Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 4 de 31 · parte 1/3

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Erário mineral

3. Sertões do Rio das Velhas e das Gerais: vida social numa frente de povoamento – 1710-1733

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Sertões do Rio das Velhas e das

Gerais: vida social numa frente de

povoamento – 1710-1733

 

Maria Odila Leite da Silva Dias

Luís Gomes Ferreira chegou às minas por volta de 1710, vindo de Salvador pelo caminho do rio São Francisco. Essa rota de acesso às minas continuaria ainda por mais vinte anos a ser a principal via de abastecimento da região da mineração. Difícil de ser vigiada, bastante povoada e cheia de possíveis atalhos, propiciava o contrabando do ouro, a evasão do fisco, das entradas, dos dízimos e principalmente do gado. Foi o caminho por excelência dos que se enriqueceram nas minas durante todo o período em que o cirurgião aí viveu.

Luís Gomes Ferreira permaneceu alguns meses doente num local junto a barra do rio das Velhas, a cerca de 60 léguas de distância do que viria a ser a vila de Sabará. Por muitos anos as "sezões e malignidades" do sertão do rio São Francisco faria vítimas entre índios, vaqueiros, moradores e viajantes. Ali, na fazenda do mestre de campo Manoel de Queiroz, passou cinco meses com maleita e grave crise do "mal do bicho". Generoso e caritativo, o dono da propriedade reservara uma casa próxima a sua para hospital dos viajantes doentes. Por mercê de Deus escapei de ir povoar um cemitério de muitas cruzes, postas cada uma a cabeceira de cada

defunto, na mesma ordem que passava a estrada 1 (EM, v.2, p. 516).

A confluência do rio São Francisco com o rio das Velhas era um lugar malsão, por causa de inundações. No dia de São Romão, em 1712, num terreno baixo da margem do rio São Francisco, houve uma enchente especialmente dramática, que deu nome a uma

localidade bastante freqüentada pelos viajantes.2 São Romão foi cenário dos motins de 1736 contra a cobrança do imposto da capitação sobre escravos ocupados na pecuária. Nesta data já fazia alguns anos do retorno de Luís Gomes Ferreira a Portugal, onde vivia no Porto, à qual se refere como a cidade das hortaliças e dos ferradores.

Em 1710, chegava pela primeira vez à região do rio das Velhas, num momento crítico do povoamento, provocado pela corrida dos reinóis do norte de Portugal às minas de ouro; os que, como ele, eram naturais de Barcelos, estavam acostumados às serras e às regiões montanhosas, porém temerosos do clima novo, dos perigos, das brenhas indômitas, que encontraram nas minas, chamadas caetés, tomando de empréstimo um termo indígena local.

De início, os recém-chegados foram ameaçados por aguda falta de gêneros alimentícios e por muitos conflitos, acirrados pelo repentino conglomerado de adventícios, assim como pela destruição imprevidente dos recursos de caça e de pesca. Não seria por certo uma crise de fome tão desesperadora quanto as ocorridas entre 1698 e 1705, descritas por Antonil, mas ainda assim bastante incômoda para causar, em 1709, uma verdadeira paralisação dos negócios nas Gerais, no rio das Velhas e na Comarca do Rio das

Mortes.3

Sezões e maleitas não impediram o entroncamento do caminho do sertão do São Francisco com o do rio das Velhas de ir se transformando em região, desde os primórdios da mineração, povoada em função do abastecimento das minas. Foi de início ocupada pelos currais de gado, espraiados a partir do povoamento feito pela família Guedes de Brito da Casa da Torre, em Salvador.

O cronista Antonil nos lembra que toda a extensão do sertão baiano entre o Morro do Chapéu na Chapada Diamantina e o rio das Velhas, extensão de cerca de 160 léguas, pertencia aos herdeiros

de Antônio Guerra e Guedes de Brito 4.

Nessa época dos descobrimentos do ouro, muitos paulistas vieram estabelecer-se com suas famílias ao longo do caminho do sertão,

lado a lado com baianos, pernambucanos, reinóis e estrangeiros.5 Matías Cardoso de Almeida, juntamente com o irmão Manuel e seu filho Januário, fundaram um arraial a cerca de 54 léguas ao norte da confluência do rio São Francisco com o rio das Velhas. Eram protegidos de Manuel Nunes Viana. Nessa região exterminaram os

cariris e abriram currais de gado.6 Quando de suas idas e vindas entre as Minas e Salvador, Luís Gomes Ferreira tinha o hábito de hospedar-se na casa de Januário Cardoso.

Um observador contemporâneo, autor das Informações sobre as minas do Brasil, observava ser este o caminho mais suave e mais habitado que o caminho novo para o Rio de Janeiro, aberto pelo filho de Fernão Pais, a partir de 1701. O viajante com destino às minas, ao longo do rio São Francisco, encontrava água em abundância, farinha em quantidade, carnes de toda espécie, frutas, laticínios, cavalos para se transportarem, pastos para as cavalgaduras e casas para se recolherem sem risco de ataque de tapuias, pois as tribos que habitavam a região do rio das Velhas foram rapidamente dizimadas, logo nesses primeiros anos de

descobertas.7 Mas a ameaça de tapuias ou índios bravos foi um fenômeno marcante na época em que Luís Gomes Ferreira viveu nas Minas. Por volta de 1718, os botocudos, os coroados e os puris da região de Sabará ainda sobreviviam na região.

A concorrência com o Caminho Novo só se faria sentir após 1725, época a partir da qual os controles fiscais da Coroa se tornariam gradativamente mais presentes na vida dos mineradores. O Caminho Novo encurtava de 25 para cerca de 14 dias o acesso do Rio de Janeiro às regiões do ouro, e veio a ter um papel importante

no deslocamento do eixo econômico e do povoamento para o sul.8 Somente em meados da década de 1920 é que foi completado o caminho entre Barbacena e Vila Rica, região que teve de ser arduamente conquistada por causa da resistência aguerrida dos

índios coroado, caraiás, cachinés e pitas.9

Logo de sua chegada, Luís Gomes Ferreira foi recrutado pelo governador Antônio de Albuquerque para lutar contra os franceses de Duguay-Trouin, durante a invasão do Rio de Janeiro. Afeito às aventuras, conheceu o Caminho Novo nesta fase inicial de

desbravamento. 10 Entretanto, manteria mais contatos no Caminho da Bahia, pois viveu muitos anos na região do rio das Velhas.

Em 1720, o acesso pelo rio São Francisco foi encurtado pelas autoridades, para facilitar o controle dos desvios de ouro e do contrabando, com a abertura de uma estrada nova, construída por Antônio Gonçalves Figueira, um dos primeiros paulistas que chegaram a esta região. A Coroa dependia de serviços como esse, prestados por potentado locais. Figueira era apaniguado de Manuel

Nunes Viana. Tinha suas fazendas contíguas às dele.11

De tempos em tempos, Luís Gomes Ferreira costumava visitar seu irmão Alexandre na cidade da Bahia. Neste ir e vir, propício a estabelecer conhecimentos novos, conheceu Francisco Barreto, pernambucano e proprietário de duas fazendas de currais de gado, que acabou vindo minerar em Sabará, onde Luís Gomes teve oportunidade de revê-lo e de curá-lo de uma crise de gangrena na perna (EM, v. 2, p. 619). Nessas paragens também estabeleceu relações duradouras com um traficante de escravos chamado Manoel da Costa Pereira, que tinha negócios em Pernambuco e no Rio de Janeiro (EM, v. 2, p. 553). O abastecimento de escravos era feito a partir de firmas de Pernambuco, mas sobretudo da Bahia e

do Rio de Janeiro.12 A Coroa quis, de início, evitar crise nas lavouras de açúcar com vários decretos proibindo a revenda para as minas e estipulando uma quota de apenas 200 escravos para as Gerais, mas nunca tiveram aplicação, pois os altos preços tornavam

muito lucrativo o abastecimento de escravos. 13 Um minerador da época da Guerra dos Emboabas, Luís Tenório de Molina, enriquecido com o ouro, foi morar em Salvador, onde investiu numa companhia clandestina de tráfico de escravos mina, que prosperou

muito até por volta de 1740.14

Luís Gomes Ferreira chegou numa das mais conturbadas conjunturas do processo inicial de povoamento das Minas. Nessa

ocasião, cerca de 3 a 4 mil reinóis chegavam por ano às minas, 15 de modo que, em 1721, a Coroa proibia por decreto a continuação do êxodo, para evitar que se despovoasse o Reino e se consumasse a ruína da lavoura no norte de Portugal. Em 1711, Antonil estimou a população das Gerais em cerca de 30 mil homens brancos, cifra que

passaria em 1736 a cerca de 80 mil.16 Os brancos, entretanto, figuravam como uma minoria na vasta e crescente população trazida pelo tráfico de escravos e que em 1736 já era estimada em

torno de 160 mil.17 A desproporção entre os brancos e uma maioria de população escrava era particularmente acentuada nos arraiais de Sabará e do Ribeirão do Carmo, onde Luís Gomes Ferreira viveu. Esse desequilíbrio de população, mais a densidade de escravos concentrados em torno das datas de exploração do ouro, definiria os costumes e o ritmo das relações sociais. Três quartos de escravos para uma minoria de um terço de homens brancos demarcaria o círculo de inter-relações em torno ao qual se desenhariam os costumes e as tensões da vida quotidiana.

O cirurgião-barbeiro assistiu aos episódios de violência entre reinóis e paulistas. Embora os caminhos já estivessem cobertos de roças, houve imprevidência no plantio delas e falta generalizada de gêneros alimentícios. A carestia e a instabilidade do abastecimento contribuíram para acirrar o já elevado teor de violência que caracterizava as relações entre mineradores de ouro de aluvião. Em 1709, os preços dos gêneros de primeira necessidade alcançaram cifras muito elevadas, tanto na região da Comarca do Rio das Mortes, onde desembocava o Caminho Novo para o Rio de Janeiro, como na região mais ao norte do rio das Velhas. No Caminho Novo, Mathias Barbosa teria vendido uma plantação de bananas por 50 mil

cruzados.18

Em meio aos episódios conhecidos como Guerra dos Emboabas, nosso personagem veio morar onde viria a ser posteriormente a vila de Sabará. É difícil precisar a data em que comprou uma casa térrea junto à capela, que mais tarde se transformaria na igreja velha. Ali teria vivido os primeiros anos entre o faiscar no leito do rio das Velhas e o socorrer doentes e feridos, pois era grande a violência na vida de todo o dia. Provavelmente vivia parte do tempo a cavalo por trilhas inóspitas. Em geral, trazia consigo uma boa receita para os ferimentos de pólvora no rosto ou para curar feridas causadas por excesso de açoites. Muitos o chamavam na hora do desespero. Certa vez foi chamado para atender um vizinho morador do arraial da barra do Sobará da Villa Real. Francisco Gil de Andrade tinha sido atingido por uma espada larga que lhe abriu uma ferida por baixo da orelha da nuca até o rosto (EM, v. 2, p. 524). No ano anterior, em 1711 também fora chamado a Sabará para socorrer o meirinho do ouvidor Gonçalo de Freitas Baracho. Baracho viera inicialmente nomeado ouvidor para a Comarca do Rio das Mortes, mas o falecimento do ouvidor de Sabará fez com que fosse nomeado primeiro ouvidor da Vila Real de Sabará (EM, v. 2, 525-527). Ao sair da missa, o meirinho fora atacado por um mulato, também com uma espada larga, que lhe abrira uma cutilada, a mais horrenda que tenho visto, cortando-lhe o pescoço, as veias jugulares, artérias, nervos, músculos e tendões (EM, v. 2, p. 525).

Nem todos andavam a cavalo nas Minas, pois havia trechos íngremes da estrada que tinham de ser passados a pé. Após curar-se da maleita e de uma crise de hemorróidas, o cirurgião teria permanecido alguns meses em pleno sertão, atendendo doentes no arraial de Guaiacui, como era chamado na língua da terra, justo na confluência do rio São Francisco com o rio das Velhas. Em 1710, já estaria instalado em Sabará, pois visitava um doente junto ao rio do Paraopeba, percorrendo a cavalo as muitas léguas de distância que mediavam entre estas localidades.

À medida que se aproximava de Sabará, a paisagem se enchia

de coqueiros de macaúba. Passava por paragens acidentadas

e assustadoras. Um dos afluentes do rio Sabará era chamado

rio do Inferno, porque para atravessá-lo era preciso passar por

uma ponte de menos de 20 pés de comprimento, correndo o rio

por baixo por mais de duzentos de profundidade; são suas

paredes talhadas a pique com alguns ramos e estes em pedras

saídas para fora que estão convidando a quem olha da ponte o

horroroso precipício 19 .

Em 1710, foi socorrer um escravo de Francisco Rondon, paulista, que morava distante nas minas de Paraopeba por serem matos gerais mui distantes de povoado e de vizinhança (EM, v. 2, p. 564-565). Francisco Rondon, quando da abertura da Câmara de Sabará,

em 1711, foi um de seus primeiros oficiais.20 Paraopeba ficava a três dias de viagem de Sabará, em direção ao poente. Era uma região de lavras onde havia muitas roças férteis, pois as terras eram boas para mantimentos. O rio tinha muitos peixes. Ali morava nessa época, já empobrecido, após ter ficado muito rico nos primeiros tempos de exploração do ouro, Manuel de Borba Gato. Segundo certas fontes, ali veio a falecer com 90 anos, em 1734, mas, segundo Antonil, teria morrido em Sabará, em 1718.

Um cavalo de montaria ou cavalo marchador custava, segundo Antonil, em 1711, 2 libras de ouro, enquanto um cavalo sendeiro, ou

de carga, custava 100 oitavas. 21O cavalo tinha uma conotação simbólica de status social. Em 1720, queixava-se amargamente um comerciante estabelecido nas Minas para seu patrão em Lisboa de ter percorrido cerca de 200 léguas a pé, do Rio de Janeiro à Comarca do Rio das Mortes: …estive em grandes riscos nesta

viagem assim com me quererem tirar a vida22. Em 1725, gastava 900 réis por dia para manter-se a si, a dois escravos e a um

cavalo. 23

Em 1731, o cavalo continuava a ser um artigo caro de consumo. Em carta para seu patrão em Lisboa, que não queria reembolsar a metade do preço do animal, que perdera, o comerciante Francisco Cruz justificava suas despesas: … não querer VM levar a metade do cavalo que me morreu, pois confesso lhe que ainda que eu ficasse sem camisa no corpo não podia vir assim a pé, pois a cavalo VM lá verá os dias que eu gastei no caminho, quanto mais se eu viesse a

pé, que me punha a ter uma doença 24 . Em 1740, queixava-se de que, ao chegar do Rio de Janeiro a Caeté, não pudera comprar um cavalo com sela e armas, por não dispor da soma de 200 réis. Por esse motivo, não pôde assumir o ofício de cobrador de dívidas para o ouvidor, pois era condição simbólica de status necessária para

ocupar o ofício.25 Luís Gomes Ferreira não hesitava em percorrer longas distâncias a cavalo. Em seu livro refere-se diversas vezes às feridas de pisadura e a receitas para curar cavalos. Aconselhava aos demais cavaleiros levar, como ele fazia, um raminho de trovisco no cós do calção para proteger-se da sela (EM, v. 1, p. 381).

Carregava consigo um escravo, uma canastra do sertão, um prato de estanho, um tachinho pequeno e aguardente do reino para misturar com o da terra (EM, v. 1, p. 244). De resto, tinha os olhos treinados para localizar ervas e improvisar remédios de pobre, como os chamava em oposição aos remédios de botica. Avenca silvestre, por exemplo, sabia que dava em mata virgem, em morro de pedra ou em terra enxuta. Nos meses de seca, entre julho e setembro, era difícil achar ervas, mesmo a de santa-maria, o mastruço ou a hortelã (EM, v. 1, p. 243). A erva-santa ou erva-cidreira somente se encontrava em paus esfolados e gastos, à beira dos caminhos, a exceção dos caminhos para o Rio de Janeiro ou de Sabará para Conceição do Mato Dentro, localidades em que ainda eram abundantes, por serem menos freqüentadas (EM, v. 1, p. 363-364). Assim como os animais de caça, também as ervas começavam a faltar pelas estradas. Os homens bons já repetiam providências para conservar a lenha dos matos mais próximos aos arraiais:

São estes homens muito vistos e experimentados em raízes,

ervas, plantas, árvores e frutos, por andarem pelos sertões

anos e anos, não se curando de suas enfermidades, senão com

as tais coisas e por terem muita comunicação com os carijós,

de quem se têm alcançado coisas boas (EM, v. 2, p. 677-678).

Desde os primeiros momentos de sua chegada às Gerais, procurou o convívio dos paulistas e de seus carijós, pois em inúmeras passagens de sua obra mencionava o conhecimento precioso que tinham das ervas, plantas e remédios locais que mais o interessavam.

Bem sabia o impacto dos revezes súbitos causados por males repentinos, por facadas, quedas bruscas, que causavam fratura nos ossos, mordidas de cobra, acidentes de percurso, seja no desbravar matas para plantar roças, seja no costume de minerar dentro dos rios, situações drásticas que exigiam remédios imediatamente acessíveis. Havia muito a aprender na paisagem e no clima novos. Valorizava os conhecimentos locais de plantas e receitas aprendidas dos índios pelos paulistas. Ervas e remédios novos colhidas entre os índios carijós, dos botocudos, dos coroados e dos puris da região

de Sabará, desde os primeiros descobrimentos.26O clima era desconhecido e traiçoeiramente frio, causando friagens, resfriados, eventualmente infecções pulmonares. Muitos dos recursos mais essenciais para sobrevivência nos primeiros tempos vinham dos carijós, como o modo de fazer fogo, se um morador se encontrasse na mata sem arma de fogo, fuzil e pederneira. Para tanto, os carijós juntavam dois pauzinhos - um de casca mole, outro de casca dura -bem secos: a um deles façam uma ponta bem redonda e ao outro um buraquinho no meio ou final dele; este o ponham deitado com o buraquinho para cima e seguro que não bula. (EM, v. 1, p. 388).

É impressionante quão poucas informações ficaram nas fontes dessa época sobre os contatos entre os adventícios e os índios. Aqui e ali, aparecem sumárias referências a choques com tribos que tinham, como os botocudos, nos arredores de Vila Rica, as orelhas

e beiços furados com pedaços de madeira. 27

A rapidez e o vulto tomado pelo povoamento da região acelerou o extermínio dos índios. Os remanescentes teriam se embrenhado

pelas matas do rio Doce, na direção do Espírito Santo 28. Luís Gomes Ferreira se interessou vivamente pelos conhecimentos que os índios tinham das plantas de finalidade terapêutica, mas suas referências são bastante vagas quanto à vida dos indígenas. Limitou-se a discernir genericamente a oposição entre tribos selvagens ou bravias, que considerava como animais ferozes, e índios mansos, domesticados, a que se referia também sob o nome genérico de carijós. Embora desfile em seu livro inúmeros casos de escravos e homens brancos pobres, que socorreu como cirurgião barbeiro, parece que nunca tratou de um índio manso, o que é significativo da atitude do meio em relação aos índios.

Havia muitos índios empregados como carregadores ou atendentes de rancho. Ainda em 1731, o comissário do negociante Francisco Pinheiro, em carta de Sabará, datada de 11 de julho, comentava a próxima chegada de Antônio Mendes da Costa, que tardava pelo caminho novo: Me disseram lá que ele vinha pelo caminho muito devagar por causa de trazer sua mulher em uma rede com todo o

estado e buscando índios para a carregarem às costas. 29 Outro indício da presença dos sobreviventes domesticados eram as denúncias freqüentes nas devassas do Bispado contra o amancebamento com concubinas carijós. As famílias constituídas pelos primeiros povoadores custaram a se adaptar às normas da igreja. Um dos filhos de Miguel Pereira, fundador de Mariana, tinha como mãe, e ao mesmo tempo comadre ou sogra, uma índia carijó de nome Catarina, denunciada numa devassa de 1726. Miguel Pereira estava vivendo com uma bastarda por nome Maria que esta tida e em fama e com título de ser sua sobrinha por ser filha de Catarina Carijó, a qual também tinha de portas adentro e com ambas dizem tinha trato ilícito, tanto com uma, como outra e sempre ouviu dizer, que a Carijó mãe fora amiga de seu irmão Lucas Pereira

e de quem tivera a filha com quem se diz andar amigado 30 . No arraial mais distante de Guarapiranga, onde Luís Gomes Ferreira visitava alguns clientes, em 1726, também foi denunciado Antônio Ferreira por viver há muito tempo amigado com uma Carijó

chamada Domingas, com a qual teve vários filhos.31 As freqüentes uniões consensuais com índias carijós passaram na década de 1720 a perder em número para os amancebados com suas negras minas.

Luís Gomes Ferreira, desde sua chegada, cultivou a companhia de sertanistas paulistas, pois se interessava por seus conhecimentos. Eram grandes conhecedores dos remédios locais. A eles se referia como paulistas sertanejos (EM, v.1, p. 363). Os recém-chegados de Portugal estranhavam bastante a sua aparência rústica. Quando a cavalo, traziam capotes, bernes e mais roupas do sertão, que contrastavam com os calções, botas e chapéus usados pelos

reinóis.32

Deles obteve receitas importantes para socorro no caso de intoxicação, dor de barriga, cursos (diarréia), vermes. Eram remédios usualmente presentes nas casas dos moradores mais estabelecidos. Tratava-se do capim ou erva-santa, os chamados "paratudo,” troncos delgados de casca amarela, com folhas largas (EM, v. 1, p. 363) e inumeráveis outros, que descreve em seu livro. Certo paulista de grande experiência dos sertões pelos quais andara muitos anos, cujo nome omitiu, presenteou-o com umas contas de macacos barbudos, bolinhas retiradas do testículo da coxa da perna esquerda desses macacos, excelentes para curar as almorreimas, bastando trazer as contas na algibeira (EM, v. 1, p. 382).

Deles também recolheu as descrições de animais da terra, como macacos, gambás, bichos-preguiças (EM, v. 2, p. 683), as inhaúmas, aves existentes nos sertões do rio São Francisco, tanto da parte da Bahia como da parte de Pernambuco. Essas aves tinham na ponta das asas uns esporões que, uma vez ralados, davam excelente remédio para mordedura de cobra venenosa e também serviam de antídoto contra qualquer envenenamento (EM, v. 2, p. 674).

Dos paulistas aprendeu a utilidade da raiz butua ou da raiz chamada "mil usos,” que tanto servia para doenças venéreas como de antídoto para mordida de cobras venenosas (EM, v. 2, p. 675). A butua era também excelente remédio para crises de fígado. Dos paulistas e seus carijós, adotou o uso de raízes chamadas "mil homens,” "orelha de onça" (EM, v. 2, p. 675) e, sobretudo, raízes de um cipó chamada pacacuanha, de que os paulistas faziam muito caso, trazendo-as sempre consigo e que seriam úteis por ocasião de envenamentos ou de sangramentos, etc. (EM, v. 2, p. 678). Também passou a receitar o uso da raiz de jurubeba, da chamada língua de carijó; assinalava as qualidades da erva-cidreira, do funcho, da jurubeba, dos jenipapos verdes (EM, v. 1, p. 260, 333).

…nunca acompanha a experiência o discurso, que são os dois

pólos, em que se susten ta toda a maquina das artes. E

finalmente diz (o doutor Francisco Baile) que, quando o

discurso se encontrar com tanta duvida, que não atine com

razão certa, que o satisfaça, se recorra à experiências (EM, v.

2, p. 700).

Ao passar o Equador, deparou com um mundo novo e desconhecido (EM, v. 1, p. 285).

A vida que levava como minerador, viajante e cirurgião nas bandas das Gerais e do rio das Velhas trazia-lhe conhecimentos inteiramente sem precedentes, dentre as quais primavam os da natureza, aprendidos mais da experiências do que das autoridades escritas. Esse é um refrão ou traço recorrente em sua obra. A vivência do dia-a-dia no clima novo é que o levava a contradizer abertamente as autoridades médicas, os escritores famosos, os tratados mais clássicos de medicina de seu tempo (EM, v. 1, p. 225-227, 233, 426; v. 2, p. 699-700). O que digo pela experiência assim me ter ensinado; pois onde esta falta, emudecem todas as autoridades; e demais que os autores, que até agora escreveram, não sabiam deste clima das Minas, nem em materia de obstruções acha muito adiantada neles (EM, v. 1, p. 304).

Em certa ocasião, este caso sucedeu na rua da Barra em Sabará em presença de muito povo (EM, v. 1, p. 471), teve um debate com outro cirurgião a respeito de divergências nos métodos de cura de fraturas: disse eu que éramos obrigados a curar as doenças conforme a região e o clima, aonde nos achássemos, a razão nos ditasse e a experiência nos ensinasse; porque os autores, quando escreveram, estavam em outras terras mui remotas, e de diferente clima, e não tinham notícia deste (EM, v. 1, p. 471).

Muitos dos remédios e das curas válidas para Portugal deixavam de sê-lo na região do ouro. Outro era o clima, outras eram as plantas. O meio geográfico pedia remédios diferentes (EM, v. 1, p. 225-227). Muitos dos remédios vindos de Portugal perdiam o efeito na longa travessia do mar e estragavam durante os trajetos demorados que levavam três a quatro semanas - às vezes mais - para, do Rio de Janeiro, chegar às Gerais (EM, v. 1, p. 305).

Os sertões muito ermos, mais as distâncias enormes faziam com que as boticas, quando existiam nos arraiais, ficassem na maior parte das vezes a dois ou três dias de cavalgada ou de percurso a pé. Os doentes que dependiam dos remédios tradicionais preparados nas boticas sofriam a exploração dos preços exorbitantes cobrados pelos boticários (EM, v. 1, p. 261, 329, 332, 471); corriam os riscos de vários dias de transporte até a botica mais próxima, por caminhos difíceis, que percorriam às vezes desmaiados numa rede levada por índios ou a cavalo com os escravos, se ainda lhes sobrasse para tanto resistência física.

Remédios como o mercúrio ou o azougue, usualmente receitados no Reino, passavam a ser nocivos no clima das minas. Da mesma forma, as sangrias e purgas tão aconselhadas, na região do ouro, faziam muito mal à saúde: É o sangue o azeite em que se conserva a luz da candeia da vida; quanto mais azeite tiver a candeia, tanto mais tempo durará a luz dela, e[…] porque faço grande escrúpulo de não dizer a todos o quanto importa sangrar pouco para viver muito (EM, v. 1, p. 279).

Os mantimentos nas Minas não tinham a mesma sustança dos alimentos do Reino. Por isso as sangrias enfraqueciam mais ainda o doente já atacado de outros males. Além da alimentação, o clima frio sobrecarregava o organismo, principalmente dos negros, que trabalhavam horas seguidas nos rios com água até a cintura (EM, v. 1, p. 279).

Como os pratos eram pouco nutritivos, aconselhava amiudar as refeições para não ficar muito tempo com o estômago vazio. O morador das Minas deveria, a todo custo, evitar ficar de manhã em jejum. A fim de passar bem, era preciso tomar pelo menos alguns goles de aguardente do reino; seria bom comer coisas engrossantes, como franga ou galinha cozida com arroz e beldroengas, mãos e pés de boi com arroz e carne de vaca cozida ou assada (EM, v. 1, p. 477). Comerá coisas de sustância e de boa nutrição, tais como açúcar rosado e xaropes de rosas secas e de murtinhos ou de maças de anáfega. (EM, v. 2, p. 507). Um bom caldo de galinha com água cozida e uma gema de ovo bem batido era remédio milagroso para cólicas (EM, v. 2, p. 520).

Eram inúmeros os conselhos de saúde que ensinava aos moradores recém-chegados às Minas: Não molhará o corpo, nem trará os pés úmidos, nem enxugará camisa no corpo por nenhum caso, se a suar, que não será mau, tirando-a logo; não comerá coisas crassas, ou de ruim digestão, nem coisas frias e úmidas, nem frutos ou frutas da terra, salvo, por necessidade, alguma banana de São Tomé assada (EM, v. 1, p. 303-304).

Contar suas aventuras, descrever ervas e inventar receitas novas com plantas locais era o seu modo de contribuir para salvar vidas (EM, v. 1, p. 286). Dedicou boa parte de seu tratado aos remédios de pobres, acessíveis aos que viviam nos matos faltos de notícias, tanto escravos como brancos sem recursos (EM, v. 1, p. 263, 305). Pensava que também os

brancos que exercitarem o mesmo oficio dos pretos, ou quase o

mesmo, como é o serem feitores de lavras ou roças, ou andar

em outros ministérios descalços, com má ordem de viver ou mal

comidos, mal enroupados, molhados, suados, etc., que estes

tais se curarão de pontadas pelo mesmo método que os pretos,

porque é provável, lhe procedam as pontadas das mesmas

causas, só com uma diferença: que se atenderá a que os pretos

são dotados de natureza mais robusta (EM, v. 1, p. 280).

Seu livro foi escrito de memória, mais provavelmente em 1733, quando já estava de volta ao Porto. Não o escreveu sob forma de diário, lamenta o autor, porque no início pensou que ficaria rico depressa e que logo voltaria para o Reino (EM, v. 1, p. 266). Entretanto, como contador de casos, enfileirou diagnósticos, curas e receitas recolhidas da memória oral ou eventualmente por ele inventadas.

O livro, de cerca de 500 páginas, tomou forma híbrida entre um dicionário de medicina, uma narrativa de curas e um levantamento das plantas e dos animais úteis para a cura de moléstias tropicais e males diversos, que acometiam os numerosos escravos, os brancos pobres, assim como mineradores e agricultores mais remediados. Escreveu-o com a intenção de divulgar conhecimentos úteis para os moradores das Minas e de transmitir a outros as experiências vividas por ele; era mais um gesto de boa vontade para com os que, como ele, enfrentaram os perigos de um clima diferente, cheio de perigos, de sezões, de violências.

Recomendava a quem viajasse pelos matos evitar tomar água, levando dois cocos para matar a sede no caminho. Em vez de tomar água, aconselhava sempre as tisanas, chamadas "água de tanchagem". Consistia em água fervida com raiz de capeba, ou raiz de periparoba (como era chamada no Rio de Janeiro); poderia eventualmente ser rapidamente fervida com salsa, de modo a quase não mudar de cor. A água cozida com raízes tinha uma cor alambreada ou rosada e protegia de males do intestino e do fígado (EM, v. 1, p. 303, 346, 364). Será, pois, o seu remédio ajudas de água de cisterna avinagrada e morna, ou ajudas de água de tanchagem, ou de água de malvas, ou de caldo de galinha que seja cozida, primeiro, com tanchagem, almeirão, chicória e borragens, ou parte destas (EM, v. 1, p. 364).

Aconselhava muitos banhos de água morna, de canga ou de água corrente nos rios, sobretudo para evitar o depósito de larvas de moscas em feridas expostas ou surtos de hemorróidas. No caso dos banhos de assento (EM, v. 2, p. 579) seria prudente cobrir-se para evitar qualquer corrente de ar e sentar-se sobre uma grade, deixando a água fervendo no tacho para sustentar mais tempo o calor. Lembrava a todos que evitassem comer muito, sobretudo os caldos gordos, que eram usuais no sertão.

Os cozimentos de água com raiz de capeba e butua ou os chás eram excelentes digestivos, a que os moradores deveriam recorrer a toda hora e muitas vezes durante o dia, pois que é bebida admirável para fazer bom cozimento, discutir flatos, esquentar os humores, fazê-los circular e também para a tosse, se a houver. (EM, v. 1, p. 253).

Advertia aos habitantes dos sertões das Gerais, onde o clima se caracterizava por ser muito frio, que evitassem, sobretudo, as mudanças bruscas de temperatura. Era o que acontecia necessariamente aos escravos que trabalhavam o tempo todo dentro da água.

Os suores no clima frio das Minas enfraqueciam muito e expunham à morte os incautos. Ele mesmo escapou de morrer por um fio. Contava o caso de um fazendeiro que deitou com sua escrava para ter relações sexuais e, distraído, levantou rapidamente em ceroulas, como era costume, para ir chamar os escravos no pátio. Esse ato repentino quase lhe custou a vida. Suar muito e passar por uma corrente de ar ou tomar água fria bastavam para causar as piores complicações de saúde. O clima era traiçoeiro, e guardar roupas úmidas ou molhadas, deixando que secassem sobre o corpo, era uma imprudência sem nome (EM, v. 1, p. 239). As temperaturas variavam de modo inimaginável; os humores frios apertavam mais à noite, quando piorava a tosse e o doente ficava sem dormir, sendo nesses casos recomendável aplicar compressas peitorais e expectorantes, além de ter o cuidado de acender uma fogueira dentro do aposento (EM, v. 1, p. 481).

Enfileirava pequenos lembretes e receitas para guardar alimentos, como o de conservar as frutas no mel da terra, remédios em vidros tapados com cera negra da terra ou com cera amarela do Reino, conservados em cinza quente durante pelo menos dez horas (EM, v. 1, p. 439-440; v. 2, p. 598). Era necessario purgar-se com purga de resina (de batata) para acabar de limpar os humores frios que sempre predominam neste clima (EM, v. 2, p. 286-287).

Os alimentos, além de caros, eram em geral malcozidos ou pesados. Entremeava em seu texto instruções minuciosas sobre como ferver e coar os alimentos, lentamente em panelas de barro ou pratos de estanho e conselhos sobre o comer leve, produtos agradáveis para o estômago, como marmelada, vinho e vós de canela, e vela boca, colheres de caldo-de-galinha temperado com pós de pedra-bazer e umas pingas de vinho (EM, v. 1, p. 309); arroz com franga ou frango, acompanhados de alimentos frescos tais como alfaces, chicórias, beldroegas, ameixas, lentilhas (EM, v. 1, p. 323). Seria eventualmente revigorante cozinhar em partes iguais enxúndia de galinha com banha de porco sem sal (EM, v. 1, p. 352); fugir de alimentos que gerassem fleumas, como legumes, leite (que é o pior), peixe e outros semelhantes; fazer exercício antes de comer e passadas seis hora de jantar; dormir moderado, principalmente de dia (EM, v. 2, p. 497), alimentar-se pouco de cada vez e à miúde. Evitar alimentos muito salgados, feculentos e amargosos. Comer mantimentos fáceis de digerir, como frango, cabrito, vitela, ovos brancos passados no açúcar (EM, v. 2, p. 500).

O comerciante Francisco da Cruz, em carta de Sabará, escrita em dezembro de 1725, reclamava de dureza de estômago, e o médico atribuía esse mal à falta de exercício, devido ao fato de ele não

andar a pé, trabalhando sentado como escrevente no cartório.33

No pacadio (sic) da minha casa dou conta que não sei que mais

estril possa passar pois o jantar é carne cozida e no caldo

farinha a que chamam nessa terra de pão, que nos serve de

sopas, algumas vezes como assim os dias santos um bocado

de vaca assada, outras vezes picada, esta sabe Deus com que

temperos, sobremesas, (s)ão sempre umas bananas que é a

principal fruta nesta terras. Confesso que há outras como limas,

laranjas, estas me entram em casa quando algum amigo mas

manda, que estas vezes se pode contar por milagre. Almoço:

nem merenda, não me há porque o tempo não dá lugar para

regalos, as seias passo com um prato de milho cozido em água

com uma colher de melado,cujo prato lhe dão cá [nome] de

cangica, que esta é a coisa de meu achaque, que pouco há

perto de seis meses mais ou menos, pois ando com uma

obstrução, com o estômago duro como uma tábua e sempre

azedo, aqui verá da forma que passo…34

Em outra passagem, contava que na ceia comia cangica com melado, eventualmente um ensopado de vaca, guardado do jantar

por seu escravo mulato. 35

O abastecimento dos gêneros de primeira necessidade era precário e os preços, volta e meia, ficavam muito elevados por causa da especulação de atravessadores. Em 1725, escrevia o comerciante para seu patrão em Lisboa: Entendo que tudo isto me procede do muito calor que nesta terra há, onde arde todo o mundo nele, e junto com o tal uma grande seca que Deus por quem é nos acuda, por quanto toda a casta de fazendas comestíveis se vão pondo numas alturas, que lhe afirmo a VM não saber em que isto há de vir a

parar 36 . Queixava-se da vertiginosa inflação de preços, tanto dos produtos importados como dos gêneros da terra.

Já um ano depois, em 1726, sob o impacto da descoberta de diamantes em Serro Frio e de ouro em Minas Novas, havia um êxodo grande de pessoas; em Sabará, os preços das casas, das lavras e das roças tinham caído para menos da metade. Havia quem vendesse uma casa pela metade do preço, assim como engenhos e fazendas eram abandonadas por meia arroba de

ouro. 37

A situação de instabilidade de preços, de insegurança, de endividamento e de violência pareciam dar o tom da vida de todo o dia nas Minas. Talvez por isso Luís Gomes Ferreira tenha interposto trechos recomendando calma e tranqüilidade aos que quisessem conservar a saúde: Evite todas as paixões da alma, como ira, tristeza e o mais que poder inquietar o ânimo, porque lhe será de grande dano (EM, v. 2, p. 498). Em outras passagens, reiterava quase diariamente a advertência de evitar as paixões da alma, que esquentam muito os humores, e ande lúbrico de ventre. (EM, v. 2, p. 500).

As vilas do Barroco ainda não existiam no período em que Luís Gomes Ferreira viveu nas Gerais. Nessa época, os primeiros faiscadores levantavam ranchos, tomavam o machado, abriam clareiras nos matos e plantavam roças de milho e feijão. Após o plantio, os faiscadores costumavam seguir adiante pelas margens dos rios ou pelos picos dos montes em busca de outras possíveis catas, deixando atrás de si uma trilha de roças e lavras mal reviradas. Meses depois, voltavam para as roças já crescidas a colher espigas de milho, como retaguarda para garantir a sobrevivência, enquanto entravam pela água dos ribeiros a catar

ouro com suas bateias e pratos de estanho.38

Os caminhos de terra eram percorridos por escravos, por mulas e cavalos, e entremeados, junto aos serviços de mineração, por ranchos de palha e pequenas vendas servidas por mulheres

escravas, ocupadas nos afazeres do comércio ambulante.39

Em plena época das violências, amainadas um pouco com a retirada de Manuel Nunes Viana, em 1711, para sua fazenda da

Tábua, junto à barra do rio das Velhas,40 Luís Gomes Ferreira veio instalar-se, em 1711, no arraial da igreja velha de Sabará. Como a localidade não existe mais, fica obscura a relação com a igreja nova, nome que começou a ser usado depois de 1714, provavelmente para designar a mesma capela, agora reformada e mais tarde transformada na Matriz de N.S. da Conceição (EM, v. 1, p. 392; v. 2, p. 587). Situava-se à margem direita do rio das Velhas, junto ao caminho que conduzia, através da ponte pequena de madeira sobre o rio Sabará, ao arraial velho de Santana, situado em outra margem do rio das Velhas. Separava-o do arraial da Barra uma boa distância

entrecortada por um íngreme caminho, através de um morro. 41

No arraial da Barra, em 1712, foi construída a primeira capela de Nossa Senhora do Rosário, posteriormente reformada (EM, v. 1, p.

293) 42 . A decoração da talha seria uma das mais antigas existentes, caracterizando-se por um estilo maneirista próprio da época de

Pedro II. 43 Em 1714, junto ao arraial da Barra, foi construída outra

capela de Santa Rita, que ficava na antiga rua Direita. 44 A partir de 1714, surgem referências à igreja nova. O costume de reformas sucessivas das primeiras capelas era generalizado em qualquer

parte da região do ouro. 45

Quando Luís Gomes Ferreira primeiro chegou, a vila ainda não existia; eram ainda poucos e precários os arraiais da região de Sabará. Junto ao rio, havia várias minas ou esboços de futuros arraiais. Ficavam a várias léguas de distância uns dos outros. Havia ranchos de palha e capim, com chão de terra, em Raposos e na Roça Grande, local inicialmente descoberto e habitado por gente de

Fernão Dias Paes. 46 Nesses arraiais, os vigários juntamente com os moradores, armavam altares com estacas e esteiras de taquara. As primeiras irmandades foram organizadas por iniciativa e interesse dos próprios moradores. Um dos primeiros afazeres das irmandades consistia no gradual aprimoramento das primitivas capelas. Estas,

muitas vezes, eram pintadas em cores bem vivas:47 Eu mandei fazer a capela tapada e fechada, com porta e coberta de capim, que

não havia ainda telha 48 .

Nessas capelas provisórias diziam missa, confessavam e desobrigavam. Algumas capelas eram de pau-a-pique cobertas de palha. As primeiras capelas se assemelhavam a altares portáteis, pois os arraiais de exploração tomavam destino aleatoriamente, segundo se revelassem mais ou menos promissoras as primeiras pintas de ouro.

A fundação propriamente dita da vila pelo governador Antônio de Albuquerque, em 1711, foi um marco meramente simbólico. Na historiografia, entretanto, ganhou um sentido extrapolado provavelmente advindo da importância exagerada conferida por cronistas sempre dispostos a exaltar a presença da Metrópole. O poder de construir os arraiais estava efetivamente nas mãos dos que primeiro chegavam a consolidar seus haveres e a prosperar. A política de fundar vilas era um gesto simbólico da Coroa, que assim deixava expressa sua intenção de urbanizar a região do ouro para melhor vir a exercer um controle fiscal.

Não passava de mera formalidade, por meio da qual a Coroa convocava os moradores e a suas irmandades para que construíssem, cada um conforme suas posses, tanto as primeiras

capelas como a casa da Câmara; 49 sequer precipitava um povoamento que as pintas não tivessem força para fixar de forma mais permanente.

No caso de Mariana, as terras do rocio, ou seja, a meia légua de terra em quadra em torno do Senado da Câmara, foi doação particular de Antônio Pereira. Os vereadores da Câmara, querendo agradar ao soberano, doaram essas terras para nelas ser construído o quartel da companhia de dragões. Passou, então, a faltar terras para o desenvolvimento da vila, problema somente resolvido em 1721, com concessão pela Coroa de uma sesmaria, garantindo as terras do rocio, o que finalmente permitiu o início de construções

mais duradouras.50

A lenta transformação de arraiais provisórios em vilas demoraria muitos anos. Somente entre 1725 e 1730, surgiriam as primeiras construções mais sólidas de pedra e cal, assim como nas igrejas os primeiros altares de talha dourada, segundo Germain Bazin, ainda presos ao estilo maneirista pré-barroco. Ao ser oficialmente fundada em 1711, a vila real do Sabará estava longe de constituir um aglomerado urbano. Anos mais tarde, em 1725, um comerciante se queixava da inexistência de sobrados de pedra e taipa. Existiam apenas três em Sabará, pois ainda predominavam casas térreas de taipa sendo poucas as cobertas com telhas. Em Ouro Preto tinha uma olaria desde 1711. Os padrões de Sabará continuaram mais rústicos. Provavelmente porque a mineração era mais difícil.

Os bairros ficavam a léguas uns dos outros. O arraial velho de Raposos ficava cerca de 2 léguas de Sabará. E o de Congonhas, 2 léguas e meia. Junto a ele já surgiam os arraiais da ponte grande e pequena, cerca de meia légua da Vila Real. O da Igreja Grande, provavelmente próximo da capela inicial de Nossa Senhora da Conceição nada tinha a ver com relação ao local onde depois de meados do século foi construída a Matriz. A igreja nova junto à capela de Nossa Senhora da Conceição teria sido iniciada em 1701 e terminada em 1711. Igreja grande ou nova eram referências ao mesmo local. Era separado do arraial da Barra por um morro, que posteriormente na década de 1730 veio a chamar-se o morro da Intendência, sobre o qual passava uma única trilha. O arraial da Barra estava começando a aparecer em 1712, quando Luís Gomes aí chegou. A diferença dos outros que corriam acompanhando as

Continuar: parte 2 de 3