Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 18 de 31 · parte 1/6

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Erário mineral

10. Tratado III – Da miscelânea de varios remédios, assim experimentados e inventados pelo autor, como escolhidos de vários para diversas enfermidades

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Tratado III

 

Da miscelânea de vários remédios, assim

experimentados e inventados pelo autor, como

escolhidos de vários para diversas enfermidades

Das tisanas comuns

1. Em seis libras de água comum, cozam uma onça de cevada descascada e solta na panela, ferva até gastar duas partes e depois se coe; doses é de seis onças, adoçadas com açúcar ou lambedor de violas; virtudes: refresca, tira a sede, tempera as febres e tira os ácidos dos humores.

tisana comum

Tisana de madame Focquet

2. De aveia meia oitava de um alqueire, a que em muitas partes chamam salamim; de raiz de almeirão verde um molho, de cristal mineral meia onça, de mel duas onças, de água comum quatro canadas e meia; lave-se a aveia e se ponha a ferver na dita água, até gastar meia canada, e logo se lhe ajuntarão as raízes, com que ferverá até gastar uma libra; e logo se lhe ajuntará o mel e o cristal mineral e ferverá até gastar outra libra; e, tirada do fogo, se coará por pano de linho e se guardará para o uso.

tisana de madame Focquet

3. Nota. Diz o licenciado João Lopes Correia, mestre do Hospital Real, no seu Castelo Forte, que tem usado desta tisana com bom sucesso em tempo cálido sem resguardo, e, quando não achava aveia, usava de cevada descascada, e, em lugar de mel, deitava açúcar ou tanto de açúcar, como de mel, e, quando a queria fazer purgativa, assim que tirava o tacho do fogo, fervendo, lhe deitava duas onças de sene e meia oitava de cremor tartari e uma dedada de pó de canela e meia casca de limão azedo machucada; abafava bem o tacho com um cobertor e, daí a seis horas, usava da tisana, com a qual purgava a muita gente mimosa que não podia sofrer coisas de botica, o que fazia com bom sucesso, mas que não teve a fortuna que teve o francês das águas, com que ganhou os cabedais que se sabe, que, por estrangeiro, se lhe deu mais crédito que a ele e a outros.

tisana purgativa de que usava João Lopes Correia com bom sucesso, sem dieta, nem preparação alguma

4. Nota mais que, quem houver de usar desta tisana, não é necessário que se sangre, nem que se purgue, nem que tenha dieta, nem esteja de cama, e comerá o que tiver por uso cotidiano, exceto manjares salgados ou especiaria. A esta tisana de madame Focquet se chama também "tisana excelente,” e este era o título que tinha quando lha deram; e, se lhe ajuntarem pau-santo, salsaparrilha e raiz da China, de cada uma duas onças, terão a celebrada água do francês.

água do francês

Outra tisana purgativa, de que o dito usa comumente

5. De água comum oito libras, posta ao fogo até que levante cachão e, tirada do fogo, assim fervendo, se lhe lance dentro, de bom maná três onças, sene duas onças, cristal mineral uma oitava, pó de canela uma dedada, como de tabaco, e uma casca de limão azedo machucada; tudo se misture e abafe muito bem que não respire nada por tempo de seis horas; e depois se use dela na forma seguinte:

outra do mesmo autor

6. Tomem pela manhã cedo uma libra desta tisana e, se até às nove horas não tiver obrado, pode tomar outra libra, e seja morna somente, e assim os mais dias que quiserem; e diz que não quer encarecer os seus efeitos, nem a suavidade com que obra, por não ser suspeitoso; quem usar dela saberá a verdade e não quererá outra purga.

Das amendoadas

7. De amêndoas descascadas uma onça, açúcar seis oitavas, água de cevada seis onças; de tudo se faça amendoada, segundo a arte: usa-se dela nos achaques do peito, porque abranda muito a tosse e os humores acres.

amendoada

Outra comum mais fresca

8. De sementes frias maiores descascadas cinco oitavas, água de cevada seis onças, açúcar meia onça; de tudo se faça amendoada; virtudes: refrigera as entranhas dos seus ardores e as intemperanças quentes do fígado ou de febres.

outra mais fresca

9. Nota. Se quiserem que o doente durma com esta amendoada, lhe ajuntem xarope de dormideiras brancas, quanto baste para adoçar.

Outra fresca, de que eu tenho usado muitas vezes com bom

sucesso

10. Sementes frias maiores descascadas, pisadas e desfeitas com umas gotas de água de chicória e de cevada, ou de almeirão; ajuntava este polme com água do dito cozimento a que bastava e, adoçada com açúcar, fazia então as porções conforme a quantidade das pevides e da água, e dava seis onças por cada vez, com que refrescava os doentes de febres ou calores grandes das entranhas, ou de todo o corpo, e, a quem era cálido de sua natureza, com admirável sucesso.

outra do autor

11. Nota que as sementes frias maiores são pevides de melancia, de abóbora; sendo das de água, serão melhores; de cabaço, não sendo dos amargosos, que são purgativos fortes e perigosos, e as sementes de pepino; estas são as que se chamam sementes frias maiores.

as quatro sementes frias maiores

Das emulsões

12. De tudo se faça emulsão ou cozimento e, depois de coada, se dissolva ou desfaça de bom maná uma onça, ou duas; e, se a quiserem mais purgativa, serão três onças, e, coada, se lhe ajunte água de canela buglossada meia onça; doses é bebida medíocre, ou pequena, por outro nome.

emulsão laxativa

Outra

13. No que baste de água de almeirão, ou, em sua falta, a de chicória, pisem semente de dormideiras brancas e pevides de melão, ou, em falta destas, as de melancia, de cada uma meia onça, semente de alface meia onça; de tudo se faça amendoada, e, coada, se adoce com açúcar e se tome de tarde, ou quando se quiser recolher a dormir.

emulsão para provocar o sono

Outra

14. No que baste de água de almeirão e de chicória, ou de borragens, pisem semente de melancia descascada e de abóbora de água, de cada uma duas oitavas, e, depois de bem desfeitas, se misture com a dita água depois de bem cozida com as ditas ervas, e se lhe misture de açúcar o que se baste para adoçar.

emulsão mais fresca, fácil e experimentada nestas minas

Para tomar o fluxo do sangue do nariz

15. Os pós simpáticos são admiráveis sem terem nada de superstição, como alguns cuidam; usa-se deles na forma seguinte: molhem um pano no sangue e, se com o pano tocarem a boca do vaso será melhor, e neste pano cheio de sangue se deitarão os pós simpáticos e se porá defronte do doente, e se verá, à vista dos olhos, parar o sangue, sem haver mister mais remédio algum ou ainda que o doente esteja longe algumas léguas.

pós simpáticos

16. Nota. Sendo os pós simpáticos feitos com as condições que se devem guardar e bem calcinados, são milagrosos nos seus efeitos; e, quem quiser tirar as névoas dos olhos, veja o Lexicon Mathematico, que tirará as dúvidas a quem não quiser crer em tal remédio, mas, antes, dizem é remédio da carochinha; vejam estes incrédulos ou, para melhor dizer, estes cirurgiões imperitos, os louvores que o Lexicon Mathematico e outros muitos autores de grande nota (que não adquiriram fama, nem nome por lisonjeiros, senão por muito cansaço de seus estudos) o que dizem dos pós simpáticos e a brevidade com que logo remedeiam a tão urgente sintoma, que a muitos têm levado desta vida, que, se eles usaram dos tais pós, lhes não morreriam os doentes.

17. Vários autores usam dos remédios seguintes: metam em uma bolsa de escarlate pó de sapo e se meta no sovaco do braço da parte donde sair o sangue, ou se tenha na mão até que aqueça, e logo parará o sangue; o osso da coxa de sapo metido no nariz, no mesmo instante, faz parar o fluxo do sangue dele.

18. Nota que o osso da coxa do sapo se tirará deste modo: matem o sapo e, espetado em um pau, o ponham no ar a secar, até que toda a carne se consuma e se lhe tire o osso, e, tirado, se guarde para a ocasião. Também é certo tirar este osso a dor do dente que doer, tocando-o ou esfregando-o com ele. Outros autores dizem que, tendo na mão um dente de cavalo, faz parar o fluxo de sangue do nariz.

osso de sapo tira a dor dos dentes

19. Como, pela maior parte, não há os remédios particulares e, suposto os cirurgiões não ignoram os comuns, contudo, poderá acontecer a necessidade em parte onde não hajam os tais remédios ou os tais cirurgiões que apliquem os comuns; assim, por um respeito, como por outro, apontarei alguns.

20. O primeiro, e mais principal, é mandar sangrar ao doente no braço da mesma parte donde sair o sangue. Alguns mandam fazer as sangrias por intervalos, pondo o dedo e tirando-o por muitas vezes, até fazer sangria, e outros não mandam fazê-las por intervalos; e quem quiser ver as razões que há para se não fazerem, veja a Riverio e, dando as forças lugar, se farão as necessárias; coma o doente pouco e fresco, como são alfaces, chicórias, beldroegas, ameixas, lentilhas, arroz com franga ou frango.

sangrias

21. Hipócrates, lib.3, nos fluxos de sangue, e Galeno, 3, Methodo, cap. 5, Zacut.Lusit., prax., observação 66, dizem que, depois de executados todos os remédios para o fluxo de sangue no nariz e para o da boca, e que, não parando com remédio algum, só pararão pondo um cautério de fogo nas solas dos pés, e que, no discurso de três dias, tinha o doente lançado vinte libras de sangue.

cautério de fogo nas solas dos pés

22. Na parte se porão remédios adstringentes, encrassantes e aglutinantes, como são os seguintes: de bolo-armênio meia onça, claras de ovos as que bastem, tudo batido com umas pingas de vinagre forte, se faça cataplasma e se ponha na testa. Ou este: de bolo-armênio e terra sigillata, sangue-de-drago, incenso, almécega e azebre, de cada um uma oitava; farinha volátil, ou de trigo, cabelos de lebre cortados miúdos, de cada um meia oitava; claras de ovos duas, sumo de tanchagem e de erva-moura, de cada um o que baste; bata-se tudo e se faça cataplasma que se ponha na testa e nos músculos temporais, que são as fontes, em pano delgado e molhado. Ou este, que é eficaz: pisem gesso com o que baste de vinagre e se use em pano molhado, que é certo, e, se da primeira vez não obrar, da segunda obrará; ou molhem tiras de pano em água muito fria ou em sumo de tanchagem com sumo de erva-moura e com claras de ovos, pondo-lhe por cima panos de vinagre destemperado, renovando-se todos os remédios em se secando, ou borrifem a cara do doente com muita água fria, porque, com o temor ou susto que recebe, se repele o sangue para dentro; ou deitem vinagre dentro do ouvido, da parte donde sair sangue. Ou este: ponham na raiz do nariz uma moeda de prata e, em cima dela, ponham a cataplasma seguinte: pisem gesso com claras de ovos e se ate bem; e, se da primeira vez não aproveitar, se repita, que é supremo remédio, e parará logo o fluxo; o mesmo se porá nos músculos temporais e testa.

23. De pó sutil de spica nardi uma oitava, água de tanchagem, ou caldo-de-galinha, ou água de beldroegas, ou outro licor apropriado se misture e se dê ao doente, que é remédio experimentado de Riverio, e não só é específico, mas corrobora o fígado e proíbe o fluxo de sangue. Ou este: xarope de dormideiras uma onça, água de beldroegas e de tanchagem duas onças, e tome-se à noite e pela manhã. Ou este: água de tanchagem e de beldroegas, de cada uma uma onça, espirito salis dulcis meio escrópulo, de escórdio meia oitava, laudano opiato grãos dois, xarope de beldroegas uma onça, misture-se e tome o doente, de cada vez, uma colher a miúdo, longe dos comeres.

24. Não bastando nada do que está dito, se usará de medicamentos opiados, na forma seguinte: água de tanchagem rosada e de tormentilha, de cada uma uma onça e meia, múmia dois escrópulos, trociscos de cânfora uma oitava, magistério de coral dez grãos, láudano opiado quatro grãos, xarope de coral meia onça; misture-se e se tome por duas vezes, assim frio, ou por uma vez, estando no paroxismo e último perigo da vida. Ou este: láudano opiado dois, ou até três grãos somente, tome-se em água de tanchagem ou de beldroegas, a que baste para uma vez, ao deitar na cama.

medicamentos opiados

25. E quando nada disto aproveite, ou logo que suceder o fluxo de sangue, sendo grande, recorram ao tratado dos meus segredos, que lá acharão um excelentíssimo remédio para toda a diversidade de fluxos de sangue; e não sendo muito grande, pode o doente chapejar a testa e sorver pelos narizes água bem fria com algumas pingas de vinagre, fazendo isto muitas vezes e a miúdo, que é remédio de que tenho usado muitas vezes com bom sucesso.

segredo do autor

Para alimpar a limosidade dos dentes, ou pedra que se cria

neles, ou podridão

26. De papel limpo o que quiserem, este se deite de molho em água, e depois se pise muito bem, até que fique como massa; depois se esprema bem, sem que lhe fique umidade alguma; e, feito isto, se torne a pisar com sumo de limão azedo, e a esta massa se junte espírito de enxofre doze pingas, e, tudo bem mexido, se use pondo-o em cima dos dentes, e se verá que, em espaço de meio quarto de hora, cairá a limosidade, ou pedra, e se alimpará toda a corrupção que houver neles; e depois se esfreguem os dentes com o seguinte, metido em pano à maneira de um botão: pedra-pomes quatro oitavas, coral preparado duas oitavas, âmbar dez grãos, folhas de ouro número três, sândalos vermelhos uma oitava, misture-se. Isto é para quem os quiser perfeitos.

para a pedra dos dentes e limosidade

27. Este é um segredo com que o boticário del-rei dom Afonso, que Deus tenha em descanso, por nome Manuel Lopes Carameleiro, adquiriu amizades, e é certo.

Para tirar a negridão dos dentes

28. Sarro de vinho e almécega em pó sutil se atem em pano e se esfreguem os dentes. A cinza que fica nos cachimbos de quem bebe fumo é remédio que, certissimamente, faz os dentes muito alvos. A pedra-pomes feita em brasa e apagada, duas vezes em vinho branco, e na terceira se deixe ficar até esfriar, e pisada no mesmo vinho e lavar com ele, e com ela os dentes, os fará alvíssimos. Tocar os dentes com um pincel molhado em espirito-vitriolo, algumas vezes, por dias interpolados, também tirará a negridão dos dentes.

para a negridão dos dentes

Para dor de dentes, e arrancar o furado

29. Cozam a raiz de hortelã bem cozida e com este cozimento lavem os dentes a miúdo, porque lhe tirará a dor e arrancará os furados.

Para tirar dentes sem ferro

30. Ponham em cima do dente que quiserem tirar enxúndia de rã. Ou este: cozam em água de agresta água ruça e ferva até ficar espessa como mel, e com isto toquem só o dente que quiserem tirar; a água ruça é a que sai das azeitonas verdes, quando se faz o azeite no lagar. Os pós do lagarto, seco no forno em forma que se possam fazer, aplicados à roda do dente que quiserem tirar fará desunir a carne dele e se tirará com facilidade.

para tirar dentes sem ferro

Para tirar a dor de dentes sem dúvida

31. Ponham em cima do dente que doer, ou dentro na cova dele, se a tiver, enxugando-a com um paninho, uma migalha ou pilulazinha de láudano opiado, que, dentro de um credo, se tirará a dor, pondo-lhe em cima da tal pílula um paninho, e, fechando a boca, se esperará que a dor passe.

para tirar a dor de dentes sem dúvida

Outro que também é certo

32. Óleo de cravo, lançando uma pinga ou duas em cima do dente com o froco de uma pena, tirará logo a dor. O mesmo efeito faz um dente de cão, arrancado dele estando o cão vivo; furado e pendurado ao pescoço preservará de dores de dentes por toda a vida. Em Lisboa havia um pai que, tanto que lhe nascia algum filho, lhe pendurava um dente de cão ao pescoço e, assim, os preservava de dores de dentes. Ou este, que também é certo: quem for atormentado de dores de dentes, ate no bucho do braço um bordão de harpa; trazendo-o sempre, se preservará, como eu conheço algumas pessoas.

óleo de cravo, dente de cão, bordão de harpa, são certos

Outro que infalivelmente tira a dor dos dentes no mesmo

instante, fácil e para feridas frescas

33. Tomarão de verdete e de cravo da Índia, do melhor que houver, que é o mais acanelado, de cada um partes iguais; feito tudo em pó e misturado, se ponha em um prato de estanho em 29 de agosto, desde às onze horas até o meio-dia, em parte aonde lhe dê o sol, havendo-o, e depois o recolherão em um copo de chumbo, que assim se conservará melhor para um, dois e mais anos. A sua aplicação é molhar o dedo na saliva da boca e pô-lo em cima dos pós, e os que levar pegados, com o mesmo dedo e pós se esfregará o dente que doer; ainda que chegue aos mais não importa, que logo, em discurso de uma ave-maria, ficará o doente livre da tal dor. Estes ditos pós curam também as feridas frescas, aplicados na forma seguinte:

segredo do autor para dores de dentes e para curar feridas frescas sem fazerem matéria

34. Depois da ferida estar lavada ou desalterada, e dados os pontos necessários, se carecer deles, cobrirão a tal ferida com os sobreditos pós, e, por cima, pano seco e atadura; e, passadas quarenta e oito horas, se lhe lançarão outros pós, ou em cima dos mesmos, ou pelos lábios, e assim as mais vezes; têm estes pós curado feridas horrendas na cabeça, rosto e outras partes do corpo, sem fazerem matéria. Se houver alguma pessoa (o que não creio) que note o ensinar este e outros segredos, não terá razão, porque a conveniência dos muitos deve prevalecer a dos poucos. Também é infalível tirar a dor de dentes assar um dente-de-alho, e metido dentro no ouvido, da parte da dor, que logo a tirará.

segredo para feridas frescas, infalível

Como se devem preparar os pós do lagarto que ficam ditos, e

que lagarto é

35. Tomarão um lagarto negro, dos que andam nos rios ou lagoas, que a meu parecer são aqueles a que, cá no Brasil, chamamos jacarés; tiradas as suas entranhas, se seque o tal lagarto no forno, de tal modo que se faça em pó, no qual pó se porá o dedo índex, primeiro molhado, e depois se porá o tal dedo com os ditos pós em cima do dente, tocando também a gengiva ao redor dele e, posto outra vez em cima do dente com os pós que, em pouco espaço de tempo, pegando nele, caíra logo.

pós de jacaré ou lagartos para tirar o dente com os dedos

Para confortar os dentes abalados

36. Lavem os dentes com vinagre esquilítico, e também faz bom cheiro na boca, lavando-a muitas vezes e deixando-o estar por algum tempo, ou, em falta, vinagre forte ou fortíssimo.

para confortar os dentes abalados

Para inchação dos queixos, por causa de dores de dentes

37. Lance-se uma gota de leite de peito em um prato, nele se lance um pano de linho fino do tamanho que cubra a tal inchação, e, estando estendido e afogado no leite, se pulverize todo o pano com pós sutis de incenso, e, morno, o prato em cima de umas brasas, se aplique o dito pano com o incenso assim morno em cima da inchação, e, secando-se, se molhe por cima com leite fresco, ou se renove as vezes que for necessário; eu assim o tenho feito muitas vezes e todas com bom sucesso, não sendo a inchação demasiada, que então carecerá o doente de ser sangrado.

para inchação dos queixos, invento do autor

Outro para tirar dores de dentes, certo, experimentado muitas

vezes e fácil nestas Minas

38. Uma raiz de jaborandi, que nestas Minas há grande abundância nos matos virgens e capoeiras de poucos anos; esta se mastiga em cima do dente que doer e, em pouco espaço de tempo, se atormentará a dor e depois passará; é remédio para pretos cotidiano, de que os meus usam por conselho meu, sem usarem de outro, nem lhe ser necessário, salvo os que tiravam ao ferro, por lhe repetirem as dores muitas vezes ou estarem podres.

raiz de jaborandi para dor de dentes

Para inchação de pernas, pés e tornozelos que faz covas,

pondo-lhe os dedos, invento do autor

39. Tomem um pouco de gengibre, façam dele massa e a metam em um saco do tamanho que quiserem, e, depois, se estenda a dita massa cosendo o saco na boca e alguns pontos pelo meio, à maneira de colchão, e depois se lance em um tacho seco, posto em cima de fogo brando, o qual irão borrifando com a aguardente do Reino de uma e outra banda, até que fique bem molhado; e, tirado do tacho e com pouca quentura, se ponha em cima da inchação, que, sendo causada de humor frio, logo desinchará, renovando esta cura uma vez cada dia; e o tal gengibre poderá servir para duas ou três curas, modificando-o como fica dito; e, ainda que a parte fique desinchada, sempre se usará do tal remédio alguns dias para a confortar, ou o tempo que quiserem, que o mais será o melhor. É este remédio experimentado por mim muitas vezes, e certo; também serve para inchação de juntas da mesma causa.

para pernas inchadas, invento do autor

40. Nota, que, assim que a parte desinchar, se purgará o doente com purga de resina de batata, não tendo sinais de enchimento de estômago, que, havendo-o, tomará primeiro vomitório e depois a dita resina, que assim será mais conveniente para tirar primeiro as cruezas da primeira região e suspender os humores das partes baixas pára cima e melhor os lançar com a resina; e, depois dela, tomará o doente uma ou duas purgas de jalapa pisada de fresco.

41. Se parecer, a quem curar, dar primeiro da purga de resina, ainda que tome o vomitório, alguns xaropes preparantes de humores frios, não será mau conselho, e depois continuar como está dito.

42. Os xaropes preparantes de humores frios se poderão mandar buscar à botica, que os boticários sabem muito bem, e quem os quiser fazer em casa muito bons os poderá fazer na forma seguinte: cozam uma raiz de capeba com meia mão cheia de folhas de alfavaca, ou de almeirão, em um frasco de água que diminua mais da terça parte e fique em pouco mais de a metade, e, na última fervura, se lhe ajunte duas oitavas de sene, e, tirado do fogo, se coe e torne a ele com meia libra de açúcar, com o qual dará algumas fervuras e, tirado, se coe outra vez e se guarde para o uso, dos quais, como são em parte purgativos, tomará um cada dia em jejum; e conheçam que tem uns xaropes preparantes de humor frio muito admiráveis: eu os tenho feito em minha casa muitas vezes e mandado fazer a muitos doentes, e sempre experimentei com eles bom sucesso.

manufatura de xaropes preparantes

43. Com o remédio acima tenho curado muitas inchações de humores frios que nestas Minas perseguem a muitos escravos e a muitos brancos, e, entre eles, a um escravo meu, que, comprando-o com uma inchação muito antiga sem o saber, o qual seu senhor tinha de cama até desinchar, e indo faiscar, como se metia na água, alguns dias lhe tornava a inchar; e por esta causa, como tinha testemunhas, lho queria enjeitar; mas, como viemos a conserto e a inchação era em cima do pé, lhe dei uns risquinhos ou sarjaduras muito superficiais com uma lanceta e lhe pus em cima o dito saquinho cheio da dita massa, primeiro servida em aguardente do Reino, com sua baeta por cima e atadura; e renovando-lhe este emplasto todos os dias, uma vez, no discurso de poucos ficou a parte tão desinchada e seca como se não tivera nada, e continuando mais alguns dias para ficar a tal parte confortada; foi caso admirável que, sem tomar xaropes nem purgas, o mandei faiscar, metendo-se na água sem resguardo algum, lhe não tornou a inchar muito, nem pouco em muitos anos que o possuí; e, conhecendo-o na mão do comprador, o vi sempre são.

observação admirável

44. Em minha própria pessoa experimentei o mesmo remédio, que, tendo uma inchação e dermatose, que é a mesma que fica dita, nos tornozelos pela parte de dentro, que subia pelas pernas acima da dita parte, tinha-lhe feito vários remédios, a que não obedecia, e, pondo-lhe o dito remédio, obedeceu; e usando dele mais vezes para confortar a parte, me sucedeu uma desgraça, não por culpa do remédio, mas sim pela minha, e foi que, pondo os saquinhos mais quentes do que convinha, apertei as ataduras, e, ainda que depois de apertadas senti quentura bastante que me custou bem a sofrê-la, não buli do remédio e o deixei estar; ao outro dia achei ambas as pernas no lugar dos emplastos com vermelhidão e dor, ou, para melhor dizer, com erisipela mui sensitiva, causada assim da fortidão do remédio, por ser mui quente, como pelo demasiado calor com que o pus nas partes, que esta foi a maior causa.

observação em minha própria pessoa, mas com tão mau sucesso que me pos a pique de perder a vida, e a razão por que

Erisipela ulcerada

45. Fui temperando aquela inflamação e dor com remédios anódinos, mas sem fruto, porque veio a escoriar-se ou, para melhor dizer, a esfolar-se toda aquela parte aonde tinham chegado os ditos saquinhos, e ficou tudo em carne viva com dores quase insuportáveis; e aplicando variedade de remédios por conselho não só meu, como de um cirurgião e um médico amigos, todos foram baldados e, neste tempo, chegaram as dores e ardores a tal extremo que me impediam o comer e o tomar a respiração, não podendo consentir que às tais partes chegasse pano, mão ou lençol; estando as pernas tão inchadas e os pés, que me puseram em tal desconsolação, que comecei a considerar comigo: que seja possível que, tendo eu excogitado e inventado tantos remédios fora da regra dos autores, com que tenho remediado a tantos enfermos, não excogite agora um para mim? Vendo-me tão atribulado, temendo com justa razão uma gangrena e, sucessivamente, um perigo evidentíssimo, estive algum tempo implorando o auxílio divino, e, passado pouco espaço, mandei fazer em minha presença o remédio seguinte, com o qual fiquei inteiramente são dentro de três dias:

46. Mandei trazer à minha presença uma mão cheia de folhas de tanchagem, outra de folhas de malvas e meia de rachinhas de sassafrás verdadeiro, e mandei cozer tudo em um tacho com quatro frascos de água comum, que fervesse até diminuir à metade, fazendo-se, primeiro, medida dos dois em que havia de ficar, e com este cozimento tépido fui banhando as pernas até a água ficar fria, ou quase de todo fria, lançando-lha de alto; e nela molhei um pano de linho delgado de camisa de homem e pus um em cada uma e, tanto que se secavam, tornava a dar banho e a pôr panos, de sorte que, quando principiei a usar deste grande remédio, seriam onze horas da manhã, e nesse dia tomei sete ou oito banhos, ao terceiro experimentei muita melhora nas dores, e o que estava em carne viva já tinha algum sinal de pele nova, secando e murchando, e no mesmo dia fiquei tão aliviado que dormi esta noite admiravelmente. O mesmo fui continuando, passando-se poucas horas de um banho a outro, e foi Deus servido que, dentro de três dias, fiquei com as chagas encouradas e as pernas e pés sem inchação alguma e em sua forma natural.

para erisipela ulcerada, remédio prodigioso, invento do autor e experimentado nele mesmo

47. É muito para advertir que, quando estavam as chagas abertas antes de usar do dito remédio, estavam elas lançando por todos os poros humor colérico tão delgado e mordaz que me fazia inquietar com dores, e, depois que usei deste quase milagroso remédio, não lançaram mais o tal humor, nem houve mais dores, e a grande inchação começou a ceder a ele, o que tive por grande favor de céu dar-me inteligência para o compor e conseguir tão grande felicidade, o que não alcancei com tanta variedade de remédios de botica, que, morando na minha fazenda do Bom Retiro de Itacolomi, andavam os portadores encontrando-se uns com os outros pelo caminho, e quando me vi aflito com tantas dores, considerando que o que me fazia o maior dano era o humor colérico por ter algum amargor na boca, tomei um vomitório para aliviar a maior parte da cólera, e, depois dele, uma purga de maná em cozimento fresco de chicória, almeirão e flores cordiais; porém, nada obedeceu, fazendo muito boa obra e não lançando outra casta de humor, tomando a de maná para adoçar a dita cólera; o que fiz contra a opinião do dito médico douto.

48. Depois de são fui andando de pé e, suposto tornaram a inchar os tornozelos alguma coisa, nunca foi de cuidado, nem que me desse moléstia alguma, de sorte que nunca foi tanto como tinha antes de aplicar o tal remédio de gengibre; e saibam mais os leitores que esta causa teve o seu princípio havia cinco anos procedida de assistir em lugar muito úmido, dentro de uma brecha que abri para meter um rio caudaloso, para dele extrair ouro, saindo de uma cura, que assim foi forçoso.

sendo inchação cinco anos

49. Como a causa de que procederam as chagas foi por agravação ou por irritação do remédio, e não por essência, por isso mesmo consultei o remédio fresco e dessecante brando que acima fica referido; porque as malvas, e a tanchagem, é um remédio muito brando e muito temperado e fresco, e o sassafrás é quente e dessecante, e, por ser quente, por isso lhe lancei pouco dele, e assim ficou um remédio tão ajustado que refrescou e dessecou assim as chagas, encourando-as, como desfez a dita inchação tão disforme. E, porque esta matéria das erisipelas ulceradas está tão pouco tratada dos autores, esta era a maior dúvida e confusão que eu tinha, e muito principalmente tendo-lhe aplicado todos os remédios tópicos, assim os que achei escritos nos autores, como outros que pareciam conducentes à dita queixa, e por todas estas razões investiguei e compus o dito remédio, que, mediante a graça divina, fez os efeitos prodigiosos que ficam ditos.

De outros remédios, de que tenho usado para as mesmas

inchações

50. Faça-se um cozimento na forma seguinte: uma ou duas raízes de capeba, conforme forem, um pedaço de raiz de butua rachada muitas vezes, ou machucada, uma boa mão cheia de rachinhas de sassafrás, duas ou três mãos cheias de cabeças, ou olhos de mentrastos que não estejam espigados; tudo se meta em um tacho com oito frascos de água e se ponha a ferver até diminuir a metade e depois se coe e guarde para tomar banhos nas pernas, joelhos e tornozelos que estiverem inchados, com um pouco deste cozimento bem quente por espaço de algum tempo; e, tornando a aquentar o tal cozimento, nele bem quente se molharão panos e se porão em cima das inchações, cobrindo-os com baeta nova e sua atadura, o que se fará todos os dias duas vezes até estar a parte de todo desinchada; e, estando assim, tomará o doente um vomitório, se tiver indicantes de enchimento do estômago e depois se purgará, primeiro com resina de batata e depois com jalapa as vezes necessárias, tomando primeiro xaropes preparantes, ou sem eles, continuando os banhos nos dias que não tomar as purgas, para ir confortando aquelas partes.

Para inchação de pés, pernas e tornozelo é experimentado

Para gonorréias ou, por outro nome, esquentamento

51. Tomem as raízes da parte do nascente de umas árvores espinhosas que têm os paus muito direitos, a modo de varas e todos cheios de espinhos desde os pés delas até a ponta, e o mesmo pau e também os seus braços pequenos e as suas folhas, que nascem nas capoeiras em touças e há abundância em algumas partes, com as folhas miúdas e fazem a modo de copa por cima; costumam nascer três, quatro, cinco e seis juntos, e logo se vêem de longe, juntos e cheios de espinhos em redondo dos paus, que, por estes sinais, não haverá quem não os conheça. Destas raízes se pise um bocado delas e se lave em água quente e se beba a dita água em jejum, ou se coza a dita raiz depois de pisada, e, dando algumas fervuras, se beba em jejum com uns pós de açúcar e a toda a hora que quiserem e os dias que forem necessários, com o qual remédio sarará o doente em poucos dias e me dará o agradecimento.

remédio particular para esquentamentos

52. Os esquentamentos nem sempre são apegados de mulher, porque há alguns que se originam da própria pessoa, tendo alguma hérnia ou tendo algum ato com mulher que esteja com a sua regra; ou também por demasiado excesso nos atos venéreos, como eu tenho visto muitas vezes.

os esquentamentos nem sempre são causados de mulher, e a razão por que

Outro para o mesmo

53. Uma grande gema-de-ovo assim fria se pique com a ponta de uma tesoura, e pelo pique se lhe lancem três ou quatro pingas de óleo de copaúba, ou copaiba, e tanto que se sumirem pelo buraquinho, se beba em jejum assim inteira, e todos os dias fará o mesmo, porque fará urinar e lançar a matéria, alimpando o corpo, e sarará; este é experimentado por mim muitas vezes e muitas pessoas o têm sabido dos doentes a quem o ensinei e os bons efeitos que faz; mas, no tempo que se tomar, se não molhará o doente, nem terá cópula com mulher, e menos comerá coisas salgadas. Também o remédio seguinte é muito bom e diz o seu autor que faz urinar copiosamente: tomem de quatro até oito gotas de tintura de tártaro, a que chamam sulphur tartari, em água de raiz de salsa das hortas ou, em sua falta, de funcho ou de grama, ou em caldo-de-galinha, que fará urinar copiosamente.

óleo de copoíba para curar esquentamentos

Outro para o mesmo

54. Cozam a raiz da jurubeba ou, por outro nome, jubeba, que em todo o Brasil e Minas há quantidade e são árvores espinhosas, e, depois de bem cozida, bebam daquela água todos os dias em jejum com açúcar, ou a toda a hora que quiserem, que fará urinar copiosamente e alimpará o corpo da matéria gálica; depois de limpo, secará a tal purgação e sarará da tal enfermidade.

raiz de jurubeba para esquentamentos

Outro para fazer urinar, assim nos esquentamentos, como para

os que tiverem falta, por outra qualquer causa

55. Cozam as folhas e os talos da erva a que chamam, por língua dos carijós, tripoeirana, ou tripojana, que tem uns talos grossos e as folhas pequenas e compridas, e é rasteira, lançando seus braços para todas as partes, conhecid a de muitas pessoas pelo tal nome e nasce nas partes úmidas ou junto da água; e, depois de bem cozi da, se beba aquela água com açúcar em jejum e a toda a hora que quiserem, que fará urinar muito bem, por ser diurética, como eu muitas vezes tenho experimentado.

tripoeirana para esquentamentos

Outro remédio para os esquentamentos que têm ou fazem

muitas dores no princípio

56. O remédio de que eu comumente tenho usado, e sempre com feliz sucesso, quando o esquentamento está no seu princípio e com dores insuportáveis, é o seguinte: de água de malvas libra e meia, xarope ou lambedor violado oito onças, misture-se. Deste remédio mandava dar aos doentes cinco ou seis onças, morno, pela manhã em jejum, e, antes do sol posto, outro tanto, e assim os mais dias; e mandava que o doente urinasse com o membro metido dentro em leite ou água de malvas, morna; e desta sorte se moderavam as dores em poucos dias e muitos esquentamentos vi que, continuando-se esta bebida, sararam sem mais remédio algum, urinando bem e lançando matérias com a urina, ainda que venha com sangue.

remédio experimentado muitas vezes

Para lançar a criança que estiver morta no ventre de sua mãe

57. De trincal duas oitavas e meia, trociscos de mirra um escrópulo, tudo se faça em pó sutil e se misture, e depois se divida em duas partes iguais, as quais se usarão cada uma por sua vez em água de poejos e de artemija, de cada uma onça e meia.

para lançar a criança morta

Para o mesmo, e para lançar as páreas

58. Pisem percevejos e se metam na boca da madre, ou se bebam três, pisados e desfeitos em vinho ou caldo-de-galinha, que farão lançar a criança e as páreas. Ou façam este: de mirra, castóreo e estoraque, de cada coisa meia oitava, mel o que baste, se misture e se dará meia oitava dos pós por cada vez, desfeitos em vinho com uma migalha do dito mel; e não só fará os efeitos acima, senão que facilita o parto, e, diz seu autor, que nunca lhe faltou e que é certo.

para o mesmo, e pareas

Remédios para o mesmo, e fáceis

59. Atem na perna esquerda da mulher que estiver para parir a pedra-de-mombaça, que é certo e experimentado, e, tanto que parir, se tire logo, logo; ou tome a mulher, de uma oitava até duas, de açafrão, bem desfeito em pouca água, ou atem na coxa direita da mulher, instantaneamente, um fígado de galinha, assim logo que se tirar, estando viva a galinha, pois é experiência certa. Ou este: façam cozimento de folhas de alhos e de seus grelos e meta-se a mulher no tal cozimento morno, que é experimentado. Ou este: façam pó de amoras de silva maduras e se dê o que quiserem em água ou vinho, que logo lançará as páreas; é certo e experimentado. Ou este: de trincai, em pó sutil, oitava e meia, vinho de malvasia o que baste, e se beba morno uma ou mais vezes; e, vindo as dores de parir, mastigue fortemente uma cebola.

para o mesmo

para facilitar o parto

Para não mover

60. A mulher que for costumada a mover aos sete meses ou em outro tempo use dos remédios seguintes: no que baste de azeite, se ajunte pó de incenso e de almécega, e cera, a que baste, e se faça ungüento a fogo brando, com que se esfregue o ventre da mulher, rins e lombos, e use desta fomentação três ou quatro vezes cada semana, ou todos os dias, porque conforta muito a madre e seus ligamentos. Ou este: cozam em bom vinho avenca, até diminuir a terça parte, e, coado, se tome meia onça deste vinho por três ou mais dias contínuos em jejum.

Para não mover

Para acidentes uterinos ou sufocação da madre 61. Cortem os cabelos das partes baixas da própria doente e botem-nos em brasas, e tome aqueles fumos pelos narizes, debruçada em cima, que logo se livrará do paroxismo por modo de milagre; é experimentado muitas vezes. Ou este: untem o palato ou garganta com fel de boi, que logo entrará em seu acordo. Ou este: metam na boca da madre um botão que leve dentro algália, que logo descerá a madre a seu lugar, e, ao mesmo tempo, tome pelos narizes fumos de coisas fétidas, como de solas de sapatos velhos, de enxofre, das verrugas da parte de dentro das mãos e pés de cavalos, e das rapaduras dos seus cascos, e outras coisas semelhantes.

para acidentes uterinos

varios remédios

Para o mesmo, e certo, invento do autor

62. Para o paroxismo dos acidentes uterinos, estando a doente sem fala acidentes e não obedecendo a nenhum remédio, ou não querendo experimentar outro invento do autor por não perder tempo, façam o seguinte, que é certo e experimentado por mim, como logo direi: desfaçam em água morna meia oitava de massa chamada assa-fétida, e se beba, que daí a um quarto de hora, ou menos, ficará em seu juízo e com sua fala natural; mas como os remédios humanos todos são falíveis, se acontecer (o que não creio) que este falte, desfaçam uma oitava da dita massa na dita forma e a tomem, que não faltará com o seu maravilhoso efeito.

acidentes uterinos, invento do autor

63. Na Vila Real do Sabará, em casa do doutor ouvidor-geral Gonçalo de Freitas Baracho, estava uma mulher sem fala e sufocada com um acidente uterino, e tendo-lhe um cirurgião aplicado-lhe vários remédios sem fruto, me mandou chamar o dito doutor pela meia-noite e, tornando a minha casa a buscar o dito remédio, lhe dei em quantidade de meia oitava desfeito em água morna, e, dentro de uma ave-maria, falou e ficou em seu acordo, como se não tivera nada; e, se ajuntarem a este remédio um pouco de sumo de arruda, ficará ainda mais eficaz, o que fiz em outras enfermas com o mesmo bom sucesso.

observação

Para o mesmo

64. De bom castóreo fresco onça e meia, goma-galbano três onças, assa-fétida dois escrópulos, cera a que bastar; faça-se bola e unte-se com óleo de arruda, ou de alambre, e se doure; é bom remédio para senhoras trazerem consigo, sendo sujeitas a acidentes da madre, que é singular, ou estejam os acidentes para virem ou já vindos; cheirando esta bola, tornam em seu acordo, ou não lhe virão.

Para febres

65. No que baste de água cozam madrepérola por espaço de meia hora e depois se faça em pó, e se dê a beber ao doente este pó em qualquer licor de águas cordiais ou caldo-de-galinha, a toda a hora que quiserem.

febres

Para febres malignas

66. Cozam as folhas dos cravos bem cozidas e deste cozimento beba o doente em jejum e longe dos comeres. Virtudes: potentemente move suor eurinas sem grande trabalho da natureza, corrobora o coração e mitiga a sede; é experiência de Mangeto e diz assim. Inumeráveis vezes, permitindo-o Deus, livrei a muitos enfermos com o cozimento das folhas dos cravos, e isto afirmo com juramento a todos os estudiosos de Medicina. Virtudes que têm os cravos: são cefálicos e cordiais, o seu uso serve para as vertigens e males da cabeça, apoplexia, paralisia, epilepsia e em todos os achaques de nervos, no síncope, na palpitação do coração, nas febres pestilentas, dando meia onça de sumo de toda a erva; e no mesmo tempo se devem tapar os narizes com panos de vinagre; matam as lombrigas, facilitam o parto, tiram as coisas fincadas no crânio; usa-se em suco inspissado, a que chamam essência, em conserva de folhas dos cravos em águas destiladas e em vinagre, deitadas de infusão, machucadas.

febres malignas, lombrigas, parto, coisas fincadas, vertigens e achaques de nervos

Para o mesmo

67. Água comum seis libras, açúcar quatro onças, talhadas de cidra quatro; tudo se ponha a ferver até quebrar a terça parte; doses é um copo para cada vez. É cordial para febres.

água cordial e fácil

 

Das águas particulares

Água cordial

68. Esta água é laxativa e purga brandamente. De água da fonte quatro libras, ponha-se a ferver em cachão e, tirada do fogo, se lhe lance logo de bom sene uma onça, de bom maná onça e meia, cremor tartari, ou cristal mineral, meia oitava, pó de canela uma boa dedada, como de tabaco, e uma casca de limão azedo machucada; tudo se deite na dita água fervendo e se abafe muito bem o tacho com roupa, por seis horas, e depois se coe e guarde. Doses é meia libra para cada vez, que é o mesmo que seis onças; toma-se em jejum, sem preparação alguma, quantas vezes quiserem, e é muito experimentada e cordial.

água cordial, que purga sem preparação alguma

Água mercurial para sarnas e impingens

69. Água de tanchagem quatro libras, água-rosada onça e meia, cozimento de laranjas nove onças, mercúrio doce sublimado meia onça, mais ou menos, conforme a cada um lhe parecer; tudo se coza em vaso vidrado a fogo brando, que fique bem cozido e se guarde para o uso; na primeira e segunda lavagem que se fizer, sairá a sarna toda para fora, e, daí por diante, se irá secando e fazendo escaras, que depois irão caindo. Ou este, que é experimentado: tomem duas onças de enxofre, outras duas de cal virgem e outras duas de sal torrado; tudo feito em pó e bem misturado se meta em três panos iguais e se atem bem seguros e os infundam em azeite doce por vinte e quatro horas, e, passadas elas, se pegue em um e se esfregue com ele os pulsos das mãos, os cotovelos, os sovacos e ombros, as virilhas, os joelhos e curvas, muito bem esfregado tudo segunda vez, quando se quiser deitar; no outro dia se esfregarão todas as mesmas partes com o outro pano, e no outro dia com o outro, e, passado o outro dia, vestirá camisa lavada, depois de lavar o corpo com água bem quente, e ficará livre da sarna. Eu o fiz para mim e fiquei são e livre das tais sarnas.

sarnas, impingens e lepra

Outro para impingens, invento do autor

70. Coalhem leite em uma panela e depois lhe tirem a manteiga ou a nata que tiver por cima, à superfície, e a lançarão em uma xícara ou tigela vidrada, e dali irão tirando a que for necessária para outra vasilha, e lhe misturarão flores de enxofre, as que bastem, muito bem misturadas com a dita manteiga, de sorte que, quando se aplicar a primeira vez, não há de ficar o medicamento muito azulado para ficar mais brando; e já o segundo que se lhe aplicar se lhe misturarão mais alguns pós das ditas flores para ficar mais forte alguma coisa; e a terceira vez se fará o medicamento mais forte com mais alguns pós e ficará mais azulado alguma coisa, e assim se poderá continuar as vezes que for necessário; e como a manteiga ou nata se há de secar de um dia para outro, será bom que haja sempre leite coalhado para haver manteiga fresca para se fazer, ou renovar, o dito remédio; mas, no caso que não haja a dita manteiga nova, se poderá renovar o tal medicamento com umas pingas de água-rosada ou de tanchagem; isto é por necessidade.

Continuar: parte 2 de 6