Erário mineral
Volume 1
Retrato de Luís Gomes Ferreira, pertencente ao acervo familiar.
ERÁRIO MINERAL
LUÍS GOMES FERREIRA
(VOLUME 1)
Detalhe de ex-voto do século XVIII, que retrata o menino Joaquim
da Silva Campos acometido de grave doença, (autoria
desconhecida)
Arte e segredo: o Licenciado Luís
Gomes Ferreira e seu caleidoscópio
de imagens
Júnia Ferreira Furtado
No século XVIII, herdeira de uma tradição européia medieval, a medicina em Portugal e seus domínios dividia-se em dois ramos: um erudito, exercido por médicos formados; outro mais prático, desempenhado por cirurgiões, parteiras, barbeiros, que realizavam sangrias e extraíam dentes, e algebristas, que tratavam ossos quebrados e músculos.
Os cirurgiões-barbeiros tinham um aprendizado mais empírico, mas, a partir de 1492, com a instalação do Hospital Real de Todos-os-Santos em Lisboa, este se tornou um grande centro para o ensino
da arte da cirurgia.1 Também na Universidade de Coimbra havia uma cadeira de cirurgia ligada ao curso de Medicina.
Na esteira das reformas pombalinas, no último quartel do século XVIII, a regulamentação e o exercício dos diversos ramos da medicina passaram a ser feitos pela Junta do Protomedicato, criada em Lisboa. Até então, existiam dois oficiais que concediam licenças a todos que desejavam exercer a cura e a prática da medicina em Portugal e seus domínios. Eram eles o físico-mor e o cirurgião-mor, cabendo ao primeiro examinar os médicos formados e licenciar as
boticas.2
O cirurgião-mor aprovava os cirurgiões, as parteiras e os barbeiros, sendo que estes últimos, em lugares onde não houvesse a assistência dos primeiros, podiam também conseguir licença para realizar cirurgias. Os aspirantes à prática da cirurgia tinham de apresentar certidão de pelo menos quatro anos de aprendizado com cirurgião reconhecido e depois estagiar por mais dois anos com
cirurgião licenciado.3 Nessa área ainda vigorava a tradição das corporações de ofício, nas quais os mestres passavam seu saber secular aos aprendizes. Por seu caráter mais prático e aprendizado mais empírico, a arte da cirurgia era considerada menor e periférica ao exercício da medicina.
No Brasil, o físico-mor nomeava comissários delegados para a fiscalização das atividades médicas e dos boticários. A ação dos delegados deveria obedecer ao regimento que instituía as normas a
serem seguidas para a prática da medicina na colônia. 4 Nas Minas Gerais, cabia também às Câmaras Municipais a concessão das licenças e a fiscalização das boticas, como de todos os tipos de estabelecimentos comerciais localizados no espaço urbano. Com isso, buscava-se a garantia da qualidade e o tabelamento dos
preços dos medicamentos.5 Mas, muitas vezes, as Câmaras também exerciam um controle sobre a ação dos profissionais da saúde, completando o papel dos comissários designados pelo físico-mor. Tal foi o caso, por exemplo, das medidas estabelecidas pela Câmara de Vila Rica, em 1715, quando, após contínuas queixas dos moradores, proibiu os médicos de vender remédios, pois isso cabia apenas aos boticários. Determinou também que nenhum cirurgião, não sendo aprovado e não ter apresentado carta de aprovação do
físico-mor [neste] Senado, não possa curar.6
Em Minas Gerais, as Câmaras também tinham o privilégio de contratar físicos e cirurgiões pelo prazo máximo de dez anos, pagando-lhes um ordenado para prestarem serviços junto aos
pobres e presos.7 8 Arrecadava para este fim uma taxa anual. No arraial do Tejuco, havia ainda um hospital para cuidar dos escravos que trabalhavam nos serviços diamantinos. No período dos contratadores, os encargos do hospital e da contratação de um médico recaíam sobre os primeiros. Com a monopolização da exploração dos diamantes, após 1771, esses custos passaram a ser
arcados pela Intendência dos Diamantes.9 Em virtude da escassez de físicos formados na colônia, os limites entre o exercício dos médicos e dos cirurgiões-barbeiros eram tênues, estendendo
consideravelmente a atuação dos últimos. 10
No início do século XVIII, o cirurgião-barbeiro Luís Gomes Ferreira, como muitos outros portugueses, veio para as Minas Gerais atraído pelas descobertas auríferas (EM, v. 1, p. 183). Os ganhos pecuniários oriundos da ocupação e a falta de médicos na região levaram-no a continuar a exercer seu ofício, pois em tão remotas partes, que hoje estão povoadas nestas Minas, aonde não chegam médicos, nem ainda cirurgiões que professem a cirurgia, por cuja causa padecem os povos grandes necessidades(EM, Prólogo, v. 1, p. 184). Alguns anos depois, fez a mesma observação o cirurgião José Antônio Mendes, que trabalhou no Hospital do Contrato dos Diamantes do Tejuco, foi comissário do cirurgião-mor para a América e também escreveu um tratado prático de medicina
intitulado 11 Governo de Mineiros . Como Gomes Ferreira, Mendes atreveu-se a receitar em seu livro a ingestão de vários medicamentos, apesar de saber que isso era prerrogativa dos médicos, e a descrever suas fórmulas e métodos de fabricação, consciente de que isso era privilégio dos boticários. Desculpou-se dizendo que, nas Minas, tais práticas geralmente eram realizadas por barbeiros, sem nenhuma formação, e que ao menos os
cirurgiões, como ele, eram mais bem preparados. 12
O Erário Mineral, publicado em 1735, foi resultado da experiência prática que Luís Gomes Ferreira reuniu realizando diversas curas em Minas Gerais. Ali escreveu apontamentos sobre as especificidades do clima, dos moradores, das doenças, dos tratamentos ministrados, aos quais incorporou diversas ervas locais. Advertiu que as ervas, raízes, coisas minerais e de animais, que há nas partes do Brasil e seus sertões serviam de muito préstimo à saúde pública e que as boticas locais deviam desenvolver medicamentos incorporando-as (EM, v. 1, p. 266). Contrariando as ordens e aproveitando-se dos dilatados sertões onde exercia suas curas, o cirurgião-barbeiro receitava e ministrava medicamentos e
possuía uma botica própria.13
As diferenças entre a erudição dos médicos e a experiência dos cirurgiões muitas vezes resultavam em disputas e tensões entre essas duas categorias. No Erário Mineral, como em outros tratados práticos de medicina da época, essas disputas afloraram. Luís Gomes Ferreira apontou a experiência como a base tanto para a medicina quanto para a cirurgia, apesar de saber que haveria quem dissesse o contrário (EM, v. 1, p. 183). Também José Antônio Mendes desculpou-se por se atrever a publicar um tratado de medicina sendo apenas cirurgião. Pediu aos
críticos, êmulos ou mordazes Asistarcos me não culpem de
vaidoso; pois não é a minha mente dar leis na Medicina, nem
aos Médicos, como fez Numa Pompílio aos romanos. Não me
parece delito apontar os remédios, que a minha experiência e
boa diligência me têm mostrado singulares no efeito no clima da
América, e com eles livrado a muitos enfermos de funestos
casos.14
Luís Gomes Ferreira chamou a atenção para a importância de não se ater à tradição e regras dos antigos e condenou aqueles que não davam importância nem à razão natural, nem ao que estão vendo com os seus olhos. […] Pois ainda que todas estas coisas parecem incríveis, e contra a razão, a experiência mostra que todas são verdadeiras (EM, v. 1, p. 226, 233). Mostrando um desapego à tradição e valorizando os conhecimentos oriundos da experiência e observação, o cirurgião-barbeiro se colocava na vanguarda do pensamento científico da época. A mesma advertência foi feita por Jean de Senebier, quando aconselhava os filósofos de seu tempo que o dogmatismo era o pior inimigo da observação. No Ensaio sobre a arte de observar e de fazer experiências, afirmou que a dúvida filosófica deve se estender a tudo que existe sobre o objeto em estudo, desde às idéias dos outros, até a dos grandes homens,
cuja autoridade é geralmente irresistível. 15
Estas diferenças entre médicos e cirurgiões muitas vezes resultavam em contendas. No Erário Mineral, o autor relatou várias desavenças suas com médicos em Minas Gerais. Na primeira, recém-chegado a Sabará, não tinha fama a lhe preceder. Por isso, o capitão Manoel Dias Leite preteriu o tratamento que Ferreira lhe tinha recomendado, pelo seu oposto, aconselhado pelo médico local. O resultado, segundo o cirurgião, foi a morte precipitada do capitão (EM, v. 1, p. 292). Numa segunda disputa na vila sobre os melhores remédios a serem ministrados a um escravo de João Gonçalves da Costa, o cirurgião prático saiu vencedor, pois já tinha alcançado a fama de ser bom na arte da cura, apesar de o médico local ter alegado sua autoridade sobre a matéria (EM, v. 1, p. 270-272).
As poucas informações que existem sobre a vida de Luís Gomes Ferreira foram quase todas fornecidas por ele mesmo ao longo do
livro.16 Era português, natural da Vila de São Pedro de Rates, que se situava na Província do Douro, pouco ao norte da cidade do Porto e pertencia ao Concelho de Póvoa do Varzim. De lá saiu cedo, indo para Lisboa, onde aprendeu a arte de cirurgião-barbeiro. Durante esse período em Lisboa, residiu em Resmolares na casa do licenciado Francisco dos Santos, que era cirurgião da enfermaria Real de Dom Pedro e que, provavelmente, ministrou-lhe os primeiros ensinamentos (EM, v. 2, p. 510). Como era comum, completou sua formação no Hospital Real de Todos-os-Santos em Lisboa, onde era aprendiz no ano de 1705 e onde também fez observações anatômicas (EM, v. 1, p. 267 e v. 2, p. 582). Nesse hospital, teve como um de seus mestres o licenciado João Lopes Correa, que lhe ensinou um medicamento para cicatrização (EM, v. 1, p. 343). Foi então aprovado pelo cirurgião-mor do Reino, cuja carta de licença carregava sempre consigo (EM, v. 2, p. 632). Também partilhava da amizade e confiança do boticário do rei Dom Afonso VI, chamado Manoel Lopes Carameleiro, que lhe ensinou um de seus medicamentos secretos para limpeza dos dentes (EM, v. 1, p. 325).
Fez questão de apontar que era católico e cristão-velho, pois os judeus e cristãos-novos estavam tradicionalmente ligados ao comércio e às profissões liberais, como a medicina e a cirurgia. Foram muitos os licenciados perseguidos pela Inquisição, como João Tomás de Castro, médico no Rio de Janeiro, que foi queimado
em um auto-de-fé, acusado de herege e judaizante.17
Foi cirurgião na carreira da Índia (EM, v. 2, p. 692). Em uma destas viagens, de Lisboa, partiu para o Brasil, onde sua permanência foi marcada por idas e vindas em constantes deslocamentos. Chegou pela primeira vez em 1707, vindo de Lisboa, como cirurgião numa frota que desembarcou na Bahia, mas não ficou por muito tempo (EM, v.1, p. 367 e v. 2, p. 511). Retornou no ano seguinte, novamente como cirurgião de uma nau que ia da ilha da Madeira para a Bahia. A presença de cirurgiões a bordo dos navios era prática comum, pois as péssimas condições a bordo faziam
proliferar as doenças. 18
Luís Gomes Ferreira contou que fora várias vezes à Índia, embarcado como cirurgião, realizando muitas curas, principalmente do escorbuto, que grassava a bordo (EM, v. 2, p. 689). Como se acreditava à época, o cirurgião imputou aos escravos trazidos da África a transmissão da doença, por isso conhecida como mal de Luanda. No Erário Mineral, Gomes Ferreira divulgou pela primeira vez as descobertas do licenciado João Cardoso de Miranda sobre um novo medicamento para curar a doença e, voltando da Bahia para o Reino, foi portador de uma carta de Miranda pedindo ao físico-mor do Reino que licenciasse sua invenção (EM, v. 2, p. 689-695). Miranda exercia a cirurgia em Salvador e, mais tarde, registrou seus estudos sobre o escoburto em um livro publicado em 1741,
que teve grande repercussão.19
A receita de Miranda compunha-se de um chá de ervas frescas, acompanhado de uma dieta reforçada também de alimentos sempre frescos, como carne de galinha, alface, chicória, almeirão e beldroegas (EM, v. 2, p. 693). Dessa forma, fornecia aos doentes debilitados fisicamente a vitamina C, cuja ausência era a verdadeira causa do mal. A doença geralmente se manifestava nas longas viagens marítimas por causa do tipo de alimento fornecido a bordo, constituído basicamente de biscoitos e, em menor quantidade, de carne salgada, de cebola, de vinagre e de azeite. Bebia-se somente água e vinho, guardados em tonéis. Nos dias santos, servia-se peixe e queijo e também açúcar, mel, manteiga e ameixas, mas
jamais alimentos frescos, que se deterioravam rapidamente.20 No caso dos escravos, a péssima alimentação em terra agravava os sintomas e muitos morriam rapidamente. Na segunda metade do século, o escorbuto já era associado ao tipo de alimentação, como observou o cirurgião José Antônio Mendes, para quem
as mais urgentes causas de semelhante queixa são os
alimentos grosseiros, crassos e corruptos de que se usa na
maior parte dessa América dar-se aos negros, principalmente
aos que vêm da costa da África, que se sustentam no mar de
mantimentos não só grosseiros, mas muitas vezes meio podres,
bebendo também água meio corrupta.21
Desta segunda vez, Luís Gomes Ferreira permaneceu três anos em Salvador, entre 1708 a 1710, residindo na casa de seu irmão Alexandre Gomes de Sousa, junto às portas do mosteiro de São Bento (EM, v. 2, p.625). Ali se estabeleceu exercendo a arte da cirurgia, tendo curado muitos enfermos. De um deles, um serralheiro que morava junto à igreja de São Bento, tratou de uma chaga no pé (EM, v. 2, p. 625).
Por essa época esteve várias vezes em visita às Minas Gerais. Saiu da cidade da Bahia até Cachoeira, distante 12 léguas. De lá, o caminho passava pela aldeia de João Amaro, Tranqueira, onde o caminho se dividia. Ferreira pegou o caminho da esquerda, mais curto, aberto por João Gonçalves da Costa, que ia para Mathias
Cardoso, chegando à barra do Rio das Velhas.22 Em 1708, como grande parte dos viajantes, Luís Gomes Ferreira ficou doente no percurso, permanecendo cinco meses na barra do rio das Velhas, atacado de febre maligna, sem saber a natureza do mal, mas certo de estar perto da morte (EM, v. 2, p. 516, 647). Nesta confluência com o rio São Francisco ficava o arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso e Almas da Barra do rio das Velhas, hoje Guaicuí, onde ficou retido o doente cirurgião. Ali se hospedou na fazenda do Mestre de Campo Manoel de Queirós (EM, v. 2, p. 647). Nessa região, ficavam os currais de um dos grandes potentados das
Minas, Manoel Nunes Vianna, e seu primo Manoel Rodrigues.23 Gomes Ferreira registrou em seu livro que as sezões que infestavam a região do rio São Francisco eram as piores de que tinha notícia e a maleita acometia a todos que chegavam de lá (EM, v. 2, p. 516-517). Depois de idas e vindas, resolveu finalmente se estabelecer na área mineradora, onde grandes possibilidades se abriam aos homens aventureiros.
Em 1710, Luís Gomes Ferrreira seguiu de novo para as Minas Gerais, disposto a buscar fortunas nas lavras auríferas da Capitania. Desta feita, não foi pelo mesmo caminho que margeava o rio São Francisco e entrava nas Minas pela Barra do rio das Velhas. Na Tranqueira, pegou o caminho da direita que seguia pelo rio Verde Grande até a Capela de Nossa Senhora e São José, num lugar chamado Formigas. Era uma das vertentes do conhecido caminho do Sertão, da Bahia, ou dos currais, pois às margens dos rios São Francisco, Verde e das Velhas estabeleceram-se grandes fazendas de gado, aproveitando-se da abundância de água e de depósitos de sal. Por ali passavam as grandes boiadas que iam abastecer de carne o mercado urbano das Minas. Numa destas fazendas, ao longo do Rio Gorutuba, a de Januário Cardoso, pernoitou o cirurgião Gomes Ferreira (EM, v. 2, p. 591). Januário Cardoso era um potentado na região e, em meio à caatinga, era proprietário das fazendas de Angicos e Joazeiro onde, como o costume, criava-se
gado 24 vacum. Ali o cirurgião visitou um de seus escravos acometido de um tumor nas costas de uma das mãos. Ainda sem a experiência prática acumulada nas Minas, de que segundo sua observação, tal mal deveria ser curado com mel e sal, preferiu não ministrar-lhe nenhum medicamento (EM, v. 2, p. 591).
Arriscado e penoso, o caminho do sertão cortava uma região mais plana, em comparação à geografia mais íngreme com que se defrontavam os viajantes que partiam do Rio de Janeiro e São Paulo e que tinham de cruzar a Serra da Mantiqueira. Mesmo assim, por todo o percurso era constante a ameaça de doenças, de animais selvagens e de bandos de negros fugidos que atacavam de surpresa, o que tornava imperativo que a viagem fosse realizada em grupos fortemente armados. Descrevendo o caminho do sertão, um morador das Minas contou que a viagem era demorada e tudo era feroz e contrário a penetração humana nessas terras misteriosas e
sinistras.25 Era tal o medo que os caminhos que levavam às Minas provocavam que era significativo o número de comerciantes ambulantes, os chamados viandantes, que antes de partir deixavam registrados testamentos, pois a morte estava à espreita em cada trecho. Um deles, Manuel Ferreira Leal, escreveu que o fazia por estar a caminho das Minas, vindo da Bahia, e não saber se diz Deus
seja servido levar-me para si nesta viagem?26
O caminho da Bahia terminava em Sabara, onde o cirurgião-barbeiro se instalou em 1711, quando o arraial era elevado a vila. Morou no centro, próximo à igreja matriz, junto da casa do tesoureiro dos Defuntos e Ausentes, Manoel Gonçalves Loures. Ainda debilitado, pouco depois de sua chegada foi acometido de surdez (EM, v. 1, p. 249). Ele repetia a saga de inúmeros conterrâneos, deixando a região norte de Portugal, cuja economia, então em crise, baseava-se principalmente na agricultura. O século XVIII assistiu à emigração em direção às Minas de significativa parcela de homens do norte de Portugal, especialmente das Províncias do Minho e do Douro. Eram quase sempre solteiros, mas alguns deixavam para trás a família e esposa e partiam em busca do sonho do Eldorado. Essa corrente migratória conformou o povoamento das duas regiões, separadas por extenso oceano, imprimindo uma dupla imagem - positiva e negativa -, pois enquanto nas Minas a população era majoritariamente composta de homens, no norte de Portugal as mulheres se tornaram a maioria. Em ambas, isso resultou em casamentos tardios, número elevado de
concubinatos, famílias extensas e abandono de crianças.27
Uma vez nas Minas, esses homens não estabeleciam raízes, seguindo o curso dos novos achados minerais, abandonando as vilas mais ao sul da capitania e criando novos assentamentos populacionais próximos às lavras recém-descobertas. Em 1725, por exemplo, em Sabará, trocava-se uma casa por um freio de cavalo, vendiam-se engenhos e roças para comprar escravos e partir em busca dos diamantes perto do arraial do Tejuco, mais a noroeste da
capitania. 28 Luís Gomes Ferreira agiu da mesma maneira e, apesar de ter permanecido vinte anos nas Minas, mudou-se constantemente, em busca de novas oportunidades e ganhos.
Pouco depois de chegar, como cirugião, integrou-se ao exército que o governador da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, Antônio de Albuquerque, recrutou para ajudar o governador do Rio de Janeiro a expulsar os franceses (EM, v. 2, p. 666). Em setembro de 1711, uma esquadra francesa, capitaneada por Du Guay-Trouin, foi vista junto à costa do Brasil e, do mar, começou a bombardear a cidade do Rio de Janeiro. No dia 21, o governador reuniu a Câmara Municipal e resolveram evacuar a cidade, impossibilitados de defendê-la com sucesso. Na mesma data, o governador Antônio de Albuquerque recebia uma mensagem verbal pedindo ajuda para libertar a cidade da ameaça francesa. Imediatamente, deu início à mobilização das tropas.
Luís Gomes Ferreira integrou o contingente de 6 mil homens, que, uma semana depois, partiu da Vila do Carmo, seguindo em direção ao Rio de Janeiro. Fazia parte de uma das seis milícias de ordenanças recrutadas entre os honrosos cidadãos, que se fizeram acompanhar de seus escravos. A viagem tornou-se um pesadelo. Pesadas chuvas tornaram o caminho quase intransitável, impossibilitando o transporte da pólvora e de gêneros. Durante a travessia da serra do mar, as mensagens que chegavam do Rio de Janeiro eram desanimadoras: a cidade fora evacuada, caíra nas mãos dos franceses e agora negociava-se um resgate. O valoroso exército não disparou um único tiro. Quando chegaram, nada havia a ser feito: a pólvora e as armas eram insuficientes, os franceses estavam bem posicionados e o resgate já tinha sido quase todo pago. Sua presença serviu apenas para amedrontar os invasores, que apressaram sua retirada, deixando o Rio de Janeiro em 13 de
novembro. 29
Na capitania, Gomes Ferreira mesclou a arte da medicina com a exploração aurífera. Ainda pobre, sem escravos para empregar em seu lugar, teve muitas vezes de explorar ele mesmo suas lavras. Chegou a escavar uma vala para desviar o leito caudaloso de um rio e, assim, viabilizar a exploração (EM, v. 1, p. 332). Recém-chegado, logo percebeu que a grande riqueza que afluía dos ribeiros auríferos era muito mais aparente, e a região caracterizava-se pela baixa
capitalização dos proprietários. 30 O comércio drenava grande parte do ouro extraído, pois os produtos eram vendidos a preços altíssimos e muitos se encontravam endividados. As dificuldades enfrentadas podem ser atestadas pelo pedido que o oficial de barbeiro e sangrador, Luís Correa de Souza, dirigiu ao rei. Residia em Mariana, na casa da sogra, e requereu licença para retornar ao Reino, alegando ser muito pobre e não ser capaz de arcar com as
grandes despesas das Minas.31
Gomes Ferreira também se deu conta de que os anos de aprendizado no Reino não eram suficientes para o desempenho da profissão na região, pois as doenças nem sempre eram as mesmas. O clima diferente e único da capitania, frio e úmido, era para ele a causa de quase todos os males, associado à alimentação, à moradia e à natureza da atividade mineratória, que obrigava principalmente os escravos a passarem muitas horas dentro da água ou no subsolo. Bom observador da realidade que o cercava, Gomes Ferreira tratou de reunir o conhecimento necessário para diagnosticar corretamente as doenças, ministrar os tratamentos adequados e, assim, conseguir realizar muitas curas. Pouco depois de sua chegada, foi fundamental a amizade que estabeleceu com o húngaro João da Rosa - cirurgião, herbolário, químico e farmacêutico - que lhe ministrou os primeiros ensinamentos sobre as características especiais das doenças que acometiam os moradores da Minas (EM, v. 1, p. 241). Sagaz, Gomes Ferreira compreendeu que a especificidade das doenças da região exigia tratamentos diferentes dos que ele conhecia e, assim, incorporou à sua farmacopéia as ervas e produtos locais, vários já conhecidos e usados na região. Sérgio Buarque de Holanda afirmou que o conhecimento de quase todos esses produtos foram transmitidos
pelos índios aos bandeirantes paulistas. 32 Gomes Ferreira citou um pó conhecido em Minas Gerais como “Para tudo,” feito da casca grossa de uma árvore, como introduzido por um paulista sertanejo (EM, v. 1, p. 363). O uso da aguardente para a cura dos resfriados afirmou que este modo de cura inventaram os carijós do mato, e deles passou aos paulistas e destes a nós. Também os paulistas aprenderam com os carijós o uso de raízes como a butua e pacacoanha (EM, v. 2, p. 676-678). Outros ele incorporou por “ouvir dizer” que eram usados na região com sucesso, como a utilização da embaúba para o tratamento das quebraduras (EM, v. 1, p. 471).
Gomes Ferreira se diferenciou e angariou fama de bom curador pela sua capacidade de absorver a farmacopéia e a experiência dos práticos locais, em oposição ao conhecimento divulgado pelos eruditos e pelos livros portugueses. Descartar tais tradições, porém, valeu-lhe muitas disputas não só com os médicos, mas também com alguns cirurgiões que ali atuavam. Em Sabará, indispôs-se com um deles, chegando a uma disputa verbal no meio da rua, com o povo a assistir. Isso se deu por não concordar com a utilização de claras de ovo no tratamento de uma fratura do fêmur de um escravo de seu vizinho, o tesoureiro dos Defuntos e Ausentes, Manoel Gonçalves Loures. Argumentou que era um tratamento frio, incompatível com o clima e condições de vida locais, que também eram frios. A medicina galênica baseava-se na teoria dos humores, tratando a doença pelo seu oposto. Partindo dessa teoria, mas adaptando-a às condições locais, Gomes Ferreira concluiu que, por causa das especificidades da região, todos os tratamentos a serem ministrados nas Minas deveriam basear-se em produtos quentes (EM, v. 1, p. 468-473).
Detentores de um conhecimento empírico, o segredo era estratégia vital desses homens práticos, pois seu valor era medido não só pela capacidade de fazer o diagnóstico correto, mas principalmente por aplicarem o tratamento adequado, o que lhes garantiria o mérito da cura. Assim, granjeavam fama, angariavam novos clientes e conquistavam a gratidão e a amizade dos que tinham sido curados. Essa amizade era baseada no interesse e na proteção, elementos
essenciais de identificação e de promoção social na época.33 Segredo, cura, amizade e clientelismo eram os mecanismos básicos do exercício dessa profissão. Várias vezes se valeu Gomes Ferreira do conhecimento que adquiriu das ervas locais e, enquanto atuou nas Minas, manteve secretas várias de suas fórmulas, graças às quais, diz, sempre tive grande conceito (EM, v. 1, p. 269). Seguia o padrão de seus colegas de profissão, pois foi por causa do segredo de seus medicamentos que Manuel Lopes Carameleiro, boticário do Rei Dom Afonso, conquistara a “amizade” dos poderosos (EM, v. 1, p. 325).
A arte da medicina também requeria um profundo conhecimento do quotidiano dos moradores locais, pois os laços comunitários característicos de seu modo de viver refletiam-se claramente na profilaxia das doenças. O corpo doente forjava laços de sociabilidade, causados não apenas por compaixão ou parentesco, mas porque compor os ingredientes das fórmulas dos remédios exigia do médico um profundo conhecimento do interior das casas e da vida alheia. Em suas receitas, Gomes Ferreira acrescentava sapatos velhos, enxofre de verrugas, água de cisterna, leite virginal, óleo humano, fezes de cavalos ou de meninos sadios, legumes de hortas, meias sujas e suadas dentre outros - ingredientes que precisavam ser emprestados, pedidos e barganhados entre a comunidade (EM, v. 1, p. 337, 355, 356, 358, 425).
O sucesso de seus tratamentos colocavam-no sob a proteção dos homens importantes da capitania, que passavam a lhe “dever” a vida ou a de seus escravos, o que ocorreu muitas vezes em Sabará. Tratou, por exemplo, de umas pontadas pleuríticas de um dos escravos do ouvidor-geral, Luís Botelho de Queirós. Outro ouvidor, Gonçalo de Freitas Baracho, chamou-o para assistir uma mulher que estava em sua casa com problemas uterinos (EM, v. 1, p. 63). Manuel da Silva Gramacho foi-lhe sempre grato por lhe ter curado de forma rápida e barata um escravo de ganho (EM, v. 1, p. 312). Também tratou de 13 escravos do capitão mor Custódio da Silva Serra, soterrados quando escavavam uma lavra aurífera (EM, v. 1, p. 479). No arraial de Pompéu, distrito da Vila, tratou de um hóspede do padre Cipriano Gomes Claro (EM, v. 2, p. 516).
Outro aspecto desses profissonais era a necessidade de tornarem públicas suas habilidades para conquistarem vantagens na disputa pelo mercado de clientes. Com falsa modestia, Gomes Ferreira afirmou que se descuidara de registrar e divulgar todos os seus casos bem-sucedidos, pois, diz, não fiz conta, cuidando, faria a minha fortuna em poucos anos (EM, v. 1, p. 266). Nota-se em seu relato, porém, que, ao contrário, ele utilizou fartamente a publicidade, a espetacularidade e a improbabilidade da recuperação do doente para espalhar sua fama na região. Uma dessas oportunidades lhe apareceu quando o meirinho Manoel Gonçalves Moinhos foi apunhalado por um mulato, quase mortalmente, da nuca até a boca, quando saía da missa de domingo na vila de Sabará. Não poderia haver melhor cenário e público para o barbeiro encenar seu espetáculo. Iniciou o tratamento, com um dos seus medicamentos secretos, em plena rua, cercado por todos que tinham ido à missa e, aos incrédulos, lançou o desafio de que não apenas o curaria, mas, no curto espaço de uma semana, ele estaria apto a assistir à missa no domingo seguinte (EM, v. 2, p. 525-527). Foi com misto de orgulho e vaidade que registrou como tudo acontecera conforme tinha prometido, com admiração de todos, grande crédito do remédio e da Arte (EM, v. 2, p. 527).
Em Sabará, como em todas as vilas e arraiais da época, reinava a precariedade, apesar dos esforços dos vereadores em organizar o espaço urbano. As construções eram muito próximas umas das outras, as ruas eram muito estreitas, sem pavimentação, ficando constantemente empoeiradas na época das secas, e nas chuvas tornando-se lamacentas. Vários anos depois, em 1740, um português observou que na vila as casas não são de pedra e cal, como as dessa terra, mas sim de pau e barro, e varas, que com qualquer chuva vai as paredes e apodrecem as madeiras, que se metem na terra, que todos os anos sempre se andam a consertar. Estas [casas] não são de sobrado, porque as não há, e só três
moradas vi na vila.34
O abandono de animais e do lixo e o esgoto que se acumulava nas ruas contribuíam para que a vida fosse insalubre, o que facilitava a proliferação de doenças. Com efeito, estas eram recorrentes e se alastravam na forma de epidemias terríveis, matando um sem-número de pessoas. A varíola era das doenças mais temidas, pois o índice de mortalidade era altíssimo, mas mesmo a gripe não raro
era mortal e se espalhava com enorme rapidez. 35 Gomes Ferreira assistiu várias epidemias na vila, como uma de pleurises (gripe) acontecida em 1730 (EM, v. 1, p. 261).
Durante sua estada em Minas Gerais, ele acompanhou os primeiros momentos de tentativa de institucionalização do poder metropolitano na região mineradora, representado pela criação das vilas, divisão da capitania em comarcas, estabelecimento dos cargos administrativos, instalação das Câmaras Municipais, etc. Em 1716, deixou a região de Sabará e foi para a região de Vila Rica. Nessa época, a comarca de Ouro Preto abrigava os maiores descobertos de ouro e atraía enorme população. Inicialmente, estabeleceu-se no Ribeirão Abaixo, na fazenda do mestre-de-campo Joseph Perdigão (EM, v. 2, p. 598).
Nas imediações, transitou por várias localidades, como Lavras Velhas (1718), São Caetano, Itacolomi, Antunes, Lavras Velhas, Guarapiranga, Gualachos, Camargos, e Lavras Novas (1720) (EM, v. 1, p. 296, 458 e v. 2, p. 543-544), sempre atendendo doentes e realizando diversas curas, que aumentavam sua fama. Em 1719, foi à freguesia de Bom Jesus do Forquim, chamado por um grande senhor, o coronel Francisco do Amaral Coutinho, para curar seu cunhado, o sargento-mor Gaspar de Brito Soares, propretário de um engenho na região (EM, v. 1, p. 293-294).
Em 1718, mudou-se para perto da Vila de Nossa Senhora do Carmo (posteriormente cidade de Mariana), comprando nas redondezas a fazenda de São Miguel do Bom Retiro, próximo do Itacolomi. Como era comum, ali também se dedicava à mineração, tendo estabelecido, na propriedade rural, lavras minerais junto às roças e à criação (EM, v. 1, p. 294-295). Essas atividades eram absorventes e dificultavam seu deslocamento, por isto tratou alguns doentes a distância. Em virtude das horas passadas dentro do rio, catando ouro, apareceu-lhe uma inflamação que quase lhe custou a perna, tendo ele mesmo diagnosticado erisipela (EM, v. 1, p. 331-332). Contou que durante cinco anos estivera metido com os pés dentro da água, para abrir uma vala para desviar o rio caudaloso que passava pela propriedade, prova de que se envolvera diretamente nas atividades de extração, e não apenas seus escravos. Mas, sempre que possível, prestava seus serviços na região, aproveitando também para coletar ervas para completar sua botica. Por essa época, foi a vários arraiais próximos, como Guarapiranga e Gama. Também estabeleceu relações com outros proprietários de fazendas nas redondezas, tendo tratado do capitão Domingos Francisco de Oliveira, dono de um engenho próximo ao seu (EM, v. 1, p. 313). Na vila, frequentava a casa do vigário local, o padre José Simões (EM, v. 1, p. 241). No arraial de São Caetano, cuidou de um dos escravos do mestre-de-campo Joseph Rebello Perdigão e do alferes Gervasio Barbosa (EM, v. 1, p. 344, 372).
Em 1724, estabeleceu-se em Vila Rica, no distrito de Padre Faria, mas manteve a propriedade rural (EM, v. 2, p. 536). Não se sabe por que preferiu residir na vila, mas é provável que já dispusesse de número suficiente de escravos para realizar as atividades na fazenda e não precisasse mais passar tanto tempo ali. No núcleo urbano, aumentava o número de possíveis clientes e era mais fácil o seu deslocamento, pois já tinha vários conhecidos e ia constantemente assisti-los (EM, v. 1, p. 458). Agiu como a maioria dos senhores rurais de seu tempo, que possuíam uma pequena casa na cidade para pernoitar nos dias de festas, missas, ou para realizar negócios. O distrito do Padre Faria ficava afastado do centro e situava-se num dos morros da periferia, freqüentado
principalmente por escravos e infestado de vendas, 36 mas permitia que ele estivesse próximo da enorme clientela que se aglomerava na então mais populosa vila da capitania e suas vizinhanças. Como era de se esperar, realizou várias curas em Antônio Dias, um dos distritos centrais de Vila Rica, onde se concentravam os sobrados e as lojas (EM, v. 1, p. 401).
Por essa época, Luís Gomes Ferreira continuou com a política, já bem-sucedida, de estabelecer relações com os homens importantes locais, tratando de suas doenças e das doenças de seus escravos. Um deles foi o capitão Thomé Ferreira, morador no Padre Faria, de quem tratou de um escravo com dores nos quadris (EM, v. 1, p. 458). Atendeu o irmão do Padre Antônio Brandão, que foi capelão no arraial da Passagem e depois em Mariana (EM, v. 2, p. 535). Outro foi João Fernandes de Oliveira, que em Mariana e Vila Rica se envolveu em vários negócios: era fazendeiro, tinha lavras de
mineração, 37 foi caixa e administrador do contrato dos dízimos da
região38 e, mais tarde, se tornou o primeiro contratador dos diamantes no Tejuco. Gomes Ferreira tratou de seus escravos e, tendo sido bem-sucedido, passou a fazer parte do círculo restrito que freqüentava a fazenda da Vargem, de sua propriedade, na mesma região de Itacolomi, próximo a Mariana. No mesmo ano que o cirurgião chegou a Vila Rica, foi convidado a ouvir missa na capela particular do fazendeiro (EM, v. 1, p. 275).
As relações de amizade com poderosos sempre resultavam em vantagens para aqueles que buscavam ascensão para si e para sua família, sendo um dos principais mecanismos de sociabilidade da
época.39 Não parece ter sido mera coincidência, pois, que seu sobrinho José Gomes Ferreira tenha se estabelecido no Tejuco no período em que João Fernandes de Oliveira era contratador, onde
exerceu a profissão de cirurgião no hospital do contrato. 40
Graças a seus remédios secretos e à forma como praticava a sua “arte,” sua fama se espalhava pelas Minas. Quando o ouvidor e provedor da Fazenda Real, António Bercó del Rio, residente em Vila Rica, a cujo escravo Gomes Ferreira ministrava um tratamento, perguntou se era cirurgião aprovado, Gomes Ferreira se dispôs a apresentar sua carta de ofício. Foi com satisfação que ouviu do importante ministro de Sua Majestade que não era necessário mostrar o documento, pois já sabia [que ele] era um grande cirurgião (EM, v. 2, p. 632).
Quando residia em Vila Rica, seu envolvimento na doença do mercador Domingos Rodrigues da Rocha foi ilustrativo das particularidades das redes de sociabilidade e normas de conduta que se estabeleciam entre os moradores nas Minas Gerais, onde as relações pessoais se mesclavam às profissionais. O comerciante era seu amigo, a quem se sentia obrigado, certamente por lhe prestar vários favores, sendo os mais prováveis o empréstimo de dinheiro e a venda de produtos a crédito. Em 1725, nas inúmeras viagens que fez ao centro da vila para cuidar de seus negócios, encontrou o mercador acometido de uma forte febre, mas já em tratamento por um médico e um cirurgião. Evitou se envolver na questão, pois não queria se indispor com dois colegas de profissão, que já cuidavam do caso e aos quais devotava respeito. Mostrava-se muito mais cuidadoso do que tinha sido em Sabará, onde não se furtara de tornar público suas divergências com outros licenciados. As antipatias que angariou devem ter tido custos elevados, que agora ele procurava evitar. Como o amigo não apresentava melhoras, resolveu receitar-lhe o remédio à base de arruda, que ele mesmo desenvolvera. Antes, porém, tomou o cuidado de recomendar-lhe que o tomasse em segredo, pois, como ele mesmo justificou, antes lhes dava de barato o crédito da cura, que o ficar eu com inimigos, porque os não queria, nem de palha (EM, v. 2, p. 518-519).
Em 1729, voltou a se estabelecer na fazenda, mas não ficou muito tempo, retornando a Sabará no ano seguinte, onde permaneceu até 1732 (EM, v. 2, p. 659). Nessa época, anotou as doenças de vários escravos que trabalhavam nas suas lavras de ouro (EM, v. 1, p. 263). Seu plantel era de pelo menos cerca de dez escravos, número aproximado a que se referiu no tratado. Era um proprietário médio para os padrões das Minas, onde os plantéis médios variavam mais frequentemente de um a cinco. Jactava-se de os tratar bem, ao contrário do que era comum nas Minas, o que elas facilitava a resistência e a recuperação das doenças, pois eram gordos e bem nutridos (EM, v. 1, p. 258, 273).
Pouco se sabe sobre sua família. Novamente, foi Luís Gomes Ferreira quem forneceu algumas informações. Era filho de Caetano
Gomes Ferreira41 e tinha três irmãos: Gabriel Gomes, Alexandre Gomes de Sousa e João Gomes Ferreira, não se conhecendo o nome de sua mãe. Os dois primeiros vieram para o Brasil, sendo que Alexandre inicialmente morava em Salvador, onde se hospedou Luís durante sua estada na cidade. Alexandre acabou por também se estabelecer na Vila do Carmo (EM, v. 2, p. 537-538). Em 1740, ainda residia na vila e pediu que seis de suas filhas retornassem ao Reino, onde pretendiam se recolher a um convento, de livre vontade. Argumentou a impossibilidade de sustentar tão numerosa prole, e que ficaria apenas com as duas filhas restantes e cinco
filhos, os quais pretendia nomear como herdeiros.42 Gabriel também veio para o Brasil e visitou-o na fazenda de São Miguel, em Itacolomi, quando foi acometido de umas pontadas nas juntas (EM, v. 2, p. 533). João Gomes Ferreira era padre e foi abade em Prondas (EM, v. 2, p. 665).
Um de seus sobrinhos, José Gomes Ferreira, também era cirurgião,
barbeiro e boticário,43 e, em Portugal, foi escrivão do conservatório
da Universidade de Évora. 44 José se instalou, no fim da década de
1740, no arraial do Tejuco. 45 Seu tio, o padre João Gomes, legou-lhe um patrimônio para que pudesse ordenar-se em Ordens Sacras, o que acabou por não se consumar.
José foi cirurgião do hospital do Contrato Diamantino, que depois foi incorporado à Intendencia dos Diamantes, quando da decretação do monopólio régio sobre a exploração diamantina. Como já foi dito, esse cargo provavelmente foi conseguido por seu tio Luís Gomes Ferreira, por meio das relações que tecera, em Itacolomi, com seu
vizinho e futuro contratador, João Fernandes de Oliveira.46
José Gomes Ferreira teve um longo caso com sua escrava Maria parda, a quem mais tarde também alforriou. Maria parda era conhecida da famosa escrava Chica da Silva e suas vidas se
intercruzaram várias vezes. 47 48 Apanhados pela devassa de 1753,
cinco anos depois, ainda viviam juntos e tiveram mais três meninas:
Rosa, Matilde e Francisca. 49 Em 1774, Maria Gomes residia no arraial, na rua Padre do Manoel da Costa, em uma casa alugada separada de José, como era o costume entre os casais não constituídos oficialmente para fugirem dos braços vigilantes da
Igreja.50 José morava na rua de Luís Gomes, acompanhado de seu
filho,51 este, sim, clérico, o qual provavelmente herdou os bens do tio-avô. O padre era senhorio direto de umas casas em um lugarejo próximo a Vila da Feira, pertencentes ao morgado de Salvador da Rocha Tavares. Como os bens de morgadio eram inalienáveis, o padre teve de pedir a Sua Majestade a sua desintegração do morgado, para que pudesse dotar o sobrinho de um patrimônio que lhe garantisse renda, pré-requisito necessário para abraçar a
carreira eclesiástica. 52
Não se sabe por que, em 1731, Luís Gomes Ferreira decidiu abandonar tudo e voltar para Portugal. Retornou pelo mesmo caminho do sertão, que vinte anos antes lhe abrira as portas das Minas. Provavelmente, como vários de seus conterrâneos, a região representara apenas um local de passagem, onde se poderia formar o pecúlio desejado para o desfrute de uma velhice sossegada no Reino. Luís Gomes Ferreira retornava mais rico do que viera. Possuía uma fazenda, casa de morada, escravos, datas de mineração, criação de animais. Certamente vendera tudo antes de sua partida e agora percorria o caminho de volta com a bolsa cheia de várias oitavas de ouro. No fim do ano, já estava na Bahia, à esperada frota que ia para o Reino. Capitaneada pela nau Madre de Deus, os navios arribaram no rio Tejo e chegaram a Lisboa em 27
de fevereiro de 1732.53
Luís Gomes Ferreira se casou com Maria Ursulina Monteiro da Gama e teve um filho, Alexandre Gomes Ferreira. Alexandre estudou na Universidade de Coimbra. Foi conselheiro de Dona
Maria I e recebeu a Ordem de Cristo. 54 Tudo indica que Alexandre exerceu a arte da cirurgia em Vila Rica, como seu pai. No inventário do comerciante João Gonçalves Baptista, em Vila Rica, apareceu o registro de seis livros de cirurgia que deveriam ser entregues a Alexandre Gomes Ferreira, que os encomendara, pelos quais
pagaria dez oitavas. 55 Alexandre casou-se no Brasil com Cândida Florinda de Oliveira Belo e teve três filhos, José, Luís e Maria
Angélica.56
Em Portugal, a experiência que Luís Gomes Ferreira acumulara sobre medicina tropical continuou a ser requisitada, pois havia os que voltavam do Brasil acometidos de doenças, mas os pacientes não eram muitos. Realizou várias viagens, como estava acostumado, e, passados apenas alguns meses desde sua chegada, já tinha ido ao Porto, a Braga, a Barroso e a Coimbra (EM, v. 1, p. 284). Mostrou o conhecimento que adquirira no além-mar, ao curar Manoel João de Carvalho que chegara das Minas com umas pontadas no fígado e Francisco Ribeiro da Costa atacado de escorbuto (EM, v. 1, p. 284 e v. 2, p. 697).
Mas, se no Reino cedo descobriu que seu conhecimento não se aplicava mais às doenças de sua terra natal, o que restringia a clientela, também se deu conta de que a experiência acumulada no exercício da medicina no Brasil poderia se transformar numa mercadoria bem mais valiosa. Agora, pouco lhe valia o segredo, pois não havia clientes a conquistar. Se fora descuidado em não anotar criteriosamente os casos que assistira, podia valer-se de sua memória. Assim se pôs a escrever observações e não autoridades, e também revelo os segredos que tenho alcançado por minha indústria (EM, v. 1, p. 184). Em poucos meses, o Erário Mineral estava pronto e foi enviado aos censores (EM, v. 2, p. 645).
Ao rascunhar as páginas do livro, Luís Gomes Ferreira percebeu que se afastava dos princípios básicos da profissão que abraçara. Agora o que lhe valia era a publicidade de seus segredos profissionais que no passado lhe tinham garantido fama e atraído os pacientes. Tornava sua experiência um conhecimento a ser dividido com muitos, e nesse ponto se aproximava mais dos médicos, pois estes compartilhavam entre si um saber erudito que se constituía numa ciência universal. Desculpou-se com os colegas por sua iniciativa, pois, disse, não duvido que alguns cirurgiões não gostem de que ensine um remédio tão fácil e tão eficaz, mas a conveniência dos muitos deve antepor-se a dos poucos (EM, v. 1, p. 405).
O Erário Mineral, constituído de um fólio, foi publicado dois anos depois, em 1735, impresso na oficina de Miguel Rodrigues, e em 1755, teve uma primeira reimpressão. Foi revisto e aumentado pelo autor, particularmente no item III - Miscelânias - tendo sido, então,
composto em dois volumes.57 Nos trinta anos que se seguiram, por concessão régia, Luís Gomes Ferreira teve direito sobre todos os
volumes impressos ou vendidos no Reino e em além-mar.58 Esperava alcançar com seu livro fama e riqueza, e parece que conseguiu algum sucesso de vendas em Minas Gerais nos anos que se seguiram. O capitão Manuel Ribeiro dos Santos, caixa e administrador dos Contratos dos Dízimos na capitania de Minas Gerais, nos triênios de 1741 a 1750, era também revendedor de livros. Periodicamente encomendava a seu correspondente em
Lisboa, Jerônimo Roiz Airão, exemplares do 59 Erário Mineral. Também nos poucos registros de livros existentes nos inventários da
região de Sabará, ele foi o único livro presente em vários deles. 60
No Brasil, inaugurou o que poderia ser chamado de uma Medicina tropical, pois preocupava-se em conhecer a especificidade das doenças e dos tratamentos locais. Mas, na literatura médica portuguesa da época, seu livro não teve repercussão. Tratava-se de conselhos práticos, pertinentes a uma medicina caseira, baseada ainda na doutrina galênica que vinha sendo questionada pela ciência médica, que procurava se estruturar em bases cada vez mais racionais. É importante ressaltar que, apesar de ainda compartilhar de uma visão da medicina baseada na teoria dos humores, Luís Gomes Ferreira insurgia-se contra o uso indiscriminado das sangrias, seu principal método terapêutico (EM, v. 1, p. 279). Outra questão a se destacar foi a ênfase na experiência prática observável como fio condutor do saber. Tal qual Garcia d'Orta, médico que esteve na Ásia entre 1523 a 1533 e escreveu Colóquios dos simples e drogas e cousas medicinais da índia, tentou incorporar as plantas, animais, produtos e terapêuticas locais, acentuando o primado da empiria, de sua experiencia prática, em oposição ao academicismo do Galenismo, como forma
primordial de acesso ao conhecimento. 61
O Erário Mineral revela sua maior riqueza no caleidoscópio de leituras que seu conteúdo nos abre, fornecendo ricas informações não só sobre as doenças e suas práticas curativas, mas também sobre costumes e características da região das Minas Gerais, no século XVIII. Aborda um leque de temas que abarca desde o dia-a-dia dos escravos, o sistema de mineração aurífera, as crenças, a alimentação, a vida familiar, dentre inúmeros outros, como veremos nos textos introdutórios a seguir, que exploram algumas das inúmeras possibilidades de leitura dos textos: o dia-a-dia das Minas, a vida dos escravos, a farmacopéia e a medicina presentes no livro. A fama que Luís Gomes Ferreira tanto buscou alcançar em vida se imortalizou neste inestimável legado, fruto de sua arguta capacidade de observar o mundo que o cercava.
Espécie botânica encontrada em São Luís do Maranhão.
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1 DUTRA, Francis A. The practice of medicine in early modern Portugal, In: KATZ, Israel J. (Ed.) Libraries, history, diplomacy and the performing arts, p. 139.
2 DUTRA, Francis A. The practice of medicine in early modern Portugal, In: KATZ, Israel J. (Ed.) Libraries, history, diplomacy and the performing arts, p. 135.
3 DUTRA, Francis A. The practice of medicine in early modern Portugal, In: KATZ, Israel J. (Ed.) Libraries, history, diplomacy and the performing arts, p. 159.
4 ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO (APM) Seção Colonial SC.02. fl. 200-4v. Regimento que devem observar os comissários delegados do Físico Mor do Reino no Estado do Brasil. Ver também: RIBEIRO, Márcia Moisés. A ciência dos trópicos. GROSSI, Ramon F. Considerações sobre a arte médica na Capitania das Minas, LPH, p. 11-26.
5 FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio…, p. 210.
6 ATAS da Câmara Municipal de Vila Rica. Revista do Arquivo Público Mineiro, ano 25, v. 2, p. 105, 1937, apud FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio…, p. 210.
7 Os oficiais da Câmara da Vila Real de Sabará […] tinham feito providenciar o modo de socorrer as enfermidades dos miseráveis presos daquele termo e ainda as pessoas pobres, facultando à Câmara a ampla liberdade de dar a um Físico a porção annual de 150 oitavas de ouro. [Revista do Arquivo Público Mineiro, Ano 16, p. 279, 1912).
8 SANTOS FILHO, Licurgo de Castro. História geral da medicina brasileira.
9 APM.SC270. f.61-3. apud FURTADO, Júnia Ferreira. O livro da capa verde, p.l23.
10 RIBEIRO, Márcia Moisés. A ciência dos trópicos…
11 MENDES, José Antonio. Governo de mineiros…, p. XIV-XV. NAVA, Pedro. Capítulos de história da medicina no Brasil, p. 98.
12 MENDES, José Antonio. Governo de mineiros…, p. XIV-XV. NAVA, Pedro. Capítulos de história da medicina no Brasil p. 98.
13 Não lhe apliquei outro [remédio] algum por não ter […] por ir a minha botica adiante. (EM, v. 2, p. 591)
14 MENDES, José Antonio. Governo de mineiros…, p. XVII.
15 SENEBIER, Jean. Essai sur l'art d'observer et de faire des experiences, p. 97, 101.
16 VASCONCELOS, Ivolino de. Notícia histórica sobre Luís Gomes Ferreira e sua obra - O "Erário Mineral". In: CONGRESSO DE HISTÓRIA DO BRASIL NO SÉCULO XVIII. p. 403. COSTA FILHO, Miguel. O "Erário Mineral" de Luís Gomes Ferreira. Revista do IHGB, v. 235, p.331-340, 1957; BOXER Charles, R. Arare luso-brazilian medical treatise and its author: Luis Gomes Ferreira and this Erário Mineral of 1735 and 1755. Indiana University Bookman, v. 10, p. 48-70. (Agradeço a Neil Safier a cópia dos dois artigos de Charles Boxer utilizados.)
17 SANTOS FILHO, Licurgo de Castro. História geral da medicina brasileira, p. 308-309.
18 ABREU, José Rodrigues. Luz dos cirurgiões embarcadiços…
19 MIRANDA. João Cardoso de. Relaçaõ cirurgica, e médica…
20 MICELI, Paulo. O ponto onde estamos…
21 MENDES, José Antonio. Governo de mineiros…, p.85-86.
22 VIANNA, Urbino. Bandeiras e sertanistas baianos, p. 166-167. (O autor reproduz e comenta o caminho descrito por Antonil.)
23 ANASTASIA, Carla Maria Junho. Vassalos rebeldes, p. 78.
24 VIANNA, Urbino. Bandeiras e sertanistas baianos, p. 172. Estas informações são baseadas no roteiro de Joaquim Quaresma Delgado.
25 Apud FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio…, p. 190.
26 FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio…, p. 98.
27 FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio…, p. 152-153. RAMOS, Donald. Marriage and family in colonial Vila Rica, Hispanic American Historical Review, v. 55, p. 200-205, maio 1975.
28 FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio…, p. 192.
29 BOXER, Charles R. The golden age of Brazil (1765-1750), p. 95-102.
30 Ver: CANO, Wilson. Economia do ouro em Minas Gerais (século XVIII). Contexto, v. 3, 1977. MELLO E SOUZA, Laura de. Desclassificados do ouro… FURTADO, Júnia Ferreira. O livro da capa verde…
31 ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO DE LISBOA. Documentação Avulsa de Minas Gerais. Caixa 058. Doe. 4.965.
32 HOLANDA Sérgio Buarque. A botica da natureza. In: Caminhos e fronteiras, p. 74-89.
33 FURTADO, Júnia Ferreira. Fidalgos e Lacaios. In: Homens de negócio…, cap. 2.
34 Correspondência de Francisco Pinheiro, apud LISANTI FILHO, Luís. (Org.) Negócios coloniais.
35 BOSCHI, Caio. As misericórdias e a assistência à pobreza nas Minas Setecentistas. Revista de Ciências Históricas, v. XI, p. 252, 1996.
36 ATAS da Câmara Municipal de Vila Rica. Revista do Arquivo Publico Mineiro, Ano 25, v. 2, p. 22-23,72, 95, 1937.
37 ARQUIVO ECLESIÁSTICO DA ARQUIDIOCESE DE MARIANA. Processo matrimonial de João Fernandes de Oliveira e Maria de São José, n. 3.608,1726.
38 ARQUIVO DA CASA SETECENTISTA DE MARIANA. Auto 6.118. Códice 300. 10. ofício. f.l8v.
39 FURTADO, Júnia Ferreira. Fidalgos e lacaios. In: Homens de negócio…, cap. 2.
40 ARQUIVO ECLESIÁSTICO DO BISPADO DE DIAMANTINA. Caixa 297. Batizados no Tejuco - 1745/1765. f.16. ARQUIVOS NACIONAIS DA TORRE DO TOMBO. Chancelaria de Dom João V.
41 VASCONCELOS, Ivolino de. Notícia histórica sobre Luís Gomes Ferreira e sua obra - O "Erário Mineral,” p. 403.
42 ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO DE LISBOA. Documentação Avulsa de Minas Gerais. Caixa 39. Documento 11.
43 ARQUIVOS NACIONAIS DA TORRE DO TOMBO. Chancelaria de Dom João V. Carta de boticário (30/8/1740); Carta de cirurgião (20/8/1723); Carta de mercê para poder usar o ofício de cirurgia (6/7/1723).
44 ARQUIVOS NACIONAIS DA TORRE DO TOMBO. Chancelaria de Dom João V. Provisão para ter um servente no seu ofício de escrivão do conservatório da Universidade de Évora (20/9/1741).
45 ARQUIVO ECLESIÁSTICO DO BISPADO DE DIAMANTINA. Caixa 297. Batizados no Tejuco, 1745/1765. f. 16.
46 Quando José foi médico do contrato, era seu administrador no Tejuco o filho de João Fernandes de Oliveira, o desembargador João Fernandes de Oliveira. Nessa época, Luís Gomes Ferreira e o velho João Fernandes já tinham retornado a Lisboa, onde certamente se reencontraram.
47 FURTADO, Júnia Ferreira Chica da Silva e o contratador dos diamantes.
48 AEAD. Caixa 557. f.96v. Livro de termos do Serro do Frio. 1750-3.
49 AEAD. Caixa 297. f.49, 76v, 96v.Livro de batizados do arraial do Tejuco. 1745/1765.
50 AHU. MAMG. Caixa 108. Doc. 9. Ver também: FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Barrocas familias.
51 ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO DE LISBOA Documentação avulsa de Minas Gerais. Caixa 108. Doc. 9.
52 ARQUIVOS NACIONAIS DA TORRE DO TOMBO. Chancelaria de Dom João V. Provisão de licença para o padre João Gomes fazer patrimônio ao dito sobrinho" (17/3/1716). (Agradeço a Renato Pinto Venâncio, André Belo e Antônio Manuel Hespanha as transcrições e sugestões sobre esta documentação.)
53 BOXER, Charles R. A rare luso-brazilian medical treatise and its author…, p. 53, 1969.
54 VASCONCELOS, Ivolino de. Noticia histórica sobre Luís Gomes Ferreira…, p. 404.
55 ARQUIVO HISTÓRICO DO MUSEU DA INCONFIDÊNCIA. Casa do Pilar. Cód. 67. Auto 802. Inventário de João Gonçalves Baptista.
56 VASCONCELOS, Ivolino de. Notícia histórica sobre Luís Gomes Ferreira…, p. 404-405.
57 BOXER, Charles R. A rare luso-brazilian medical treatise and its author, p. 49.VASCONCELOS, Ivolino de. Notícia histórica sobre Luís Gomes Ferreira…, p. 404-405.Na edição de 1735, a seção de Miscelânias termina em um remédio para os que se sentem mal ao beber vinho, na p. 220. Na edição de 1755, esta seção continua até a p. 344 e lista mais setenta e cinco receitas e prescrições médicas. Segue-se então uma seção intitulada "Vários remédios avulsos que obram maravilhosamente com sua virtude'', onde são listadas mais 18 remédios e curas. BOXER, Charles. A footnote to Luis Gomes Ferreira, Erario Mineral of 1735 and 1755, p. 90.
58 ARQUIVOS NACIONAIS DA TORRE DO TOMBO. Chancelaria de Dom João V. Cod. L 91, n. 822. (Agradeço a Renato Pinto Venâncio a transcrição deste documento.)
59 DINIS, Sílvio Gabriel. Um livreiro em Vila Rica no meados do século XVIII, p. 181.
60 HIGGINS, Kathleen J. Licencious liberty, p. 55.
61 GOODYEAR JR., James. The empirist Garcia d'Orta. In: Agents of empire, p. 81-93.