Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 15 de 31

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Erário mineral

7. Proêmio

Proêmio

 

Neste pequeno volume se insinuam vários remédios para socorrer as doenças que mais comumente sucedem nestas Minas, assim a pretos, como a brancos, ainda que notados por fraco talento. Contudo, por serem experimentos práticos neste clima e região de vinte anos a esta parte, levam nisto muita vantagem e mais segura a sua aprovação, advertindo que se não faça toda a confiança neles, porque, sendo aplicados por quem lhes faltar o conhecimento das enfermidades, com muita facilidade poderá errar, o qual é difícil ainda aos mesmos professores, quanto mais a quem tem toda a desculpa por não ser profissão sua, sendo certo que é para o princípio das doenças, enquanto se não recorre aos professores apolíneos. E discorrendo neste sentido, é sem questão que, se me não compadecera das necessidades dos povos e da perda que experimentam nos seus escravos, não exporia minha rudez, nem gastaria tempo e papel por me não pôr em risco (que é o mais certo) de ser censurado.

A empresa em que entro a não ignora o meu fraco talento e, sem dúvida, a reconhece por grande; e tanto maior é a sua grandeza quanto o é entrar nela sem armas, ou, para melhor dizer, sem autor, guia ou farol deste clima mais que a minha pobre experiência; nele, entraram muitos professores cientes, mas trataram só das suas conveniências; eu, ainda que mais indigno de todos, quero tratar também das alheias.

E assim, como sempre me pareceu justo obedecer à razão, me pareceu sempre temerário contradizer a experiência, pois a razão e a experiência são as duas colunas em que se sustenta a Medicina e a Cirurgia; e como sejam maravilhosas e estupendas as obras que a natureza faz por caminhos ocultos, sem que a razão, nem o entendimento as alcance, daqui procede que maior fé se deve dar à experiência que à razão.

Infinitos exemplos pudera referir em confirmação desta verdade, mas, por não ser pesado aos leitores, apontarei só quatro. Quem haverá que não se admire vendo sarar feridas horríveis e fluxos de sangue implacáveis sem se aplicar remédio algum sobre as tais feridas, mas deitando somente os pós simpáticos sobre o sangue ou sobre o instrumento que feriu, com tal condição que o sangue esteja ainda fresco?! Quem não ficará admirado vendo que uma velha de oitenta anos criou com o leite de seus peitos uma neta sua, que, por ficar sem mãe e tão pobre que não tinha dinheiro para pagar a quem a criasse, estava disposta a morrer?! A quem não parecerá fabuloso o dizer que o pano chamado amianto (quando está sujo) se lava metendo-se no fogo, sem se queimar?! A quantas pessoas parecerá engano o dizer-se que os membros abrasados com o incêndio de uma erisipela se curam aplicando-lhe panos molhados em aguardente ou em espírito de vinho?! Quem haverá que não tenha por mentira o dizer-se que muitas tosses se curam com laranjas azedas?! Se houvéssemos de dar mais crédito à razão que à experiência, mais razão era que os pós simpáticos se deitassem sobre a ferida que sobre o sangue, ou instrumento que se feriu; se houvéssemos de dar mais crédito à razão que à experiência, pareceria impossível que uma velha de oitenta anos tivesse leite para criar uma sua neta; se houvéssemos de dar mais crédito à razão que à experiência, mais conforme a razão era que o pano amianto se lavasse com água e sabão que com o fogo; se houvéssemos de dar mais crédito à razão que à experiência, mais conforme a razão era que a tosse se curasse com lambedores e coisas doces que com laranjas azedas - Contudo, ainda que estas coisas pareçam incríveis e contra a razão, a experiência mostra que todas são verdadeiras, pois vemos que, com os pós da simpatia deitados sobre o sangue ou sobre o pano molhado nele fresco, se curam as feridas, e, também, consta de muitas pessoas fidedignas que uma velha de oitenta anos criou com o leite de seus peitos uma neta sua, e também vemos que o pano chamado amianto, se não queima, ainda que esteja metido no fogo por muitas horas; vemos, finalmente, que muitas tosses, principalmente as secas, se não curam senão com laranjas azedas, piorando com os lambedores e coisas doces. Assim o dizem gravíssimos autores.

E pelas referidas razões, e pelo que cada dia estamos vendo, é a experiência a base fundamental da Medicina e Cirurgia, e se houver (o que não duvido) quem contradiga ou não creia o que digo neste volume, e fizer o contrário, sucedendo-lhe mal, dará conta a Deus das vidas de que for homicida, porque o que digo que fiz é verdade e se lhe deve dar inteiro crédito, porque sou católico e cristão velho, pela graça de Deus, e não havia de enganar a alguém em matéria de tanta conseqüência.

Mas, deixando de parte o que as más línguas dirão como adotivas de Lúcifer, passo a dizer que a enfermidade de maior ponderação e que mais comumente persegue os escravos nestas Minas e derrotam os senhores deles são as pontadas pleuríticas, que — por ser esta a doença que mais cuidado tem dado aos professores, sem nunca poderem achar modo certo em sua cura, ainda os mais cientes, principalmente nos primeiros anos de curativo nesta região, e ainda em muitos, porque, pela maior parte, sangrando-se morrem, com cordiais morrem, purgando-se com vomitórios morrem - de tal modo e com tais sintomas se vêm a pôr os miseráveis enfermos que ficam os cirurgiões e médicos admirados, vendo morrer os doentes sem remédio, como eu muitas vezes tenho visto; e assim, por ser esta a doença mais comum e mais difícil, darei princípio por ela no seguinte tratado.

Exame clínico geral. (Ilustração de Guido de Paiva)