Esplêndida
Capítulo 4
– Ashbourne! Que surpresa. Não acredito que estou vendo essa sua cara feia por aqui.
William Dunford, um dos amigos mais próximos de Alex desde os tempos em Oxford, atravessou o salão de baile dos Blydons e deu um tapinha carinhoso nas costas do recém-chegado.
– O que está fazendo aqui? Achei que você evitasse categoricamente este tipo de evento.
– Acredite em mim, não tenho a menor intenção de permanecer nesta pequena soirée por mais de dez minutos.
Alex manteve o tom leve, mas intimamente seu mau humor ameaçava assumir o comando. No instante em que entrou no salão de baile, o silêncio pairou sobre os convidados. Todos pareceram absolutamente chocados ao verem o duque de Ashbourne entrar pela porta em seu elegante traje de noite. Mães nervosas forçaram as lhas a jurarem que manteriam distância do notório libertino (ao mesmo tempo que torciam secretamente para que ele prestasse atenção nelas), e todos que não estavam de algum modo ligados a uma mulher em idade de se casar aproximaram-se na mesma hora para bajular o cavalheiro nobre e rico.
Alex suspirou. Não tinha paciência para as conversas sociais insípidas da aristocracia. Só o que queria era encontrar Meg, ter certeza de que ela estava bem e partir. Sua amante mais recente estava instalada em uma casa aconchegante e ele ansiava por longas horas na companhia dela. Uma noite com Charisse com certeza o livraria daquela estranha obsessão pela criada da cozinha dos Blydons.
Alex sentiu-se quase fraco de alívio ao ver Dunford atravessando o salão de baile em sua direção. Finalmente vislumbrava a possibilidade de uma conversa decente.
Dunford não era libertino como o amigo, mas chegava bem perto. No entanto, a maior parte da aristocracia estava disposta a perdoar sua reputação duvidosa em virtude do encanto insuperável do rapaz. Alex nunca aprendera a seguir o exemplo dele. Seus amigos o viam como um camarada afável, mas admitiam que o duque de Ashbourne tinha pouca tolerância com a maior parte da sociedade. Ele raramente escondia a irritação que sentia sempre que se via forçado a conversar com alguém que achava tedioso, e lançava olhares gélidos aos que lhe causavam desprazer. Havia rumores de que mais de uma jovem dama atravessara correndo um salão depois de ser vítima de um desses olhares.
– Diga-me, Ashbourne – falou Dunford, rindo. – Por que está aqui?
– Sinceramente – murmurou Alex –, estou começando a me perguntar a mesma coisa.
Ele havia chegado ao baile já fazia uma hora e, durante esse tempo, andara por toda a mansão, surpreendendo muitos criados e criadas e interrompendo nada menos do que três casais clandestinos. Nem sinal de Meg. Desesperado, chegara mesmo a entrar no salão de baile, imaginando que talvez houvesse uma chance de Meg estar cuidando do bufê. Mas não teve sorte. A criada não se encontrava ali. Embora achasse a perspectiva de derrota profundamente amarga, Alex estava prestes a desistir da busca. Ele suspirou e se virou para encarar o amigo, feliz por dar as costas à aglomeração de convidados que o encaravam.
– Confesse, camarada – provocou Dunford.
Alex suspirou.
– É uma longa história. Duvido que possa interessá-lo.
– Bobagem. As histórias mais longas costumam ser as mais interessantes. Além do mais, se foi essa “história” a responsável por trazê-lo para o meio da alta sociedade, deve envolver uma mulher. E isso signi ca, é claro, que estou muitíssimo interessado.
Alex se voltou para o amigo e contou rapidamente a história de como o sobrinho dele havia sido salvo por uma corajosa criada de cozinha, omitindo a parte sobre a atração que sentira pela jovem.
– Como pode ver – concluiu –, você não precisava ter cado tão empolgado. A minha história não tem nem romance nem luxúria. Acho que você vai precisar aceitar que o meu comportamento esta noite está acima de qualquer censura.
– Que tédio.
Alex assentiu, pesaroso.
– Realmente, e eu não suporto esta multidão. Acho que vou sufocar se mais um maldito almofadinha se aproximar para perguntar como arrumei a minha gravata.
– Sabe – falou Dunford, pensativo –, estava mesmo pensando que talvez seja hora de eu ir embora também. Por que não vamos ao White’s tomar uns drinques? Um bom jogo de cartas talvez seja o melhor antídoto depois desses sessenta minutos exaustivos de turbilhão social.
Alex retribuiu o sarcasmo do amigo com um sorriso cáustico e concordou na mesma hora.
– Ótima ideia. Mal posso esperar para… – Alex estacou quando ouviu o amigo car sem ar. – Qual é o problema?
– Santo Deus – sussurrou Dunford. – Aquela cor…
– Pelo amor de Deus, Dunford, o que é agora?
Dunford não prestou atenção nas palavras de Alex.
– Aquela deve ser Emma Dunster. Como uma coisa tão adorável pode ter vindo daquelas Colônias esquecidas por Deus?
– Elas não são mais nossas Colônias, Dunford – murmurou Alex, lembrando-se da repreensão de Meg. – Já são independentes há várias décadas e realmente devemos nos referir a elas como Estados Unidos da América. É o mais educado a se fazer.
O estranho sermão do amigo tirou Dunford de seu devaneio. Ele se voltou para Alex com uma expressão estranha no rosto.
– Desde quando você se tornou solidário às nossas Colônias errantes?
– Desde que… ah, não importa. Quem é essa maldita mulher que deixou você paralisado de desejo?
Alex ainda não se voltara na direção do salão de baile.
– Veja com seus próprios olhos, Ashbourne. Não é uma beleza clássica, eu admito, mas ela não parece fria, se é que me entende. Esses cabelos ruivos com centelhas de fogo, olhos violeta suaves…
Uma sensação particularmente desagradável contraiu o estômago de Alex quando ele ouviu Dunford descrever a Srta. Emma Dunster. Não era possível… Não, garantiu a si mesmo, uma dama da aristocracia não iria… Alex se virou lentamente. E lá, do outro lado do salão de baile, estava a corajosa Meg. A não ser pelo fato de que ela não era mais Meg: era Emma.
Alex reagiu no mesmo instante. Cada músculo do seu corpo cou tenso a ponto de quase doer, e ele não conseguiu decidir se estava furioso com o engodo ou simplesmente dominado pelo desejo. Ficou observando em silêncio enquanto Emma, que não se dera conta da presença dele, sorria com uma expressão cansada para um de seus pretendentes, e passava a mão na cabeça distraidamente. Maldição, o que ela estava pensando, dançando a noite toda quando provavelmente estava com um ferimento grave na cabeça? Alex cou muito sério, tentando resistir a atravessar a pista de dança, pegá-la pelos ombros e sacudi-la até incutir à força um pouco de bom senso naquela cabeça.
Mas, Deus do céu, a garota era mesmo adorável. O corpo pequeno estava envolvido por um vestido de cetim violeta que deixava os ombros lisos à mostra e exibia uma discreta elevação dos seios. Jovens damas em sua primeira temporada social supostamente deveriam usar tons pastéis, pálidos, mas Alex cou feliz ao ver que Emma havia desa ado as convenções e escolhido uma cor mais ousada. Combinava com a personalidade dela, e em um mar de moças insípidas, usando roupas em tons sem graça, ela era como um farol emitindo fogo e vitalidade. Emma também trazia os cabelos soltos, o que não era considerado elegante, apenas as mechas da frente presas no alto da cabeça, deixando a massa de cabelos restante descer pelas costas como uma cascata em chamas.
As cores de Emma denunciavam uma natureza ardente, e Alex se lembrava bem de como ela cara rapidamente irritada. Mas ele também podia ver vulnerabilidade em seus olhos, e ela era tão pequenina… Emma parecia cansada, e Alex tinha certeza de que o inchaço na cabeça ainda a incomodava. Algo nela trazia à tona seu instinto protetor e o deixava furioso a possibilidade de Emma colocar a saúde em risco com toda aquela agitação.
Dunford riu ao ver a miríade de emoções passar pelo rosto do amigo.
– Posso ver que você concorda com a minha descrição…
Alex afastou os olhos de Emma e se virou para encarar o amigo.
– Não toque nela – disse lentamente. – Nem sequer pense nela.
E cou carrancudo ao perceber que não era o único homem no salão que havia sucumbido aos encantos de Emma. Os jovens da aristocracia estavam praticamente se en leirando para serem apresentados à moça americana. Ele fez uma anotação mental para ter uma palavrinha com alguns dos mais afoitos.
Dunford recuou, surpreso.
– Um pouco possessivo da sua parte, visto que você nem mesmo foi apresentado à moça, não acha?
– Ah, eu já fui apresentado a ela, sim – grunhiu Alex. – Só não sabia disso.
Dunford franziu o cenho, curioso, até nalmente concluir:
– Acho que você não quer mais partir imediatamente para o White’s, não é?
Alex abriu um sorriso relaxado.
– A festa cou subitamente muito interessante.
E, com isso, ele examinou todo o perímetro do salão de baile, fazendo questão de evitar os olhos de Emma. Finalmente encontrou uma alcova bem atrás dela. Uma pesada cortina carmim o ocultava da vista dos convidados, mas ele ainda podia ouvir cada detalhe das conversas de Emma. Alex se apoiou contra a parede e mal conseguia vê-la por uma fresta da cortina.
– Que diabo está fazendo aí? – perguntou Dunford, ao surgir ao lado do amigo.
– Pode tentar falar baixo? E entre logo aqui! Alguém vai ver você.
Alex puxou o amigo para dentro da alcova até estarem ambos escondidos atrás da cortina.
– Você cou maluco – murmurou Dunford. – Nunca achei que veria o dia em que o altivo duque de Ashbourne se esconderia atrás de uma cortina para espionar uma mulher.
– Cale a boca.
Dunford riu baixinho.
Alex lhe lançou um olhar irritado antes de voltar a atenção para assuntos mais importantes.
– Ela está exatamente onde quero que esteja – comentou, satisfeito, esfregando as mãos.
– É mesmo? – perguntou Dunford, em um tom irônico. – Achei que você a queria na sua cama…
Alex voltou a encarar o amigo com irritação.
– E não me parece que você esteja nem remotamente próximo de conquistar esse objetivo – acrescentou Dunford.
Alex ergueu as sobrancelhas em uma expressão de absoluta autocon ança.
– Anote o que eu digo, Dunford: estarei muito mais perto disso até o
m da noite.
Ele espiou de novo pela fresta da cortina e, como um leão tocaiando a presa, xou os olhos na mulher de cabelos de fogo a menos de dois metros de distância.
Emma manteve um sorriso educado xo no rosto enquanto era levada a outra rodada de apresentações. A tia já declarara o baile – e Emma – um sucesso retumbante. Caroline não conseguia acreditar no número de rapazes que haviam implorado a ela e ao marido que os apresentassem à sobrinha. Emma, por sua vez, havia se comportado lindamente. Era espirituosa, inteligente e, felizmente, não zera nada ousado demais. Caroline sabia que Emma achava di cílimo ser correta o tempo todo.
Na verdade, ela não estava achando tão difícil se manter correta. A verdade era que estava cansada demais para fazer jus à reputação de jovem travessa, mesmo se quisesse. Tinha energia apenas para manter um uxo agradável de conversa com as muitas pessoas que conhecera naquela noite. Mesmo com a cabeça latejando de dor, Emma se recusava a passar a impressão equivocada de que era uma jovem dama tímida e retraída diante da sociedade londrina. Já havia exemplares demais desse tipo na aristocracia, pensava ela.
– Emma querida – chamou a tia. – Quero que conheça lorde e lady Humphries.
Emma sorriu ao estender a mão para o par rechonchudo. Lorde Humphries, que parecia ser uns 35 anos mais velho que Emma, se inclinou educadamente e beijou os dedos dela.
– É um prazer imenso conhecê-los – falou Emma, deixando seu sotaque norte-americano bem aparente.
– Então é verdade! – disse lorde Humphries, triunfante. – A senhorita é das Colônias! O bom e velho Percy ali apostou que a senhorita era da França. “Com um sobrenome como Dunster?”, falei. “Não, ela é de boa cepa inglesa, mesmo que estivesse en ada nas Colônias.” E eu estava certo. Vou até lá cobrar a minha aposta.
Antes que Emma pudesse dizer alguma coisa, ele se afastou em busca do amigo. Ela estava um tanto surpresa com toda a atenção que vinha recebendo, e mais do que um pouco confusa pelo fato de as pessoas estarem fazendo apostas a seu respeito. Ned lhe contara que os aristocratas com frequência faziam apostas para se divertirem, mas aquilo era absurdo. Aquelas pessoas não tinham nada mais interessante para fazer? Emma se voltou para lady Humphries, que fora abandonada pelo marido ali, e deu um sorrisinho.
– Como tem passado, milady?
– Muito bem, obrigada – disse a mulher, simpática, embora parecesse um pouco deslocada. – Me diga, Emma – pediu, inclinando-se para a frente em uma atitude conspiratória –, é verdade que ursos selvagens andam livremente por Boston? Pelo que sei, as Colônias estão cheias de nativos e animais selvagens.
Emma viu a tia revirar os olhos e gemer na expectativa de outro sermão da sobrinha sobre as qualidades maravilhosas dos Estados Unidos. Mas Emma apenas se inclinou para a frente, pegou as mãos da dama mais velha e disse, em um tom tão conspiratório quanto o de lady Humphries:
– Na verdade, Boston é bastante civilizada. A senhora se sentiria muito à vontade lá.
– Não! – retrucou lady Humphries, chocada.
– É verdade. Temos até modistas lá.
– É mesmo? – perguntou a mulher, os olhos arregalados de interesse.
– Sim, e também temos ateliês de chapéus – disse Emma, assentindo lentamente e arregalando os olhos. – Embora eles frequentemente acabem destruídos quando os lobos invadem a cidade.
– Lobos! Não me diga!
– Sim, e eles são muito violentos. Eu passo certas semanas do ano trancada em casa por medo deles.
Lady Humphries se abanava vigorosamente.
– Ah, meu Deus. Ah, meu Deus, tenho que contar tudo isso a Margaret. Com licença.
Ela se afastou, apressada, com um misto de horror e deleite nos olhos, e desapareceu na multidão. Emma se voltou para a tia e para a prima, que estremeciam com risadinhas contidas.
– Ah, Emma – falou Belle, ainda rindo e enxugando as lágrimas nos cantos dos olhos. – Você não devia ter feito isso.
Emma revirou os olhos e soltou um muxoxo.
– Ora – declarou. – Você precisa deixar que eu me divirta um pouco esta noite.
– É claro, querida – retrucou Caroline, balançando a cabeça. – Mas tinha mesmo que pregar essa peça? A história vai ser de conhecimento de todos no baile em menos de dez minutos.
– Ah, e daí? Ninguém com o mínimo de bom senso vai acreditar nela. E, sinceramente, não estou interessada em impressionar quem não tem bom senso.
Emma ergueu as sobrancelhas e se virou para a tia e a prima de novo, desa ando-as silenciosamente a responderem.
– O argumento é válido – admitiu Belle.
– Devo confessar que sempre achei lady Humphries um tanto estranha – comentou Caroline.
– Não quero ser mal-educada – explicou Emma. – Só acho que vou morrer de tédio se tiver que conversar com mais uma dessas tontas.
– Faremos o melhor possível para protegê-la – prometeu Caroline, com um sorriso discreto nos lábios.
– Eu sabia que sim – respondeu Emma, sorrindo satisfeita.
Logo depois, um dos amigos de Ned apareceu ao lado de Emma para chamá-la para dançar. Por trás da cortina, Alex fuzilou o rapaz com os olhos enquanto via o par deslizar pelo salão de baile.
– Estamos com ciúme, é? – perguntou Dunford.
– Não estamos com ciúme algum – retrucou Alex em um tom imperioso. – “Nós” não temos razão para ter ciúme. Pelo amor de Deus, o sujeito é só um menino – falou, referindo-se ao parceiro de dança de Emma.
– Tem razão, tem razão. E isso o torna cerca de três anos mais velho do que a Srta. Dunster.
Alex ignorou o comentário do amigo.
– Você ouviu o modo como ela se livrou de lady Humphries? – perguntou com admiração na voz. – Ela estava absolutamente certa. Até mesmo minha mãe acha a mulher uma velha fanfarrona e absurda.
Dunford assentiu lentamente, perdido em pensamentos. Ele não via o amigo agir daquele modo em relação a uma mulher desde os tempos de universidade, antes de Alex desenvolver uma profunda descon ança pelo sexo feminino.
– E o comentário dela sobre não querer conhecer ninguém que não tenha bom senso – continuou Alex. – Vamos admitir que a jovem tem personalidade. E bom senso, também.
– Ela está voltando – avisou Dunford.
Alex na mesma hora voltou ao seu posto de observação. Emma havia terminado a dança e aproximava-se da tia.
– Se divertiu, querida? – perguntou Caroline.
– Ah, sim. John é um dançarino encantador – respondeu Emma. – E também é muito simpático. Disse que vai me ensinar esgrima. Sempre quis aprender.
Alex sentiu um nó de ciúme no estômago.
– Não sei se aprender esgrima seria uma boa ideia, mas estou feliz que tenha gostado dele – comentou Caroline. – Ele é um ótimo partido, sabe? É lho de um conde de posses consideráveis.
O nó no estômago de Alex apertou.
– Tenho certeza que sim, mas realmente não estou interessada em casamento no momento.
Alex deixou escapar um pesado suspiro de alívio. Os interesses dele também não estavam voltados naquela direção em particular.
Emma deu uma palmadinha carinhosa no braço de Caroline.
– Não se preocupe, querida tia, quando chegar o momento tenho certeza de que vou encontrar o marido perfeito. Mas ele terá que ser americano, porque não planejo desistir do Estaleiro Dunster.
– Não há muitos americanos disponíveis aqui em Londres – argumentou Caroline.
– Então terei que me contentar em aproveitar a companhia de jovens espirituosos como John.
Alex começou a se irritar de novo, e Dunford se perguntou se teria que conter o amigo para que ele não pulasse para fora da cortina, anunciando aos quatro ventos seu desejo e fazendo um papel ridículo na frente de todos.
Belle entrou na conversa com Emma e Caroline. O rosto da jovem estava ruborizado de tanto rodopiar pelo salão.
– Emma – falou, ofegante. – Você precisa vir comigo conhecer outros amigos do Ned. Tenho certeza de que vai adorá-los. E estão todos simplesmente morrendo de vontade de conhecê-la – acrescentou ela, com uma piscadela de olho.
– Você acha que eles poderiam esperar um pouquinho? Estou com um pouco de dor de cabeça – comentou Emma, em um tom leve.
Na verdade, a sensação era de que alguém batera com um bastão em sua têmpora. A dança rodopiante com John Millwood só havia aumentado o desconforto.
Emma olhou signi cativamente para Belle, que havia prometido não contar à condessa sobre o acidente da tarde, então se voltou para a tia.
– Tia Caroline, seria terrivelmente indelicado da minha parte se eu me retirasse para o meu quarto por dez ou quinze minutos? Minha cabeça está latejando com toda a empolgação da festa. Só preciso de uns minutinhos de silêncio para melhorar.
– É claro, querida. Se perguntarem, direi que você foi ao lavatório se refrescar.
– Obrigada – disse Emma, suspirando. – Não vou demorar, prometo.
Ela saiu rapidamente do salão de baile e subiu um lance de escada até os aposentos privados da mansão.
Alex ergueu as sobrancelhas quando ouviu o pedido de Emma e um sorriso de deleite se espalhou por seu rosto.
– Ah, não – repreendeu Dunford, interpretando corretamente a expressão do amigo. – Nem você consegue se safar com isso, Ashbourne. Isso simplesmente não se faz. Você não pode seguir uma dama da aristocracia até o quarto dela. Você nem a conhece.
– Ah, conheço, sim.
Dunford tentou outra tática.
– Se for pego, você vai arruinar a reputação da moça na noite em que ela está sendo apresentada à sociedade. E aí vai ter que se casar com ela. Não haveria outro jeito, seria a única coisa honrada a fazer.
– Ninguém vai me ver – declarou Alex, com segurança. – Se alguém perguntar por mim, diga que fui ao lavatório. Me refrescar.
E, com isso, ele saiu do esconderijo e seguiu Emma para fora do salão de baile, os passos cuidadosamente silenciosos.
O corredor fora deixado às escuras para desencorajar os bêbados e amantes de estenderem a festa para todos os cantos da casa, mas Emma achou o próprio quarto com facilidade. Ela acendeu uma vela solitária, preferindo a penumbra por causa da dor de cabeça. Com um bocejo desavergonhadamente alto, tirou os sapatos e se acomodou na cama, entre as cobertas macias. Então suspirou profundamente, esfregou as têmporas e decidiu que, na verdade, havia se divertido na sua primeira festa em Londres. Era verdade que havia conhecido um bom número de aristocratas arrogantes e pomposos, mas também tinha sido apresentada a muitos homens e mulheres inteligentes e interessantes. Se ao menos não estivesse com aquele maldito inchaço na cabeça… Emma sabia que estaria aproveitando mais a festa se estivesse se sentindo melhor. Mas estava tão cansada, tão… Fechou os olhos, gemendo baixinho enquanto se perguntava como, em nome de Deus, reuniria forças para voltar ao salão.
Alex entrou rápida e silenciosamente no quarto de Emma, abençoando mentalmente as dobradiças bem lubri cadas da porta. Parou por um momento para observar a jovem com um olhar terno. Ali, deitada, Emma parecia suave e doce, sem qualquer sinal de sua língua a ada e seu raciocínio rápido. Ostentava um sorriso delicado quando se acomodou mais fundo nas cobertas, e Alex pensou que não havia nada no mundo que desejasse mais do que tomá-la nos braços e car ali com ela até que pegasse no sono. Os próprios pensamentos castos o zeram franzir a testa. Sinceramente, não conseguia se lembrar da última vez que tivera qualquer sentimento terno por uma mulher.
De repente, Emma esticou os braços, com um ronronar felino. Alex sentiu o desejo tomar conta de seu corpo e sua mente ao ver os seios dela esticarem o tecido do corpete do vestido.
Emma, ainda de olhos fechados, suspirou de satisfação.
Alex recuou para a porta.
Emma enrodilhou o corpo, pensando que a solidão era realmente uma bênção.
Alex fechou a porta atrás de si com um clique audível.
Os olhos de Emma se abriram. Com uma expressão horrorizada, ela perdeu todo o ar quando viu o homem enorme, de cabelos negros e olhos verdes, que parecia preencher todo o quarto.
– Olá, Meg.