Esplêndida
Capítulo 23
O céu havia clareado consideravelmente desde a noite anterior, por isso Emma abriu as janelas da carruagem a caminho de Londres. A viagem foi bastante rápida, já que Wilding cava muito mais perto de lá do que Westonbirt, e Sophie fora generosa, emprestando o exemplar de Hamlet que Emma começara a ler na véspera.
Ela acabou bastante envolvida na história, parando apenas ocasionalmente, com o barulho ritmado dos cascos dos cavalos embalando-a em um estado quase de devaneio.
– Construir um hospital ou não, eis a questão – disse em voz alta em uma dessas ocasiões, acrescentando: – Isso foi péssimo.
Passava um pouco do meio-dia quando a carruagem nalmente chegou a Londres e, ao dobrar a última esquina antes da casa dos primos, Emma colocou a cabeça para fora da janela, animada. À distância, viu Belle descendo os degraus da frente da mansão Blydon. Um cocheiro a ajudou a entrar em uma carruagem fechada.
– Ah, Belle! Belle! – chamou Emma, acenando com um lenço.
– Acho que ela não vai conseguir ouvi-la, Vossa Graça – disse Ames, um dos criados.
– Parece que você tem razão.
Era um longo quarteirão, e Emma teria que gritar muito alto para ser ouvida acima do barulho das carruagens.
Ela franziu a testa. Havia algo estranho no modo como o cocheiro ajudara Belle a entrar na carruagem. Ele praticamente a colocara lá dentro. Emma sentiu a primeira pontada de preocupação.
– Gostaria de ir atrás dela? – perguntou Ames.
– Sim, acho que sim… Ah! – exclamou Emma subitamente, sentindo-se profundamente aliviada. – Sei aonde ela está indo: para a reunião do Clube Literário para Damas. Belle vai ao encontro todas as quartas-feiras, à tarde. Eu a acompanhei algumas vezes. As reuniões acontecem na casa de lady Stanton, que não é muito longe. Siga a carruagem. Vou fazer uma surpresa a ela.
O criado assentiu e a carruagem de Emma passou direto pela mansão Blydon, seguindo a de Belle pelas ruas de Londres. Emma se recostou no assento, observando as belas casas passarem pela janela.
– Ora, mas…
Emma cou perplexa quando passaram por uma mansão conhecida. Ela en ou a cabeça para fora da janela mais uma vez, para falar com Ames.
– Aquela era a casa de lady Stanton.
– Talvez a sua prima esteja indo fazer alguma outra coisa hoje, Vossa Graça. Talvez não compareça à reunião literária.
– Não – retrucou Emma, balançando a cabeça de forma enfática. – Ela nunca perde uma reunião quando está na cidade.
Ames deu de ombros.
– Quer continuar a segui-la?
– Sim, sim – disse Emma, distraidamente. – Embora, agora que estou pensando a respeito, esteja me dando conta de que não reconheço o cocheiro. Achei que ele estava tratando Belle de forma um pouco bruta… Talvez tenham contratado um novo cocheiro, mas ainda assim me pareceu suspeito.
– O que está dizendo, Vossa Graça? Acha que alguém está tentando raptar a sua prima?
Emma empalideceu.
– Ames – pediu, preocupada. – Afaste-se um pouco por um momento.
O criado inclinou o corpo para trás, e Emma esticou mais a cabeça para fora da janela, examinando melhor o veículo.
– Ah, meu Deus. Aquela não é uma de nossas carruagens. Poderíamos ter contratado um cocheiro novo, mas comprado uma carruagem nova? Eu saberia disso.
Ames se virou para ela.
– Não acha que a sua prima teria percebido que estava entrando em uma carruagem diferente?
– Não, Belle não enxerga muito bem. Ela lê muito, sabe? Mas se recusa a usar óculos.
Emma engoliu em seco de medo.
– Ames, faça o que for preciso, mas não perca essa carruagem de vista!
Emma se recostou mais uma vez no assento e fechou os olhos, angustiada. Havia algo de podre na cidade de Londres.
Enquanto isso, em Westonbirt, Alex tentava sem sucesso se concentrar no trabalho. Norwood, o único criado que entrava no escritório quando o patrão estava lá, levou uma refeição para ele em uma bandeja.
– Não estou com fome, Norwood – grunhiu Alex.
O mordomo ergueu as sobrancelhas e deixou a bandeja em cima da mesa assim mesmo. Alex ignorou a comida e foi até a janela. Ficou olhando emburrado para o gramado. Ela realmente não precisava ter partido. Ao menos não por uma semana. Ele reconhecia que Sophie talvez soubesse um pouco mais do que ele sobre atividades para mulheres casadas, mas certamente Emma não levaria uma semana para aprender.
Maldição, o lugar dela era ao lado dele. Demorara uma eternidade para a cama car aquecida na noite anterior. Ele cara deitado sozinho, esfregando os pés contra os lençóis, na esperança de gerar algum calor, mas tudo que conseguira foi sentir pena de si mesmo. Não teria sentido tanto frio se Emma estivesse ali ao seu lado.
Alex imaginara que sentiria falta dela, mas não tinha esperado sentir tanta. Inferno, Emma partira havia menos de 24 horas. Sua presença, no entanto, parecia pairar por todos os lados. Seu perfume impregnava o ar e, para onde quer que se virasse, Alex via algum cantinho que guardava a memória de um beijo clandestino.
Ele suspirou. Seria uma longa semana.
Talvez ele devesse ir a Londres. A casa lá não estava tão cheia de lembranças de Emma. Alex se encolheu ao lembrar como a rejeitara brutalmente naquele lugar. Bem, não havia lembranças boas na casa de Londres, e ele poderia simplesmente fechar a porta da saleta de recepção. Além do mais, tinha carinho pelo lugar, a nal vivera ali por praticamente dez anos, e sabia que era provável que logo vendesse a casa, já que ele e Emma com certeza se instalariam na mansão Ashbourne, em Berkeley Square, quando estivessem em Londres.
Alex, no entanto, sabia que provavelmente devia ter levado mais a sério o que a esposa dissera sobre estar se sentindo entediada. Devia ter dado mais atenção ao problema dela. Nunca havia parado para pensar no que as mulheres casadas faziam com o tempo, e Emma não era como as outras mulheres casadas, pensou Alex, com mais do que um toque de orgulho. Pelo amor de Deus, ela praticamente administrara um negócio.
Talvez fosse disso que Emma precisava. Ele estava soterrado em papéis e documentos relacionados às muitas terras e aos diversos negócios que possuía. Talvez devesse deixar a administração desses negócios nas mãos dela. Emma com certeza conseguiria dar conta do trabalho. E os supervisores que ele empregava eram bons homens – ouviriam Emma se Alex deixasse claro que era ela quem estava no comando dali em diante. Ele sorriu, satisfeito com o plano.
Seu momento de autocongratulação foi interrompido por batidas na porta. Norwood entrou carregando uma bandeja de prata com um bilhete dobrado.
– Chegou uma mensagem para o senhor, Vossa Graça. Da sua esposa.
Alex atravessou rapidamente o estúdio e pegou o pedaço de papel da mão do mordomo.
Querido Alex,
Lorde Wilding retornou inesperadamente do Caribe, por isso decidi
passar o restante da semana visitando meus primos. Sinto
desesperadamente sua falta.
Com todo o meu amor,
Emma
Ela sentia falta dele desesperadamente? Se era assim tão desesperador, por que não deu meia-volta e veio para casa, que era o lugar dela?
Sim, ele com certeza iria para Londres. E enquanto estivesse lá, apareceria para uma visita aos Blydons. E arrastaria a esposa de volta para casa. Bem, talvez não. Emma não era exatamente o tipo de mulher que um homem arrastava por aí. No entanto, poderia convencê-la a voltar com a promessa de começar imediatamente a administrar a maior parte das terras dele. E, se isso não funcionasse, sempre poderia seduzi-la.
Em meia hora, Alex estava a caminho de Londres.
Emma seguia na carruagem que abria caminho lentamente pelas ruas de Londres, quase paralisada de preocupação com a prima. Conforme as ruas cavam cada vez mais vazias, eles precisavam se distanciar da carruagem que levava Belle. Ela não queria que ninguém no veículo à frente descon asse e, mais importante ainda, a carruagem em que estava tinha o brasão facilmente reconhecível dos Ashbournes. Qualquer um que tivesse dedicado tempo e esforço para raptar Belle saberia da ligação dela com Alex e Emma.
Era Woodside. Só podia ser. Emma quase saltou do assento quando se deu conta disso. O visconde era louco por Belle. Passara o ano todo atrás dela e dissera a Emma que planejava se casar com ela. O fato de Belle não retribuir seu interesse não parecera afetar em nada seus planos.
– Santo Deus – sussurrou Emma. – Ele vai forçá-la.
Ela não tinha dúvida de que Woodside arrastaria Belle para o altar, amarrada e amordaçada se necessário. Emma nunca conhecera um homem tão obcecado com títulos e linhagens, e a linhagem de Belle era das melhores. E, mesmo se a prima conseguisse evitar o casamento, ainda assim estaria desonrada. Se Woodside conseguisse comprometer seriamente a reputação de Belle, ela teria que se casar com ele. Seria isso ou permanecer solteira para sempre, porque nenhum cavalheiro se casaria com ela se achasse que Woodside a possuíra primeiro.
O estômago de Emma ardia de medo e fúria à medida que se afastavam cada vez mais de Londres. Por m, a carruagem de Belle saiu da estrada principal e, depois de cerca de cinco minutos em uma estrada menor, esburacada, entrou em um vilarejo de tamanho mediano, chamado Harewood. Conforme a velocidade da carruagem era reduzida para se adaptar às ruas mais movimentadas do vilarejo, Emma aproximou mais o rosto da janela aberta. Precisava car de olho no veículo à frente.
– Não chegue perto demais – alertou ao cocheiro.
Ele assentiu e puxou ligeiramente as rédeas.
À frente deles, a carruagem de Belle parou diante da e Hare and
Hounds, uma taverna e estalagem bem rústica.
– Pare aqui! – ordenou Emma.
Sem esperar por ajuda, ela saltou da carruagem e cou observando a cena na estalagem. Dois homens robustos descarregavam uma bolsa de lona grande.
– Ai, meu Deus! – sussurrou Emma. – Eles a colocaram em uma bolsa.
– Ela não parece estar se debatendo muito – comentou Ames, o cenho franzido. – Talvez a tenham drogado.
Emma respirou fundo, tentando controlar o pânico. Não havia como ela e seu pequeno grupo enfrentarem os captores de Belle. Quem poderia saber que tipo de armas carregavam? Onde estava Alex quando ela precisava dele?
– Muito bem, homens – falou Emma em um tom urgente. – Teremos que usar a inteligência e organizar um plano. Ames, você sabe montar a cavalo?
– Não muito bem, Vossa Graça.
Emma se virou para Shipton, o outro criado.
– Você sabe?
Ele balançou a cabeça, negando. Emma nalmente se voltou para o cocheiro, um homem magro demais, com cabelos castanhos ralos.
– Bottomley, por favor, não me diga que você também não sabe montar.
– Não farei isso.
– Não fará o quê?
– Não lhe direi isso. Monto a cavalo desde que comecei a andar.
Emma cerrou os dentes diante da tentativa inoportuna de Bottomley de fazer graça.
– Escute, Bottomley. Primeiro, quero que você encontre um lugar para esconder a carruagem. Um lugar o mais longe possível da vista da
e Hare and Hounds. Então quero que pegue um dos cavalos, o que
você considerar mais rápido, e vá até Westonbirt. Cavalgue como se a sua vida dependesse disso. Cavalgue como se a minha vida dependesse disso, porque talvez isso venha a ser verdade. Quando chegar lá, encontre imediatamente o duque e conte a ele o que está acontecendo. Vamos precisar da ajuda dele. Você entendeu?
Bottomley assentiu, parecendo um pouco mais sério do que parecia minutos antes.
– Shipton, vá com Bottomley, para que possamos saber onde ele deixou a carruagem, e depois nos encontre na rua principal. Ames, nós vamos às compras.
– Às compras, Vossa Graça? – perguntou ele, parecendo perturbado. – Não acho que este é o momento…
Emma o fuzilou com o olhar, mas se controlou.
– Não vou comprar futilidades, Ames. Vamos precisar de algumas coisas se pretendemos resgatar Belle.
– Algumas coisas? Que tipo de coisas?
– Ainda não sei bem, mas, se você me der um minuto, vou descobrir.
Emma levantou a cabeça. Bottomley e Shipton ainda não tinham se mexido.
– Vocês dois, vão logo! – falou, irritada. – Não temos nem um segundo a perder!
Depois que os dois homens saíram de vista, Ames se virou para ela e disse:
– Não se preocupe, Vossa Graça. Bottomley às vezes diz a coisa errada, mas tem a cabeça no lugar.
– Espero que esteja certo, Ames. Agora vamos dar uma olhada nessas lojas.
Emma examinou as vitrines até seu olhar pousar em uma loja de tecidos que exibia vestidos prontos. Aquilo poderia ser interessante. Ela se virou para Ames e pressionou uma moeda na mão dele.
– Consiga um pouco de fuligem e volte para cá o mais rápido possível.
– Fuligem, Vossa Graça?
– Para os meus cabelos. O ruivo chama muita atenção. Vou encontrar alguma coisa para usar. Até logo.
Emma entrou na loja e as quatro vendedoras caram sem ar ao mesmo tempo, porque era raro ver uma dama tão elegante no vilarejo de Harewood, e mais raro ainda que uma dessas damas entrasse na loja delas.
– Po-podemos ajudá-la, milady? – nalmente perguntou a mais corajosa delas.
– Sim, por favor – respondeu Emma, abrindo seu sorriso mais simpático. – Preciso de alguma coisa para vestir.
A chefe das vendedoras examinou o elegante vestido verde de Emma com uma expressão abatida. Sabia que não tinha como oferecer àquela cliente nada nos padrões do que ela estava usando.
– Na verdade, preciso de uma fantasia – apressou-se Emma. – Tenho um baile à fantasia muito elegante para ir hoje à noite e quero usar algo um pouco diferente.
– Ah. Bem, poderíamos tentar uma fantasia grega. Tenho um tecido encantador que poderíamos usar como túnica.
– Não, acho que não – disse Emma, sacudindo a cabeça. – Meus cabelos, sabe? Acho que os antigos gregos não tinham cabelos desta cor.
– Ah, não, é claro que não – concordou a vendedora na mesma hora, assentindo furiosamente com a cabeça.
– Estou pensando em alguma coisa simples. Talvez… uma criada?
– Uma criada?
– Sim, uma criada. Das que servem à mesa, por exemplo.
As vendedoras pareceram confusas. Ninguém se adiantou para ajudar Emma em sua cruzada.
– Quero uma fantasia de criada – declarou Emma, em um tom autoritário. – Não me digam que não providenciam esse tipo de roupa para nenhuma das casas da aristocracia local…
Duas vendedoras esbarraram uma na outra na pressa de ajudar Emma, e ela saiu da loja menos de dois minutos depois carregando um embrulho com uma roupa de criada. Um instante mais tarde, Ames voltou apressado.
– Conseguiu a fuligem?
– Melhor do que isso – disse ele, erguendo uma bolsa. – Uma peruca.
Emma espiou dentro da bolsa. Um tom improvável de loiro agrediu seus olhos.
– Bem, com certeza não vou me parecer comigo mesma. Agora, onde está Shipton? Precisamos agir. Só Deus sabe o que aconteceu com Belle…
Como se aproveitasse a deixa, Shipton dobrou a esquina e quase esbarrou neles.
– A carruagem está perto da igreja – disse, ofegante –, e Bottomley já partiu para Westonbirt.
– Ótimo – falou Emma. – Vamos.
Ela saiu caminhando rapidamente, guiando sua equipe improvisada até a e Hare and Hounds, onde pediu dois quartos.
– A senhora tem alguma bagagem, milady?
Ah, inferno, ela havia esquecido que uma pessoa precisava de bagagem quando se hospedava em uma estalagem.
– Meus criados trarão mais tarde. Ainda estão na carruagem.
– E por quantas noites deseja os quartos, milady?
Emma cou confusa.
– Hum, não tenho certeza. Pelo menos uma, talvez mais.
Ela endireitou o corpo e adotou o olhar mais altivo de Alex.
– É necessário que eu lhe diga isso agora?
– Não, não, é claro que não – disse o homem, subitamente parecendo bastante desconfortável. – Se puder apenas assinar o registro…
Emma pegou a pena e assinou com um oreio. Lady Clarissa Trent.
– Pronto – murmurou baixinho –, ela sempre quis um título.
Assim que entrou em seu quarto no segundo andar, Emma vestiu a roupa de criada e colocou a peruca. Depois foi até a lareira, pegou um pouco de fuligem e esfregou entre as mãos até elas estarem todas cobertas por uma na camada escura. Então Emma bateu gentilmente com as mãos no rosto, deixando um pouco da fuligem na pele. Uma olhada no espelho lhe garantiu que alcançara seu objetivo. Sua pele agora tinha um tom ligeiramente acinzentado que, combinado com a peruca amarela, a deixava com uma aparência horrível. Mas o mais importante era que não se parecia em nada consigo mesma.
Emma saiu do quarto e bateu na porta ao lado. Ames abriu e disse:
– Santo Deus, Vossa Graça, a senhora está horrível!
– Ótimo. Agora, um de vocês, vá pegar o meu baú antes que o estalajadeiro que descon ado. Vou tentar descobrir em que quarto Belle está.
Depois que os criados partiram, Emma desceu o corredor, olhando para um lado e para o outro, o tempo todo atenta ao som de passos. Quando se convenceu de que estava completamente sozinha, colou a cabeça à porta ao lado da dela. E ouviu um gemido apaixonado.
– Ah, Eustace. Ah, Eustace. AH, EUSTACE!
Emma se afastou de um pulo, como se tivesse queimado a orelha.
Com certeza aquele não era o quarto de Belle. Então foi para o outro lado do corredor. E ouviu uma voz feminina.
– E mãos ociosas são apenas um convite para Satã. Satã, eu digo. Ele está à espreita em cada canto.
Emma balançou a cabeça e se afastou. Antes de tudo, os captores de Belle com certeza eram homens. Além disso, ela não achava que eles teriam conversas sobre o demônio com a prima. Emma desceu mais o corredor até a porta ao lado da do tal Eustace.
– Nem mais uma palavra, mocinha. Se der mais um pio, vou pegar esse cinto e…
– Cale a boca, seu asno. Você sabe que temos que entregar a moça sã e salva. Ele não vai nos dar o ouro se tocarmos nela.
Emma perdeu totalmente o fôlego. Belle devia estar naquele quarto e, pelo que acabara de ouvir, não parecia estar muito bem.
– Quanto tempo mais vamos ter que esperar?
– Ele disse que chegaria aqui quando anoitecesse. Agora cale a boca e me deixe em paz.
– Ela é uma belezinha. Talvez ele nem perceba se experimentarmos a moça rapidinho...
Emma sentiu o estômago afundar, mas se forçou a permanecer forte, porque sabia que, não importava como estivesse se sentindo, a situação de Belle era mil vezes pior.
– Você é idiota? É claro que ele vai perceber se tocarmos nela. Se você arruinar esse trabalho, eu acabo com a sua vida. Não pense que eu não faria isso.
Seguiu-se o som de briga. Ligeiramente em pânico, Emma bateu na porta.
– Que diabo você quer?
Um homem de cabelos despenteados abriu a porta em um movimento brusco. Belle estava sentada em uma cama junto à parede mais distante, perto do outro homem. Ao lado da cama havia uma janela aberta. Emma percebeu que a prima não estava movendo nem um músculo, e teve a forte impressão de que o homem ao seu lado tinha uma pistola apontada para as costas dela.
– Peço que me perdoe, senhor – apressou-se em dizer Emma, inclinando-se em uma cortesia. – Mas o estalajadeiro estava na dúvida se vocês gostariam de alguma coisa para comer. Ele achou que poderiam querer que a comida fosse servida no quarto.
– Acho que não.
O homem começou a fechar a porta na cara de Emma.
– Ei! Espere um minuto. Você pensou que eu posso estar com fome? – perguntou o outro, olhando com raiva para o parceiro.
– Está certo. Nos traga uma refeição. Torta de carne, se tiver. E cerveja.
– Pois não, senhor. Vou trazer tudo aqui em cima o mais rápido possível.
Emma se inclinou em outra cortesia, temendo ter exagerado no sotaque das classes trabalhadoras inglesas. Ficou parada um instante perto da porta tentando captar se os bandidos tinham descon ado de alguma coisa. Os dois continuaram a discutir, então ela se convenceu de que mantivera bem o disfarce. Além do mais, nem Belle a reconhecera.
Emma voltou ao próprio quarto e pediu a Ames que fosse solicitar a torta de carne e cerveja ao estalajadeiro. Ele subiu com o pedido em uma bandeja dez minutos depois.
– Deseje-me sorte – sussurrou Emma, e desapareceu no corredor.
Ela respirou fundo e voltou a bater na porta.
– Quem é?
– Sou eu, senhor, com a sua torta de carne, exatamente como pediu.
A porta foi aberta.
– Entre.
Emma entrou, pousou a bandeja em cima de uma cômoda e foi servindo os pratos em uma mesa próxima. Precisava prolongar ao máximo os preciosos minutos dentro do quarto. Tinha que alertar Belle de que a ajuda estava a caminho. Mas a prima tinha o olhar xo em uma das colunas da cama e não se movia.
– Viram que chuva terrível tivemos ontem? – perguntou Emma subitamente. – Eu poderia jurar que estava vindo uma tempestade e tanto, não acham?
O bandido perto da porta olhou para ela de um jeito estranho.
– Sim, acho que sim.
Emma colocou o terceiro e último prato em cima da mesa.
– E todo mundo cou muito aborrecido. Da minha parte, achei que estavam fazendo muito barulho por nada, mas, sabem como é, algumas pessoas não escutam a voz da razão.
Ela se afastou da bandeja e pegou uma caneca de cerveja com as duas mãos. Pelo canto do olho, viu Belle estreitar os olhos.
– Mas tudo acabou bem. Não acham? E é isso que importa, certo? Tudo está bem quando termina bem, é o que eu sempre digo.
Agora não havia dúvida: Belle tinha, sim, desviado os olhos da coluna da cama e tava Emma com curiosidade.
Emma, por sua vez, ainda segurava a segunda caneca de cerveja.
– Mas alguns camaradas simplesmente gostam de reclamar, e não há nada que se possa fazer. A minha irmã, Cymbeline, não para de falar sobre a chuva. Achei que o meu irmão, Julius, ia matá-la. Quando Julius vê Cymbeline choramingando é como se o diabo o possuísse.
Emma fez uma pausa e pousou a última caneca de cerveja na mesa.
– Mas a minha outra irmã, Emma, se meteu no caminho antes que Julius pudesse machucar a pobre Cymbeline e cuidou de tudo.
Belle começou a tossir descontroladamente. O ataque de tosse pareceu assustar os homens, até então quase hipnotizados pela estranheza da garçonete, e trazê-los de volta à realidade.
– Escute aqui, você – disse o homem que estava perto da porta. – Temos muito que fazer. Dê o fora.
– Como desejar.
Emma se inclinou em outra cortesia e se foi.
Do outro lado da porta, ela pôde ouvir os homens gritando com Belle.
– Qual é o problema com você? Não vai car doente agora, não é?
A tosse de Belle foi enfraquecendo até restarem apenas alguns pigarros.
– Deve ter sido a chuva.
Bottomley cavalgou como se o próprio demônio estivesse em seu encalço. Passou por vilarejos maiores e menores, levando o cavalo quase à exaustão. Se já não estivesse convencido da urgência da tarefa quando partiu, certamente se convenceu quando chegou a Westonbirt. O passo
rme e incansável da sua montaria o levara a um estado cada vez maior
de pânico até ele ter certeza de que nada menos do que o destino do mundo dependia de que conseguisse alcançar o duque.
Bottomley desmontou com as pernas fracas e entrou correndo na casa, gritando, ofegante:
– Vossa Graça! Vossa Graça!
Norwood apareceu na mesma hora, pronto para repreender o cocheiro por sua absoluta falta de decoro, para não mencionar o uso da porta da frente.
– Onde está Sua Graça? – perguntou Bottomley, arquejante, agarrando a camisa de Norwood. – Onde está ele?
– Controle-se – falou Norwood, aborrecido. – Isso certamente não é…
– Onde ele está? – indagou o cocheiro, sacudindo o mordomo.
– Santo Deus, homem. O que houve?
– É a duquesa. Ela está correndo perigo. Um perigo terrível.
Norwood empalideceu.
– Ele foi para Londres.
Bottomley arquejou mais uma vez.
– Que Deus nos ajude.
Imbuído da urgência de sua missão, ele endireitou a postura.
– Norwood, preciso de outro cavalo – disse no tom mais imperioso que já usara.
– Imediatamente.
O próprio Norwood disparou na direção dos estábulos e, cinco minutos depois, Bottomley estava na direção de Londres.