo a tua calúnia. E se, como diz São Jerônimo, no tabernáculo de Deus cada um oferece o que tem, no teatro do mundo cada um diz o que sabe, ou o que pode.

O mais ignorante é o que mais presume, razão por que a tudo se atreve o que mais ignora; por que há de ter ânimo para censurar o que outros escrevem quem não teve brio, nem aplicação para escrever? Nenhum está tão longe de si como o desvanecido, nem tanto em si como o considerado. Se queres aproveitar, não leias para escurecer; lerás para saber, se leres com os claros do teu juízo; forma desta obra o que te parecer.

Se nela achares algum lucro, desconta o mau em satisfação do bom; e, se tudo te parecer inútil, faze outra melhor e dá louvores a Deus, que repartiu contigo tanto, dando aos outros tão pouco. Ele te guarde.