Esplêndida

Julia Quinn · Capítulo 10 de 27

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Esplêndida

Capítulo 9

 

Emma se esgueirou pela lateral da casa dos Lindworthys, o tempo todo resmungando termos nada graciosos.

– De todas as coisas estúpidas que eu poderia fazer… Deixar que ele me arrastasse do baile para um jardim deserto… Eu deveria ter imaginado que aconteceria algo assim.

Ela parou um pouco e admitiu para si mesma, muito a contragosto, que tinha gostado imensamente do beijo de Alex.

– Tudo bem, eu gostei – resmungou. – E agora? Aqui estou eu, me esgueirando ao redor da casa como uma ladra, torcendo para encontrar uma porta lateral que pode nem existir. Meus sapatos estão cando molhados, a barra do meu vestido deve ter se rasgado naquela roseira e, para completar, ele não tem a menor intenção de se casar comigo.

Emma estacou. Deus do céu, o que acabara de dizer? Ainda bem que estava falando sozinha. Ela estremeceu e fez uma careta.

– Tire essa ideia da cabeça, Emma Elizabeth Dunster – ordenou a si mesma enquanto dobrava a lateral da mansão e chegava aos fundos.

Ela não queria realmente se casar com Alex, queria? Era impossível. Sempre tivera a intenção de voltar para Boston e assumir os negócios da família. Quando se casasse, seria com um bom compatriota americano, disposto a administrar a empresa com ela.

E se nunca encontrasse esse bom compatriota americano? E realmente valia a pena tentar encontrá-lo quando tinha um inglês fantástico bem ali, naquele momento?

Emma suspirou ao se lembrar de Alex, e os poucos momentos que passaram a sós invadiram seus pensamentos. Era hora de ser razoável, decidiu. Realmente havia alguma boa razão para sequer considerar a ideia de se casar com Alexander Edward Ridgely, o todo-poderoso duque de Ashbourne?

Bem, para começar, o beijo dele era fenomenal.

Além dessa!

Muito bem então. Alex nunca era condescendente com ela. Muitos homens da aristocracia falavam com as mulheres como se fossem uma subespécie cujo cérebro ainda não havia se desenvolvido plenamente. Mas Alex sempre a tratava como se ela fosse tão inteligente quanto ele.

E era mesmo, ressaltou Emma silenciosamente, com um aceno de cabeça.

Além do mais, ela se sentia muito à vontade na presença dele. Quando estavam juntos, Emma nunca agia como se tivesse que esconder sua personalidade sob um véu de artifícios e ilusão. Alex parecia gostar dela exatamente do jeito que ela era.

E mais: ele tinha um senso de humor delicioso, muito parecido com o dela. Sem dúvida ele adorava implicar com ela, mas nunca era maldoso e aceitava uma brincadeira com o mesmo prazer com que fazia uma. A vida com Alex certamente não seria tediosa, disso Emma tinha certeza.

E, é claro, o homem beijava maravilhosamente bem.

Ela gemeu quando praticamente caiu pela porta lateral. Teria que pensar um pouco mais sobre o assunto.

 

Enquanto isso, Alex retornara discretamente ao salão de baile pelas portas francesas e se esforçava ao máximo para ser simpático com um bando de pessoas pelas quais normalmente não nutria grande interesse. Estava, no entanto, ansioso para parecer frio e calmo, caso alguém tivesse reparado na breve saída com Emma para o jardim.

Alex acabara de contar a lorde Acton, um amigo do White’s, sobre um garanhão que havia comprado recentemente, quando viu Sophie e a mãe deles do outro lado do salão de baile.

– Com licença – falou com gentileza. – Vejo que minha mãe e minha irmã chegaram. Preciso cumprimentá-las.

Alex se despediu do amigo com uma breve mesura e abriu caminho entre os convidados em direção à família.

Eugenia Ridgely, duquesa viúva de Ashbourne, não era uma gura imponente. Na verdade, não conseguiria ser mesmo se tentasse. Seus olhos verdes cintilavam calidamente e os lábios pareciam sempre curvados em um sorriso vibrante. A disposição agradável era acompanhada por um senso de humor irônico que zera dela um dos membros mais queridos da aristocracia por anos. Eugenia era lha de um conde e fora elevada à categoria de duquesa ao se casar com o pai de Alex e Sophie, mas nunca havia demonstrado qualquer traço do esnobismo tão comum na alta sociedade. Os olhos dela brilharam ao ver o lho atravessando o salão em sua direção.

– Olá, mamãe – disse Alex com carinho, e se inclinou para dar um beijo no rosto dela.

– Ah, Alex – falou Eugenia em um tom irônico, erguendo o rosto para receber o beijo do lho –, que prazer comparecer a um evento e encontrar você.

Era fácil ver de quem Alex havia herdado a língua cáustica.

– É sempre um prazer, mamãe.

– Sei disso, meu bem. Agora me diga: onde está aquela moça encantadora que arrancou você de seu esconderijo?

Ela esticou o pescoço em busca dos conhecidos cabelos ruivos de Emma.

– Na verdade, não a vejo desde que dancei com ela, cerca de meia hora atrás.

– Eu a vi saindo para o jardim – comentou Sophie em um tom bastante signi cativo.

Alex devolveu a ela um olhar fulminante.

– Achei que você estivesse planejando se afastar da sociedade.

Sophie abriu um largo sorriso e passou as mãos pelo abdômen ainda liso.

– Já completei quatro meses, mas ainda não está aparecendo. Não é uma sorte?

– Para você, talvez. Quanto a mim, estou prendendo a respiração de ansiedade para ver você redonda como um novilho.

– Seu monstro! – disse Sophie, pisando no pé do irmão.

Alex deu um sorriso travesso.

– Ah, minha doce irmã bovina.

– Ora, é uma pena que Emma não esteja aqui – disse Eugenia, fazendo questão de ignorar a briguinha dos dois. – Gosto muito da companhia dela. Quando você disse que iria pedi-la em casamento, Alex?

– Não disse.

– Hum, eu poderia jurar que ouvi você mencionar alguma coisa a respeito.

– Deve ter sido o meu gêmeo mau – retrucou Alex, sem se deixar abalar.

Eugenia preferiu ignorar o sarcasmo dele.

– Sinceramente, querido, você se mostrará um tolo se a deixar escapar.

– A senhora já mencionou isso.

– Ainda sou sua mãe, você sabe.

– Acredite em mim, eu sei.

– Você deveria me ouvir. Sei o que é melhor para você.

Alex deu um sorrisinho torto.

– Eu acho que a senhora acha que sabe o que é melhor para mim.

Eugenia o encarou com severidade.

– Que homem difícil.

Sophie, que estava calada de um modo que não lhe era comum, subitamente se manifestou.

– Acho melhor deixá-lo em paz, mamãe.

– Obrigado – falou Alex, agradecido.

– A nal, acho que, mesmo se ele a pedisse em casamento, Emma não aceitaria.

Alex se irritou. É claro que Emma teria… Ele deu um sorriso exageradamente doce para a irmã.

– Você está tentando me irritar.

– Sim, acho que estou. Supostamente, é isso que as irmãs fazem.

– Não está funcionando.

– É mesmo? Acho que funcionou lindamente. Você cerrou o maxilar de forma magní ca quando eu disse que ela não quer você.

– Ah, como eu adoro a minha família – declarou Alex com um suspiro.

– Anime-se, querido – disse a duquesa, sorrindo. – Somos melhores do que a maioria, sabe? Acredite em mim.

– Eu acredito – disse ele, e se inclinou para dar outro beijo carinhoso no rosto da mãe.

– Ah, veja! – exclamou Eugenia subitamente, indicando a pista de dança. – Lá está o seu amigo, Dunford, dançando com Belle Blydon. Talvez você deva pedir a ela a próxima dança. Belle é um amor de moça, eu não gostaria de vê-la aborrecida por não ter um par para a próxima dança.

Alex olhou para a mãe com descon ança.

– Raramente faltam admiradores para lady Arabella.

– Sim, bem, quer dizer, sempre há uma primeira vez, e eu detestaria vê-la magoada.

– Está tentando se livrar de mim, não é, mamãe?

– Sim, estou, e você está tornando a tarefa extremamente difícil.

Alex suspirou enquanto se preparava para pedir a próxima dança a Belle.

– Por favor, tente não planejar a minha ruína durante minha ausência.

Quando Alex com certeza não podia mais ouvi-las, Eugenia se virou para a lha e disse:

– Sophie, precisamos agir de forma de nitiva.

– Concordo plenamente. Embora eu não esteja bem certa de qual tipo de movimento decisivo precisamos fazer.

– Andei re etindo sobre o assunto.

– Tenho certeza disso – murmurou Sophie, disfarçando um sorriso.

Eugenia lançou um olhar rme para a lha, mas ignorou o comentário.

– E acho que precisamos de um m de semana no campo.

– E como a senhora pretende fazer isso? Vai forçar Alex a acompanhá-la a Westonbirt e torturá-lo até que ele concorde em pedir Emma em casamento?

– Bobagem. Vamos convidar os Blydons a se juntarem a nós. E, é claro, vamos insistir para que levem a querida sobrinha.

– Isso é brilhante! – exclamou Sophie.

– Então daremos um jeito de deixar os dois sozinhos sempre que possível.

– Exatamente. Vamos encorajar os dois a fazerem piqueniques, a passearem a cavalo pelo bosque… esse tipo de coisa – disse Sophie, e então fez uma pausa e cerrou os lábios, pensativa: – Alex vai perceber o que estamos fazendo, é claro.

– É claro.

– Mas não acho que vá se importar. Ele está tão obcecado por Emma que vai fazer qualquer coisa para car a sós com ela… mesmo que isso signi que aceitar seus estratagemas nada sutis.

– Talvez ele simplesmente aproveite a iniciativa para comprometê-la.

Eugenia juntou as mãos em uma expressão de deleite diante da possibilidade.

– Mamãe! – exclamou Sophie. – Não consigo acreditar que a senhora disse isso. Não consigo acreditar que sequer pensou nisso.

Eugenia deixou escapar o típico suspiro de exaustão das mães.

– Na idade em que estou, acho cada vez menos necessário ter qualquer tipo de escrúpulos. Além do mais, apesar de seus modos libertinos, Alex é um homem honrado.

– Sim, é claro. A nal, Alex só tem 29 anos. Eu imaginaria que ele ainda tem algum tipo de escrúpulo.

Eugenia estreitou os olhos verdes.

– Está fazendo graça comigo, Sophie?

– Com certeza.

– Humpf. Espero que esteja se divertindo.

Sophie assentiu com entusiasmo.

– O que eu estava tentando dizer – continuou Eugenia – é que se, por acaso, Alex comprometer a cara Srta. Dunster de alguma forma…

– Se ele a violar, a senhora quer dizer – interrompeu Sophie.

– Como você preferir. Mas se algo assim acontecer no… bem, no calor da paixão… temos que concordar que ele se sentiria obrigado a se casar com ela, por uma questão de honra.

– Não acha que esse é um modo um tanto dramático de fazer seu

lho se casar? – perguntou Sophie, ainda incapaz de acreditar que estava

discutindo um assunto tão delicado com a mãe. – E quanto a Emma? Veja bem, ela talvez não se sinta exatamente animada com a ideia de ter a reputação comprometida.

Eugenia encarou xamente a lha.

– Você gosta dela?

– É claro que sim.

– Quer que Alex se case com ela?

– É claro que quero. Adoraria ter Emma como cunhada.

– Consegue imaginar alguma outra mulher capaz de fazer o seu irmão mais feliz?

– Bem, não… na verdade, não.

Eugenia deu de ombros.

– Os ns justi cam os meios, minha querida, os ns justi cam os meios.

– Não consigo acreditar que a senhora se tornou uma estrategista – comentou Sophie em um sussurro. – E mais: a senhora não tem como ter certeza de que ele vai mesmo comprometer a honra dela.

A expressão de Eugenia era pura presunção.

– Ele com certeza vai tentar.

– Mamãe!

– Ora, vai mesmo. Tenho certeza disso. Conheço um libertino quando vejo um, mesmo que esse libertino seja o meu próprio lho. Principalmente quando ele é o meu próprio lho – disse a duquesa, e se virou para Sophie com um sorriso de quem conhecia o mundo. – Ele se parece muito com o pai, sabe?

– Mamãe!

O sorriso de Eugenia ia se abrindo mais conforme ela se perdia em suas lembranças.

– Alex nasceu apenas sete meses depois do nosso casamento. Seu pai era um amante e tanto.

Sophie levou a mão à testa.

– Nem mais uma palavra, mamãe. Eu realmente não quero saber detalhes da vida íntima dos meus pais – disse Sophie, soltando um suspiro profundo. – Pre ro pensar em vocês dois como seres completamente castos.

– Se fôssemos completamente castos, minha cara – falou Eugenia, rindo e cutucando a lha com o dedo, sem a menor cerimônia –, você não estaria aqui agora falando sobre o assunto.

Sophie enrubesceu.

– Ainda assim, pre ro não ouvir.

Eugenia deu uma palmadinha confortadora no braço da jovem.

– Se isso faz com que se sinta melhor…

– Faz, acredite em mim. Não consigo acreditar que a senhora está me contando essas coisas.

Eugenia sorriu e balançou a cabeça.

– Temo que o decoro tenha ido embora junto dos escrúpulos.

E, com isso, a duquesa saiu andando em meio aos convidados, em busca de lady Worth.

 

Enquanto isso, Belle e Dunford estavam se divertindo imensamente valsando ao redor do salão de baile. A valsa ainda era um ritmo relativamente novo, que alguns consideravam escandaloso, mas Belle e Dunford o apreciavam muito, e não só porque aborrecia os mais sérios da sociedade. O amor deles por aquele ritmo vinha principalmente do fato de que a valsa permitia ao casal conversar de verdade sem que um ou outro tivesse que dar as costas a toda hora. Os dois tiravam vantagem disso e se encontravam em meio a um debate bastante acalorado sobre uma ópera que tinham visto recentemente, quando Dunford mudou abruptamente de assunto.

– Ele está apaixonado pela sua prima.

Belle era amplamente reconhecida como uma das dançarinas mais graciosas da aristocracia, mas daquela vez não perdeu apenas um passo, mas três.

– Ele disse isso? – perguntou, estupefata.

Dunford conduziu-a com gentileza de volta ao ritmo da música.

– Bem, não nessas palavras exatas – admitiu –, mas conheço Ashbourne há dez anos e, acredite em mim, ele nunca cou assim tão bobo por causa de uma mulher antes.

– Eu di cilmente chamaria se apaixonar de bobeira.

– Não é esse o ponto e você sabe disso, Arabella, minha cara.

Dunford parou por um momento para sorrir inocentemente para Alex, que acabara de avistá-los do outro lado do salão. Então virou-se para Belle e voltou a falar:

– O fato é que ele está absolutamente louco por ela, mas temo que tenha en ado com tanta rmeza na cabeça a ideia de que não vai se casar até ter quase 40 anos que não fará nada a respeito.

– Mas por que ele é tão radicalmente contra a ideia de se casar agora?

– Quando Ashbourne foi apresentado à sociedade, ele já havia herdado o título, e também era absurdamente rico.

– E muito bonito.

Dunford abriu um sorriso irônico.

– Foi um verdadeiro frenesi. Todas as damas solteiras… e até algumas casadas… passaram a disputá-lo.

– Eu presumiria que ele acharia lisonjeira toda essa atenção – falou Belle.

– Na verdade, foi exatamente o oposto. Ashbourne não é cego. Estava muito claro que a maioria das mulheres que se atiravam em cima dele estava mais interessada em se tornar uma duquesa rica do que em conhecê-lo melhor. Toda a experiência acabou fazendo com que ele se retirasse da cena social. Logo depois ele partiu para lutar na Península e não acho que seu desejo de se alistar tenha sido apenas por fervor patriótico. Alex não tem a maior parte das mulheres em grande conta – disse Dunford, e então parou e encarou Belle diretamente. – Até você precisa admitir que a maior parte das damas da aristocracia é completamente absurda.

– É claro, mas Emma não é assim, e Ashbourne sabe disso. É de imaginar que ele caria eufórico por encontrar alguém como ela.

– Isso seria o mais sensato, não é mesmo?

A música parou e Dunford pegou o braço de Belle, conduzindo-a até a lateral da pista de dança.

– Mas, em algum momento ao longo do caminho, essa descon ança em relação às mulheres se traduziu em uma determinação de evitar o casamento enquanto for humanamente possível, e imagino que Alex já tenha até esquecido a razão pela qual se tornou tão radicalmente contra isso.

– Mas essa é a coisa mais estúpida que eu já ouvi!

Antes que Dunford pudesse responder, eles ouviram uma voz profunda e uma risada baixa.

– Já ouvi muitas coisas estúpidas na vida, Belle. Estou profundamente curioso para ouvir a maior de todas.

Horrorizada, Belle ergueu os olhos para Alex, que estava parado diante dela para convidá-la para dançar.

Belle tentou desesperadamente improvisar.

– Hum… Dunford parece achar que... nas óperas... as pessoas deveriam cantar menos.

– É mesmo?

– Sim. Ele acha que deveriam falar mais.

Ansiosa, Belle olhou para Alex, sabendo que ele não havia acreditado em uma só palavra do que ela dissera. Mas ao mesmo tempo achava que o duque não tinha ouvido a conversa sobre ele e sentia-se imensamente grata por isso. Como não conseguiu pensar em mais nada para dizer, Belle abriu um sorrisinho que sabia ser muito sem graça.

– Minha mãe ordenou que eu a convidasse para dançar, Belle – declarou ele com sinceridade, sorrindo e ignorando a óbvia a ição da jovem.

– Nossa – retrucou Belle –, não imaginei que a minha popularidade havia descido a ponto de os homens precisarem ser forçados pela mãe a me convidarem para dançar.

– Não se preocupe. Minha mãe está simplesmente tentando se livrar de mim, para que ela e a minha irmã possam se meter na minha vida sem minha interferência.

– Planejando o seu casamento, imagino – presumiu Dunford.

– Sem dúvida.

– Com Emma.

– Sem dúvida.

– Você poderia muito bem ceder de uma vez e pedi-la em casamento.

Alex pegou o braço de Belle e se preparou para conduzi-la à pista de dança.

– Pode esperar sentado. Não sou do tipo que se casa.

– Ora – declarou Belle com um toque de irritação –, nem ela!

 

De volta ao corredor lateral, Emma aterrissara no chão com a saia completamente bagunçada e nem um pingo de dignidade. Alguém havia deixado a porta lateral aberta, mas sem nenhuma vela iluminando o corredor. Emma não vira a porta até estar diretamente na frente dela. Nem sequer tentou abafar um gemido enquanto se colocava de pé lentamente, virava o pescoço e estendia os braços e as pernas para aliviar as juntas doloridas. Enquanto esfregava distraidamente as costas, Emma se viu desejando ardentemente que os Lindworthys tivessem pensado em colocar um tapete no corredor.

– Está absolutamente claro que Alexander Ridgely é um perigo para a minha saúde – murmurou, continuando a conversa consigo mesma que começara no jardim. – Eu deveria me esforçar para manter distância dele.

– Concordo plenamente.

Emma se virou, chocada, e se viu diante de um homem de cabelos claros, elegantemente vestido, aparentando ter cerca de 30 anos. Ela o reconheceu imediatamente como Anthony Woodside, visconde Benton.

Emma gemeu internamente. Ela havia sido apresentada a Woodside durante as primeiras semanas da temporada social e desgostara dele na mesma hora. O visconde vinha importunando Belle havia mais de um ano e não a deixava em paz, apesar dos esforços da jovem para desencorajá-lo. Emma havia tentando ao máximo evitá-lo nos eventos seguintes, mas com frequência acabava se vendo obrigada a lhe conceder uma dança por educação. Não havia nada abertamente ofensivo em relação a Woodside, seus modos eram sempre corretos e ele era um homem obviamente inteligente. O pouco apreço de Emma pelo visconde era uma reação aos aspectos mais sutis de seu caráter. O tom da voz, o modo como olhava para ela, a inclinação da cabeça ao examinar o salão de baile – tudo aquilo, por algum motivo, deixava Emma muito desconfortável em sua presença. Woodside era um homem estranho, aparentemente cortês com ela, mas ao mesmo tempo um tanto desdenhoso pelo fato de ela ser americana e não ostentar um título. E, acima de tudo, Alex parecia detestá-lo.

Portanto, naturalmente, Emma não cou nem um pouco satisfeita ao se ver diante dele no corredor dos Lindworthys.

– Boa noite, milorde.

Emma dirigiu-se a ele com educação, tentando ignorar o fato de estar completamente sozinha, longe da festa, e de ter acabado de literalmente cair dentro do corredor, ao voltar do jardim.

Emma rezou para que ele não a tivesse visto esparramada no chão, mas bastou uma olhada no sorriso irônico do visconde para saber que não tinha tido essa sorte.

– Espero que não tenha se machucado na queda.

Ela cou profundamente aborrecida ao perceber que ele dissera aquelas palavras com os olhos xos nos seios dela. Emma estava muito desconfortável, louca para puxar o decote para cima, mas não daria ao desprezível visconde a satisfação de perceber que ele a enervava.

– Agradeço muito sua preocupação, milorde – falou Emma entre dentes. – Mas posso lhe garantir que estou ótima. Agora, se me der licença, no entanto, preciso mesmo voltar para a festa. Minha família deve estar sentindo minha falta.

Ela começou a se afastar, mas Woodside rapidamente agarrou seu braço. Não foi um toque bruto ou cruel, mas ele a segurava com rmeza, deixando claro que não tinha a intenção de soltá-la.

– Minha cara Srta. Dunster – disse em um tom suave, a voz contrastando com o toque de aço no braço dela. – Estou intrigado com a sua presença em um corredor vazio, precisamente neste momento.

Emma não disse nada.

Woodside apertou-a com um pouco mais de força.

– Nenhuma resposta na ponta da língua, Srta. Dunster? Onde está sua famosa espirituosidade?

– Minha espirituosidade é reservada aos meus amigos – retrucou ela em um tom gelado.

– E à sua família?

Emma o encarou confusa, sem saber muito bem o que ele queria dizer com aquele comentário.

– Tenho a sensação, Srta. Dunster, de que nós dois logo seremos muito mais próximos do que meros amigos.

Ele soltou o braço dela abruptamente, e Emma se afastou.

– Se acha que eu me dignaria…

Woodside deixou escapar uma gargalhada diante da determinação ardente na voz dela.

– Sinceramente, Srta. Dunster, eu não teria a mim mesmo em tão alta conta se fosse a senhorita. Concordo que é uma mulher atraente, mas lhe falta o pedigree que exijo em uma mulher.

Emma recuou um passo, se perguntando se ele estava falando dela ou de um cavalo.

– Sou um Woodside. Podemos até nos deitar com americanas de cabelos espalhafatosos, mas certamente não nos casamos com elas.

Emma levantou rapidamente a mão livre para esbofeteá-lo, mas o visconde bloqueou o golpe.

– Ora, ora, Srta. Dunster, em seu lugar eu não tentaria me enfrentar. A nal, depois que eu me casar com a sua prima, posso facilmente proibi-la de se relacionar com a senhorita.

Emma riu ao ouvir isso.

– E acha mesmo que Belle se casaria com o senhor? Ela mal consegue suportá-lo durante uma dança.

Woodside apertou os pulsos dela com mais força até Emma não conseguir conter um gemido de dor. A a ição dela deu prazer a ele, e os olhos pálidos cintilaram perigosamente sob a penumbra do corredor. Emma ergueu o queixo com determinação e o visconde a soltou abruptamente, fazendo com que ela cambaleasse alguns passos.

– Não perca seu tempo com Ashbourne, minha cara. Ele jamais se casaria com alguém como a senhorita.

E, com isso, Woodside riu, fez uma reverência elegante e desapareceu na escuridão.

Emma esfregou os pulsos doloridos, ligeiramente desconcertada com aquele encontro. Como não poderia permanecer no corredor a noite toda, começou a abrir e fechar portas silenciosamente em busca do lavatório. Depois de cerca de cinco tentativas, en m o encontrou e se esgueirou para dentro, fechando a porta pesada atrás de si. Uma vela havia sido deixada acesa dentro de um lampião, iluminando fracamente o pequeno cômodo. Emma gemeu ao ver o estrago no espelho. Estava totalmente desarrumada. Logo decidiu que não tinha o talento necessário para refazer o penteado, por isso tirou os grampos e deixou-os em cima da bancada – que os Lindworthys pensassem o que quisessem ao encontrar aquela pilha de grampos no dia seguinte. Pegou a presilha cravejada de esmeraldas que originalmente mantinha o coque no lugar e usou-a para prender a parte da frente dos cabelos no topo da cabeça, permitindo que algumas mechas emoldurassem suavemente seu rosto.

– Isso deve servir – sussurrou. – Com sorte, ninguém vai perceber que mudei o penteado. Uso os cabelos assim na maior parte do tempo mesmo.

Uma rápida inspeção no vestido revelou que, além um pouco de grama presa à bainha, não houvera nenhum dano permanente. Ela removeu as folhas e deixou-as em cima da bancada, junto dos grampos. Mais um mistério para os Lindworthys decifrarem no dia seguinte, pensou, consolando-se com a ideia de que talvez estivesse tornando a vida dos an triões mais interessante. Emma examinou a bainha mais uma vez em busca de folhas perdidas, dando-se conta de que ao menos o vestido era verde e camu aria caso alguma passasse. Era mais importante do que nunca que ninguém soubesse por onde ela andara. Não seria tão ruim se alguém espalhasse que ela estivera sozinha com Alex. Mas se alguém achasse que havia passado algum tempo sozinha com Woodside… isso ela não suportaria. Emma ainda não conseguia acreditar que o homem realmente achava que Belle se casaria com ele. Provavelmente tinha sido a isso que se referira ao dizer que um dia ele e Emma seriam mais do que amigos. Emma estremeceu de nojo e tentou tirar Woodside da cabeça.

Então pousou a mão na maçaneta da porta do lavatório e respirou fundo para recuperar a compostura. Os sapatos estavam inegavelmente molhados, mas não havia muito que pudesse fazer a respeito, por isso voltou pelo corredor escuro, torcendo para conseguir fazer todo o caminho sem mais nenhum incidente.

De volta ao salão de baile barulhento, Emma en ou a cabeça pela porta, buscando ansiosamente algum rosto conhecido, até seu olhar pousar em Belle. Ela nunca havia se sentido tão aliviada na vida. No entanto, um exame mais cuidadoso da cena revelou que Belle estava com Alex e Dunford, e Emma se resignou ao fato de não poder conversar com a prima em particular. Depois de cerca de trinta segundos fazendo gestos bizarros com a mão e rezando para que ninguém a visse, ela nalmente conseguiu chamar a atenção da prima, e Belle veio correndo até ela, com os dois homens logo atrás.

– Onde você estava? – perguntou Belle, preocupada. – Eu procurei você por toda parte.

– Digamos que eu estava ocupada – comentou Emma com ironia.

Ela repousou o olhar signi cativamente no rosto de Alex. A conversa silenciosa não escapou a Belle, e ela se virou para Alex, com as mãos na cintura.

– Santo Deus – murmurou Dunford, a voz arrastada. – Eu me sinto extremamente grato por não ser o alvo de tantos olhares letais.

– Meu olhar não foi letal – retrucou Emma, encarando Dunford de um modo que chegava bem perto disso. – Estava só dando um olhar signi cativo para Alex. Seja como for, está tudo resolvido e não foi nada muito importante.

Alex tou-a, pensando consigo mesmo que havia sido, sim, muito importante. E, mais do que isso, estava longe de estar resolvido.

– A questão é – disse Emma, voltando-se para Belle e dirigindo-se à prima em voz baixa – que mudei de ideia, e não estou com disposição para entrar em uma discussão com tio Henry e tia Caroline por causa do vestido.

Para não mencionar Alex.

– Ótima decisão – concordou Belle.

Emma se virou novamente para os dois homens.

– Se vocês dois pudessem ir pegar o meu xale, eu caria muito grata.

– Não vejo por que seriam necessários dois homens adultos para pegar um mero xale – argumentou Dunford.

– Dunford – disse Belle em um tom determinado. – Poderia apenas fazer o que ela pediu, por favor?

Dunford resmungou alguma coisa sobre loiras hostis, mas obedeceu e atravessou o salão em busca do xale de Emma. Depois de algumas sugestões sutis e até um cutucão, Alex foi persuadido a se juntar ao amigo. Os dois voltaram bem a tempo, porque poucos segundos depois de Emma ter passado o xale ao redor dos ombros, lady Worth apareceu de repente, com um largo sorriso iluminando o rosto.

– Tenho uma notícia maravilhosa – falou, virando-se para as duas moças. – Eugenia convidou todos nós para um m de semana em sua casa de campo. Não é maravilhoso, Alex? – perguntou por m, inclinando ligeiramente a cabeça na direção dele.

– Maravilhoso – retrucou Alex com um sorriso tenso, sem conseguir se decidir se queria agradecer à mãe ou esganá-la.

Caroline se virou novamente para Belle e Emma.

– Henry está com dor de cabeça e temo que tenha chegado a hora de nos despedirmos – disse, e então se voltou mais uma vez para Alex e Dunford. – Lamento profundamente, mas estou certa de que compreendem…

Antes que qualquer um dos dois pudesse responder, Caroline já havia se afastado com as duas moças a reboque e, em questão de minutos, toda a família Blydon estava acomodada na carruagem.