Esplêndida

Julia Quinn · Capítulo 15 de 27

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Esplêndida

Capítulo 14

 

No dia seguinte, Emma descobriu que o amor tinha outro sintoma: ela não conseguia comer. Ao menos não na frente de Alex. Não tinha qualquer problema para fazer isso quando não estavam no mesmo cômodo.

Quando desceu para o desjejum, Sophie, Eugenia e Belle já estavam comendo. Emma estava faminta e se sentou diante da mesa pronta para devorar o que parecia uma deliciosa omelete.

Então Alex chegou.

No mesmo instante, Emma teve a sensação de que um pássaro batia as asas dentro do seu estômago. Não conseguiu engolir nem um pedaço da omelete.

– A omelete não está do seu agrado? – perguntou Eugenia.

– Não estou com muita fome – apressou-se a responder Emma. – Mas está deliciosa, obrigada.

Alex, que havia se posicionado estrategicamente bem ao lado dela, se inclinou para a frente e sussurrou:

– Não posso imaginar como você saberia, se não provou nem um pedaço.

Ela deu um sorrisinho débil e levou o garfo à boca. A omelete tinha gosto de serragem. Emma olhou para Eugenia.

– Acho que só vou tomar um pouco de chá.

Quando chegou a hora do almoço, Emma tinha a sensação de que estava prestes a morrer de fome. Alex precisara sair para cuidar de alguns negócios da propriedade, por isso ela e Belle haviam passado a manhã explorando a casa. Quando chegaram ao salão de refeições informal, ela sentiu o coração afundar ao notar a ausência dele.

O estômago, no entanto, era só alegria.

Ela comeu rapidamente um prato cheio de peru assado e batatas, com medo de que Alex pudesse chegar a qualquer momento. Depois que terminou uma generosa porção de ervilhas e aspargos, resolveu perguntar a Eugenia sobre o paradeiro dele.

– Bem, eu estava esperando que Alex se juntasse a nós – disse ela. – Mas ele precisou ir até a parte noroeste da propriedade para inspecionar os danos do temporal da semana passada.

– É muito longe? – perguntou Emma.

Talvez ela pudesse ir encontrá-lo.

– Mais de uma hora a cavalo, eu acho.

E então notou que não se dera conta do tamanho da propriedade.

– Entendo… Bem, nesse caso, vou só saborear esses merengues deliciosos.

Com um suspiro, Emma chegou à conclusão de que provavelmente era melhor que ele tivesse sido chamado para algum compromisso. Se Alex passasse todos os minutos do dia ao seu lado (o que ela imaginava ser a intenção original dele), Emma provavelmente estaria desnutrida quando voltasse para Londres.

Mas não podia negar que, apesar da perturbação que Alex lhe causava, ela desejava a companhia dele a cada minuto que passavam separados. Emma saiu para um passeio a cavalo, mas não se divertiu; Alex não estava ali para apostarem corrida até a macieira que ela avistou alguns quilômetros a leste de Westonbirt. Ele também não estava por perto para caçoar quando ela habilidosamente escalou uma árvore, ou para elogiar sua mira quando jogou uma maçã em um galho carregado e conseguiu derrubar mais cinco. De volta à casa, Emma deu as frutas a Charlie, que cou tão feliz com a perspectiva de tortas de maçãs frescas que se sentiu compelido a subir e descer a escada seis vezes. A empolgação do pequeno era contagiosa, mas não animou Emma como um sorriso de Alex. Ela duvidava que qualquer outra coisa tivesse esse poder.

Por outro lado, foi bom ter comido uma das maçãs enquanto estava encarapitada no topo da árvore, porque não comeu nada no jantar daquela noite.

Emma também não viu Alex na manhã seguinte. Henry teria uma reunião importante com seu advogado naquela tarde – que ele declarou ser inadiável –, por isso toda a família partiu de manhã cedo. Alex, cansado das andanças do dia anterior, e sem saber dos planos dos Blydons de partirem tão cedo, dormiu até mais tarde e não apareceu.

Emma deixou escapar um suspiro diante da ausência dele e se serviu de um farto café da manhã.

Eugenia e Sophie tinham planos de permanecer em Westonbirt até o meio da semana, e Alex já havia chegado à conclusão de que não poderia ir embora porque havia muitos reparos a fazer. Assim, Emma e a família tiveram uma carruagem só para eles na viagem de volta. No momento em que se colocaram a caminho, Belle abriu o livro de Shakespeare, Henry pegou alguns documentos de negócios para si e Caroline dormiu. Emma cou olhando pela janela, resignada com a viagem silenciosa.

Algo que não a chateou.

Quando chegaram a Londres, Emma deixou escapar um suspiro de alívio, jurou que levaria um livro na próxima viagem longa e subiu correndo a escada até seu quarto. O m de semana a deixara

emocionalmente exausta – o encontro íntimo com Alex, a importante constatação de que o amava e não ter conseguido vê-lo antes de partir. A viagem sacolejante até Londres não havia ajudado, mas Emma só se deu conta de como estava cansada quando caiu na cama e viu que seria capaz de passar pelo menos uma semana dormindo.

Ou até que alguém batesse na porta dez segundos depois.

– Oi, Emma.

Ned abriu a porta e en ou a cabeça dentro do quarto antes que ela tivesse a chance de responder.

– Teve um bom m de semana?

Diante do aceno de cabeça cauteloso dela, ele continuou.

– Fantástico. Você parece renovada.

Emma, que estava deitada de bruços com o lado direito do rosto pressionado contra o colchão e um braço dobrado por cima da cabeça em um ângulo nem um pouco natural, ergueu os olhos com uma expressão cética e percebeu que o primo não estava sendo nem um pouco sarcástico. Ele parecia muito distraído, e Emma duvidava que realmente tivesse olhado com atenção para ela.

– E você? Teve um bom m de semana? – perguntou Emma. – Imagino que tenha aproveitado seu breve período de liberdade.

Ned entrou no quarto, fechou a porta e se apoiou na escrivaninha.

– Digamos que eu tive um m de semana interessante.

– Ah, Deus…

– Por que não me conta sobre o seu m de semana primeiro?

Emma deu de ombros e se sentou na cama, apoiando-se contra a montanha de travesseiros encostada na cabeceira.

– Foi exatamente como você imaginaria.

– Um monte de pessoas tentando arrumar um casamento para você?

Inclusive eu mesma, pensou ela.

– Exatamente. Mas ainda assim consegui me divertir. Foi bom sair um pouco da cidade. É tão agitado aqui…

– Ótimo, ótimo.

Ned começou a balançar o corpo para a frente e para trás, e Emma teve a impressão de que ele não estava prestando a menor atenção no que ela dizia.

– Aconteceu alguma coisa, Ned?

Ele respirou fundo.

– Bem, pode-se dizer que sim.

Ned foi até a janela e cou olhando para fora de braços cruzados, depois se virou e encarou a prima. Então descruzou-os e começou a andar de um lado para o outro.

– Você deveria se exercitar mais – comentou Emma.

Ned talvez a tenha ouvido, mas certamente não a escutara.

– Não aconteceu nada seriamente grave. Quer dizer, nada que não possa ser consertado se eu me esforçar. É claro que não sou muito bom em me esforçar, como você sabe.

Emma levantou as sobrancelhas.

– No aspecto físico, concordo.

– Não é como se alguém tivesse morrido, nem nada parecido – disse Ned, depois en ou as mãos no bolso e murmurou: – Ao menos não ainda.

Emma torceu para ter entendido errado.

– Emma, vim aqui porque estou precisando de um conselho seu. E talvez da sua ajuda. Você é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço. Belle também é esperta. É impossível superar minha irmã no quesito literatura, e quantos idiomas ela fala? Três? Acho que ela também consegue ler alguns outros. Não é lá muito boa em matemática, mas ainda assim é muito inteligente. Só que minha irmã também é prática demais. No mês passado mesmo, ela…

Ned fez uma pausa, colocou os ombros para trás de repente e olhou para Emma com uma expressão abalada até voltar a falar:

– Ah, Deus, Emma. Não consigo nem lembrar o que pretendia dizer. Eu não vim até aqui para falar sobre Belle. O que eu estava dizendo?

Ned se deixou cair em uma cadeira.

Emma mordeu o lábio. O primo estava com a cabeça apoiada no encosto da cadeira. A situação parecia realmente séria.

– Hum, acredito que tinha alguma coisa a ver com você precisar dos meus conselhos.

– Ah, sim… Eu me meti em uma certa confusão…

– É mesmo?

– Eu estava jogando cartas.

Emma gemeu e fechou os olhos.

– Por favor, Emma – protestou Ned. – Não preciso de um sermão sobre o vício do jogo.

– Eu não ia fazer sermão nenhum. Só que quando a frase “Eu estava jogando cartas” é precedida por “Eu me meti em uma certa confusão”, normalmente signi ca que alguém está devendo uma grande soma em dinheiro.

Ned não disse nada, apenas continuou sentado ali, parecendo arrasado.

– Quanto?

Enquanto aguardava a resposta do primo, Emma começou a somar mentalmente suas economias. Ela não havia gastado muito da mesada nos últimos tempos. Talvez conseguisse tirar o primo da encrenca em que se metera.

– Ahn… uma quantia de respeito.

Ned se levantou e olhou novamente pela janela.

– De respeito quanto?

– Muitíssimo respeito – respondeu ele misteriosamente.

– De quanto estamos falando exatamente? – explodiu Emma.

– Dez mil libras.

– O quê? – gritou Emma, com a voz aguda, dando um pulo para fora da cama. – Você cou louco? Perdeu a cabeça?

Emma começou a andar de um lado para o outro, balançando os braços amplamente no ar.

– Em que você estava pensando, Ned?

– Não sei – respondeu ele com um gemido.

– Ah, esqueci, você não está muito bem da cabeça. Como esperar que você pense?

– Você não está sendo exatamente solidária neste momento de crise.

– Solidária? Solidária!

Emma lançou um olhar ameaçador ao primo.

– Não é de solidariedade que você precisa neste momento, Ned. Ao menos não no aspecto emocional. Não estou acreditando nisso… Emma se deixou cair de volta na cama.

– Simplesmente não acredito nisso. O que vamos fazer, pelo amor de Deus?

Ned deixou escapar um suspiro de alívio ao vê-la usar o pronome “nós”.

– O que aconteceu?

– Eu estava jogando com um grupo de amigos no White’s. Anthony Woodside se juntou a nós.

Emma estremeceu de nojo. Não vira o visconde Benton desde o estranho encontro dos dois no baile dos Lindworthys, e certamente não tinha o menor desejo de que isso voltasse a acontecer. A conversa tensa entre eles a deixara profundamente desconfortável e até um pouco ofendida. Não havia mencionado o incidente a Alex – não viu necessidade de aborrecê-lo. Ainda assim, Emma não conseguiu afastar a sensação de que Woodside tinha planos malignos – planos que envolviam a família dela. Suas premonições pareciam ter se tornado realidade.

– Pareceu indelicado não convidá-lo a se juntar a nós – continuou Ned. – Era para ter sido um jogo amistoso, muito casual. Todos tomamos alguns drinques.

– Todos menos Woodside, imagino.

Ned gemeu e bateu com a mão na parede em um gesto nervoso.

– Acho que você pode estar certa. Quando me dei conta, as apostas estavam altas demais, a situação foi saindo do controle e eu não tinha mais como recuar.

– E subitamente você cou 10 mil libras mais pobre.

– Ah, Deus, Emma, o que vou fazer?

– Não sei… – respondeu ela com sinceridade.

– A questão é que ele estava trapaceando, Emma. Eu o vi trapacear.

Ned passou a mão pelos cabelos, e Emma se sentiu péssima ao ver a expressão torturada do primo.

– Por que você não disse alguma coisa na hora? Como pôde car sentado deixando o sujeito levar todo o seu dinheiro?

– Ah, Emma – disse Ned com um suspiro, afundando mais na cadeira e colocando a cabeça entre as mãos. – Posso ser um cavalheiro honrado, mas não sou idiota. Woodside é um dos melhores atiradores da Inglaterra. Seria loucura da minha parte dizer alguma coisa que o provocasse a me desa ar para um duelo.

– Tem certeza de que ele faria isso?

O olhar que Ned lhe lançou dizia que ele estava mais do que certo disso.

– E você teria aceitado? Não poderia simplesmente ter dado as costas e ido embora?

– Emma, é uma questão de honra. Eu não poderia mostrar meu rosto em nenhum lugar se acusasse alguém de trapaça e não encarasse as consequências.

– Sinceramente, acho esse negócio de honra entre cavalheiros superestimado. Pode me chamar de pragmática, mas acho mesmo que a vida de uma pessoa é preferível à honra. Ao menos no que diz respeito a jogos de cartas.

– Concordo, mas não há nada que eu possa fazer a respeito. O fato é que estou devendo 10 mil libras a Woodside.

– Quanto tempo você tem para conseguir o dinheiro?

– Normalmente, eu teria que pagar na hora, mas, como é uma quantia muito alta, ele me deu quinze dias.

– Tanto tempo assim? – perguntou Emma em um tom sarcástico.

– Acho que ele me deu um tempo extra porque está saboreando o fato de que estou nas mãos dele.

– Você provavelmente está certo.

Ned engoliu em seco, agarrando com força o braço da cadeira.

– Woodside disse que esqueceria totalmente a dívida se eu conseguisse arranjar um encontro entre ele e Belle.

Emma sentiu uma onda de raiva consumi-la.

– Eu vou matar esse sujeito! De todas as ideias repulsivas que alguém pode ter… – disse ela, furiosa, indo até a escrivaninha e abrindo as gavetas com força. – Você tem um revólver? – perguntou enquanto revirava suas coisas e jogava papéis no chão. – Só tenho um abridor de cartas…

De repente, um pensamento terrível lhe ocorreu e ela se virou para Ned, muito pálida.

– Você não concordou… não é?

– Pelo amor de Deus, Emma – falou Ned, ofendido. – Que tipo de homem você acha que eu sou?

– Desculpe, Ned. Sei que você não faria isso… só estou muito irritada.

– Não trocaria a inocência da minha irmã por uma dívida de jogo – acrescentou ele, na defensiva.

– Eu sei.

Emma suspirou enquanto tamborilava com os dedos no abridor de cartas ridiculamente pequeno.

– É a ado.

– Você não vai a lugar algum com esse abridor de cartas. E, de qualquer modo, não conseguiria causar muito estrago com isso.

Ela jogou a faquinha de volta em cima da mesa e arriou o corpo na beirada da cama.

– Não contei isso a ninguém, mas tive um embate com Woodside na semana passada.

– É mesmo? O que aconteceu?

– Foi tudo muito estranho. Ele fez vários comentários ofensivos por eu ser americana e não ter um título.

– Desgraçado – xingou Ned, cerrando os punhos.

– Mas não foi só isso. Ele me disse que ia se casar com Belle…

– O quê?

– Juro por Deus. E acho que Woodside realmente acredita nisso.

– O que você disse a ele?

– Eu ri na cara dele. Provavelmente não deveria ter feito isso, mas a ideia de Belle se casar com esse infeliz é absurda demais para ser levada a sério.

– Vamos ter que car de olho nele, Emma. Essa obsessão de Woodside com Belle já é péssima, mas agora que você o insultou, ele vai querer se vingar.

Emma lançou um olhar incrédulo para o primo.

– O que ele poderia fazer? Além de tirar 10 mil libras do seu bolso, digo…

Ned gemeu.

– Como eu vou conseguir esse dinheiro, Emma?

– Se cancelarmos a dívida, Woodside não vai ter nada com que pressionar Belle. Temos que bolar um plano.

– Eu sei.

– E quanto aos seus pais?

Ned apoiou a cabeça em uma das mãos, a expressão angustiada.

– Ah, Emma. Não quero pedir dinheiro a eles. Já estou com tanta vergonha do que z… não quero que eles se sintam assim também. Além do mais, as economias do papai estão todas comprometidas. Recentemente ele fez um grande investimento em uma plantação no Ceilão. Acho que ele não conseguiria reunir essa quantia tão rápido.

Emma mordeu o lábio inferior, sem saber o que dizer.

– Eu me meti nessa confusão, agora eu tenho que sair dela.

– Com uma ajudinha da sua prima.

Ned deu um sorriso cansado para ela.

– Com uma ajudinha da minha prima – repetiu.

– Bem, talvez seja mesmo melhor que o tio Henry e a tia Caroline não possam ajudar – falou Emma. – Eles cariam arrasados.

– Eu sei, eu sei.

Ned suspirou, se levantou em um movimento decidido e foi até a janela, para olhar a rua cheia abaixo.

– Seria bem melhor se isso só acontecesse daqui a seis meses – comentou Emma, pensativa.

Ned se virou rapidamente, estreitando os olhos.

– O que vai acontecer daqui a seis meses?

– Meu aniversário de 21 anos. A família da minha mãe me deixou algum dinheiro… não sei se já havia mencionado isso a você. É uma quantia que está investida há um bom tempo e acho que seria su ciente para pagar sua dívida. Mas está em um fundo e não posso tocar nela antes de completar 21 anos. A menos que eu… – A voz de Emma cou presa na garganta.

– A menos que você o quê?

– A menos que eu me case – falou ela, baixinho.

– Acho que Ashbourne não pediu você em casamento esse m de semana – falou Ned, parcialmente sério.

– Não – respondeu Emma com tristeza.

– Bem, seja como for, levaria meses para que o dinheiro chegasse da América.

– Na verdade, o dinheiro está aqui em Londres. A minha mãe nasceu na América, mas meus avós emigraram daqui. Meu avô nunca con ou nos bancos das Colônias e manteve a maior parte das economias aqui. Acho que a minha mãe e o meu pai nunca viram motivo para tirar o dinheiro da Inglaterra, mesmo depois da independência dos Estados Unidos.

– Bem, é inútil pensar nisso. Nenhum banqueiro liberaria o dinheiro para você antes da hora.

– A menos que eu me case – disse Emma baixinho, o coração começando a bater um pouco mais rápido.

Ned tou-a sem entender.

– O que está dizendo, Emma?

– É muito difícil conseguir uma licença especial de casamento?

– Imagino que não, desde que você conheça as pessoas certas.

– Imagino que Alex conheça – comentou Emma, umedecendo os lábios. – Você não acha?

– Você acabou de me dizer que Ashbourne não pediu você em casamento esse m de semana.

– É verdade – concordou Emma, entrelaçando as mãos. – Mas isso não signi ca que eu não possa pedi-lo em casamento.

O olhar de Ned era de pura incredulidade.

– Eu… bem, imagino que você poderia – falou ele lentamente. – Nunca soube de nada parecido antes, mas acho que isso não signi ca que não possa ser feito.

– Você me acha uma boba… – disse Emma em tom categórico.

– Não, não, não, é claro que não – apressou-se em responder Ned. – Ashbourne é que seria um bobo se recusasse, e isso ele não é, tenho certeza. É que talvez ele que um pouco surpreso.

– Muito surpreso.

– Surpreso como o diabo – completou Ned, assentindo com a cabeça.

Emma gemeu.

– Ah, meu Deus. Eu co vermelha só de pensar.

Ned tamborilou com os dedos na parede enquanto analisava momentaneamente o plano.

– Mas você tem certeza de que isso vai funcionar, Emma? Como você vai pedir o sujeito em casamento, fazer com que ele aceite, se casar e conseguir o dinheiro… tudo isso em duas semanas?

Ela pareceu desanimada.

– Acho que eu não conseguiria. Mas imagino que o banco liberaria o meu dinheiro ao saber que estou noiva do duque de Ashbourne. Alex é um homem poderoso.

– Eu sei.

– Tenho certeza de que anunciar o noivado no Times já adiantaria. É quase como estar casada. Um cavalheiro jamais abandonaria uma dama depois que o noivado deles fosse anunciado no jornal. E os banqueiros nem sonhariam que alguém pudesse desistir de se casar com um duque.

– E se eles se recusassem a liberar o dinheiro? Banqueiros podem ser muito rígidos em relação a regras e coisas assim.

– Então vou providenciar um casamento rápido. Acho que Alex não se importaria.

Emma cou brincando com a colcha da cama, os olhos xos nos dedos, enquanto falava com o primo.

– Só espero ter coragem para isso – disse ela baixinho.

Na mesma hora, Ned estava ao lado dela, passando o braço ao redor dos seus ombros e apertando com suavidade.

– Emma, você não precisa fazer isso por mim. Posso dar um jeito de resolver o problema. Vou procurar um agiota se for preciso. Passarei alguns meses, um ano, talvez, na miséria, mas casamento é para a vida toda. Não posso pedir que sacri que a sua felicidade dessa forma.

– Mas talvez – sussurrou Emma –, só talvez, eu não estivesse sacri cando minha felicidade.

Emma encarou o primo com intensidade, os olhos violeta cintilando de emoção.

– Entende? Talvez essa seja a única chance que eu tenha de ser feliz.

– Mas, Emma, você tem certeza de que é capaz de fazer isso? Se Alex não pediu você em casamento, o que a leva a pensar que vai aceitar o seu pedido?

– Não sei – respondeu Emma com um suspiro. – Acho que terei que convencê-lo a me aceitar, não é mesmo?

 

Enquanto isso, em Westonbirt, Alex aproveitava um banho bem quente de banheira. Tinha a sensação de ter ido e voltado do inferno a cavalo nos últimos dias, e todos os seus músculos doíam do esforço. Também estava profundamente irritado com a maldita tempestade que alagara metade da propriedade, derrubara seis árvores e monopolizara a atenção dele por todo o sábado. Lamentavelmente, só conseguira ver Emma no café da manhã e no jantar, e ela havia passado a maior parte do tempo beliscando a comida e evitando qualquer contato visual.

Ela estava nervosa, era só isso. Ele conseguia entender.

Mas o que Alex não conseguia entender era por que ele também estava nervoso. Tudo bem que ele provavelmente disfarçasse melhor do que ela, mas era quase dez anos mais velho do que Emma e com certeza tinha muito mais experiência com o sexo oposto. Era de se esperar que conseguisse se controlar um pouco mais. Mas, mesmo tendo conseguido agir quase naturalmente, Alex não podia negar a enorme ansiedade que o dominava sempre que Emma entrava em um cômodo. Nem podia ignorar como se sentira profundamente desapontado quando acordara naquela manhã e descobrira que ela já havia partido.

Alex gemeu e afundou um pouco mais o corpo na banheira. Precisava descobrir o que sentia exatamente. Depois disso, teria que descobrir o que queria fazer a respeito.

Casamento?

A ideia começava a parecer cada vez mais atraente. Sempre fora sua intenção adiar esse plano até estar mais próximo dos 40 anos. Somente então faria o que todos esperavam dele, se casaria com alguma jovem sem personalidade a quem ignoraria imediatamente. Havia a questão de produzir um herdeiro. Mas, assim que o assunto estivesse resolvido, poderia esquecer a existência dela. Não precisava de uma esposa em seu caminho.

Mas a questão no momento era: ele queria Emma em seu caminho. Ele havia saído do seu caminho justamente para tê-la nele. A ideia de ter Emma como esposa apagava tudo o que ele havia pensado a respeito de casamento. Alex sentiu um calor percorrer seu corpo ao pensar em acordar ao lado dela, em não ter que se esgueirar pelos cantos para conseguir um momento a sós. Não fazia muito sentido esperar por uma esposa que ele tivesse prazer em ignorar quando poderia ter uma que não queria ignorar.

E, é claro, havia a questão do herdeiro. O processo já não parecia tedioso se envolvesse Emma. E, pela primeira vez, Alex se pegou pensando seriamente no futuro e tentando visualizar os herdeiros de que a mãe vivia falando. Um menininho com cabelos cor de cenoura. Não, uma menininha com cabelos cor de cenoura – era isso que ele queria. Uma menina bem pequenininha, com cabelos cor de cenoura e grandes olhos violeta, que se atiraria em seus braços gritando “Papai!” quando ele entrasse no cômodo.

Depois disso, ele a colocaria na cama, agarraria a mãe dela, a colocaria na cama e se dedicaria com a nco a criar um menininho com cabelos cor de cenoura e grandes olhos violeta.

Bem, parecia que ele já havia se decidido.

Ou teria cado maluco? Será que estava mesmo pronto para jogar fora uma década de planos por uma ruivinha americana?

Alex gemeu de novo e saiu da banheira, deixando a água escorrer pelo corpo. Pegou a toalha que o valete havia deixado cuidadosamente dobrada em cima de uma cadeira perto da banheira, secou-se rapidamente e foi até o guarda-roupa para pegar um roupão. Depois de vesti-lo, se jogou na cama.

Estava quase certo de que Emma aceitaria se ele a pedisse em casamento. Sabia que ela sentia falta do pai, e que sempre pretendera voltar para a América, mas ele podia ser exível. Não havia motivo para que não pudessem visitar Boston a cada dois anos mais ou menos. Na verdade, o restante da família dela estava ali em Londres, e Alex sabia que todos desejavam que Emma casse na cidade. Na verdade, não queria uma esposa que tivesse se casado com ele por pressão familiar, mas não reclamaria de ter essa ajuda. Haveria bastante tempo para convencer Emma de que ela o amava.

Alex se sentou rapidamente na cama. Ele queria que Emma o amasse? Isso talvez fosse pedir muito. Quando somos amados por alguém – alguém decente e bom, claro – temos a responsabilidade de não machucar o coração dessa pessoa. E, por mais que não tivesse qualquer intenção de magoar Emma, ele sabia que isso poderia acabar acontecendo pelo simples fato de não retribuir o sentimento dela.

Mas é claro que talvez ele retribuísse.

No entanto, havia a possibilidade de Emma não o amar. Na verdade, ela não comentara nada a respeito. Não seria possível retribuir um amor que ela não sentisse, certo?

Mas ele poderia amá-la primeiro.

E isso signi cava que teria que convencer Emma a retribuir seu sentimento.

Era uma questão capciosa de qualquer modo, porque Alex ainda não decidira amá-la.

Ou decidira?

Ele saiu da cama e começou a andar de um lado para o outro no quarto. Havia decidido amar Emma? Não sabia dizer. Além do mais, um homem realmente decidia amar uma mulher ou apenas deixava o sentimento amadurecer até que um dia, ao sair da banheira, descobria que a amava havia muito tempo, tanto tempo que nem sabia quando tudo começara, e que na verdade estava apenas lutando contra o inevitável porque se tornara um hábito contrariar a mãe e a irmã?

Deus do céu, ele amava Emma. E agora, o que fazer? Ah, muito bem, ele poderia pedi-la em casamento, e ela provavelmente aceitaria, mas Alex não achava que isso seria o bastante. Não queria que Emma se casasse com ele só por afeto; queria que ela o zesse por amor, por amá-lo tanto que não conseguiria suportar a ideia de uma vida sem ele. Porque Alex estava começando a perceber que era assim que se sentia a respeito dela.

Talvez devesse sondá-la antes de realmente fazer o pedido, tentar ter uma ideia do que Emma realmente sentia por ele. Não havia pressa. Agora que se comprometera com a ideia do casamento, Alex estava ansioso para tê-la unida legalmente a ele para o resto da vida, mas imaginava que alguns dias não fariam grande diferença. A nal, se percebesse que ela não poderia retribuir o sentimento, talvez não a pedisse em casamento.

Quem estava querendo enganar? É claro que iria pedi-la em casamento. Nem Napoleão em pessoa conseguiria demovê-lo dessa ideia.

Mas realmente não havia mal algum em esperar só um pouco – mesmo que fosse só para ter tempo de se tranquilizar. A nal, Emma não iria a lugar algum tão cedo. E ninguém a pediria em casamento nesse meio-tempo. Alex estava certo de que garantira isso. Poucos homens tinham sido corajosos o bastante para convidá-la para dançar duas vezes em uma única noite, quanto mais pedi-la em casamento. Alex tinha marcado território, e estava na hora de reivindicá-lo.

Na próxima sexta-feira estaria ótimo. Ele tinha um evento qualquer para comparecer na quarta-feira. Não conseguia se lembrar onde, mas seu secretário certamente tinha isso anotado em Londres, e Emma com certeza estaria presente. Ele poderia conversar com ela, sondar um pouco o terreno e então arriscar um palpite em relação ao que ela sentia. Na quinta-feira, a mãe dele ofereceria um pequeno jantar e Alex poderia passar algum tempo a sós com ela. A mãe com certeza se esforçava para dar essa oportunidade aos dois sempre que possível. Na manhã de sexta-feira, Alex escolheria um anel de noivado entre as joias da família e se encaminharia à mansão Blydon, onde pediria Emma em casamento e encerraria essa história.

A não ser pelo fato de que não estaria encerrando nada – os lábios de Alex se curvaram em um sorriso tranquilo: ele estaria começando tudo.