Erário mineral
18. Tratado XI: Dos venenos e mordeduras venenosas
Tratado XI
Dos venenos e mordeduras
venenosas
Capítulo I
1. Este tratado não é menos necessário que os mais, que deixamos escrito, suposto não faltam autores que escreveram dos venenos e seus remédios; mas como tenho prometido escrever este, é forçoso dizer alguma coisa, ao que agora dou princípio, e nele apontarei alguns remédios novos que escritor algum ainda não tocou, nem é de admirar que eles os não escrevessem, por lhes faltar a notícias deles; e do mesmo modo também não é maravilha escrever eu alguns, por ter andado pelas terras que eles não viram, nem delas tiveram notícia.
2. São os venenos mortíferos segundo as suas qualidades e também as suas quantidades, porque há alguns menos venenosos que outros, e ainda os mais venenosos e corrosivos não poderão matar se a sua quantidade for menos valorosa que a natureza, pois, se a natureza vencer o tal veneno e corrosão, ainda que o doente tenha ânsias, sempre escapará da morte, e, sendo ajudada com os seus contrários, muito melhor o vencerá; o que suposto, como é mortal inimigo, muito se deve temer; mas, no caso que alguma pessoa, ou por desgraça, ou por malícia, tenha tomado algum veneno, se lhe acudirá com os seguintes remédios neste tratado.
3. Quem tiver desconfiança que se lhe darão veneno, se preservará dele tomando pela boca algum dos remédios seguintes: tomará todos os dias, em jejum, uma oitava de triaga magna, ou de Veneza, desfeita em vinho, que são excelentes remédios. Ou este: todos os dias, em jejum, tomará uma oitava de confeição do mitridato desfeita no mesmo vinho. Ou este: atem no lagarto do braço esquerdo, do cotovelo para cima, um diamante, ou uma esmeralda, ou um jacinto, porque se tem por coisa aprovada preservar de veneno e do ar contagioso, mas com tal condição que qualquer destes três perfeitos remédios se hão de pôr em cima da carne.
4. Também quem tomar cinco grãos de raspaduras de unicórnio todos os dias, em vinho e em jejum, de nenhum veneno será ofendido, como a experiência tem mostrado em alguns que foram com veneno condenados à morte, sem nunca com ele os poderem matar. Ou este: tomem vinte folhas de arruda, dois figos passados, a carne de uma noz e uma pedra de sal, tudo se misture com o vinho e se beba em jejum todos os dias, e se preservarão de todo o veneno e do ar contagioso, como se experimentou muitas vezes na peste, porque, os que tomaram este remédio, não foram nunca ofendidos dela.
5. De três qualidades são os venenos, porque uns são minerais, outros animais e outros vegetais: os minerais são os venenos que saem das minas, os animais são os que se tiram ou saem dos animais, e os vegetais são os que se tiram das ervas; e, porque algumas vezes sucede estarem os doentes que os têm tomado sem fala e sem acordo para poderem informar que qualidade de veneno tomaram ou lhe deram, e não há pessoa que, com individuação, possa informar, me parece acertado apontar os sinais de cada um deles, os mais comuns, para se vir melhor em conhecimento de cada espécie e poder-se aplicar a cada um o seu contrário. Isto assim suposto, passo a dizer quais são os sinais de quem tomou solimão, por ser um dos minerais mais perversos, e são os seguintes:
Sinais de quem tomou solimão e como se lhe acudirá
6. Os sinais de quem tomou solimão serão inchar-lhe a língua logo assim que o tomou; cuspirá e babará muito, e terá na boca um sabor como de ferro; a garganta se apertará e se sentirá dores e corrupções no ventre e a respiração se apertará.
7. A este sintoma se acudirá logo com um vomitório de boa porção de manteiga e azeite comum, partes iguais, tudo bem misturado e morno, e depois que tiver vomitado bem, ou com este ou com outro qualquer vomitório, sendo logo enquanto o veneno está no estômago, se dará ao doente uma grande porção de leite de vacas ou de cabras, e, depois disto, se lhe dará a beber uma oitava de cristal bem preparado em quatro onças de óleo de semente de nabos, feito por expressão, ou, em falta deste, em óleo de amêndoas doces, porque o cristal tem grande virtude para embeber em si todo o enxofre arsenical do solimão, e desfeita a união de tão cruel inimigo, pode sair do corpo sem fazer mal; mas, porque ainda podem ficar relíquias depois do veneno vomitado e quebrantado com os mais remédios sobreditos, fazendo alguma ansiedade no coração, se lhe dará algum cordial alexifármaco, como é a triaga de esmeraldas, ou magna, ou brasílica, que esta é admirável contra toda a espécie de venenos ou mordeduras venenosas, como eu tenho bem experimentado e é segredo dos padres da Companhia de Jesus da Cidade da Bahia, dando dela ou de outra uma oitava desfeita em caldo-de-galinha gordo por cada vez e a miúdo.
8. Mas, sendo caso que o veneno não esteja já no estômago, por ser passado o primeiro ou segundo dia, se purgará o doente com purga de bom maná, de duas, ou três, ou quatro onças, conforme as forças e a idade, desfeito em caldo-de-galinha gordo; ou se purgará com uma ou duas onças de canafístula misturada com açúcar, às colheres ou bocados, porque qualquer destes adoça a mordacidade dos humores acres e corrosivos irritados do veneno do solimão, e todas as coisas doces, brandas, lenitivas, pingues e gordas embotam o veneno, para que não faça as suas operações venéficas. Ou este: em quatro ou cinco onças de amendoada de pevides de melancia, melão e abóbora, sendo de água melhor, se lhe ajunte uma colher de mucilagens de malvaísco e outra de cristal preparado e se tome, que é grande remédio neste caso. Ou este: em cinco onças da dita amendoada se lhe lance de sal tártaro uma oitava, e, desfeito, se tome as vezes necessárias; este remédio embota o veneno e destes dois dizem autores maravilhas.
Sinais de quem tomou rosalgar e como se lhe acudirá
9. Os sinais de quem tomou rosalgar serão porque o doente terá grandíssimas ânsias no coração, dores excessivas nos intestinos, que são as tripas, desmaios, ardores de garganta, sede insuportável, tosse, vômitos, cursos de sangue e convulsão.
10. A este sintoma se acudirá logo com remedios oleosos e pingues, porque estes têm grandíssima virtude de rebater a acrimônia do veneno; entre todos, tem o primeiro lugar o leite de vacas e o óleo de amêndoas doces, dados em grande quantidade; em falta destes, servirão as tisanas ou amendoadas adoçadas com boa porção de xarope magistral de violas; e, quando a maior força do veneno tenha descido às tripas, deitaremos repetidas ajudas de mucilagens de pevides de marmelo, semente de malvas, ou de cozimento das mesmas folhas bem cozidas, ou de óleo violado e de gólfãos misturados com igual porção de leite de vacas.
Sinais de quem tomou água-forte e como se lhe acudirá
11. Os sinais de quem tomou água-forte são porque, no mesmo instante que o doente a bebeu, se lhe apertará a garganta, como quem a aperta com uma corda; e, se o doente se não sufocar logo, lhe acudiremos com grande quantidade de óleo de amêndoas doces tirado sem fogo, ou com grande cópia de leite de vacas ou de cabras, tirado do animal no mesmo instante, misturando-lhe alguma das triagas cordiais que acima ficam ditas; ou se lhe dê a beber muita água fria misturada com óleo de tártaro feito por delíquio, ou tome mucilagens de escorcioneira, e tudo se fará de duas em duas horas, para que se não passe tempo baldado pelo perigo ser eminente.
Sinais de quem tomou cantáridas e como se lhe acudirá
12. Os sinais de quem tomou cantáridas são porque o doente terá repetidos desejos de urinar, com dores e ardores no cano da urina, e sairá a urina muito ensangüentada ou será puro sangue.
13. A este sintoma lhe acudiremos dando ao doente grande quantidade de leite de mulher ou de vacas, ou outro qualquer, e, em falta de todos, lhe daremos seis onças de óleo de amêndoas doces tirado sem fogo ou, em sua falta, as mucilagens de pevides de marmelos e semente de malvaísco tiradas em água rolada; também serão de grande proveito as amendoadas de pevides de melão, melancia e de abóbora, sendo de água será melhor, feitas em água de beldroegas ou de alface, adoçadas com lambedor violado magistral ou de papoulas, usando também, ao mesmo tempo, de ajudas de leite misturado com água de duas claras de ovos bem batidas e postas a escorrer, untando o pécten com óleo violado e metendo o doente em banho de folhas de malvas, violas, semente de dormideiras e alface, tudo bem cozido.
14. Mas, se doente tiver tomado as cantáridas de poucas horas, se lhe dará um vomitório de azeite batido com alguma água, tudo morno e em boa quantidade, misturando-lhe semente de rábãos, e, no caso que o doente não vomite com este, se lhe dará outro qualquer vomitório dos antimoniais enquanto as tem no estômago, por ser a descarga pela boca mais conveniente e de menos perigo; e, depois de ter vomitado, se lhe darão ajudas de sarro ou de goma de trigo e cevada, ou de arroz, tudo desfeito com água e espremido muito bem, ou ajudas de água de cevada descascada e bem cozida com malvas, linhaça e alforvas, ou qualquer dos remédios acima ditos. Um homem que eu conheci as tomou para ofensa de Deus, mas perdeu a vida.
Sinais de quem tomou napelo, e o que é e como se lhe acudirá
15. Os sinais de quem tomou napelo, que entre os vegetais é o mais refinado e é uma erva com que se infeccionam as pontas das lanças e as letras, este se conhecerá porque os beiços e a língua se inflamarão e incharão e o corpo se fará todo roxo e as pernas trêmulas.
16. A este sintoma se acudirá logo, dando vomitórios e depois leites, manteiga frescas de vaca, pós de esmeraldas e de âmbar, terra lemnia desfeita em vinho.
Sinais de quem tomou miolos de gato e como se lhe acudirá
17. Os sinais de quem tiver tomado miolos de gato serão porque terá loucura e tontice, não atinando o que quer dizer, ou não dirá coisa certa; a este sintoma se acudirá com o diamusco doce e com o cheiro de almíscar continuado.
Sinais de quem tomou ópio e como se lhe acudirá
18. Os sinais de quem tomou ópio serão o ter sono profundo, grande frialdade por todo o corpo e comichão por todo ele; o suor que lhe sair pelos poros do corpo cheirará ao mesmo ópio, a cara a terá mui amarela, os beiços grossos e verde-negros, as unhas lívidas ou de cor de chumbo, os olhos turvados, a língua grossa, e o anélito, ou respiração, parece que lhe falta, e, por último, lhe vêm soluços contínuos e, atrás deles, espasmo.
19. A este sintoma lhe acudiremos com toda a brevidade dando um vomitório de azeite quente em boa quantidade e ajudas mui agudas, ou bem purgantes, e se usará do seguinte: tome pela boca extrato de arruda, ou essência de castóreo, ou vinagre de arruda, ou mel com azeite-rosado, tudo morno; ou beba vinho puro em quantidade, cozido com losna; ou beberá vinagre puro por si somente, e será quente, ou beba cozimento de semente de arruda feito em vinho, ou vinho cozido com pimenta, ou beba triaga desfeita em vinho, que é, neste caso, singular remédio; todo o corpo se untará com óleo de castóreo, depois de esfregado com panos ásperos, e, para o sono profundo, se lançarão algumas ventosas, pois as ventosas e a esfregação espertam o doente e fazem adquirir calor, pois tem o corpo como quem está resfriado.
20. Comerão os doentes envenenados com qualquer veneno caldos gordos de galinha, capão, franga e todo o gênero de aves, e serão cozidas com folhas de arruda, borragens, língua de vaca e, melhor que tudo, com pimpinela, que é singularíssima erva para os venenos e melhor para os corrosivos, e o leite; a água que beber, podendo, seja só leite.
regimento
21. É coisa já experimentada e singular remédio abrir um animal grande, como boi ou vaca, e meter-se o doente dentro nele, ficando-lhe a cabeça de fora enquanto ele estiver quente, e, tanto que for o animal esfriando, se tire fora, com toda a cautela do ar, porque todo o veneno sairá por suor, e sempre será mais conveniente se o doente estiver purgado; e também este remédio é convenientíssimo para os paralíticos que estiverem desesperados de remédio, porque, com o calor natural do animal, se confortam as partes paralíticas ou espasmódicas, estando tolhidos de todo o corpo ou de algum membro, metendo-se o membro ou todo o corpo dentro no animal, assim que se abrir; e também para estupores, dando a beber ao doente, depois de sair, uma boa porção de água de chá ou da bebida vulnerária que fica referida nas pontadas pleuríticas, o que se fará as vezes necessárias, e advirto que este é um grande remédio, o qual foi experimentado no Sertão por um curioso em um doente que estava tolhido ao desamparo, e sarou, o que me constou por pessoa fiel, e a mim me parece muito conforme à razão.
animal grande aberto para curar estupores e paralisias, e tirar o veneno do corpo
Capítulo II
De remédios químicos cordiais contra os
venenos
1. Tomem de bezoártico jovial em água triacal, ou, em falta dela, em vinho, ou, em necessidade, em caldo-de-galinha, do qual se tomará de três grãos até cinco ou seis, ou outro qualquer cordial; ou tomará em vinho, ou caldo, de bezoártico potável um escrópulo, ou até uma oitava, que é eficaz contra qualquer veneno; ou tome cinco ou seis grãos de tártaro emético, que logo fará lançar o veneno pela boca, ou bicho venenoso. Ou este: de ouro potável, de quatro até oito pingas em vinho, porque logo se verá ressuscitar o doente. Ou este: untem a testa, fontes, garganta, a boca do estômago, a região do coração, a nuca, que é atrás do pescoço, espinhaço, os pulsos dos braços e as juntas dos artelhos com o óleo de escorpiões composto e tomem algumas pingas pela boca, porque é utilíssimo para todos os venenos. Ou este, que faz lançar o veneno, ou por vomito, ou por curso, ou por suor, que é tomar uma oitava de sal de engos em vinagre. Ou este: deturbitum mineral, vel aurum vitae ex manuali Theophast, se dá aos meninos um grão e aos adultos grãos três ou até cinco, e se verão livres do veneno ou da peste, ou de algum encantamento que se lhes tiver feito, autor Artem foi. 112. Ou este: tomem em vinho duas ou três pingas de óleo de enxofre e lançarão o veneno. Ou este: tomem de triaga de múmia meia ou uma oitava e, em suma necessidade, tomarão duas oitavas desfeita no mesmo vinho.
2. Outro remédio insigne para quem tomou veneno, ou seja, solimão, ou rosalgar, ou napelo, ou pó de diamante, ou peçonha de aranha, ou de sapo, ou de thoragoaldense, ou cérebro de gato, ou sangue menstrual. A. Paracelso e Artem, referidos por João Lopes Correia, fol.116. Tomem do remédio chamado arcanum ciconiae Theophast meia onça desfeito em vinho, ou melhor será em leite tépido, porque faz lançar o veneno por vômito, ou por curso, ou por suor, dentro da sexta parte de uma hora; e, depois de o lançar, tomará, em leite, meia oitava de coral vermelho em pó, ou muito melhor será tomar meio escrópulo de magistério de coral, e seja em leite morno, e disto irá tomando por muitos dias.
3. Nota que este segredo se deu (depois de ter tomado vários antídotos) ao conde Ludovico de Nassau, príncipe de Orange, dado pelo duque Albano. Ou este: tomem meia oitava, ou uma, de álcool de carne de víbora em vinho generoso ou de malvasia.
4. É este remédio das víboras tão afamado que príncipes e senhores ricos usam dele, e nestes nossos tempos o almirante de Castela o usava todos os dias.
5. Nota mais que, no Sertão do rio de São Francisco e suas lagoas, assim da parte da Bahia, como da parte de Pernambuco, há umas aves a que chamam inhaúma (as quais eu vi) cuja aves são como galinhas, pouco mais ou menos, e têm na testa um corno pequeno e delgado, e nas pontas das asas uns esporões, cujo corno e esporões, feitos em pó, têm virtude bezoártica muito excelente contra todo o veneno, tomado em quantidade de um escrópulo ou até meia oitava, lançado em quatro onças de água de cardo-santo, e bebido ou em vinho do melhor ou em caldo-de-galinha; e não só é singular para toda a casta de veneno, como também para todas as mordeduras de cobras as mais venenosas; e este corno é o verdadeiro unicórnio e está experimentado por tal; e quem mata as ditas aves faz do tal corno e esporões muita estimação.
unicornio verdadeiro de uma ave contra todo o veneno, a qual há no rio de São Francisco e se chama inhaúma
6. Também no dito Sertão se acham alguns veados entre a multidão que há deles, os quais criam no seu bucho (e têm certos sinais) umas pedras redondas, cada um a sua, que eu vi uma redonda do tamanho de uma laranja, cuja pedra é o melhor bezoártico do mundo, assim para venenos e mordeduras venenosas como para febres malignas, roçando ou limando dela meia oitava para cada bebida em licor conveniente, conforme a necessidade, da qual pedra vi efeitos prodigiosos.
pedra muito cordial que se acha no bucho de alguns veados
7. Visto que falei em contravenenos do Brasil, falarei também em algumas raízes que o são, como o é a raiz de mil-homens, assim chamada vulgarmente, da qual há abundância nestas Minas e em todo Brasil; e dela se pode dar de peso, feita em pó, até meia oitava, ou ralada com um ralador, como eu muitas vezes tenho feito, desfeito o pó em vinho ou em aguardente do Reino ou, em falta de tudo, em água morna; e também é aprovada pela experiência para malefícios e dores de barriga.
raiz de mil-homens para toda a casta de veneno e feitiços 8. A raiz da erva chamada orelha-de-onça, por ter o mesmo feitio, é prodigiosa para todos os venenos e malefícios, assim tomado o seu pó, como bebida a sua água, ou tudo junto, que será melhor, a qual tem seus nós mais miúdos que a de mil-homens, que também os tem, e mais grossos que a de poalha, que os destas são miudinhos; e se dá do seu pó de um escrópulo até meia oitava, para toda a qualidade de veneno e para quem tiver desconfiança que lhe deram feitiços e para mordeduras venenosas, da qual há abundância no campo das Minas Gerais e nas mais partes do Brasil.
raiz de orelha-de-onça para o mesmo
9. A raiz da butua também é grande contraveneno e a água do seu cozimento, sendo primeiro a raiz machucada, é singularíssimo remédio para desfazer os apostemas internos, bebendo dela, de ordinário, com doze ou quinze grãos de seu pó sutil com uns pós de açúcar, ou sem ele; e, se for cozida junto com raiz de capeba, será mais eficaz e seguramente os desfaz, não tendo ainda matéria; e, tendo-a, os faz rebentar e faz sair a matéria pela boca, ou por curso ou por urina, conforme a cavidade onde estiver o apostema; e, continuando a dita bebida, cura a chaga que ficou do tal apostema, como eu tenho visto e outras pessoas, que mo afirmaram por certo.
raiz de butua é também contraveneno e desfaz os apostemas internos e para os pleurises
10. Para os pleurises é esta bebida remédio excelentíssimo, como eu tantas vezes tenho experimentado e se pode ver no tratado deles; e lá se verão também as raras virtudes da raiz de capeba e no tratado das obstruções, pois, na minha opinião, segundo o que nela tenho experimentado, é uma das melhores raízes que tem o mundo e é uma das bebidas vulnerárias de que sempre fiz grande estimação, sendo ambas cozidas; serve mais a tal raiz de butua para fazer lançar as páreas e fazer correr o parto às mulheres e a sua conjunção, sendo bebido o seu cozimento bem apertado, misturandome açúcar ou sem ele, e para fazer lançar as molas; e tem outras muitas virtudes, como são as seguintes:
raras virtudes da raiz de capeba
bebidas vulnerarias
faz correr o parto elançar as pareas e molas
Receita da butua para o figado e chagas dele
11. Um pedaço de raiz de butua feita em rachas miúdas se coza em três canadas de água da fonte até ficar em uma e, depois, se ponha a serenar por nove noites, e, passadas elas, se beba da tal água todos os dias em jejum uma xícara, com pouco açúcar, tão-somente para lhe tirar parte do amargor; e com a dita água se lavarão as chagas ou rachaduras que houver em qualquer parte do corpo, estando somente morna, porque é mezinha esta aprovadíssima pela experiência, por se ter usado em algumas ocasiões e pelo que se verá no que se segue.
12. Um sacerdote de muito crédito me afirmou por verdade que, em Lisboa, vira sarar um enfermo que estava deixado dos médicos por incurável, por ter as mãos todas gretadas e com chagas do fígado que não podia pegar em nada, e com o uso da tal bebida e lavar as chagas com a tal água muitas vezes no dia, e por muito tempo, experimentando melhoras em pouco, viera a sarar; diz mais o tal sacerdote que viu em outras pessoas efeitos admiráveis com o uso da tal água em achaque do fígado e confessou que, sem dinheiro, o achariam, mas não sem a tal raiz, assim pelo que dela tinha visto, como pelo que em si tinha experimentado.
mãos gretadas do fígado e com chagas, que sararam
13. Um meu amigo me certificou que, rebentando-lhe a boca em chaguinhas, por causa de uma defluxão e ser esquentado do fígado, e ter ouvido dizer que a butua era raiz admirável para quem era esquentado do fígado, metera na boca um bocado dela e a fora mascando e engolindo a saliva, o que continuara, lançando uma fora e metendo outra na boca, e no discurso de poucos dias se achara são sem chagas e sem defluxo, e que daí por diante a ficara usando em algumas vezes, que lhe tornou a arrebentar a boca e sempre com o dito remédio sarara, e que nunca estava sem ela.
chagas na boca por causa de defluxo, e sararam
14. Bebendo água de ordinário bem cozida com esta raiz machucada e tomando, na mesma meia oitava do seu pó, ou em água de papoulas, ou de cardo-santo, é admirável remédio para os pleurises. Para pancadas ou quedas, dando a beber meia oitava do seu pó em urina todas as manhãs em jejum, é singular remédio, como eu muitas vezes tenho mandado fazer com feliz sucesso em quedas grandes, sem mandar sangrar; a mulher que não puder lançar as páreas, ou lhe não correr o parto, ou tiver faltas na sua conjunção, usando beber o seu cozimento, assim em jejum, como a toda a hora que quiser beber, sendo bem apertado o cozimento, é remédio infalível por tantas experiências que dela tenho feito; roçando ou sulando esta raiz em uma pedra, e lançando-lhe umas pingas de aguardente que faça polme e, posto em cima dos tumores duros, os desfaz; sendo continuado a miúdo e por tempo é certo em os resolver; a água bem cozida com esta raiz e molhar nela panos para pôr na erisipela, não os deixando secar, é bom remédio, e melhor que todos para não tornar é o canudo com azougue vivo ao pescoço, como se diz no tratado terceiro. Para toda a chaga, esfoladuras ou rachaduras do fígado, lavando-as a miúdo com a sua água e aplicando-lhe em cima polme feito desta raiz sulada em pedra com água-rosada ou de tanchagem, não o deixando secar e beber o doente do cozimento, é remédio certo que as cura. Para dores de barriga ou de estômago, ou a que chamam cólica, bebendo do seu cozimento com o seu pó, é remédio excelente, porque os faz cessar. Para câmaras de sangue, bebendo o seu cozimento com seu pó por bastantes dias em jejum, as faz parar. Para carnosidades e supressões da urina é grande remédio. Para as purgações da madre, de qualquer cor que sejam, bebendo água do seu cozimento, por trinta dias com doze grãos de seu pó, em seis onças por cada vez, em jejum, é grande remédio. Para rebater toda a sorte de veneno, bebendo o seu cozimento com meia oitava de seu pó, sendo bebida grande por cada vez, é remédio admirável. Para a icterícia, tomado do mesmo modo, dizem alguns curiosos, que é o melhor remédio do mundo. Para esquentamentos, tomado um escrópulo do seu pó com outro de terebintina feito em pílulas, e tomado por nove dias, os cura admiravelmente. Não tenho experimentado todas estas virtudes, mas sim muita parte delas, como se pode ver nas pontadas, nas quedas, nos resfriamentos e neste tratado dos venenos; e não podemos negar que Nosso Senhor lhe poderá ter dado todas e outras muitas, como se tem visto em outras coisas; e também se não pode duvidar, porque eu vi os paulistas fazerem muito caso dela, trazendo-a consigo, que são estes homens muito vistos e experimentados em raízes, ervas, plantas, árvores e frutos, por andarem pelos sertões anos e anos, não se curando de suas enfermidades senão com as tais coisas e por terem muita comunicação com os carijós, de quem se têm alcançado coisas boas com que eles se curam a si de muitas doenças, imitando nisto as feras, que, por instinto natural, vendo-se acometidas de algum achaque, buscam o seu contrário, e ainda os mesmos animais domésticos.
pleurises
quedas
faltas na conjunção
apostemas duros
erisipela
chagas ou rachaduras do fígado
dores de cólica, de barriga ou de estômago
câmaras de sangue
purgações da madre
para toda a sorte de veneno
para a icterícia, o melhor remédio do mundo
para esquentamentos
raízes, ervas, plantas, árvores e frutos
imitando nisto as feras
15. Não faça dúvida ter-se esta raiz por quente, para se deixar de aplicar a quem for de natureza cálida, porque, se ela é boa para quem for esquentado do fígado, fica claro que não esquentará a ninguém, e quando, por algum acidente o faça, na mão está o largá-la.
16. A raiz de cipó chamada pacacoanha, ou por outro nome poalha, nomes que lhe deram os gentios carijós e por eles descoberta, é uma raiz delgadinha e com muitos nós, enozelada e torta; são estas raízes o único e certo remédio para curar cursos, ou sejam de sangue ou sem ele, como eu tantas vezes experimentado e se pode ver no tratado sétimo, e também é remédio contra os venenos, feitas as raízes em pó e tomando dele uma oitava em vinho generoso, ou caldo-de-galinha, ou água quente.
raiz de cipó para cursos, ou sejam de sangue ou sem ele, chamada pacacoanha
17. Nota que para todos os venenos que se tomarem pela boca ou de mordeduras de animais venenosos, seja no princípio ou passado ele, se pode tomar de todas as triagas e pedras-bazares: as triagas se tomarão por peso de meia oitava até uma, e os pós das pedras cordiais por grãos de cinco até seis, e se tomarão em vinho, ou águas cordiais, ou caldo-de-galinha gordo.
todas as triagas e pedras-bazares
18. Também é excelente remédio dar logo no princípio oito ou dez onças de água de flor de laranja para vomitar, ou, em sua falta, seis ou sete onças de azeite comum, tudo morno; e por nenhum caso se sangrem os avenenados, pelo perigo que têm de se comunicar o veneno com muita pressa a todos os membros internos, como também se não deixarão dormir muito os tais doentes, e se lhe acuda com muita pressa.
água de flor de laranja para fazer vomitar, ou azeite doce
não se deixem dormir muito
Capítulo III
Da mordedura do cão danado
1. Sendo certo que alguma pessoa está mordida de cão danado, o que logo se conhece assim pela relação do doente estando em seu juízo como pela dos parentes e amigos; ou quando não haja quem dê os sinais certos, se porá carne de uma noz ou um bocado de pão em cima da ferida que fez o cão por algumas horas, e dá-la a comer ou fazer engolir a uma galinha, e se o cão que mordeu estivesse danado, a galinha morrerá nesse dia; e assim, de um modo como do outro, vindo-se em certo conhecimento de que o cão estava danado, se acudirá ao doente com toda a brevidade, antes que chegue ao terceiro dia, em que se costuma comunicar o veneno a todo o corpo, e também para que o doente não venha a cair naquela miserável e perigosíssima enfermidade a que chamam hidrofobia, de que, pela maior parte, morrem todos sem juízo, que é quando os doentes aborrecem tanto o verem água que antes consentirão que os matem, do que o verem-na; e por esta razão se lhe deve acudir logo no princípio com os remédios seguintes:
2. Assim que houver mordedura de cão danado, se cortarão os lábios da ferida, separando e lançando fora toda a redondeza dela com navalha ou verdugo, até onde tiverem chegado os dentes do cão ou a baba dele; depois de feito isto, se sarje muito bem sarjada aquela parte com sarjas profundas na circunferência, e na parte vizinha serão as sarjas mais superficiais e se deixará correr bem sangue, espremendo muito bem e com toda a força, lavando com vinagre e sal moído bem quente, ou com aguardente do Reino e sal também bem quente, porque tenho experimentado em mordeduras de cobras ser a aguardente admirável, por ser quente, abrir os túbulos da parte e fazer correr bem o sangue dela; espremida e lavada a parte, e enxuta, se lhe porá o remédio seguinte: fazem-se alhos e cebolas com triaga magna e umas pingas de aguardente, se faça massa e se aplique na mordedura e sarjas.
alhos, cebolas com triaga para a mordedura, e sarjas
3. Muitos autores mandam, depois de sarjada a parte e bem dessangrada, que se lhe apliquem em cima ventosas com bastante fogo, como poderoso remédio para atrair o veneno para fora, e, depois das ventosas, o remédio já dito. Outros querem que, depois das sarjaduras e dada bastante descarga de sangue, se apliquem animais abertos vivos com todo o seu calor natural, para atraírem a si todo o veneno, e, depois de aplicados algumas vezes, se lhe ponha o remédio já dito.
ventosas com bastante fogo
animais abertos vivos
4. Outros querem que, dadas as sarjas e a descarga de sangue, se lhe apliquem cautérios de fogo atuais, porque, com eles, se consome o veneno e alguma podridão, e demais que, com a escara do fogo, se conserva a chaga muito tempo aberta, o que é muito necessário neste caso, na qual dilação se vão expurgando todos os humores pestíferos e malignos, de tal modo que não haverá temor de que os doentes caiam em hidrofobia, o que é doutrina assentada de todos conservar-se a chaga aberta ao menos por quarenta dias.
cautérios
5. Eu, venerando muito a todos, sou de parecer que, depois de sarjar, espremer o sangue e lavar com o medicamento sobredito, se lhe apliquem os cautérios com bastante fogo e, feita uma boa escara dura e forte, se trate logo de a derribar, aplicando-lhe em cima gema-de-ovo e manteiga crua, tudo bem amassado e posto morno e grosso, renovando-o a miúdo e ajudando com a pinça para que caia e se alivie a parte de alguma relíquia do veneno que ficasse debaixo da escara ou sua circunferência, e, caída a tal escara, se lhe aplique em cima da chaga o remédio seguinte: de galbano e opopánaco, de cada um uma onça, raiz de lírio roxo, aristolóquia redonda e de genciana, de cada uma duas oitavas, pós de caranguejos do rio quatro oitavas, terebintina quatro onças, triaga seis oitavas, será a que bastar, faça-se emplasto, SA. e dele se usará na chaga, pois é remédio atrativo e por isso muito conveniente.
cautérios com bastante fogo
Outros remédios para a chaga mais fáceis
6. De triaga magna uma onça, alhos assados e cebola, tudo se pise, e, em forma de cataplasma, se aplique na chaga. Ou este: cozam labaças muito bem cozidas e com o seu cozimento lavem a chaga e se lhe apliquem as folhas pisadas, e bebam do seu cozimento, que concordam muitos ser este um grande remédio, e adverte Aécio que só com este curara a muitos mordidos de cão danado. Ou este: cozam folhas de arruda e se pisem com alho e sal, e, feito massa, se aplique. Ou este: bebam bom vinho, mas pouco, com triaga, e comam alhos com pó, que tudo fará grande bem. Ou este: pisem dentes de alhos limpos com folhas de arruda e aguardente, façam massa e se aplique, que deste tenho usado com bom sucesso em mordeduras de bichos venenosos.
7. Pela boca se darão a beber qualquer das triagas, ou de Veneza, ou magna, ou de esmeraldas, ou brasílica desfeitas em vinho meia oitava, ou uma, por cada vez, ou se dará confeição de acintro, por si ou misturada com alguma das ditas tragas, ou em caldo-de-galinha, ou águas cordiais.
8. Mas, caindo o doente em hidrofobia, se chame médico douto, havendo-o, porque é doença que lhe pertence, mas, se não o houver, ainda que esta doença, conforme concordam todos os autores, é mortal, principalmente estando de todo confirmada, contudo o médico ou cirurgião católico não deve deixar ao doente sem lhe aplicar algum remédio, ao menos para consolação do enfermo e dos parentes, o qual poderá aproveitar, como tem acontecido a muitas doenças mortais de necessidade.
9. Comerá cozido a miúdo, e liberalmente, e beberá água cozida com língua de vaca, borragens, azedas, e de escorcioneira, e dormirá pouco. O doente se deitará em um tanque de água de repente e se deixará dar alguns mergulhos para perder o grande temor que dela tem, e, bebendo bastante, se refrescará e perderá a grande secura em que consiste este achaque, e se extinguirá aquela grande intemperança quente e seca de que depende tal enfermidade, e, extinta a sede, venha a perder o temor da água; e daí por diante a beba e não morra à pura sede e secura; e saindo do tanque, se meterá em um banho de azeite quente depois de enxuto.
10. Feito isto, se usará de remédios antimoniais para provocar suor, cursos e vômitos, pois só os remédios ásperos lhe aproveitarão, lançando o veneno para fora, que os brandos de nada servirão. Se beber água fria, será muito conveniente, o comer seja de boa sustância e a miúdo, para que não perca as forças, que será perigo evidente se as perder.
11. Querem muitos que os mordidos vão ao mar tomar as ondas, mas não é coisa segura ficarem só com isso; portanto, sempre façam o que fica dito.
Capítulo IV
Das mordeduras de víbora e mais cobras
venenosas 1. A mordedura de víbora ou de outra qualquer cobra venenosa se sarjará logo muito bem e, dada bastante descarga do sangue espremendo-se, se lhe aplicarão ventosas com bastante fogo para atrair o veneno para fora e pôr-lhe na parte mordida remédios atraentes para se não comunicar o veneno ao todo, e seja regra geral, em todas as mordeduras venenosas, como são a triaga pisada ou misturada com folhas de arruda e posta na parte, tomando pela boca a mesma triaga, assim como fica dito na mordedura do cão danado, e, se puderem apanhar a mesma víbora, se pise e ponha na mordedura, ou a cabeça de víbora seca e posta nela; ou bebam azeite ou vinho, em grande quantidade, que diz um autor que é grande remédio; ou abram frangos vivos pelas costas e se apliquem enquanto estiverem quentes e se renovarão.
2. Se beberem vinho bom e odorífero a miúdo, diluindo nele uma pouca de triaga magna, é grande remédio. Mas, o maior de todos quantos há, segundo a minha opinião, é queimar a mordedura com cautérios de fogo, sarjando a parte ou não sarjando, e é certo que, dando alguma descarga de sangue àquela parte, será mais conveniente, derribando logo a escara com gema-de-ovo e manteiga crua, e dando pela boca alguns cordiais conforme os houverem; e depois de caída a escara, se curará a chaga no estado em que ficar, conservando-a aberta o mais tempo que for possível, para exalar todo o veneno que houver nas partes circunvizinhas.
queimar a mordedura
Capítulo V
Das mordeduras das cobras do Brasil a que
chamam jararacas, surucucus e cobras de
cascavel, e outras
1. Das cobras chamadas jararacas há grande abundância assim em todo o Brasil como nestas Minas, e por esta razão há mais pessoas mordidas destas que das outras, de que há menos. As chamadas surucucus são mui mansas, mas, se são ofendidas, é custosa a sua defesa, por serem mais destemidas no investir, e a sua mordedura é mais perigosa que a das jararacas. As cobras de cascavel são tão perigosas as suas mordeduras que mui poucas pessoas escapam da morte, principalmente não se lhes acudindo logo, no mesmo instante ou ao menos sem se passar uma hora, porque é tão venenosíssima que logo o doente começa a deitar sangue pelos olhos, narizes, boca, ouvidos e alguns pelo cano da urina, e as unhas dos pés e mãos a fazerem-se-lhe denegridas ou azuis, quando por elas não lança também algum sangue, e os mordidos a sentir logo ânsias no coração e desmaios, de que ordinariamente morrem; e, para escaparem de tão evidentíssimo perigo, hão de preceder três coisas: a primeira, que se lhe acuda logo, se possível for no mesmo instante ou na mesma hora, com os remédios abaixo apontados; a segunda que, o que estiver mordido, se não deixe ver de mulher que esteja com a sua conjunção mensal; a terceira que o doente que estiver mordido se não molhe ou passe rios; e, se se não guardarem estas três condições, será dificultosíssimo o escapar da morte, para o que se deve logo dispor como católico, e para melhor segurança se observarão as mesmas três coisas nas mais mordeduras; e o não se sangrarem fazem quatro, como adiante direi, e a razão por quê.
sangue se lança pelos olhos, narizes, boca, ouvidos etc. na mordedura do cascavel
para escaparem de tão evidentíssimo perigo se devem guardar quatro condições
2. Também há outras muitas cobras de diferentes nomes, mas estas são menos venenosas, não falando em duas castas, que são as de coral e de duas cabeças, suposto não tem mais que uma; estas, quando são muito compridas, são de dois palmos, e a cabeça que tem para trás é do mesmo feitio que a verdadeira de diante, e por isso se chamam de duas cabeças, e são cegas, como eu examinei, e são pretas, e não andam senão por baixo da terra; as de coral também são curtas, que terão, pouco mais ou menos, três palmos, e são muito lavradas, como de ouro, com seus anéis; e ambas estas, no seu veneno, são semelhantes às jararacas e surucucus e se lhes deve fazer a mesma cura e com o mesmo cuidado e condições acima apontadas, por serem muito precisas.
cobras de duas cabeças e de coral
3. Há no Brasil dois animais, ou bichos: um se chama jaratacaca e é do feitio de doninha, pouco mais ou menos, e mui galante na cor; este, para se defender, as suas armas não são outras senão procurar, por instinto natural, pôr-se de barlavento e largar uma ventosidade tão fétida e tão terrível que, imprimindo-se na roupa, ainda que esta se lave quinhentas vezes, se lhe não tira o mau cheiro, e aos narizes é o mais horroroso que pode haver no mundo. O outro é chamado preguiça, por ser tão vagaroso que, para andar dez braças de terra, gasta dez dias, e para subir a uma árvore gasta oito, mudando as mãos e os pés tão devagar que pouco se percebe com a vista; e quando queremos afirmar que qualquer pessoa é preguiçosa dizemos que é "a preguiça do Brasil,” a qual é do feitio de um ouriço-cacheiro, pouco mais ou menos; este não faz mal e aquele não faz outro.
Com que remédios se deve acudir a estas mordeduras
4. Assim que acontecer alguma mordedura, ou seja de jararaca, ou de surucucu, ou de cascavel, ou de coral, ou de cobra de duas cabeças, o primeiro remédio que se lhe deve fazer, sem nenhuma demora, é cauterizar a mordedura com cautérios de fogo feitos em brasa viva, e quando não hajam cautérios se queimará com outro qualquer ferro que faça feição para o intento, queimando bem queimada assim a mordedura, como a suas circunferências, para que chegue o fogo ao interno, aonde poderiam chegar os dentes da cobra, ainda que seja parte de nervos ou de ossos, porque, em caso que o doente fique aleijado, será menos mal que de perder a vida, quanto mais que nunca a lesão poderá ser grande aquentando-se o tal ferro as vezes que for necessário até ficar bem queimada e fique uma escara bem seca e dura, na qual, depois de feita, se porá gema-de-ovo amassada com manteiga crua que fique grosso o remédio, e este se continuará, de hora em hora, ou de duas em duas, renovando-o, e se irá ajudando com a pinça ou tesoura, para que a escara caia o mais breve que for possível, levantando-a e cortando-a para o medicamento penetrar melhor e mais breve saia fora, e, saída, se cure a chaga como fica dito na mordedura do cão danado ou com ceroto, que é atrativo.
em caso que o doente fique aleijado, será menor mal que o de perder a vida
5. Feita a primeira cura, como está dito, pela boca se darão os melhores alexifármacos que houverem, e, se possível, se darão todos em vinho do melhor que houver, e, em sua falta, em aguardente do Reino, e de nenhum modo em aguardente da terra sendo nas Minas, porque tem certas qualidades muito contrárias a nossa natureza e por isso não convém usar dela em doença, nem em saúde, como deixo referido no seu tratado, e lá se verão os seus malefícios; não digo, porém, o mesmo da aguardente da Bahia, porque aquela é feita de cana-de-açúcar espremida e esta de mel já depurado, e não tem aquela senão uns poucos espíritos, e o mais venenoso à natureza, ainda que há muitas pessoas que dizem dela milagres, porque assim lhe têm conta.
de nenhum modo se darão remedios em aguardente da terra e a razão por quê
6. Mas, se a mordedura acontecer nos matos (como pela maior parte sucede) ou no Sertão, se queimará logo sem demora, e os contravenenos que houverem, ou das triagas acima, ou dos que logo apontarei, se tomarão em urina ou em água quente, em falta dos líquidos que acima ficam ditos, e serão dados de duas em duas horas.
7. O melhor remédio sobre todos quantos os autores têm descoberto e a indústria dos homens tem penetrado até o dia de hoje, ainda que é áspero e horroroso para se tomar pela boca, é o esterco humano desfeito em qualquer líquido e bebido na quantidade que a cada um lhe parecer. Digo que é sobre todos quantos há, porque assim o tem mostrado a experiência, que, quantos têm bebido esta soberana triaga, todos triunfaram da morte, estando com ânsias mortais, e, se for do próprio doente, será melhor.
o esterco humano é a melhor triaga e único remédio na mordedura de cobra de cascavel
8. Também pode acontecer a mordedura em ocasião que não haja vontade de fazer curso; sendo assim, se provoque com ajuda e faça-se todo o possível porque o doente tome este singular remédio, pois vale mais um esforço e resolução para o tomar que experimentar o amargoso trago da morte.
9. Este remédio se pode dar em todas as mordeduras, mas na mordedura da cobra de cascavel é o único que pode valer, e o queimar a mordedura, que os mais, não entrando estes, serão todos baldados pela maior parte. Esta cobra tem os cascavéis na ponta do rabo e, quantos eles forem, tantos anos terá a cobra, e os que são do comprimento de um dedo (como eu tenho visto muitos) têm seis e sete cascavéis, com seus nós pegados uns nos outros, que, bulindo com eles, tocam ou tangem muito bem.
tantos são os cascavéis, tantos anos tem a cobra
10. Outras cobras há no Brasil; uma a que chamam sucuriú, que é de estranha grossura e pouco comprimento, a qual assiste dentro dos rios e lagos fundos, aonde, indo bois beber ou nadar, pega com a boca neles e os engole inteiros, exceto as pontas, que lhe ficam atravessadas na boca, moendo-lhe os ossos, de tal modo que ficam como se fossem carne, mas não faz outro mau; e o mesmo costuma fazer a homens, que, indo nadando em água morta e funda, pega neles e os some para baixo, sem nunca mais aparecerem, e destas cobras há poucas.
11. Há outra cobra a que chamam jibóia, que também assiste dentro de água em ribeiros mais pequenos, e é mais pequena e mais comprida; e indo algum animal a beber, é tão sutil que lança a cauda como laço e com ele recolhe o bicho ou animal e o devora, enroscando-se em cima dele, mas é mui mansa. Outras variedades há de cobras de menos ponderação.
Capítulo VI
Dos remédios do pais experimentados que se
costumam dar pela boca
1. Os remédios que se costumam dar pela boca e se têm experimentado serem perfeitos nas mordeduras de qualquer cobra venenosa são os seguintes:
2. O que é muito versado e se tem por certo, e eu tenho mandado dar muitas vezes, são umas castanhas ou favas, que se criam dentro em umas frutas redondas, do tamanho, pouco mais ou menos, de uma bola de jogar a laranjinha, e cada uma destas bolas tem bastantes dentro em si; filhas de um cipó grosso que sobe pelas árvores acima e nascem só pela beira dos rios grandes. Destas castanhas se dá a carne de uma de cada vez, pisada e desfeita em qualquer dos ditos líquidos, quatro ou seis vezes cada dia, e é sem dúvida que com elas se têm muitos livrado da morte, e é o remédio em que todos fazem a maior confiança; mas nunca se deixem de dar outros contravenenos, como são a raiz de mil-homens, como fica dito, ou a raiz da orelha-de-onça, ou um escrópulo de pó de enxofre, que a experiência tem ensinado e se tem visto dele efeitos admiráveis.
castanhas ou favas, grande contraveneno
enxofre é experimentado contraveneno
3. Em todo o Sertão do rio São Francisco desde a barra, que faz no mar, correndo rio acima até o rio das Velhas, e deste vindo pelo caminho das Minas até uma fazenda a que chamam "o Pegabem,” que serão, pouco mais ou menos, quatrocentos léguas, segundo alguns afirmam, há, em toda esta distância, e quiçá a haverá em outras partes, uma erva ou árvore mais baixa que um homem a que chamam vulgarmente velame, e é a sua folha cabeluda pela parte de baixo; desta se tira a raiz, ou raízes, da parte do nascente, e delas se rala com um ralador, ou roçada em uma pedra, ou se pisa e se dá o seu pó ou o seu bagaço desfeito em água bem quente, e melhor em vinho ou aguardente, duas ou três colheres, três, ou quatro, ou seis vezes cada dia, conforme a necessidade, por espaço de dois até três dias, se a necessidade chegar a eles, pois é tão prodigiosa a virtude desta raiz que não há nem tem havido pessoa que a tenha tomado que não ficasse são até o terceiro dia. E, no caso que as ânsias apertem muito, pode tomar o remédio do enxofre que fica dito ou, em seu lugar, um bocado de pólvora moída, que, para ânsias do coração, não há coisa que mais as aplaque que a pólvora ou o enxofre.
raiz de velame é grande contraveneno
pólvora ou enxofre
4. Nota que o esterco humano, a pólvora e o enxofre se experimentaram no Sertão em pura necessidade, porque, segundo me afirmou uma pessoa de crédito que tinha calculado o Sertão, que, sucedendo uma cobra picar ou morder a um homem que estava só, ali ficou sem se poder mover de um lugar, pelas dores e ânsias do coração, adjunto tudo com o temor da morte; não viu recurso algum senão o do seu próprio esterco, por ter ouvido dizer que era bom. Tomou-o desfeito em água fria, por se chegar para um córrego, e logo sentiu que se foram desvanecendo as ânsias e que, tomando-o por mais vezes, ficou são; o remédio da pólvora, que experimentara outro andando à caça e sendo mordido, bebera a pólvora desfeita e se achara capaz de recorrer dos matos em que se achava a casas, onde tomou outros e a mesma pólvora, e sarara; o remédio do enxofre do mesmo modo se experimentou e daqui ficou correndo a notícia, por cuja causa é hoje versado nos curiosos o falarem nisso e se tomarem os ditos remédios, pois a mim me consta ter-se tomado o esterco humano muitas vezes, e os mais, e principalmente o esterco, é certo. Também as raízes da árvore espinhosa, cuja descrição fica na miscelânea, aplicada para os esquentamentos, tiradas da parte do nascente, são admiráveis contravenenos, segundo me afirmou um curioso, pisadas, e o seu bagaço lavado e espremido em água, e bebida quente.
razoes por que e como se experimentaram os três remédios, esterco humano, pólvora e enxofre
5. Por fim deste tratado, quero advertir que as vezes que tenho curado mordeduras de cobras venenosas sempre usei de cautérios de fogo em brasa viva em cima da mordedura, e sempre me sucedeu bem, dando também pela boca os contravenenos que tinha ou podia haver, conforme a parte em que me achava; e suposto alguns tiveram grandes ânsias e dores que corriam pelo membro mordido, como braço ou perna, e o mesmo membro adormecido, sempre me escaparam todos da morte. Também quero fazer outra advertência muito necessária, e é que os mordidos, por nenhum modo se sangrem, como eu tenho visto algumas vezes, e é abuso em muita gente, de que me consta têm morrido alguns; e a razão é porque, por meio da circulação do sangue, corre o veneno mais arrebatadamente ao coração e mais membros principais e não dá tempo a se aplicarem os remédios.
uso do autor em estas mordeduras
sangrar em mordeduras venenosas nao convém e a razão por que
6. Todos os viventes, assim racionais como irracionais, se podem danar e contaminar de veneno, exceto os patos e os porcos; os patos, assim o dizem os autores; os porcos, digo eu, porque vi por duas vezes serem mordidos de cobra jararaca, que, sendo bastantemente venenosa, observei que lhe não fez prejuízo algum, vendo-lhe correr sangue da mordedura.
Capítulo VII
Se o sangue menstrual é venenoso e que danos
faz
1. O sangue menstrual das mulheres, estando no atual fluxo dele, é tão perverso e maligno que faz os efeitos seguintes: os panos das suas camisas, aonde ele chegou, ainda que se lavem quinhentas vezes, se usarem deles nas feridas ou chagas, as fará infeccionar e alterar, de sorte que serão muito trabalhosas de curar por causa do mesmo veneno.
2. Se alguma mulher, andando com a conjunção, entrar na adega dos vinhos, os fará referver, azedar e turbar, e o mesmo se sucederá no lagar ou cuba dos azeites, porque ficarão como leite; o remédio desta perda é tão fácil como urinar-lhe dentro qualquer homem, que logo ficará como de antes, e é experiência certa.
3. Todas as plantas por onde a mulher passar ou lhe pegar com sua mão se secarão, de tal modo que nunca mais tornarão a nascer; os cães que comerem o sangue menstrual se farão danados, e toda a mulher que, andando prenhe e lhe vier o mênstruo, a criança que parir nunca será forte; e toda a que lhe não baixarem os meses, não emprenhará e, andando com eles, vendo-se a um espelho, ficará manchado e sem luzimento. As criaturas humanas, se por malícia ou erro, comerem sangue mensal, ficarão loucos e sem juízo, como eu vi um homem como uma torre e bem disposto que ficou sem juízo, e, como era rico, deram-lhe tutor, e assim veio a morrer. Outros muitos danos faz além destes e dos que ficam referidos.