Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 19 de 31 · parte 1/3

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Erário mineral

11. Tratado IV – Das deslocações, fraturas e suas observações

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Tratado IV

 

Capítulo I

 

Das deslocações, fraturas e suas observações

Que coisa é deslocação

1. Deslocação é aquela que se faz quando algum osso de nosso corpo se decompõe e sai fora do seu lugar, de sorte que priva o movimento daquele membro, causada por alguma caída de alto, força ou pancada, o que se conhece porque não haverá movimento no tal membro e haverá grandes dores na tal junta, com inchação, mais ou menos, conforme o tempo que houver passado e estiver o corpo do tal enfermo, mais bem ou mal acompleicionado de humores.

Como se devem curar as deslocações

2. A primeira coisa que se deve fazer é aparelhar os panos, ataduras, aguardente, emplastos e talas; os panos antes serão mais que menos, por não faltarem na ocasião que são precisos, em que entrará um grosso e tapado para estender o emplasto que tome a junta em redondo, e para uma e outra banda uma boa mão-travessa, para o que se lhe tomará medida; as ataduras serão de pano forte e, quanto mais compridas melhor, e algumas menos para segurar as outras por fim, e se enrolarão para melhor se atarem com elas.

panos, ataduras, aguardente e emplastos

3. Os emplastos se podem preparar do modo seguinte: terebintina quatro onças ou aquelas que forem necessárias, conforme a junta, porque, se for junta grande, será necessário mais, e, se pequena, menos; pós de toda a bisma, que são breu, incenso, mirra, sangue-de-dragão e almécega, de cada um uma oitava ou duas, conforme for necessário; e, pondo-se a terebintina ao fogo, se lhe irão lançando os pós, e, mexendo com uma colher ou espátula de pau até ficar em boa consistência, de modo que, antes fique mais brando, se tirará do fogo e se porá à parte; e, no caso que não haja todos estes pós, também poderão bastar parte deles.

emplastos

4. Ou este, que é mais fácil para se fazer em qualquer parte das Minas ou do Brasil e é do que eu tenho usado infinitas vezes com feliz sucesso, tanto em deslocações como em fraturas: olhos de embaúba limpos das cascas e de tudo o que é mais duro, que fique só o que é mimoso; isto se pica em miúdos e se pisa em almofariz, se for de pau será melhor, de modo que fique uma massa bem-feita; esta se lança em tacho com aguardente do Reino que a cubra, com a qual ferverá a fogo brando, e se vá mexendo até que fique uma massa capaz de se estender no pano, mas não fique branda, antes sobre dura; e, tanto que assim estiver, se tirará do fogo e se porá de parte, enquanto a deslocação se não reduz a seu lugar; e depois que ela estiver reduzida, se tornará a aquentar ao fogo, e com uma colher se estenderá no pano, que já estará preparado por medida, o que se fará com ligeireza para não esfriar, e, estando a massa estendida, se pulverizará toda com pós de breu, incenso, almécega e mirra, ou sangue-de-dragão, todos bem moídos, ou parte deles; e, estando esta massa coberta deles, se aplicará na parte com toda a diligência, para que pegue bem enquanto está quente.

emplastos de embaúba, fácil e admirável e melhor que todos

5. Este emplasto é melhor que todos os outros, na minha opinião, o que digo pela experiência mo ter assim mostrado, porque a embaúba per se, depois de pisada, é muito aglutinante e confortativa; a aguardente é singularíssima para todas as partes de juntas, assim pelas confortar valorosamente, como porque, para os nervos e ligamentos, não há no mundo remédio igual; além disto, leva os pós confortantes e dessecantes, que tudo ordenado e feito como fica dito é um emplasto tão maravilhoso que não houve ocasião alguma em que me não desempenhasse com o seu maravilhoso efeito.

6 Quem estiver em parte aonde não haja a embaúba poderá usar do emplasto seguinte, depois do osso metido no seu lugar, lavada e chapejada a parte com aguardente do Reino bem quente, por algum tempo, pondo-lhe o pano molhado em cima do osso, deixando-o estar, tornar a molhar e a chapejar para desalterar aquela parte, aquentá-la e confortá-la. Lance-se aguardente do Reino, a melhor que se achar e sem mistura de cachaça, em um tacho, e depois se lance nela o pano que há de servir para o emplasto e se cubra o tal pano com os pós já ditos, ou com os que houver, que sempre será bom, sejam ao menos os de breu, de incenso ou de almécega; e, depois de coberto o tal pano dos pós, se porá o tacho em fogo brando até que a aguardente dê uma fervura, e, com a quentura sofrível, se ponha na junta e se ate bem.

outro emplasto para causa de necessidade

7. As talas, se a deslocação for em dedo, se porão em redondo dele, ficando direito; se for na junta da mão, se porá uma tala pela parte de dentro e outra pela de fora, que serão chatas e fortes; a de dentro chegará desde perto do sangradouro do braço até as pontas dos dedos, a de fora será pouco menos comprida e não carecerá de mais; sendo a deslocação no joelho, se porá também uma tala pela banda de dentro da perna e outra pela de fora; o seu comprimento será desde o pé até perto da virilha, e a outra da mesma sorte, ambas chatas e fortes. Sendo a deslocação no quadril, se lhe porá uma tala, ou tábua, de comprimento suficiente para se atar na perna e na coxa, que há de acompanhar com a ponta acima do quadril, e no direito da deslocação e do emplasto se cavará com uma enxó-goiva, para que assente e melhor se segure, a qual será, na dita ponta e aonde se cavar, de largura pouco menos de um palmo, e no direito da coxa e da perna será mais estreita para melhor se atar. A deslocação do ombro, como é parte aonde se não pode usar de talas, se atará bem com ataduras fortes que prendam e dêem volta ao corpo, atravessando dos peitos para as costas, e a última terá muitas pernas, buscando o melhor jeito para que fiquem, assim o emplasto, como as ataduras, bem justas e unidas para firmar o osso.

como hão de ser as talas para todas as deslocações

8. Aparelhado todo o necessário para a cura, conforme a parte deslocada, havendo ministros que ajudem, mandará o cirurgião, ou curioso que houver de fazer a cura que uns segurem o doente e outros puxem pelo membro que estiver deslocado, com a força necessária; e o cirurgião carregará com as mãos na eminência do osso com toda a força ao mesmo tempo que os ministros puxam, para que assim entre o osso em seu lugar, o que se fará com todo o jeito e com toda a diligência, para que entre na junta donde saiu, antes que naquele vácuo entre algum humor, porque, como é humor frio de sua natureza, depressa se congela e engrossa, que, depois de entrado na cova e endurecido, só com um gancho ou ferro quente se tirará, e, conseqüentemente, não entrará, ou, ainda que entre, logo tornará a sair, como já vi, e nenhuma dúvida se pode oferecer a pessoa alguma; e, por conseguinte, ficará o doente com lesão para toda a sua vida, como já vi alguns, e nas observações que logo escreverei folgarão de ver os curiosos.

aparelhado todo o necessário, como se hao de meter as deslocações em seu lugar

 

Capítulo II

 

Das deslocações das vértebras do espinhaço

1. Se a deslocação for nas vértebras do espinhaço, como já vi, puxarão os ministros, uns pelos pés, outros por baixo dos braços, e também pela cabeça, com menos força, estando o doente de bruços, e o cirurgião com as mãos carregará em cima da eminência, ou eminências, com brandura, porque estas deslocações entram em seu lugar com mais facilidade que as outras; e, estando a parte lisa e o doente com menos dores, que se entenda está a deslocação reduzida a seu próprio lugar, se lavará e fomentará por algum tempo com aguardente do Reino bem quente, e, enxuta a parte, se lhe aplicará qualquer dos emplastos que ficam referidos, e por cima dele se lhe porá um chumaço grande, ao comprimento do fio do lombo, e por cima dele se lhe assentará uma tábua de largura mais de uma mão-travessa, lavradas as ilhargas, que hão de ficar para dentro, de modo que fique um lombo mais alto pelo meio, para que assente e se ajuste bem naquela parte, a qual se atará com uma atadura muito comprida de pano de linho forte, cercando o corpo em redondo, e, depois de atada e segura, se virará o doente de costas com muito jeito e se porá na sua cama, e nela estará sempre de costas por espaço de três meses, e, quando quiser fazer curso, se virará de ilharga tendo quem o ajude, e haverá, neste caso, uma cautela muito grande, porque estas deslocações são as piores que há; e de dois em dois dia se virará o doente de ilharga e se lhe lançará aguardente quente, de modo que chegue à parte ofendida; e, passados sete ou oito dias, não havendo coisa de novo que obrigue a curar mais cedo, se tirará o emplasto fora, e, sentando o doente de bruços, se lavará e chapejará, ou fomentará, todo o fio do lombo e sua circunferência com aguardente bem quente, por algum espaço de tempo, pois é este um remédio excelentíssimo para semelhantes casos, e se lhe tornará a pôr o mesmo emplasto, na mesma forma que fica dito; e assim se lhe lançarão os mais, de quinze em quinze dias, ou de vinte em vinte, comendo o doente bem e coisas de sustância; e, se comer pés de boi com arroz, ou sem ele, serão muito convenientes, porque são sustanciais e engrossantes. Deste caso escreverei uma observação de um doente que curei com bom sucesso.

deslocação das vértebras do espinhaço

 

Capítulo III

Da deslocação do ombro e do quadril

1. Estas duas deslocações, abaixo da deslocação do espinhaço, são as piores, e, como tais, se devem remediar logo, por não ficar o doente com tão grandes lesões, o que se fará antes que passem quatro dias, porque, se passarem, com dificuldade se meterão os ossos em seu lugar, e, no caso que se metam, tornarão a sair com facilidade, principalmente se o doente estiver cacoquímico ou cheio de humores que estes acudam àquela parte e encham o vácuo, ou cova, ou alguma parte dela, ainda que eu curei uma deslocação do quadril que havia sete dias, que estava o osso fora do seu lugar, de que adiante farei memória, mas isto foi um acaso que a mim me não pareceu se pudesse firmar e confortar por uma vez, sem que deixasse de tornar a sair, mas sarou com bom sucesso.

2. Os sinais do ombro estar fora do seu lugar facilmente se conhecem porque haverá falta de movimento no braço, haverá grandes dores e na junta haverá eminência para alguma parte, e falta, ou cova em outra.

3. Deslocando-se o braço para baixo, que é o mais comum, se lhe meterá debaixo dele um novelo de fiado, linhas ou algodão, levantando o braço para cima, e, tendo um ministro o novelo seguro, o cirurgião mandará que outro pegue no braço, puxando por ele alguma coisa, inclinando-o para baixo, e o do novelo carregará nele para cima, e o dito cirurgião com uma mão pegará na cana do braço junto ao sovaco, e com ela puxará para cima e com a outra carregará no ombro para baixo, e não entrando deste modo, que é o melhor, se fará um pau redondo em uma ponta, e, tomada a medida do chão ao sovaco, ficará mais alto alguma coisa, e na ponta redonda que há de ficar para cima, se lhe porão umas dobras de pano ou um guardanapo dobrado, e, atado para ficar mais seguro, se meta esta ponta debaixo do sovaco e a outra, posta no chão, estando o doente em pé, carregará com o corpo para cima deste pau, e o cirurgião pegará no braço, e, meneando-o, lhe irá carregando com as mãos com toda a força em cima do ombro, e um ministro puxando pelo braço, outro segurando o pau e outro o corpo do enfermo. Deste modo, ou do outro, ou com uma mão de almofariz, forrada com panos e atados, e com a ajuda de Deus, se meterá o braço em seu lugar.

deslocoção para baix do braço

4. E se a deslocação for para cima ou para algum dos lados, estas se reduzem mais facilmente puxando-se pelo braço e meneando-o, e carregando o cirurgião com as mãos na cabeça do osso com toda a força, que logo se reduzirá e entrará em seu lugar; estando assim, se fomentará por espaço de algum tempo com aguardente do Reino bem quente e, enxuta a parte, se lhe porá qualquer dos emplastos confortativos que ficam ditos, e atará, como fica referido, lançando-lhe outro emplasto, fazendo primeiro a fomentação de aguardente daí a sete ou oito dias, e os mais de quinze em quinze.

deslocação para cima ou para os lados

5. Sendo a deslocação no osso da cia, que é o do quadril, se conhecerá, porque, além da eminência que há de fazer a cabeça do osso fora de seu lugar, tem outro sinal muito evidente e muito claro que é igualar as pernas e os pés muito direitos, estando o doente deitado de costas; e se algum deles estiver mais curto, este estará fora do seu lugar; além disto, terá outro sinal muito claro, que é o não fazer com ele movimento e com grandes dores, principalmente quando lhe pegarem nele, movendo-o para alguma parte.

deslocação do osso da cia e que osso é

6. Esta deslocação, sendo no mesmo dia, se meterá no seu lugar facilmente, havendo ministros que ajudem, um para segurar o doente por baixo dos braços, estando deitado de costas, ou de ilharga, ou de bruços, conforme a parte para onde o osso estiver inclinado, se lhe buscará o melhor jeito, outro ministro puxando pela perna com força, e o cirurgião, ou curioso, carregará com as mãos em cima da cabeça do osso com toda a força para o fazer ir a seu lugar, para que assim se reduza, o que se conhecerá pela boa figura do membro, pela igualdade dele, igualando os pés, e porque a junta estará, da mesma sorte que a outra, com menos dores.

7. Mas, no caso que sejam passados alguns dias, se meterá em seu lugar com mais dificuldade, para o que serão necessários mais ministros e mais força, e, se a parte estiver entumecida e inchada por causa de algum humor que tenha corrido à parte por causa das dores que quase sempre assim é, neste caso se não fará diligência alguma para o meter em seu lugar sem que primeiro se fomente a junta e a inchação com óleo de amêndoas doces e de macela com emplasto filii Zacarias ou de altéia, derretido tudo ao fogo que fique um lenimento brando e vá quente, cobrindo por cima com um pano molhado no mesmo para abrandar e resolver aquele humor, o que se fará três ou quatro vezes ao dia e noite, porque não pode haver dilação, antes, quanto mais brevidade melhor. E, tanto que se vir que a parte está mais molificada e branda, se meterão mãos à obra para o meter em seu lugar, e, se for em parte aonde não haja o tal remédio assim composto, que é um grande laxante e resolutivo, se poderá usar do óleo de amêndoas doces, ou óleo rosado, ou do de minhocas, e, em falta de todos, com azeite doce derretido com cera da terra, que fique linimento brando, pois também é grande molificativo. E, feitas as diligências e metido o osso em seu lugar, se fomentará muito bem e por bastante tempo, deixando-lhe estar o pano molhado em cima alguns intervalos, tornando-o a molhar na aguardente bem quente, para que assim penetre, desaltere, conforte a parte e resolva algum humor, e, enxuta, se lhe aplicará qualquer dos emplastos confortativos que ficam referidos, conforme a necessidade ou abundância, pondo-se-lhe as talas como fica dito. E pelos dias adiante, em todos eles, se lhe lançará por uma banda do emplasto, e, na sua circunferência, aguardente bem quente, molhando bem o emplasto, sem que se bula nele e menos nas ataduras, antes se apertarão para comprimirem o osso, para que, de nenhuma sorte, torne a sair, pois, saindo uma vez, sairá muitas mais; e por este respeito se deve recomendar muito ao doente esteja com toda a quietação, para que da sua parte não dê ocasião.

linimento para abrandar os ligamentos quando a quebradura for de alguns dias

8. Passados sete ou oito dias, se tornará a lançar outro emplasto, fomentando primeiro com a dita aguardente bem quente, isto é, se não houver necessidade de curar mais cedo, porque, havendo-a, se curará em qualquer dia que suceder; e no tempo da cura haverá mui grande cautela, buscando todo jeito possível para que o osso não saia, e assim se lançarão os mais emplastos de oito em oito dias, ou de dez em dez, ou de mais, não havendo necessidade, remolhando sempre com aguardente aquela parte e sua circunferência, para ajudar a confortar, aquentar a junta e resolver algum humor que tiver, o que se fará nesse tempo de dois em dois dias, cobrindo de todas as vezes aquela parte toda com uma baeta nova para resguardar o ar, que será de muito prejuízo a esta cura e a todas as mais deslocações, que em todas elas haverá a mesma cautela e as mesmas fomentações, pois são de grandíssimo proveito.

tempo em que se hão de lançar os emplastos no restante da cura

9. Não trato das mais deslocações por me parecer escusado, pois, do mesmo modo que se remedeiam umas, se curam e remedeiam as outras, e só digo que a principal tenção nestas curas é repor os ossos em seu lugar, conservá-los nele e confortá-los, para que não tornem a sair. O tempo que os doentes das deslocações de que tenho tratado hão de estar quietos é o seguinte: a deslocação das vértebras do espinhaço se não pode segurar em menos tempo de noventa dias; a deslocação do ombro há de mister sessenta; a do osso da cia, ou do quadril, há de mister outros sessenta completos; e se os doentes tiverem mais alguns com quietação, mais seguros ficarão.

tempo que os doentes de deslocações hão de estar de cama

10. Ultimamente, digo que em deslocações se não usem de óleos, nem de claras de ovos, principalmente nestas Minas, porque os óleos relaxam e sempre são úmidos e as claras são frias; e nem remédios laxantes e úmidos convêm, aonde convêm quentes e confortantes, nem as claras convêm por serem frias, pois resfriam aonde é necessário aquentar e confortar, o que a razão mostra e a experiência me tem ensinado, sem embargo do grande autor Antônio Ferreira o dizer assim; mas os antigos não tinham obrigação para saberem tudo, nem pode haver dúvida em que Deus e o tempo vão mostrando as coisas a quem e quando é servido, e, segundo as regiões, assim se devem curar as doenças, atendendo-se a elas mais que aos autores, que delas não tiveram notícias. E se Antônio Ferreira manda aplicar óleos e claras de ovos respeitando as dores, a aguardente com que mando fomentar aquela parte por longo tempo não só é capaz de as moderar e tirar, senão que é remédio admirável para confortar os nervos e ligamentos da junta, aumentar o calor natural, de que muito necessitam as juntas, por ser muito balsâmica; e, fazendo-se o emplasto com aguardente como fica referido, melhor conforta e resolve o humor que há na parte, de tal modo que, dentro de dois ou de três dias, é necessário apertar novamente as ataduras por ficarem lassas, a respeito de estar a parte desinchada do humor que tinha ao tempo da primeira cura. O que tudo se deve atribuir à maravilhosa virtude da aguardente, assim no emplasto como nas fomentações que mando fazer, antes que se lhe ponha o primeiro.

em deslocações não convêm óleos, nem claras de ovos que mandam os antigos, e a razão por que

 

Capítulo IV

 

Das deslocações com ferida e suas observações

1. Porque pode acontecer algumas deslocações com ferida, estas se curarão do mesmo modo e só com diferença que, aonde estiver a ferida, nesse mesmo direito se fará um buraco no pano do emplasto para ficar a ferida patente à vista e curar-se todas as vezes que for necessário, metendo-se o osso primeiro em seu lugar e depois tratar dos dois acidentes ao mesmo tempo, da ferida e da deslocação; da deslocação com o emplasto, confortando-a, e, como fica furado, pelo buraco dele se remedeia a ferida, curando-a com aguardente do Reino, porque esta cura a ferida, conforta a deslocação e preserva de corrupção, e não como diz Antônio Ferreira, que manda curar primeiro a ferida e depois a deslocação, dando por razão as dores e acidentes que podem sobrevir com a força de meter o osso em seu lugar; e eu, com licença de tão grande autor, digo que, no tempo em que se cura a ferida, de força hão de acudir humores àquela parte, e estes, embebidos na tal junta e nos seus ligamentos, mais certo será ficar o doente aleijado para toda a sua vida do que meter ao depois a junta em seu lugar; e, sendo em alguma das juntas grandes, como ombro ou quadril, com muito mais razão acontecerá isto mesmo. Além da razão acima, quero dar outra de mais ponderação e certeza. Se aquelas deslocações que se não remedeiam logo nos primeiros dias custam tanto trabalho, como eu tenho experimentado, e, se passarem alguns mais, se não reduz o osso a seu lugar por causa de estar aquele vácuo, ou cova, cheia de humor grosso e frio e a junta estar entumecida e dura com os humores frios que existem nelas, ainda que o cirurgião, os ministros e os doentes se mortifiquem e cansem, não conseguem o que desejam, como a mim já me sucedeu e adiante mostrarei; mal se poderá meter o osso em seu lugar depois de curada a ferida, tempo em que, precisamente, se hão de passar muitos dias ou semanas, e, pelas referidas razões, sou de parecer que a deslocação se meta logo em seu lugar e depois se conforte a deslocação e cure a ferida ao mesmo tempo; e se vierem alguns acidentes que a aguardente não possa remediar (o que não presumo) se remediarão com algumas sangrias, as menos que puder ser, e com alguns defensivos de clara de ovo com fumo de tanchagem bem batida, postos panos molhados na parte alta com outros de vinagre destemperado com pouca água, e misturado com pós de bolo-armênio ou sem ele; porém, estes defensivos serão pelo menos tempo que for possível, porque será menos mal remediar os acidentes que sobrevierem por mais alguns dias que ficar o doente aleijado; e, se estas razões não agradarem, estimarei dêem outras melhores, para que os doentes fiquem mais bem servidos, que é o principal assunto do meu trabalho.

na deslocação com ferida se deve meter logo o osso em seu lugar e depois curar a ferida com a deslocação juntamente, e não como mandam os antigos

defensivos sobrevindo inflamação

2. O mesmo que digo a respeito de reduzir a deslocação antes de curar a ferida, digo também a respeito da deslocação com fratura, que, se não se reduzir a deslocação antes de curar a fratura, nunca mais se reduzirá ao seu lugar; e as razões disto são as mesmas que ficam ponderadas na deslocação com ferida; e de mais, que os remédios para curar a fratura hão de ser confortantes e a mesma confortação que eles fazem na fratura hão de fazer no mesmo osso que se deslocou, firmando-o na parte aonde estiver, e também pelo muito tempo que levam as fraturas em aperfeiçoar o poro. E se também estas razões não agradarem ao leitor, estimarei dê outras melhores para eu aprender; e para melhor doutrina, escrevo as observações seguintes:

deslocação com fratura se deve meter logo em seu lugar, para tudo se curar junto

Observação I

De uma deslocação que não se remediou, mas servirá de boa

doutrina aos principiantes

1. A primeira deslocação que vi nestas Minas, assim que cheguei a elas, foi em um bom escravo de Antônio Martins, mamposteiro de bulas, morador da Vila Real do Sabará, junto à igreja velha, o que sucedeu do modo seguinte: Adoeceu o tal preto de uma grande dor em um quadril, e para o curar mandou chamar um ignorante barbeiro que em Portugal mal sabia fazer uma barba, pois destes por pecados não faltam nas Minas a cada canto, com título de cirurgiões, o qual, por ouvir dizer que a aguardente era boa para dores, lhe aplicou panos molhados nela por muitos dias e depois outros mil remédios sem efeito; e, como o preto não podia dormir, nem sossegar, me chamaram no fim de quarenta dias, e, considerando a causa de que poderia resultar tão grande dor que o não deixava fazer movimento algum com a dita perna, me veio ao pensamento que poderia estar fora do seu lugar, e, mandando-o levantar e andar, me fui certificando por que a não podia arrastar. Mandei deitar o enfermo de costas para lhe igualar as pernas ambas e achei a enferma mais curta quatro dedos, e, vendo-lhe a junta do quadril, achei a eminência do osso fora do seu lugar, no meio de uma inchação grande, tão dura como uma pedra, que a aguardente tinha fortificado e endurecido, e o vácuo, ou cova, donde tinha saído a noz do osso, lisa e cheia de humor, sem sinal algum donde tinha saído, em cujos termos, disse ao senhor dele, que escusasse de se cansar, nem fazer remédio ou gasto algum, porque o preto tinha a perna fora do seu lugar e não tinha remédio senão ficar com lesão para sempre; e como o preto era bem ladino e percebeu isto, se pôs a chorar, e o senhor pouco menos de ver o seu escravo perdido, sendo dos melhores que havia nestas Minas.

2. Por uma parte contra o idiota, por outra contra si mesmo, e entre as coisas que disse, me pediu quisesse fazer a diligência possível a ver se, por acaso ou por fortuna, podia entrar o osso em seu lugar; e, sem embargo que me escusei quanto pude, por ver que não era possível remediar tal caso pelo muito tempo que havia passado, não se satisfez com estas razões, instando fortemente; e, para o consolar, lhe disse chamasse um cirurgião, que era o que havia naquela comarca, com o qual assentei se lhe pusessem na parte alguns emolientes de óleo de amêndoas doces e de minhocas com ungüento de altéia, de que se fez um linimento brando, com que se fermentou toda aquela parte, e, bem quente, ensopando nele um pano de linho dobrado e posto em cima, renovando esta fomentação todos os dias três vezes, por tempo de uma semana; e sem embargo que pouco ou nenhum efeito conhecemos, quis o senhor do doente que fizéssemos diligência para meter o osso em seu lugar, sem embargo do prognóstico que lhe havíamos dado e lhe demos; mas, como os rogos foram muitos, fizemos quantas diligências foram possíveis e nada foi bastante para conhecermos efeito algum. Ficou andando com aquela perna a rasto e seu senhor perdeu quatrocentos mil réis; e do mesmo modo sucedeu o caso seguinte:

linimento

Observação II

Em um escravo, que também servirá de boa doutrina

1. Este caso observei em um escravo do capitão Tomé Pereira, morador no arraial do Padre Faria, junto à Vila Rica do Ouro Preto, o qual, dando-lhe uma dor no osso da cia, que é o do quadril, e para lha curar, chamou um prezado de grande cirurgião e, cuidando que era ciática, lhe aplicou um mare magnum de remédios, e, vendo que não aproveitavam, chamou-se um médico, e ambos assistiram tempo dilatado; e vendo que todo o seu trabalho lhe saiu frustrado, assentaram em que se pusesse um cautério de fogo em cima da dor e da mesma junta, como último remédio de ciática, que por tal a curavam; e não conseguindo efeito algum, se resolveram largar o doente ao desamparo com a chaga aberta.

2. Como o dito Tomé Pereira tinha de mim conhecimento bastante, de outro tempo e de outro distrito, indo da minha fazenda ao Ouro Preto a meu negócio, me chamou para lhe ver o dito enfermo, para o que me escusei, dizendo que aonde tão bons professores se tinham cansado tanto tempo, mal poderia eu fazer mais que eles em tão pouco, como era o de uma visita; contudo, foram tantas as instâncias dele e de outras pessoas, como a do capitão Vitoriano de Araújo Lanhoso e de Antônio Moreira de Sampaio, que me convenceram. E assim que vi vir o enfermo para a sala da casa com uma perna a rasto e muito atrás da outra, logo presumi a teria fora do seu lugar, e, com efeito, no projeto que fiz me não enganei, considerando não só pelo que via, senão também o muito tempo da cura e os muitos gastos que o senhor dele dizia tinha feito nas boticas, sem fruto. Mandei deitar o enfermo de costas, igualando-lhe as pernas ambas, achei que a doente estava mais curta que a outra mais de quatro dedos, e indo ver a parte da dor, vi uma chaga redonda do tamanho da palma de uma mão, que me lastimou notavelmente, feita com o cautério de fogo que eu dizia; e, tanto que claramente conheci que o osso estava fora do seu lugar, lhe disse que não tinha remédio aquela enfermidade, nem com ela gastasse mais um vintém, porque tudo havia de ser baldado, que se aproveitasse dele para fazer fogo às panelas na cozinha ou para criar galinhas.

3. Neste passo, foram tantas as rogativas para eu dizer que enfermidade era aquela que, por mais instâncias que o senhor do escravo fez, os dois que já nomeei e outros mais vizinhos que se acharam presentes, não declarei a doença que o tinha posto em tão calamitoso estado, contentando-me com dizer somente que a doença que ele tinha não admitia cura, mas tratasse de curar a chaga ao miserável enfermo com algum pouco de ungüento, pela ter exposta ao ar sem coisa alguma. Ao depois o disse a um amigo, mais com o sentido de escarmento e piedade que por tirar o crédito a quem lhe tinha assistido.

4. O tal escravo era um molecão muito bem-feito, o senhor dele, um homem pobre. Causou-me tanta compaixão, vendo que, além de perder o seu valor e os serviços, ou conveniências, que dele podia ter, tinha para pagar os gastos nas boticas, que dizia eram sessenta e tantas oitavas de ouro. E, por estes e outros semelhantes casos, quando me chamavam para ver algum preto, examinava-o uma, duas e três vezes, perguntando-lhe tudo pelo miúdo, repetindo as mesmas perguntas que já tinha feito, para ver se respondia o mesmo ou se variava nas respostas, porque entendia que nesta diligência não ia mais, nem menos que a vida ou ficar o escravo perdido, como ficou este; porque, como todos os pretos são variáveis, e quando estão doentes muito mais, por esta razão tinha paciência para as perguntas, ainda que estivesse com pressa. Isto mesmo adverti já no princípio desta obra por ser tão preciso, como tenho mostrado, e o que mais é, para descargo da minha consciência, crédito de quem curar esta casta de gente, proveito dos enfermos e doutrina dos principiantes.

Observação III

Em que houve bom sucesso

1. Este caso observei e curei em um escravo de João Francisco Torroso, morador para as partes da Guarapiranga, e foi desta maneira: Passados sete dias, no fim deles me trouxe a esta minha fazenda de São Miguel do Bom Retiro, de Itacolomi, o tal escravo em uma rede com o osso fêmur deslocado no quadril, o que conheci assim pelas grandíssimas dores que tinha, como pela eminência que fazia a ponta da noz fora do seu lugar, algum vácuo que tinha donde saiu, falta de movimento e estar a perna mais curta que a outra; e assim, pelos dias serem muitos e lhe ter posto uns panos de aguardente em todo aquele tempo, entendi que não seria fácil repô-lo em seu lugar sem que primeiro lhe fizesse alguma fomentação, por estar a parte com alguma inchação de humor e dureza. Considerei também que, passados mais dias, seria mais dificultoso, por se acumular mais algum humor dentro na cova do que já havia de ter ou já tinha, e depois, ainda que entrasse o osso, também poderia sair outra vez e ser de mais trabalho e de mais risco, além do gasto. Resolvi-me, enfim, a fazer diligência para ver se evitava o susto e a contingência, e, feita a possível, com ministros que me ajudaram (que sempre nestas obras são precisos), não quis entrar o osso em seu lugar, ainda que faltou muito pouco, Fiz então um linimento de azeite comum, misturado ao fogo com cera da terra, da preta, que é a melhor, misturando-lhe também enxúndia de galinha e um pouco de unto de porco sem sal, que foi o que havia na ocasião, por se não poder ir à botica, que ficava distante e o caso não permitia dilação. ?, feito o tal linimento brando, fomentei aquela parte com ele bem quente, ensopando nele um pano de linho dobrado e posto em cima, o que se repetiu quatro vezes no resto daquele dia e noite seguinte; e no outro de manhã, meti mãos à obra, mandando aos ministros que o segurassem, por baixo dos braços uns, e outros puxando-lhe pela perna, e eu com as mãos carregando na cabeça do osso com toda a força, inclinando-o para a parte donde tinha saído, com a qual diligência se reduziu, dando um estourozinho quando entrou, deixando-me bem fatigado. Depois lhe pus o emplasto confortativo de olhos-de-embaúba com aguardente, como atrás fica referido, lavando e desalterando, antes de pôr o emplasto, toda aquela parte com aguardente do Reino bem quente, por espaço de um quarto de hora, pondo-lhe por cima do emplasto uma baeta, ataduras bem fortes e talas, como fica referido. Dali a cinco dias lhe lancei outro emplasto do mesmo; dali a sete dias, outro, e outro dali a quatorze, lavando sempre, antes de lançar os emplastos, com aguardente quente; e, passados sessenta dias, o mandei levantar, ficando são sem mais queixa alguma.

linimento para laxar nervos, músculos e juntas

Observação IV

1. Este caso observei em um preto de Manuel Álvares, morador no arraial do Padre Faria, junto à Vila Rica de Ouro Preto, o qual, andando em uma mina ou estrada subterrânea junto com outros tirando ouro, lhe caiu em cima um grande pedaço do teto da mesma mina, que a terra e pedras o cobriram quase de todo, e, acudindo-lhe logo os companheiros, o livraram da morte e o trouxeram em uma rede para casa de seu senhor. E sendo eu chamado para o ver, a parte mais ofendida que lhe achei foi uma grande contusão no ombro esquerdo e na espádua do mesmo ombro, com tão acérrimas dores e inchação tão grande que o não deixavam sossegar; e, vendo com toda a atenção se tinha o braço deslocado, meneando-o alguma coisa e mandando-o menear por si, ainda que muito mal o podia fazer, lhe não achei sinais de deslocação; fiz-lhe uma fomentação boa, e por tempo largo, de aguardente do Reino quente, a fogo brando, para não exalar tanto os espíritos, pondo-lhe panos molhados com sua baeta nova por cima, para melhor rebater os espíritos da aguardente, impedir o ar, que não secasse tão depressa os panos, nem ofendesse a parte; e ordenei que, tanto que os panos se secassem, lhos remolhassem por cima com a dita aguardente, da mesma sorte que eu tinha feito. E indo vê-lo no outro dia, o achei gemendo e gritando sem alívio algum; tornei a ver se o braço estaria fora do seu lugar, não achei sinais; ordenei, pois, que se sangrasse no braço contrário, e no pé juntamente, fazendo pequenas sangrias, e fiz um emplasto de farinha de trigo com aguardente fervida levemente e mexida, de modo que ficasse uma massa branda, e a estendi em um pano largo para tomar todo o ombro e a espádua, pondo-lhe por cima a mesma baeta, e que tomasse até quatro sangrias, as quais apliquei por não haver melhoria nas dores e por ser no outro dia do sucesso, que antes dele não convinha por estar resfriado e, então, já com calor bastante. E ordenei o dito emplasto por ter já dele usado muitas vezes com bom sucesso e ser a forma emplástica mais conveniente que os panos molhados, por assistir por mais tempo na parte a virtude da aguardente.

2. Neste dia ainda passou com grandíssimas dores, pela força da terra e pedras pisarem aqueles nervos, ossos, músculos e tendões; e, passando pela rua, no mesmo dia, um cirurgião, e ouvindo os gemidos, perguntou por curioso quem era, e, informado, respondeu que o doente tinha o braço fora do seu lugar e que ficava aleijado. No outro dia, me deu parte o senhor do doente da tal sentença, dada sem fundamento, ao que respondi o chamasse para ver o doente junto comigo, o qual veio e, fazendo todo o exame, persistiu no que tinha dito, mais com ódio ou ignorância que com razão; mas como eu estava certo em que o braço estava em seu lugar, disse que chamasse quantos cirurgiões houvessem em Vila Rica, Antônio Dias, naquele arraial, no Morro, na Passagem e na Vila do Carmo; e todos os que votassem contra mim eu lhes queria pagar a junta e o seu caminho, e os que fossem da minha opinião lhes pagaria ele. Não quis aceitar o partido, mas chamou-se outro somente, e, fazendo exame no tal doente à minha vista e do tal contrário, disse que o braço estava em seu lugar, à vista do que, ainda, o tal prezado se não deu por convencido, mas, chamando-se outro e sendo na minha opinião, ficou vencido e o senhor do escravo desenganado. Neste mesmo tempo já o doente tinha tomado as quatro sangrias e continuado com os emplastos de farinha e aguardente, com o que estava já muito aliviado das dores e também com menos inchação; assim se continuou com os emplastos e sem mais sangrias ficou são.

Continuar: parte 2 de 3