Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 20 de 31

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Erário mineral

Volume 2

ERÁRIO

 

MINERAL

 

LUÍS GOMES FERREIRA

(Volume 2)

Tratado V

 

Da rara virtude do óleo de ouro, das

muitas enfermidades para que serve e

observações de curas

excelentíssimas que com ele se têm

feito

 

1. Assim como o ouro é o soberano sobre todos os metais, assim também o seu óleo é o mais soberano remédio que até o dia de hoje se tem descoberto para curar muitas enfermidades grandes, para as quais os modernos não têm achado remédio de mais relevante virtude que este, com o qual se têm livrado muitos da sepultura, o que não seria fácil, antes muito dificultoso, curando-se com remédios galênicos, como se poderá ver em todo este tratado e observações.

2. Serve o óleo de ouro para a maior parte dos afetos cirúrgicos, como adiante se mostrará. Oleo de ouro se faz com sal, água forte e ouro, cuja receita anda em vários autores e por essa causa a não exponho. Aplica-se com uma pena, tirada primeiro a pluma quase toda que fique só na ponta coisa mui pouca dela, e qualquer pena de ave pode servir; e com o floco da dita pena molhado no óleo se faz círculo em roda do tumor, que fique todo o tumor de dentro; e também algumas vezes, para melhor fazer sua obra, se aplica em cima do tal tumor em modo de xadrez e, sendo ferida ou chaga, há de ficar todo o fundo dentro do círculo, e, quanto maior for o fundo, tanto mais largo será, de modo que, antes, fique mais largo que mais junto, a respeito de se darem os mais, porque hão de ser mais imediatos à ferida; e não se porá sobre a ferida ou chaga óleo, pano, atadura ou roupa alguma que abafe, porquanto a parte adquire quentura e incha muitas vezes, mas, querendo-se cobrir, se lhe porá uma peneira e por cima o lençol; e não lhe chegará a roupa, sem ter passado um quarto de hora, para estar o óleo bem seco.

de que se faz o óleo de ouro

3. Ainda que alguns autores proíbem o desalterar-se as feridas com vinho, dizem outros que se pode fazer, principalmente estando sujas; eu sou do mesmo parecer e que se desalterem com aguardente quente, a qual acho mais conveniente que o vinho, pela experiência assim mo ensinar, pois o desalterar as feridas não tem inconveniente algum para que o óleo de ouro não faça a sua operação; antes, ficará a parte mais limpa e, correndo algum sangue, unirá melhor. Isto assim feito, e enxuta a parte que esteja seca, se usará do óleo na forma já dita, e a pena que uma vez servir não servirá para outra cura; advertindo que, se o óleo for bem-feito, obrará os prodígios que costuma e que adiante se verão, e, se for malfeito, obrará muito pouco.

4. O óleo se há de tratar com muita limpeza e o vidro em que estiver será de boca estreita e bem tapado que não respire ou evapore coisa alguma; e, quando se tirar a pena do vidro para se fazer o círculo, se tapará a boca com o dedo, advertindo mais que, nos tumores de matéria crassa, como são os lobinhos e as alporcas, se porá em círculo e em cima deles, em forma de xadrez, aplicando-o um dia e outro não. O mesmo se observará nos apostemas malignos, como são os carbúnculos, antrazes, cirros e cancros e, nos brandos e benignos, bastará de dois em dois dias; e, se nos apostemas de matéria fria, pondo-se um dia e outro não, estiver a parte muito cheia de óleo, se deixará passar mais um dia ou dois, e nas mais partes em que se puser se observará esta advertência.

5. É a cura deste óleo tão excelente que muitas vezes basta um só círculo para curar uma ferida ou chaga, e o que mais faz admirar é não fazer dano o ar à ferida ou chaga onde se põe, sendo comum opinião dos doutores e a experiência o mostra que é muito danoso a elas, donde venho a entender que obra mais por propriedade oculta que manifesta; nem posso alcançar que das qualidades manifestas dos simples que leva o óleo de ouro resulte não entrar o ar em uma ferida do peito penetrante e impedir o êxito dos espíritos, quando entendo e os doutores dizem que é necessário muito grande cuidado para não entrar o ar nestas feridas por dissipar muito a qualidade vital, pois é um dos principais perigos que se consideram em semelhantes feridas; o que tudo se encerra em não deixar entrar o ar para ofender, nem deixar sair os espíritos vitais para enfraquecer. Outra prodigiosa virtude tem, que é penetrar do círculo ao fim da ferida, ou fim do dano, e trazer daí para cima a saúde tão firme, para nunca mais se sentir dano ou moléstia alguma.

6. Ultimamente, advirto que, feito o primeiro círculo, como tenho dito, se fará o segundo mais imediato à ferida ou chaga, que é o mesmo que fazê-lo mais por dentro do outro um quase nada; e o terceiro se porá ainda mais por dentro, e assim o quarto, sendo necessário.

Das enfermidades para que serve o óleo de outro

1. Serve o óleo de ouro para o fleumão, depois do doente sangrado e purgado, conforme parecer necessário, pondo-se um círculo em roda dele, que fique todo o tumor da parte de dentro, e por cima lhe façam grade ou xadrez do mesmo óleo; e, passados dois dias, lhe tornarão a fazer o mesmo e as mais vezes, até que se resolva, e, não se querendo resolver, mas antes havendo sinais de matéria, o que se conhecerá pela dor, pulsação, rigores com crescimento de quentura, se porá na parte emplasto maturativo; e, depois de aberto o tumor, também se poderá usar do dito óleo em círculo, advertindo que fique este modo de curar para todos os apostemas, que não será necessário usar de ovo quando se abrirem, salvo for na primeira cura; e, se o apostema for grande, em que seja necessário não tirar toda a matéria de uma vez, se tapará a incisão com uns fios molhados em ovo ou em aguardente, e na outra cura se tirará toda a matéria; e daí por diante se usará do óleo de ouro, alimpando a pena por cima do tumor depois de feito o círculo, porque, feita a incisão, já não pode levar xadrez.

fleumão

2. Serve o óleo de ouro para curar furúnculos, pondo-se-lhe, ao redor e por cima, umas penadas; e, se tiver muita dureza, se porá em círculo e em xadrez um dia, e outro não, ou de dois em dois; e, se se não quiser resolver, nem romper por si mesmo, se abra e cure com o mesmo óleo até sarar; e, não querendo cicatrizar-se, se lhe porá ungüento branco, ou geminis, ou diapalma baixo do ponto com fios secos por baixo; e, se for no rosto, se lhe não ponha óleo de ouro, porque deixa os círculos impressos de cor branca que se não tiram, e, como no rosto facilmente se divisam, pode-se curar o enfermo com outros remédios.

carbúnculo

3. Serve o óleo de ouro para curar os carbúnculos depois de sarjada a pústula centralmente e na circunferência superficial, lavando as sarjaduras com aguardente quente para se dar descarga ao sangue adulto e venenoso, porque, deste modo, se não viciará tanto a massa do sangue; e, depois de bem lavadas e espremidas as sarjas e enxuta a parte, se porá o óleo de ouro ao redor, ficando todo o tumor e alguma coisa mais da parte de dentro do círculo; e por cima, fora das sarjaduras, se lhe porão algumas penadas de óleo, havendo cuidado de alimpar o sangue que for saindo. Ao outro dia, se tornará a por o óleo em círculo, repetindo as penadas, e assim se irá continuando um dia e outro não, até o enfermo sarar, advertindo que, primeiro, hão de preceder as evacuações de sangrias feitas sempre na mesma parte da enfermidade, por ser originada de humor venenoso, as que forem necessárias, conforme a grandeza do mal e as forças o permitirem, tomando também, ao tempo delas, seus cordiais. E, depois que o doente estiver mais temperado, se deve purgar com remédio brando e benigno; e, quem quiser fazer os cordiais purgativos, lhes pode ajuntar ruibarbo, agárico, polpa de canafístula ou outros semelhantes. E, depois destas evacuações feitas, conforme a cada um parecer mais conveniente, se poderá usar do óleo de ouro, tocando com ele a pústula para ir consumindo parte da malignidade e tomando os cordiais em todo o tempo.

4. Os seus sinais são os seguintes: conhece-se pela pústula ter dureza, dor, quentura e vermelhidão, cresce com fúria e tem bexigas ao redor da pústula; o doente tem ânsias, agastamentos e não pode sossegar na cama, e algumas vezes tem delírios e os mais sintomas que costumam acompanhar as doenças malignas, porque é um tumor ou pústula tão maligna que queima o lugar em que se faz, levanta empolas e é de cor preta ou cinzenta; e, abrindo-se as empolas, fica a parte a modo de queimada.

5. Nota que nem sempre se dá carbúnculo com todos estes sinais, pois é certo que há muitos que não têm mais que a pústula, com quase nada de inflamação, e às vezes sem ela, que facilmente se curam; e há outros que são venenosos, como os ditos acima.

antraz

6. Serve o óleo de ouro para curar os antrazes, os quais não são outra coisa senão um carbúnculo arruinado ou malignado com mais graves sintomas, pois o sangue de que se faz é mais servido, podre e venenoso.

7. Os seus sinais são os mesmos do carbúnculo, com vômitos, grande febre, ânsias, desmaios e, às vezes, umas veias azuis ao redor; usar-se-á do óleo de ouro depois das evacuações universais que parecerem necessárias, assim de sangrias feitas da mesma parte, como purgas e cordiais, tudo como fica dito no parágrafo do carbúnculo, que tudo fica à prudente consideração do cirurgião que curar, usando-se também de temperantes e diaforéticos, que no antraz são muito convenientes.

8. A parte se sarjará mais profundamente para melhor evacuação do sangue grosso e servido, e se lavará com cozimento de tremoços e sal, ou melhor, será com aguardente per se ou misturada com espírito de vinho alcanforado, tudo morno; e, dada bastante descarga à parte, nela se porá o óleo de ouro ao redor, ficando todo o tumor da parte de dentro; e será mais largo o círculo que no carbúnculo, porque, como é maior a malícia e se estende mais pela circunferências, é racionável que seja o círculo mais largo; e sobre o tumor algumas penadas do dito óleo.

9. No dia seguinte se tornará a pôr o óleo na forma referida e se irá continuando até o enfermo sarar, dando sempre cordiais, porque, como há venenosidade, se pode dizer que é gangrena e, se não obedecer, como tal se deve curar.

10. Não obsta que se dê inflamação no carbúnculo ou antraz, para se não pôr o óleo de ouro, porque a inflamação procede da mesma malícia do humor, e, como o óleo de ouro resolve e tira a qualidade venenosa, conseqüentemente, falta a inflamação; quanto mais que doutor João Castelo Branco manda pôr o óleo quando sobrevier dor e inflamação na parte, o que se pode ver no seu livro, página 10, e o doutor Manuel da Costa Monteiro, físico-mor das Armadas, diz no seu opúsculo que já fez esta experiência e tirou-se logo a dor e inflamação, e diz mais, que, na Universidade de Coimbra, em um companheiro que foi do doutor João de Abreu e Castro, lhe sobreveio nas costas de uma mão um carbúnculo de pústula branca (a que o vulgo chama maldita), com inflamação no braço e que quis mandar sangrar este enfermo, mas não fora possível admitir o que lhe dizia, porquanto só o queria fazer na sua terra; e, por não perder a matrícula, se resolvera a prometer-lhe saúde, sem que se sangrasse. Pôs-lhe o óleo em círculo e por dentro dele lhe deu algumas penadas e, não obstante encomendar-lhe não metesse a mão debaixo da roupa, de noite, com o frio, a recolheu e ao outro dia estava a mão e todo o braço rumoroso e inflamado que lhe meteu medo o sucesso. Contudo, tornou-lhe a pôr o óleo ao redor do tumor e deu penadas por todo o braço e mão, e tornou a recomendar, com instância, tivesse o braço fora da cama, o que fez à risca, e de tarde estava menos rumoroso e inflamado; e, continuando com o óleo de ouro somente, ficou são; só o que fez de mais dele foi adietá-lo muito e repetidas ajudas purgativas, com as quais purgava bastantemente.

gangrena

11. Serve o óleo de ouro para a gangrena, segundo diz doutor João Castelo Branco no seu livro, página 30, e se qualquer cirurgião quiser usar dele, me parece se deve usar na forma seguinte. Primeiramente deve sarjar e lavar com os lavatórios que forem mais convenientes e, melhor que tudo, na minha opinião, com aguardente do Reino, da melhor que se puder achar; e, depois de bem lavadas, espremidas as sarjaduras e enxuta a parte, se porá o óleo em círculo bem largo e por dentro dele algumas penadas, e também nas sarjas; e, se for perna ou braço, se darão penadas por toda a parte.

12. Ao outro dia se verá se a parte está mais tratável e de melhor cor, e, se a corrupção estiver parada, se não porá o óleo nesse dia, mas sempre no outro se deve pôr; e se continuará assim até o doente sarar. As penadas que se põem por dentro do círculo e nas sarjas servem para resolver o humor maligno daquela parte, e, sendo mão ou braço, as penadas que se põem por todo o membro servem também para resolver e consumir a malignidade que está espalhada por aquelas partes circunvizinhas da gangrena e defender que não venha a elas mais malignidade; mas, quando suceda que a diligência do óleo não aproveite, se lançará mão da cura da gangrena confirmada, que é separar o podre do são e lavar com aguardente e sal derretido, bem quente, pondo-lhe panos do mesmo bem quentes. Porém, vistas as observações de alguns autores, principalmente de Riverio, que curou muitas gangrenas com espírito de vitríolo e de enxofre, que são menos ativos que o óleo de ouro, daqui se infere que, sarjando, separando e lavando com a dita aguardente bem quente e enxuta a parte, usando-se do óleo de ouro se há de vencer a gangrena com mais razão, pois se deve confiar mais deste remédio que daqueles, por ser este mais excelente por todas as circunstâncias.

13. Serve também o óleo de ouro para curar o panarício, ou seja, maligno ou benigno, e, sendo necessário abrir-se o tal panarício, é grande remédio abri-lo com um palito de ouro em brasa, sendo feito a modo de lanceta, que há de chegar até o osso, sendo o panarício maligno, que ordinariamente tem a matéria entre o periósteo (que é um panículo que cobre o osso) e o mesmo osso, que, chegando a ele, consumirá a malignidade por razão do ouro e do fogo, aonde não haverá mais corrupção, sarando com facilidade, usando-se do dito óleo.

panarício

14. Serve também o óleo de ouro para gastar e dessecar as carnes supérfluas que nascem nas unhas das mãos ou dos pés, que muitas vezes nascem por grandes aberturas que se fazem nos panarícios e outras vezes por se cravar alguma unha pela carne, ou também por outras causas.

carnes supérfluas

15. Cura-se o panarício pondo-lhe círculo e algumas penadas por cima, e a carne supérflua se cura tocando-a com o dito óleo; e, passado um dia, se tornará a tocar, e assim os mais, e com o mesmo óleo se acabará de cicatrizar. Também serve o dito óleo para curar as frieiras, pondo-lhe círculo em roda e penadas em cima; e, se tiverem chaga, se lhe porá só o círculo de dois em dois dias. Serve mais para tirar os calos dos pés e verrugas em qualquer parte do corpo, porque as gasta maravilhosamente sem moléstia, e também os calos.

16. Serve mais o óleo de ouro para curar os apostemas do lacrimal, pondo-lhe penadas em cima, pois só este grande remédio é capaz para impedir as fístulas e curá-las, e para as verrugas que estiverem nas pálpebras ou pestanas dos olhos é remédio singular e seguro, com tal condição que não chegue nada dele ao olho; e, finalmente, é soberano remédio para todos os apostemas que arrebentarem junto aos olhos, metendo-lhe o óleo dentro com a pena que chegue ao fundo da chaga, para livrar de ficar ao depois em fístula, como algumas vezes sucede, o que se fará uma e as mais vezes necessárias, em dias alternados.

carnes supérfluas

17. Serve também o óleo de ouro para todas as dores de flatos, ou sejam, na garganta, como sucedeu a uma religiosa que estava agonizando sem poder engolir coisa alguma, nem haverem já remédios que lhe aproveitassem, a qual sarou com umas penadas dele dentro de três horas. Assim o diz o doutor Manuel da Costa Monteiro lhe sucedera, aplicando-lho por não ter já para onde apelar, na consideração de ser remédio tão prodigioso para outros casos, ainda que houvesse quem lho notasse não havendo bom sucesso, o qual aplicou em forma de xadrez.

dores de flatos na garganta

18. À vista do sucedido e da atividade deste remédio, que razão pode haver para dissuadir que não seja bom para se pôr na garganta em círculo e em xadrez, como se fez no caso referido? Assim se deve usar, pressupondo as sangrias de braço, respeitando sempre o impedimento que pode haver, como gonorréia, ocasião de mênstruo, ou de purgação no parto, ou de almorreimas, que, nestes termos, se porão ligaduras fortes nas pernas ou ventosas; e, sendo sujeito robusto, se podem dar algumas sangrias no pé e no braço juntamente, tirando mais sangue do braço, que será a primeira, e menos do pé; e tomará ajudas purgativas não muito fortes.

19. Passado um dia, se porá outra vez o óleo e se irá continuando até sarar, porém, achando-se melhor, se passe dois dias sem que se ponha, pois tenho por sem dúvida há de fazer grande efeito; nem tira que se usem gargarejos refrigerantes, feitos de água de tanchagem, açúcar rosado ou sem ele, com umas gotas de vinagre ou como se dirá no capítulo da sua cura.

20. Alguns terão por paradoxo o meu dizer, porém não duvidarão que toda a intenção da cura da esquinencia é repercutir por dentro e resolver por fora, pois que melhor resolutivo há na Cirurgia que o óleo de ouro para se pôr pelas partes externas da garganta? Quanto mais que os modernos não admitem remédios adstringentes pela parte interna, senão também resolventes. Veja-se Doleo no capítulo de angina, página 245 até página 250, e ver-se-ão as autoridades de muitos que unicamente querem remédios resolventes que abram os poros do couro e resolvam o vício, ou sal acre pelos ditos poros, pois é a causa da esquinência, coagulando os sucos e fazendo-os estagnantes, e, com os remédios incidentes, dissolvendo e resolvendo o sal acre, tira-se o impedimento da circulação do sangue e cessa a esquinencia.

21. Serve mais o óleo de ouro para curar os edemas que acontecem pela maior parte nas pernas, e são aquelas inchações que fazem covas, carregando-lhes com os dedos, mas é de advertir que, primeiro, se há de desinchar a parte com remédios quentes e dessecantes e com atadura expulsiva, que se principiará a atar da parte de baixo para a de cima, e, depois que a parte estiver desinchada (podendo ser de todo), se purgará o doente com medicamento que respeite ao humor fleumático. Depois disto assim executado, se aplicará o óleo de ouro ou, ainda que não esteja a parte sem inchação de todo, sempre se lhe porá para dessecar, confortar e segurar, para não tornar a inchar; pois é este óleo defensivo singular e resolutivo eficaz, o qual se aplicará na forma seguinte.

edemas nas pernas

22. Por-se-á o óleo em penadas por toda a perna ou toda a inchação um dia, e outro não, e, se o tumor for pequeno, se lhe dará círculo em roda, e, em cima, xadrez, e se continuará até sarar; e, no caso que o edema venha a fazer matéria (o que poucas vezes sucede), se abra com cautério de fogo antes de haver perfeito cozimento nela, porque, como é de causa fria, o cautério é excelente, pois faz a cura mais breve, e, aberto, se cure com mecha e pano de todo o ovo bem batido, as vezes que for necessário, até cair a escara; e, depois de caída, se curará com mecha e panos molhados em aguardente, com a qual cura se continuará dois ou três dias; e depois se usará do óleo de ouro em círculo da chaga, que fique antes mais distante que perto dela; e, se por fora do círculo tiver ainda alguma inchação, se lhe porão algumas penadas e o círculo se repetirá, sutilmente, uma vez ao dia. Assim se continuará com esta cura até se digerir, mundificar, encarnar e cicatrizar.

23. O enfermo que tiver esta doença usará, desde o princípio até o fim, de mantimentos que inclinem mais a quentes e secos que a úmidos e frios, e mais assados que cozidos; o pão seja biscoitado, a água que beber será cozida com canela ou erva-doce; pode beber vinho branco, mas seja pouco; fuja de mantimentos que gerem fleumas, como são legumes, leite, que é o pior, peixe e outros semelhantes; faça exercício, principalmente antes de comer e passadas seis horas depois do jantar; o sono seja moderado, que de dia não é proveitoso.

24. Serve o óleo de ouro para curar as escrófulas ou, por outro nome, alporcas; e é de advertir que, primeiro, se há de sangrar o doente, se as alporcas tiverem inflamação e dores e, depois, se purgará muitas vezes com medicamentos respectivos ao humor fleumático e pílulas capitais, porque da cabeça é que continuamente correm à parte humores fleumáticos, e com o devido regimento.

escrófulas ou alporcas

25. Na escrófula, ou escrófulas, se porá círculo de óleo que fiquem todas dentro dele, e por cima dos tumores se porão penadas ou xadrez do mesmo óleo, o que se observará um dia e outro não, porque, como é humor frio, é conveniente aquentá-lo para melhor se resolver.

26. No caso, porém, que tomem a determinação de se madurar, se continuará com a mesma cura, até que por si arrebentem. A razão é porque a mesma matéria detida faz com que o humor endurecido se coza todo até as mesmas raízes e farão melhor ao depois; e, ao contrário, se experimenta quando se abrem antes, porque, pela dureza que fica, de ordinário não farão nunca, ou, quando o fazem, é em tempo muito dilatado e às vezes ficam fístulas irremediáveis; mas, não querendo arrebentar e havendo sinal de que a matéria faz caverna, se abra com cautério em brasa, e, se for de ouro, melhor; e, aberta, se lhe porá círculo de óleo em roda e se irá continuando um dia, e outro não, até o enfermo sarar; mas, se tiver alguma caverna com calosidade, se meterá a pena com óleo pela caverna dentro que chegue ao fundo para a gastar, pois deste modo se tem curado muitas alporcas.

27. Serve o óleo de ouro para curar os cirros. A cura dos cirros, conforme a opinião dos doutores, se faz com bom regimento de coisas de boa nutrição e que criem bom sangue, fugindo de coisas salgadas e de águas salobras. O exercício seja moderado e durma pouco, principalmente de dia, por ser danoso, e acrescentar a matéria de que se fazem os cirros. Evite todas as paixões da alma que fazem os humores muito acres; paixões da alma são agastamentos, iras, inquietações, tristezas e outros semelhantes. Ande lúbrico do ventre, que é fazer curso todos os dias, ou naturalmente ou com ajuda. E em tudo haja muita cautela porque, adquirindo o humor acrimônia, poderá passar a cancro.

cirros

28. O cirro, falando rigorosamente, é um apostema ou um tumor duro e sem dor, quieto e sem sentimento tocando-o, e este é o verdadeiro cirro. O não verdadeiro tem alguma dor quando o comprimem; quando se faz de melancolia, tem a cor como de chumbo, com dureza; quando de fleuma, tem a cor do couro, e, quando de fleuma e melancolia, tem a cor do couro, branca e azulada e muitas vezes degeneram em cancros; porém, ainda que Antônio Ferreira, página 147, diga que o cirro que não tem sentimento não é curável, contudo, usando-se do óleo de ouro é curável, e melhor aquele que tiver sentimento, porque mais facilmente admite resolução.

sinais dos cirro

29. Mas, tornando à cura do cirro, além dos bons mantimentos de que deve usar, o exercício, se o fizer, será moderado; o sono, da mesma sorte, principalmente de dia. A causa antecedente se deve evacuar com algumas sangrias, se houver abundância de sangue ou grande dor; purgar-se-á com medicamentos brandos e benignos, como são a confeição Amech, xarope de Rei e Pérsico, eletuário, indo em cozimento melancólico, conforme a idéia do cirurgião e indicações que tiver da causa morbífica e temperamento do enfermo.

30. O humor que estiver na parte se deve evacuar com remédios emolientes e resolventes, segundo a comum opinião dos doutores antigos; porém, segundo a dos modernos e a experiência o tem mostrado, a melhor cura que se deve fazer ao cirro, depois de ordenada a vida ao enfermo e a causa antecedente evacuada, na parte se porá o óleo de ouro em círculo do tumor e por cima dele, em modo de xadrez, metendo um dia de permeio e continuando até o doente sarar.

31. O doutor Manuel da Costa Monteiro diz no seu Opúsculo que no observação mosteiro de Santa Clara de Coimbra curara a dona Helena da Cruz de dois cirros maiores do que ovos que lhe nasceram em ambos os joelhos; e, depois de feitas as evacuações universais, lhe pusera o óleo de ouro em círculo e por cima em xadrez, metendo um dia de permeio para o tornar a pôr, e, ainda que gastou tempo, ficou sã sem mais outro remédio; e depois de estarem os tumores de todo desfeitos, continuou com o óleo mais alguns dias para que lhe não ficasse alguma relíquia do humor que fazia o cirro e tornasse a reincidir. Desta observação se infere o quanto poderoso é o óleo de ouro para dele se fazer confiança e não se enfadarem os cirurgiões de o porem, vendo que lhe não obedeça logo, e dela se pode fazer o exemplo para os cancros do peito ou em outra parte, pois, no princípio, é sem dúvida que, sendo o óleo bom, os há de vencer.

32. Serve o óleo de ouro para curar os cancros. O cancro é um apostema melancólico, duro, redondo e fusco que se faz de melancolia não natural, adulta e requeimada. Conhece-se porque se vê um tumor duro, redondo e fusco; cresce com fúria e atormenta a miúdo, quente e doloroso; principia do tamanho de um grão ou fava e depois cresce com veias ao redor, cheias de sangue melancólico, que parecem pernas de caranguejo. O doente padece agastamentos, inquietações e desmaios, e ordinariamente nascem nos peitos das mulheres e algumas vezes nos dos homens, e outras vezes nas mais partes do corpo, suposto menos; e também onde nascem muitas outras vezes é na cara, ou por nascida ou por alguma chaga irritada de medicamentos fortes.

cancro

33. Os cancros em o princípio têm muita dificuldade de se conhecer pela confusão dos sinais, principalmente não havendo experiência, e sempre são dificultosos de curar, pois só no princípio, enquanto são pequenos, poderão ser curáveis, e depois de grandes, de nenhum modo se curam, pelas grandes raízes ou pernas que têm lançado; os que estiverem junto de membro principal ou em parte onde se não possam cortar as raízes, que sempre é mau fazer esta obra, salvo forem pequenos e que se não possam vencer com óleo de ouro, sempre são mortais pelo tempo adiante.

34. Cura-se com o bom regimento, fugindo de todas as coisas que possam gerar o tal humor, como são as salgadas, feculentas e amargosas. Use de mantimentos frios e úmidos, fáceis de digerir, como alface, borragens, peros assados, ameixas, frango, franga, galinha, cabrito, vitela, ovos brandos passados por açúcar; o sono seja moderado, evite as paixões da alma, que esquentam muito os humores, e ande lúbrico de ventre.

cura dos cirros

35. A causa antecedente se deve evacuar com sangrias, havendo enchimento de sangue ou dor, e, se for por falta de evacuação de almorreimas, se farão no pé da mesma parte ou também se por falta dos meses. Purgar-se-á a miúdo com medicamento brando e benigno, como são as ameixas de sene, o maná e outros semelhantes. A causa conjunta dizem os doutores que do cancro escreveram que não tem cura regular, senão paliativa.

36. Hipócrates, livro 6, aforismo 38 diz que os cancros, se os curam, morre o enfermo mais depressa, e se se não curam, vive mais. Mas Hipócrates fala do cancro confirmado e não do cancro no princípio, que é do tamanho de um grão ou fava, porque, nestes termos, não se conhece com facilidade e por falta de conhecimento é que morre muita gente, por se não curarem no seu nascimento, pois, nesse tempo, são curáveis, o que se confirma com o caso seguinte: Diz o doutor Manuel da Costa Monteiro, no seu opúsculo, que na Universidade de Coimbra o doutor José Borges, que de presente é provisor em Évora, sujeito melancólico e adusto, teve um tumor no peito, abaixo da teta, do tamanho de uma fava, de cor fusca; sentia ardor e algumas picadas com ânsia, lançava uns raios muito sutis ao modo de pernas. Fez-se consulta perante o senhor doutor José de Melo com alguns lentes da Universidade. Votou o dito Monteiro que era cancro; formaram-se várias idéias contra o seu parecer, resolveu-se que não era cancro; o doutor Manuel da Cruz, que foi do mesmo voto que o era, buscou os livros com muita atenção e, achando o caso segurado, advertiu ao senhor doutor José de Melo que não tinha dúvida o ser cancro, à vista do que curou-o o dito Monteiro na forma seguinte:

observação

37. Em roda do tumor fez círculo de óleo de ouro e em cima dele fez xadrez, e indo ao outro dia, achou o cancro da parte de fora do círculo fugindo para a parte de cima; tornou a fazer novo círculo e mais largo. No dia seguinte estava também da parte de fora do círculo, porém mais pequeno; e ultimamente o foi seguindo, até que, junto ao osso da fúrcula do pescoço, o acabou de consumir com o dito óleo de ouro; e de tal forte ficou são que jamais teve repetição alguma.

cura de um cancro

38. Se houvera desprezo neste tumor, criando raízes, como se havia de curar, que, depois das raízes lançadas e infiltradas, a sua cura era o mausoléu e teria por epitáfio o mesmo desprezo; e, por isso, o mesmo Hipócrates diz que se não curem, porque mais depressa morrem. Ainda que se diga que alguns se curam, seria no princípio; muitas curas destas se têm investigado, porém a todas sucedeu a morte. Devem os cirurgiões fazer muito apreço dos tumores que nascem nos peitos das mulheres e homens, ainda que lhes não pareçam cancros, a fim de os curarem logo no princípio, pois a experiência lhes está mostrando os danos que resultam da tardança.

39. O cirurgião Manuel Carvalho Leitão, morador em Lisboa, a São Cristóvão, cortou um peito por causa de um cancro e queimou a parte com cautério de fogo e, não obstante cortar bem centralmente que lhe ficaram as costelas à vista, ficou em uma chaga plana que, ao passo que prometia melhorar, tornava a reincidir a malícia e finalmente morreu. Outros homens vieram à Corte a curar por insignes e o fim sempre foi mortífero, ainda que, à flor da terra, aparentemente mostrassem alguma melhora.

observação

40. Suposto que o cancro se cure também por obra de mãos, no que não concordo, só se for mui pequeno, mas este melhor cura tem e mais segura, com óleo de ouro, ainda tendo raízes, ao que me acomodo, porque com o óleo se se pode curar, grande felicidade, e, quando não se cure por ter tomado força ou as raízes forem grandes, se não segue prejuízo ao enfermo, como se pode seguir da obra de mãos, o que claramente se colhe do caso que fica referido, porque, de outro modo, se vem a cair no aforismo de Hipócrates e morrem os enfermos mais brevemente; e muitas vezes a facilidade, no princípio, com que se deixam à disposição do tempo é a causa de se não curarem, porque, ao depois, nem consultas, nem remédios aproveitam. Logo no princípio é que se há de cuidar no conhecimento deste apostema e chamarem-se homens doutos e de experiência para a verdadeira resolução, e fazer-se o que for mais conveniente.

41. Serve o óleo de ouro para curar as feridas do peito penetrantes, e muito mais seguro e mais facilmente curará as que o não forem, e também as que forem dadas pelas costas, que tudo é o mesmo, sendo penetrantes ao vão do peito, o que se conhecerá pelos sinais seguintes:

feridas do peito penetrantes

42. Conhece-se a ferida ser penetrante pela falta de respiração, porque o ar que entra pela ferida dissipa o calor natural, debilita o coração, de modo que se não pode ventilar, e, por isso, a respiração, tão necessária para a vida, se não pode bem exercitar. Conhece-se também porque, tendo o doente a boca fechada e narizes tapados, sairá pela ferida o ar, o que facilmente se conhecerá pondo-lhe uma luz na boca da ferida, porque se apagará ou se verá o movimento que o ar fará na dita luz; ou também pondo na boca da ferida um espelho, saíra manchado; ou também se percebe muitas vezes pondo a mão sobre a ferida, logo a ela corresponde o ar; ou, posto um pequeno de algodão estofado sobre a boca da ferida, se moverá; e se da ferida não sair sangue, também é sinal de ser penetrante, porque o sangue que havia de sair para a parte externa corre para o vão do peito.

sinais de serem penetrantes

43. Conhece-se também a ferida ser penetrante pelo peso e graveza que o doente sente da parte ferida, tosse contínua e seca, lançar alguns escarros de sangue, ter ânsias e febre e deitar-se melhor da parte ferida que da contrária, porque o sangue que está extravasado no vão do peito, virando-se o doente para o lado contrário da ferida, carrega sobre o mediastino, que é um panículo que divide o peito pelo meio, de alto a baixo.

outro sinais de feridas penetrantes

44. O uso da tenta de ferro ou de prata é muito terrível para conhecer a penetração e sempre se deve abominar pelo dano que pode resultar de não ser penetrante e fazê-la facilmente, quanto mais que, para conhecimento se é penetrante ou não, é coisa ociosa, porque logo sairá o ar ou haverão alguns dos sinais que ficam referidos; e, quando os não tenha por onde entra a tenta, facilmente sai o ar, que é o sinal mais certo de penetração; e se há grumo de sangue ou penca do bofe, que, pegado às costelas, sirva de impedimento para não sair o ar, a tenta não há de entrar no vão, como adiante referirei um caso, que, não entrando a tenta, se lhe pôs um círculo de óleo e lançou grande cópia de sangue, de que fui testemunha; e muitas vezes é a ferida tortuosa e estreita ou está alterada e tumorosa do ar, e não pode entrar a tenta, e o ar sai por ela por ser um corpo muito sutil; quanto mais que estes impedimentos para a tenta são algumas vezes para o ar não sair; e, se assim acontecer, para que a tenta, senão para fazer maior mal ao enfermo? Além do que, algumas vezes, não une a ferida por se lhe meter tenta, pois de molestarem a carne, músculos, nervos e tendões se inflamam as feridas, apostemam e vêm sintomas que afligem muito ao ferido quando não têm perigo, o que é mui ordinário nas feridas. A verdade é que, se a ferida for capaz, não há melhor tenta que o dedo, porque não molesta e percebe o dano que há com facilidade.

tenta de ferro ou de prata não é o melhor uso

45. Ultimamente, veja-se o que diz Alcaçar, no livro 3 das feridas do peito, página 133, que não se busque a penetração com a tenta, porque é perigoso; o mesmo diz Daça, capítulo 12 das feridas do peito, página 290, que não é remédio seguro a tenta, porque, se não há muito sentido, se rompe a pleura e se faz a ferida penetrante, não o sendo, causa por que manda que se use de velinha de cera, das que se usam nas carnosidades; e eu dissera que também se pode usar de tenta de chumbo, da qual eu uso há mais de vinte anos, por serem as mais mui ásperas e perigosas e esta mui dócil e benigna, nem a tenta é sempre certa para o conhecimento das feridas ou para onde caminham, porque, no nosso corpo, dão-se caminhos por onde pode passar a tenta, e cuidarmos que para aquela parte caminha a ferida, quando a arma fez a ofensa para outra. Diz o doutor Manuel da Costa Monteiro, médico e cirurgião, no seu Opúsculo Cirúrgico, folha 207, que, curando uma ferida penetrante, metida a mecha e posta a prancheta e pano, tudo se movia, e a causa era por estar saindo o ar pela ferida, porque a mecha não foi pelo caminho da penetração, e se uma mecha, que é muito mais grossa que a tenta, teve diverso caminho e o enganou, por que não enganará a tenta milhares de vezes a outros? Advirto que se não use de tentas de parafuso, pois pode suceder não ser boa a tarraxa ou a cabeça da tenta pegar dentro de alguma coisa e ficar a metade dentro do peito; e a mim me parece ocioso tenta tão comprida, pois, para o cirurgião curar uma ferida ou chaga, não é necessário penetrar tão grande fundo, nem estar molestando o enfermo, basta somente conhecer que é penetrante. Finalmente, a tenta, na mão de quem a não sabe usar, é instrumento que molesta, fere e mata. Falop., capítulo 12, página 214, diz que o cirurgião deve ter singular cuidado no conhecimento da penetração das feridas do peito, porque pode imaginar que não é penetrante e enganar-se por faltarem os sinais, o que não sucede poucas vezes a grandes homens e a mim já me sucedeu o mesmo, que do sétimo dia por adiante principiam os sinais de se converter, mudando-se o sangue em matéria, por se cuidar não era penetrante.

tenta de chumbo é a melhor

observação de uma cura feita, e se moviam os apositos por causa do ar, que respirava pela ferida

a mecha foi por um caminho e o dano era por outro

46. Em Lisboa sucedeu há muitos anos a um enfermeiro, na rua das Parreirinhas, a que assistiam aos cirurgiões da câmara del-rei, ter uma ferida pela parte posterior, que são as costas, e, passando até o seteno bem, neste dia teve tosse, a qual foi crescendo, e no onzeno começou a ter os sinais de matéria no vão do peito, e no vinte e um dia faleceu. Pode qualquer enfermeiro principiar a ter estes sinais no quarto dia ou mais tarde, conforme a mais ou menos quantidade que tem e vai caindo no vão, pois os sintomas do sangue extravasado vêm mais depressa sendo muito, e sendo pouco vêm mais devagar.

observação 47. Conheceremos que há matéria no vão do peito pela tosse, anélito ou bafo fétido e com dificuldade, peso sobre as costelas espúrias ou mendosas da parte ferida, grande febre e ansiedade; os panos da ferida vêm também com ruim cheiro ou com matéria; se se deita da parte sã, tem muita dor e da parte ferida tem mais alívio.

sinais da matéria no vão do peito

48. Conheceremos que o coração está ferido pela frialdade das partes externas, o sangue que sai será negro, suor frio, prostração de todo o corpo, pulso muito débil, a cor do rosto palidíssima, o lugar da ferida junto da teta esquerda; e também pode ser a ferida no coração, ainda que seja em qualquer parte do peito.

coração ferido

49. Estando o bofe ferido se conhece pelo sangue que sai ser vermelho com escuma, o enfermo se escandece e tem muita tosse, respira com dificuldade e zunido, e o lugar da ferida será nas ilhargas do peito.

bofe ferido

50. Se o diafragma estiver ferido, haverá dor sobre o espinhaço, a respiração pouca e apressada, tosse grande com zunido e dolorosa, alienação do entendimento, o escarro lívido, sede, fastio, rigor pungitivo e algumas vezes, espasmo; e o lugar da ferida junto das costelas mendosas ou espúrias.

diafragma ferido

51. Se estiver a veia cava ferida, se conhece porque o sangue que sai é negro e em muita quantidade, por ser veia muito grossa, as forças se debilitam e diminuem apressadamente, grande peso e os mais sinais de sangue extravasado com maior força e a ferida será junto do espinhaço, da parte direita, donde corre a dita veia.

52. Estando ferida a artéria magna, o sangue que sair será rubicundo, delgado e muito quente; sai com força e de salto, o enfermo se enfraquece com muita brevidade, as extremidades se esfriam e morre apressadamente; a ferida será da parte posterior, que são as costas, junto ao lado esquerdo; e quase a mesma brevidade de morte se vê estando a veia cava ferida, pelo muito sangue que se extravasa no vão do peito, que em breve espaço de tempo se sufoca o enfermo.

sinais da artéria magna ferida

53. O espinhaço ferido se conhece porque logo sobrevem espasmo, o doente se não pode ter em pé, dores grandes no lugar ferido; o entendimento se perturba, não dizendo coisa certa, e, tendo ofendida a sustância medular, serão os sintomas mais fortes.

espinhaço ferido

54. Os prognósticos destas feridas, dizem todos os autores que delas escreveram, que todas são perigosas, sendo penetrantes, e, tendo algum membro interno ferido, é muito mais eminente o seu perigo; havendo os tais sinais, se deve logo sem demora mandar sacramentar o enfermo. As que não tiverem membro interno ofendido são perigosas pelo ar que recebeu a cavidade do peito e a vital do coração, por este dissipar muito o calor nativo e também por estar cortada a pleura, que é um panículo que forra as costelas por dentro, de sustância nervosa e dotado de muito sentimento, por cuja causa se inflama muitas vezes e algumas se gangrena e morre o doente.

prognósticos de todas as feridas

55. As que têm membro interno ferido é muito apressado o seu perigo, sendo o dano muito, e, sendo pouco, não será com tanta pressa, e, além dos sintomas que ficam ditos, têm mais adjuntos os que sobrevierem por causa do tal membro que estiver ferido, porque, de ordinário, são mui fortes os acidentes, ainda que, me persuado, sendo o dano pouco em membro interno, sendo curada com óleo de ouro bom, pode livrar o enfermo, como a experiência o tem mostrado, por ser o óleo de ouro prodigioso, como adiante mostrarei.

Como se devem curar estas feridas

56. Há dúvida entre os doutores se as feridas do peito penetrantes hão de ser curadas, no princípio, abertas ou fechadas. Dizem uns, como Lanfranco e outros, que se devem curar abertas, metendo-lhe mecha para melhor expurgar o sangue extravasado do vão do peito, que necessariamente se há de converter em matéria e matar o enfermo. Guido e outros não admitem esta doutrina porque pretendem tirar o sangue extravasado e curar a ferida, unindo-a com pontos, razão por que usam de ponto de laçada para abrirem a ferida, sendo necessário, e fazerem emborcação.

57. O que suposto a melhor opinião que se deve seguir é curar as feridas fechadas com costura, dando-lhe um ponto de laçada e, se a ferida for larga, se darão alguns encarnativos, porém sempre um de laçada para se desatar sendo necessário para fazer emborcação, havendo sinais de sangue extravasado; ou quando, na primeira cura, se não puder tirar todo o que houver ou que depois cair no vão, dando-se primeiro que se faça a emborcação, a beber ao enfermo uma boa xícara de posca aquosa, que é vinagre destemperado com água, em forma que se possa beber, para desengrumar o sangue que está fora dos seus vasos, para sair melhor por meio da emborcação. Esta posca aquosa mandam os autores antigos, e eu dissera que, se desse a beber uma xícara de água de chá, não muito tinta, ou de água de raiz de capeba pouco cozida, porque, se a posca aquosa se dá para descoalhar o sangue, levando o vinagre, que, além de ser frio, é irritante, com mais razão se deve dar qualquer das águas sobreditas, pois são muito vulnerárias e nada têm de frias; e, se me disserem que estas águas são quentes e que não convêm remédios quentes, respondo que só os quentes, não sendo em sumo grão, são capazes de volatilizar o sangue, para que saia melhor; quanto mais que, como não é bebida continuada, não pode inflamar com facilidade. Dada qualquer das bebidas sobreditas, conforme parecer aqui curar, e havendo ministros que ajudem, se fará emborcação ao ferido, meneando-o com a ferida para baixo com muita brandura e suavidade, tendo os pés mais altos alguma coisa que a cabeça e com a tenta de chumbo que eu dizia, dentro na ferida, com muito grande vigilância para não molestar muito ao enfermo. Feitas todas as diligências possíveis, estando em casa bem recolhida e livre do ar, se virará o doente de costas, tendo sempre o cirurgião a mão em cima da ferida para que lhe não dê o ar, se curará na forma seguinte:

posca aquosa

água de chá ou água de raiz de capeba para descoalhar o sangue

58. Estando tudo assim feito, se lavará e desalterará a ferida com aguardente do Reino quente, que é melhor que tudo o mais, e depois se lhe dará um ponto de laçada e, sendo necessários mais alguns, serão encarnativos, e se lhe porá em cima um pano dobrado molhado em clara de ovo, estopada do mesmo, e por cima panos de vinagre destemperado, atadura larga e bem cosida.

59. Passadas algumas horas, se sangrará, no braço correspondente na veia da arca, e as mais vezes necessárias, respeitando as forças. Tomará açúcar rosado a toda a hora, às colheres, e os mais engrossantes, como são xarope de rosas secas e de murtinhos, ou de maçãs de anáfega, e o mais que dizem os autores, como Antônio Ferreira e outros. Evite todas as paixões da alma, como ira, tristeza e o mais que puder inquietar o ânimo, porque lhe serão de grande dano. Comerá coisas de sustância e de boa nutrição.

sangrias engrossantes e paixões da alma

60. Se a ferida for estreita que, por esta causa, não saia o sangue, se não continuem as emborcações, que molestam muito aos enfermos e perdem as forças, sem que primeiro se dilate mais a ferida, abrindo-a com um apostemeiro para a parte que for mais conveniente, ou, sendo tortuosa, conforme a tortuosidade, o que fica à prudente consideração do cirurgião que curará e sua inteligência; larga a ferida, se fará a emborcação e curará como está dito. E, se acaso não sair o sangue por causa de grumos de sangue que tapem a boca da ferida, se lave com aguardente quente e se seringue com ela, que é maravilhoso remédio, para que, chegando ao grumo de sangue, o dissolva e adelgace, e sair melhor por meio da emborcação que se fizer.

ferida estreita, ou tortuosa, se alargará

seringar com aguardente, havendo grumos de sangue

61. Deixadas outras muitas razões que tenho por escusadas na consideração do remédio de que quero tratar para curar estas feridas, pois é o mais excelente e soberano que o engenho dos homens podia excogitar, o qual é o mesmo de que vou tratando, isto assim suposto, passo a dizer que, se os moradores das Minas soubessem o que é o óleo de ouro, não haveria nenhum que quisesse estar em sua casa sem este grande remédio para as ocasiões que se lhes oferecessem; e, se houver algum cirurgião que, tendo notícia do que ele é, ainda cure feridas de peito penetrantes sem que seja com óleo de ouro, não terá desculpa alguma e se fará homicida das vidas que por essa causa se perdem e o cargo de consciência não será pequeno; além do referido, escusarão os doentes de padecerem tantas moléstias com as curas galênicas, podendo se livrar delas, ou ao menos da maior parte, curando-se com o óleo de ouro. Além disso, se podem livrar muitos de morrer empiemáticos, ficando com fístulas lançando matéria, que são incuráveis, como já vi.

moradores das Minas não devem estar sem óleo de ouro

o cirurgião que não curar com óleo de ouro se fará homicida

62. Usar-se-á, pois, do óleo de ouro na forma seguinte: Havendo sangue extravasado, se fará emborcação, como fica dito, e, tirado o sangue que comodamente sair sem fatigar muito ao doente, se lavará a ferida com aguardente quente, e, depois de bem lavada, limpa e enxuta, se lhe porá círculo do óleo, que tome tanto de circunferência à roda da ferida como a ferida tiver de fundo; e sempre será bom acerto que fique antes mais largo, havendo muito cuidado de alimpar o sangue que for saindo, ou matéria, se se usar do óleo em tempo que a haja, porque faz crostas que, tiradas, fazem escoriações, e, como se há de continuar com o óleo, molesta-se o enfermo pelo ardor que lhe faz. Posto o círculo como tenho dito, se lhe não porá em cima da ferida coisa alguma, se não só a peneira, como fica dito no princípio deste tratado, para que não chegue roupa à boca da ferida, nem ao óleo. Feito isto, e passadas algumas horas, se sangrará o doente no braço e se lhe ordenará o regimento que fica dito, e tome os seus engrossantes.

como se usara do óleo de ouro

63. Mas, se feitas as diligências com muita moderação a ferida não quiser lançar sangue, ou seja pouco, se lavará com aguardente, dando-lhe uma seringada com ela morna, e, enxuta, se lhe ponha o círculo de óleo e deixe-se estar com a boca da ferida inclinada para baixo por algum tempo, porque, se houver sangue extravasado, com estes remédios logo começará a sair pela ferida fora, como já vi e logo mostrarei.

circulada a ferida com óleo de ouro, logo se irá o sangue extravasando, se o houver

64. Saindo o sangue, como digo, se deixe correr bastante, e, querendo ainda correr mais, se dará ponto de laçada com qualquer parche de emplasto em cima para o impedir, porque não se tirará todo de uma vez, quando for muito; mas, passadas algumas horas, se tornará a por outro círculo, e inclinará a ferida para baixo para ver se quer sair todo o resto que dentro houver, com o ponto desatado; e, ainda que não queira sair, nem por isso se desanime o doente, ou quem o curar, e se cometerá a natureza, que ela, como melhor mestra, o regulará por outros caminhos; e se continuarão os círculos todos os dias uma vez, até o doente sarar, advertindo que todos os círculos que se forem pondo hão de ser sempre pela parte de dentro do primeiro, como se diz no princípio deste tratado; e se continuarão as sangrias conforme a febre e as forças, e os engrossantes com bom regimento, e nesta forma, justamente, pode o doente confiar na graça de Deus e neste grande remédio que há de alcançar a saúde tão amável e tão desejada. Atrevo-me a dizer isto, assim pelo que fica dito, como pelas seguintes observações:

65. Diz o doutor Manuel da Costa Monteiro, no seu opúsculo, que, na Universidade de Coimbra, curara a um criado de Rodrigo de Melo, irmão do conde de São Lourenço, o qual recebeu um tiro de um bacamarte no peito, que o passou da parte das costas à parte dianteira, e, tendo no peito uma grande brecha, o curou com óleo de ouro, pondo-lhe os círculos na forma referida, e sarara perfeitamente.

observação

66. Na mesma universidade diz que curara uma facada no peito penetrante com o dito óleo e sarara a um companheiro de Lourenço de Castro, natural da Cidade da Bahia. Ao mesmo Lourenço de Castro curou e sarou de uma estocada penetrante no ventre com o zirbo de fora, que é a gordura ou redenho que cobre as tripas, o qual meteu para dentro, coseu a ferida toda com pontos encarnativos e lhe deu os círculos necessários, cortou os pontos a seu tempo e sarou.

observação

67. Na praça de Mazagão diz que curara muitas feridas de bala, passando o corpo de uma a outra parie, com o óleo de ouro.

observação

68. Na Corte diz que assistiu, com André da Silva, cirurgião do conde de Vilaverde, a um menino de idade de três anos, filho de Salvador Monteiro, que foi oficial da Secretaria das Mercês, o qual tinha na cabeça uma ferida contusa, não só com as membranas do cérebro cortadas, mas ainda a mesma sustância do cérebro derramada pela ferida fora, que todos os de casa viram; teve motos convulsivos e vômitos contínuos que ao seteno lhe pararam, e escapou da morte, curando-se com óleo de ouro em círculos, como fica dito.

observação

69. Agora entram as minhas observações, que também se não envergonharam de aparecer.

70. Na Corte de Lisboa, morando eu em casa do licenciado Francisco dos Santos, ao Remolares, cirurgião do número da Enfermaria Real do senhor rei dom Pedro, que Deus tenha em descanso, uma noite, fora de horas, bateram à porta dois estrangeiros e, abrindo-a pelos conhecer, entraram com outro estrangeiro, a meu parecer morto, pegando um pelos pés, outro pela cabeça, e, pondo-o no meio da loja, chamei o dito cirurgião dono da casa, o qual, vindo abaixo, tenteou a ferida que tinha no peito e, não entrando a tenta, estando o doente sem dar acordo de si, lhe pôs um círculo de óleo de ouro e me disse que estivesse acordado até aquela ferida lançar bastante sangue, que logo assim o faria; e que, tanto que visse correr bastante pela casa, lhe desse um ponto de laçada; fiquei de sentinela, e, passado pouco tempo, começou a sair tanto sangue pela ferida que parecia um grande fluxo; depois que vi tinha corrido bastante, lhe dei o ponto de laçada, com que parou, e me fui deitar.

observação de uma estocada, virtude atrativa admirável do óleo de ouro, que fez expelir o sangue extravasado que dentro havia

71. Pela manhã, quando me levantei, deixando dois passeando, que eram os sãos, achei três, andando o ferido em passeio junto com os dois, ombreando como se não tivera tal ferida. Veio para baixo o patrão dizendo que o curaria e faria todos os gastos naquela casa, e lhe prometeu saúde abaixo de Deus, o que ele não aceitou, dizendo que já tinha um crime grande, por ser tenente de uma nau da rainha Ana e ter dormido fora dela, e que para ela havia de ir curar-se; apertou com ele o dito cirurgião, dizendo que tinha uma ferida perigosa, se queria curar-se em sua casa havia de sarar, por não ter sinais de membro interno ferido, e, se fosse para sua nau, curando-se com os seus cirurgiões, havia de morrer. Com efeito, foi e, ao terceiro dia, faleceu, o que certificou o dito cirurgião, porque, indo vê-lo ao terceiro dia, o achou morto.

72. Desta observação se pode inferir a rara virtude do óleo de ouro, assim para atrair o sangue extravasado das feridas do peito penetrantes, como em pôr o enfermo a pé, com tantas forças como os que estavam sãos, porque, assim que os dois companheiros puseram o doente deitado no meio da casa, quase de todo nu, pelo malfeitor ou malfeitores o terem despojado de seus vestidos, vindo da casa do jogo, assim, e da mesma sorte que estava, se lhe pôs o círculo de óleo, e assim ficou nu exposto ao ar e ao frio, sem se lhe fazer emborcação, nem se cobrir com coisa alguma mais que um roupão que outro lhe lançou em cima. E depois me disse o cirurgião que assim costumava obrar aquele remédio e que, aonde se punha, não havia ar que lhe chegasse.

73. No ano de 1707, estando eu na Cidade da Bahia, deram de noite uma estocada pelas costas a um capitão de um navio do Porto, que lhe passou a espada à parte dianteira e saiu por baixo da teta esquerda; mas, não se contendo ainda com este dano, ofendeu muito bem o pulso da mão esquerda, por ir com a sua espada debaixo do braço. Curaram-se com óleo de ouro ambas as feridas e ambas sararam admiravelmente, ficando tão são que, depois, tornou à mesma cidade no seu navio, sem moléstia alguma, de que sou testemunha de vista porque o ajudei a curar e se lhe fizeram algumas emborcações brandamente.

observação de uma estocada que passou das costas ao peito e ofendeu o pulso da mão esquerda

74. Achando-me na mesma Cidade da Bahia, no mesmo tempo, sucedeu que, indo dar-se uma música de noite ao capitão do navio chamado Alamoda, que essa mesma viagem deu à costa, junto à Viana, desceu abaixo o cirurgião da mesma nau por conhecer o seu escrivão que acompanhava a dita música e, saindo à rua, se pôs a urinar, próprio de quem se levanta de dormir; neste mesmo tempo lhe inclina o escrivão um estoque pela parte de detrás e disse: "Guarda, cirurgião, que te mato." Com esta palavra tão malsoante, se virou com violência e se meteu no estoque, o qual lhe entrou pela nuca, ou, por outro nome, cova do ladrão, e lhe saiu a uma maxila ou maçã do rosto; caiu, e se foi tanto o sangue que por pouco não expirou; chamaram-me e a outro cirurgião, que também se perdeu na nau-guia, da qual não houve mais notícia, vindo com o tal Alamoda para Portugal, ambas de licença; desalteramos a estocada por uma e outra banda com vinho tépido, e melhor fora com aguardente se então tivera a notícia que hoje tenho, e, desalterada e seca, lhe pusemos panos de clara de ovo e por cima outros de vinagre destemperado, para tomar o sangue, que já não era muito; não se sangrou porque tinha lançado um rio de sangue.

observação de uma estocada que passou da nuca a uma maçã do rosto, curada com óleo de ouro

75. No outro dia lhe pusemos círculo de óleo de ouro em ambas as bocas da ferida, na nuca e na maçã do rosto, ordenando-lhe quietação e bom regimento. Quando lhe fizemos a primeira cura, que seria meia-noite, não falava, mas, na manhã seguinte, quando lhe pusemos o óleo, falava já alguma coisa. Assim fomos continuando com os círculos todos os dias, uma vez, para o que lhe pusemos o primeiro mais largo, e os outros por dentro dele, e foi coisa de admiração, porque, sendo a nuca a origem e fonte donde nascem todos os nervos do nosso corpo, não teve este doente acidente algum convulsivo, que era o que mais temíamos, e ser a convulsão o que o levasse à sepultura; mas foi Deus servido que sarasse admiravelmente, para ir morrer dado à costa, onde fica dito, não se salvando (de perto de quatrocentas almas) mais que três homens, dos quais um pegado na unha de uma âncora, por sair com um pedaço do navio, ileso, sem ferida alguma, embarcando-se logo em Lisboa para a dita cidade, onde deu as tristes novas do naufrágio, aonde eu ainda me achava.

76. Nestas Minas do Sabará, tendo o capitão Matias Barbosa da Silva umas razões com o brigadeiro João Lobo de Macedo, remeteram o caso às mãos repentinamente, de que resultou ficarem ambos feridos, porque cada um tinha a sua faca com que fazia o que podia. Ficou o brigadeiro com uma facada junto ao embigo, não penetrante, e o capitão com outra no bucho do braço esquerdo, que lhe chegou ao osso; este, como ficou com os nervos, músculos e tendões ofendidos, mal podia bulir com o braço. Fui chamado para o curar, o qual curei com óleo de ouro, pondo-lhe círculo ao largo, para depois pôr os mais, e em breves dias sarou, ficando melhor do braço, mas não era senhor dele para pegar em coisa de peso; como já tinha mais confiança da aguardente que dos degoladouros, lhe ordenei banhasse todo o braço, por tempo largo, com aguardente do Reino, da melhor que se pudesse achar e, depois de bem banhado, estando o braço em cima do tacho que estivesse com a dita aguardente, com fogo por baixo para sustentar melhor o calor, lhe pusesse panos molhados e os cobrisse logo com uma manga de baeta e vestisse por cima o mais vestido que quisesse. Assim o fez uma e duas vezes ao dia; depois de passado pouco tempo, se mudou para a Vila do Ouro Preto, e mudando-me eu também do Sabará para a Vila do Ribeirão do Carmo, lhe falei na dita vila e o achei são, sem moléstia alguma, de que me deu o agradecimento.

observação de uma facada curada com óleo de ouro

77. É muito para advertir que, quem curar com aguardente do Reino, se a aquentarem em um vidro grosso metido em água quente, farão curas excelentíssimas, estando o vidro tapado, e a razão é porque, como é espirituosa, aquentando-se assim, conserva em si os tais espíritos e não se exalam, que são os que mais efeito fazem nas curas e na parte aonde se aplica; e, pelo contrário, aquentando-se em outra qualquer vasilha, como se costuma, exala muita parte dos tais espíritos e fica mais fraca, por cuja causa de menos proveito.

a aguardente se deve aquentar em um vidro e não em outro vaso, e a razão por que 78. Não refiro outros casos que tenho curado e visto curar, por serem de menos ponderação. Bastem os que ficam referidos para inteiro crédito da soberana virtude do óleo de ouro, sendo bem-feito, do qual se deve fazer muito grande estimação, e, se qualquer sujeito que tiver família e posses o tiver em sua casa para acudir a sua necessidade ou a do pobre aflito, fará para si um grande acerto e para os pobres uma grande caridade.

79. Também o dito óleo cura os papos da garganta, que adiante farei manifesto; e também os tumores que nascem nas costas das mãos, que tudo isto procede de humor frio, como adiante se verá no Tratado VII.

 

Instrumentos de ginecologia e obstetrícia. (Gravura de J. Scultetus)