Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 24 de 31

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Erário mineral

16. Tratado IX – Dos resfriamentos

Tratado IX

 

Dos resfriamentos

 

1. É admirável a experiência e melhor mestra que todas as artes, pois, assim como tem mostrado nos climas e nas regiões tão diversas e perigosas enfermidades, assim, e do mesmo modo, tem mostrado os seus remédios, tudo pela providência do Altíssimo.

2. Nesta das Minas tem mostrado que as pontadas pleuríticas, no princípio desta colônia nova, não havia remédio para elas mais que o da morte: hoje já se remedeiam, por ter mostrado a experiência o seu modo curativo, tão alheio da notícia dos primeiros, como já hoje inculcado, assim de palavra a alguns, como de minha tosca pena de hoje por diante a todos, se não com toda a clareza e individuação, ao menos conforme o tempo me deu lugar e Deus o permitiu.

3. Nesta dita região se supõe morrerem muitos doentes de lombrigas sem se conhecer de que morrem, e a mesma experiência me tem mostrado que muitos morrem delas, e os seus contrários, com que se têm livrado e podem livrar, como se pode ver no princípio desta obra.

4. O mesmo tem mostrado a experiência na doença da corrupção-do-bicho em todo este novo mundo da América, assim o seu perigo, como em ser o seu remédio fácil, como se pode ver no tratado que agora acabamos de escrever.

5. Todo o deduzido se pode ver no que deixamos escrito e pretendemos escrever nos seguintes tratados, principalmente neste dos resfriamentos, os quais têm levado muitos à sepultura e outros passado muito mal, assim brancos como pretos, sangrando-se sem se conhecer tal doença por haver febre e menos os seus remédios; o que agora começamos a escrever, queira Deus, seja para glória sua e com acerto para os enfermos, que é todo nosso empenho.

6. A doença a que o vulgo chama resfriamento, e com efeito o é, é uma constipação dos poros do corpo humano e uma quase estagnação, ou constipação, dos humores e circulação deles, parada mais ou menos, o que acontece pelas causas seguintes.

As causas quais são?

7. As causas desta enfermidade podem ser muitas, as quais podem acontecer a quem, estando com o corpo quente ou esquentado, se meter em água fria ou passar algum rio a vau, ou se lançar nele a nadar, ou por desgraça cair nele, ou, estando suado, beber muita água fria, ou, estando na cama quente, sair dela nu para o vento, ou, levantando-se de algum ato venéreo, que é ajuntamento com mulher, tendo então os poros abertos e, por isso, perigosíssimo, ou, acabando de fazer algum serviço, trabalhando braçalmente, e se lavar ou fartar de água fria, como fazem os trabalhadores destas Minas ou viajantes das estradas, fiados em que as águas das minas não fazem mal, (como todos dizem), ou porque, andando no serviços de lavras ou de roças, trabalhando suados, se molham com chuva, e molhados se deixam estar até ficarem frios, ou porque não têm outra roupa para mudar, ou porque, barbaramente, a deixam enxugar no corpo, estando parados ou com pouco exercício, de modo que não andam sempre (que é o melhor), ou porque, suando a camisa, a deixam enxugar no corpo sem a tirarem, e outras causas a estas semelhantes, como assistir em casa úmida com paredes molhadas sem estarem bem secas, e outras.

Os sinais quais são?

8. Também os sinais desta doença são vários, assim como as causas o são, mas, pela maior parte, são os seguintes: haverá febre, umas vezes grande, outras mais pequena; haverá muito grande preguiça com espreguiçamentos e fastio, haverá moimento de corpo com dores por todo ele, principalmente pelas costas, e com tremuras de frio; e, quando o resfriamento for grande, não poderão os doentes moverem os braços, nem pernas, senão com grande peso; as veias do corpo estarão sumidas e as artérias com pouca pulsação ou quase sufocadas, assim as dos pulsos como as das outras partes do corpo, e outras vezes com muita febre.

Os prognósticos quais são?

9. O doente que estiver resfriado e tiver muitas lombrigas, ou estiver esfalfado, ou tiver corrupção-do-bicho, não se lhe acudindo logo com os remédios próprios a qualquer das queixas, são os resfriamentos quase sempre mortais, e, acudindo-se com eles, sempre têm seu perigo, ainda que menor; e quem se sangrar estando com qualquer casta de resfriamento morrerá pela maior parte, e, estando esfalfado ou corrupto, infalivelmente irá para a sepultura em poucos dias; e quem se purgar com estes dois gêneros de complicação, ou tendo-os sem resfriamento, incorrerá no mesmo perigo, como deixo referido no tratado antecedente; e, ainda que a causa do resfriamento seja leve, estando o doente mal acompleicionado de humores frios, ou com alguma obstrução, sempre se deve reputar por perigoso, principalmente fazendo remédios contrários; e, a quem acontecer, por causa de algum ajuntamento com mulher, pondo-se ao vento, pela maior parte morrerá, como se pode ver no seguinte tratado:

 

Capítulo I

 

Como se curam os resfriamentos mais leves

1. Havendo alguns sinais de resfriamento, porque não é preciso que haja todos os que ficam apontados, se verá, com muita atenção, se o doente está com corrupção-do-bicho metido em um banho com muita cautela, ou se está esfalfado pela informação do doente, ou se tem sinais de muitas lombrigas, os quais se manifestam no princípio desta obra; porque, se tiver alguma destas complicações, se curará como adiante se verá, e não as tendo se curará do modo seguinte:

2. Uma ou duas pencas de gengibre se pise muito bem em um almofariz e, depois de pisado, se lance em uma tigela vidrada, ou tachinho, com aguardente do Reino que cubra a tal massa, e, mexida, dará uma ou duas fervuras a fogo brando que fique uma massa branda, a qual se meterá em um pano ralo, e, atado assim quente, se esfregará todo o corpo muito bem esfregado, desde a cabeça e braços até as pernas, metendo as mãos por baixo da roupa, e a casa bem livre de ar ou quente com fogo; e, tanto que o pano ficar seco, se lançará na aguardente que ficou na vasilha, tornando ao fogo para ficar quente e se tornar a continuar a esfregação, e de tal modo que, de nenhum modo, dê o ar nas partes esfregadas; e, acabado de esfregar, beba o doente um pouco de aguardente do Reino com uma migalha do mesmo gengibre pisado e, bebido, se abafará bem para suar, cobrindo-se de roupa muito bem, ou beberá uma tigela de água de chá muito bem quente, ou se fará a massa para se esfregar na forma seguinte:

massa para esfregar o corpo e suar

bebida para provocar suor

3. Uma mão cheia de folhas de arruda e outra de folhas de mostarda, se for da preta, melhor, tudo se pisará, e, depois, um bocado de gengibre, se o houver, também pisado, e, depois, outra vez pisado, com um bocado de sebo do rim ou de unto de porco; depois de tudo pisado e feito uma massa branda, se meta em pano forte, e atado se esfregue todo o corpo, aquentando este pano ao fogo primeiro e muitas vezes; ou também se pode lançar a massa a ferver em aguardente, como acima, e fazer o mesmo com a mesma cautela, bebendo uma das ditas bebidas. Ou esta, para quando houver necessidade: folhas de mostarda e de arruda, se a houver, pisadas e fritas em urina, metidas em pano, e esfregar o corpo, dando também a beber a mesma bebida, ou água de capeba bem cozida, com uns pós de açúcar, que esta será muito mais conveniente que nenhuma das outras; ou, em falta de tudo, como pode acontecer no Sertão, seja bebida água bem quente quanto puder sofrer, com um cravo da Índia pisado, cu com pós de butua, ou canela pisada, ou água cozida com ela bem cozida, ou com pós de casca a que chamam paratudo, que é uma casca grossa, amargosa e amarela, ou com noz-moscada ou, finalmente, com uns pós de açúcar.

outra massa

outra, para quando houver necessidade

bebidas várias vulnerárias e sudoríficas

4. Esfregado o corpo e tomada qualquer das bebidas, se abafará bem para suar com a roupa que for suficiente, pois todo o intento e empenho que nesta cura deve haver é abrir os poros para suar e promover a circulação, assim do sangue, como dos mais humores, porque, neste gênero de doença, os poros estão fechados e a circulação parada ou retardada; e, assim que, abrindo os poros e fazendo-se a circulação com os remédios acima, ou outros semelhantes que sejam diaforéticos e vulnerários, ou sudoríficos, ficará o doente são.

5. Suando o doente duas ou três camisas, se tirará da cama para outra, porque é de crer que os lençóis estejam também molhados mais ou menos, e, quando vestir as camisas e se tirar da cama, haja muito grande cautela para que não lhe dê o ar, que será de grande dano, fechando-se outra vez os poros.

 

Capítulo II

 

Como se curam os resfriamentos mais pesados

1. Os resfriamentos que ameaçam grande perigo são os que causam uma sufocação de todos os poros do corpo, porque, estando estes fechados e resfriados, o doente com tremuras, as veias sumidas e as artérias com a pulsação mui apressada e muito delgadas, e o doente sem poder mover os braços e pernas, tendo-os a modo de quebrados; e algumas sucede haver grande febre com pulsos grossos, mas poucas vezes, por cuja causa muitos se enganam e mandam sangrar o doente com grandíssimo perigo. Estes se curam com medicamento mais forte para melhor abrir os poros, o qual se fará do modo seguinte:

2. Uns dentes-de-alho limpos, uma mão cheia de folhas de arruda, uma ou duas pencas de gengibre, um pedaço de banha de porco sem sal, ou com ele, e, em sua falta, de sebo do rim, tudo muito bem pisado, cada coisa de per se, e, depois de junto, se torne a pisar e se lance em tigela vidrada, ou tachinho limpo, e se cubra de aguardente da melhor que se puder achar, com a qual irá fervendo a fogo brando, mexendo-se, de modo que fique uma massa branda, que, metida em pano de linho ralo e forte, se esfregará todo o corpo, estando o medicamento quente, com força, estando braseiro ou fogo perto do doente, com o resguardo do ar que fica referido.

massa para esfrega

3. Acabado de esfregar, tomará o doente pela boca qualquer das bebidas sobreditas ou um copo de água bem quente em que primeiro se tenham fervido dez ou doze grãos de pimenta-do-reino machucada, que é admirável remédio; e, como há de se esfregar todos os dias uma ou duas vezes, conforme a necessidade que houver, as bebidas serão as mesmas que forem as esfregações.

4. Assim, e do mesmo modo, se continuarão as esfregações e bebidas que forem necessárias até o doente sarar, e, quando se tirarem as camisas, se não houver grande cautela, terá o doente, por esse respeito, risco de vida ou ficará tolhido, mas, havendo o cuidado referido, sarará o doente em poucos dias, sendo uma doença de tão grande moléstia e de perigo, tratando-se o doente com mantimento de boa sustância.

5. Nota que, quando algum tiver os sinais desta doença e as causas que ficam ditas, se não sangre, ainda que tenha muita febre, porque, sangrando-se, não só a febre se não há de diminuir, mas irá em aumento, pela causa dela não pecar em sangue, mas sim nos humores alheios da sua natureza; e, dando ao doente as esfregações e bebidas vulnerárias que abram os poros e movam suor, por este se aliviam as queixas e se promove a circulação vagarosa ou espasmódica, assim do sangue, como dos mais humores; promovida, e os poros abertos por onde transpira as fuligens, ficará o doente livre de uma doença dilatada ou perigosa, como a experiência me tem mostrado nestas Minas inumeráveis vezes, assim em pretos como em brancos, e a febre se extinguirá, pois é queixa mui comum; e também devem tomar algumas ajudas purgativas, não fazendo curso todos os dias. Digo que é mui comum porque o clima das Minas assim o permite, e as qualidades das ocupações em que exercitam os habitadores delas.

advertência mui necessária

circulação vagarosa ou espasmódica

6. Mas, se virmos no princípio da doença que o doente tem corrupção-do-bicho, é preciso tratar dela como fica referido no tratado antecedente, sem que se faça outro remédio algum enquanto durar a tal corrupção, salvo for alguma esfregação, e de nenhum modo as bebidas, por serem mui quentes.

corrupção, enquanto dura, se não faz remédio algum a outra doença, se a houver

7. E se virmos que o doente tem sinais de muitas lombrigas, os quais ficam apontados no princípio desta obra, se lhe darão os melhores remédios que ali ficam apontados, para vermos se se hão de continuar estes ou os de resfriamentos, o que será fácil conhecer nos primeiros dois dias; e, ainda que o doente lance algumas, sendo poucas, e não tiver sintomas de muitas, se pode curar o resfriamento e depois as lombrigas.

8. Finalmente, se, pela grande fraqueza e debilidade em que virmos o enfermo, e pela sua informação, nos certificarmos que está esfalfado, em tal caso se lhe não faça remédio algum, senão somente os que forem conducentes à dita queixa, como são ajuda de caldo-de-galinha gorda, com duas ou três gemas-de-ovos em cada uma, muito bem desfeitas e batidas com uma ou duas colheres do mesmo caldo, e misturadas no resto, tomando duas e três, cada dia, com duas colheres de açúcar, sem mais coisa alguma; e, ainda que as não lance fora, não haja cuidado algum, porque, se assim for, é certo que a natureza de tudo carece, e sempre se continuem, ainda que se deitem umas em cima das outras.

esfalfado

9. Pela boca se terá grande cuidado de sustanciar e alimentar o doente com bons caldos-de-galinha ou de perdiz, a miúdo, e pouco de cada vez, até se achar com sustância e bem nutrido de forças; ou se lhe faça a geléia que fica dita na Miscelânea, e, depois que estiver com forças, sendo necessário, se lhe darão alguns remédios sudoríficos, ou vulnerários, a seu tempo.

10. Também a experiência tem mostrado que, havendo alguma dor em braço, ombro, costelas, coxas ou pernas, ou estas partes estejam atormentadas ou resfriadas com pouco calor, e com outros remédios se não acham bem, usam muitas pessoas de untar aquela parte com sebo do rim quente, e, depois, com uma faca quente em brasa, afogueiam a tal parte, uns com o mesmo fio da faca, outros com a costa dela, que este é o melhor modo; e o modo de afoguear é pondo-a e tirando-a uma e muitas vezes, crestando o couro a modo de quem está fazendo algum picado, aquentando a faca as vezes necessárias, cobrindo aquela parte com um pano molhado em aguardente quente com baeta por cima, todos os dias uma vez, com o que muitas pessoas se têm achado bem de dores antigas.

afogueamento com faca

11. Este modo de cura inventaram os carijós do mato, e deles passou aos paulistas, e destes a nós; suposto eles, nem pessoa alguma até o presente usou do pano de aguardente, eu o acrescento, por me parecer muito conveniente para melhor exalar e resolver aquele flato, ou humor, que ali existe; e depois que saram, ficam aquelas partes com aqueles riscos aonde se pôs a faca, o que serve de aquentar aquela parte e sair dela o humor ou flato; e é certo que, com isto, têm sarado muitos doentes e alguns de dores antigas, que tinham encasadas.

invento dos carijós do mato

12. Também o remédio último do tratado dos remédios particulares, ou segredos, que o autor faz manifestos é, para os resfriamentos dos braços ou pernas, maravilhoso.

13. Os esfalfados que atrás digo podem ficar esfalfados não só por causa de mulheres, senão também por demasiado trabalho em outro qualquer ofício ou ministério de casa, assim do corpo como do espírito, ou estudo, que tudo pode acontecer assim a homens como a mulheres; e destes, muitos têm febres grandes, que, faltando a legítima informação, se sangrarão e darão consigo na sepultura, as quais febres se não curam senão com restaurativos de caldos magros de aves gordas, como de meia galinha cozida com meia perdiz, ou meio capão, com gemas-de-ovos, pão-de-ló em vinho puro, marmeladas, geléias, pouco, e mais vezes, etc.

esfalfados podem ter febres grandes

Neoglaziovia variegata e Fernseea itatiaiae. (Litografia de von

Martius)