Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 21 de 31 · parte 1/3

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Erário mineral

13. Tratado VI – Dos segredos ou remédios particulares que o autor faz manifestos para utilidade do bem comum

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Tratado VI

 

 

Dos segredos ou remédios

particulares que o autor manifestos

para utilidade do bem comum

 

São os seguintes:

Remédio para toda a qualidade de sezões ou maleitas, com resguardo de três dias.

Remédio para toda a qualidade de feridas frescas, ainda que cortem ossos, nervos, veias ou artérias.

Remédio para toda a espécie de gálico.

Remédio para todos os fluxos de sangue, saiam donde saírem.

Remédio para as supressões da urina.

Remédio para as ictericias desesperadas.

Remédio para as defluxões asmáticas que caem no peito.

Remédio para as gonorréias velhas que não obedecem a outros.

Remédio para curar oftalmias rebeldes a todos os mais.

Remédio para quem lança sangue pela boca e para tísicos.

Remédio para braços ou pernas esquecidos por causa de algum

estupor, paralisia 1 ou resfriamento.

Remédio, no último tratado deste volume, para o escorbuto, ou mal de Luanda, único deste contágio.

 

Capítulo I

 

Do remédio contra as maleitas ou sezões que

entram com frio, de qualquer qualidade que

sejam

1. Este remédio é o melhor que até hoje se tem inventado ou descoberto, pelas circunstâncias seguintes: é bebida que se toma uma só vez e com ela ficam os doentes livres de tão penosa doença para sempre; mui poucas vezes será necessário dar-se segunda bebida, porque, de tantos doentes que com este remédio tenho curado, que são perto de setenta, só a um, por nome Manuel de Sousa, que então morava em casa do padre Cipriano Gomes Claro, morador acima do arraial do Pompéu, distrito da Vila Real do Sabará, o dei terceira vez, por serem as mais rebeldes sezões que tenho visto, com a qual ficou totalmente são e livre de tão pernicioso achaque, pois nestas Minas e no Sertão do rio de São Francisco dá este achaque com tão terríveis sintomas, maiores que nas mais partes do Brasil e de Portugal; pois no dito Sertão vi muitos doentes que passaram a febres malignas, e eu experimentei o mesmo, que na barra do rio das Velhas as padeci cinco meses, sem saber então deste específico.

2. É remédio que se toma sem mais regimento que o que se tem com uma purga, e escusar-se-ão tantas despesas, tantas sangrias, tantos xaropes, tantas purgas, tantos cordiais e tantos outros mil remédios que muitos têm experimentado, além da moléstia de padecerem os rigorosos sintomas e o enjôo de tanta variedade, e, finalmente, virem por último a tomar a quinaquina, sendo remédio tão amargosíssimo, e tomar-se tantos dias contínuos e condenarem-se os doentes a um regimento tão largo e tão exato, sem discrepância no doce e no azedo, e, em conclusão, por qualquer leve descuido, tornarem-lhe a vir as sezões ou não aproveitar o tal remédio, como não tem aproveitado a muitos que o têm tomado, como me consta com toda a certeza.

3. O dito remédio o inventou a minha curiosidade na dita Vila Real do Sabará, no ano de 1712, e, desde então até hoje, me não faltou em doente algum com o seu admirável efeito e, por serviço de Deus e bem do meu próximo, o quero revelar, e é a primeira vez que sai a público por meio da estampa, o qual é o seguinte:

4. Tomem uma mão cheia de folhas de arruda, machucada somente, lancem-na em uma vasilha vidrada ou tachinho bem areado, e lhe lancem em cima seis onças de vinho bom; ponham a vasilha em cima de brasas com cinza por tempo de um quarto de hora, estando as brasas vivas, carregando na arruda para baixo, que esteja infundida no dito vinho. Passado o dito tempo, se coe o vinho por pano de linho e, bem espremido, se lhe lancem seis grãos de tártaro emético, sendo pessoa robusta e, sendo mais fraca, serão cinco ou quatro, o que se fará desfazendo o dito tártaro com um pouco do mesmo vinho, lançando-o dentro estando o vinho quente, e se dará ao enfermo, quebrado somente da frieza, pela manhã em jejum, ou seja em dia de sezão ou não, ainda que tenho por melhor tomar este remédio no dia dela.

remédio particular e seguríssimo para maleitas

5. Com ele há de fazer o doente alguns vômitos e alguns cursos, conforme a quantidade de tártaro e a natureza do enfermo, mas, no caso que, algum dia, suceda que não faça obra alguma, como já sucedeu, espero que o doente fique são, como ficaram dois que eu curei, porque a virtude deste remédio com que cura esta doença é pela oculta que a arruda tem contra ela e não pela manifesta do tártaro, porque este só serve para alimpar o estômago; e advirto que a arruda há de ser verde e não seca, e nas pessoas que hão de ter filhos será em menos quantidade, porque extingue o sêmen, como também a hortelã.

este remédio cura as maleitas com a virtude oculta e não com a manifesta

6. Este é o remédio a que na Vila Real do Sabará chamavam "o santo,” que tirava as maleitas, porque, naquele tempo, era tão conhecido que, quantos chegavam com maleitas do Sertão ou davam nos que estavam assistentes, todos recorriam a ele, porque sabiam que era infalível e de tão pouco regimento, como de três dias de cama e alguns mais, sem comer de tudo.

7. No caso, porém, que hajam algumas sezões tão rebeldes que, depois da primeira bebida, tornem a repetir, se tornará a dar segunda bebida na mesma forma, que mui poucas vezes sucederá; e se acontecer, como aconteceu ao doente que fica referido, que não passem com a segunda bebida, se dará terceira.

8. Este remédio se pode dar em todas as febres que entrarem com frio ou que tiverem grande sezão a horas costumadas, principalmente não obedecendo aos mais da Medicina; e, se o doente estiver fraco de continuar outros, tomará este em diminuta quantidade, o que confirmo com a observação seguinte:

Observação única em Domingos Rodrigues da Rocha

9. No ano de 1725 adoeceu Domingos Rodrigues da Rocha, morador e mercador na Vila do Ouro Preto, com uma febre, e para lhe curar chamou um médico e um cirurgião; sangrou-se, purgou-se, tomou muitos cordiais, muitas emulsões para se refrescar, porque ardia com calor; ora se achava com melhora, ora lhe tornava a continuar a febre, e sempre com crescimentos de tarde; passava quatro e seis dias quase livre, no fim deles, lhe tornava com a mesma força; estava muito magro, que também o era de sua natureza, dizia que tinha tanto calor que ardia em fogo. Eu, como era obrigado a este homem, quando ia àquela vila, o ia visitar; bem conhecia que era uma terçã esquisita pela sezão lhe durar pouco tempo, mas, como eu ia a meu negócio e ele se estava curando com dois professores muito bens, não queria desgostar ninguém, nem também tinha certeza de que não havia de sarar.

10. Foi correndo o tempo, que chegou a perto de cinco meses, e, vendo eu que o pobre doente, se estava bom alguns dias, tornava a padecer dobradamente as sezões e que estava gastando sem proveito, compadecendo-me dele lhe disse que, se guardasse segredo, eu o curaria em poucos dias e, depois de são, dissesse que o médico e o cirurgião o curaram e não me nomeasse, porque, antes, lhe dava de barato o crédito da cura que o ficar eu com inimigos, porque os não queria, nem de palha.

11. Aceitou de boa vontade e que guardaria quantos segredos eu quisesse, queixando-se da minha amizade o deixar padecer tantos tempos; se era certo o remédio, lho aplicasse pelo amor de Deus, porque já não tinha que gastar pela muito grande despesa que tinha feito e o miserável estado em que se via; consolei-o dizendo que estivesse certo, que, abaixo de Deus, o meu remédio, tomado uma vez somente, o havia de pôr são.

12. Com efeito o fiz em minha casa, mandei-lho e tomou com tão maravilhoso sucesso que, tendo até ali grande fastio, nem mais fastio, nem mais febre, nem mais sezão, e ficou sem queixa alguma. Constou-me guardara o segredo e folguei muito ficasse remediado, que era o meu principal intento.

13. Fez com o tal remédio alguns vômitos e poucos cursos; e, depois de sarar, viveu alguns anos rijo e valente, até que depois veio a morrer hético ou tísico, na mesma vila.

14. Se eu fizera memória dos doentes que curei com este específico encheria muito papel, mas como me pareceu que estivesse poucos anos nas Minas e me não passou pelo pensamento escrever das enfermidades delas, por isso me esqueceram os nomes e os não exponho; só digo que quem o experimentar me dará o agradecimento do grande específico que lhe descubro para se livrar de tão penoso gênero de enfermidade, escusando os doentes de padecerem tantos bocados amargosos da quina e de um regimento tão grande e tão apertado, e sempre com a desconfiança de lhe tornarem, como a muitos têm tornado.

15. Depois de ter escrito o parágrafo acima, me ocorreu o que agora direi. Este remédio é tão eficaz que, quando me chamavam para curar algum doente de maleitas, perguntava quanto se atrevia a dar-me pelo curar, ficando são, e, se o não ficasse, me não daria nada; uns havia que prometiam uma quarta de ouro, outros vinte oitavas, outros muito menos; e um curei por duas oitavas e meia que prometeu, e todos, pelo que prometiam, os curava.

 

Capítulo II

 

Do remédio das feridas e suas observações

1. Este remédio é tão soberano que se pode comparar com o óleo de ouro e nas feridas penetrantes do peito se pode usar dele seringando e pondo panos molhados nele, assim frio, em cima da ferida, depois de desalterada e cosida, não havendo sangue extravasado, levando tenção de unir; porque, seringando com ele, não haverá dano interno que se não remedeie, não sendo grande. Nas Minas do Rio das Mortes havia um cirurgião por sobrenome o Baião que me afirmaram algumas pessoas daquele distrito que ele tinha uma água com que seringava facadas e estocadas penetrantes, e que não havia alguma que não sarasse e, perguntando eu que cor tinha a água, me diziam que era vermelha como a minha, e não duvido fosse feita pela mesma receita, porque era francês e esta minha veio da França. Não terá muita conta a alguns cirurgiões usar dela pela brevidade com que cura, mas os que forem apaixonados pelo interesse terão paciência, quanto mais que os doentes devem pagar pela estimação das curas os que puderem e os pobres se devem curar de graça.

2. O tal remédio cura todas as feridas frescas, grandes ou pequenas, simples ou compostas, com nervos cortados, ossos, veias e artérias, como nas observações adiante se verá, desalterando as feridas primeiro com aguardente e dando-lhes os pontos necessários, molhando panos nele e pondo-os em cima das feridas; com ele tenho feito curas excelentíssimas na Cidade da Bahia e nestas Minas, das quais nomearei alguns enfermos para crédito da soberana virtude deste grande remédio, o qual é o seguinte:

Como se faz

3. Aguardente fina duas libras, água da rainha de Hungria duas libras, incenso, mirra e almécega, de cada um uma onça, alecrim e murtinhos, de cadaum seis oitavas, feito tudo em pó muito sutil, pós de raiz de solda muito sutis uma onça. Tudo muito bem pulverizado e peneirado por peneira fina, se incorporem todos e se lancem em um frasco com as ditas águas e, tapado muito bem para que não evapore coisa alguma, estará por espaço de doze dias e só se vascolejará com ele uma vez ao dia, e, no fim dos ditos doze dias, ficará feito o tal remédio; e é o mais famigerado que tem toda a Cirurgia, exceto o óleo de ouro, que leva a palma a todos; quem usar dele me dará o agradecimento, o qual faço manifesto por serviço de Deus e bem de meu próximo. Uma onça desta água, misturada com seis onças de caldo-de-galinha e uma gema-de-ovo, tudo bem batido e tomado por ajuda na terrível dor de cólica, a faz cessar como coisa de milagre.

Como se deve usar dele

4. Sendo a ferida grande, depois de desalterada se lhe darão os pontos necessários e, se tiver fluxo de sangue, se lhe darão mais juntos; e, neste caso, se o fluxo for grande, se não tratará de desalterar, senão só de o tomar com os pontos e com o remédio posto em cima e atadura justa e apertada não demasiado, pondo um pano dobrado três ou quatro vezes, e, molhado no tal remédio, assim frio que fique a modo de tira ao comprimento da ferida, com outro por cima; e não faça dúvida ninguém pôr esse remédio para tomar fluxo de sangue por ser quente, pois eu tenho tomado grandes fluxos com ele nas veias jugulares e artérias cortadas, como logo mostrarei em uma observação grandiosa, porque, suposto as águas de que se compõe sejam quentes, leva os pós, que são singulares para o intento.

5. Mas não tendo fluxo de sangue, com os pontos e com o remédio morno se curará, pondo-lhe suas tiras de pano de linho, que não seja de camisa de mulher, ainda que mais se lave, e nesta cura se não bulirá, senão passadas quarenta e oito horas; isto é, não havendo coisa de novo, que, havendo-a, se lhe acudirá conforme for necessário; passadas as ditas quarenta e oito horas, se alimpará alguma umidade, se a tiver, e curará na mesma forma; e depois de vinte em vinte e quatro horas, até sarar.

6. E, sendo a ferida com nervos cortados, se desaltere com aguardente sendo a quente e se faça toda a diligência por encabeçar os ditos nervos, umas cabeças nervos com as outras muito direitas, para unirem, dando entre eles seus pontos cortado para os reprimir direitos, dados os necessários e encabeçados os nervos o melhor que for possível, cansando-se bem o cirurgião, para que o doente não fique com lesão; pois eu lhe asseguro que, se os nervos ficarem bem encabeçados, não fique o doente com lesão total, porque o tenho assim experimentado, nem faça dúvida o que dizem os autores a este respeito, pondo tantas dúvidas e questões a respeito de nervos cortados, pois a experiência me tem mostrado o contrário, assim com este remédio, como com aguardente, unindo nervos totalmente cortados e ossos ao mesmo tempo, como logo mostrarei no fim deste tratado.

sendo a ferida com nervos cortados

7. Se o sujeito for sanguinho, tomará algumas sangrias na parte contrária; como sendo a ferida na parte alta do corpo, tomará as sangrias na parte baixa e, se a ferida for na parte baixa, tomará as sangrias nos braços, as menos que for possível; e o membro se situará bem, que, sendo braço, se porá ao peito em uma toalha larga e, sendo em outra parte, estará o doente na cama; e sempre será acertado pôr algum defensivo na parte alta de panos molhados em vinagre destemperado com uns pós de bolo-armênio, tudo morno, e será na primeira e na segunda cura somente, porque não esfrie o membro que impeça o virem espíritos à parte para a socorrer, salvo estiver a parte muito quente ou com alguma inflamação, que, neste caso, se devem continuar, e as sangrias.

8. Nesta cura se não bulirá, senão passadas quarenta e oito horas, e, se a parte estiver boa, se deixará passar mais tempo, porque, de expor a ferida ao ar, se seguirá mais dano que proveito, por ser o ar inimicíssimo dos nervos; passado o dito tempo, se curará com as mesmas tiras molhadas no remédio morno, e daí por diante se curará de vinte em vinte e quatro horas.

9. Sendo a ferida de nervos nos dedos da mão, depois de desalterada, os nervos encabeçados e dados os pontos necessários, se estenderão os dedos em cima de uma tabuinha delgada e da feição da mesma mão, em que fiquem os dedos juntos, estendidos e assentados na tábua, depois de embrulhados com tiras de pano molhado no remédio morno, e se atarão os dedos e a mão com a mesma tábua, que esta chegará adiante do pulso para melhor segurança e quietação, pondo-a ao peito, como já disse, curando-a no tempo que fica referido; e, tanto que tiver passado sete dias, se retirará a tábua para trás alguma coisa, que fiquem as cabeças dos dedos livres para irem buscando o jeito de fecharem; e nas mais curas se irá puxando pouco de cada vez, que, nesta forma, tenho curado muitas feridas de nervos cortados nos dedos e sempre ficaram com movimento, como se verá em uma observação que logo farei patente no capitão Domingos Fernandes Tenilha, dando-lhe, ao depois das feridas sãs, banhos de aguardente bem quente, metendo os dedos dentro por algum tempo e embrulhando-lhe panos molhados nela, cobrindo-a com um saquinho ou luva de baeta.

10. Sendo ferida com ossos cortados que estejam separados ou pouco menos, se tirarão e se coserá a ferida, e curará, desalterando-a, como fica dito; mas, não estando separados, nem se podendo tirar, se porão em seu lugar depois de desalterar a ferida e lavar o mesmo osso com toda a brevidade, para lhe não dar o ar que o altere, porque lhe proibirá a união; se cosa a ferida com os pontos necessários, de modo que o osso fique em seu próprio lugar, para não ficar a parte ao depois com fealdade; e no mais resto da cura se observará o que fica referido.

sendo ferida com ossos cortados

11. Sendo a ferida contusa, se desaltere muito bem com a dita aguardente e, se for capaz de pontos, se lhe darão, e de toda a sorte que for se curará com panos molhados no remédio e posto em cima, observando o método que fica referido; e sendo com perdimento de sustância, que é quando a carne cai no chão, se curará do mesmo modo; o mais se verá nas observações.

sendo contusa

Observação I

De uma ferida em uma mão, que cortou nervos, veias, artérias

e ossos

12. Na Cidade da Bahia de Todos os Santos, no ano de 1707, curei a um homem que não convém nomear, o qual recebeu uma cutilada com um traçado em uma mão da parte de fora, entre a junta do pulso e a mesma mão, que lhe cortou nervos, veias, artérias e parte do osso, e assim mais outra ferida em um dedo, que ficou preso por pouca carne; desalterei estas feridas com aguardente morna e lhe dei os pontos necessários, igualando quanto pude assim as cabeças dos nervos, que ficassem encabeçadas umas com as outras, como o osso do dedo, dando-lhe também seus pontos, o que se não faz sem grande trabalho; dados os necessários, lhe pus umas tiras de pano de linho molhadas no remédio somente quebrado da frieza, a que chamamos tépido, e atei com suas ataduras sem mais coisa alguma.

13. No dedo lhe pus talas pequenas em redondo por cima das tiras molhadas no remédio e por baixo dos dedos todos lhe pus uma tábua delgada e leve para todos ficarem assentados nela, a qual chegava desde as pontas dos dedos até adiante do pulso da mão, para também amparar a outra ferida e a junta não jogar, atando-a toda muito bem com os dedos unidos na tábua, curando o tal dedo sempre em cima dela, puxando para trás a tábua depois da ferida unida, para o dedo ir buscando o jeito de fechar, recomendando que, com a outra mão, fosse carregando nas cabeças de todos, para que o doente se fosse curvando e não ficar retesado; assim se foi curando, até que ficou são de todas as feridas perfeitamente em termo de oito dias.

14. É de advertir que, ao segundo dia, lhe veio ao braço inflamação tão grande e com tantas dores que me persuadi abriam as feridas e não sarariam, senão por meio de matérias, e ficaria com a mão lesa; mas foi tal a virtude que lhe imprimiu o remédio que, existindo a inflamação alguns dias, não abriram coisa alguma; tratei logo de lhe aplicar defensivos de panos picados, molhados em água-rosada por todo o braço, e, por cima deles, um molhado em vinagre destemperado, também picado; e, na parte alta, panos de vinagre com pós de bolo-armênio, recomendando que, em se secando os panos, lhe pusessem outros molhados no mesmo; e porque se não quis sangrar, assim se foi continuando até o outro dia, em que amanheceu a inflamação mais remitida e com menos força e dores; com estes auxílios e com boa dieta se desinflamou a parte, ficando as feridas unidas, ficando sem lesão alguma, e depois foi sacerdote.

Observação II

De um caso grande

15. No ano de 1712 fui chamado para curar Francisco Gil de Andrade, morador nestas Minas, no arraial da Barra do Sabará da Vila Real, ao qual deram uma cutilada com uma espada larga que lhe chegou desde a nuca, ou cova do ladrão, até a face do rosto, por baixo da orelha, cortando-lhe veias jugulares, artérias, músculos e nervos do pescoço, da qual lançou bastante sangue, de sorte que ficou fraquíssimo; desalterei com aguardente fria, tão-somente para lavar aquela parte, e não quente, nem muito lavada, a respeito do sangue, que já estava correndo menos, se não ateasse outra vez; depois de desalterada, ou lavada, dei os pontos necessários e curei com o remédio, molhando tiras de pano e postas na ferida com pano seco por cima, em modo de chumaço, para a atadura apertar melhor a ferida e acabar de parar o sangue.

16. Ao segundo dia lhe sobreveio uma grande inflamação no pescoço, na cabeça e no rosto, por cuja causa não curei com o remédio, mas sim com anodinos de todo o ovo bem batido com algum sumo de tanchagem e por cima panos de água-rosada, curando a miúdo por não se secarem os panos, com o que se foi desvanecendo a inflamação, e com boa dieta; depois de quase extinta, tornei a continuar com o remédio particular e, sem embargo que alguma coisa abriu a ferida com a inflamação, tanto que lhe pus uma vez o remédio, tornou a unir a ferida e a secar, de tal sorte que, em poucos dias, ficou inteiramente são, curando uma vez cada um.

Observação III

De um caso horrendo

17. No ano de 1711 fui chamado para curar a Manuel Gonçalves Moinhos, meirinho-geral do doutor ouvidor da Vila Real do Sabará, Gonçalo de Freitas Baracho, ao qual deram uma cutilada, a mais horrenda que tenho visto, porque, estando à porta do dito doutor, ao sair da missa, lhe assentou um mulato uma espada larga pela parte de detrás e lhe cortou as veias jugulares, artérias, nervos, músculos e tendões, chegando a ferida com uma ponta desde a nuca por baixo da orelha até quase o canto da boca, cingindo-lhe a espada alguma coisa para baixo, mas muito bem inclinada para dentro; e foi tão grande e tão funda que, para lhe tirar o sangue que dentro estava coalhado, lhe metia todos os dedos da mão, caindo-lhe aquela posta de carne quase em cima do ombro, fazendo admirar a todos os que se acharam presentes, que foi muito povo, e com a ponta do queixo também pegada na dita carne cortada. Confesso que, quando cheguei, achando um cirurgião junto com o enfermo, sem aparelhar, nem dispor coisa alguma, vendo que o doente se estava vazando em sangue, que fiquei também atônito, cuidando que o doente estava na outra vida ou perto do instante da morte, porque estava sem acordo por ter lançado infinito sangue, que a todos pôs em admiração não morrer logo.

18. Assim que cheguei ao doente e vi a ferida, logo com toda a presteza mandei a quatro ou cinco homens mais animosos dos muitos que se achavam presentes que pusessem os dedos na ferida em forma de pontos juntos e que apertassem bem para que não acabasse de expirar, por ser o sangue muito, enquanto aparelhava o necessário para a cura; capitulei com um seu irmão por nome Matias Gonçalves Moinhos, que hoje se acha morador no Rio das Mortes, se queria que curasse seu irmão com o meu remédio particular, por ser já conhecido, me havia de pagar não conforme as curas que fizesse, mas sim pela estimação da cura; isto disse por saber que, não morrendo logo, havia de sarar em poucos dias e por ter experimentado termos insofríveis em muitos; ao que respondeu que, sem dúvida, se haveria comigo com mão larga, sarando seu irmão em poucos dias como o remédio costumava, a qual achei ao depois mui encolhida; enfim, havendo grandes certezas, mandei buscar o remédio a minha casa, que era perto, e curei o enfermo na forma seguinte, feito tudo com brevidade, como o caso pedia:

dedos na ferida em forma de pontos

19. Desalterei alguma coisa, metendo a mão dentro na ferida para tirar o sangue que dentro havia, com muita pressa por serem os fluxos de sangue grandes, e logo lhe fui dando pontos mais juntos do que é costume, para melhor tomar o sangue, mandando que não tirassem os dedos para ter a carne direita e sossegar o sangue em parte, e eu cuidando na brevidade e em pôr o osso do queixo em seu lugar, e acabei de coser, dando-lhe dezessete pontos; vascolejei o frasco para sair com a água mais pós da sua composição e logo molhei umas tiras de pano de linho no remédio e lhas fui pondo umas em cima das outras, e por cima destas um chumaço, também molhado, com atadura por cima bem justa e apertada em sua conta, para o deixar respirar; e depois lhe pus a mão em cima da cura para se ir sossegando o sangue; e, ainda que molhou os panos e ataduras, foi parando, e parou de todo à minha vista; depois disto mandei dar ao doente um caldo-de-galinha, que, para o beber, foi necessário abrir-lhe a boca com uma faca, porque tinha os dentes fechados e estava amortecido.

cura de um caso grande

20. Bem sei que algumas dúvidas se há de oferecer a quem souber o que os autores dizem a respeito do perigo destas feridas, por dizerem que é dificultoso tomar-se o sangue nestas veias e artérias, e não menos com este remédio, por ser muito quente; mas saibam que se o remédio é mui quente leva os pós, que são muito aglutinantes, e já o remédio tem tirado muita parte da sua virtude, com que fica mui aperitivo.

21. Antes que me despedisse, ordenei que dali a pouco tempo lhe dessem três ou quatro colheres de bom vinho desfeito com marmelada, para recuperar parte dos espíritos perdidos, e se confessasse, logo que estivesse capaz, como fez; e saindo a gente para fora, disse um homem: "Quando sarará caso tão horrendo como este?" Respondi-lhe que para domingo havia de ir ouvir missa são. "Qual domingo será ele?" me responderam, ao que tornei dizendo que daquele a oito dias, de que ficaram todos muito admirados, mas mostrou o tempo que assim sucedeu.

22. Feita a primeira cura, como digo, em que tive muito cuidado de encabeçar os nervos e pôr a ponta do queixo em seu próprio lugar, para depois não ficar com disformidade, ordenei que fosse tomando algumas colheres do engrossante seguinte: água de tanchagem e de beldroegas, de cada uma duas onças, xarope de rosas secas duas onças; misture-se; e o não mandei sangrar, pelo muito sangue que tinha lançado, pois, da porta do doutor ouvidor aonde lhe deram a ferida até sua casa, que não era longe, deixou um rego de sangue pela rua que parecia de um boi, e em casa o mesmo, até eu chegar, que foi logo, por estar perto e o dito doutor me mandar chamar com muita pressa; e o cirurgião que lá achei se despediu logo antes da cura.

ponta do queixo em seu lugar

23. De tarde fui ver o doente e o achei já falando alguma coisa, suposto mal se entendia; e como achei o sangue parado e a cura bem seca, fiquei certo que, com o favor de Deus, me havia de sair verdadeiro o prognóstico que tinha dado. Nesta cura não buli, senão passadas quarenta e oito horas, no fim das quais tirei a cura e achei a ferida toda unida e bem assombrada; curei com tiras de pano molhadas no remédio e ordenei fosse tomando as colheres do seu engrossante e comesse coisas de sustância, pouco de cada vez e a miúdo; passadas vinte e quatro horas, fiz terceira cura na mesma forma, por não haver coisa de novo; e lhe cortei os pontos. Passadas as vinte e quatro horas, fiz a quarta cura, que foi no sábado da mesma semana, última de todas, em que achei a ferida de todo unida e sã, a parte em forma natural, sem fazer matéria alguma, que é a propriedade e singular virtude deste remédio não deixar fazer matéria, aonde se põe; e neste mesmo sábado lhe disse se queria ir ouvir missa o podia fazer, ao que respondeu iria no domingo que eu lhe tinha prometido, como fez, com admiração de todos, grande crédito do remédio e da arte, de que não faltaram ainda testemunhas e o mesmo irmão, que ainda hoje se acha no Rio das Mortes.

 

Capítulo III

 

Dos remédios contra o gálico

1. Havendo mula no princípio, ou esquentamento, que tenha já de purgação quarenta ou cinqüenta dias, ou havendo gomas nos ossos ou no peito, ou taipárias na cabeça, ou dores pelas juntas, ou chagas na garganta ou por outras partes do corpo, ou mula aberta que não queira fechar, ou boubas, para tudo isto é admirável qualquer dos remédios seguintes: depois de preparados os humores com xaropes preparantes de humores frios e gálicos, que o doutor Duarte Madeira traz no seu livro e os boticários sabem muito bem, e purgado com purga de resina de batata uma ou duas vezes, conforme parecer conveniente, com três quartos de peso até uma oitava feita em pílulas, e depois com duas ou três purgas de jalapa pisada de fresco, porque perde muito a sua virtude, com duas oitavas e meia de peso cada uma até três, conforme as forças do doente e a idade, que estas têm o principado entre todas para causas gálicas, descansando entre cada purga os dias necessários, e depois de última, para principiar a tomar os xaropes ou medicamento seguinte.

Xaropes contra morbum para toda a espécie de gálico, e para

boubas

2. Salsaparrilha boa meia libra, sene onça e meia, açúcar três quartas; a salsa estará de molho por algum tempo para se rachar melhor, depois de rachada, se lance de infusão na mesma água, ou acrescentando-lhe mais por tempo de vinte e quatro horas em água que a cubra; e, passadas elas, se encherá um frasco da mesma e se lançará em um tacho limpo, o qual se porá em assento direito, e tendo o dito frasco de água e a salsa, se lhe meterá uma varinha ou pau, para se lhe fazer uma marca por donde der a água, e depois se lhe lançará mais meio frasco de água da mesma onde esteve a salsa de molho enquanto durar, e depois de água da fonte, tornando a fazer outra medida ou marca na mesma vara; depois disto assim feito, se lançarão no dito tacho dois frascos e meio de água; isto se entenderá de frascos ordinários e, perfeita a conta de quatro frascos de água, se porá no fogo a ferver com a dita salsa até ficar na medida de frasco e meio, que já está feita; então se lhe lançará o sene e ferverá com ele até ficar quase na medida de um frasco, ficando por cima da marca alguma coisa; e, para estas medidas se conhecerem bem, se há de tirar o tacho do fogo ou o fogo debaixo dele, para sossegar a fervura, estando direito, arrimando o sene e a salsa para uma banda; estando assim, se coará por pano ralo e, lavado o tacho novamente, se lhe tornará a lançar o tal cozimento e as três quartas de açúcar, e com ele ferverá até ficar na medida que primeiro se fez de um frasco e, coado segunda vez, se guardará para o uso.

3. Este é o celebrado remédio que ajustei nestas Minas, com que tenho feito curas quase milagrosas, assim na minha própria pessoa tendo chagas na garganta, e adiante se verá, como em outras pessoas de minha obrigação, e em outras muitas com taipárias, gomas etc.

chagas na garganta

4. A cura de qualquer das queixas que ficam referidas as tenho vencido com dois frascos do dito remédio, depois de tomados os xaropes e as purgas que ficam referidas, tomando deste remédio seis onças em jejum, morno por cada vez, e de tarde, antes do sol posto; e também os xaropes preparantes sempre os mandei tomar dois cada dia; assim se continuará, até se acabar o dito frasco e, tanto que o doente começar a tomar deste remédio, começará também a beber água de salsa da que ficou do cozimento, que escassamente mude de cor, a qual será conforme for a água que se quiser cozer; e a dita salsa, que já tem fervido, se pendurará para estar enxuta e dela se ir tirando para os cozimentos que o doente há de beber, que será por espaço de quarenta dias, os quais se contarão depois que o doente acabar de tomar os xaropes contra morbum; e comendo seco, ou seja, carne, ou farinha bem torrada, ou biscoito, e se o doente tiver dois meses de regimento, ficará mais perfeitamente são; pois eu, tendo uma chaga na garganta, por causa da qual mais caldo-de-galinha lançava pelos narizes do que passava para baixo, e não podendo tomar mais que um frasco dos ditos xaropes contra morbum, por me ser precisíssimo andar por fora, bebi água de salsa seis meses, observando à risca dois, comendo seco, e os mais com alguma largueza; fiquei tão são e valente que, daí em diante, comecei a engordar, com boas cores, e até hoje, Deus louvado, que há oito anos, não tive mais moléstia alguma, a qual observação adiante farei manifesta.

5. Mas, se o doente, ou por fazer muita obra com as duas bebidas cada dia, ou por fraqueza, não puder tomar as duas vezes, tomará só uma de manhã, e, se o medicamento ficar azedo com seu laço por cima, o não deve continuar por estar corrupto, salvo se o azedo for muito pouco, que neste caso irá ao fogo a purificar e se coará depois de dar duas ou três fervuras; e, no caso que seja necessário tomar terceiro ou quarto frasco, que muito poucas vezes acontecerá, se farão todos na mesma forma que fica referida. Persuado-me que é este remédio tão singular por ter o que este clima requer. Quem usar dele me dará o agradecimento, e o doente poderá andar de pé quando o tomar, mas bem coberto, e não sairá de casa, e, se tiver fraqueza e não puder comer sempre seco, poderá comer cozido ao jantar, sendo galinha temperada, e tudo o mais com sal, mas seja pouco, e não sem nenhum, como alguns querem.

Pílulas para toda a espécie de gálico e boubas

6. Com estas pílulas tenho curado gonorréias antigas, cavalos, chagas na garganta, gomas, taipárias e dores de juntas, depois dos humores preparados com os xaropes preparantes e purgados com as purgas, como tudo fica declarado, das quais pílulas sua receita é a seguinte.

7. De resina de jalapa e extrato de raiz de bardana, de cada um meio escrópulo, mercúrio doce sublimado grãos dez, com umas gotas de bálsamo de enxofre terebentinado, se formem pílulas pequenas e dourem-se. É do doutor Ribeira e a tenho bem experimentada.

8. Esta quantidade costumo mandar tomar por cada vez, sendo o doente robusto e, sendo fraco, se poderá tomar por duas vezes, e quem quiser mandar fazer para mais vezes pode acrescentar as quantidades da receita; e, segundo a obra que o doente fizer, assim se poderão regular as pílulas ou o peso que há de tomar por cada vez, repetindo este medicamento até o doente sarar, porque nunca me faltou com o seu maravilhoso efeito, pois o seu ponto principal está em o mercúrio ser bem sublimado; e, no caso que a boca se inflame, ou gengivas, pare dois ou três dias, para não babar.

9. Ao mesmo compasso que os doentes começam a tomar este remédio, ao mesmo se vão desvanecendo as dores ou chagas, gomas, taipárias ou boubas, tendo o doente bom regimento; e, depois que as dores ou os outros sintomas estão fora, lhe mando ter regimento de água de salsa, comendo seco trinta ou quarenta dias, conforme são os aspectos gálicos que o doente padece; a água de salsa que o doente há de beber há-se de regular pela cor e não pela quantidade da salsa ou água em que se há de cozer, que esta é a melhor regra que se deve observar, a qual há de ferver somente até mudar de cor alambreada, e não muito, para que não fique forte e esquente o doente; e o mesmo se observará em toda a água de salsa que os doentes beberem com outros quaisquer medicamentos.

10. É desgraça grande esquentar-se um doente quando se está curando de gálico, ou seja com salsa ou com outros medicamentos, porque é preciso largar a cura e refrescar-se com soros, ou frangos, ou leite, tisanas, emulsões etc. e tornarem as queixas (se é que tinham alguma melhora) para trás, e ser necessário muito tempo para se temperar, por cuja causa nunca os doentes são bem-sucedidos, como algumas vezes tenho visto.

11. Qualquer destes dois remédios costumam ser suficientes para curar qualquer causa gálica, ou seja pequena ou grande, ou sejam boubas, pois com eles tenho curado inumeráveis enfermos, dos quais apontarei algumas observações. Ainda aqueles a quem o mercúrio em sustância não aproveitou, acharam nestes remédios o seu refúgio, saindo das mãos de cirurgiões e médicos.

causas gálicas, ou boubas

Observação I

De dores de juntas mui grandes

12. Morando eu na Vila Real do Sabará, no ano de 1712, me chamou Miguel Fernandes, natural e vizinho de Coimbra, o qual teria de idade, pouco mais ou menos, sessenta anos; estando para fazer jornadas para a Cidade da Bahia, o assaltaram umas dores gálicas por todas as juntas, principalmente nos braços, que os não podia levar à cabeça e, na mesma cabeça, dores tão veementes que nem dormia coisa alguma, nem deixava dormir a vizinhança, nem a mim e à família de minha casa, para onde o levei depois de deixado de um cirurgião que o curou algum tempo e de um médico que o curou ou lhe assistiu algum, tendo gasto, em sustentos e medicamentos, por cima de mil oitavas de ouro por sua confissão, sem proveito algum, o que me disse depois de estar em minha casa três dias.

13. A primeira vez que vi este doente na casa onde estava o achei tão miserável, assim no aspecto, como na pobreza que representava, custandolhe muito a pronúncia das palavras de fraqueza e magreza, por cujos motivos lhe ofereci a minha, cuidando levava para ela um pobre para o curar pelo amor de Deus.

14. Depois de se informar se eu o curaria, ou o trataria bem, de João Gonçalves da Costa e de Agostinho Barbosa, moradores na rua da Barra, do Sabará, aceitou a oferta que eu lhe havia feito e, passados os três dias de hóspede, me deu parte da informação que tinha tirado e do que lhe disseram, que foi aceitasse enquanto era tempo e também do que possuía, que não era pouco e o tinha à vista dos olhos em uma canastra, que são as caixas dos homens que andam pelo Sertão, em ouro limpo, que todo me ofereceu; mas, não fazendo aceitação de nada, tratei de o alimentar e nutrir, por estar mui debilitado, com caldos de galinhas gordas, pouco de cada vez e a miúdo, por tempo de um mês, pouco mais ou menos, porque, como não tinha mais que a semelhança, receava dar-lhe medicamento algum e, em lugar de lhe tirar a sustância que não tinha, lha metia por meio dos caldos com sua gema-de-ovo em cada um, e suas colheres de vinho bom desfeito com marmelada, e suas bacias de pão-de-ló.

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