Esplêndida
Capítulo 15
Deus do céu, em que ela estava pensando?
A terça-feira começou com Emma parada nos degraus da frente da elegante casa de solteiro de Alex, localizada a apenas cinco quarteirões da casa Blydon, em Grosvenor Square. Não era uma casa muito grande – Alex não gostava de receber visitas e Emma supôs que ele planejava se mudar para a mansão da família quando se casasse.
O que ela esperava que acontecesse muito em breve.
Emma ergueu a mão para pegar a aldrava grande de metal, então se virou rapidamente.
– Você poderia ir embora logo? – sussurrou ela.
Ned estava parado a cerca de 2 metros da base da escada.
Ele deu de ombros.
– Alguém precisa acompanhar você de volta para casa.
– Alex pode me acompanhar.
– E se ele não aceitar o pedido de casamento?
– Ned Blydon, essa foi uma observação muito cruel – disse Emma, nervosa, sentindo o coração afundar no peito. – Ele vai aceitar. Eu acho – sussurrou ela.
– O quê?
– Vá embora!
Ned começou a caminhar de costas.
– Já vou, já vou.
Emma viu o primo desaparecer na esquina antes de se voltar novamente para a aldrava de metal que se erguia, enorme, na altura da testa dela. Depois de respirar fundo, levantou a aldrava e deixou-a cair com um baque surdo. O barulho pareceu alto demais para os nervos já sensíveis de Emma, que recuou assustada, e perdeu o equilíbrio na beirada do degrau. Ela agitou os braços, tentando se agarrar ao corrimão, e inclinou o rosto para a frente em um ângulo bizarro.
E foi nessa posição que o mordomo a encontrou quando abriu a porta e abaixou os olhos para ela, parecendo confuso.
– Ah, olá – disse Emma em um tom agudo, com um sorrisinho, enquanto se recompunha o mais rápido possível. – Sua Graça está recebendo visitas?
O mordomo não respondeu imediatamente, preferindo mirá-la de alto a baixo em um julgamento silencioso. Estava claro que era uma dama da alta classe, mas era bastante incomum que uma dama bem-nascida aparecesse desacompanhada para visitar um cavalheiro solteiro. O mordomo avaliava se seria correto permitir que ela entrasse quando Emma tou-o subitamente com aqueles olhos violeta enormes, e ele perdeu toda a concentração. O homem fechou os olhos por um momento e, indo contra o próprio bom senso, falou:
– Entre, por favor.
Ele levou-a a uma saleta de recepção bem ao lado do saguão de entrada.
– Vou ver se Sua Graça está disponível.
– Quem é, Smithers? – perguntou Alex, distraído, mal levantando os olhos dos documentos que estava examinando.
– Há uma jovem dama desacompanhada que deseja vê-lo, Vossa Graça.
Alex deixou os papéis em cima da mesa, tou o mordomo com atenção e respondeu:
– Não conheço nenhuma jovem dama capaz de aparecer na minha casa desacompanhada.
Ele pegou novamente os documentos e começou a folheá-los em gestos bruscos.
– Como desejar, Vossa Graça.
Smithers ia saindo da sala, mas parou pouco antes de fechar a porta.
– Tem certeza, Sua Graça?
Alex voltou a pousar os papéis e encarou o mordomo com uma expressão irritada.
– Tenho certeza de quê, Smithers?
– Tem certeza de que não conhece essa dama em particular? Ela parece bastante, hum, ansiosa, Vossa Graça.
Alex decidiu dar mais atenção ao mordomo.
– Como é a dama, Smithers?
– Ela é bem pequena, tem cabelos de uma cor bastante forte.
– O quê? – bradou Alex, e se levantou tão rapidamente que bateu com o joelho na mesa.
As rugas nos cantos dos olhos do mordomo suavizaram ligeiramente.
– E tem os maiores olhos violeta que eu já vi desde que a Sra. Smithers faleceu há sete anos.
– Santo Deus, Smithers, por que não disse logo?
Alex saiu em disparada do escritório e quase rolou escada abaixo. O mordomo foi atrás dele a um passo mais lento.
– Não fazia ideia de que o senhor estava interessado na cor dos olhos da minha falecida esposa – disse o mordomo, baixinho, abrindo seu sorriso mais largo nos últimos sete anos.
– Emma! – exclamou Alex, entrando apressado na sala. – O que você está fazendo aqui, pelo amor de Deus? Aconteceu alguma coisa? A sua família sabe que você veio?
Emma umedeceu nervosamente os lábios antes de responder.
– Não, eles não sabem. Somente Ned, que me acompanhou até aqui.
– O seu primo permitiu que você entrasse em minha casa desacompanhada? Ele enlouqueceu?
– Não, embora eu ache que eu enlouqueci – admitiu Emma, a voz um pouco desanimada.
Alex não parecia louco de alegria por vê-la. Ela se levantou rapidamente.
– Posso ir embora, se não for um bom momento – disse ela.
– Não! – exclamou Alex em voz alta enquanto atravessava a sala e fechava a porta. – Fique, por favor. Só estou surpreso por vê-la aqui.
– Sei que isso é altamente inapropriado – começou Emma, sem ter a menor ideia de como abordar o assunto do casamento. – Mas queria falar com você em particular, e sei como é difícil conseguir alguns momentos a sós nesta cidade.
Alex ergueu uma sobrancelha. Ele sabia.
– Ned me disse que você voltou ontem. Ele o viu ontem à noite, no White’s.
Alex se perguntou se Ned também havia contado a ela que ele passara a noite inteira atormentando-o com perguntas sobre Emma.
Ela se levantou subitamente, ansiosa demais para permanecer sentada. E começou a andar de um lado para o outro, mordendo o lábio inferior em um movimento nervoso.
– Você faz muito isso – comentou Alex, com um sorriso indulgente.
Emma se virou para ele.
– O quê?
– Morder o lábio. Acho muito cativante.
– Ah. Bem, obrigada.
Alex atravessou a sala e segurou-a pelos braços.
– Emma – disse ele em voz baixa, olhando no fundo dos olhos dela. – Por favor, me diga qual é o problema. Você obviamente está bastante perturbada com alguma coisa.
Ela sentiu um nó na garganta quando tou o verde intenso dos olhos dele. Com a cabeça inclinada para trás em uma posição vulnerável, Emma teve a sensação de que ele conseguia ver nas profundezas de sua alma. Ela engoliu em seco várias vezes, lutando contra a vontade de pressionar o corpo contra o dele e simplesmente se derreter em seus braços. Podia sentir o calor emanando de Alex e desejava desesperadamente senti-lo.
Alex percebeu o desejo começando a nublar os olhos dela, e foi preciso recorrer a toda a força de vontade que tinha para não lhe roubar um beijo imediatamente. Ele não fazia ideia de como acalmar a angústia de Emma, mas com certeza ela não precisava de outro encontro íntimo.
Emma não sabia quanto tempo havia permanecido naquela posição antes de se lembrar de respirar, mas nalmente soltou o ar e disse:
– Preciso conversar com você sobre um assunto, e não consigo pensar claramente com você assim tão perto de mim.
Alex encarou aquilo como um bom sinal.
– É claro – disse ele, solícito, soltando os braços dela e indicando o sofá onde ela estava sentada poucos momentos antes.
Alex passou a mão pelo queixo, pensativo, e começou a avaliar a situação. Havia planejado pedir Emma em casamento na sexta-feira, mas poderia muito bem fazer aquilo ali mesmo. Ela também devia sentir alguma coisa por ele, senão não teria ousado aparecer sozinha na casa dele. Além disso, ali ele teria mais chance de beijá-la loucamente depois que ela dissesse sim (o que ele rezava para que acontecesse) do que na casa dos primos de Emma, onde havia planejado anunciar sua intenção. Esperaria apenas que ela dissesse o que a estava perturbando tanto e então a pediria em casamento. Seria um grande momento.
Emma foi até o sofá e se sentou na beirada.
– Alex – falou, inclinando-se para a frente. – Preciso lhe pedir uma coisa e tenho medo de que você diga não.
Alex se sentou em uma cadeira perto do sofá e também inclinou o corpo para a frente, de modo que seu rosto cou bem próximo do dela.
– Você nunca vai saber se não perguntar.
– Tenho ainda mais medo de que você diga sim – murmurou ela.
Alex cou intrigado, mas não disse nada.
Emma respirou fundo, engoliu em seco e endireitou os ombros. Ela imaginara que aquilo não ia ser fácil, mas jamais imaginou que se sentiria tão apavorada enquanto tentava dizer as palavras.
– Alex – falou subitamente, e sua voz saiu alta demais.
Ela voltou a engolir em seco e procurou falar um pouco mais baixo.
– Alex – repetiu. – Preciso… quer dizer, quero… não, não.
Ela levantou os olhos muito grandes e luminosos para ele.
– Isso é muito difícil para mim.
– Estou percebendo – falou Alex em um tom solidário.
Emma acabaria deixando o lenço que tinha nas mãos em farrapos.
– Alex, eu gostaria de pedir a sua mão em casamento.
As palavras saíram muito rapidamente, e ela soltou o ar de repente, sem nem mesmo se dar conta de que estava prendendo a respiração.
Alex piscou, confuso, mas, exceto pelas pálpebras, não mexeu um músculo.
Emma o encarou, ansiosa.
– Alex?
– Você acabou de me pedir em casamento?
Ela começou a torcer o tecido da saia verde na mão, sem coragem de voltar a encará-lo.
– Sim.
– Foi o que imaginei.
Alex se recostou na cadeira, de repente, bastante surpreso. Acabara de se convencer de que já estava na hora de pedir Emma em casamento e ela se adiantara. Uma vozinha no fundo de sua mente lhe dizia que aquilo era uma coisa boa, que, se Emma realmente o pedira em casamento, aquilo provavelmente queria dizer que ela teria aceitado quando ele nalmente viesse a fazer o mesmo. Mas uma voz ainda mais alta, não tão no fundo de sua mente, dizia que aquilo era muito errado, que ela de algum modo tinha negado a ele algo que ele queria muito fazer. Alex vinha ensaiando o pedido sem parar havia dois dias. Não conseguia dormir à noite porque não parava de imaginar todos os cenários possíveis. Havia pensado seriamente em se apoiar em um dos joelhos e tudo o mais. Em vez disso estava apertado em uma cadeira pequena demais para ele enquanto Emma permanecia inclinada tão precariamente na pontinha do sofá que Alex temia que ela fosse cair.
– Emma, tem certeza de que sabe o que está fazendo? – perguntou ele por m.
Ela pareceu murchar. Aquela não era uma reação muito positiva.
– O que eu estou querendo dizer – continuou Alex – é que normalmente é o homem que pede a mulher em casamento.
– Eu não poderia simplesmente car esperando que você resolvesse me pedir em casamento – disse ela, um pouco tímida. – Se você resolvesse me pedir em casamento.
– Você não teria tido que esperar muito tempo – murmurou ele.
Emma obviamente não o escutou, porque não pareceu menos ansiosa.
– O problema é que preciso me casar com você o quanto antes.
Alex achou o comentário muito intrigante, já que eles não haviam realizado o ato que costuma exigir que uma mulher se case o quanto antes com um determinado homem.
– Isso é muito incomum – disse Alex, balançando a cabeça.
– Sei disso – improvisou Emma –, mas você me diz com frequência que sou uma mulher incomum.
– Na verdade, nunca quei sabendo de uma mulher que tenha pedido um homem em casamento – comentou Alex, medindo as palavras com cuidado. – Não acho que seja exatamente ilegal, mas simplesmente não se faz.
Emma revirou os olhos. Estava começando a entender o que estava acontecendo ali. Havia ferido o orgulho masculino de Alex. Normalmente estaria achando graça disso, mas a felicidade de toda a sua vida estava em jogo. Alex estava sentado diante dela, sentindo pena de si mesmo porque ela havia roubado alguma espécie de direito inato masculino, sem sequer parar para pensar em quanta coragem fora necessária para ir até a casa dele desacompanhada e pedi-lo em casamento. Não havia sido criada para enfrentar uma situação como aquela. Ainda assim, havia decidido que um deles teria que ser maduro o bastante para isso e esse alguém podia muito bem ser ela.
– Sinceramente, Alex – disse ela com um sorriso doce. – Você deveria se sentir lisonjeado. É raro para um homem que uma mulher esteja tão encantada por ele a ponto de desa ar as convenções.
Alex a encarou surpreso.
– Eu pretendia pedi-la em casamento na sexta-feira – disse ele em um tom ligeiramente petulante. – Já havia até ensaiado o que iria dizer.
– Você ia mesmo? – perguntou Emma, alegre. – De verdade? Ah, Alex, estou tão feliz!
Incapaz de se conter, ela se levantou de um pulo do sofá, se ajoelhou diante de Alex e pegou as mãos dele.
Alex baixou os olhos para ela, a expressão ainda um pouco contrariada.
– Eu estava realmente animado com a ideia de fazer o pedido. Nunca
z isso antes, como você deve imaginar. E agora não vou ter a
oportunidade…
Emma abriu um sorriso encantado e apertou as mãos dele.
– Você ainda pode me pedir em casamento. Prometo que vou aceitar.
Alex suspirou e de repente a encarou, muito sério.
– Não estou sendo muito agradável, não é?
– Não – admitiu Emma –, mas realmente não me importo. Estou feliz demais por você querer se casar comigo.
– Eu ainda não aceitei, sabia?
Emma o encarou, carrancuda.
– Mas vou aceitar, eu acho, se tiver o encorajamento necessário.
– E qual seria esse encorajamento, Vossa Graça?
Alex olhou para o teto com uma expressão de falsa inocência.
– Ah, não sei. Um beijo seria um bom começo.
Emma se inclinou para a frente e apoiou as mãos nos braços da cadeira dele.
– Você vai ter que cooperar – disse, sentindo-se extraordinariamente ousada agora que ele aceitara a sua proposta.
Alex se inclinou, suas mãos cobriram as dela.
– Pode contar comigo.
Ele parou de repente, com a boca dolorosamente próxima.
– Ah, Alex.
Emma suspirou e roçou os lábios nos de Alex muito delicadamente, encantada ao se dar conta de que aquela era a primeira vez que ela tomava a iniciativa e achando que talvez fosse o mais doce de todos os beijos exatamente por isso.
– Fico muito feliz por ter pensado em fechar a porta – comentou Alex, sorrindo, enquanto en ava o nariz no pescoço dela. – Embora…
As palavras se perderam quando ele afastou a cabeça, relutante, e virou o pescoço até estar de frente para a porta da saleta.
– Smithers! – gritou abruptamente. – Pode tirar o ouvido da porta! Já ouviu tudo o que queria ouvir, agora suma!
– Imediatamente, senhor – foi a resposta abafada.
Emma não conseguiu conter uma risada quando ouviu passos desaparecendo pelo corredor, escadas acima.
– Ele vem tentando fazer com que eu me case há anos – explicou Alex. – Agora, onde estávamos?
Ela abriu um sorriso sedutor.
– Acho que estávamos prestes a passar para o sofá.
Alex gemeu. Esperava que Emma não tivesse planos para um noivado longo. Ele se levantou da cadeira, puxou-a para que casse de pé, então levantou-a e colocou-a no sofá.
– Ah, meu bem – disse ele, sentando-se ao lado dela. – Senti tanto a sua falta.
– Você me viu três dias atrás.
– Isso não signi ca que não senti sua falta.
– Também senti a sua – confessou Emma timidamente. – Quando não estava tendo uma crise de nervos diante da possibilidade de vir até aqui hoje.
– Estou muito feliz por você ter vindo.
Alex roçou novamente os lábios contra os dela, aprofundando o beijo daquela vez, deixando a língua correr pelos dentes lisos. Quando Emma deixou escapar um leve suspiro, ele tirou vantagem do momento e aprofundou o beijo, deleitando-se com o sabor dela.
– Estou muito feliz com a ideia de que casamentos duram a vida toda – falou Emma, baixinho, junto à boca dele. – Porque acho que jamais vou me cansar dos seus beijos.
Ela se afastou ligeiramente e levou a mão ao rosto dele.
– Você faz com que eu me sinta tão linda.
– Você é linda.
– É muito gentil da sua parte, mas cabelos ruivos estão lamentavelmente fora de moda. Mesmo assim, acho impossível alguém se sentir tão bonita quanto eu me sinto neste momento.
Alex a tou com ternura. A pele clara e delicada estava ruborizada de desejo, e os olhos muito abertos e cintilantes eram emoldurados pelos cílios mais longos que ele já vira. E os lábios de Emma, Deus, nunca pareceram tão rosados antes, nem tão cheios.
– Então você deve mesmo se sentir muito linda, Emma. Porque eu nunca vi na vida algo tão belo quanto você neste momento.
Ela sentiu um calor agradável percorrer todo o seu corpo.
– Ah, Alex, por favor, me beije de novo.
– Com prazer, meu amor.
Ele levou as mãos ao rosto dela, puxando-o para mais perto. Emma não ofereceu qualquer resistência e Alex mergulhou a língua em sua boca, acariciando a maciez ali dentro. Ela o imitou timidamente, explorando a boca masculina com curiosidade.
Alex achou que as carícias hesitantes de Emma o matariam, mas queria mais. Ele a puxou para junto de si com ardor, pressionando o corpo dela intimamente contra o dele, acariciando-a incontrolavelmente.
Emma gemeu de prazer, mal conseguindo acreditar nos tremores de alegria que percorriam seu corpo. Quando achou que não era capaz de suportar mais, Alex pousou a mão em seu seio, apertando muito de leve. Uma chama parecia queimá-la através do tecido, fazendo sua pele arder. Alex a estava marcando como sua futura esposa. Ela sentiu que perdia lentamente o controle. Tudo em que conseguia pensar era car o mais colada possível a ele, tocando cada centímetro do corpo dele.
Quando Emma já estava prestes a se perder totalmente, Alex se afastou com muita, muita relutância.
– Meu bem – falou ele, com um cavalheirismo que nem sonhava possuir –, vou parar agora antes de chegarmos a um ponto em que não conseguirei mais me conter. Entende?
Ela assentiu, trêmula.
– Quero que a nossa noite de núpcias seja perfeita. Então você será minha de todas as formas.
– E você será meu – disse Emma, baixinho.
Alex deu um beijo carinhoso nos lábios dela.
– Sim, é verdade. Será o momento mais lindo das nossas vidas, eu prometo, e não quero estragá-lo de forma alguma. Agora, se não se importa, acho que gostaria de abraçá-la por um instante antes de ser forçado a levá-la de volta para casa.
Emma assentiu de novo, incapaz de encontrar palavras que expressassem as emoções que a dominavam. Nunca sonhara que fosse possível uma mulher se sentir tão plena de alegria como ela se sentia naquele momento. Lentamente, Emma se deu conta de que Alex ainda não dissera que a amava, mas a verdade era que ela também não dissera, o que não diminuía em nada seu sentimento por ele. Além do mais, conseguia sentir o amor dele, quase tocá-lo. Ao longo dos últimos meses, Emma passara a conhecê-lo muito bem. Ele não conseguiria abraçá-la daquele jeito se não a amasse ao menos um pouco. E, com o tempo, ela sabia que as palavras viriam. Talvez precisasse reunir coragem para dizê-las primeiro. Mas não poderia ser tão difícil, não é mesmo? A nal, já o pedira em casamento. Nada poderia ser mais assustador do que isso, e ela se saíra muito bem. Teria que esperar um pouco mais para falar de amor. Por ora, estava satisfeita apenas em car nos braços dele. Tinha encontrado seu lar.
Depois de alguns minutos, Alex lembrou que era preciso levar Emma de volta para casa. Ela havia dito que Ned a acompanhara até ali – Alex não queria nem imaginar o que Emma havia feito para convencer o primo a fazer isso. De qualquer modo, ele sabia que Ned voltaria se ela demorasse demais. E, se isso acontecesse, toda a família Blydon acabaria envolvida. E a confusão se instalaria. Todos cariam felizes, é claro, depois que ele informasse do casamento iminente, mas Alex achava que aquele não seria um começo muito auspicioso para a vida do casal.
Assim, lamentando muito, ele cutucou o ombro de Emma.
– Acorde, meu bem. Lamento, mas tenho que levá-la de volta para casa.
– Gostaria que você não precisasse fazer isso.
– Eu também, pode acreditar. Mas a última coisa que queremos é toda a sua família em cima de nós.
Emma bocejou e se desvencilhou lentamente dos braços de Alex.
– Detesto a realidade.
Alex riu.
– O que acha da próxima semana?
– O que acho da próxima semana para quê?
– Para o nosso casamento, tolinha.
– Na próxima semana? Você cou maluco?
– Obviamente.
– Alex, não tenho como planejar um casamento até a semana que vem.
Então Emma se lembrou de que o pedira em casamento justamente porque precisava se casar o quanto antes.
Mas Alex já cedera.
– Duas semanas então.
– Está certo – falou ela lentamente. – Tia Caroline vai ter uma síncope. Tenho certeza de que ela vai querer um evento grandioso.
– Você quer um evento grandioso?
Emma tou-o e sorriu.
– Sinceramente, eu não me importo – disse ela com um suspiro.
Tudo o que ela realmente queria era Alex. Embora, agora que pensava a respeito, sempre tivesse sonhado com um vestido lindo, no qual se via descendo a nave de uma igreja para encontrar seu futuro esposo.
– Sem ser neste sábado, o próximo – disse Emma rapidamente, torcendo para ser capaz de encontrar uma modista disposta a trabalhar em um prazo tão curto.
– Muito bem. Vou cobrar.
Emma deu uma risadinha.
– Por favor, faça isso.
Alex ainda estava curioso com o comentário dela de ter que se casar com ele o quanto antes. Fosse qual fosse o problema, era algo tão urgente que a zera desa ar todas as convenções.
– Emma, eu tenho uma pergunta a lhe fazer – disse ele, tocando o queixo dela de leve.
– Sim?
– O que levou você a me pedir em casamento?
– O que me levou? Bem, na verdade é tudo uma grande tolice, e eu poderia simplesmente matar Ned por isso, embora deva dizer que no m deu tudo muito certo. Eu realmente não poderia estar mais feliz.
Emma ergueu os olhos e deu um sorriso tímido.
– A questão é que eu precisava de dinheiro, e não posso usar o meu…
Então Emma parou abruptamente, horrorizada com a mudança que acabara de ver em Alex. Todo o corpo dele pareceu car tenso, como se preparado para um embate físico, e seu rosto era como uma máscara de granito, duro e indecifrável. Emma cambaleou um passo para trás, com a sensação de ter quase sido empurrada pela expressão implacável.
– Alex? Algum problema?
Alex sentiu uma fúria ardente consumi-lo e se viu incapaz de falar. Aquilo latejava em sua mente, bloqueando a razão. Eu precisava de dinheiro eu precisava de dinheiro eu precisava de dinheiro. As palavras de Emma ecoaram implacáveis, na cabeça dele, e os muro ao redor do seu coração, que ela tão recentemente botara abaixo, começaram a se reerguer. Como podia ter sido tão tolo? Ele achou que nalmente havia encontrado uma mulher que parecia realmente gostar dele, que não se importava com os bens materiais e o prestígio que acompanhavam seu nome. Ele chegou a crer que estava apaixonado por ela… Que idiota. No
m, Emma provara ser exatamente como todas as outras. Alex não
conseguia acreditar que ela realmente admitira que tudo o que queria era dinheiro. Aquilo, supôs, era um ponto a favor de Emma, porque ao menos não fora dissimulada como o restante delas.
Alex a encarou friamente, e seus olhos cintilavam como duas pedras de gelo cor de esmeralda.
– Vá embora – disse, a voz rouca, praticamente cuspindo as palavras.
Emma sentiu todo o sangue fugir de seu rosto e, por um momento, achou que fosse desmaiar.
– O quê? – perguntou ela, sem ar, incapaz de acreditar que tinha ouvido direito.
– Você me ouviu. Quero que vá embora.
– Mas o que…
Emma mal conseguiu pronunciar as palavras.
– Pode considerar nulo e revogado qualquer acordo a que tenhamos chegado aqui hoje.
A voz dele também era fria. Ele a agarrou pelo braço e começou a levá-la na direção da porta. Emma sentiu lágrimas quentes marejando seus olhos e se esforçou para evitar que escorressem enquanto Alex a arrastava pela sala.
– Alex, por favor – pediu ao sair tropeçando da saleta e chegar ao saguão principal. – Qual é o problema? O que houve? Por favor, me diga. Por favor!
Alex virou-a para que o encarasse, e a expressão dela era dura.
– Sua megerazinha gananciosa.
Emma teve a sensação de ter sido esbofeteada.
– Ah, meu Deus – sussurrou ela, sem conseguir mais conter as lágrimas, que escorriam livremente.
– Espere do lado de fora – disse ele, rudemente, empurrando-a até o degrau da frente. – Vou conseguir uma carruagem para levá-la para casa.
Então deu as costas a ela e entrou em casa. Mas parou de repente e se virou.
– Nunca mais volte aqui.
Ainda parada nos degraus, Emma se perguntou se teria morrido. Então enxugou algumas lágrimas, respirou fundo o ar fresco algumas vezes e tentou recuperar o equilíbrio. Ela precisava sair dali. A última coisa que queria era voltar para casa na carruagem dele. Cobriu a cabeça com o xale para esconder os cabelos ruivos, desceu os degraus às pressas e saiu andando.