Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 30 de 31

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Erário mineral

V - Glossário de médicos

Glossário de médicos

 

Ronaldo Simões Coelho

Se você quiser ser um bom médico, deve aprender a pensar

por si mesmo e não simplesmente usar os pensamentos dos

outros.

Paracelso

Luís Gomes Ferreira cita diversos autores antigos, nos quais baseia a sua prática. São os seguintes:

Aecio - Escritor bizantino. Viveu no século VI, às margens do Tigre. Estudou em Alexandria e escreveu em 16 livros um sumário médico, onde cita os principais escritores gregos.

Antonio Ferreyra - Antônio Ferreyra, autor de Luz verdadeira e recopilado de toda a cirurgia, publicado em Lisboa também em 1735.

Avicena - Abu-Ali al Husain (980-1037) era natural de Bocara, na Pérsia. Médico, astrônomo, matemático e enciclopedista, foi menino prodígio, sabendo de cor o Alcorão aos 10 anos de idade. De sua imensa obra, dez livros são consagrados à medicina. Uma recomendação de Avicena tem seu uso consagrado na terapêutica moderna: a música e as narrativas bem contadas são, segundo ele, ótimos remédios.

Bruneto publicou, de 1695 a 1709, um periódico intitulado Le Progrès de la Médecine, em fascículos mensais, que o dr. Ferreira deve ter lido e acompanhado.

Cornaro - Viveu entre 1467 e 1566. Nasceu em Veneza. Seu Trattato della vita sobria é um primoroso livro de higiene. Não era médico.

Crolio - Osvaldo Crólio, seguidor de Paracelso, astrólogo e alquimista do século XVI. Acreditava que havia duas magias. Uma delas é profana, infame, diabólica, perigosa, chamada magia negra. A outra permite conhecer as profundezas e os mistérios mais difíceis, pela observação da simpatia e da antipatia, e se chama magia branca.

Escreveu que a inveja é a real companheira dos estudantes de medicina e que, onde a inveja e o ódio mandam, o julgamento é cego. Tinha opiniões nada lisonjeiras sobre seus colegas, de quem dizia que não estudavam e divulgavam uma falsa ciência, construindo cemitérios. Segundo ele, os médicos mundanos e avaros se deixam levar pelo amor ao dinheiro e às honrarias e, por isso, merecem tomar suas refeições num urinol.

Era grande defensor de que o médico fosse apenas um ministro da natureza, devendo ter conhecimento universal para melhor compreender o homem. Era capaz de ficar meses preparando um remédio, transformando um metal até conseguir a quintessência necessária ao bálsamo interno do corpo. Fazia, desse modo, remédios que podiam ser dados em pequena quantidade, pois havia remédios dados em tão grande quantidade que os doentes preferiam morrer a tomá-los. Ensina seus segredos aos leitores, como um presente dado de coração, apesar de ter gasto muito em inventá-los.

Curvo - João Curvo Semmedo (1635-1719), nascido em Alentejo e falecido em Lisboa, médico português, autor, dentre outros livros, da Polyanthea Medica, que teve sucessivas edições no século XVIII, e foi apontado como o "novo evangelho" dos médicos portugueses. Seu prestígio era tão grande que há uma inscrição em sua efígie afirmando que diante dele "a morte fugia apavorada". A Água Cordial Bezoártica do dr. Curvo era famosa. Compunha-se de flor de papoulas vermelhas, esquibas de cavalo frescas, bezoártico de Curvo, arrobe de bagas de sabugo e água. Semedo exerceu a maior influência no autor do Erário Mineral. Em outro livro de sua autoria, publicado em 1707, cujo título é Observações médicas doutrinais, fala num fenômeno da maior atualidade: o da falsificação de remédios. Diz ele sobre onde buscar o óleo verdadeiro: Porque também em Florença, como em Portugal, se falsificam hoje alguns remédios, e se vendem aos desgraçados doentes com o nome de verdadeiros, mas logo se conhece o engano, porque os adulterados e contrafeitos não fazem as boas obras que fazem os legítimos. Um comentador português da obra de Semedo, Ferreira Mira, afirma ter sido ele o primeiro que teve notícia exacta da circulação sanguínea e linfática.

Falópio - Gabriele Fallopio (1523-1562), discípulo de Vesálio, anatomista e crítico de Galeno, que combateu os galenistas. Abandonou o estado eclesiástico para se dedicar à anatomia. Estudou em Ferrara, Pisa e Pádua. Sucedeu a Vesálio em Pádua, onde realizou estudos metódicos, dos quais fez claras descrições. Ainda hoje se diz "trompas de Falópio". Há quem o considere superior a seu mestre Vesálio.

Galeno - Nome do maior médico grego depois de Hipócrates. Nasceu em Pérgamo em 130 e viveu até o ano 201. Escreveu mais de 500 obras. Dominou o pensamento médico durante quinze séculos. Suas idéias foram aceitas pelos cristãos e pelos maometanos por causa do seu monoteísmo. Foi médico de imperadores e era muito vaidoso. Marco Aurélio foi seu cliente, assim como Cômodo, filho do primeiro, um dos mais violentos entre os imperadores romanos, corrupto e sangüinário, tendo sido assassinado por estrangulamento aos 31 anos de idade.

Os relatos de casos de Galeno são louvores a si mesmo. Aliás, ele chega a dizer que fez mais pela medicina do que Trajano fez pelo Império Romano. Grande observador, dissecador de animais, médico de gladiadores (o que lhe teria permitido estudos especiais), foi um grande sábio, mas o fato de nunca ter sido questionado, até surgir Vesálio, impediu o avanço da medicina. Um dos fatos contados por Galeno se refere aos ciúmes freqüentes entre os médicos, relatando serem tão intensos que se matavam uns aos outros.

Em escrito autobiográfico, ele diz:

Pessoalmente, não sei como adquiri minha natureza. Foi,

porém, minha grande sorte ter um pai de temperamento

tranqüilo, justo, eficiente e bondoso. Minha mãe, pelo contrário,

era tão irascível que às vezes mordia suas escravas e estava

constantemente gritando com meu pai e discutindo com ele,

pior do que Xantipa com Sócrates. Quando eu via a nobreza de

conduta de meu pai e a comparava com a vergonhosa atitude

de minha mãe, decidi amar e desenvolver o comportamento

dele, assim como odiar e fugir do dela. Ao lado dessa enorme

diferença entre meus pais, observava que ele nunca estava

aborrecido, enquanto minha mãe se preocupava com as

menores coisas. Você sabe que as crianças imitam aquilo que

amam e evitam o que não gostam de ver.

Como médico, afirmava: Os médicos devem saber por quais métodos a saúde deve ser restaurada quando estiver ausente, e conservada quando presente. O que traz a saúde se chama medicina ou remédio, enquanto o que a mantém se chama maneiras saudáveis de viver.

A leitura de suas cartas a Glauco expondo seu método terapêutico é um resumo completo de suas idéias.

A influência de Galeno na obra do autor do Erário Mineral é permanente. Aliás, Galeno escreveu o seguinte: A razão encontra as respostas mais depressa, mas a experiência confirma nossa confiança nelas, frase que parece ter calado fundo em Gomes Ferreira.

Guido - Guido Guidi, discípulo de Vesálio, morreu em 1569. Chamado também de Vidius, organizou a Faculdade de Medicina do Colégio de França. Suas lâminas anatômicas, em número de 77, foram publicadas em Pádua, em 1611. Como o material de dissecção era raro, o estudo da anatomia era feito por meio de lâminas. Basta lembrar que Falópio dissecou em um ano apenas sete cadáveres.

Hipócrates - Nasceu em Cós em 460 a. C. e morreu em Larissa, aos 85 anos de idade. Considerava-se descendente de Asclépio e de Héracles. Seus métodos de observação, sua certeza de não haver nada de sobrenatural na causa das doenças e sua escola o tornaram, ao ser relido, exemplo do bom exercício da medicina. Tudo indica que sua escola era composta apenas de membros de sua família e que o famoso juramento teria sido a forma encontrada para manter os segredos tão bem guardados, a partir do momento em que estranhos começaram a freqüentá-la. Todo o ensino era oral e prático, e as crianças conviviam desde cedo no ambiente de cura e tratamento. A medicina como sociedade secreta atravessa os tempos e não se pode negar que o corporativismo médico atual represente os resquicios de tal modo de vê-la e praticá-la. Um assunto que merece ser estudado é o fato de o juramento de Hipócrates ter sido adotado pela Igreja Católica. Como pode um pagão ter penetrado tão intensamente no pensamento da Igreja, a ponto de, na Idade Média, seu juramento ser impresso em forma de cruz?

A vida e a obra de Hipócrates estão cercadas de lendas. De seus três filhos, os dois homens aprenderam medicina com ele. Sua filha, em virtude de algum encantamento, foi transformada em dragão e só voltaria à forma original depois de ser beijada por um cavaleiro.

Outro episódio, lendário ou não, teria sido a recusa de Hipócrates de tratar o rei da Pérsia, Artaxerxes I, por considerá-lo inimigo dos gregos, num gesto de patriotismo que varou os séculos e inspirou artistas.

Conta-se que no seu túmulo apareceu, logo após sua morte, um enxame de abelhas cujo mel tinha grandes poderes curativos.

Hipócrates, contemporâneo de Platão (que o cita em suas obras), viveu numa época culturalmente rica, o chamado século de Péricles, tendo convivido com Tucídides, o historiador, e com Eurípedes, o autor trágico, além de tantos outros que se tornariam tão célebres quanto ele.

João Batista Sylvatico ou Giambattista Silvatico publicou um dos primeiros livros de doenças simuladas, De its qui morborum simulant deprehensis, editado em Milão em 1591.

João Cardoso de Miranda - João Cardoso de Miranda, médico português, publicou Relação Cirurgica e Médica (Lisboa-1714), em que ensina como tratar o escorbuto. Em 1749, publicou Prodigiosa Lagoa, descoberta nas Congonhas das Minas de Sabará, lagoa cujas águas eram reconhecidas como capazes de curar a lepra. Clinicou na Bahia e em Minas. Morreu no Brasil, em 1773. Sua receita contra o escorbuto é transcrita integralmente por Luís Gomes Ferreira.

João Castellobranco - Também conhecido como João Rodrigues de Castelo Branco, passou para a História com o nome de Amato Lusitano. O nome Amatus é, ao que tudo indica, a tradução latina do nome hebraico de sua família, Habib, que significa querido. Viveu de 1511 a 1568. Judeu português, estudou em Salamanca, clinicou em Castelo Branco e emigrou para a Antuérpia, fugindo da Inquisição. Seu livro Comentários a Dioscórides, publicado em Veneza em 1553, é sua obra mais conhecida. Tal como Hipócrates, formulou um Juramento, no qual declara que sempre tratou seus doentes com igual cuidado, quer fossem pobres ou nascidos em nobreza, sem procurar saber se eram hebreus, cristãos ou sequazes da lei maometana; sempre foi parcimonioso nos honorários e muitas vezes sem qualquer paga, tendo sempre mais em vista que os doentes recobrassem a saúde por seu intermédio, do que tornar-se rico pela sua liberalidade ou pelos seus dinheiros; como autor de escritos médico, ao publicar os seus livros, nada mais teve a peito do que promover que a fé intacta das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros, sem outra ambição que não fosse contribuir de qualquer modo para a saúde da humanidade, sem nada fingir, acrescentar ou alterar em sua honra. Descreveu as plantas das ilhas da Madeira e São Tomé. Cita o óleo de ouro, tão caro ao autor do Erário Mineral. Teve, dentre outros desafetos, Pietro Andrea Mattioli, também médico e comentador de Dioscórides, por ter apontado erros na obra do colega, o qual não lhe perdoou, chamando-o de plagiário e, pior, de marrano, acusação gravíssima na época e que deve ter apressado a ida de Amato Lusitano para longe de Portugal. Aliás, Amato Lusitano foi criticado por Falópio, Vesálio e Eustáquio, por ter descrito, nos seus estudos anatomofisiológicos as válvulas da veia ázigos e sua influência na regulação da corrente sangüínea. Seu nome está, pois, vinculado à descoberta das válvulas venosas, muito antes das descrições de Fabrício de Acquapendente, cujo discípulo, William Harvey, veio a demonstrar como se processava a circulação do sangue.

Lanfranco - Clérigo, grande cirurgião milanês, banido da Itália no fim do século 13, levou para a França a cirurgia italiana da época, fixando-se em Leão e em Paris, onde se associou ao Colégio de São Cosme. Em sua obra Chirurgia Magna, posiciona-se contra a divisão entre médicos e cirurgiões, afirmando que nenhuma pessoa pode ser um bom médico se não possuir conhecimentos de cirurgia operatória, o que contrariava os conceitos da época.

Leonardo Fioravano - Um dos discípulos mais conhecidos de Paracelso. Sua obra é toda escrita em linguagem acessível ao povo. Nasceu na Itália no século XVI. Ferreira o cita como tendo curado 12 mil soldados do exército de Carlos V de cameras mortais só com lhes dar vomitorios, o que não deixa de ser uma informação espantosa.

Madeyra - Duarte Madeyra Arraes publicou em 1751 (muito depois do nosso autor) o livro Madeira Ilustrada, sobre o morbo gálico. Era físico-mor do rei D. João IV. Foi lente de medicina em Pádua.

Mercado, cujo nome é Luís Mercado (1525-1611), nasceu em Valladodid. Foi médico de Felipe I. Escreveu diversas obras, dentre as quais um tratado sobre doenças de mulheres. Seu retrato, pintado por El Greco, encontra-se no Museu do Prado.

Mesue - Messue o velho, cujo nome era Janus Damascenus, foi um cristão que chegou a ser diretor do Hospital de Bagdá, tendo vivido de 777 a 837. Sua obra foi comentada por Jacobus de Partibus, o mesmo que comentou a obra de Avicena, já no século 15. Mesue era contemporâneo de Harun-al-Rashid, o grande califa que reinou de 786 a 802, responsável pela tradução ao árabe das obras de Hipócrates, Galeno e Dioscórides. Mesue foi um dos principais tradutores.

Paracelso é citado de passagem. Felipe Teofrasto Bombastus de Hohenheim nasceu na Suíça. Seu pai era médico. Sua mãe suicidou-se quando ele tinha 9 anos. Nascido em 1493, morreu em Salzburgo em 1541. É o mais importante médico de sua época e deixou obra do maior valor. Foi um revolucionário da medicina, sendo considerado o precursor da introdução de elementos químicos no tratamento das doenças. A medicina do trabalho lhe deve muito, assim como a clínica. Descreveu doenças endócrinas, como o cretinismo. Procurava aprender medicina não apenas nos livros, mas com o povo: camponeses, alquimistas, cartomantes, ladrões, músicos, barbeiros, parteiras, mulheres velhas, ciganos, vagabundos e até com outros médicos. Considerava a natureza como o fundamento da ciência médica. E afirmava: O paciente deve estar presente na mente do médico dia e noite. Ele deve colocar todo o seu poder racional e seu pensamento a serviço de seus pacientes. Combativo e combatido, dava aulas em alemão e não em latim, tendo sofrido perseguições de outros médicos. Para se ter pequena idéia de sua oratória, veja-se, dada a sua atualidade, o seguinte trecho de uma de suas aulas:

Venham a mim os que gostam da arte médica. Não me limitarei

a repetir o que dizem os livros que lhes dão para ler, mas vou

contar minhas próprias experiências. E lhes ensinarei uma

medicina totalmente nova. Não esta que vocês aprendem com

os catadores de piolhos, que tudo emporcalham e depois têm

de enviar seus chefes à república vizinha, pedir socorro aos

estrangeiros, desmoralizar a medicina nacional.

Dirijo-me aos que querem ser médicos. Não desprezem minhas

doutrinas porque sejam novas nem porque lhes fale em

linguagem compreensível e não em latim, nem porque esteja

sozinho nas minhas convicções. Mas sim porque eu os levarei

até onde fui, até onde nasce a doença, como os levaria à

nascente do rio.

O que lhes ensinam é falso. Dizem que lhes ensinam medicina,

mas na verdade lhes ensinam como utilizar remédios fabricados

por eles. Nunca lhes irão mostrar que a doença poderia ter sido

evitada.

Quem fabrica o remédio não quer evitar a doença, quer lucrar

com ela. E vocês são o instrumento de seus lucros.

Porém, se vocês saírem comigo, em vez de ficarem lendo livros

que nada ensinam, vocês irão ver em que condições se fica

doente no nosso meio.

Na arte de curar há dois caminhos. Um está nos livros. O outro

está naquilo que se estuda no local. Quisera ensinar o que está

nos livros. Para isso, basta que não sejam lidos. Devem ser, de

preferência, abandonados às traças ou destruídos pelo fogo.

Foram escritos por médicos de gabinete, não por médicos como

eu, que vive no meio do povo.

Os médicos da universidade me dão pena. São contra mim

porque de suas mentes não brotou o que brotou da minha. E

porque eu recomendo coisas que aprendi na experiência e não

aquilo que eles, servilmente, apenas repetem dos antigos.

Repetem e seguem, de medo, ou para ter um lugar nessa

sociedade em que o doente não tem importância se não tiver

dinheiro. São as suas obras que devem fazer do médico um

doutor e não os títulos que lhe confere o governo, a igreja ou a

universidade.

Quem não se alistar abertamente sob minha bandeira não é

digno de que um cão levante sua pata traseira para sujá-lo.

Temos de guerrear contra doutores de luvas brancas que

temem sujar as mãos no contato com o povo.

Dos que não se aproximam daqueles que trabalham, eu tenho

nojo. Estes não são preguiçosos nem boas-vidas. Vestem-se

mal, não usam anéis de ouro, porque não precisam disso para

encontrar a verdade. São pacientes e aguardam o resultado de

seu trabalho. Não precisam freqüentar lugares públicos e serem

citados nos salões. Estes são os meus, que usam roupa de

couro, falam pouco e sabem muito, pois pelo trabalho se deve

conhecer o homem e não por seus discursos".

Paulo Egineta ou Paulo de Egina (625-690) é citado por Luís Ferreira Gomes, em seu apoio. Foi último dos ecléticos gregos, autor da obra Epitome da Medicina, em sete livros, impressos pela primeira vez em Veneza, de 1528 a 1553. De grande reputação, Paulo de Egina afirma que os antigos já sabiam tudo sobre a matéria médica, sendo ele apenas um compilador. Bom cirurgião, descreve a amputação da mama, trepanação, amigdalectomia, paracentese e litotomia. No tratamento da hérnia, propõe a exérese do testículo, mutilação que vai durar até o século XVI, mil anos depois.

Plínio o Velho - Caius Plinius Secundus nasceu em Como, no ano 23, durante o império de Tibério, vindo a morrer asfixiado em 79, quando foi contemplar de perto a erupção do Vesúvio. Tendo iniciado, aos 23 anos, a carreira eqüestre, conheceu, então, o que é hoje a Alemanha. Voltando a Roma, agora sob o jugo de Nero, Plínio foge das atividades políticas, dedicando-se à retórica, à gramática e também à advocacia. Com a morte de Nero e a chegada ao poder de Vespasiano, retoma a vida pública, exercendo a procuradoria na África, na Bélgica, na Gália e na Espanha e em outros lugares. Nos intervalos de suas atividades, dedicou-se a ocupações literárias. Escreveu a Historia Natural, em 37 volumes, a única de suas obras que chegou até nós. Interessado nos mais variados campos do conhecimento, escreveu, segundo a relação feita por seu sobrinho, mais de cem livros. Ocupava seu pouco tempo livre estudando e escrevendo. Durante a ceia ou a massagem, um escravo lia livros para ele e anotava o que desejava. Nas muitas viagens, sempre havia um escravo lendo e escrevendo. É dele a frase: Não existe livro tão ruim que não tenha algo aproveitável. Sua história natural é uma verdadeira enciclopédia: trata de cosmografia, geografia, antropologia, zoologia, botânica, mineralogia, remédios das plantas, dos animais e dos minerais. A primeira edição impressa é de 1469, publicada em Veneza. Plínio foi o primeiro cientista a citar as fontes em que se baseava. Deveria ser considerado o pai da Ecologia, pois critica o abuso dos poderosos que, por vaidade, constroem coisas suntuosas, destruindo a natureza. Para ele, a natureza foi feita para o bem-estar do homem, mas o homem usa mal o que ela lhe oferece. Sobre a medicina, tinha uma opinião firme: preferia a medicina popular àquela considerada oficial ou científica. No Lapidario, o dr. Ferreira teria tido ocasião de aprender coisas como as seguintes: A pedra que solta mel é boa para a garganta e o útero; está comprovado que as epidemias causadas pelos eclipses do sol se combatem acendendo fogueiras; o âmbar, bebido ou carregado no pescoço, é remédio contra a loucura e a disúria; durante o reinado de Tarquinio apareceram de repente no fogão de sua casa genitais masculinos de cinza e a escrava Ocrésia ficou grávida, nascendo assim Sérvio Túlio, que sucedeu a Tarquinio no trono.

Rhazes - Nome latinizado de Abu Bakr Muhammad ibn Zakarya Al-Razi, é considerado um dos grandes médicos de todos os tempos. Nascido em Teerã em 865, estudou em Bagdá. Talvez tenha sido nele que Luís Gomes Ferreira se baseou quando insistiu em que não se abusasse da vida sexual. Diz Rhazes: a relação sexual leva o homem a todo tipo de calamidades e perturbações. Enfraquece a vista, arruina e destrói o corpo, leva ao envelhecimento precoce, à senilidade e ao desgaste, prejudica o cérebro e os nervos e reduz as forças. Diz, ainda: Além disso, o uso freqüente dos órgãos sexuais aumenta os testículos, atraindo para ele muito sangue, o que resulta em aumento do esperma, impedindo que o corpo mantenha seu frescor natural. Rhazes introduziu o uso de compostos de mercúrio, como purgativos, depois de tê-los experimentado em macacos, fato que o torna um precursor da medicina experimental. Na velhice, Rhazes ficou cego. Uns dizem que foi por causa de catarata. Outros afirmam que sua cegueira foi resultante de violenta surra, ordenada por um califa, cansado de seus modos ingênuos. Consta que Rhazes teria dito que não se importava com a a cegueira, pois já havia visto tanto no mundo que estava cansado.

Riverio - Lázaro Riverius foi professor na Universidade de Montpellier.

Senerto - Daniel Sennert (1572-1637) publicou tratados sobre escorbuto (1624), disenteria (1626), e febre (1627). Foi um grande clínico, seguidor de Paracelso, menos radical. Crê em curas mágicas e nas virtudes ocultas. Ensinou em Wittenberg.

Sílvio (1614-1672), professor de Vesálio, a quem chamou de louco, fazendo um trocadilho: Não se deve dizer Vesálio, mas Vesano, por não concordar com seu aluno na descrição dos erros de Galeno, de quem era fanático seguidor. Seu nome era Jacques Dubois. Consta, por outro lado, que Vesálio teria dito sobre seus professores que só os havia visto usando facas nas mesas de jantar.

Sílvio chegou a escrever ao Imperador Carlos V protestando contra o fato de Vesálio ter usado ilustrações no seu livro, que considerava como coisa supersticiosa e obscura. Além disso, via nas ilustrações um risco, pois qualquer pessoa poderia aprender medicina. Este é um dos muitos exemplos de envidia medicorum na história da medicina. Nasceu em 1478 e morreu em 1555. A ele se devem descrições importantes, como o aqueduto de Sílvio. Seu livro, de 1536, Isagoge, é um marco na história da medicina. Mas tudo indica que Ferreira se refere a outro Sílvio, pois cita a seguir Senerto, aluno deste segundo Sílvio. Trata-se de Franciscus Sylvius (1614-1672), ou Francisco de la Boë, que publicou Disputationes medicae em 1663.

É grande divulgador da teoria das analogias de Paracelso e insiste na importância da observação das formas que nos cercam. Por exemplo, as plantas capilares curam doenças do couro cabeludo. Se uma folha ou uma semente se parecem com olhos, dentes, coração, etc., vão curar doenças desses órgãos. Os "olhos" da cauda do pavão curam doenças das mamas.

Zacut Lusit - Médico e filósofo português, conhecido como Rabbi Zacuth ou Zucuth, do século XVI, citado pelo autor como autoridade reconhecida. Escreveu um livro sobre a doença dos brasileiros, o mal-do-bicho, também chamado de achaque do bicho, mal do sesso, maculo, que Luís Gomes Ferreira descreve exaustivamente por ter sido ele mesmo vítima da doença, sobre a qual afirma: Tão certo o seu perigo, que ela tem metido na sepultura a muitas mil pessoas, assim brancos como pretos.

Outros nomes são citados, ligados ou não à medicina, como Camões, Sêneca, Padre Vieira e alguns sobre os quais não consegui, até o presente, coletar dados, como Reusnerio, Uvalterio, dentre outros.

Exemplos de ferro de cauterizar e um paciente tendo sua perna

cauterizada. (Gravura em madeira de Johannes Wechtlin)