Esplêndida

Julia Quinn · Capítulo 12 de 27

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Esplêndida

Capítulo 11

 

Emma percebeu na mesma hora o brilho predador nos olhos de Alex e se preparou para o ataque dele.

Bem, talvez se “preparou” não fosse o termo mais preciso, decidiu ao reconhecer o frio na barriga e a respiração acelerada. Emma deixou escapar um suspiro baixo e se amaldiçoou pela própria fraqueza sempre que estava perto daquele homem. Ela levantou os olhos para o belo rosto que se tornara tão dolorosamente familiar. Os olhos verdes de Alex cintilavam com a promessa de algo que Emma não conseguia entender muito bem, mas que desejava mesmo assim. Ela engoliu com di culdade e umedeceu os lábios, perdida naquele olhar de esmeralda. Então mordeu o lábio inferior, nervosa, e baixou os olhos. Para ser honesta consigo mesma – e Emma tentava desesperadamente fazer isso, por mais difícil que fosse –, precisava admitir que não estava se “preparando” para nada. Na verdade, estava esperando ansiosamente pelo próximo movimento de Alex.

Mas no m das contas foi em vão, porque Alex não a “atacou”, e logo

cou claro que não tinha qualquer intenção de fazer nada parecido.

Quando Emma se virou, ele não estendeu a mão para tocar o queixo dela, para fazer com que ela o encarasse. Também não fez qualquer tentativa de puxá-la para os seus braços. Em vez disso Alex se virou para a garrafa de vinho esquecida à sua direita e se ocupou em abri-la.

Emma prendeu uma mecha rebelde dos cabelos ruivos atrás da orelha e suspirou de novo, se perguntando por quanto tempo os dois continuariam naquele estado de tensão quase constante. Ela não tinha a mínima ideia de como a situação poderia ser resolvida, nem imaginava qual seria o desfecho, mas sentia que alguém teria que fazer alguma coisa, e logo. Emma levantou os olhos para Alex, que acabava de remover a rolha com um oreio.

– Precisa de ajuda com alguma coisa? – perguntou ela com educação, se repreendendo mentalmente por não ter coragem de dizer nada mais ousado.

A rolha emitiu um estalo alto ao sair da garrafa. Alex olhou para Emma, que estava sentada tranquilamente, a saia espalhada ao redor das pernas.

– Ora, acho que você poderia desembalar o que trouxemos para o almoço – respondeu ele, e pegou a bolsa.

As mãos deles se tocaram brevemente quando Alex entregou a bolsa a Emma. Ela sentiu um arrepio intenso percorrer o braço, que afastou quase involuntariamente, surpresa com a intensidade da própria reação a um toque tão breve. Alex afastou os olhos com a mesma rapidez, mas ela poderia jurar ter visto um sorriso tímido em seus lábios antes de ele se dedicar à tarefa de servir o vinho. Santo Deus, devia estar cando maluca se achava que Alex algum dia experimentaria qualquer emoção semelhante à timidez.

Enquanto isso Alex se perguntava como seria capaz de manter as mãos longe de Emma se continuasse a olhar para ela por mais um segundo que fosse.

– Me conte sobre a sua infância – pediu ele rapidamente, ansioso para concentrar a conversa em um tópico que não tomasse um rumo sedutor.

– Minha infância? – repetiu Emma, pegando a taça de vinho que Alex lhe estendeu. – O que você quer saber?

– Qualquer coisa – respondeu ele, inclinando o corpo preguiçosamente para trás e se apoiando nos cotovelos.

– Tenho 20 anos – lembrou ela com um brilho divertido nos olhos. – É bastante tempo de vida para contar em uma tarde.

– Então me conte qual foi a pior coisa que você já fez.

– A pior coisa? – perguntou Emma, tentando sem sucesso parecer afrontada, uma vez que não conseguiu conter uma risadinha. – Então você acha que fui uma criança travessa?

– É claro que não – respondeu Alex, em um tom tranquilo.

Ele bebeu um gole de vinho antes de pousar a taça em uma parte plana do terreno. Um sorriso malicioso se abriu lentamente em seu rosto.

– Imagino que você tenha sido um diabrete.

Emma riu com vontade e pousou sua taça ao lado da dele.

– Bem, certamente era o que eu parecia. – Ela enrolou um cacho do cabelo ao redor dos dedos – Se acha que meu ruivo é intenso agora, deveria ter me visto aos 10 anos. Eu parecia uma cenoura.

Alex sorriu ao pensar em uma Emma em miniatura, correndo pela casa em Boston.

– E tinha muitas sardas – continuou ela.

– Ainda tem algumas, na ponte do nariz – comentou ele, sem conseguir se conter ao pensar em como gostaria de beijar cada uma delas.

– Não é nada cavalheiro da sua parte reparar – falou Emma, rindo –, mas a verdade é que já me resignei ao fato de que nunca vou me livrar completamente dessas manchas miseráveis.

– Acho que são adoráveis.

Emma desviou os olhos, um pouco surpresa com o elogio carinhoso.

– Ah. Nossa, obrigada.

– Mas você ainda não respondeu à pergunta.

Ela voltou a olhar para ele, sem entender direito.

– Sobre a pior coisa que você fez quando criança – lembrou Alex.

– Ah – disse Emma, ainda tentando adiar a resposta. – Ora, foi bem terrível.

– Mal posso esperar para ouvir.

– Você não está entendendo, estou querendo dizer que foi pavoroso.

– Você só está conseguindo me deixar mais curioso, meu bem – falou Alex, com um sorriso se insinuando no rosto moreno.

– Não vou conseguir evitar, não é?

– Sou o único aqui que conhece o caminho de volta para casa.

O sorriso travesso de Alex dizia a Emma que ele sabia que a colocara em uma encruzilhada.

– Ah, que seja então – falou Emma com um suspiro, aceitando a derrota. – Eu tinha 13 anos. Você sabe que o meu pai é dono de um estaleiro, certo?

Alex assentiu.

– Bem, sou lha única, adoro o mar e também sou muito boa com números, sabe? En m, sempre planejei assumir os negócios em algum momento.

– Não há muitas mulheres administrando grandes estaleiros – comentou Alex baixinho.

– Até onde eu sei, não há nenhuma – continuou Emma. – Mas eu não me importava… eu não me importo. Às vezes precisamos ser pouco convencionais para realizar os nossos sonhos. E quem melhor para administrar o negócio do que eu? Conheço o estaleiro como ninguém, à exceção do meu pai, é claro.

Emma o encarou com uma expressão desa adora.

– Você tinha 13 anos… – disse Alex com uma expressão indulgente, lembrando-a de voltar à história.

– Está certo. Bem, decidi que o meu pai estava demorando demais para começar a me ensinar a respeito do negócio. Eu já tinha ido milhares de vezes ao escritório de Boston, e ele até me deixava opinar toda vez que precisava tomar uma grande decisão. Não sei se algum dia seguiu algum dos meus conselhos – falou Emma, pensativa –, mas pelo menos sempre me deixava dar palpite. Eu também conferia os livros de contabilidade para garantir que não estavam cometendo nenhum erro.

– Você conferia os livros de contabilidade aos 13 anos? – perguntou Alex, incrédulo.

– Eu disse que sou boa em matemática – retrucou ela, na defensiva. – Sei que a maioria dos homens tem di culdade de acreditar que uma mulher possa ser habilidosa com números, mas eu sou. E encontrava alguns erros. Cheguei até a descobrir que um funcionário estava enganando o meu pai.

– Não se preocupe, meu bem – falou Alex, rindo. – Já aprendi a não me surpreender com nenhum dos seus talentos ocultos.

– Então eu decidi que estava na hora de aprender sobre a dinâmica nos barcos. Meu pai sempre diz que não se pode ter sucesso administrando um estaleiro se não se sabe nada sobre a vida no mar.

Alex soltou um grunhido.

– Não sei se quero ouvir o resto da história.

– Bem, então vou parar por aqui – falou Emma, esperançosa.

– Eu estava brincando – falou ele em um tom falsamente ameaçador, erguendo uma sobrancelha e encarando-a com os olhos cor de esmeralda.

– Para encurtar o assunto – continuou Emma, sem querer se arriscar a contrariá-lo –, eu embarquei em um dos nossos navios.

Alex sentiu uma raiva irracional crescer no peito.

– Você é maluca? – perguntou, furioso. – Sabe o que poderia ter acontecido? Marinheiros podem ser absolutamente inescrupulosos. Principalmente quando não veem mulheres há meses – acrescentou, muito sério.

– Sinceramente, Alex, eu tinha só 13 anos.

– A sua idade provavelmente não teria a menor importância para eles.

Em um gesto nervoso, Emma esfregou o tecido azul-escuro do traje de montaria, sentindo-se um pouco desconfortável com a intensidade da reação de Alex.

– Posso garantir, Alex, que já ouvi tudo isso do meu pai vezes sem conta. Não preciso de uma bronca sua também. Eu não deveria nem estar contando isso.

Alex suspirou, consciente de que sua reação fora exagerada. Ele se inclinou para a frente, pegou gentilmente a mão de Emma que segurava a saia com força e levou-a aos lábios, em um gesto de arrependimento.

– Desculpe, meu bem – disse com a voz suave. – Mas é que me sinto mal só de pensar que você se colocou em uma situação perigosa inadvertidamente, mesmo que isso tenha acontecido sete anos atrás.

Emma sentiu o coração se aquecer diante do tom carinhoso e por saber que ele se preocupava tanto com ela.

– Não precisa se preocupar. Tudo acabou bem, e não sou tão cabeça-dura quanto a história talvez o leve a crer.

Alex continuou a acariciar a mão dela com o polegar.

– É mesmo?

– Eu não embarquei simplesmente em um velho navio qualquer – falou ela, tentando ignorar o calor que emanava da mão dele. – Um dos nossos capitães é também um amigo muito próximo da família, como se fosse um tio para mim. Eu jamais embarcaria clandestinamente em qualquer outro navio que não o do capitão Cartwright. Eu sabia que ele pretendia partir às oito da manhã, por isso fugi de casa na noite anterior…

– O quê? – falou Alex, apertando a mão dela com mais força. – Você

cou andando sozinha por Boston no meio da noite? Sua tolinha!

– Ah, que quieto. Não foi no meio da noite. Só me pareceu assim porque eu estava nervosa demais para dormir. Provavelmente foi perto das cinco da manhã. O sol já tinha começado a nascer. Além do mais – falou Emma, em um tom acusador –, você prometeu que não ia me dar sermão.

– Não prometi nada.

– Bem, mas deveria – retrucou Emma em um tom desa ador, puxando a mão e pegando a taça.

– Muito bem – concordou Alex, rolando para o lado e apoiando a cabeça em um dos cotovelos. – Prometo não interromper.

– Ótimo – disse Emma, dando um gole no vinho.

– Mas não vou prometer não lhe dar um sermão quando você terminar.

Emma lhe lançou um olhar impertinente.

– Também não vou prometer não obrigar você a prometer que não vai se envolver em outro esquema absurdo desses no futuro.

– Por favor, um pouco de crédito ao meu bom senso – disse ela, revirando os olhos. – Eu di cilmente me esgueiraria para dentro de um navio hoje.

– Sim, mas só Deus sabe o que mais você poderia fazer – resmungou Alex.

– Posso terminar?

– Por favor.

– Bem, eu saí escondida de casa de manhã cedo, o que não foi exatamente fácil, considerando que meu quarto ca no segundo andar.

Alex grunhiu.

– Minha sorte é que havia uma árvore diante da janela e então eu desci por ela – continuou Emma. – Precisei pular da janela e me agarrar ao galho do carvalho, chegar ao tronco e só então descer até o chão.

Emma olhou para Alex para ver se ele estava prestes a interrompê-la de novo. Alex fez questão de não dizer nada.

– Uma vez no chão – continuou Emma –, não foi muito difícil seguir até as docas e entrar no navio.

– Seu pai não sentiu sua falta? – perguntou Alex.

– Ah, eu já tinha tudo planejado – falou Emma, muito desenvolta. – Ele sempre sai para o escritório muito cedo pela manhã. Nunca teve o hábito de passar pelo meu quarto antes de sair, com medo de me acordar. Tenho o sono muito leve – explicou ela com empolgação nos olhos violeta.

Alex sorriu, pensando que era bom saber logo desse detalhe.

– E quanto aos criados? – perguntou ele. – Com certeza um deles perceberia que você não estava em casa.

– Nós não vivemos da forma grandiosa que vocês vivem aqui – esclareceu Emma com um sorrisinho. – Não empregamos uma horda de criados. Mary, a governanta, costumava me acordar às sete e meia…

– Que horário de bárbaros – murmurou Alex.

Emma torceu os lábios e o encarou com uma expressão de leve reprovação.

– Em Boston, também não dormimos nas horas loucas que vocês costumam dormir aqui.

– Que provinciano – comentou ele com ironia, só para provocá-la.

Quase funcionou. Ela começou a balançar o indicador para ele, então parou, a mão ainda erguida no ar.

– Pensando melhor – disse, lentamente, estreitando os olhos –, não vou me dignar a discutir esse assunto com você.

– Estou arrasado – respondeu Alex.

Então pegou a mão dela e, com um gesto rápido, puxou-a para junto de si. Emma deu um gritinho quando aterrissou junto ao corpo forte dele, as pernas emaranhadas na saia.

– Alex! – gritou ela, tentando liberar as pernas do tecido pesado. – O que está fazendo?

Alex soltou a mão de Emma e acariciou a linha delicada do maxilar dela com o nó dos dedos.

– Eu só queria car mais perto do seu cheiro.

– O quê? – perguntou ela em um tom agudo.

– Todo mundo tem um cheiro próprio – explicou ele com a voz suave, deixando o polegar correr pelos lábios cheios. – O seu é particularmente doce.

Emma pigarreou, nervosa.

– Não quer ouvir o resto da história? – perguntou ela com a voz rouca, esforçando-se para se sentar, embora Alex não estivesse inclinado a deixá-la se afastar.

– É claro.

Ele então segurou gentilmente o lóbulo da orelha dela, entre o polegar e o indicador.

– Hum, onde eu estava?

Emma piscou algumas vezes quando se deu conta de que Alex havia tido sucesso em transformá-la em uma tonta.

– Você estava explicando por que a sua criada não percebeu que você tinha saído de casa – lembrou Alex, se perguntando se os cílios dela seriam tão macios quanto pareciam.

– Ah – disse Emma, engolindo em seco. – Bem, ela percebeu, sim, que eu saí, é claro, às sete e meia da manhã, ao entrar para me acordar. Mas eu sabia que, quando alguém nalmente procurasse o meu pai para contar do meu sumiço e ele conseguisse chegar até as docas, já estaríamos no mar.

– Então o que aconteceu? – perguntou Alex, descendo os dedos por seu pescoço.

O olhar de Emma encontrou o dele e ela cou impressionada com a paixão primitiva que viu ali.

– O que aconteceu então? – perguntou ela, zonza, sem conseguir pensar direito.

Alex deu uma risadinha, satisfeito com a reação dela à carícia.

– O que aconteceu quando seu pai percebeu que você havia partido no navio?

Emma umedeceu os lábios, baixou rapidamente os olhos e xou-os no queixo dele, o que logo descobriu ser consideravelmente menos desconcertante do que olhá-lo diretamente nos olhos.

– Bem – disse ela lentamente, tentando recuperar a compostura –, na verdade, não havia nada que ele pudesse fazer. Já estávamos longe. O problema começou quando eu nalmente me revelei ao capitão

Cartwright ao pôr do sol daquele dia. Achei que o homem ia explodir.

– O que ele fez?

– O capitão me trancou na cabine dele e fez o navio dar meia-volta.

– Um homem sensato – comentou Alex. – Preciso mandar um bilhete de agradecimento a ele.

– Ele não me deu nada para comer.

– Ótimo – falou Alex sem se deixar abalar. – Você não merecia mesmo.

– Eu estava com muita fome – falou Emma, com intensidade, tentando ignorar o calor que sentia na nuca, onde a mão de Alex descansava. – Não comia havia 24 horas quando ele me trancou na cabine, e se passaram mais oito ou nove horas até chegarmos em casa.

– Ele deveria ter dado umas boas palmadas em você.

– Meu pai se encarregou disso – retrucou Emma com uma careta. –

O meu traseiro cou tão vermelho quanto o meu cabelo durante a semana seguinte inteira.

Alex teve que se esforçar muito para resistir à tentação de deixar a mão descer pelas costas dela e apertar a parte do corpo que ela acabara de citar. Ele olhou disfarçadamente para ela, para ver se Emma tinha alguma ideia do que lhe passava pela cabeça.

Ela olhava por cima do ombro direito, com os olhos xos em algum ponto do horizonte e um sorriso de quem está perdida em lembranças. De repente, como se sentisse o peso dos olhos de Alex, ela se virou, os cabelos ondulando com a brisa e emoldurando o rosto. O sorriso delicado permaneceu, mas Alex viu a percepção se insinuando no olhar. Ele suspirou. Emma não era tola.

Inferno… provavelmente era por isso que ele gostava tanto dela.

Ela se aproveitou do breve momento de devaneio de Alex para recuar na manta de volta à sua posição original, usando a fome como desculpa.

– Estou morrendo de fome! – declarou. – O que será que a Sra. Goode preparou para nós?

Então começou a investigar o que tinham para o almoço.

– Espero que não seja nenhum dos lhotinhos da Cleópatra – comentou Alex.

Emma fez uma careta.

– Você é impossível – declarou, pegando um prato de frango assado. – Queria que ela não tivesse mandado frango…

– Por quê? – perguntou Alex, sentando-se e estendendo a mão para pegar uma coxa. – Você não gosta de frango?

Ele deu uma mordida voraz e abriu um sorriso bem-humorado. Emma pareceu preocupada.

– É que é difícil comer frango assado com os modos de uma dama.

– Então não aja como uma dama. Não vou contar a ninguém.

Emma pareceu hesitante.

– Não sei. Tia Caroline se esforçou tanto para me corrigir. Eu detestaria arruinar em um único piquenique todos os bons resultados obtidos.

– Pelo amor de Deus, Emma. Use as mãos e divirta-se.

– Tem certeza? Quando voltarmos, você não vai contar para todo mundo que eu não estava me comportando como uma dama inglesa adequada?

– Emma, eu já dei qualquer sinal de que queria que você se comportasse como uma dama inglesa adequada?

– Ah, está bem então.

Emma pegou a outra coxa e arrancou um pedaço com os dentes. Alex precisou se controlar muito para não rir quando a viu colocando o minúsculo pedaço de frango na boca.

– Agora é sua vez – disse Emma, erguendo as sobrancelhas.

Alex devolveu a expressão de desa o erguendo apenas a sobrancelha direita, com uma expressão de absoluta con ança.

– Detesto pessoas que conseguem fazer isso – sussurrou ela.

– Como?

Emma deu outra mordida minúscula no frango.

– Nada. Mas é sua vez de me contar a pior coisa que você fez quando criança.

– Acreditaria se eu dissesse que fui uma criança-modelo?

– Não – respondeu Emma na mesma hora.

– Então acreditaria que eu fui tão terrível que seria difícil contar apenas um incidente?

– Parece um pouco mais provável.

– Por que não fazemos um acordo? – sugeriu Alex, inclinando o corpo para a frente e apoiando os braços sobre os joelhos. – Que tal eu contar a história que tem a maior probabilidade de me constranger enquanto homem adulto?

– Ora, isso é intrigante – disse Emma, entusiasmada, esquecendo-se completamente da resolução de se comportar com decoro e arrancando um bom naco do frango.

– Eu tinha cerca de 2 ou 3 anos – começou Alex.

– Espere, espere – interrompeu Emma. – Está tentando me dizer que o seu momento mais constrangedor aconteceu quando você tinha 2 anos? Essa é a coisa mais absurda que eu já ouvi. As pessoas não deveriam nem ter permissão para se sentirem envergonhadas pelo que

zeram quando eram bebês.

– Vai me deixar terminar a história? – perguntou Alex, inclinando a cabeça de modo petulante.

– Com certeza – retrucou ela, acenando com a coxa de frango em um gesto magnânimo.

– Eu tinha cerca de 2 ou 3 anos.

– Você já disse isso – lembrou Emma, de boca cheia.

Alex lhe lançou um olhar aborrecido e continuou:

– A irmã da minha mãe me deu um cachorro de pelúcia de presente de Natal. Eu nunca deixava o cachorro longe da minha vista.

– Que nome você deu a ele?

Alex pareceu car tímido.

– Goggie.

Ele olhou para Emma, que tentava bravamente abafar uma risada. Ela foi rápida em abrir um largo sorriso.

– En m – continuou Alex –, eu brincava tanto com Goggie que o enchimento dele acabou saindo e eu quei arrasado. Ou ao menos é isso o que a minha mãe me diz – apressou-se a acrescentar. – Eu não me lembro de nada disso.

Emma imaginou um menino pequeno, de cabelos negros e olhos verdes, chorando a perda do brinquedo favorito, e decidiu que a imagem era adorável demais para pensar nela sem correr o risco de se apaixonar na mesma hora.

– E depois, o que aconteceu? – perguntou ela, sacudindo brevemente a cabeça para afastar o pensamento perigoso.

– Minha mãe cou com pena de mim e encheu o corpo do cachorro com meias velhas dela. E teríamos todos vivido felizes para sempre, não fosse pelo fato de… – disse Alex com um sorriso de lado – eu continuar a abusar do pobre animal, e ele voltar a rasgar a tal ponto que a minha mãe não conseguiu mais consertar.

– E?

– E essa é a parte onde a história ca constrangedora.

– Ah, ótimo.

– Ao que parece, eu não conseguia suportar a ideia de abandonar Goggie, mesmo sua morte sendo absolutamente irrevogável, e, como não podia mais arrastar o cachorro comigo, resolvi que o enchimento tomaria o lugar dele.

Alex fez uma pausa e passou a mão distraidamente pelos cabelos desarrumados pelo vento.

– Você deve lembrar – retomou ele lentamente – que a minha mãe havia gentilmente enchido o cachorro com meias, certo? Portanto, ao longo dos meses seguintes, eu andei pelos corredores de Westonbirt arrastando meias femininas comigo por toda parte.

Emma riu com gosto.

– Não acho que seja uma história constrangedora. Acho adorável.

Alex a encarou com uma expressão de severidade zombeteira.

– Você se dá conta de que eu tenho uma reputação a preservar?

– Ah, acredite em mim, estou muito ciente da sua reputação – replicou Emma, os olhos cintilando em uma expressão travessa.

Alex se inclinou para a frente e tentou parecer severo.

– Acabei de con ar a você meu segredo mais sombrio. Como acha que eu seria visto se fosse divulgado que o duque de Ashbourne passou seus primeiros anos às voltas com meias femininas?

– Ora, ora. Você não estava usando as meias femininas, estava enamorado das meias femininas. E agora, pensando a respeito… – Emma fez uma pausa e um sorriso malicioso curvou seus lábios – … faz todo o sentido. Você com certeza se interessa muito por meias femininas hoje em dia.

– O que está querendo dizer com isso?

– Sinceramente, Alex – provocou Emma. – Você sabe que tem uma reputação com as damas…

– Uma reputação que estou perdendo rapidamente, graças a você – resmungou ele.

Emma pareceu não ouvi-lo e continuou.

– Nada menos do que duas dúzias de mulheres me alertaram sobre você.

– Eu gostaria que alguém tivesse me alertado sobre você – falou ele com um suspiro.

– Como? – perguntou Emma, surpresa.

Alex se inclinou para a frente, os olhos verdes muito sérios.

– Acho que vou beijar você agora.

– V-vai? – balbuciou Emma, sentindo toda a autocon ança e compostura desaparecerem.

Alex a examinou. Os cabelos vermelhos estavam desalinhados pelo vento e agora emolduravam o rosto dela de um jeito encantador. Os olhos violeta estavam muito abertos e se iluminaram quando o viram se aproximando. Ela umedeceu os lábios em um gesto nervoso, totalmente inconsciente de seus poderes de sedução.

– Emma – falou ele com a voz rouca. – Acho que preciso beijar você. Você entende isso?

Emma assentiu, incerta, mal consciente do que dizia, já que sentia o corpo todo pegando fogo, como se o calor que parecia emanar do corpo poderoso de Alex a incendiasse.

Os olhos dele nalmente pousaram naquela boca sensual, e o último pensamento racional de Emma foi que só um desastre natural seria capaz de impedir que ele a beijasse naquele momento. Então, lentamente, Alex colou os lábios aos dela.