Erário mineral
19. Tratado XII: Do escorbuto ou Mal de Luanda
Tratado XII
Do escorbuto ou mal de luanda
1. Visto que tomei esta empresa maior que a minha capacidade, não deixei de proceder cuidadoso, assim no pouco tempo em que determinei dar ao prelo o que chegasse a escrever, como por acudir com brevidade aos habitadores das Minas do Ouro, onde alguns amigos ficaram esperando com ânsia os fracos rasgos da minha pena, porque, principalmente na cura das pontadas pleuríticas, de que perdem escravos sem número, os que não perecem da tal doença, lhes fazem grande despesas nas boticas, e os têm em casa convalescendo muitos meses, por ficarem mui debilitados por causa das muitas sangrias que lhes mandam tomar, e outrossim os obstrutos, brancos e pretos, de que saram poucos, como lá é bem notório, fazendo graves despesas em tempos largos, gotas-serenas, formigueiros e outras muitas doenças comuns e perigosas, muito ordinárias naquela colônia nova; e eu, pela Providência e graça de Deus, todas estas e outras as curo com facilidade em poucos tempos e com poucas despesas, inventando remédios do país que obram com toda a sua virtude, como de todos é bem sabido, por morar em várias partes das Minas.
2. Achando-me, pois, na Cidade da Bahia, vindo de volta para este Reino e tendo notícia que João Cardoso de Miranda, cirurgião curioso e sem ofensa dos mais dos da primeira estimação, tinha inventado um remédio de grande eficácia e infalível virtude para escorbutos, ou mal de Luanda, que tudo é o mesmo, por ser achaque terrível naquela praça e em todas mais partes e tão inobediente aos remédios dos autores, que morriam pretos, e brancos, vindo da Costa da Mina e de Guiné nas embarcações de negócio de escravos em muito grande número, e vendo isto o dito cirurgião, foi investigando o tal remédio, até que o pôs em perfeição. 3. Tendo esta notícia, que eu determinava dar ao prelo um livro, sendo curioso (como já disse) veio a minha casa vê-lo e nela me noticiou o sobredito seu remédio, mostrando-se sentido de já ter dado a sua manufatura a um ministro por nome Francisco de Santa Bárbara e Moura para trazer a tal receita em sua companhia para Lisboa e dá-la ao físico-mor para este a dar à estampa, zelo, sem dúvida, de bom católico; e me disse falasse na Corte com o sobredito ministro para que, se passado um mês a não fizesse pública, ma desse a mim para a ajuntar a este tomo; com efeito assim sucedeu, porque, assim como na sobredita Cidade da Bahia foi o tal ministro assinalado no zelo do bem comum, despachando na mesa, na rua, a toda a hora do dia e da noite, deixando saudades àqueles moradores, assim também o mostrou em ter muito gosto que eu procurasse a tal receita para a fazer pública por meio da estampa, o que fiz por serviço de Deus e de Sua Majestade, que Deus guarde, nas partes da Índia e nas naus que vão para ela, aonde perde soldados sem número por causa do tal contágio, que assim se lhe pode chamar; e agora ficarão socorridos com este tão célebre e admirável remédio.
4. É sem dúvida ser de efeitos maravilhosos o que digo por me constar com toda a certeza na dita cidade, que, podendo seu autor lucrar com ele oculto cabedal considerável, antepôs a conveniência alheia à sua própria. O que diz na sua carta que escrevia é a mesma verdade, cujo teor é o que se segue, e a receita se manifesta no fim dela.
Carta ao físico-mor
5. Muito meu senhor. O serviço de Deus e o bem comum é o único motivo que puramente me move para tomar a confiança de molestar a vossa mercê em lhe comunicar um remédio específico que, com muito trabalho e diligência, foi Deus servido alcançasse para opugnar a qualidade e infecção escorbútica, ou mal de Luanda, e todos seus produtos; e como já hoje tenho bem justificada a sua utilidade com repetidas experiências, me animo a remeter a vossa mercê a composição deste remédio para que, por meio da estampa, se faça público, que é todo o meu desejo; e suposto que, com ele oculto, podia adquirir grande conveniência, antepus a esta a utilidade pública, pois se assim o não fizesse, entendo me mostraria a Deus gravemente ingrato; porque, suposto digo o alcancei com muito trabalho e diligência, bem conheço que, sendo eu o mínimo professor cirúrgico, não podia haver, no meu limitado talento, capacidade, nem engenho para poder fabricar a composição de tão completo remédio, porquanto alguns simples que nele entram, se não acham inculcados pelos autores para esta infecção, por cuja razão estou certo que Nosso Senhor foi servido dar-me luz para fazer a dita composição e ser remédio de suas criaturas, e o fazer-me particularmente esta mercê só unicamente o podia obrigar a ânsia com que o desejava alcançar, pois me afligia muito o ver acabar tantos enfermos tão miseravelmente, sem se poder achar auxílio com que pudessem ser socorridos, pois nos autores se acha mui pouco adiantada esta matéria, e, por esta razão, me não dou por satisfeito com o fazer público nesta cidade, mas desejara ter asas, voar a todas as partes do mundo, para que, em todo ele, não houvesse criatura que, na sua necessidade, se não aproveitasse deste quase infalível remédio.
6. Nem o que tenho dito pareça encarecimento, pois só assim o poderá entender quem não tiver notícia do grande estrago que faz este contágio, porque, só nesta cidade, morriam, em cada um ano, para cima de dois mil escravos e muitos homens brancos, pelo grande comércio que há para os Reinos de Angola e Costa da Mina, donde vem mais comumente esta infecção; porque o ano passado de mil e setecentos e trinta e um, em um navio que veio dessa Corte por Benguela para esta cidade, o qual, depois de chegar a terra, lhe morreram mais de duzentos enfermos, além dos que no mar lhe faleceram; e no próprio tempo entrou da Costa da Mina uma embarcação que desta cidade tinha ido, na qual morreram trezentos e sessenta, e todas as mais vêm com maior ou menor prejuízo, por causa do dito contágio, para o qual se não achava remédio e só se julgava por espécie de peste, e, desta sorte, morriam quase todos ao desamparo; mas, depois que Nosso Senhor foi servido que eu pusesse em praxe este remédio, e na sua última perfeição, não perigou mais algum a quem eu assistisse, passando de quinhentos os que tinha curado este presente ano de 1731, chegando a maior parte deles feitos uns esqueletos, e só em uma casa curei mais de cinqüenta, os quais vinham do mar como mortos, e destes nenhum só perigou; porém, não era só causa desta ruína a falta de remédio específico, senão também ignorar-se a essência desta enfermidade, pois são tantos e tão diversos os seus sintomas que, com facilidade, podem enganar ao mais douto e esperto médico, enquanto não tiver uma larga experiência dos efeitos deste contágio; e esta é a razão por que, havendo nesta cidade vários professores da Medicina e Cirurgia suficientemente doutos, nunca puderam fazer juízo acertado sobre esta enfermidade, pois só tinham por afetos do escorbuto ou mal de Luanda aos que viam com as gengivas ulceradas ou podres, sendo que os que trazem este sinal são os menos e os que livram melhor.
dois mil escravos
duzentos enfermos mortos em uma embarcação e trezentos e sessenta em outra
cinqüenta enfermos em uma casa curados com o tal remédio, sem perigar um
7. Neste particular é que eu desejara dar uma larga notícia, pois a muita experiência e exercício que tenho tido nesta matéria me tem dado luz para o poder fazer, o que nesta ocasião não posso satisfazer como desejava, por haver cinco meses que, gravemente, me acho molesto de uma oftalmia em um olho, inobediente aos remédios, o que farei sendo preciso, e ajuntarei (sendo necessário) certidões das pessoas mais principais desta cidade para crédito e aceitação do dito remédio e de prelados das religiões, os quais todos têm presenciado a utilidade do sobredito remédio; e, pela dita causa, estive resoluto a não fazer nesta frota este aviso a vossa mercê, mas, como estou tão inteirado do grande estrago que faz o dito contágio nas naus de Sua Majestade - que Deus Guarde - nas viagens da Índia e em todas aquelas partes, não quis retardar esta notícia pelas muitas vidas que se poderão livrar com o uso deste tão soberano remédio, por cuja razão tive, por maior acerto, fazer agora este aviso, ainda que não seja com a especulação que desejava; e, como me determinei fazer esta diligência, seria em mim erro sem desculpa valer-me de outra sombra ou patrocínio que não fosse o de vossa mercê, pois a ninguém compete melhor esta incumbência, assim em razão do cargo e lugar que dignamente ocupa, como pelo zelo com que deseja os aumentos da Medicina, para com ela agradar melhor a Deus e utilizar o bem comum da república.
8. São os sintomas desta enfermidade tantos e tão vários que mal se podem definir. Primeiramente se acham disenterias, diarréias,
caquexias,1 hidropisias, pleurises, legítimos e notos, tosses, corrimentos, encolhimentos de nervos, coagulações em várias partes do corpo, apostemas de matéria quente e fria, opilações de humores, crassos e viscosos, héticas, dores nas cadeiras e em todas as juntas, ictericias, morféias; e, em conclusão, todos os sinais que podem produzir as mais enfermidades a que o corpo humano está sujeito se acham nesta infecção; todos tenho experimentado, cederam ao dito remédio; e, assim, o que qualquer professor deve advertir, se se achar em região onde presuma pode haver esta enfermidade ou encontre enfermo no qual ache alguns sinais dos que ficam apontados, fique certo em que todos os mais que lhe forem sucedendo, ainda que os sintomas o não manifestem, são produtos da própria causa, principalmente se não alcançar conhecida melhora com os remédios que lhe aplicar, segundo o juízo que fizer da queixa, atendendo a ela com os seus particulares remédios, ponha o maior empenho em destruir o dito contágio com este específico.
sinais vários para se conhecer a má qualidade do escorbuto ou mal de luanda
sinais
9. Este contágio umas vezes faz efeitos crônicos, outras agudos, morrendo uns em dois e três dias, outros subitamente; e porventura que as malignas, que há poucos anos acometeram essa Corte, fossem espécie deste veneno, que tanto deram em que entender aos senhores médicos.
outros sinais
10. O modo de se administrar este remédio é na forma seguinte: pela manhã, em jejum, se dará uma dose, e de tarde outra, que serão de cinco até seis onças para cada vez, a qual se diminui ou acrescenta, conforme as forças do doente, segundo parecer a quem curar, continuando todos os dias, não havendo coisas que o impeça; e o que mais se deve advertir é que, naqueles enfermos em que se julgar peca mais a quantidade de humor que a qualidade dele, se pode usar o dito remédio na forma da receita, o que se conhecerá pelos sintomas que comumente são os que ficam referidos e outros da mesma classe; e pecando mais na qualidade por ser ruim, se diminua o purgante, o que manifesta pelos sinais seguintes, a saber: febres contínuas e héticas, reumatismos com febre aguda, pleurises, estupores espúrios, diarréias, ressecações e outras desta classe; porém, sempre fique a bebida mais ou menos solutiva, excetuando nas diarréias e disenterias, nas quais haverá algumas em que não convenham purgantes. A dieta deve ser moderadamente de alimentos frescos, como galinha, franga ou frango cozidos com chicória, borragens, almeirão, alface e beldroegas; e, sendo no mar ou em parte onde não hajam os tais alimentos, se lançará mão do que houver mais próprio a este respeito; o que eu uso em terra, sendo escravos, é mandar-lhe dar vaca fresca cozida com galinha, de sorte que, com três galinhas, se possa fazer comer para vinte doentes, que, como são escravos, não podem os senhores, ou não querem, grandes gastos; fujam de comeres salgados e doces, e de tudo o que possa ser demasiadamente quente.
modo de aplicar o remédio
outros sinais
dieta 11. Deve-se notar que, achando-se alguns enfermos em que este contágio, por estar já mui sigilado, faça maior resistência, não sirva esta de obstáculo para que se não continue este remédio, porque sempre se alcançará saúde, ainda que seja com maior repetição, pois tenho encontrado alguns que, para ficarem de todo sãos, foi necessário tomarem quarenta até cinqüenta bebidas, como também outros, em que não foi necessário continuar mais de seis até oito.
repetição de bebidas até cinqüenta
12. Em sangria se não fale nesta enfermidade; isto se entende de cura regular, porque, com qualquer que seja, se exala a vida ao enfermo; e de cura coacta, quando muito se podem permitir somente até duas, havendo alguma grande febre ardente ou pleuris sufocativo, e estas sejam sempre depois de ter tomado algumas bebidas do específico remédio.
sangria nao convém
13. Os eméticos, que se acham pelos autores tão aprovados, lhe tenho achado grande contradição, principalmente sendo os sintomas agudos, porque têm morrido muitos no mesmo dia em que tomaram vomitório, e, sem embargo que ignoro a causa, a experiência me tem ensinado, pelo que só uso do dito remédio, o qual, com a sua brandura, cura com segurança a todas as diferenças desta infecção; e não só o tenho por conveniente para a dita, mas também para os afetos hipocondríacos e fazer baixar a conjunção impedida.
vomitorios não convêm
14. Também se acham nestes enfermos várias chagas sórdidas, podres e de todas as diferenças delas, as quais resistiam aos remédios com que lhe acudia, segundo o estado em que se achavam, e agora, facilmente se vencem com o uso do sobredito remédio, ajudando-as com os tópicos na parte que adiante se manifestam. Ao dano das gengivas se acudirá lavando-as repetidas vezes com sal dissolvido ou desfeito com sumo de limão, e, na sua falta, em vinagre ou um bocado de ungüento Egipcíaco, estando elas podres ou com alguma podridão e fétido, dissolvido em aguardente fina, e segundo a podridão que tiver, assim se lhe misturará mais ou menos ungüento Egipcíaco, no qual medicamento, estando morno, se molhará um pincel de pano e com ele se tocarão as chagas e gengivas por dentro e por fora várias vezes no dia, o que, algumas vezes, tenho feito com bom sucesso, umas das quais foi em Francisco Ribeiro, morador na rua das Flores desta Cidade do Porto, cuja observação de um escorbuto já desamparado abaixo farei manifesta, porque o tal observação medicamento tira o mau cheiro, alimpa singularmente as gengivas de toda a podridão, ficando vermelhas, e conforta os dentes abalados.
às chagas e às gengivas se acudirá
observação
Remédio para as chagas que sucede haver no corpo
15. Bálsamo sulfúreo terebintinado duas oitavas, xarope rolado uma onça, água da rainha de Hungria, ou, em sua falta, aguardente fina duas oitavas, azebre, mirra e incenso, tudo em pó sutil, de cada um meia oitava, triaga magna duas oitavas, misture-se. Neste medicamento morno se molharão as pranchetas, ou fios, para se aplicarem nas chagas, cobrindo-as com um parche de emplasto estítico de Crólio, misturado com o de manus dei, partes iguais ou qualquer deles.
A receita é a que se segue
16. Recipe. Cozimento de raiz de chicória, grama, fragária, douradinha, mastruços e coclearía três libras, sendo as ervas verdes e sendo secas, fique o cozimento em libra e meia; confeição de diatártaro reformada e sal catártico, de cada um três oitavas, sal tártaro três oitavas, antimônio diaforético marcial e espírito de cocleária, de cada um duas oitavas, xarope de chicória de Nicolau com ruibarbo três onças, misture-se.
receita
17. Tenho representado a vossa mercê, na melhor forma que pude, assim a composição do remédio, como o mais, e da prolixidade com que mortifiquei a vossa mercê, peço repetidas vezes perdão, e a Nosso Senhor fico pedindo lhe remunere o trabalho, pois só ele pode; e se, na pobreza de meu préstimo, houver coisa em que possa dar gosto a vossa mercê, fica a minha vontade sacrificada aos preceitos da sua. Guarde Deus a vossa mercê muitos anos. Bahia de Todos os Santos, 6 de dezembro de 1731.
De vossa mercê,
senhor doutor Manuel da Costa Pereira, beija as suas mãos seu
mais humilde criado
João Cardoso de Miranda
18. Não querendo roubar a glória ao autor da receita, fiz manifesta a carta sobredita e a mesma receita, mas porque lhe faltaram algumas circunstâncias que julgo serem necessárias, as quero declarar para utilidade pública, como é a descrição da erva mastruços que na tal receita se manifesta, para ser conhecida neste Reino e nas Minas, por ser muito necessária no cozimento, pelas suas raras virtudes e outras algumas, como também uma boa observação.
19. Nota. A erva mastruços é uma erva muito medicinal para várias enfermidades, como deixo referido em várias partes deste volume; na Cidade da Bahia se chama mastruços, nas Minas se chama erva-de-santa-maria, e é a mesma de que trato no tratado das pontadas, a qual quis declarar por seu autor não ter notícia do outro nome; e digo mais que neste nosso Reino de Portugal a tenho visto em várias partes em jornadas que tenho feito, como na estrada de Coimbra, nesta Cidade do Porto, em Braga, Barroso etc. cuja descrição é a seguinte:
Descrição da erva mastruços ou de santa-maria, que tudo é o
mesmo 20. A erva que na Bahia se chama mastruços e nas Minas erva-de-santa-maria é uma erva semelhante à que se chama orgevão, mas é o orgevão que nasce em terra boa e úmida, porque este é mais alto do que o que nasce em terra seca, que é mais baixo e rasteiro, como se vê nos adros das igrejas onde costuma nascer e nos pátios de freiras ou frades, e muita comparação têm, suposto as folhas da de santa-maria são mais compridas; e o melhor sinal para se conhecer é ter as suas folhas farpadas em redondo e ser de ruim cheiro, ascorosa e fétida, chegando aos narizes quase semelhante ao cheiro do saramago; e quem tiver assistido nas Minas a conhecerá muito bem.
Observação muito boa em Francisco Ribeiro da Costa, cunhado
de João Antunes Guimarães, moradores nesta Cidade do Porto,
na rua das Flores
21. No mês de março de mil e setecentos e trinta e três, estando Francisco Ribeiro da Costa, cunhado de João Antunes Guimarães, ambos moradores da rua das Flores da Cidade do Porto, doente de escorbuto ou mal de Luanda, que tudo é o mesmo, e sendo assistido de um bom médico por discurso de bastante tempo, lhe aplicou vários remédios, assim purgantes, como ao dano das gengivas, mas não vendo efeito algum da sua diligência, porque não só tinha as gengivas podres, senão muito grande fastio, e, quando dormia de noite se sufocava sem poder tomar respiração, e pelas gengivas lançava de noite no travesseiro muito sangue podre, e vendo o tal médico que as tais queixas não obedeciam, se resolveu dizer-lhe que não tinha na sua mão mais que lhe fazer, sendo este um dos melhores médicos que tem esta cidade.
22. Vendo-se o pobre enfermo nestes termos e tendo casualmente notícia de que eu estava compondo este livro, e que nele falava na sua enfermidade e sabia um remédio ainda não escrito de autor algum, particular e certo, me mandou pedir o quisesse ver e aplicar-lho. Vi o tal enfermo e, quando lhe mandei abrir a boca para lhe ver as gengivas, me mandou um tal cheiro e tão horroroso que, pelo não pôr em maior desconsolação do que a em que estava por estar desamparado, o sofri sem fazer caso do mau cheiro que tinha, por ter as gengivas cheias de carne podre e denegridas, com os dentes todos negros e tão abalados que, com os dedos, se lhe podiam tirar todos.
23. Como o dano das gengivas prometia maior perigo de se lhe gangrenarem e morrer, lhe acudi com o remédio seguinte:
24. Aguardente fina seis onças, ungüento Egipcíaco duas oitavas; misture tudo muito bem. Com este remédio ordenei tocasse as gengivas por dentro e por fora, molhando nele um pincel várias vezes ao dia; assim continuou com feliz sucesso, porque logo as gengivas se foram alimpando e o mau cheiro se desvaneceu.
25. Logo fiz o remedio para tomar pela boca que fica referido na receita, com o qual, tomando cinco onças, fazia dez e doze cursos sem moléstia, nem detrimento algum, antes, dizia ele, que, ao compasso dos dias que o tomava, se achava mais forte e mais valente, tomando os primeiros dias, manhã e tarde, pelo aperto de queixas em que estava, e, depois que se não sufocava e as gengivas estavam com grande melhora, tomou uma só vez ao dia, com que se lhe varreu o fastio que antes tinha.
26. Acabado o primeiro remédio, lhe fiz o segundo, com o qual foi continuando uma vez ao dia com as mesmas melhoras em aumento, continuando sempre com o remédio da aguardente e ungüento Egipcíaco, fazendo outro quando se acabava. Acabado o segundo remédio da receita, sem embargo que estava sem queixa alguma e as gengivas encarnadas e em sua forma natural, lhe fiz terceiro medicamento para tomar pela boca, para se acabarem de purificar algumas relíquias do humor maligno que causa a tal doença.
27. Como os dentes, ainda que com o remédio da aguardente se firmaram mais do que estavam, ainda buliam muito, principalmente os de diante, e para os confortar melhor receitei seis onças de vinagre esquilítico para tomar bochechas dele, mas como é remédio forte e a boca estava escandalizada do humor, se lhe esfolou em algumas partes e a língua, em cujos termos mandei misturar no tal vinagre que havia quase outra tanta água de tanchagem e, suposto ficou mais brando o remédio, ainda o não pôde sofrer; ordenei que usasse da água de tanchagem somente com um bocado de ungüento Egipcíaco, com que sarou a boca e os dentes alguma coisa mais firmes; e, tornando a continuar com o vinagre esquilítico que estava misturado com água de tanchagem, ficaram os dentes melhores, e, para a negridão deles, os mandei tocar com espírito de vitríolo, que logo se alimparam, caindo as pedras e cascos pretos, e assim ficou gordo e rosado.
28. Nota que, curando nas Minas um enfermo de uma infecção escorbuta, lhe crescia tanto a carne das gengivas que lhe cobria os dentes, e não querendo obedecer a remédio algum, mandei fazer dois ferros tortos de corte, à feição dos com que se fazem colheres, para lha cortar, a qual fui cortando e usando dos remédios que ficam ditos na miscelânea, de gengibre, e do sobredito de aguardente e ungüento Egipcíaco para a ir dessecando, e de cozimento de tanchagem com cevada com pragana, balaústias e um bocado de pedra-ume crua, lançando-lhe, ao depois, pós de incenso e de mirra; estando o cozimento frio para se dissolverem é melhor, e desse cozimento tomava bochechas a miúdo, tendo-o na boca por algum tempo, com que sarou purgando-o algumas vezes interpoladamente; e daí a algum tempo lhe tornou a sobrevir a mesma queixa, à qual não assisti por morar muito distante, de que morreu, nem eu tinha ainda notícia do específico que fica dito, curando-o da primeira vez em minha casa, por ser escravo de um amigo.
observação
29. Suposto se diz acima que a confeição se tomará em quantidade de cinco até seis onças de cozimento de manhã e tarde, também se pode tomar sem cozimento, misturados os simples da receita em quantidade de duas colheres por cada vez, desfeita em caldo-de-galinha, isto é, quando não houver as ervas para se fazer o dito cozimento, que, havendo-as, se tomarão então as ditas cinco ou seis onças de manhã e tarde, se o doente puder com a obra, que, aliás, tomará uma só vez ao dia; e, sendo a confeição tomada no caldo, será este bem quente para se dissolver, que, de outra sorte, se não desfarão bem as confeições, guardando o mesmo regimento que se dá a outra qualquer purga benigna, pois nenhuma obra com mais suavidade que esta e não só é conveniente para o escorbuto ou mal de Luanda, senão também para as erisipelas, passado o terceiro dia, se convier purgar; e no mar se pode usar deste purgante em qualquer queixa, sendo pessoa de melindre, por ser remédio que obra brandamente e sem fatigar os enfermos.
30. Quando o escorbuto suceder no mar ou outra qualquer parte aonde não hajam as ervas para fazer o cozimento, se ajuntarão os simples da receita e se fará confeição para se dar no sobredito caldo-de-galinha, sendo desfeita a quantidade que fica dita, estando ele bem quente, como fica referido.
31. Se neste meu livro se notarem algumas coisas por novas ou por duvidosas, já eu satisfiz com dizer no princípio dele que, quanto mais crescia o tempo, mais alcançavam os homens. E agora direi mais: que as coisas, por novas, não podem desmerecer o crédito de sua verdade, porque, que coisa haverá hoje no mundo tão antiga que não fosse nova em algum tempo? Saber o que os antigos souberam não é saber, disse Sêneca. Temo que os que condenam as coisas novas são aqueles que não podem dizer senão as muito velhas, e talvez que muito remendadas. O avarento chama pródigo ao liberal, o covarde, temerário ao valente, o distraído, hipócrita ao modesto; e cada um condena o que não tem, por não confessar o que lhe falta. O grande padre Soares, que tanto tinha em si do que os antigos souberam, dizia que daria de alvíssaras o que sabia, se lhe dessem o que ignorava. Se alguém quiser que nos atemos em tudo aos passados, quererá que se atem os vivos aos mortos; as coisas velhas são do tempo, as coisas novas do merecimento, porque as velhas são alheias, as novas nossas; se por duvidosas, não obrigo a alguém a crer o que digo, por ter a vontade livre.
32. O doutor Francisco Baile falou naqueles tempos muito a meu favor, no que exponho nestes, porque diz, falando das artes, que a razão de não terem chegado a toda a sua perfeição é porque os professores delas se acumulam nas opiniões antigas, de sorte que as supõem estabelecidas como tábuas da lei. Diz mais que uma das principais causas por que se não chega a fazer ou estabelecer opinião certa e permanente é porque nunca acompanha a experiência o discurso, que são os dois pólos em que se sustenta toda a máquina das artes; e, finalmente, diz que, quando o discurso se encontrar com tanta dúvida que não atine com razão certa que o satisfaça, se recorra à experiência.
33. Tenho acabado o meu Erário Mineral. Se não agradar aos leitores, por mais claro para uns ou por menos para outros, não é porque me faltasse vontade de contentar a todos, pois o mais claro é para que todos entendam o que lerem e se aproveitem, e o menos é por duas razões: a primeira, porque o entendimento é curto para tamanha empresa; a segunda, porque o tempo não deu mais lugar; e, se ainda assim houverem desafeiçoados, podem pegar na pena para nos comunicar os apurados partos do seu entendimento, e ficarei satisfeito.
F I M
Protestação
Do autor
Se alguma coisa neste livro digo contra a Santa Fé Católica, ou contra o próximo, ou contra os bons costumes, o hei por não dito, e em tudo me sujeito às disposições da Santa Madre Igreja de Roma.
Tesoura e pinça cir.rgica. (Gravura de Hans Gersdorff)
1 Caquexias - Grafia atualizada de cachechias, forma antiga utilizada pelo autor.