Erário mineral
14. Tratado VII – Dos formigueiros e outras doenças comuns nestas Minas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Tratado VII
Dos formigueiros e outras doenças
comuns nestas Minas
Capítulo I
1. Esta doença de formigueiros é muito ordinária nestas Minas, assim em pretos como em brancos, e, como tem suas diferenças, os quero distinguir na forma seguinte:
2. Destes, há uns que nascem nas solas dos pés dos pretos mineiros que facilmente se conhecem, porque lhes fazem buracos ao mesmo modo que as formigas os fazem na terra quando fazem as suas casas, solapando as solas dos pés e fazendo nelas buracos redondos e fundos, com comichão e dores grandes que os não deixam andar sem grande moléstia; outros há que nascem nos braços, mãos e pernas, assim dos pretos como dos brancos, mas mais ordinário é nos braços, e, pela maior parte, principiam pelos dedos e costas das mãos com uns tumores pequenos e vermelhidão e dor, que facilmente fazem matéria e rebentam, mas sempre com vermelhidão em roda; e depois vão crescendo pelo braço adiante os mesmos tumores e rebentando como os outros, uns principiando mais pequenos, outros maiores e outros com matéria, sem quererem obedecer a remédio algum. Os das pernas se formam do mesmo modo e, algumas vezes, uns e outros se originam de arranhaduras que, fazendo chaguinhas e sendo desprezadas, acudindo-lhe algum humor colérico, se vão transformando em formigueiros e multiplicando-se inchaços e chagas por várias partes das pernas e braços, e algumas vezes, à vista dos olhos, parecem-se com herpes, por nascerem os tumores mais juntos.
Como se devem curar os dos braços e das pernas
3. Os formigueiros dos braços e das pernas sempre são mais comuns em brancos que em pretos e, se chegam a arrebentar, muitas vezes fazem cavernas pelo interno, que passam de uns a outros, como já vi algumas vezes; e, como esta doença procede de humor colérico exaltado e de sangue adulto, será bom que o doente tome um vomitório e, depois dele, que tome umas emulsões ou amendoadas para se refrescar, feitas como se diz no princípio da Miscelânea, tomando cinco ou seis onças, ou sete por cada vez, assim frias, em jejum e ao sol posto, ou depois de ceia um bom pedaço, que será hora e meia ou duas, que são estas bebidas admiráveis nesta enfermidade; e se parecer que necessita de se purgar, se fará com maná em cozimento fresco e de nenhum modo outra casta de purgas; e se não houver muita necessidade de purgar, se não purgará, senão com o vomitório, ou dois, e as bebidas frescas.
4. Ao depois que o doente estiver disposto na forma que fica dito, o melhor remédio que tenho achado e em que tenho assentado (depois de me enganar com outros sem fruto algum) é queimar ao tais tumores com cautério de fogo em brasa e as chagas, queimando muito bem, até que façam escara dura, isto é estando os tumores e as chagas em parte para isso que não seja em cima dos nervos ou juntas, que nestas partes se queimarão menos, por não se ofender algum nervo, ou nervos, e fique o doente com lesão; advertindo que, se se não queimarem bem, não sararão as tais chagas e será preciso tornarem-se a queimar, como a mim já me sucedeu.
5. Tanto que as chagas e tumores estiverem queimados, se lhe porão fios e panos de azeite em todo o ovo bem batido com azeite comum ou óleo rosado, para refrescar aquele calor que ficou dos cautérios, renovando os panos e fios em se secando; e, no segundo dia, se porá na escara um pano bem untado com manteiga crua, ou, em falta dela, gema-de-ovo batida com azeite doce, continuando com isto até as escaras caírem, e, tanto que as chagas ficarem limpas sem as escaras, se curarão com o medicamento seguinte:
6. Uma dúzia de bicuibas descascadas, da casca de fora se embrulhem em um papel e, depois de embrulhadas, se borrife o papel com água e se metam debaixo de cinzas quentes, cobrindo o papel com elas e com algumas brasas, o qual estará por um quarto de hora, avivando as brasas em cima da cinza, para ficarem as bicuíbas assadas, não secas, nem queimadas; então se tirem e se pisem em almofariz ou gral de pau, e se meta aquela massa em pano de linho e, atado como saquinho, se infunda em aguardente do Reino que o cubra em um tachinho limpo ou tigela vidrada, e se porá a ferver em fogo brando; e tanto que tiver fervido algum tempo, de sorte que apareça algum óleo das bicuíbas na aguardente, se molharão as chagas com o mesmo pano atado bem quente, assentando-o em cima delas; e, depois de feito isto, se molharão fios e panos para se porem nas chagas assim morno e, desta sorte, se irão curando uma vez cada dia, aquentando aquele licor que ficou, se for bastante para outra cura, aliás acrescentando-o com outra aguardente, e torne a ferver com o saquinho dentro para largar a sustância das bicuíbas e curando na mesma forma; e tanto que as bicuíbas não largarem óleo na aguardente, se assarão outras e se curará na forma sobredita; e, se virmos que as chagas obedecem bem a este remédio, com ele se curarão até o fim, como eu muitas vezes tenho feito.
massa de bicuibas para curar formigueiros
massa de bicuíbas metida em pano e infundido em aguardente para curar formigueiros, remédio singular
7. Este remédio inventou a minha curiosidade por ver que esta má qualidade de doença não queria obedecer a outros de nenhuma sorte; e tanto assim que, antes de usar dos cautérios e deste remédio, me vi doido com tal casta de doença, e logo que usei deles, sararam todos quantos me vieram à mão, que foram vários, e nas observações farei alguns manifestos para melhor crédito da verdade.
8. Mas, no caso que as chagas, depois de queimadas, se escandalizem com o remédio das bicuíbas e aguardente, como já alguma vez me sucedeu, em tal caso se não use dele e se usará de emplasto de diapalmo baixo de ponto, com fios secos por baixo e o parche, ou parches quentes, ou de emplasto Saturno com os mesmos fios, ou de ungüento de fezes-de-ouro com poucos fios, ou sem eles, que é muito fresco e dessecante, ou de ungüento de minio alcanforado ou outro semelhante, porque qualquer destes é muito capaz de encourar as chagas e cicatrizá-las, pois toda a circunstância está em queimar bem; mas, se nenhum destes remédios (depois dos cautérios) fizerem o efeito desejado, apelem para um remédio que também inventei, com que sarou e finalizou um formigueiro terrível depois que o queimei, que tomava uma perna quase toda, depois de passados treze ou quatorze meses, curado com cirurgiões, ou com o nome disso, e um médico, que todos o deixaram por incurável, como logo mostrarei, o qual remédio se achará na observação de José Álvares.
9. Advirto, antes de entrar nas observações, que o principal remédio que doma esta serpente é o fogo, como deixo referido; e tanto que este se aplica, queimando muito bem, não havendo impedimento de nervos, ossos ou junta, lhe dissipa a malícia e ficam vencíveis facilmente, o que não acontecerá se se não queimarem, como tenho visto algumas vezes.
o fogo é o que doma esta serpente
10. Advirto mais: que os formigueiros não só acontecem por abundância de humor que vem do interior para as partes externas, senão também por pancada ou ferida; acudindo ali humor colérico, vai correndo e fazendo novos tumores naquela vizinhança, que deles se formam chagas corrosivas com buracos fundos que não obedecem verdadeiramente senão ao fogo de cautérios, e não a cáusticos, como já vi aplicar com mau sucesso, fazendo dores insuportáveis sem alcançarem o efeito desejado.
11. Bem conheço que um cautério de fogo posto em cima de uma chaga que está em carne viva, ou posto em cima de carne sã, é coisa para temer, mas também sei que alguns doentes padeceram dores muito fortes que esta enfermidade causa, por tempos muito dilatados, e que fizeram grandes despesas, e, no fim de tudo isto, não tiveram outro recurso senão sofrerem os cautérios, exceto uma mulher, que teve dezessete buracos em uma perna e, não querendo nunca sofrer outros cautérios, a curei com outros remédios em discurso de muito tempo, cuja observação farei manifesta com as mais que puder, para melhor doutrina dos que quiserem observá-la.
Observação I
De um formigueiro desesperado em José Álvares
12. No ano de 1711 me chamou José Álvares, morador na Vila Real do Sabará, junto ao capitão Manuel Dias Leite, o qual tinha duas chaguinhas em uma perna e, junto delas, um ou dois tumores também pequenos; fui-lhe aplicando alguns remédios sem efeito algum, e, como eu andava com uma moléstia, lhe não podia assistir como ele desejava, por cuja causa queria chamar quem lhe assistisse melhor; adverti que visse quem chamava, porque a sua doença me parecia grave, o que entendi por não obedecer ao que lhe tinha aplicado, antes ia a mais; respondeu que um barbeiro o havia de curar e pôr são, ao que, tornei que sentia desprezasse um cirurgião aprovado para se curar com um barbeiro, do que não fez caso.
13. Com efeito, curou-se com o tal barbeiro quatro meses, com um cirurgião três e com um médico quatro ou cinco, e no fim de treze ou quatorze meses veio a minha casa em uma rede, tão disforme e desfigurado que, conhecendo-o muito bem, o não conheci, e me disse, com lágrimas, vinha procurar o seu remédio na mão de quem tanto tinha ofendido, dizendo o tinham todos desenganado, principalmente o dito médico, que nas Minas não tinha que se cansar, porque nelas não havia de sarar; mas, como não estava capaz de sair das Minas, por não se poder ter na perna, nem tinha posses para o fazer, pois estava pobríssimo e fraquíssimo com a pele somente em cima dos ossos, perguntei-lhe que lhe tinham feito; respondeu que tinha tomado xaropes vários, purgas, apózemos, salsas, mercúrios e outros mil remédios sem efeito algum, e que a perna eu veria o miserável estado em que a tinha.
quatro meses de cura sem efeito e outros quatro ou cinco também sem proveito
14. Vendo-lhe a perna, lhe achei, em quase toda ela, uma chaga viva, e em algumas partes seus olhos ou buracos mais fundos, com dores tão insuportáveis que não podia consentir que lhe tocasse nenhum leve pano e, olhando para o aspecto, só se via a semelhança de homem. Respondi-lhe que se não desconsolasse que eu lhe faria tudo quanto estivesse na minha mão.
15. Assisti a este doente perto de três meses, pus-lhe a chaga sã por três vezes e sempre tornava a arrebentar em dois, três dias, com novas dores e inflamações; fiz-lhe variedade de remédios, assim da arte como de ervas da terra; nunca foi possível sará-la, e, vendo que me não valia o estar de noite vacilando no remédio que lhe faria de dia, e que, ao mesmo tempo que ficava seca tornava a abrir com dores que o faziam perder a paciência, destilando pelos buracos humor tão delgado e corrosivo que ia corroendo e desfazendo a cútis, que já estava cicatrizada, e ficava tudo outra vez em nova chaga, e tão quente como fogo.
em tres meses de assistência sarou três vezes
16. Vendo, pois, estes destemperos e que a nada obedecia, não estando em termos de evacuação alguma, pelas muitas que tinha
tomado, fiz juízo de que aquele Etna 1 tão ardente não havia de obedecer senão a outro Etna semelhante, e assentei que só o fogo atual poderia vencer serpente tão indomável ou hidra tão cruel, pois, como dizem alguns autores, algumas vezes um fogo vence outro fogo; e a experiência me tem mostrado que assim sucede. Prognostiquei-lhe o perigo em que estava e o que tinha experimentado; se se atrevia a sofrer um remédio forte, que só era o que o poderia curar mediante a graça divina, ao que respondeu que, se a sua perna não tinha outro remédio senão cortá-la, que lha cortasse já, ou fizesse dela o que quisesse.
Etna tão ardente não obedece senão a outro semelhante
17. Em cujos termos o levei para casa de um ferreiro por nome Luís de Almeida, morador na Barra, do Sabará, e pedi-lhe fizesse a cama perto da forja e lhe queimei toda a chaga com cautérios feitos em brasa na mesma forja, queimando com um, enquanto o outro se fazia vermelho, experimentando neste enfermo a paciência que nunca vi em outro algum, porque era o mesmo pôr-lhe os cautérios na chaga que pô-los em cima de um pau, sem que nada movesse a perna, sendo tanto o fumo e o cheiro de carne assada que fez fugir a muita gente que ia ver o caso.
cautérios feitos em brasa na forja de um ferreiro
18. Feita uma boa escara e bem dura, lhe pus uns panos molhados no cozimento seguinte, que mandei fazer a um senhor de engenho e já o tinha pronto; ordenei que tirasse uma boa panela de caldo de cana e o passasse pelo alambique, sem que fosse destilado nem muito apertado; e, postos os panos molhados neste cozimento morno em toda a chaga, ordenei que, em se secando, lhe pusessem outros, e assim todos os dias até cair a escara; e como vi que assim que a escara foi arrugando e levantando-se em redondo que os lábios da chaga vinham encarnando perfeitamente, com matérias brancas e boas, lhe fui continuando os ditos panos molhados em redondo e em cima, com tão maravilhoso efeito que, ao compasso que a escara foi caindo aos pedaços, foi a chaga encarnando e ao mesmo tempo cicatrizando em roda, com cicatriz tão perfeita até que sarou de todo a chaga radicalmente, sem nunca tornar a reincidir, curada sempre com o dito licor morno, sem mais coisa alguma em discurso de dezenove dias.
caldo de cana-de-açúcar
19. Louvada seja a Majestade Divina que nunca permitiu houvesse necessidade que não fosse propício em a remediar, maiormente quando os homens fazem da sua parte; eu, como tinha trabalhado tanto, usando de quantos remédios tinha a Cirurgia e o país permitia, inventando tantos e tanta variedade deles sem efeito, além dos que os mais lhe tinham aplicado e sabia a mesma Divina Majestade que o meu maior desvelo era o socorro deste pobre, quis, e foi servida, que investigasse um remédio tão áspero como é o fogo, em caso tão grande e tão sensitivo, mas, por ser grande, por isto mesmo apelei para grande remédio, como dizem alguns autores, que enfermidade grande se não cura com remédio pequeno, como nesta foi certo, e, ao mesmo tempo, excogitasse outro, que a alguns pareceu ridículo e parecerá, mas foi eficacíssimo, como tenho demonstrado; e ainda haverá algumas pessoas que se lembrem do tal caso, pois foi bem notório, e muito mais notório pelo médico que lhe assistiu me dizer muitas vezes em público que não perdesse o meu tempo, que o doente não havia de sarar nas Minas; mas quis Deus sucedesse pelo contrário, lembrando-se deste pobre tão aflito e desamparado. Este foi o formigueiro mais terrível que tenho visto e, daqui por diante, fiquei ensinado a curar esta enfermidade com fogo, e nenhum formigueiro deixou de obedecer a ele, como irei mostrando.
enfermidade grande nao obedece a remédio pequeno
Observação II
20. Na mesma Vila Real do Sabará, no ano de 1712, foi a minha casa André Rodrigues, feitor de uma roça na paragem chamada o Capão, o qual me mostrou um braço com uns tumores na junta do pulso até o cotovelo e uma chaguinha nas costas da mão que, dizia ele, se lhe originara de uma arranhadura, que, tendo nela comichão, a coçara e depois lhe foram crescendo os ditos tumores pelo braço adiante; uns tinham a cor vermelha e a cabeça mole, com princípio de matéria, outros ainda duros com a mesma cor do couro, uns maiores, outros menores, e dizia lhe iam crescendo cada vez mais.
21. Nestes termos, como conhecia que era um formigueiro, lhe disse que não tinha outro remédio senão queimar os tais tumores e chaga, desenganando-o a enfermidade que tinha, e tivesse paciência para sofrer um cautério feito em brasa, ao que repugnou, mas, enfim, veio nisso com grande paciência minha, para sofrer as muitas fugidas que fazia com o braço; e depois que, por sua culpa, o queimei em outras partes, esteve quieto e deu lugar a queimar tudo e a fazer as escaras boas; pus-lhe uns panos molhados em todo o ovo, batido com azeite comum, para refrescar aquele calor do fogo, e, no segundo dia, lhe pus gema-de-ovo batida com o mesmo azeite e tirando-lhe a clara por não servir para o ferimento, com o que, continuando, lhe caíram as escaras e, depois delas caídas, ficando as chagas limpas, lhe pus um pouco de ungüento de fezes-de-ouro com fios por baixo, em pouca quantidade, alimpando-os todos os dias, e com o tal ungüento sararam sem mais coisa alguma, nem lhe tornaram a vir mais inchaços e ficou são para sempre.
22. Passados cinco anos, o topei no arraial chamado do Padre Faria, junto a Vila Rica, onde ele neste tempo era morador, e falando-me, sem eu o conhecer, me lembrou o caso, dando-me os agradecimentos, lembrando-lhe ainda as novas feridas que eu lhe fizera, enfadado de não querer sofrer, o que era para seu bem.
Observação III
23. Na dita Vila Real, e no mesmo ano, sucedeu outro formigueiro em um escravo de Manuel Gonçalves Moinhos, meirinho-geral da Ouvidoria em tempo do doutor ouvidor Gonçalo de Freitas Baracho, na forma seguinte:
24. Adoecendo o dito escravo de uns tumores e umas chagas em uma perna, chamou seu senhor um cirurgião, que não nomeio, o qual, curando o tal doente tempo esquecido, dando-lhe xaropes, purgas, apózemos contra gálico, salsa e muitos remédios na parte sem efeito algum, me deu parte do muito tempo que tinha assistido ao dito doente, pedindo-me o meu parecer; e, pelo desejo do seu bom sucesso e do enfermo, lhe aconselhei cauterizar-se todas as chagas e tumores que estivessem por arrebentar, e que lhe fizesse o remédio das bicuíbas que fica referido, e o curasse na dita forma, que logo sararia; agradeceu o conselho, fez o que lhe ensinei e sarou o tal preto em pouco tempo.
Observação IV
25. Mudando-me da Vila do Sabará para a do Ribeirão do Carmo, me chamou logo, por cartas, com grande instâncias, o mestre-de-campo José Rebelo Perdigão para lhe ir ver uma mulher por nome Domingas da Silva, a qual tinha, em uma perna, dezessete buracos tão cavernosos e fundos que, seringando por um, saía o lavatório por outros vários, e como, segundo a informação que me deram, tinham procedido de um formigueiro e, por mais diligência que lhe tinham feito vários curadores, não tinham sarado, nem obedecido a coisa alguma; que nestas Minas são estes tão comuns e gerais que, a cada passo, se encontram em vilas e arraiais, e o pior é não haver quem nisto ponha os olhos, sendo de tanta conseqüência; mas, tornando ao fío da observação, digo que, sendo chamado para a tal doença, apliquei por seringa vários lavatórios dessecantes e abstersivos, já de cozimento de cevada com pragana e folhas de tanchagem com uma gota de mel de pau; já de cozimento da mesma tanchagem com umas rachas de pau de sassafrás, por ser muito dessecante; já com o cozimento ou infusão das bicuíbas em aguardente, que atrás fica referido, sem que, com nenhum destes remédios, houvesse melhora alguma; e, tomando mais miúda indicação, vim no conhecimento que estes buracos e chagas tinham procedido do tal formigueiro e, como tais, não haviam de obedecer senão a remédios mais fortes e purgando-se; nestes termos me resolvi a dar-lhe um vomitório de tártaro emético, e, depois com outro, feita uma boa descarga da primeira região, lhe queimei as tais chagas e buracos com espírito de vitríolo, tocando as chagas com ele e aplicando-o nos buracos e cavernas por seringa, seringando com ele todos os dias uma vez, seringando primeiro com o lavatório dessecante de sassafrás, que acima fica dito, para alimpar as matérias por dentro e o espírito obrar então melhor; queimei-as com este remédio potencial, por não poder queimá-las com remédio atual, que é o cautério de fogo, por serem fundas e não poder lá chegar.
cozimento abstersivo
espírito de vitríolo 26. Assim fui continuando com o dito espírito, seringando um dia por um buraco, outro por outro, porque de uns se comunicavam a outros; assim se foram ampliando as cavernas, de sorte que, depois que usei destes auxílios, em poucos tempos sararam as chagas com grande crédito da arte e gosto meu, bebendo o doente sempre água de ruibarbo.
27. Muitas observações que me passaram pelas mãos escreveria desta doença, se as tomara em lembrança ou as recomendara a memória, mas, porque o não fiz, as não repito com a clareza que desejava.
28. Em conclusão, digo que foram muitos e que, tanto que virem que nascem tumores pelos dedos, ou costas das mãos, ou pelos braços que logo rebentam e com os sinais já ditos, e que vão principiando outros, se trate logo de os queimar com cautério de fogo e, caída a escara com qualquer dos remédios apontados, se curem as chagas com o remédio das bicuibas, que dele tenho usado muitas vezes com bom sucesso, ainda que, aparentemente, pareça duvidoso, pois, desta sorte, se atalha esta enfermidade e não vai mais em aumento como vai, se não se doma com estes contrários; e de outro modo penaliza os pobres doentes mais dobradamente que o fogo, por muitas razões, como são gastos, tempos, dores, falta de negócios e de assistência dos seus escravos e aflições, sem toparem melhor remédio que o que lhes ensino.
Queimar os tumores sem piedade
29. Mas advirto que se hão de queimar assim os tumores, como as chagas sem piedade, para que se consuma toda a malícia do humor mordaz e corrosivo, mas com condição que, se estiverem em partes nervosas ou em cima de algum osso, como deixo referido, se queimarão com tal cautela que o fogo não ofenda os nervos ou o periósteo, que é um panículo que cobre os ossos, porque lhes fará grande dano ou poderá causar alguma lesão; e o enfermo se mandará segurar para se fazer a obra, conforme for necessário e com menos moléstia do operário. Advirto mais que, no caso que haja algum enfermo tão melindroso que, de nenhum modo, queira consentir os cautérios de fogo, se poderão queimar com medicamentos fortes, que também são cáusticos e queimam, suposto com menos atividade para a doença e talvez de mais moléstia e sentimento para o doente, segundo a qualidade deles.
Capítulo II
Dos formigueiros que nascem nas solas dos pés
dos pretos
1. Sobre quantas doenças perseguem os pobres pretos nestas Minas, esta não é de menos molestia e difícil de curar, porque, pela maior parte, os senhores os não aliviam do trabalho por causa dela e andam com muito grande moléstia, sem se poderem ter em pé, como quem os tem visto e os tem possuído com esta enfermidade, a qual é terrível, porque lhes faz nas solas dos pés grandes buracos e broqueamentos fundos, corroendo para o interno e para uma e outra banda, que, andando eles sempre a cortar naquelas solas grossas, sempre crescem, e os buracos sempre fundos, de modo que não podem pisar no chão, e por esta causa andam pela maior parte nas pontas dos pés.
Como se curam
2. A verdadeira cura é purgar com vomitórios e queimar com cautérios de fogo, de sorte que cheguem a queimar até o fim dos buracos com algum cautério mais delgado ou de ponta, e depois derribar as escaras com o que fica dito e, depois de caída, curar com o remédio das bicuíbas ou outro qualquer, para cicatrizar, mas sempre hão de ser remédios dessecantes nesta parte, como o seguinte: água de tanchagem e de pés de rosas, de cada uma duas onças, pós de alvaiade duas oitavas, pós de pedra-ume crua uma oitava misture-se, e no mesmo, estando morno, se molharão fios e panos, com que se curará uma vez cada dia até sararem.
3. Também o seguinte remédio tem curado a muitos: faça-se um buraco na terra junto ao fogão, que seja redondo, fundo e estreito, e nele se lancem brasas de fogo e, em cima delas, bosta de boi seca, e os pés que tiverem formigueiros se porão com os buracos em cima do tal buraco, tomando aqueles defumadouros, que será por um quarto de hora, acendendo as brasas e botando bosta para fazer boa fumaça, estando o pé coberto e em roda com alguma roupa; e enquanto está tomando estes defumadouros, estará fervendo no fogo outra bosta com urina ou com aguardente, para fazer umas papas, que se porão em pano e na parte, bem quentes; e o mesmo assim de fumaças, como de papas, se fará todos os dias duas vezes, até ficarem sem dores e poderem andar, mas não sairão para o trabalho senão depois que as solas dos pés estiverem lisas, direitas e sem sinal de buracos; aliás, esperem por outros buracos nos pés em poucos dias e, por isso, sou de parecer que os pretos que tiverem esta enfermidade se deixem estar em casa até ficarem bem sãos, sem nunca se molharem; e para melhor obrarem os fumos, se cortarão aqueles couros em roda dos buracos, para ficarem bem patentes, com um canivete ou navalha de barba; este modo que tenho exposto é o melhor de todos que tenho achado; cada um fará o que melhor lhe parecer; as frutas grandes e redondas a que chamam de lobo, que não faltam no campo das Minas Gerais, assadas, partidas e postas em cima dos buracos têm curado a muitos.
Capítulo III
Da enfermidade a que chamam comumente
cangalha e eu lhe chamo convulsão de nervos
1. Esta doença é uma das mais trabalhosas e dificultosas de curar e que dá grandíssima moléstia aos pobres dos pretos, porque lhes faz encolher os dedos das mãos e fechá-los, de tal sorte que ninguém, por mais força que tenha, lhos abre; a outros se lhes retesam os braços, de tal modo que ninguém lhos pode dobrar; a outros se lhes retesa todo o corpo, de tal modo que, pegando uma pessoa pelos pés, outra pela cabeça, quase vai o corpo direito, querendo-o levar para alguma parte, sem fazer senão muito pouco arco no meio; outros, finalmente, se lhes arregalam os olhos, de tal modo que metem medo e até os beiços se retraem; a uns dá com mais força e a outros com menos; a uns passa e ficam bons em pouco tempo, a outros lhes dura mais e alguns lhes dá a miúdo; a outros mais interpoladamente, metendo-se alguns dias de permeio e, aqueles a quem esta doença dá a miúdo e com grande força, pela maior parte morrem dela, principalmente não se lhes fazendo algum remédio, porque basta o experimentarem a doença e verem que seus senhores os não curam, para irem esmorecendo e perdendo as esperanças da vida, até que a perdem.
2. Esta doença é muito comum nestas Minas, e é só nos pretos de toda a Costa da Mina, excetuados todos os de Angola somente, e pela maior parte é só nos que são mineiros que andam metidos dentro da água ou com os pés nela, que, os que se ocupam em roças, nunca neles vi tal doença; algumas pessoas chamam a esta doença camba e, vulgarmente, cangalha, mas, como é doença que convele e puxa os nervos, sem ocupar outras partes, eu lhe não dou outro nome, senão convulsão por causa fria.
3. A sua cura mais própria e verdadeira é preparar os humores frios com xaropes e depois purgar os humores, universalmente, com purgas de resina de batata, duas ou três vezes, e com alguma de jalapa, e, depois, dar-lhe suores de cascas de cedro bem cozidas, sendo primeiro quebradas em miúdos pedaços que diminua mais de a metade da água em que se cozerem, metendo o tacho com o cozimento debaixo de um assento de paus, a modo de grade, de modo que o doente se cubra bem coberto e em redondo, de modo que lhe não entre o ar, e o tacho, quando se puser debaixo de girão ou assento, há de ir fervendo para sustentar mais tempo o calor; e, depois que o doente tiver suado muito bem, se tirará com muita cautela do ar, se alimpará e deitará; isto fará uma vez cada dia somente, porque os suores enfraquecem muito e continuará por espaço de vinte ou trinta dias, tendo neste tempo regimento, e beberá água, de ordinário cozida, com raízes de capeba e uma pouca de butua machucada.
4. Nesta forma tenho curado alguns escravos meus e alheios; uns ficaram sãos sem mais lhe repetir a queixa, outros, daí a poucos tempos, lhe tornou a repetir, ainda que com menos força, e outros, passado algum tempo, lhe tornavam com a mesma; e, finalmente, o que eu costumo mandar fazer a dois que tenho com esta queixa quando lhe dá é mandar-lhe dar banhos de água bem quente, em que primeiro se tenham cozido bastantes mentrastos bem cozidos, e naquela água mandava meter as mãos do doente encolhidas, estando a água bem quente, e nela se deixasse estar por algum tempo, e logo se endireitavam os dedos; e, se também tinha as pernas e os pés retesados, também lhe mandava dar banhos nelas, metendo-lhe os pés dentro, porque, logo, o calor das mãos e dos pés se ia comunicando a todo o corpo, e muitos doentes ficavam livres e outros muito aliviados.
5. O melhor remédio que há para estes doentes é fazer-lhe ou dar-lhe alguma descarga e ocupá-los em serviço seco, sem entrarem na água, como é tirá-los do exercício de mineiros e metê-los em serviço de roças, porque desta sorte ficam, pela maior parte, livres.
6. Mas o remédio para se livrarem e nunca mais lhe dar tal doença é saírem os tais escravos do clima das Minas para qualquer dos povoados, e não é necessário mais remédio algum, o que digo não só porque alguns amigos mo afirmaram pelo experimentarem em escravos seus, senão também porque eu o experimentei em um meu e nunca mais teve sombra de tal queixa; e o certo é que o clima das Minas é o fomento de tal doença e o que impede a cura dela, para nenhum ficar são radicalmente, como é certo no que tenho assentado. O sobredito meu escravo saiu das Minas para a Cidade da Bahia e, estando nela oito meses sem queixa alguma, tornou para as ditas Minas, e são passados dois anos sem lhe tornar a repetir.
sair das Minas para outro clima
Capítulo IV
Das roturas das virilhas, a que o povo chama
quebraduras
1. Conhece-se haver quebradura nas virilhas em que haverá tumor ou inchaço, umas vezes como um ovo, outras mais pequeno e outras maior, pois algumas vezes sucede ser como uma bola e outras como a copa de um chapéu, quando as tripas saem pela quebradura fora, como já vi e curei, e, quando os mesmos doentes o dizem, não é necessário mais sinais, porém, quando eles ignoram o que é, é preciso que se conheça se o é ou não é, porque pode haver o tal tumor e não ser rotura; mas, para que se venha em inteiro conhecimento, se mandará deitar o enfermo de costas com os pés encolhidos e, carregando-lhe brandamente com os dedos, se virmos que logo se desvanece e a parte fica em sua forma natural, não teremos dúvida em que é rotura.
2. Neste caso, a primeira coisa que se deve fazer depois de metidas as tripas, ou o zirbo que as cobre em seu lugar, se lhe porá algum dos emplastos que adiante direi, e em cima do tal emplasto sua funda, para poder seguramente andar de pé e, sendo antiga, não queira intentar curar-se, porque perderá o tempo, e só o que deve fazer é ter grande cautela em não andar sem funda, por ser de tanto perigo que muitos têm perdido a vida por este descuido e outros vários se têm visto às portas da morte, como eu tenho presenciado e curado.
3. Se a inchação for pouca, facilmente se recolhe ou desfaz pondo-se o doente de costas e comprimindo-a com os dedos, mas, se for muita e não se lhe acudindo logo, umas vezes dá grandíssimo trabalho para se recolher, como já me sucedeu, outras ameaçam tanto perigo que morrem os doentes sem remédio, não se podendo recolher as tripas; pelo que, no caso que a inchação seja muita, se lhe porão logo, com toda a presteza, panos molhados em aguardente quente, repetindo-os em se secando, para aquentar as tripas e o zirbo, tirar-lhe os flatos e desalterar, que de ordinário sempre estas partes estão frias; e conheceremos que o remédio tem obrado porque a parte estará mais quente e mais mole; estando assim, se fará diligência pelas recolher, estando o doente de costas com os pés mais altos que a cabeça, tomando o doente a respiração em si com toda a força; e, se ainda não quiser obedecer, se farão umas papas de farinha de trigo com aguardente a fogo brando e, feitas, se estenderão em pano que fiquem grossas e, quentes, se apliquem em cima da inchação e, passado um quarto de hora, se verá se a parte está já tratável e capaz de se recolherem; aliás, se tornarão a pôr papas novas, até que se possa fazer a tal obra; mas, não sendo possível recolherem-se, em tal caso se use do cão vivo que deixo referido, que é o único e mais presentâneo remédio que há para logo se recolherem com o calor natural daquele animal.
4. É tão perigoso este gênero de enfermidade que já me sucedeu estar trabalhando para meter as tripas dentro a um doente e ele, sem fala, agonizando e de todo quase frio, mas, por mercê de Deus, escapou de tão manifesto perigo, e outro que, quando me chamou, tinha tão grande e disforme inchação como uma grande copa de chapéu, o qual estava com as pernas tão abertas e com a inchação tão grande que me meteu medo, mas, pondo-lhe as papas de farinha de trigo com aguardente, que fica referido, em pouco tempo cobrou quentura, se pôs mole e, conseqüentemente, lhas recolhi, pôs-se-lhe a funda e ficou são; outros vi no mesmo perigo, que escusado me parece nomeá-los por ser doença tão comum e todos sabem o perigo que tem; encomendo muito que se mande tomar a respiração em si com toda a força ao doente que tiver as tripas saídas, quando se carregar com as mãos, pois é uma grandíssima circunstância para se recolherem.
tomar a respiração em si com toda a força
papas de farinha de trigo com aguardente
5. Visto falar aqui em tripas ou intestinos, quero dizer o que com eles me sucedeu, tocante ao seu comprimento. Como os autores se não conformam nas opiniões, porque uns dizem que têm mais varas e outros menos, assistindo eu no Hospital Real no ano de mil setecentos e cinco, morreu de repente um soldado com uma estocada debaixo dos arcos do Rocio e, fazendo-se anatomia na casa delas, se viu que a causa da morte tão apressada que não deu lugar a confessar-se foi porque a espada passou uma penca do bofe e, nela, uma veia grossa que, difundindo-se o sangue na cavidade do peito, o sufocou.
6. Como o anatômico era afeiçoado a um Filipe de Santiago, condiscípulo meu, lhe deixava sempre a chave da casa das anatomias e, ficando o corpo em cima da mesa para de tarde se fazer anatomia em outra parte dele e as tripas em uma sarapilheira no chão, fomos a horas de silêncio, e, pagando a um enfermeiro para as lavar, as medimos e achamos em todas dez varas e meia, as grossas seis e as delgadas quatro e meia, pendurando-as na parede da casa com seu letreiro por baixo, que dizia o seu comprimento e outras mais coisas que foram louvadas quando todos entraram de tarde.
Capítulo V
Das roturas que podem admitir cura e dos seus
remédios mais eficazes
1. Porque podem acontecer roturas em meninos e pessoas grandes e, ou os doentes ou seus pais podem vir em conhecimento logo no princípio, assim que sucedem ou nos primeiros dias, e estas podem ter cura e sararem radicalmente, me parece acerto apontar aqui alguns remédios dos mais eficazes e singulares com que alguns doentes têm sarado, segundo afirma um autor grave, os quais são os seguintes, e também particulares.
2. Vinagre, o mais forte que se puder achar, seis quartilhos, deite-se dentro em uma panela vidrada com vinte e quatro maçãs verdes de cipreste e as cascas de duas romãs azedas; tudo machucado, se ponha a cozer até gastar a terça parte ou até que estejam capazes de se poderem pisar em um almofariz, e se irão tirando os paus ou
teagens 2 das maçãs, e estes paus ou tiagens, se tornarão a deitar dentro na panela com as cascas que se não puderem pisar bem, e lhe ajuntarão três onças de incenso macho muito bem moído e, mexendo-o muito bem, se tornará a pôr ao fogo a dita panela, estando bem tapada com seu testo e, de quando em quando, se irá mexendo até se gastar o dito vinagre; então se deitará dentro uma quarta de cera bela, e, com uma colher de pau, se irá mexendo até que se veja uma massa grossa; então se tirará do fogo e continuarão mexendo, até que se esfrie, da qual se farão uns paus como de chocolate e se guardarão estes paus como uma jóia de grande preço, porque, com palavras se não pode encarecer as curas que com esta massa se fizeram, enquanto esteve em segredo.
3. O modo de usar dela é, estando quente, estender um pouco em pano de linho novo e, bem tapado, estando as tripas recolhidas e a parte sem inchação alguma, se porá o dito emplasto sobre a quebradura, tornando-o a aquentar, e sobre ele se porá a funda, que será muito conveniente para reprimir aquela parte; e para este remédio obrar melhor, se deixará estar o doente de cama alguns dias, os mais que puder, de costas, que será ao menos por vinte dias; e podem estar certos que, se a quebradura for de poucos dias e o remédio for feito como fica dito e o doente observar os dias de cama, há de sarar certamente, pois não só se afirma terem sarado alguns enfermos e meninos recém-nascidos, senão que me parece ser este remédio eficasíssimo pelos simples de que é composto.
4. Mas porque no Brasil não há as maçãs de cipreste verdes e só poderão haver nas boticas as cascas de romãs, sou de parecer que, em lugar das maçãs de cipreste, se lancem a cozer no vinagre dois jenipapos verdes, e, desta sorte, se pode fazer este remédio nas Minas, porque nos Currais, perto delas, há esta fruta; o primeiro emplasto pode servir três dias e depois se renova, ou se faz outro de novo; os jenipapos não façam dúvida a alguém, porque é fruta excelente para a tal enfermidade, e não falta quem diga que, do mesmo pau se faz uma rodela, que, metida dentro em funda e andando por tempos em cima da quebradura, a cura e une, sem ficar sinal dela; e para maior segurança, tomará o doente, estando em jejum, uma gema-de-ovo mal-assada, deitando-lhe dentro uma boa dedada de pós de raiz de solda, por tempo de oito ou dez dias.
5 Tudo o que o doente comer será assado e não cozido, e nada de manteigas, nem azeite ou coisas untuosas, por não relaxar a parte, e a água que beber será pouca, e, se for misturada com vinho tinto, será melhor.
manteigas, azeite ou coisas untuosas não convêm
6. A mim me parece, sem embargo que não fiz experiência por não ter o remédio feito, que há de ser singular o meu segredo de curar feridas frescas, o qual se achará no tratado sexto, porque, pelas singulares virtudes que nele tenho alcançado, não pode deixar de fazer bom efeito, e pelos simples de que é composto, pois faz sarar feridas, por maiores que sejam, com ossos cortados e nervos em tão poucos dias, como são três ou quatro ou, quando muito, até seis, como nas observações se pode ver. Digo que há de ser bom, sendo a quebradura de poucos dias ou poucas semanas, que, sendo antiga, duvido muito que este nem outros a curem.
7. E sem embargo que este remédio faça as gloriosas curas que faz em feridas patentes, e a ferida ou abertura das quebraduras esteja oculta, contudo, como é remédio muito penetrativo e unitivo, não duvido nada de que seja o mais singular que haja para esta tão dificultosa doença; e, demais que, como de o aplicar se não pode seguir dano algum, com muita razão se deve usar dele, porque, facilmente, poderá ser o único para esta doença.
8. Bem sei que não há de faltar quem diga que, parecendo-me conveniente, como o não apliquei a algum enfermo havendo tantos desta enfermidade? E é com razão, mas eu dou a minha. O tal remédio o não fiz mais que uma vez nestas Minas e o não tive muito tempo que o não deitasse fora, estimulado de se me dar coisa limitada pela grandiosa cura que com ele fiz a Manuel Gonçalves Moinhos, na Vila Real do Sabará, como deixo demonstrado na sua observação, merecendo por ela um grande prêmio, de que logo me pesou a sua perda, por não ter naquele tempo de que o fizesse; e, como o não fiz mais, por essa razão o não apliquei a esta doença, nem antes de vir para estas Minas me veio ao pensamento seria bom para ela, como agora aconselho; e como me parece que, depois deste grande remedio sair a público e se souber das suas raras virtudes, que poucas casas de familia das Minas estarão sem ele, com mais razão se pode aplicar a esta doença, tendo-o à mão, mas há-se de renovar duas vezes cada dia, por discurso de vinte, estando de cama, sempre com funda em cima dos chumaços molhados nele morno, que, espero em Deus, seja superior a todos e cure os de poucos dias quebrados.
9. Para estes é certo remédio o seguinte: uma erva, a que chamam
pescolubrinos3 que há em muitas partes e hortas sem cultura, que tem as folhas farpadas mais que as de malvas e da sua altura, pouco mais ou menos, e sem algum cheiro, e é conhecida de muita gente; desta erva, pisada e misturada com pós de favas secas, se faz emplasto e se põe em cima da quebradura com a funda por cima; daí a três ou quatro dias se faz outro, e daí a seis ou oito se faz outro, e assim se fazem três ou quatro emplastos, para trazer debaixo da funda por discurso de vinte e cinco ou trinta dias; estando de cama ou andando muito devagar, não comendo azeite, nem manteiga, ficará são, sendo de pouco tempo a quebradura. Um sacerdote de verdade achou-se rendido em uma virilha, fez este remédio assim como fica referido e sarou: assim mo afirmou e por isso o escrevo.
Capítulo VI
Das esquinências ou dores de garganta
1. O remédio de que comum ente usei sempre e uso em qualquer queixa da garganta no princípio pela grande experiência que dele tenho é o seguinte: Assim que algum preto ou branco se queixava de dor ou impedimento na garganta, mandava cozer em panela de barro uma mão cheia de folhas de carurus de espinho ou, por outro nome, juqueris, que têm alguma semelhança com silvas de Portugal, que muitas pessoas têm nas hortas em latadas como parreiras e também os há no mato, e são os paus e folhas espinhosas e são muito bons para comer; de folhas de tanchagem, outra mão cheia; estas duas ervas se ponham a ferver em quantidade de um frasco de água até gastar a metade, pouco mais ou menos, e deste gargarejo se usará assim frio, ou quebrado somente da frieza, com umas pingas de vinagre, que se lançará no que se houver de usar naquela ocasião, tomando três ou quatro gargarejos de cada vez e, no dia, oito ou dez, e uns pós de açúcar, deixando estar o medicamento na boca o mais tempo que puder, deixando cair o remédio bem abaixo, porque não tem perigo, ainda que passe algum, tomando suas ajudas purgativas para que a natureza ande lúbrica.
2. Este remédio é tão singular para queixas da garganta que, pelo maravilhoso proveito que tenho visto infinitas vezes, julgo que o dito caruru de espinho tem particular virtude para queixas ou virtudes ocultas, pois tem sido poucas as vezes que tem faltado; e, se virmos que com este remédio há alívio, com ele se continuará e, acabado, se fará outro cozimento; mas, se, pelo contrário, experimentarmos que a queixa vai em aumento com febre e alguma dificuldade na respiração ou de engolir, neste caso será preciso sangrar-se no braço e no pé juntamente, fazendo a do braço primeiro e maior, pois assim o tenho mandado fazer muitas vezes com feliz sucesso, porque, deste modo, se faz evacuação com a do braço e com a do pé derivação para divertir, que a do braço não suspenda os humores para cima, e, por esta causa, a do braço, sendo só, não faça tão bom efeito como algumas vezes tenho visto morrerem os doentes sufocados, sem que as sangrias do pé lhe possam aproveitar por serem feitas quando já os humores estão suspendidos e a natureza debilitada com as repetidas sangrias do braço, que alguns professores aplicam com grande repetição de três e quatro cada dia, e eu, sempre deste modo que digo, me sucedeu bem, Deus louvado; cada um fará o que melhor lhe parece, porque é mais acertado prevenir o futuro pelo modo que exponho que esgotar um enfermo com as sangrias do braço e depois passar ao pé, ou sangrar só no pé e depois passar ao braço, que sempre isto tive por mau.
3. As sangrias se farão as vezes necessárias e se acudirá com elas antes que a esquinência ou garrotilho ponha ao doente em manifesto perigo e, quanto mais for o aperto, tantas mais se darão ao dia, repartindo-as por suas horas, assim de dia, como de noite, para, entre elas, tomar o doente os gargarejos que ficam ditos e os seus comeres, que serão de boa sustância, para melhor sofrer as sangrias e não perder as forças, pois sem elas se não pode obrar coisa alguma, tratando esta doença com toda a vigilância e cuidado, pois é a parte de tanto perigo, como todos sabem; e, quando esta queixa aperta com perigo, só as sangrias repetidas poderão ser o seu remédio; e, se virmos que, depois das sangrias, há necessidade de purgar, se fará com maná de cozimento fresco, que será o peso dele até três onças, ou também em caldo-de-galinha desfeito e coado, ou também fazendo um cozimento de duas oitavas de folhas de sene, dando só duas fervuras; e, coado no que baste, se desfaça o maná e, desfeito muito bem, se tornará a coar e se dará morno ao enfermo, como eu algumas vezes tenho feito com bom sucesso; e, porque sucede haver naquela parte alguma porção de humores alheios da natureza do sangue e as sangrias os não podem tirar, é preciso então purgar com esta purga ou outra semelhante, contanto que seja branda e benigna, pois assim o tenho experimentado neste clima e assim o aconselho, e sempre cada um curará conforme entender melhor e a presença da enfermidade o pedir, e, para mais clareza e inteligência, quero escrever a seguinte observação.
Observação de uma esquinência em Clemente Garcez que, por
culpa de quem a curou, degenerou em um garrotilho sufocante
4. Na Vila Real do Sabará, indo eu passando por uma rua, me chamaram para ver um ourives por nome Clemente Garcez, morador junto à igreja velha, o qual achei com o pescoço todo inchado, de tal modo que não tinha aquele vão que todos temos, antes estava tão igual que só os queixos e a barba aparecia, e tão sufocado que não se lhe entendia uma só palavra, nem engolia caldo-de-galinha algum, e de tal sorte vi este miserável enfermo que, por instantes, se esperava acabasse a vida; vendo, pois, tão manifesto perigo, perguntei que tempo havia que estava doente e que remédios se lhe tinham aplicado; foi-me respondido que havia quinze dias e que os remédios que se lhe tinham feito, e faziam ainda, eram gargarejos de vinagre e panos por fora do mesmo. Não posso explicar a dor e sentimento que tive vendo tão grande perigo e a desordem dos remédios que, sem dúvida, metiam ao doente na sepultura em lugar de o livrar dela; também me não pude suster que não perguntasse quem lhe assistia; responderam-me que um barbeiro e, acabada a resposta, entra o dito pela porta dentro; o que aqui se passou, passo em silêncio; e, aplicando mais o sentido ao enfermo que lhe faria do que ensinar ao ignorante para em outra ocasião ser mais temente a Deus e menos prejudicial ao bem comum, lhe dei a despedida conforme o seu merecimento.
5. Nestes termos me pus a discorrer e fazer juízo do remédio mais ativo e que mais prontamente se pudesse aplicar sem se passarem horas ou instantes, se possível fosse; ocorreu-me que o não podia haver mais pronto, nem mais singular que uns farelos de milho grosso fervidos em aguardente do Reino, feitas disto umas papas que, estendidas em um pano, se aplicassem quentes em cima da inchação, por esta estar tão dura como uma pedra e fria como neve, e que os assistentes tivessem sentido para renovar emplasto novo, em se secando aquele; assim se fez o primeiro com toda a presteza em minha presença e lho pus e atei.
farelos de milho grosso com aguardente
6. Fui de tarde ver este doente e o achei com alguma melhora, assim na pronúncia das palavras, como na inchação, porque estava mais branda e alguma palavra se lhe percebia; fiz emplasto novo, animei o enfermo, pus-lhe aquela massa quente em toda a inchação, recomendando muito se não descuidassem os assistentes de lhe porem massa nova em se secando aquela, e a razão disto é porque, em se secando, os farelos não podiam fazer efeito considerável em necessidade tão grande, e de mais que, como a aguardente é espirituosa, todos os remédios que com ela se fizerem é necessário haver prevenção em se renovarem mais brevemente que os outros, por exalarem os seus espíritos; e também é preciso advertir que, quando for ao fogo, seja este brando e não forte, porque, quanto mais forte for, menos virtude lhe ficará.
7. Ao outro dia de manhã fui ver o enfermo e o achei com muita melhora, tanto nas palavras que articulava como na inchação e no engolir, que já levava para baixo mais caldo do que lançava fora; e, como visse que o humor que existia na parte era de natureza fria, tratei de lhe dar quatro xaropes preparantes para o purgar com resina de batata, o que fiz por a poder engolir e para sarar mais breve e mais seguramente; tomou os ditos xaropes em quatro dias em jejum e no outro dia a purga, tendo sempre o emplasto na parte, renovando-se-lhe como fica dito; e, passados alguns dias, como com a purga fez grande obra, ficou livre da inchação, assim externa como interna, e, conseqüentemente, falando e engolindo sem o mínimo impedimento. Este é o enfermo que poucos dias antes estava para dar contas a Deus e, por virtude dos poucos remédios que ficam referidos e de tão pouco custo, ficou livre de tão evidente perigo.
Observação na Cidade da Bahia de uma pedra que tirei do
cano da urina a um homem que estava com o juízo quase
perdido por não poder urinar
8. Indo eu passando pela rua Direita, da Cidade da Bahia, me mandou chamar, com muita pressa, João da Costa, oficial de armeiro e, indo à sua cama, o achei com o cano na mão e como desesperado, dizendo-lhe acudisse com muita pressa; e apalpando onde ele dizia, lhe achei, junto da ponta, uma grossidão que logo entendi era pedra, que o não deixava urinar e o tinha impedido havia cinco dias, não urinando senão gota a gota; e metendo-lhe a pinça ou tenaz pela via dentro, abrindo-a primeiro e metendo-a à força, quando chegou a topar na pedra, fiz força para passar adiante; passou e, apertando-a, puxei por ela e tirei uma pedra como um grão grande de fonte; urinou muito e sarou.
Capítulo VII
Dos remédios para tumores ou inchaços de
humor frio que nascem nas costas das mãos
1. Estes tumores, uns são duros e móveis, outros são brandos e fixos, que, pela sua brandura, imaginam alguns cirurgiões que deles têm pouca experiência (como já vi), que estão cheios de matéria e é engano, porque não têm dentro senão uma serosidade como água, que, depois de abertos, degeneram em chagas tão sórdidas que, por mais pós de Joannes que se lhe lancem, nunca alimpam, nem fazem matéria, por cuja causa muito dificultosas e trabalhosas de curar; destas logo escreverei uma observação muito boa; e não se abrindo, é o remédio tão fácil como o seguinte.