Esplêndida

Julia Quinn · Capítulo 8 de 27

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Esplêndida

Capítulo 7

 

– Estou tão feliz por você ter decidido me deixar acompanhá-la, Emma! – falou Belle, empolgada.

– Tenho a sensação de que vou viver para me arrepender disso – respondeu Emma.

Ela e a prima estavam sentadas na carruagem confortável dos Blydons, a caminho da casa de Sophie para devolver os brincos que a condessa colocara nas mãos de Emma na véspera.

– Tolice – disse Belle, sem se deixar abalar. – Além do mais, você pode precisar de mim. E se não souber o que dizer?

– Estou certa de que vou conseguir pensar em algo apropriado.

– E se Sophie não souber o que dizer?

– Ora, isso é bem improvável – falou Emma com ironia, baixando os olhos para os brincos de esmeralda e diamantes que carregava nas mãos enluvadas. – É uma pena – falou com uma careta.

– O quê?

– Os brincos são lindos.

A carruagem parou diante da elegante casa de Sophie. As duas moças saíram do veículo e subiram rapidamente os degraus de pedra que levavam à porta da frente. Emma bateu com determinação na porta, que segundos depois foi aberta pelo mordomo, um homem comicamente magro e de postura imperiosa. Com frequência dizem que os mordomos são muito mais perspicazes do que seus patrões, e Graves com certeza não era uma exceção. Ninguém entraria na casa do conde e da condessa de Wilding se ele não considerasse a visita adequada. Graves encarou Emma e Belle, os olhos negros muito atentos, e disse apenas:

– Sim?

Belle entregou seu cartão de visita a ele.

– Lady Wilding está recebendo visitas? – perguntou ela em um tom altivo, que fazia frente à expressão arrogante do mordomo.

– Talvez.

Emma quase riu ao ver a prima cerrar o maxilar. Belle respirou fundo.

– Poderia, por favor, dizer a ela que lady Arabella Blydon está aqui para vê-la?

Grave ergueu um pouco mais as sobrancelhas.

– A menos que minha visão esteja me pregando peças, o que nunca acontece, parece haver duas pessoas na porta.

Belle ergueu ligeiramente o queixo antes de dizer:

– Essa é minha prima, Srta. Emma Dunster.

– É claro – disse Graves em um tom complacente. – Permita-me mostrar o salão amarelo às senhoritas.

Ele levou-as até um dos salões de visitas de Sophie, os pés se movendo silenciosamente sobre o tapete Aubusson.

– Santo Deus – murmurou Belle quando o mordomo não podia mais escutá-las. – Tenho certeza de que já estive aqui pelo menos trinta vezes, e ainda sou interrogada na porta.

– Ele obviamente é devotado aos patrões. Você provavelmente deveria contratá-lo – comentou Emma, rindo.

– Está brincando? Eu provavelmente precisaria dar referências para conseguir entrar na minha própria casa.

– Belle querida!

Animada, Sophie adentrou no salão em um adorável vestido para o dia, de um verde-garrafa que destacava a cor de seus olhos. Ela pareceu não notar Emma parada em silêncio no canto quando se adiantou para dar um beijo no rosto de Belle.

– Sinto tanto por não ter podido ir à sua fête. Ouvi dizer que foi espetacular.

– Olá, Sophie. Foi, sim – disse Belle.

– Até o meu irmão compareceu – comentou Sophie, incrédula. – Um fato inédito. Agora, onde está a sua adorável prima de quem tanto tenho ouvido falar?

– Bem atrás de você.

Sophie se virou.

– Ora, encantada em… Ah, meu Deus.

Emma deu um sorriso envergonhado.

– Imagino que esteja um pouco surpresa.

Sophie abriu a boca, voltou a fechá-la, então voltou a abrir para repetir:

– Ah, meu Deus.

– Bem, talvez você esteja muito surpresa – corrigiu Emma.

– Ah, meu Deus.

Belle se colocou ao lado de Emma.

– Jamais imaginei que isso fosse possível – sussurrou –, mas Sophie realmente não sabe o que dizer.

– É neste momento que você se adianta e facilita as coisas – lembrou Emma à prima.

– Eu certamente não sei o que dizer – disse Belle, sorrindo.

Sophie se adiantou um passo.

– Mas… você… ontem…

Emma respirou fundo.

– Lamento, milady. Peguei emprestado o uniforme da minha camareira.

– Para quê?

Sophie lentamente recuperava o uso de sua ampla destreza vocal.

– Essa é realmente uma longa história.

– É? – perguntou Belle.

Emma encarou a prima com rmeza.

– Bem, não é exatamente longa, mas um pouco complicada.

– É mesmo? – perguntou Sophie, os olhos arregalados de interesse. – Então, de nitivamente, me interessa ouvi-la.

– Na verdade, não é tão complicada assim – contestou Belle.

Emma conseguiu cutucar a prima, que não estava ajudando em nada, enquanto explicava rapidamente que tudo aquilo acontecera porque estavam tentando escapar da tia e dos preparativos para a festa.

– Tínhamos como opção a cozinha ou os arranjos de ores – concluiu.

– Um destino absolutamente terrível – concordou Sophie. – No entanto, não consigo imaginar o que Caroline disse sobre essa aventura.

– A questão é que eu também não posso imaginar…

Emma lançou um olhar signi cativo para a dona da casa. Ela e Belle encaravam Sophie com sorrisos nervosos idênticos.

– Ahhhhh – sussurrou Sophie, assentindo lentamente. – Entendo. Ora, podem ter certeza de que não direi nada. É o mínimo que posso fazer depois de você ter salvado a vida de Charlie. Como eu disse, estarei em dívida com você para sempre.

Emma na mesma hora estendeu os deslumbrantes brincos de esmeralda e diamantes de Sophie.

– Então, considerando as minhas reais circunstâncias, eu jamais poderia car com seus brincos, milady. Por favor, aceite-os de volta. Eles combinam com os seus olhos verdes.

Os olhos de Sophie caram marejados.

– Mas eu gostaria tanto que você casse com eles. São uma ninharia se comparados à vida do meu lho.

– Acho que Emma se sentiria desconfortável – disse Belle, com delicadeza.

Sophie olhou de uma prima para a outra até seu olhar parar em Emma.

– Mas quero lhe dar alguma coisa em agradecimento.

– A sua amizade é mais do que su ciente.

A voz de Emma saiu baixa e profunda de emoção, porque ela sabia que Sophie se provaria uma amiga sincera e leal, apesar do irmão enervante.

Sophie pegou as duas mãos dela.

– Isso você sempre terá.

Então, como se aquilo já não fosse o bastante, ela soltou subitamente as mãos de Emma e puxou a jovem para um abraço caloroso.

– Ah! Onde estão os meus bons modos, meu Deus – exclamou subitamente. – Por favor, sentem-se – disse, indicando os sofás em tons de dourado. Emma e Belle sorriram enquanto se acomodavam. – Agora, vamos ao que é realmente importante: as fofocas. Quero saber tudo sobre a noite passada.

– Foi maravilhosa – exclamou Belle. – Se mamãe queria mostrar para toda a aristocracia que tem apreço por Emma como se fosse uma lha, ela com certeza teve sucesso. Emma foi apresentada a absolutamente todo mundo.

– Que empolgante deve ter sido para você – comentou Sophie.

Emma assentiu, concordando.

– Mas também foi bem cansativo – acrescentou Sophie, solidária.

– Ah, isso foi – disse Emma.

– E estavam todos lá, simplesmente todo mundo – continuou Belle. – A não ser você, é claro. Como sabe, até seu irmão compareceu. Todos

caram incrivelmente surpresos. As pessoas não conseguiam parar de

falar a respeito.

– Sim, eu também quei um pouco surpresa…

Subitamente, Sophie lembrou-se de que o irmão estivera ao seu lado na véspera e, virando a cabeça para encarar Emma, exclamou:

– Ah, meu Deus! O que você disse? O que ele disse?

– Na verdade, acho que eu disse alguma coisa parecida com “Como vai?”.

– Depois que ele beijou a mão dela pelo dobro do tempo apropriado – acrescentou Belle, empolgada. – Aliás, quando as pessoas pararam de comentar sobre como estavam chocadas por ele ter aparecido, não pararam mais de falar sobre como ele parecia estar interessado em Emma.

– Sinceramente, Belle – disse Emma, objetiva. – Acho que ele estava só debochando de mim. O duque pareceu um pouco aborrecido por ter sido surpreendido com a minha verdadeira identidade. Imagino que ele goste de se sentir no comando de todas as situações.

– Disso você pode ter certeza – murmurou Sophie. – Imagine ser irmã dele.

Emma achou aquela perspectiva bastante desconcertante.

– E, de qualquer modo, ele não estava prestando tanta atenção assim em mim. Não acho que tenha feito qualquer coisa inconveniente.

Belle bufou de um jeito bastante impróprio para uma jovem dama.

– Sinceramente, Emma, seu rosto estava da cor dos seus cabelos quando vocês dançaram. Ou você estava profundamente constrangida ou profundamente irritada.

Emma deu de ombros e preferiu deixar que Sophie e Belle tirassem as próprias conclusões.

– Tenho certeza de que está tudo resolvido. Me perdoe por dizer isso, Sophie, mas se o seu irmão de algum modo faz jus à reputação que tem… e que me foi descrita nos menores detalhes… não imagino que eu vá esbarrar nele em muitos outros eventos.

– É uma pena – disse Sophie, baixinho, com um brilho de casamenteira cintilando nos olhos.

– Como?

– Ah, nada, nada. Aceitam chá? – perguntou Sophie rapidamente, e tocou a campainha para chamar uma criada.

Há anos ela insistia para que o irmão se aquietasse, e via em Emma Dunster sua maior probabilidade de sucesso. Emma era muito atraente, inteligente e uma pessoa genuinamente boa. E, o mais importante para alguém que estava prestes a conviver com Alexander Ridgely, duque de Ashbourne, era muito, muito corajosa. Sophie chegou à conclusão de que não poderia ter sonhado com uma cunhada melhor. A língua a ada de Emma também lhe seria de grande ajuda. Alex precisava de uma mulher que não medisse palavras toda vez que ele começasse a agir daquele jeito dominador – o que, Sophie precisava admitir, acontecia na maior parte do tempo.

– Por favor, me contem mais sobre o baile – pediu Sophie.

Estava ansiosa por prolongar a visita, agora que decidira que ela e Emma logo teriam laços de família. Um criado chegou com uma bandeja com chá e biscoitos e Sophie se apressou em servir.

– Eu fui encurralada por lady Summerton – falou Emma, rindo.

Belle se juntou a ela.

– Lady Summerton é a única criatura que eu conheço que consegue encurralar cinco pessoas de uma vez.

– Que mulher tola – comentou Sophie. – Acho que ela tem boa intenção, mas é tagarela demais.

Tanto Emma quanto Belle lançaram a Sophie olhares zombeteiros de acusação.

– Ah, eu sei que falo quase tanto quanto ela, mas ao menos costumo ser interessante!

E, com isso, as três mulheres tiveram um ataque de riso.

Quando as gargalhadas começaram a ceder, a reunião agradável foi interrompida por uma voz masculina muito alta e furiosa.

– Pelo amor de Deus, Graves, juro que vou pendurar você no gancho para casacos se não me deixar passar.

– Ah, meu Deus – murmurou Sophie. – Eu sei que deveria repreender Graves, mas simplesmente não tenho coragem. Ele gosta tanto de interrogar as pessoas…

– Não, eu não vou entregar o meu cartão de visita a um mordomo que já o recebeu pelo menos quinhentas vezes!

Emma achou que isso não seria possível, mas a voz de Alex realmente cou mais alta.

Sophie pareceu um pouco envergonhada.

– Eu sei que deveria ir até lá, mas me dá tanto prazer ver Alex irritado.

Emma foi rápida em concordar.

– Graves, se você dá valor à sua vida, vai sair imediatamente do meu caminho! – disse Alex, com uma voz agora perigosamente baixa.

Emma, Belle e Sophie se encolheram ao ver Graves praticamente voar até a porta do salão amarelo, na ânsia de escapar da ira de Alex. Quando o duque entrou no salão, cou olhando por cima do ombro para o mordomo que desaparecia rapidamente, e nem percebeu que Sophie tinha visitas.

– Pelo amor de Deus, Sophie, eu sou seu irmão. Não acha que poderia recolher esse seu cão de guarda?

– Ele cou um pouco superprotetor agora que Oliver está viajando.

– Eu percebi.

E então Alex nalmente se virou e viu que havia mais duas mulheres no salão. Também reparou que as três pareciam totalmente à vontade entre si. Quando seu olhar pousou em Emma, ela levou a xícara aos lábios e tomou um gole.

– Ora, ora – falou ele lentamente. – Vejo que as senhoritas já são as melhores amigas então?

As três mulheres lhe lançaram olhares irritados. Alex pareceu um pouco desapontado com a reação desfavorável das damas à sua presença.

– Não seja tedioso, Alex – disse Sophie, sem rodeios. – Estou recebendo visitas. Se vai ser ofensivo, é melhor voltar mais tarde.

– Que recepção calorosa… – resmungou ele enquanto se deixava cair de forma nada elegante em uma cadeira diante de Emma e Belle.

– Passei para devolver os brincos da sua irmã, Vossa Graça – explicou Emma.

– Achei que havia lhe dito para parar com essa história de me chamar de “Vossa Graça”, Emma.

Tanto Belle quanto Sophie ergueram as sobrancelhas ao ouvi-lo usando ousadamente o primeiro nome de Emma.

– Ah, muito bem – retorquiu Emma. – Não vou chamá-lo de nada então.

Sophie viu o irmão cerrar o maxilar, como fazia sempre que estava irritado, e controlou com esforço o que teria sido uma estrondosa gargalhada.

– Chá, Alex? – perguntou ela, com doçura.

– Não tomo chá – respondeu ele, irritado.

– Ah, é claro. Esqueci que homens como você não bebem algo tolo como chá.

– Eu adoraria outra xícara – disse Emma com um sorriso.

– Também aceito um pouco mais – acrescentou Belle.

Alex se perguntou quando as mulheres do mundo haviam se unido contra ele?

– Acho que vamos ter que pedir outro bule – decidiu Sophie. – Aceitaria café, Alex?

– Pre ro uísque.

– Não acha um pouco cedo para isso?

Alex olhou da irmã para Emma e para Belle. As três o encararam com expressões de falsa serenidade.

– Na verdade – comentou ele –, acho que nunca houve uma hora melhor para um copo de uísque.

– Como desejar.

Alex se levantou e atravessou o salão até o armário onde a irmã guardava as bebidas. Pegou a garrafa e se serviu de um copo grande.

– Sophie, vim até aqui informá-la da identidade da nossa misteriosa “Meg”, mas vejo que ela se adiantou a mim – disse ele, xando os olhos em Emma. – Eu me pergunto o que sua prima pensa das suas travessuras.

– A prima dela foi parte das travessuras – revelou Belle.

Alex se virou para encarar Belle com seu olhar mais carrancudo. Emma aproveitou que ele estava distraído para examiná-lo disfarçadamente. Inclinado contra a parede do salão de visitas delicadamente decorado de Sophie, girando o uísque no copo, o duque parecia grande demais e insuportavelmente másculo. As roupas muito bem feitas mal continham a força primitiva do homem. Como, ponderou Sophie, um homem era capaz de provocar nela, ao mesmo tempo, desejo e antagonismo? Ao menos ela presumia que fosse desejo. Com certeza nunca sentira nada parecido com aquela agitação esquisita na barriga e o coração nunca batera forte daquele jeito. Mas, por mais que a mera presença do duque zesse seu corpo traiçoeiro se agitar com uma ânsia que a confundia, a insolência e a atitude dominadora de Alex a enfureciam, e ela adoraria dizer exatamente o que pensava dele.

Infelizmente, naquele exato momento, o que ela pensava era que ele era absurdamente lindo. Emma fez uma careta e resolveu que era melhor manter os olhos em Sophie e Belle. A prima, que estava fazendo o possível para ignorar o olhar irritado de Alex, se virou para Sophie e perguntou:

– Planeja se esconder da aristocracia pelo tempo que durar a viagem do seu marido às Índias Ocidentais ou vamos vê-la hoje à noite, no baile dos Soutburys?

– Eu tinha pensado em me recolher ao campo, mas acho que mudei de ideia. A vida na cidade subitamente promete ser muito interessante nesta temporada. Embora eu imagine que não vá poder sair por mais alguns meses.

Sophie abriu um sorriso tímido.

– Ah, Sophie! Você está…

Belle pareceu incapaz de pronunciar a palavra “grávida” na presença de um homem. Sophie assentiu vigorosamente, o rosto radiante de alegria.

– Estou tão feliz por você! – continuou Belle. – Mas deve ser difícil, com seu marido longe.

– Sim, Oliver ainda nem sabe que vai ser pai de novo. Escrevi uma carta para ele assim que soube, mas duvido que ele já tenha recebido.

– Se você se sentir solitária aqui, precisa me prometer que irá com Charlie para a nossa casa. Temos muito espaço, e deve ser horrível car totalmente só estando grávida.

– No caso de ter se esquecido, lady Arabella, Sophie tem parentes que se importam com ela – declarou Alex em um tom imperioso. – Se ela for morar com alguém, será comigo.

Belle engoliu em seco.

– Talvez ela deseje companhia feminina – retrucou ela com bravura.

– Estou certa de que Sua Graça pode garantir bastante companhia feminina – murmurou Emma.

E então cou morti cada ao perceber que seu pensamento

desagradável havia sido dito em voz alta.

Alex cou imensamente satisfeito diante do óbvio ciúme dela, mas ainda assim respondeu com irritação:

– Poderia explicar melhor seu comentário, Emma?

– Hum, na verdade, acho que pre ro não fazer isso – falou ela, em um tom débil.

Alex teve pena do constrangimento e da angústia que viu no rosto dela e decidiu deixar o assunto de lado.

– Se Sophie desejar companhia feminina – disse ele –, ela pode ir morar com a nossa mãe.

Sophie estava encantada com o comentário ciumento de Emma, já imaginando a cor do vestido que usaria no casamento dos dois. No entanto, não queria fazer a jovem se sentir desconfortável, por isso falou com alegria:

– Uma visita a mamãe pode ser exatamente o que preciso para me animar durante os próximos meses. Imagino que iremos para o campo. O ar puro vai me fazer um bem enorme, e Charlie adora o campo. Ele se torna um bárbaro assim que o tiramos da cidade, juro. Passa o tempo todo subindo em árvores, me deixando apavorada, mas Alex diz que devo ter cuidado para não ser superprotetora. No entanto…

– Sophie – disse Alex em um tom indulgente –, você está tagarelando.

Ela suspirou.

– Estou.

– Mas – comentou Emma, espirituosa – é mesmo muito interessante. Eu também gosto de árvores.

As três mulheres riram da referência ao comentário que Sophie zera mais cedo sobre lady Summerton, e Alex resmungou que estava sendo deixado de fora da piada.

– Ah, Emma – disse Sophie, suspirando e sorrindo enquanto recuperava lentamente a compostura. – Não fui nem um pouco interessante, mas foi gentil da sua parte mentir para me agradar.

– Posso garantir que não foi esforço algum.

– Talvez também não seja penoso para você nos contar um pouco a seu respeito, Emma – intrometeu-se Alex.

– Meu Deus, acho que vou morrer de tédio. Eu já sei tudo sobre ela – falou Belle em um tom atrevido.

Emma se perguntou quando a prima teria se tornado tão ousada.

– Eu não gostaria de entediar minha prima.

– Tenho certeza de que ela não vai se importar – insistiu Alex.

– É claro que não – retrucou Belle em um tom afável. – Vou conversar com Sophie. Você queria mesmo me mostrar o seu cravo, não é, Sophie?

– Queria? Ah, sim, é claro que queria! Venha comigo, está no salão azul, no andar de cima.

Sophie se levantou rapidamente e foi na direção da porta, com Belle em seu encalço.

– Vocês dois tratem de entreter um ao outro, certo?

Emma não estava furiosa a ponto de desejar que um olhar pudesse matar, mas se pegou torcendo para que pudesse causar uma dor breve, porém intensa.

– Ficaremos bem – disse Alex, parecendo de nitivamente radiante.

– Fez muito bem – sussurrou Sophie para Belle.

– Também acho – con rmou Belle.

– Vamos, querida – falou Sophie, alto. – Mal posso esperar que você o veja.

Com isso, as duas saíram do salão e subiram a escada.

– Você precisa me lembrar de agradecer à sua prima – falou Alex.

– E você deve me lembrar de enforcá-la.

– Sinceramente, meu bem, é assim tão difícil car sozinha em um cômodo comigo? Você não se importou ontem à noite.

Alex atravessou o salão de visitas e se acomodou ao lado de Emma no sofá. Ela suspirou, exasperada. Existiria alguma situação em que aquele homem não se sentisse completamente à vontade? Porque ali estava ela, ardendo por dentro, enquanto ele sorria como se não tivesse uma única preocupação no mundo. Coisas estranhas aconteciam com o corpo dela quando o duque estava por perto. Era hora de fazer com que ele se afastasse.

– Hum – começou Emma, hesitante, sentindo todos os seus pensamentos decididos saírem voando pela janela. – Não tenho a intenção de soar pudica…

– Então não soe.

– Mas realmente acho que não deveria estar sentado tão perto de mim.

– Ah, Emma… – suspirou Alex. – Encheram mesmo a sua cabeça de regras e normas, não foi?

Ele segurou um cacho de cabelos dela entre os dedos, incapaz de resistir à beleza de fogo.

– Por favor, pare, Vossa Graça. Belle e Sophie podem voltar a qualquer momento.

– Aquelas duas conspiradoras obviamente pretendiam nos deixar a sós. E estou certo de que nos deixarão saber quando estiverem voltando. Con e em mim, quando estiverem descendo as escadas vamos ouvir acessos de tosse como nunca antes. Eu nem me espantaria se dessem um grito ou dois.

Emma sentiu que ardia de raiva.

– Odeio ser manipulada.

– Ora, eu também. Mas vou abrir uma exceção quando a manipulação me deixar sozinho com você.

Emma o encarou com rmeza.

– Você é sempre assim tão contido? Nada o perturba? Nada nunca o deixa com vontade de gritar?

Alex riu com vontade.

– Meu bem, se eu lhe dissesse o que me deixa com vontade de gritar, você sairia correndo deste salão de volta para as Colônias.

Emma enrubesceu profundamente. Mesmo uma jovem inocente como ela era capaz de entender o que ele queria dizer.

– Por que você sempre distorce as minhas palavras? É um teste para a minha paciência.

Emma cruzou os braços e girou o torso, para não ter que car de frente para ele.

– Por favor, meu bem. Não se transforme em uma pessoa sarcástica. Seja honesta consigo mesma. Você detesta tanto assim conversar comigo?

– Não, não exatamente.

– Detesta tanto estar comigo?

– Não… não é bem isso.

– Então qual é o nosso problema?

– Bem – começou Emma lentamente, virando-se para encará-lo –, não tenho certeza.

– Ótimo! – declarou Alex satisfeito, esticando o braço no encosto do sofá, atrás dela. – Isso resolve a questão. Não temos problema algum.

– Esse é exatamente o problema! – concluiu Emma abruptamente.

Alex ergueu uma sobrancelha, sem entender.

Emma não se deixou deter.

– Você decidiu que não temos problemas, portanto voilà! Não temos problemas. E se eu achar que temos?

– Mas você acabou de dizer que não temos problema algum…

– Não disse nada disso. Eu falei que não tinha certeza de qual era o problema. E agora eu sei. E isso resolve a questão. Temos um problema.

Emma enfatizou a declaração se levantando do sofá para se sentar em uma cadeira próxima.

– E que problema seria esse?

Emma cruzou os braços.

– Você é autoritário demais.

– Ah, é mesmo?

– É mesmo.

– Ora, isso ocorre porque você precisa ser tratada dessa forma. Veja o que acontece quando é deixada por conta própria… eu encontro você inconsciente, na rua.

– Não acredito que você tem a coragem de me dizer uma coisa dessas! – retrucou Emma, furiosa, levantando-se para andar de um lado para o outro no salão. – Eu estava inconsciente na rua porque tinha salvado a vida do seu sobrinho! Preferia que eu o tivesse deixado ser pisoteado pelos cavalos?

– Esqueça isso – murmurou Alex, incapaz de acreditar na própria estupidez. – Foi um exemplo ruim.

– E, outra coisa… não preciso ser tratada com autoritarismo – a rmou Emma em um tom enfático, permitindo-se car irada. – Sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesma. O que você precisa é de um bom chute para lembrá-lo de que não é Deus!

– Emma?

– Ah, cale a boca. Não quero mais falar com você. Provavelmente só vai rir e soltar alguma piadinha sexual. Sinceramente, não preciso de mais motivo para me irritar.

– Emma…

– O que foi?! – perguntou ela, irritada, virando-se para encará-lo.

– Eu só ia comentar que acho que nunca tive uma discussão tão veemente com uma mulher que conheci 24 horas antes – disse Alex, pensativo e curioso com a profundidade das reações emocionais que tinham um com o outro. – Na verdade, acho que nunca tive uma discussão desse tipo com uma mulher e ponto.

Emma desviou os olhos.

– Está tentando me insultar?

– Não – disse Alex lentamente, como se tentasse resolver um problema em sua mente enquanto falava. – Não, não estou. Na verdade, acho que acabei de elogiá-la.

Emma olhou novamente pare ele, sua expressão re etindo a confusão que sentia. Alex ainda estava esfregando o queixo e estreitando os olhos. Longos segundos se passaram, e Emma conseguiu ver diversas emoções atravessando o rosto dele. Alex ameaçou falar várias vezes, mas logo se interrompia, como se uma nova solução tivesse surgido em sua mente.

– Sabe o que eu acho que isso signi ca? – disse ele nalmente, as palavras saindo lentas e bem pensadas. – Acho que signi ca que seremos amigos.

– O quê?

– Na verdade, é uma ideia nova. Ser amigo de uma mulher.

– Não sobrecarregue demais a sua mente.

– Não, estou falando sério. Pense a respeito por um minuto, Emma. Nós discutimos sem parar, mas, para ser sincero, eu me diverti mais nas últimas 24 horas do que em anos.

Emma cou encarando-o, incapaz de pensar em uma resposta para uma declaração daquelas. Alex continuou:

– Acho que gosto de você, Srta. Emma Dunster. É claro que também desejo você, acho que isso é óbvio para você. Deus sabe que é dolorosamente óbvio para mim. Mas realmente gosto da senhorita. Você é um bom ovo.

– Um bom ovo? – A voz dela saiu estrangulada.

– E acho que, se pensar a respeito, vai se dar conta de que também gosta de mim. Quando foi a última vez que se divertiu tanto?

Emma abriu a boca, mas não tinha uma resposta. Alex deu um sorriso presunçoso.

– Você gosta de mim. Sei que gosta.

Emma nalmente riu, incapaz de acreditar na audácia dele, e ainda assim admirando-o por isso.

– Sim, acho que gosto.

O sorriso que Alex abriu era radiante.

– Bem, então, acho que somos amigos.

– Acho que sim.

Emma não estava certa de como haviam chegado àquela trégua, mas decidiu não questionar. Mesmo indo contra o seu bom senso, ela sabia que Alex estava certo: ela gostava dele. Ele de fato era um homem absolutamente atrevido e mais do que um pouco dominador, mas ela não conseguia evitar gostar da companhia dele, ainda que os dois passassem metade do tempo gritando um com o outro.

Bem naquele momento, ouviram Belle e Sophie descendo a escada em direção ao salão onde estavam. Belle começou a tossir incontrolavelmente, e Sophie disse em voz alta:

– Ah, meu Deus!

Emma levou a mão ao rosto e começou a rir. Alex apenas balançou a cabeça, com um sorriso irônico.

– É, meu bem – disse Alex. – Imagino que a minha irmã tenha acabado de lembrar que não tem um cravo.