Esplêndida

Julia Quinn · Capítulo 11 de 27

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Esplêndida

Capítulo 10

 

Sentada na carruagem forrada de veludo, Emma repassou mentalmente os últimos minutos e chegou à conclusão de que a tia estava agindo de forma um pouco estranha – certamente nunca a vira sair tão apressada de um baile. Ela temia que o estranho comportamento de Caroline pudesse ter a ver com o fato de ela ter visto a sobrinha desaparecer no jardim com Alex. Por isso Emma decidiu sabiamente não mencionar nada a respeito da saída abrupta e se recostou no assento, esperando que outra pessoa começasse uma conversa.

Belle logo preencheu o silêncio.

– Não consigo acreditar que a viúva Ridgely nos convidou para um

m de semana no campo tão em cima da hora. Bem, talvez eu consiga

acreditar, sim – concluiu, lançando um olhar signi cativo para Emma.

Emma fez questão de não encarar a prima.

– Tenho certeza de que vamos nos divertir muito – declarou Caroline com rmeza. – Eugenia está particularmente ansiosa para passar algum tempo com vocês duas – acrescentou, indicando a lha e a sobrinha com um gesto.

– Tenho certeza que sim – comentou Ned baixinho, e piscou para Emma.

Era óbvio que todos já haviam compreendido o motivo do convite.

– Além disso, Sophie também está sentindo muita falta do marido – voltou a falar Caroline. – Tanto Eugenia quanto eu achamos que faria bem a ela um pouco de companhia feminina, ainda mais com o bebê prestes a chegar…

Ela se virou para o lho, pois não estava disposta a dar a ninguém a chance de lembrar que o bebê de Sophie ainda levaria cinco meses para chegar e que, além disso, a condição da jovem tinha muito pouco a ver com os motivos de Eugenia para o convite.

– É claro que você também foi convidado, Ned. Pretende vir conosco?

– Acho que vou declinar o convite – respondeu Ned com um sorriso malicioso. – É muito mais fácil me entregar aos excessos sem meus pais por perto.

Caroline tou-o um tanto chocada.

Ned apenas riu.

– É difícil estabelecer uma reputação de libertino na companhia da mãe.

– Sinceramente, Ned, se precisa mesmo se permitir esse tipo de coisa, terá bastante tempo depois que terminar a universidade e se mudar para as suas acomodações de solteiro.

– Nada é melhor do que o presente.

– O que vai fazer enquanto estivermos fora? – perguntou Belle, curiosa.

Ele se inclinou para a frente com um brilho travesso nos olhos.

– Muitas, muitas coisas nas quais você não deve nem pensar.

– É mesmo? O que…

– Não é uma benção – interrompeu Caroline em voz alta, ansiosa para mudar o rumo da conversa – essa oportunidade de passar algum tempo no campo com os Ridgelys, onde, sem toda a censura de Londres sobre nós, poderemos relaxar nossos padrões de comportamento? Ao menos um pouco.

A carruagem parou diante da mansão Blydon e, com a ajuda do marido, Caroline desceu e entrou apressada em casa.

Emma não perdeu tempo em alcançar a tia.

– Não pense que não sei o que está fazendo – falou em um sussurro alto.

Caroline parou por um momento.

– É claro que você sabe o que estou fazendo – disse ela, dando uma palmadinha carinhosa no rosto da sobrinha. – Assim como eu sei o que você anda fazendo.

Emma encarou a tia boquiaberta.

– Você foi muito esperta, minha cara, em recolocar o xale.

E, com isso, Caroline subiu a escada e entrou no quarto.

 

Os Blydons e os Ridgelys partiram para o campo no nal de semana seguinte e, para a extrema irritação de Alex, ele não pôde organizar as coisas de modo a ter uma carruagem particular para fazer o trajeto até Westonbirt sozinho com Emma. Alex não conseguiu nem que os dois viajassem na mesma carruagem. Por mais que Eugenia desejasse alguma situação comprometedora (que, com sorte, levaria a um casamento com o máximo de pressa), ela não se convenceu a fazer nada que pudesse provocar esse tipo de incidente em um veículo em movimento.

Por isso Alex entrou de mau humor na carruagem dos Blydons, junto a Henry, Caroline e a mãe dele, que havia declarado que as jovens deveriam ter uma carruagem só para elas, para que pudessem se divertir um pouco longe dos membros mais velhos e tediosos da excursão.

– Jovens! – exclamou Alex. – Pelo amor de Deus, Sophie está esperando o segundo lho!

Então murmurou alguma coisa que Eugenia não conseguiu entender direito, embora achasse ter ouvido a palavra “tedioso”.

– Bem – declarou Eugenia –, eu diria que nem todos somos velhos. Pedi a Charlie que viesse conosco.

Nesse momento, o menininho saltou no colo do tio, insistindo em jogar cartas durante a viagem.

Emma, cujos sentimentos vinham oscilando entre a esperança secreta de dividir uma carruagem apenas com Alex e a irritação consigo mesma por ter esse tipo de expectativa, ainda assim cou satisfeita diante da perspectiva de três ou quatro horas de conversa e fofocas com Belle e Sophie. Começaram falando de todas as jovens damas solteiras da aristocracia e, quando terminaram, passaram aos homens solteiros. Àquela altura, estavam mais ou menos na metade da viagem, por isso passaram ao assunto mais apimentado envolvendo damas e cavalheiros casados. Tinham começado a falar das várias viúvas quando Sophie

nalmente declarou que estavam perto de Westonbirt. Emma sentiu-se

profundamente aliviada. Para ser bem honesta, estava exausta de tantas fofocas.

Alex lhe contara que havia passado a maior parte da infância em Westonbirt, a propriedade ancestral da família, e Emma estava muito curiosa para conhecer o lugar em que ele crescera. Por isso, quando a carruagem fez uma curva e entrou pelos portões principais da propriedade, ela não conseguiu se conter e inclinou bem a cabeça para ver o máximo que podia. Como a carruagem não era aberta, Emma teve que se contentar em pressionar o rosto contra o vidro da janela.

– Pelo amor de Deus, Emma, parece que nunca viu uma árvore antes – comentou Belle.

Na mesma hora, Emma se recostou no assento aveludado, constrangida por ter demonstrado tanta curiosidade.

– Ora, gosto muito do campo e, depois de três meses em Londres, tenho a sensação de nunca ter visto uma árvore antes.

Sophie riu baixinho.

– Posso garantir que temos muitas árvores em Westonbirt. São ótimas para escalar. E também temos um riacho pitoresco, que Alex me garante ser cheio de trutas, embora eu não me lembre de ele jamais ter contribuído com uma única para o jantar.

No momento em que as rodas da carruagem pararam, um criado de libré se apressou a abrir a porta. Emma foi a última a descer, por isso não teve uma boa vista da casa até sair totalmente da carruagem. Não se desapontou. Westonbirt era uma mansão antiga e imponente que poderia muito bem ser a de nição da palavra “enorme”. Como fora construída durante os anos 1500, sob o reinado de Elizabeth I, o térreo tinha o formato da letra E, em homenagem à rainha. A frente da casa, que dava para o norte, era o traço mais longo da letra, com três alas se destacando nos fundos. Havia leiras e leiras de janelas altas e estreitas, os vidros cintilando de tão limpos, espalhadas por toda a fachada. Emma supôs que a mansão deveria ter mais de 15 metros de altura. Quando chegou mais perto, conseguiu ver outros detalhes do prédio. Cada janela e cada porta eram emolduradas por belíssimos trabalhos de entalhe que comprovavam longas horas do trabalho extenuante de artesãos, muito tempo atrás. Emma estava impressionada com a graça e a dignidade da casa ancestral de Ashbourne.

– Sophie – sussurrou ela, com reverência. – Não acredito que você realmente cresceu aqui. Estou me sentindo uma princesa só de estar parada diante desta mansão.

Sophie sorriu.

– Acho que acabamos nos acostumando com aquilo que nos cerca. Mas você precisa ver o resto. Os pátios nos fundos são realmente adoráveis.

– Imaginei que Alex poderia mostrar o resto a ela.

Eugenia vinha na direção delas e as três se viraram. A alguns metros de distância, Henry ajudava a esposa a descer da carruagem enquanto Alex estava sendo atacado por Charlie.

– Ah, eu adoraria ver mais da propriedade – exclamou Emma. – Gosto muito de passear no campo e o clima está absolutamente perfeito.

De fato, os deuses haviam sorrido para a Inglaterra naquele dia. O céu era de um azul límpido, com algumas poucas nuvens brancas e fofas, e o sol aquecia o rosto de Emma.

– Alex! – chamou Eugenia. – Se conseguir arrancar Charlie do seu pescoço, eu gostaria que mostrasse um pouco da propriedade a Emma.

Emma se virou para Belle enquanto Alex tentava se desvencilhar dos bracinhos fortes do sobrinho.

– Por que não se junta a nós, Belle?

– Ah, não – respondeu Belle, um tanto rápido demais. – Infelizmente, não posso. Acabei pegando sem querer dois volumes iguais da Parte II de Henrique IV na nossa biblioteca hoje de manhã.

Ela mostrou os dois volumes, ambos encadernados em couro vermelho, que levara para ler na carruagem, caso Sophie e Emma tivessem resolvido cochilar.

– Preciso conseguir agora mesmo uma cópia da Parte I de Henrique IV, e Sophie prometeu que eu poderia pegar o livro emprestado na biblioteca da casa. Não sei por que eu tenho duas cópias da segunda parte…

– Também não consigo imaginar – disse Emma, ciente de que absolutamente todos os presentes haviam planejado aquele momento.

– E não posso ler a Parte II antes da Parte I – acrescentou Belle. – Seria como ler as últimas páginas de um romance antes de começar.

– Isso sem falar quão perturbador seria para a sua ordem alfabética – ajudou Emma, com certo sarcasmo.

– Não havia nem me dado conta disso! – exclamou Belle. – Agora é ainda mais importante conseguir a Parte I!

– Não questione o destino – aconselhou Alex, pegando o braço de Emma, com Charlie saltando atrás dele. – Por que não veste seu traje de montaria e vamos dar um passeio? Podemos ir até os campos enquanto o sol está alto. À noite mostrarei o terreno mais próximo da casa.

Na mesma hora, Charlie se en ou entre os dois e começou a pular para todo lado.

– Posso ir também? Por favor, por favor, posso ir? – cantarolou.

– Desta vez não, querido – adiantou-se Sophie rapidamente. – Que tal você ir procurar Cleópatra? A Sra. Goode me disse que ela está prestes a ter lhotinhos. Talvez neste m de semana mesmo.

A possibilidade de lhotinhos pareceu bem mais empolgante do que um passeio a cavalo pelos campos com Alex e Emma, e Charlie rapidamente gritou:

– Brilhante!

E disparou na direção da cozinha, onde a gata preta e dourada costumava se acomodar ao lado de um dos fogões.

Em vinte minutos, Emma já se instalara no quarto espaçoso que lhe fora designado na ala oeste, vestira seu elegante traje de montaria azul-meia-noite e correra de volta para a frente da casa, onde Alex já a esperava. Ele estava parado nos degraus da frente, com o olhar perdido em uma colina relvada, ao longe, quando Emma chegou. Ela examinou silenciosamente o per l bem constituído, pensando que nunca o vira tão belo quanto estava naquele momento, em um paletó verde-garrafa muito bem-cortado e calções de montaria castanho-claros. As emoções dela estavam um caos desde o beijo apaixonado que haviam trocado poucas noites antes, e a mera visão de Alex, olhando com tanta determinação a distância, fez com que ela ardesse por dentro. Emma suspirou baixinho, se perguntando se algum dia conseguiria recuperar seu equilíbrio interno estando próxima daquele homem tão complexo. Ao ouvir o suspiro, Alex se virou abruptamente para encará-la, com uma expressão tão séria que Emma se sentiu subitamente muito constrangida. Ela deu um sorriso tímido e alisou a saia azul do vestido. Então abriu os lábios para falar, mas não conseguiu pensar em nada para dizer. Ao longo dos últimos meses, ela e Alex haviam se acomodado em um relacionamento confortável e amigável, constantemente implicando um com o outro, como se fossem amigos de infância. Mas Alex tinha razão. O beijo no jardim dos Lindworthys havia alterado a amizade deles, e Emma se sentia quase tão constrangida como quando os dois se viram pela primeira vez.

– Gostou dos seus aposentos? – perguntou ele, de repente.

Emma levantou rapidamente os olhos para o rosto dele. O silêncio carregado fora quebrado e, por mais que ela sentisse falta da sensação de intimidade que costumava encontrar no olhar intenso dele, cou satisfeita por ter recuperado a clareza de raciocínio.

– É claro. Sua casa é encantadora. Embora – disse ela, rindo – eu jure que jamais vou me acostumar com o tamanho do saguão de entrada. Eu poderia encaixar toda a minha casa de Boston dentro dele. Talvez casse apertada na altura. Talvez eu quebrasse os candelabros – disse ela, olhando para os candelabros de cristal que pendiam do teto, cerca de 15 metros acima dela. – Como se limpa isso?

Alex sorriu e deu o braço a ela.

– Com muito cuidado, imagino – disse ele, indicando a direção dos estábulos com um gesto, e os dois desceram os degraus naquela direção. – Pensei em lhe mostrar um pouco de Westonbirt a cavalo. O terreno é muito grande para percorrermos a pé.

Emma sorriu em expectativa.

– Não monto há anos – sussurrou.

Alex a encarou, incrédulo.

– Sinceramente, Emma, vejo você o tempo todo no Hyde Park, montada naquela bela égua branca da sua prima.

Emma revirou os olhos.

– Pelo amor de Deus, não se pode chamar aquilo de montar. Mal se consegue trotar naquele parque lotado, galopar menos ainda. Além do mais, mesmo que desse para galopar, as pessoas passariam semanas comentando sobre o meu comportamento escandaloso – disse Emma com uma careta. – Embora fosse de imaginar que as pessoas teriam coisas mais interessantes para falar, não é mesmo?

Alex estreitou os olhos e voltou a tá-la.

– Por que tenho a sensação de que não estamos mais falando de uma situação hipotética?

– É possível que eu tenha cavalgado com a égua pelo parque a uma velocidade que poderia ser descrita como “temerosa” – admitiu Emma, e seu rosto era um retrato da inocência.

Ele riu.

– E as pessoas falaram disso por semanas?

Quando ela assentiu, ele comentou:

– Eu me pergunto por que não quei sabendo nada a respeito…

Foi a vez de Emma rir.

– Acredito que ninguém tenha coragem su ciente para mencionar o meu nome na sua presença, menos ainda de forma desagradável.

Emma se desvencilhou do braço dele e ergueu a saia, apressando-se na direção dos estábulos. Então virou-se para ele e gritou:

– Isso é maravilhoso, na verdade. Você nunca vai descobrir todas as coisas chocantes que eu faço, por isso consigo desfrutar de uma reputação de nitivamente angelical aos seus olhos!

Alex apressou o passo.

– Angelical não é exatamente a palavra que me vem à mente.

– É mesmo?

Emma continuou a andar de costas, olhando de vez em quando para trás, para garantir que não tropeçaria na raiz de uma árvore.

– Eu consideraria “diabinha” mais apropriado.

– Ah, mas “angelical” é um adjetivo e “diabinha” é um substantivo, não são, portanto, intercambiáveis.

– Que Deus me proteja das mulheres cultas – resmungou Alex.

Emma parou por um segundo e sacudiu o dedo para ele.

– Eu ouvi isso, seu nojento.

– Não acredito que você me chamou de nojento!

– Sou a única pessoa com coragem su ciente para fazer isso.

– Imagino que sim – retrucou Alex, a expressão petulante.

– Além do mais – disse Emma, continuando a andar de costas na direção dos estábulos –, mulheres cultas são muito mais interessantes.

– É o que dizem as mulheres cultas.

Emma mostrou a língua para ele.

– Eu pararia agora – aconselhou Alex.

Ela abriu um sorriso malicioso.

– Você acha que não sou uma adversária à altura?

– De forma alguma – disse ele com a mais absoluta compostura. – Estou dizendo que você deveria parar de andar. Está prestes a cair.

Emma deu um grito e um pulo para a frente. Realmente acabara de ser salva de car encharcada.

– Essa água não parece muito limpa – comentou ela, torcendo o nariz.

– O odor também não parece muito agradável.

– Bem – declarou Emma –, acho que lhe devo um obrigada.

– A gentileza seria uma mudança encantadora – disse Alex, sorrindo.

Ela o ignorou.

– Melhor eu olhar por onde ando, certo?

– Talvez aceite me dar o braço?

Emma deu um sorriso caloroso.

– Mas é claro.

Ela deu o braço a ele e os dois caminharam juntos pela curta distância até os estábulos. Chegando lá, foram recebidos na mesma hora pelo cavalariço, que trazia dois cavalos.

– A Sra. Goode mandou uma cesta de piquenique, Vossa Graça. Está esperando por vocês perto do banco – disse o homem, entregando as rédeas a Alex.

– Excelente – retrucou Alex. – E obrigado por ter arrumado os cavalos em tão pouco tempo.

O cavalariço sorriu.

– Não foi problema nenhum, Vossa Graça, problema nenhum – falou, oscilando o peso do corpo de um pé para o outro.

Alex levou os cavalos para fora.

– Aqui está, meu bem – falou, e entregou a Emma as rédeas de uma égua castanha animada.

– Ah, que linda – comentou Emma com um suspiro, acariciando o pelo lustroso da égua. – Como se chama?

– Dalila.

– Ora, ora – murmurou ela. – Imagino que o seu se chame Sansão.

– Santo Deus, não – respondeu Alex. – Isso poderia acabar sendo muito perigoso.

Emma o encarou com descon ança, se perguntando se ele estava se referindo a outra coisa que não cavalos, mas preferiu não falar nada.

Alex pegou rapidamente a cesta de piquenique que a governanta havia preparado, depois os dois montaram e partiram.

Começaram trotando, avançando lentamente, já que Emma estava muito interessada no cenário. Westonbirt era uma terra fértil, com colinas verdes e muitas ores do campo cor-de-rosa e brancas espalhadas por toda parte. Embora grande parte da propriedade tivesse sido usada para a agricultura por vários séculos, os campos extensos que cercavam as imediações da casa tinham sido poupados, para que a família pudesse aproveitar todos os benefícios do campo em relativa privacidade. A área por onde cavalgavam não tinha muitas árvores, embora Emma visse vários carvalhos grandes e fortes em que adoraria subir. Sorriu, satisfeita, e respirou fundo o ar fresco do campo.

Alex sorriu ao ouvir o suspiro alto.

– É diferente aqui, não é? – comentou.

– Hum?

Emma estava satisfeita demais para formular uma frase completa.

– O ar. É mais limpo. Quase sentimos seu sabor quando respiramos.

Ela assentiu.

– Tenho a sensação de estar me puri cando a cada respiração, lavando a sujeira de Londres de dentro de mim. Acho que não tinha me dado conta da falta que sentia do campo.

– Eu me sinto exatamente assim sempre que consigo escapar da cidade – concordou Alex com um sorriso irônico. – Mas bastam poucas semanas para eu car entediado a ponto de chocar.

– Talvez – comentou Emma com ousadia – você não tenha tido a companhia certa.

Alex virou a cabeça para olhá-la, diminuiu a velocidade do cavalo até parar e a encarou com atenção. Emma também parou a égua que montava e retribuiu o olhar. Depois de um longo momento, ele

nalmente quebrou o silêncio.

– Talvez – disse Alex, tão baixo que Emma mal conseguiu ouvir.

Alex desviou os olhos para a frente, protegendo a vista do sol.

– Está vendo aquela árvore lá? No alto da colina?

– Aquela com ores cor de pêssego?

Alex assentiu.

– Essa mesmo. Vamos disputar uma corrida até lá? Eu deixo você sair na frente, por causa dessa invenção monstruosa que chamam de sela lateral.

Emma não disse uma palavra. Também não esperou que Alex desse o sinal. Simplesmente saiu galopando a uma velocidade perigosa. Quando ultrapassou a linha de chegada (ou melhor, a árvore de chegada), um cavalo à frente de Alex, estava rindo de prazer, tanto por ter vencido a corrida quanto pela sensação gloriosa de completo abandono. O coque estava praticamente desfeito e, inconscientemente, Emma balançou a cabeça, fazendo com que os cachos luminosos caíssem por suas costas.

Alex teve que se esforçar para não se deixar levar pelo gesto sedutor.

– Você deveria ter esperado a corrida começar – repreendeu-a com um sorriso indulgente.

– Sim, mas aí eu provavelmente não teria vencido.

– O objetivo de uma corrida a cavalo é que vença o melhor.

– O objetivo dessa corrida a cavalo – retrucou Emma – era que vencesse o condutor de raciocínio mais rápido.

– Já estou vendo que não vou ganhar esta discussão.

Emma deu um sorriso inocente.

– Estamos discutindo?

Alex pigarreou.

– Já estou vendo que não vou ganhar esta conversa.

– É possível se ganhar uma conversa?

– Se for possível – disse ele em um tom resignado –, tenho certeza de que não serei o vencedor.

– Você é muito astuto.

– Você é muito astuta.

– O meu pai reclama disso há vinte anos.

– Que tal uma pausa para comermos? – sugeriu Alex, com um suspiro.

Ele desmontou rapidamente e pegou a bolsa de couro com a comida.

– A propósito – disse Emma quando Alex ofereceu a mão para ajudá-la a desmontar. – Você não chegou a me dizer o nome do seu cavalo.

Alex abriu um sorriso enquanto estendia uma manta de piquenique colorida no chão.

– Cícero.

– Cícero? – perguntou Emma, incrédula. – Não imaginei que gostasse de latim.

Alex fez uma careta ao se lembrar das aulas infernais de latim nas mãos dos tutores de sua infância e, mais tarde, em Eton e Oxford. Ele se sentou sobre a manta e começou a tirar a comida da bolsa de couro.

– Detesto latim. Detesto.

– Então por que batizou o cavalo em homenagem a um orador latino? – perguntou Emma com uma risadinha enquanto erguia a saia ligeiramente acima dos tornozelos e se acomodava com elegância diante de Alex.

Ele deu um sorriso travesso e jogou uma maçã para ela.

– Para falar a verdade, não sei. Só gosto do som do nome.

– Ah. Bem, creio que é uma razão tão boa quanto qualquer outra. Eu também nunca fui apaixonada por latim. Não é como se desse para conversar com alguém… a não ser com alguns poucos clérigos, imagino.

Enquanto Emma rolava a maçã entre as palmas das mãos, Alex voltou a en ar a mão na bolsa de couro para pegar uma garrafa de vinho e dois copos elegantes, que tinham sido embrulhados em anela para não quebrarem. Quando levantou os olhos novamente, Emma estava inclinada para o outro lado, examinando uma orzinha do campo cor-de-rosa. Ele a tou e suspirou, pensando que não conseguiria imaginar maneira mais agradável de passar a tarde do que cavalgando sem rumo por Westonbirt com ela. Aquilo o perturbou. Ele não gostava do fato de sua felicidade e paz de espírito estarem aos poucos se tornando dependentes daquela ruiva encantadora sentada à sua frente. Quando Emma descera as escadas de casa mais cedo naquela tarde, estava tão dolorosamente bela que Alex sentiu que congelava. E percebeu que ela se sentia atraída por ele da mesma forma. Podia ver nos olhos de Emma – ela não sabia esconder as emoções.

Mas Alex precisava admitir para si mesmo – não apenas se sentia atraído por Emma. Colocando da forma mais simples, ele gostava dela. Era dona de um raciocínio rápido e a ado como uma lâmina, tão culta quanto a maior parte dos homens que Alex conhecia – se não mais – e, ao contrário da maioria dos aristocratas, sabia fazer uma piada sem necessariamente insultar alguém. Os amigos e a família não paravam de dizer que ele deveria tomar Emma para si e se casar com ela antes que outro o zesse ou que ela voltasse para Boston.

Mas Alex de nitivamente não queria se casar.

No entanto, iria enlouquecer se não zesse amor com ela logo.

Ele a tou de novo. Emma ainda examinava a or do campo, torcendo os lábios quando virou-a para olhá-la por baixo. Aquela mulher realmente valia o preço da liberdade dele? Alguém valia?

Alex correu os dedos pelos cabelos cheios. Ultimamente, se pegava um tanto deprimido sempre que não a via ao menos uma vez por dia.

Emma levantou a cabeça de repente, os olhos violeta cintilando de entusiasmo.

– Alex? – chamou, levantando a or para que ele a examinasse.

Alex suspirou quando encontrou o olhar dela. E se perguntou se Emma se incomodaria muito caso ele a deitasse em cima da manta e arrancasse suas roupas.

– Você já olhou para uma dessas ores? – perguntou ela. – Estou me referindo a olhar de verdade? É fascinante.

Emma parecia absurdamente inocente. Ainda mais do que o normal. Alex suspirou de novo. Provavelmente ela se incomodaria.