Esplêndida

Julia Quinn · Capítulo 21 de 27

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Esplêndida

Capítulo 20

 

Emma mordeu o lábio e se esforçou para manter a postura ereta. Seus joelhos tremiam, a pulsação estava acelerada e sua mente era dominada pela autorrecriminação. Fechou os olhos, angustiada. Dessa vez realmente passara do limite.

O tio parecia prestes a explodir.

– Vá para o seu quarto imediatamente – falou ele, furioso, sacudindo o indicador na direção de Emma.

Ela arregalou os olhos e subiu correndo a escada, sem ousar sequer olhar para trás.

No andar de cima, postada ao lado de Ned, Belle cou sem ar ao ver a prima passar voando. Ela jamais, jamais, vira o pai furioso daquele jeito.

– E você – disse Henry, voltando sua fúria na direção de Alex e ignorando completamente o título do rapaz, mais importante do que o dele –, para o meu escritório. Cuidarei de você assim que conversar com a minha esposa.

Alex assentiu brevemente e saiu do saguão.

– E quanto aos meus dois lhos obedientes – voltou a falar Henry sem se virar. – Sugiro que os dois sigam para seus quartos também e meditem sobre o motivo de não terem nos informado do paradeiro da sua prima na noite passada.

Belle e Ned obedeceram na mesma hora.

Quando Henry nalmente cou a sós com a esposa (até os criados haviam tido o bom senso de deixar a cena), ele se virou para ela e disse, com um suspiro:

– E então, minha cara?

Caroline deu um sorriso cansado e abraçou o próprio corpo.

– Não posso negar que estava torcendo para que isso acontecesse. Só que depois de um casamento.

Henry se inclinou e beijou a esposa, sentindo parte da fúria inicial ceder.

– Por que não sobe para cuidar de Emma? Eu tomo conta de Ashbourne.

E, com isso, ele voltou a suspirar e caminhou lentamente até o escritório. Quando chegou lá, viu Alex parado perto da janela, os braços cruzados, observando as faixas laranja e cor-de-rosa que coloriam o céu no início da manhã.

– Não sei se devo jogá-lo pela janela ou apertar a sua mão e parabenizá-lo – falou Henry com a voz cansada.

Alex se virou, mas não disse anda.

Henry foi até a garrafa que estava sobre uma mesa lateral.

– Aceita uma dose de uísque? – perguntou, olhando de relance para o relógio e se encolhendo ao ver que eram apenas cinco e vinte da manhã. – Sei que está um pouco cedo, mas estamos tendo uma manhã bem fora do comum, não acha?

Alex assentiu.

– Um drinque seria muito bem-vindo, obrigado.

Henry serviu o uísque e entregou a ele.

– Por favor, sente-se.

– Pre ro car de pé, obrigado.

Então Henry também se serviu de um copo.

– E eu pre ro que você se sente.

Alex se sentou.

Um leve sorriso curvou os lábios de Henry.

– Imagino que você seja pelo menos uns cinco quilos mais pesado do que eu, portanto acho que vou dispensar a ideia da janela.

– Eu teria di culdade em fazer isso se estivesse no seu lugar – comentou Alex baixinho.

– É mesmo? Bom saber. Mas temo que a idade nos deixe mais mansos. Não sou tão feroz quanto costumava ser. No entanto, parece que a honra da minha sobrinha foi comprometida na noite passada. – Henry pegou o uísque e encarou Alex. – E parece ter sido você o responsável. Não posso parabenizá-lo por isso.

– Pretendo me casar com ela. – O tom de Alex era determinado.

– E ela pretende se casar com você?

– Ainda não.

– Você acha que ela quer se casar com você?

– Ela diz que não, mas quer, sim.

Henry pousou gentilmente o copo, cruzou os braços e apoiou o corpo contra a beira da escrivaninha.

– Isso é um pouco condescendente da sua parte, não acha?

Alex enrubesceu.

– Dois dias atrás, Emma apareceu na minha casa… desacompanhada… e me pediu em casamento – disse Alex, ligeiramente na defensiva.

Henry ergueu uma sobrancelha.

– É mesmo?

– Eu aceitei.

– Posso ver que vocês estão em excelentes termos, agora – comentou Henry com ironia.

Alex ajeitou o corpo na cadeira, sentindo-se desconfortável e repetindo para si mesmo sem parar que, como tio de Emma, Henry tinha direito a algumas respostas. Ainda assim, a cena era muito humilhante.

– Tivemos um mal-entendido. Eu… eu rompi com ela, mas na noite passada resolvemos tudo.

– Muita coisa pode acontecer em 24 horas.

Alex se perguntou em que momento teria perdido o controle daquela conversa. Respirou fundo e continuou, sentindo-se como um colegial sendo repreendido.

– Dessa vez, eu a pedi em casamento, mas Emma se recusa porque é muito cabeça-dura.

Taciturno, Alex xingou baixinho e se afundou na cadeira.

– Emma é uma pessoa difícil de controlar, posso garantir, mas o pai dela a con ou aos meus cuidados. Levo muito a sério as minhas responsabilidades em relação à minha família. E, mais importante do que isso, amo Emma como uma lha – disse Henry, e então ergueu o copo no ar. – Posso propor um brinde às suas núpcias iminentes, Vossa Graça?

Alex o encarou, surpreso.

– Mas saiba que não estou dando a minha benção porque você seduziu Emma, nem porque está dizendo que é o que ela quer. Estou fazendo isso porque realmente acredito que esse casamento é a melhor coisa para a minha sobrinha. Acho que você é um dos poucos homens que conheço que está à altura dela, e acho que Emma será uma boa esposa para você.

Então, como se acabasse de lhe ocorrer, acrescentou:

– Também acho que Emma realmente quer se casar com você, mas, como você mesmo disse, ela pode ser cabeça-dura, por isso talvez tenhamos certa di culdade para lembrar o fato a ela. Pelo seu bem, espero que consigamos, porque não vou forçar minha sobrinha a subir ao altar com uma pistola apontada para as costas dela.

Alex deu um sorrisinho e tomou o resto do uísque.

 

Emma estava olhando pela janela quando Caroline entrou no quarto, mas seus olhos se recusavam a se concentrar na cena.

– Você se meteu em uma bela confusão – comentou Caroline enquanto fechava a porta com um clique alto.

Emma se virou lentamente, os olhos cintilando com lágrimas não derramadas.

– Sinto tanto, tia Caroline. Nunca tive a intenção de envergonhar a senhora ou a sua família. Por favor, acredite nisso.

Caroline respirou fundo. Emma precisava de conforto e de apoio naquele momento, não da repreensão que obviamente esperava.

– Que história é essa de minha família? Eu só vejo a nossa família.

Emma deu um sorrisinho trêmulo. Caroline se sentou na cadeira diante da penteadeira da sobrinha.

– Tenho a impressão de que você vai ter que tomar algumas decisões sérias bem rapidamente.

– Eu não quero me casar com ele, tia Caroline – apressou-se a dizer Emma.

– Não? Tem certeza?

Emma deu de ombros.

– Acho que não.

– Acho é muito diferente.

Emma se afastou da janela, tirou os sapatos e se sentou na cama.

– Não sei o que fazer…

– Por que não me conta o motivo de não querer se casar com Ashbourne?

– Alex é dominador demais. Acredita que ele nem sequer me pediu em casamento? Simplesmente declarou que nos casaríamos e pronto. Ele nem me consultou!

Caroline respirou fundo, percebendo que a sobrinha havia recuperado um pouco do espírito combativo usual.

– Isso foi antes ou depois de você ter sido, hum, comprometida?

Emma desviou os olhos.

– Depois.

– Entendo. E você não acha que foi uma conclusão bastante lógica da parte de Ashbourne presumir que você, uma jovem bem-nascida, iria querer se casar com ele depois que vocês tiveram relações íntimas?

– Ele poderia ter me perguntado.

Emma cerrou os lábios em uma atitude desa adora, mas se encolheu por dentro ao se dar conta de como parecia birrenta.

– Sim, isso com certeza foi um descuido da parte dele, mas não sei se é uma razão boa o bastante para que você recuse o pedido – disse Caroline, que fez uma pausa e se inclinou para a frente. – A menos, é claro, que você tenha outro motivo para rejeitá-lo.

Emma engoliu em seco e mordeu o lábio inferior.

– Você tem?

Quando Emma nalmente falou, mal se ouvia a sua voz.

– Não.

– Bem, já é um começo – declarou a tia em um tom animado, levantando-se e indo até a janela diante da qual Emma estivera parada pouco antes.

– Mas a verdade é que não deve-se casar só por não ter motivo para não fazê-lo. É preciso haver algumas razões para que deva se casar, não acha?

Assumindo o silêncio de Emma como concordância, Caroline continuou:

– Há alguma razão pela qual se casar com Ashbourne poderia ser uma escolha muito inteligente? E por inteligente eu quero dizer que seria o passo lógico para garantir a sua felicidade no futuro.

Emma piscou algumas vezes sob o olhar atento da tia e assentiu.

– Foi o que pensei – disse a tia, cruzando os braços, e então, sem rodeios, perguntou: – Você ama Ashbourne?

Emma assentiu e uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

– Você está percebendo quão perto chegou de arruinar suas chances de se casar com o homem que ama?

Emma assentiu de novo, sentindo-se ligeiramente nauseada.

– Muito bem, então talvez seja melhor você domar essa teimosia e esse orgulho – aconselhou Caroline, sentando-se ao lado da sobrinha e puxando-a para um abraço maternal. – Embora eu não ache que deva domá-los totalmente. Você vai precisar de um pouco de ambos em um casamento com um homem como esse.

– Eu sei – falou Emma, fungando.

Caroline deu um beijo na testa dela.

– Agora enxugue essas lágrimas, meu bem. Vamos ter que descer e informar sua decisão aos homens.

Caroline se levantou e foi até a porta.

– E quanto ao meu pai? – perguntou Emma subitamente. – Não posso me casar sem a permissão dele. E a empresa…

Emma se deu conta de que aquilo era uma desculpa boba, considerando que ela havia sido a primeira a fazer o pedido de casamento, um fato que sem dúvida logo seria do conhecimento de Caroline.

– Acho que você sempre soube que o Estaleiro Dunster não era o seu destino. E quanto ao seu pai… bem, lamento, mas ele vai ter que con ar em nossas decisões. Não temos muito tempo.

Os olhos de Emma se arregalaram de horror enquanto ela abaixava a cabeça automaticamente para a barriga. Deus, ela nem sequer havia considerado a possibilidade de conceber um bebê.

– Você entendeu o que eu quis dizer.

Quando as duas entraram no escritório de Henry, alguns minutos depois, o dono da casa e Alex estavam sentados em um silêncio amigável, cada qual com seu copo de uísque. Emma estreitou os olhos ligeiramente ao ver a cena. Não parecia que o tio estivera gritando com Alex por causa da virtude perdida dela. Ela suspirou baixinho. Ah, bem, era melhor mesmo começar um casamento em um ambiente pací co.

– Você quer nos dizer alguma coisa? – perguntou Henry com uma sobrancelha erguida.

Emma engoliu em seco, se adiantou e virou-se para encarar Alex.

– Seria uma honra me casar com Vossa Graça – disse, e então fez uma pausa e levantou ligeiramente o queixo. – Se achar conveniente fazer o pedido.

Caroline gemeu e Henry revirou os olhos, mas Alex não pôde evitar que um sorrisinho dançasse em seu rosto. Ele imaginava que, a nal, aquele era o motivo pelo qual a amava tanto.

– Gostaria que eu me ajoelhasse? – perguntou Alex, olhando no fundo dos olhos de Emma.

Ela umedeceu nervosamente os lábios. O tom dele era provocador, mas ela soube que Alex se ajoelharia se ela pedisse.

– Não – falou, sentindo-se arder sob o olhar intenso cor de esmeralda. – Não acho que seja necessário.

O sorriso de Alex se abriu um pouco mais quando tou Emma. Ela ainda usava as roupas de Ned, e estava encantadora, parada ali com o queixo erguido enquanto tentava se agarrar ao próprio orgulho. Ele teve vontade de estender a mão e prender uma mecha dos cabelos muito vivos atrás da orelha dela, mas, ciente da presença de Henry e Caroline, apenas pegou a mão de Emma e levou aos lábios.

– Aceita se casar comigo? – perguntou baixinho.

Ela assentiu, sem con ar totalmente em sua capacidade de falar. Henry e Caroline, sentindo que seu dever tinha sido cumprido, saíram silenciosamente do escritório, deixando Emma a sós com Alex, a mão dela ainda colada aos lábios dele.

– Sinto muito por não ter feito isso direito da primeira vez – disse ele com a voz suave.

Emma sentiu um sorriso curvar seus lábios.

– Na verdade, acho que aquela foi a segunda vez.

Alex assentiu.

– Você tem razão, mas, caso não se lembre, eu também z tudo errado da primeira vez.

Emma suspirou, lembrando-se da cena terrível na sala de recepção de Alex. Santo Deus, aquilo havia sido apenas dois dias antes? Parecia que uma vida havia se passado desde então.

– É verdade – concordou ela, a voz tranquila. – Mas acho que devíamos deixar tudo isso para trás. Seria bom se pudéssemos começar nosso casamento com otimismo.

– Concordo – respondeu Alex, acariciando distraidamente a mão dela com o polegar.

Ele queria beijá-la apaixonadamente, mas estava com um pouco de medo… Não sabia exatamente de quê, mas por algum motivo sentia que toda a sua vida estava suspensa em um equilíbrio muito delicado e não queria estragá-lo. Por isso cou parado ali, acariciando a mão de Emma, sem saber o que dizer e se sentindo um tolo por estar tão inseguro.

– Vou tentar não ser tão controlador – disse, por m, em um tom grave.

Os olhos de Emma encontraram os dele. Alex parecia tão sério, tão ansioso, que era difícil não jogar os braços ao redor do pescoço dele.

– Vou tentar não ser tão teimosa – prometeu ela, por sua vez.

Um breve sorriso cruzou o rosto de Alex enquanto ele a tomava nos braços e a puxava com gentileza. Emma o abraçou pela cintura e pousou o rosto contra o peito dele. Ela suspirou baixinho, sentindo o calor delicioso que irradiava do corpo de Alex. O coração dele batia alto e forte e Emma decidiu que teria que ser Alex a eventualmente interromper aquele momento, porque nada no céu ou na terra a faria se mover por vontade própria.

Mas, por mais esplêndida que fosse a sensação, Emma não conseguia afastar da mente a impressão de que estava se casando com um homem que gostava dela, mas que não con ava completamente nela. Alex disse que sabia que ela era diferente das damas da sociedade que o perseguiam incansavelmente, mas Emma tinha medo de que algumas cicatrizes antigas fossem profundas demais. Ela não estava certa de que algum dia ele conseguiria con ar completamente em uma mulher.

Também havia o fato, é claro, de Alex não ter dito que a amava. Emma enrijeceu ligeiramente o corpo, mas logo lembrou a si mesma que ela também não confessara seus sentimentos.

Alex sentiu a mudança na postura dela e deu um beijo rápido no topo de sua cabeça.

– Algum problema, querida?

Emma se permitiu relaxar de novo e desfrutar o calor do abraço dele.

– Não, não há problema algum. Eu só estava pensando, só isso.

– Em quê?

– Em nada especial, na verdade. Só detalhes do casamento – mentiu ela. – Imagino que não tenhamos muito tempo para cuidar de tudo.

Alex recuou lentamente e conduziu-a até um sofá próximo, onde os dois se sentaram.

Com carinho, Alex levou dois dedos ao queixo de Emma e inclinou a cabeça dela para trás, para conseguir olhar dentro dos seus olhos.

– Você queria um casamento grandioso? – perguntou.

– Não. Conheço muitas pessoas aqui em Londres, mas só de vista. São poucas as que conheço bem, por isso não vou sentir falta delas na celebração. Mas gostaria de um vestido especial – acrescentou ela, um pouco melancólica. – E realmente gostaria que meu pai estivesse presente, para me entregar a você.

Alex manteve os olhos xos nos dela, buscando algum sinal de que ela realmente queria um casamento suntuoso, mas só viu a sinceridade mais clara e transparente.

– Sinto muito por não podermos esperar pelo seu pai, mas quero que estejamos casados o mais rápido possível. Eu preferiria não ter que esperar minha mãe e sua tia confabularem sobre arranjos de ores.

Emma deixou escapar uma risadinha.

– Você sabia que foi exatamente por causa de arranjos de ores que nós nos conhecemos, Vossa Graça?

– Não me chame de “Vossa Graça” – alertou Alex.

– Desculpe, saiu sem querer. Acho que fui muito bem treinada nos modos da aristocracia.

– Mas conte por que devo a minha suprema boa sorte a arranjos de

ores.

– Foi por causa deles que eu estava indo ao mercado vestida de criada quando salvei Charlie da carruagem. Tia Caroline queria que eu a ajudasse com arranjos de ores para o baile, então Belle e eu fugimos para a cozinha, para escapar dela, e nos vestimos com as roupas das nossas camareiras porque não queríamos sujar nossos vestidos – explicou Emma, acrescentando: – Eu realmente detesto fazer arranjos de

ores.

Alex deu uma gargalhada.

– Eu prometo, meu bem, que, em homenagem ao nosso primeiro encontro, teremos uma enorme quantidade de ores no nosso

casamento, mas você não vai precisar cuidar de nenhuma delas.

Emma olhou de relance para o per l de Alex, que ria com vontade.

Ele não poderia tratá-la com tanta ternura se não a amasse ao menos um pouquinho, não é? Ela deixou as dúvidas de lado. Se ele ainda não a amava, com certeza a desejava, isso já estava bem claro. E também gostava muito dela. Certamente era um bom começo. Emma respirou fundo ao sentir sua conhecida teimosia começar a emergir. Conseguiria fazer aquele casamento funcionar. Faria aquele casamento funcionar. Precisava fazer.

 

Os dias se passaram em um turbilhão de atividades. Alex tentou impor seu desejo inicial de que o casamento fosse realizado naquele m de semana, mas, depois de cinco minutos de “debate” com Caroline, concordou com relutância em adiar por uma semana. Emma se manteve sabiamente longe da discussão.

– Uma semana e meia ainda é terrível – comentou Caroline. – Mas pelo menos vou conseguir organizar uma cerimônia bonita. Em dois dias teria sido impossível.

Uma hora depois de Alex nalmente partir naquela manhã, a duquesa viúva de Ashbourne chegou à residência dos Blydons, insistindo em participar dos preparativos do casamento. Ninguém lembrou a ela que eram sete e meia da manhã. Eugenia parecia encarar as núpcias iminentes do lho como nada menos do que um milagre, e o mero fato de estar cedo demais para os padrões de etiqueta não iria impedi-la de se certi car de que o casamento ocorreria sem qualquer problema. Depois de cerca de cinco minutos com Eugenia e Caroline, Emma nalmente jogou os braços para cima, pediu às duas damas que por favor a consultassem antes de tomarem qualquer decisão de maior importância, subiu e se jogou na cama. Não dormira muito na noite anterior.

Quando acordou, cerca de seis horas depois, estava faminta. Alguém tinha conseguido se afastar dos preparativos pelo tempo necessário para lembrar de pedir que uma bandeja fosse levada ao quarto dela. Emma engoliu rapidamente a fatia de torta de carne e o suco que foram deixados em cima da cômoda, tomou um banho e se vestiu. Após um dia inteiro usando roupas masculinas, achou seu vestido de caminhada verde-jade um tanto claustrofóbico, mas concluiu que realmente não poderia car andando de calça por aí. Depois de pronta, Emma se sentou diante da escrivaninha e escreveu uma carta ligeira para o pai, explicando as circunstâncias e prometendo escrever uma carta mais longa em breve, contando tudo sobre Alex e o casamento.

Quando nalmente desceu a escada às três da tarde, Caroline e Eugenia estavam exatamente onde ela as deixara, jogando nomes de um lado para o outro enquanto preparavam a lista de convidados. Belle e Sophie tinham se juntado ao grupo e estavam tendo um debate acalorado sobre o buquê. Quando viram a noiva chegar, as duas imediatamente deixaram a escolha nas mãos dela.

– Ah, rosas, eu acho – disse Emma. – Concordam?

As duas mulheres reviraram os olhos.

– Sim, é claro, mas de que cor? – perguntou Belle.

– Ah. Bem, acho que isso vai depender da cor que vou escolher para os vestidos das damas.

Belle e Sophie a encararam com ansiedade aparente e Emma se deu conta de que teria que tomar uma decisão.

– Bem, como vocês duas serão as minhas únicas damas, que cor gostariam de usar?

– Pêssego.

– Azul.

Emma engoliu em seco.

– Entendo. Bem, talvez possamos escolher apenas rosas brancas para o buquê, por enquanto. Branco combina com tudo. Especialmente comigo! – acrescentou com um sorriso animado, mas rapidamente lhe ocorreu perguntar: – Eu posso me casar de branco, não posso? Sei que não está no auge da moda, mas tenho uma amiga em Boston que usou branco no casamento e cou tão lindo…

– Você pode se casar usando a cor que quiser – respondeu a tia. – Sua primeira prova de roupa é hoje à noite. Madame Lambert cará aberta até mais tarde para que o vestido que pronto a tempo.

– É muito gentil da parte dela – disse Emma, se perguntando quanto Caroline oferecera pagar a mais para convencer a modista. – O que mais vocês decidiram?

– Vamos realizar o casamento em Westonbirt, se você não se importar – disse Caroline. – Já está muito em cima para conseguir horário em qualquer uma das grandes catedrais aqui em Londres.

– Sei que o costume é que o casamento aconteça na casa da noiva – comentou Eugenia. – Mas você mora em Boston, e Westonbirt ca muito mais perto de Londres do que a casa de campo dos seus primos.

– Não, não, está ótimo – falou Emma. – Westonbirt é linda. E, a nal, logo será a minha casa.

Os olhos de Eugenia estavam marejados quando ela pegou as mãos de Emma.

– Estou tão feliz por você estar se juntando à nossa família.

– Obrigada – disse Emma, apertando carinhosamente as mãos de Eugenia. – Também estou muito feliz.

– Muito bem – falou Caroline, animada. – De volta à lista de convidados. E quanto ao visconde Benton?

Emma arquejou. Anthony Woodside?

– Não! – gritou.

Caroline e Eugenia se voltaram para ela, com a mesma expressão confusa.

– Eu realmente não gosto dele – apressou-se Emma em explicar. – E acho que ele deixa Belle desconfortável.

Belle assentiu.

– Muito bem, então – concordou Caroline, já riscando o nome dele da lista que estava fazendo.

– Acho que a maioria das pessoas não vai conseguir comparecer – disse Emma, um tanto esperançosa. – A nal, estamos fazendo o convite de última hora, para um local a três horas de Londres.

As outras quatro mulheres se viraram para ela, chocadas.

– Está louca? – perguntou Belle, por m. – As pessoas vão tropeçar umas nas outras para chegar lá. O duque de Ashbourne está se casando, Emma. O duque do “não tenho interesse em me casar” está se casando. E com uma mulher relativamente desconhecida vinda das Colônias, nada menos. Esse vai ser o evento social da estação.

– E a pressa em organizar o casamento só vai instigar ainda mais o interesse das pessoas – completou Sophie. – Acrescenta um toque de escândalo e intriga. E romance, é claro.

– Entendo – disse Emma em uma voz muito fraca. – Mas acho que Alex queria um evento pequeno.

– Ah, que besteira – falou Eugenia, descartando a possibilidade. – Sou mãe dele e não me importa o que ele quer. Meu lho só vai se casar uma vez na vida, e pretendo aproveitar a ocasião.

Eugenia se recostou na cadeira, e Emma se deu conta de que não havia por que protestar.

Na verdade, ela não protestou em relação a nada ao longo da semana seguinte, deixando-se levar pela onda dos preparativos do casamento. O único descanso que conseguiu – além das horas de sono, que estavam sendo bastante insu cientes – foi quando Ned entrou pisando rme na sala de estar e arrancou-a da companhia das parentes atuais e futuras.

– Vamos dar um passeio – anunciou.

Emma cou profundamente feliz por poder fugir um pouco de tudo aquilo e os dois foram de carruagem até uma casa de chá muito popular.

– Quero contar o que aconteceu com Woodside – falou Ned assim que eles foram acomodados em uma mesa.

– Ai, meu Deus – sussurrou Emma. – Quase esqueci desse assunto! O que aconteceu?

– Ele tentou cobrar a dívida na sexta-feira, no White’s.

– E?

– E eu disse que com certeza não pagaria uma dívida duas vezes.

Emma levou a mão à boca.

– Ah, Ned, você não fez isso!

– Fiz. Ele cou muito vermelho e começou a fazer uma cena até eu sacar a promissória do bolso. Então eu ergui as sobrancelhas e perguntei a Woodside como era possível que eu estivesse de posse da promissória se não tivesse pagado a dívida.

– Ele deve ter enlouquecido de raiva.

– Isso, minha cara prima, é um eufemismo. Achei que o homem fosse explodir. E todos ao redor viram o que aconteceu. Acho que ele não será aceito em um jogo de cartas respeitável por anos.

– Ah, isso é brilhante – disse Emma. – Sabe, acho que devo estar desenvolvendo um traço vingativo, porque estou adorando saber que causamos esse transtorno.

– Isso não é nada feminino da sua parte – brincou Ned. – Mas, falando sério, Emma. Ele parecia realmente furioso. Acho que é melhor

carmos atentos. Certamente ele vai querer vingança.

Emma tomou um gole de chá.

– Sinceramente, Ned, o que ele pode fazer conosco? Espalhar boatos? Ninguém vai acreditar nele.

– Não sei. Só acho que devemos ser cuidadosos.

– Cuidadosos, talvez. Mas preocupados? Acho que não. Ele não é exatamente do tipo homicida.

– Será?

Emma sacudiu a cabeça e levantou os olhos para o teto.

– Woodside é um grande covarde.