Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 16 de 31 · parte 1/3

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Erário mineral

8. Tratado I – Da cura das pontadas pleuríticas e suas observações

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Tratado I

 

Da cura das pontadas pleuríticas e

suas observações

 

Capítulo I

1. Esta enfermidade é o flagelo que mais tem destroçado os mineiros destas Minas e é a que mais cuidado tem dado aos professores da Medicina e Cirurgia, enganando-se e tropeçando a cada passo, por dever ser o seu modo curativo, neste clima, alheio totalmente do que os autores apontam, por cuja razão morrem escravos sem número: uns por darem nas mãos dos principiantes do dito clima, outros porque lhes dá com tanta veemência e perigo que uns duram vinte e quatro horas, outros pouco mais e outros ainda menos.

2. Não sei que haja professor algum que até o dia de hoje tenha escrito das enfermidades das Minas, nem ainda do Brasil, e não haverá pessoa que ignore serem os tais climas diferentes dos de Portugal e da Europa, porque, ou em mais ou em menos, diferem, e, na minha opinião, o clima das Minas é totalmente diferente de todos os mais; e, sendo isto assim, como sem dúvida é, por muitas razões não haverá quem, com razão, calunie o que disser neste meu livro, ainda que pareça impossível, pois não só o clima é diferente, mas a causa das enfermidades e os humores que as produzem, por razão dos mantimentos e habitação em que assistem e se exercitam, assim os pretos como os brancos: os pretos, porque uns habitam dentro da água, como são os mineiros que mineram nas partes baixas da terra e veios dela, outros feitos toupeiras, minerando por baixo da terra, uns em altura, de fundo, cinqüenta, oitenta e mais de cem palmos, outros pelo comprimento em estradas subterrâneas muitos mais, que muitas vezes chegam a seiscentos e a setecentos; lá trabalham, lá comem e lá dormem muitas vezes, e como estes, quando trabalham, andam banhados em suor, com os pés sempre em terra fria, pedras ou água, e, quando descansam ou comem, se lhes constipam os poros e se resfriam de tal modo que daí se lhes originam várias enfermidades perigosas, como são pleurises

apertadíssimos, estupores, paralisias 1, convulsões, peripneumonias e outras muitas doenças, para as quais os melhores remédios que se lhes devem aplicar são sudoríficos, diaforéticos e vulnerários, para que abram os poros e se promova a circulação do sangue e mais líquidos com os remédios que em seu lugar se apontarão; os brancos, alguns descalços por orvalhos, suados, molhados e resfriados, do mesmo modo.

3. E para que não digam que não sou oráculo para escrever novo modo de curar as doenças, sem me conformar com os antigos mestres, respondo o seguinte. Hipócrates, aquele grande oráculo da Medicina Científica, certifica, e com muita razão, que a arte médica é tão vasta e dilatada que não tem termo em que caiba nem baliza que a compreenda; porquanto, ainda que ele nos deixou os seus aforismos e regras universais por onde nos governamos, contudo, a experiência nos mostra que não há no mundo coisa alguma tão certa nem tão infalível que não tenha suas exceções e deixe de faltar algumas vezes. Como coisa certa e infalível, diz Hipócrates que nem as mulheres padecem gota enquanto lhes baixa a conjunção mensal, nem os meninos enquanto têm uso de mulher, e, pela experiência, consta que algumas mulheres menstruadas e alguns meninos incapazes, por sua idade, de ter cópula com mulheres, padecem gota com dores insuportáveis. O mesmo Hipócrates certifica que os acidentes de gota-coral nas pessoas velhas e nas que passam de vinte e cinco anos são incuráveis, e o doutor Curvo curou dos tais acidentes a três homens, um dos quais passava de trinta, e os dois passavam de vinte e cinco, como os curiosos poderão ver na sua Polyanthea Medicinal da segunda impressão, trat. 2, cap. 9, f. 80, do núm.34 até 38. E também consta que Matias Cornaro, médico de Maximiliano II, curou de gota-coral a uma mulher que tinha setenta anos. Diz mais o sobredito Hipócrates que os empiemáticos e os que têm matérias supuradas dentro do vão do peito só se purgam e evacuam por escarro, e a experiência tem mostrado que escaparam alguns deitando as matérias já por via

das urinas2 3 , já misturadas com a camera. O mesmo certifica Paulo Egineta dizendo que, quando o apostema do peito se rompe, cai a matéria umas vezes no estômago, outras vezes nos intestinos, e outras vezes na bexiga pelos anfractos das veias, como por canos ou aquedutos. Nem Galeno deixou de conhecer isto mesmo quando disse: Não é para admirar, nem é impossível, que, das partes que estão superiores ao septo transverso, corra e desça matéria ao ventre, e das que ficam abaixo deste, caia e desça a matéria pelos rins à bexiga. E porque Mesue o disse ainda mais claro, não será fora da razão referir aqui as suas palavras, que são as seguintes: Depois que os abscessos, ou apostemas do peito, rebentam, deitam alguns a tal matéria e cai na cavidade do peito por destilação; a estes, ou pela veia do quilo, cai na parte côncava do fígado, e daí, pelas veias dos intestinos, pode sair de mistura com a camera; mas, se, pelo contrário, a matéria do apostema que estava no peito cair e correr para a parte convexa do fígado, daí pelas veias emulgentes, dará consigo nos rins e na bexiga, e sairá pela via da urina.

4. Também é sentença definitiva de Hipócrates que, se as prenhadas se sangrarem ou purgarem, moverão; e tão longe está isto de ser assim que, para não moverem, as sangramos e purgamos muitas vezes com felicíssimo sucesso, não só dando-lhes purgas brandas e benignas, mas dando-lhes a água benedita, ou os pós de quintílio, ou o tártaro emético; porque, suposto fazem algumas ânsias, são muito fiéis e seguros, quando a causa por que movem é a cópia de humores cacoquímicos, alheios da natureza do sangue, como são cóleras, que causam enchimento no estômago, e outros. Diz, além disso, o mesmo Hipócrates que as feridas da bexiga são incuráveis, e consta nos, com toda a certeza, que em França, em Holanda e em outras partes do mundo se abrem muitas bexigas com ferro, para se lhe tirarem as pedras, e por benefício de peritíssimos cirurgiões se curam perfeitamente e vivem largos anos. Diz o doutor Curvo que teve uma pedra na sua mão do tamanho de uma castanha, que se tirou da bexiga aberta ao ferro, sem perigo da vida da enferma, que era uma criada de Luís de Saldanha, morador a Junqueira.

5. Também é lei assentada de Hipócrates que, na entrada dos crescimentos das febres, se não dê de comer nem de beber aos doentes, e, não obstante este preceito, não há médico tão covarde que, se o doente é muito magro ou de temperamento muito seco, ou colérico, ou muito fraco, lhe não dê de comer em qualquer hora da sezão, para evitar que o doente se não faça hético ou morra de fraqueza.

6. Bem encomendam Galeno e Avicena que se não sangrem os meninos antes de terem quatorze anos; e a experiência nos mostra que, com sangrias moderadas, os livramos hoje de gravíssimas doenças, sendo de menos de um ano.

7. Finalmente, diz Hipócrates que os que padecem supressões de urina morrem, se até o sétimo dia não urinam; e, pelo contrário, temos visto alguns doentes que urinaram no fim de oito dias e escaparam da morte. Dos referidos casos se colhe, claramente, que as regras e sentenças dos antigos, ainda que, pela maior parte, sejam verdadeiras, a experiência mostra que, muitas vezes, têm falência, e outras que é acertado não as seguir, e, para confirmação desta verdade, diz o doutor Curvo o seguinte:

8. O mui reverendo padre frei Pedro Manuel, religioso da Ordem de São Bernardo, filho do excelentíssimo senhor dom Sancho Manuel, conde de Vilaflor, depois de uma supressão alta que lhe durou vinte dias, salvou a vida, contra a opinião de Hipócrates, porque, sangrando-se doze vezes nos braços, deitou tanta quantidade de urina pelas cesuras das sangrias quanto pudera ter deitado pela via da urina em todos aqueles dias; e não só escapou do grandíssimo perigo em que estava, mas até o dia de hoje logra saúde perfeitíssima. Neste lugar se oferecem duas coisas dignas de reparo e importância na prática da Medicina e Cirurgia: a primeira é considerar quão errados vão aqueles que são contumazes e atados aos conselhos e regras dos antigos, que, nem à razão natural, nem ao que estão vendo com os seus olhos, querem dar crédito, o que é muito abominável, pois seria melhor examinar as causas do que os seus olhos vêem que negar teimosamente a fé do que se experimenta, porque (como dizem graves autores) a razão e a experiência sempre foram mais poderosas que a autoridade humana, e, suposto que Hipócrates e Galeno sejam os oráculos antigos da Medicina, não são tão senhores dos entendimentos dos modernos que hajamos de crer por infalível tudo o que eles disseram. Do que fica dito, consta esta verdade.

9. A segunda coisa digna de grande reparo é ver quão erradamente procede quem, nas supressões altas da urina, tem medo de mandar sangrar repetidas vezes, quando a experiência nos está mostrando que nenhum remédio é mais proveitoso que as sangrias dos braços repetidas, feitas depois que o doente estiver purgado com vomitório de água benedita vigorada ou tártaro emético, pois, deste modo, têm livrado muitos enfermos da morte.

10. Nestas Minas, com mais razão, se verificam estas verdades, pois o mais próprio que nelas se deve usar é da razão e da experiência, como vou mostrando e mostrarei em todo o discurso deste volume, que não só servirá para este clima, seu verdadeiro objeto, senão também para todo o Brasil e grande parte para Portugal.

 

Capítulo II

 

Que coisa é pontada pleurítica?

Pontadas pleuríticas, nestas Minas, são aquelas a que vulgarmente brancos e pretos chamam pontadas, e, porque elas têm várias complicações, quero defini-las do modo seguinte:

 

Capítulo III

 

Das pontadas complicadas A complicação que mais ordinariamente e mais vezes é causa de pontadas, principalmente nos pretos, são enchimentos do estômago, lombrigas, corrupção-do-bicho e alguma obstrução; mas, como os enchimentos do estômago são a principal complicação, e que mais ordinariamente acontece (como se verá nas observações), passo a dizer quais são os sinais do enchimento; e também é causa de pontadas o enchimento de humores no corpo.

 

Capítulo IV

 

Dos sinais do enchimento do estômago

1. Os sinais por onde se conhece haver enchimento no estômago são os seguintes: haverá amargores na boca, fastio ou pouca vontade de comer, e o comer mal saboroso, ou não doce, como dizem os pretos; vontade de vomitar, ou vômitos, e o estômago duro, ou cheio, e o melhor e mais certo sinal é, estando o doente em jejum e deitado de costas com os pés encolhidos, carregando-lhe com os dedos, brandamente, na boca do estômago, se se doer dele, ou seja na boca, ou em algum lado, torcendo-se o doente e mostrando sentimento com alguns dos mais sinais, não teremos dúvida alguma em que a pontada procede do dito enchimento; e, no exame que se fizer, haverá repetição de uma, duas e três vezes, para vermos se os pretos variam, no que são muito fáceis, ou se falam sempre de um modo, o que é de grandíssima importância para o acerto da cura, porque, de outro modo, vai com grande risco de morrer o enfermo com o vomitório, pois com os vomitórios morrem sufocados, não tendo a sua causa na primeira região, que é o estômago; e a mesma advertência se terá nas mais doenças.

haverá repetição nas perguntas que se fizerem aos pretos

2. Tendo o doente, ou seja preto ou branco, os sinais acima ditos, ou ainda que não tenha todos, bastará que tenha a maior parte, para ficarmos certos em que a pontada é procedida do mesmo enchimento; nestes termos, se poderá, seguramente, dar ao doente um vomitório de tártaro emético, que nestas Minas prova admiravelmente com o peso de cinco até seis grãos, conforme for o sujeito e as forças dele; porque, se for robusto e de boa idade, poderá sofrer um até dois grãos mais, e, se for fraco ou de pouca idade, ou a pontada for grande, se lhe dará menos, para melhor segurança, porque, se por algum acidente ou por informação menos verdadeira, suceder que a pontada não seja procedida do dito enchimento, são perigosíssimos os vomitórios; e assim deve haver grande cuidado nisto, porque não vai mais nem menos que a vida do enfermo, como se verá nas observações.

vomitório de tártaro emético

3. Sendo o tártaro já conhecido por bom e bem calcinado, se dará somente os cinco até os seis grãos que ficam ditos, como eu ordinariamente tenho usado e uso; e, dado o primeiro, se verá se a pontada se moderou e não despediu de todo, que, neste caso, se poderá dar segundo, como eu muitas vezes tenho dado, acrescentando ou diminuindo conforme a obra do primeiro; e se a pontada despedir de todo, não será necessário dar segundo nem terceiro, como tenho dado com bom sucesso, mas sempre será bom conselho purgar ao depois dos vomitórios com purga solutiva de resina de batata; e, se o doente tiver padecido algumas queixas gálica s de poucos tempos, ou as tenha de presente, será bom acerto, depois da purga de resina, tomar alguma, ou algumas, de jalapa, porque a resina é muito universal de todo o corpo, e também capital, e alimpa bem os humores frios de que os pretos abundam muito, e também os brancos, suposto menos; e as de jalapa são muito próprias para os humores gálicos e muito singulares para as queixas das juntas, quando há dores nelas; e há de ser a jalapa pisada de fresco, porque, estando pisada algum tempo, perde muita parte de sua virtude e também purga todos os humores; e o mais que agora podia dizer se verá no discurso deste tratado e nas observações.

queixas gálicas

queixas das juntas

4. E como há também algumas pontadas que procedem de lombrigas, como tenho visto e nas observações se verá, se conhecerão pelos sinais seguintes:

 

Capítulo V

 

Dos sinais de haverem lombrigas

Havendo pontada ou outras quaisquer queixas, se examinará o doente para vermos se tem dores no embigo, ou se ele se lhe torce, como dizem os pretos, ou sente nele mordeduras ou picadas pela barriga, ou se sente correr-lhe alguma coisa para cima que lhe venha à garganta, principalmente estando em jejum, ou tem comichão nela ou nos narizes, ou tem tosse, ou dor no estômago e picadas nele, ou tem a boca e língua languinhenta, ou se é sujeito que, em outras doenças, fosse costumado a lançá-las, e, sendo em jejum, aparecerão melhor os ditos sinais, e o melhor e mais certo que eu tenho observado nos pretos, principalmente, é terem os pulsos delgados e submersos, ainda que haja febre, e, sendo criança, terá comichão nos narizes, ou, estando dormindo, trincará nos dentes ou terá estremeceduras; e, sendo branco, a cor do rosto será pálida, os olhos brancos e esmorecidos, com o mesmo sinal nos pulsos. Havendo os ditos sinais, ou a maior parte deles, com os pulsos delgados e a modo de sumidos, não teremos dúvida em haver lombrigas, pelo que é preciso pôr todo o cuidado em destruí-las e lançá-las fora com os remédios seguintes:

 

Capítulo VI

 

Dos remédios contra lombrigas

1. O remédio que tem feito grande obra em muitos enfermos e lhes tem feito lançar muito grande número de lombrigas, de tal sorte que quase se podia fazer incrível para algumas pessoas, é o seguinte: sumo de erva-de-santa-maria, assim chamada nestas Minas e de todos bem conhecida, e na Cidade da Bahia chamada mastruços, sendo os mastruços verdadeiros outros, como na cura das pontadas se verá. Do dito sumo meia xícara, sumo de dois ou três limões azedos, se misture tudo e se lhe lance uma colher de azeite-de-mamona, por outro nome azeite-de-carrapato, com umas pingas de vinagre forte e uma dedada de pó de açafrão, como de tabaco; tudo bem mexido e morno, se dê a beber ao doente pela manhã, em jejum, com tal condição que o doente há de tomar, primeiro, uma colher de açúcar, e, quando tomar a mezinha, lhe não há de tomar o cheiro, o que se observará do modo seguinte. A descrição da erva-de-santa-maria se achará no trat.12, núm. 20.

este remédio tem feito prodígios e é invento do autor

2. Depois de tomar o dito açúcar, deixará passar algum intervalo de tempo, e, passado ele, que as lombrigas possam estar juntas no estômago por estarem faltas de sustento, tapará o doente os narizes com os dedos e, sem tomar respiração, beberá de repente a dita mezinha, e a razão é porque, segundo a experiência que tenho, são as lombrigas uns bichos tão perspicazes que, chegando-lhes o cheiro do seu contrário, fogem para as partes longínquas e, ainda que o doente tome remédios muitos dias e muito perfeitos, não farão efeito algum, como muitas vezes tenho visto; e, pelo contrário, tomando-se o remédio, como tenho dito, também tenho visto obrarem os tais remédios maravilhosamente, estime-se este, que é soberano e também é alguma coisa purgante, pela virtude do azeite que leva, e por isso mais próprio.

experiência

3. O dito remédio se repetirá até cinco ou seis dias, tomado só em jejum, se a necessidade pedir que sejam tantos; e, no caso que haja necessidade grande, tomará o remédio em jejum, e de tarde, antes do sol posto.

4. A semente de Alexandria, chamada vulgarmente erva lombrigueira, sendo nova, e misturando, a cada meia oitava dela, feita em pó, três ou quatro grãos de calomelanos turquescos lançados em sumo de hortelã, ou de mastruços verdadeiros, ou de erva-de-santa-maria, com umas pingas de vinagre forte, é muito bom remédio; ou também se podem lançar os ditos pós dentro de um bocado de banana de São Tomé assada, e dada em jejum ao doente com as condições e do mesmo modo que fica referido; o azebre feito em pílulas, do mesmo modo que se fazem as de resina de batata, é muito bom remédio, por ser purgativo, dando dele uma oitava até oitava e meia de peso, com dez grãos de calomelanos turquescos, principalmente tendo o doente tomado algum dos outros será mais próprio, porque, estando já atormentadas, sairão melhor, assim por ser contra elas, como por ser purgativo brando; a água de azougue vivo é também muito bom remédio, principalmente para os meninos, por se enganarem melhor com ela, a qual se faz do modo seguinte:

remédio composto pelo autor

5. Em duas canadas de água da fonte se lancem duas onças de azougue vivo e sirva em panela de barro até diminuir a metade, e, escoada a água, de modo que não vá nela nada do azougue, se lhe misture uma oitava de semente de alexandria, bem pisada em pó sutil, e, sendo necessário, para ficar mais clara e limpa, se coará a tal água por um pano e se lhe ajuntará meio escrópulo, que são doze grãos, como adiante se verá, de calomelanos turquescos feitos em pó sutil; e desta água bem toldada tomará o doente uma xícara todos os dias em jejum, ou também de tarde, conforme a necessidade, que é um grande remédio e louvado de muitos autores, sem que leve os calomelanos, quanto mais que com eles fica mais forte e vigorado, como tenho experimentado muitas vezes. Acrescentei a este remédio os calomelanos por conhecer que inimigos fortes se não vencem com armas fracas, e com ele venci em muitas ocasiões os tais inimigos; a amêndoa da fruta do angelim pisada e dada em algum sumo dos que ficam ditos ou em água morna dizem muitas pessoas que têm experimentado ser bom remédio. A casca das raízes do dito angelim - e se for da raiz que ficar para o nascente, melhor -, pisada e dada na forma dita, é remédio que algumas pessoas me disseram era bom e experimentado; e a mim me parece serão bons por conhecer que são amargosíssimos.

água de azougue acrescentada pelo autor

a amêndoa da fruta do angelim é bom remedio

a casca do dito angelim também é aprovada

6. Mas porque nestas Minas há tanta abundância de lombrigas, assim em pretos como em brancos, de que muitos morrem sem ninguém saber de que, ensinarei o melhor remédio que inventei para as destruir, o qual me desempenhou em ocasiões sem-número e muitos doentes recuperaram a vida por meio dele, o qual se faz do modo seguinte:

7. Uma raiz de fedegoso, sendo grande, ou duas, sendo pequenas, depois de lavadas se cortem em bocadinhos e se pisarão em almofariz, lançando-lhe, depois de pisadas, uma xícara, ou menos, de água da fonte, morna; se tornarão a pisar e a moer muito bem, e depois se esfregará a dita massa com os dedos dentro no almofariz, e, lançada em um pano, se coará e espremerá muito bem para se lhe tirar toda a virtude, misturando-se na tal água a terça parte do sumo de erva-de-santa-maria, também coado ou limpo, com umas pingas de vinagre forte, três ou quatro grãos de calomelanos turquescos feitos em pó sutil, e, morno, se dará ao doente em jejum, tomando primeiro o açúcar e tapando os narizes, por não ficar o remédio baldado, como já fica referido, o qual se continuará até seis dias, sendo necessário, porque há algumas lombrigas tão fortes que, para se vencerem, todo este tempo é necessário, e muitas vezes é preciso tomá-lo de manhã e de tarde, principalmente quando as queixas ameaçam perigo de vida; e, ainda que há muitos doentes que, ao segundo e terceiro dias, começam a lançar grande cópia delas, também há outros que não as lançam senão ao quarto, quinto e sexto dia, e sempre é bom conselho tomar ajudas purgativas todos os dias à noite, para as ir lançando, e os humores podres, que as fomentam e cevam.

remédio singularíssimo para lombrigas: invento do autor

8. No caso, porém, que haja necessidade grande de matar lombrigas com brevidade, pelo enfermo estar com perigo de vida, como eu vi muitos e nas observações se verá, será preciso repetir o dito remédio duas vezes cada dia, em jejum e de tarde; e também será preciso que, em cima do embigo e nas cadeiras, se aplique o emplasto seguinte, ao mesmo tempo do remédio pela boca: pise-se uma boa mão cheia de folhas de erva-de-santa-maria e outra de folhas de hortelã; tudo bem pisado, se lhe misture um fel de boi ou de vaca e um golpe de vinagre forte, e, bem misturado tudo, se aplique quente nas ditas partes bem seguro, e se renovará sendo necessário, que este exterior, aplicado ao mesmo tempo que se toma o interior, poderão os doentes estar certos que hão de lançar infalivelmente todas quantas tiverem no corpo, pois nunca experimentei falência nele.

emplasto singularíssimo para lombrigas, invento do autor

Advertência

As enfermidades que mais comumente sucedem nestas Minas, principalmente aos pretos, são pontadas, enchimentos do estômago, lombrigas e obstruções: as pontadas lhes procedem, umas vezes, por causa de grande enchimento de humores frios em todo o corpo, que é o mais comum; outras vezes, por causa de resfriamentos e constipação dos poros fechados; outras, por causa da circulação do sangue e mais líquidos se retardarem e andar mais vagarosa do que convém, ou estar quase parada; outras vezes, por causa de alguma obstrução, ou também por causa de grandes frios que hajam neste tempo; e muito poucas vezes sucederá haver pontada por causa de abundância de sangue. Os enchimentos lhes procedem por causa de comerem tarde, fora de horas, que comumente é depois de meia-noite e depois de dormirem, malcozido e de diversas qualidades, e também por ser em muita quantidade, que tudo isso conduz a haver muitos enchimentos no estômago e no corpo. As obstruções também lhes procedem das mesmas causas, porque, aonde há maus cozimentos no dito estômago, há muitas cruezas nele, e dele passam a fazer as obstruções e enchimento de humores no corpo e outras muitas doenças, e também por causa de serem muitos dos seus mantimentos frios, flatulentos, malcozidos, por cuja razão indigestos.

advertência muito necessária

9. As lombrigas se produzem dos humores corruptos que procedem dos maus cozimentos, e deles, corruptos, se gera grande cópia delas; portanto, se deve atender com grande cautela e cuidado a estes quatro gêneros de enfermidade, e não menos em os remediar, porque, os que têm enchimentos de humores frios é preciso aquentá-los e purgá-los, para se diminuírem, e os que têm enchimentos no estômago, sangrando-se se lhes metem com as sangrias as cruezas nas veias, e, quando não morrem sendo muito sangrados, têm doença dilatada e muito custosa para se curar, assim de muito tempo, como de muita despesa. Os que têm lombrigas, sangrando-se, pela maior parte morrem, principalmente tendo muitas; os que têm obstruções, se se sangram, ficam incuráveis pela maior parte, e se os purgarem sem preparação, far-se-lhes-ão as obstruções maiores; e, finalmente, é tal este clima que, se os cirurgiões e médicos não discorrerem por si em todas as doenças que nele acontecem, farão muito poucas curas com acerto ou sem se enganarem, porque é muita a variedade delas, e, conseqüentemente, pedem vários modos de cura fora da regra dos autores, por respeito do clima, habitação e sustentos, como se verá nas observações que adiante escreverei.

advertências e razões de grande penderação

10. Não é de menos ponderação e confusão a cura das pontadas pleuríticas que, com a mercê de Deus e com alguns documentos do licenciado João da Rosa, húngaro de nação que faleceu nestas Minas, eu as curo, e outras doenças, com mais facilidade que ninguém e fora do modo curativo dos mais cirurgiões e médicos, exceto o uso das purgas de resina, que já todos sabem, principalmente os mais antigos neste clima, que são melhores que todas as outras, como se verá no discurso deste tratado, o qual modo curativo, pouco tempo depois de chegado a estas Minas, comecei a usar e usei sempre até o dia de hoje com feliz sucesso; e quem as curar pelos autores irá perdido, perderão os enfermos as vidas e seus senhores (sendo os enfermos pretos), o seu valor. E, se houver pontada em que não haja sinais de grande abundância de humores no corpo, ou de enchimento de estômago, ou de lombrigas, se verá se tem corrupção-do-bicho, a qual se conhecerá e curará como se diz no oitavo tratado deste volume, que os curiosos folgarão de ver.

com mais facilidade que ninguém

 

Capítulo VII

 

Da cura das pontadas sem complicação

1. Somos chegados ao maior flagelo que eu dizia dos moradores destas Minas, enfermidade em que, certamente, se enganam todos os principiantes neste clima, assim cirurgiões como médicos, porque, fazendo o que estudaram e os autores ensinam, nenhum efeito vêem da sua diligência ou, se o chegam a ver em um enfermo, o não vêem em um cento. Falo como experimentado e como quem também se enganou, e, achando-me mui triste naquele princípio, vendo que esta doença era muito comum e que morriam tantos escravos e se perdia tanto ouro em poucos dias, me fazia ter grande pena, assim pelos não poder remediar, como pelo pouco crédito que adquiria, e não menos, vendo que um pobre trabalhava dois e três anos para lucrar um, e que o perdia em poucos dias ou em vinte e quatro horas, e alguns em menos, como nas observações adiante mostrarei. Andando, pois, nestas considerações, tive ocasião de ser amigo do licenciado João da Rosa, húngaro de nação e bem conhecido em todas estas Minas por cirurgião eminentíssimo, químico, herbolário e farmacêutico, o qual me deu alguma instrução como antigo no clima, não porque fosse seu gênio esse, mas sim por muita diligência minha, sem embargo que era cristianíssimo, que Deus o tinha trazido a estas Minas para remédio de tantos aflitos, e muito principalmente dos pobres, de quem era universal benfeitor; que, por isso e pela boa natureza de que era dotado, estará gozando da bem-aventurança, como piamente creio.

flagelo

escravos se perdem nas minas em vinte e quatro horas, e alguns em menos

2. Isto assim suposto, digo que, muitas vezes, acontece haverem dores de cabeça e pescoço, e depois irem-lhe descendo pelos ombros, ao que alguns professores costumam chamar reumatismos, e como tais os curaram, sangrando-os, o que, na minha opinião, é erro manifesto, porque são sintomas que vêm a disparar em finas pontadas pleuríticas, pelo que advirto que, sucedendo haver algum doente nesta forma, se não sangre nem se lhe chame reumatismo sem que precedam mais sinais para se vir em perfeito conhecimento, mas sim se irá tenteando a natureza com ajudas frescas e purgativas, tomando seus banhos, respeitando a corrupção-do-bicho e vendo se a tem, esperando o que a natureza dispõe, por não metermos o doente em algum perigo, como algumas vezes tenho visto; uma das quais foi em casa do reverendo vigário da Vila do Carmo, o padre José Simões, que perdeu um bom escravo à minha vista, curando-se de uma semelhante queixa com sangrias bastantes ou tantas que o desanimaram e debilitaram, de modo que, sem conservar caldo algum no estômago, com vômitos acabou a vida, dando o professor assistente a esta doença o nome de reumatismo, de que farei memória nas observações, para servir de espelho aos que quiserem observá-lo.

um enfermo se curou de reumatismo, não o sendo, e morreu na má cura 3. Sendo que as dores de pescoço e ombros venham a resolverem-se em pontada, logo assim que o doente a sentir, ou seja, de manhã ou de tarde, se lhe dê uma purga de resina de batata de uma oitava de peso, sendo pessoa robusta, e, não o sendo, será de menos, com cinco ou seis grãos de calomelanos turquescos ou de tártaro vitriolado, para respeitar as lombrigas, porque estas pontadas costumam ser das piores, e digo que se dê logo a purga e leve alexifármaco contra as lombrigas, para, de uma vez e ao mesmo tempo, acudirmos ao doente por duas maneiras; porque, se a pontada proceder de lombrigas, é muito acertado esse remédio, pois, até a mesma resina é contra elas e se destruirão, se as houver, e se purgarão os humores de que elas se geram, e, se não houver as tais lombrigas, é a resina maravilhoso remédio para pontada, sem que os calomelanos façam prejuízo, amparando-se a parte da pontada com panos quentes e resguardá-la do ar frio; e, no segundo dia da purga, se porá em cima da dita pontada o emplasto seguinte, que é excelentíssimo:

purga de resina com alexifármacos contra lombrigas

4. Tomem uma mão cheia de folhas de erva-de-santa-maria e outra de cabeças de mentrastos; se não estiverem espigados, melhor; pise-se tudo, e, pisado, se meta em um saquinho de pano de linho, e, cosida a boca do saco, se componham as ervas, que fiquem estendidas, e se lance em um tacho seco, o qual se porá em cima de fogo brando, e tanto que for aquecendo, se irá borrifando o dito saco com aguardente do Reino, da melhor que houver, e, virado da outra banda, se fará o mesmo, e assim as mais vezes que for necessário, de modo que fique bem molhado; então se tirará, e, compostas as ervas, se porá em cima da pontada com a quentura que puder sofrer e se ligará com sua atadura larga, que fique o emplasto bem seguro na parte, de tal modo que, por nenhum caso, se mude, que será de maior dano; porque, como este emplasto é quente, com a quentura abre os poros e faz suar aquela parte, que por isso obra maravilhas; e posso afirmar que a sua virtude é indizível, e, estando a parte assim suada e os poros abertos, dando-lhe o ar frio, se constipam e faz retroceder o humor para dentro, e, por essa causa, de grande dano, como muitas vezes tenho visto, o que sucede ou por ser mal atado, ou por se não recomendar aos doentes e haver neles cuidado, pelo que é de grande utilidade haver muita cautela nisto; e, por cima do dito emplasto, se porá sua baeta nova para rebater os espíritos da aguardente e não se exalarem, que, exalando-se, se seca mais depressa o emplasto, e para defender o ar frio. Este emplasto poderá servir para duas, três ou quatro curas, renovando-o todas as vezes com a dita aguardente na forma que fica referido, o que se fará conforme for a pontada, porque, sendo moderada, servirá para mais vezes, e, sendo forte, servirá só para duas; e quando se tirar para se renovar, se alimpará a parte com um pano, porque há de estar suada, resguardando-a do ar; e o doente beberá água cozida com raiz de butua, ou com raiz de capeba, que qualquer delas é singular em causas frias e faz circular o sangue e mais humores.

emplasto singularíssimo para pontadas, invento do autor

virtude indizível

5. Do dito emplasto tenho usado há dezenove anos a esta parte, e sempre com admirável sucesso, sem usar de outro, salvo se é em julho, agosto ou setembro, por ser tempo de grande seca em que não há estas ervas, senão em lugares úmidos ou em hortas; e, quando as não há, em tal caso uso de saquinho cheio de farelos de milho grosso, borrifado na mesma forma que fica referido, ou de alecrim machucado, e do mesmo modo; mas sempre cuidei muito em ter as ditas ervas na minha horta, regando-as para as ter prontas no dito tempo seco e na ocasião da necessidade. A descrição da erva-de-santa-maria se achará no trat.12, núm. 20.

emplasto de farelos de milho grosso e de alecrim para pontadas, invento do autor

6. Com a dita purga de resina e com os mais auxílios de emplastos, ajudas e banhos se verá como se acha o enfermo, e, se virmos que a pontada se não desvanece de todo, ainda que se mude, como ordinariamente sucede (e então melhor sinal) ou se não mude, como também acontece, se tornará a purgar com a mesma purga; que, muitas vezes, é necessário repetir-se terceira, pelo doente estar muito cheio de humores, continuando sempre o dito emplasto em cima da pontada, de dia e de noite; e se virmos que o doente fica aliviado da pontada e fica com catarrão, como muitas vezes sucede, sendo grande se purgará com duas onças e meia de maná, ou de três, conforme a idade e as forças, desfeito em caldo-de-galinha ou em cozimento peitoral feito na botica, o qual os boticários sabem muito bem; e sendo o catarrão pequeno que não aperte muito ao enfermo, se usará de qualquer dos lambedores que adiante apontarei, em parágrafo separado; mas porque se poderá purgar com o maná em caldo-de-galinha e não obedecer o catarrão como convém, será preciso tornar-se a repetir a segunda purga do mesmo maná em cozimento peitoral; e porque poderá ser em parte remota, onde não haja botica, nem se possa ir buscar a ela, se fará o cozimento na forma seguinte.

 

Capítulo VIII

 

Do modo de fazer o cozimento para as purgas de

maná em caso de necessidade

1. Tomem uma mão cheia de avenca - se for da silvestre que se acha em morros de pedras e em terra enxuta e de mato virgem, e também fora dele, esta será melhor que a verdadeira, por ser mais forte; coza-se com um bocado de raiz de alcaçus machucada, se a houver, aliás se cozerá a avenca só em dois cocos de água, que ferva até ficar em um, e depois se lhe ajuntem duas oitavas de sene; e com ele dê mais uma fervura, se coará, e, na quantidade que for suficiente para a purga, se desfará o maná, que serão duas onças, ou duas e meia, ou três, conforme for o sujeito, porque, se houver fraqueza ou pouca idade, será menos, e se for pessoa robusta ou que tenha forças, será mais; e, depois do maná muito bem desfeito, se coará por um pano, e, morno, se dê ao doente; e ficando ainda tosse, ou rouquidão na voz, ou dor no peito, se usará de qualquer dos lambedores e fomentações seguintes.

2. Lance-se em um prato de estanho ou em um tachinho pequenino duas ou três onças de aguardente do Reino, conforme for o doente, sendo da melhor que houver, e que, de nenhuma sorte, tenha mistura da da terra, ou cachaça, que é o seu nome verdadeiro; na dita se lance uma boa colher de açúcar e fogo, e se deixe arder muito bem, mexendo-se com a dita colher até que fique bem queimada; depois se apague o fogo, e, quase fria de todo, se dê ao doente duas, três e quatro vezes cada dia, que será em jejum antes de jantar, antes do sol posto e duas horas depois de cear, de sorte que, por nenhum modo, seja perto dos comeres, que, em tal caso, não fará proveito algum. Esse lambedor é tão singular que, antes de purgar e depois de purgar, é seguríssimo, de que tenho usado milhares de vezes com bom sucesso; porém, no caso que este não aproveite, ou que o doente o não queira tomar por ter caído, receando-lhe levante algum calor, o que eu não creio, em tal caso poderá usar do seguinte: Em quanto baste de água comum se lance uma boa mão cheia de folhas de avenca da que fica dita, porque a tenho por melhor quando a tosse é rebelde, e, se houver alcaçus, se lhe ajuntará um bocado de raiz dele machucado e ferverá tudo junto, ou a avenca só, até diminuir metade da água que se lhe lançar, e depois disto se tirarão os simples, e, na água que ficar ou na que quiserem, lançarão o açúcar que entenderem será necessário para ferver com ele até ficar em ponto de lambedor; que antes fique mais delgado que mais grosso, o que se conhecerá tirando dele, estando frio ou quase frio, com uma colher, e, inclinado-a para uma banda, se conhecerá no correr dele estar mais grosso ou mais delgado; deste lambedor tomará o doente uma onça por cada vez, ou onça e meia quatro ou cinco vezes, morno, cada dia, sempre longe dos comeres; ou corresponderá uma libra de açúcar a uma camada de cozimento, para ferver e fazer o lambedor; qualquer destes lambedores faz repurgar os humores do peito e bofe, depois de os fazer adquirir cozimento.

lambedor excelente para catarrões, invento do autor

lambedor de avenca, invento do autor

3. Destes dois lambedores tenho usado sempre com bom sucesso, seja Deus louvado, porque, ainda que os humores estivessem sem cozimento (como sempre assim é), logo umas vezes, ao segundo dia e outras ao terceiro, ou quarto, começavam a adquirir cozimento e a lançar escarros grossos, aliviando ao mesmo compasso a tosse, a febre e a pontada, se a tinham; e quando a tosse era ferina e com grande força, mandava dar o lambedor entre dia, muitas vezes, sempre morno e longe dos comeres; e se me parecia que as queixas eram procedidas de causa fria (como quase sempre assim é) e que era grande a tosse, aplicava, em primeiro lugar, o lambedor feito de aguardente, assim por ser mais fácil e pronto, como porque vence melhor a tal causa, dispõe e prepara o tal humor, e, conseqüentemente, alivia as queixas em mais breve tempo; e, depois de continuar com o dito lambedor alguns dias, tendo o humor cozimento (o que se conhece pelo doente lançar melhor os escarros e serem alguma coisa grossos ou com alguma amarelidão), mandava purgar o doente com purga de maná, maior ou menor, conforme as forças e a idade; que nas enfermidades do peito é o maná admirável remédio e tem o principado, principalmente nestas Minas, aonde tem provado maravilhosamente nestas doenças; mas se algum dia acontecer que haja tosse tão rebelde que não obedeça a tão bons remédios, podem recorrer a um medicamento singular, o qual se achará receitado na observação de um escravo de João Fernandes de Oliveira, que o seu efeito mostrará ser um remédio supremo; ou também quem quiser mandar buscar à botica partes iguais de lambedor de alcaçus e de avenca o poderá fazer, mas, se a pontada se alterar com o emplasto de erva-de-santa-maria e tiver os sinais que aponto adiante nas pontadas de causa quente, se curará como lá se expõem.

como os ditos lambedores têm aliviado pontadas, tosses e febres

o maná, nas enfermidades do peito, tem o principado

remedio supremo para tosse, o qual se achará na observação de João Fernandes de Oliveira

 

Capítulo IX

 

De uma advertência muito necessária

1. Quem curar doenças em todas as regiões, e muito principalmente nesta das Minas, é necessário, para o fazer com acerto, considerar e trazer muito na memória quatro coisas, a saber; certa quantidade, certa qualidade, modo e maneira como se há de usar, ocasião oportuna em que se devem aplicar os remédios. Certa quantidade que não seja mais, nem menos do que convém, porque daí lhe pode resultar grande proveito ou grande dano; certa qualidade que seja o remédio contra a doença que se houver de curar; modo e maneira como se há de usar, se há de ser bebido e a que horas, se há de ser simples ou composto, se for aplicado por fora, a forma e modo como; ocasião oportuna em que se deve aplicar, se há de ser de manhã ou de tarde, de noite ou de dia, e a que hora.

Continuar: parte 2 de 3