Erário mineral
17. Tratado X: Dos danos que faz o leite, melado, aguardente de cana e advertências para conservação da saúde
Tratado X
Dos santos que faz o leite,
melado,aguardente de cana e
advertências para conservação da
saúde
Capítulo I
Do leite
1. O leite, sendo na estimação de muitos um bom prato, é, na verdade, muito prejudicial à saúde, porque a primeira coisa que faz a quem o continua é tirar-lhe e extinguir-lhe a vontade de comer; a segunda é fazer obstruções e introduzir flatos e outras várias queixas procedidas das tais obstruções; a terceira é introduzir más cores, queixas tão custosas de curar, como penosas a quem as padece; e para bem se perceber o que é o leite, façam a seguinte observação:
2. Quando mugirem as vacas, lancem sempre o leite em uma panela, e, no discurso de poucas semanas, vão ver a tal panela por dentro, e verão que, se for vidrada, estará o vidro em algumas partes comido e no barro seus buracos, e se a panela não for vidrada, serão os buracos maiores, tudo procedido da malignidade dele, e para melhor inteligência refiro as seguintes observações:
Observação no padre Francisco Fernandes Paulino 3. No ano de 1731, morava em Vila Real do Sabará o padre Francisco Fernandes Paulino, o qual me chamou passando pela rua e me disse que andava de pé, mas que ia morrendo sem saber de quê; perguntei-lhe de que se queixava; respondeu que lhe não doía nada, mas que se não podia ter em pé, nem dar um passo, senão com muito vagar e jeito, porque, se pusesse um pé mais baixo que o outro, sem dúvida cairia no chão; e olhando para as cores do rosto lhas vi pálidas, o semblante triste, o coração amortecido e, finalmente, sem gosto algum em coisa desta vida, nem gostar de gênero algum comestível.
4. Perguntei-lhe em que se sustentava; respondeu que em nada, porque nada comia, e, fazendo-lhe várias perguntas e dando a elas resposta, veio a dizer, em conclusão, que só sustentava a vida em uma gota de leite bebido ao jantar e à noite, e que se não fora aquele limitado sustento, estaria já na sepultura, ao que respondi: "Ora, meu padre, se comer ou beber mais leite, fica condenado à morte dentro de poucos dias, sem remédio algum,” e instando comigo que não podia comer outra alguma coisa desta vida, e que, se lhe proibia o leite, morria mais depressa, ao que lhe respondi que excogitasse o que lhe apetecesse e o comesse e de leite fugisse como de um inimigo que estava com um bacamarte para lhe tirar a vida; e o deixei.
5. Resolveu-se, enfim, em largar o leite, e pela melhora que logo foi experimentando, disse que, sem dúvida, morria se o continuasse, e não só eu lhe disse que o largasse, senão também o licenciado João da Rosa, húngaro, que defendia o leite fortemente, como mais experimentado e ciente; e ficou o dito padre são em poucos tempos das queixas que, enquanto continuou o leite, padecia, e da grande debilidade de forças em que estava; mas não das más cores, que lhe ficaram e conservou enquanto assistiu nas ditas Minas, e hoje se acha na Cidade do Porto.
6. Muitas têm sido as pessoas que se me têm queixado de não poderem comer coisa alguma, nem o apetecerem, tendo muito ruins cores no rosto; e examinando se comiam leite e dizendo-me que sim, lhes declarei o perigo em que se iam pondo, e que, enquanto comessem leite, estavam livres de terem vontade de comer, e, largando-o, me deram ao depois o agradecimento do bem que lhes fizera.
7. Em minha casa se experimentou o mesmo, porque, tendo sobrinhos e sobrinhas, e também algumas vacas, continuaram estes em comerem leite, ainda que lho mandava impedir, até que, no fim de alguns meses, se viram pálidos das cores e com obstruções, de tal modo que, sendo totalmente vedados, então conheceram o mal que fizeram e lhes fazia, e, conseqüentemente, o aborreceram todos, de sorte que se perdia ou se coalhava, ou se não tirava das vacas.
8. Coalhado e escorrido por pano ralo, e depois de feita a coalhada e seca com a manteiga ou nata, com umas pingas de leite fresco, deste modo se pode comer ao jantar, como eu sempre comi; ou bebido com o calor natural com que sai do animal, que eu, algumas vezes, tenho aplicado para alguns doentes se nutrirem e refrescarem muita magreza ou ressecação em que estavam, e se acharam nutridos com a sua umidade e substância.
naturezas secas e ressecadas
9. Soros nunca os apliquei a doente, pela experiência de vinte anos nestas Minas me ter mostrado, em muitos doentes, que médicos e cirurgiões o aplicaram sem efeito algum pela sua grande frieza e o clima o repugnar, pois faz grandes obstruções e outras várias queixas.
Capítulo II
Da aguardente de cana
1. Segundo as muitas observações, que tenho feito, e a experiência me têm mostrado em todo o tempo que tenho assistido nestas Minas, não há coisa alguma nelas que seja mais prejudicial à saúde, assim de pretos como de brancos, como é a dita aguardente ou, por outro nome, e bem próprio, cachaça, pois, ordinariamente, quando queremos afirmar que uma coisa não presta para nada dizemos que é uma "cachaça". Esta tem sido a causa de morrerem inumeráveis escravos e também bastantes brancos, irremediavelmente; os escravos, uns bebem tanta que, perdendo o juízo, se matam em pendências, outros, bebendo-a de ordinário, adquirem doenças gravíssimas, como são obstruções nas veias e canais de todo o corpo, no baço, no mesentério e no fígado pela maior parte, e esta mais difícil de curar; os brancos, de tal sorte se casam com este vício que, quase todos, morrem hidrópicos, sendo a origem desta hidropisia o formar-se-lhe no fígado obstrução, e aumentada esta por se ir cevando com a tal bebida e o fígado obstruto, vai inchando, e, inchado, faz compressão ao bofe e o vai apertando, de tal modo que os doentes desta obstrução vêm a morrer sufocados, não podendo tomar a respiração senão meio sentados, como em muitas vezes tenho visto e presenciado, de que já falei no capítulo desta obstrução; e se as razões referidas não agradarem ou forem menos doutas, estimarei haja quem as dê melhores e escreva com melhor doutrina para os doentes serem melhor socorridos, que é o meu único objeto.
varias razoes acerca das obstruções e da causa dos que morrem sufocados
2. Os que não têm morrido hidrópicos têm morrido trêmulos e com as entranhas assadas, porque estes e aqueles, tanto que caem neste miserável e abominável vício, quanto mais bebem, mais securas têm, e, por isto, compram um barril e, enquanto ele dura, não cessam de beber, e, como é barata, mais cobiça faz; e o pior é que os devotos lhe dão tantas virtudes como dias tem o ano, faltando-lhe pouco para venenosa.
3. Os que têm falecido de obstruções no fígado, quase posso dizer que a sua causa foi por continuarem a tal bebida, e os que tenho curado por me chamarem a tempo e se emendarem se pode ver no tratado das obstruções na obstrução do fígado, não falando em muitos mais.
4. O melado, que também se fabrica da mesma cana-de-açúcar de que procede a dita aguardente, é também muito prejudicial à saúde; quem o comer, veja como, porque só os que forem trabalhadores lhes não fará tanto dano. As batatas também são danosas, e muito principalmente sendo cozidas, e, sendo assadas, serão menos, e há de ser em pouca quantidade; e os carases, suposto menos maus, também serão melhores assados que cozidos, e cozidos com a vaca se podem usar; e quem não der crédito ao que digo, (pela experiência assim mo ter mostrado) experimentará maus cozimentos e, por isso, enchimentos de estômago, más cores no rosto, flatos e obstruções.
5. Em confirmação do que é o melado e as batatas, escreverei uma observação, que é a seguinte:
Observação em João Gonçalves da Costa
6. No ano de 1712, em Vila Real do Sabará, morava João Gonçalves da Costa no arraial chamado da Barra, por onde eu casualmente passei já de noite, e, achando-o mexendo com uma colher batatas cozidas com melado em um prato para comer, lhe disse que tal coisa não comesse porque era muito prejudicial e lhe havia de fazer grande dano, ao que não deu ouvidos.
7. No outro dia, pelas oito horas, me mandou chamar com muita pressa, ao qual achei com uma febre ardentíssima e tão ansiado na cama que lhe não permitiam as ânsias sossego algum, e com o barbeiro em casa para se sangrar, o que não consenti, ainda que o doente dizia que, se se não sangrava, que morria; àquelas mesmas horas lhe dei um vomitório, que, quando o tomou, seriam nove e meia, de tártaro emético, com o qual obrou muito copiosamente; e, descansando no outro dia, lhe dei no terceiro outro vomitório, por ter ainda alguma febre, amargores de boca, fastio e dor no estômago, com o qual obrou bem e ficou livre da febre e de todas as mais queixas; mas, para melhor segurança, visto que estava com a primeira região despejada, tomou mais uma purga de resina de batata para alimpar o corpo e a segunda região, com o que ficou bom e bem advertido a observar a advertência que lhe tinha feito, e os seus amigos e vizinhos, que todos souberam do caso.
um vomitório dado pelas oito horas da manhã, em caso bem apertado
Advertências para a conservação da saúde
8. Assim como me pareceu acertado fazer estas advertências, também não será menos acerto dizer o melhor regime que devem guardar os moradores das Minas para melhor conservação da saúde, pois é o único morgado desta vida.
9. Nestas Minas, o que mais persegue os moradores delas são obstruções e flatos, e como as coisas sobreditas, pela maior parte, causam estas duas queixas, recomendo muito fujam delas o mais que for possível, pois lho diz um cirurgião, dos menores cirurgiões, mas bem experimentado no país, e que fez da sua parte por acertar.
10. Os flatos também procedem a muitas pessoas por andarem em jejum até o jantar e também por andarem com os pés molhados ou úmidos; para quem os tiver por andar em jejum, se livrará deles comendo alguma coisa pela manhã, ainda que seja pouco, e beber-lhe em cima uma pinga de aguardente do Reino, ou, não comendo, uma xícara de chocolate, ou também de chá, porque o chocolate, e o chá com o açúcar que leva, são muito peitorais, desterram muito os flatos, se os há, e proíbe o havê-los, ou que se não levantem; o chocolate sempre é mais sustancial, e, se levar gemas-de-ovos, será ainda melhor, e for feito em leite.
11. O chá, quanto menos açúcar levar, será mais conveniente à saúde; pela manhã é muito bom, mas muito melhor é ao depois de comer, para fazer bom cozimento, metendo-se algum tempo em meio, como uma hora até duas; principalmente será singularíssimo quando alguma pessoa tiver comido muito em algum banquete, como a mim me sucedeu em um por gostar dos manjares, comendo inadvertidamente, e depois tive ânsias no coração e sem poder sossegar deitado, em pé, nem sentado; e, perguntando na casa se havia chá, fez-se, e com uma boa porção fiquei sem ânsia, nem queixa alguma no mesmo instante, como se fosse coisa de milagre; e, quando alguma pessoa tiver negócio preciso que lhe seja necessário velar de noite, beba chá em quantidade à noite, porque lhe tirará o sono e não lhe custará o passar sem dormir.
caso notável com a excelente virtude do chá
12. Pela manhã, quando se levantarem da cama, nela se há de vestir e calçar, e se costumarão a trazer sertum de duas baetas, quem puder, ou de baeta forrado de pano de linho ou de brim, que tanto que qualquer pessoa se costumar a trazê-lo lhe não será penoso, antes estranhará muito, se o largar; e, no caso que algum homem casado pela manhã tenha ajuntamento com sua mulher, se não levante da cama logo ao vento, porque se porá em risco de perder a vida, como sucedeu a um homem casado que a perdeu dentro de dois dias pelas dita causa, o que constou ao depois de sua morte por confissão de sua própria mulher; porque, sendo eu chamado e não podendo ir vê-lo, me pediram fizessem alguma receita, aplicando-lhe algum remédio, e, fazendo um papel a adivinhar, por não ter informação legítima, dizia: "Se tiver esta queixa assim e assim, se lança este e aquele remédio; se desse esta e aquela causa, faça assim e assim; e, finalmente, se estiver fraquíssimo, se examine se teve com sua mulher algum ato venéreo pela manhã e se logo se levantou ao ar em camisa e ceroulas (costume mau no Brasil) para terreiro,” onde caiu, como me disseram; sendo que assim fosse, dizia eu me parecia não teria remédio; foi o portador com esse papel e, quando chegou, achou o enfermo na outra vida, e, não havendo quem entendesse a palavra de "ato venéreo,” se chamou um sacerdote, o qual a declarou, e depois confessou a tal mulher que assim fora. Sucedeu este caso para a banda da Guarapiranga e outro assim semelhante para as partes de Mato Dentro, paragens assim chamadas em nome vulgar. Levantando-se um homem de um ato com uma mulher, saiu da cama e foi em camisa ao terreiro chamar os escravos para o serviço, e tornando-se a deitar na cama, nela o acharam morto; o que me consta com toda a certeza.
um homem casado perdeu a vida dentro de dois dias
costume mau do Brasil
13. A quantos terá sucedido isto mesmo, sem se saber de que morrem, por não serem coisas em que as mulheres queiram falar; e a pretos, que, como brutos, fazem o que muitos não ignoram, e eu o sei mui bem, que, por serem coisas impraticáveis, as passo em silêncio.
coisas em que as mulheres queiram falar
14. O demasiado uso venéreo atrasa os anos da vida e faz faltar a vista antes dos anos o permitirem, como também a faz diminuir muito o lavar os pés a miúdo, enfraquecendo-se os órgãos visuais. O meter os pés em água bem quente e deixá-los estar é grandíssimo remédio para dores de cabeça, para cólicas, para pontadas que dão de repente e para acidentes, ou sejam uterinos, da madre por outro nome, ou outros quaisquer.
15. Outro caso sucedeu com a estupenda virtude do chá, e é o seguinte: Meu irmão, o abade de Prondas, João Gomes Ferreira, tem uma obstrução no fígado há dez ou doze anos, para a qual nunca pôde achar remédio, curando-se várias vezes, até que se lhe fez cirrosa, adquirindo natureza de pedra sem dor alguma, e o tumor grande, do qual se lhe levantavam flatos que lhe davam grandíssima moléstia e lhe inchava, de tal sorte que não podia abotoar justilhos, nem vestia, principalmente em jejum, e se lhe via o tumor de longe por cima dos vestidos; e perguntando-me que remédio faria para os flatos o não molestarem tanto, lhe aconselhei usasse da bebida do chá, e, fazendo-o assim, nunca mais teve tais flatos, os vestidos lhe chegaram sempre assim, em jejum, como a toda a hora, e o tumor ficou em seu ser sem crescer, nem diminuir, e passa sem queixa alguma que lhe dê moléstia, passando excessivas, exceto o tumor, que o faz cansar, mas não muito, e com ele há de acabar, porque não admite cura, por estar cirroso e duro como uma pedra, o qual vi e apalpei, do que sou testemunha de vista; e tomando as caldas do Geres todo os anos, este de 1733, lhe não foram necessárias por causa do chá.
16. Outro caso maravilhoso semelhante ao que fica referido, que observei com o chá em uma moça donzela de idade de vinte anos; estando a dita moça com tremuras mui grandes de mãos, pernas e cabeça, de sorte que, estando na cama a fazia tremer toda, me chamaram, e, estando duvidoso no remédio que lhe aplicaria, me ocorreu o chá, e, fazendo-lhe dar uma boa porção de água bem tinta dele, foi coisa como de milagre, porque, em discurso de um credo, ficou sã sem mais lhe tornarem as tais tremuras, e sem suar, que era o verdadeiro intento para que lho mandei dar, a qual estava sem febre; e, tendo alguma falta na sua conjunção, depois lhe veio em abundância.
outro caso do chá, semelhante
17. Mil excelências pudera referir do chá, mas, por não parecer ladainha ou demasiado encarecimento, digo só que, quem continuar a bebê-lo todos os dias, assim em jejum, como depois de comer, experimentará grandíssimos proveitos na saúde, porque faz bom cozimento, faz discutir todos os flatos, faz promover admiravelmente a circulação do sangue e mais líquidos em que consiste, pela maior parte, a boa observação da saúde; é bom para as tosses, se se procederem de causa fria, como pela maior parte sucede; é bom para os trêmulos, não sendo por velhice; é bom para as convulsões de nervos, por ser quente, e eles, de sua natureza, frios; é bom para provocar a conjunção às mulheres que a tiverem retardada ou não lhe vier; é excelente para os gotosos, por ser enfermidade das juntas e nelas existirem humores frios, como são as fleumas; e, finalmente, para outras muitas enfermidades, mas há de ser continuado e não se deve usar antes do comer, perto dele.
excelencias do chá
gotosos 18. Quando alguma pessoa for por algum caminho ou chegar a alguma parte suado ou cansado, ou fizer algum excesso, por nenhum modo beba água fria, ainda que tenha sede, porque, quando não suceda morrer, como eu vi morrer um preto quando fui por cirurgião do exército de Minas ao Rio de Janeiro, que, indo cansado e suado, foi beber a um córrego, e não deu muitos passos que não caísse morto; lhe pode suceder alguma pontada e outras muitas queixas perigosas, como a mim me sucedeu no rio de São Francisco, que, chegando muito cansado de remar em uma canoa, bebi água e caí como morto em terra, e passado perto de uma hora sem dar acordo, tornando em mim, me achei com uma pontada, que muito custou a curar.