Esplêndida

Julia Quinn · Capítulo 23 de 27

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Esplêndida

Capítulo 22

 

As semanas que se seguiram caram entre as mais felizes que Emma já vivera. Ela parecia utuar pelos dias, envolta em uma bruma de felicidade, exibindo o sorriso constante de uma mulher que ama e é amada. A vida dela com Alex entrou em uma confortável rotina. Eles faziam todas as refeições juntos – embora muitas fossem levadas ao quarto em uma bandeja. Saíam a cavalo todas as tardes, pegando caminhos diferentes a cada vez, e Westonbirt era grande o bastante para que, depois de três semanas, Emma ainda não tivesse conhecido toda a propriedade. Toda noite, depois do jantar, eles se demoravam na nova sala íntima, lendo, jogando xadrez ou apenas desfrutando a companhia um do outro.

E as noites, é claro, não eram reservadas apenas para o sono.

Emma logo aprendeu a fazer bom uso do tempo que não passava com Alex. Ele tinha negócios a tratar e com frequência passava algum tempo em seu escritório, lidando com cartas e documentos importantes. Ainda havia quatro propriedades além de Westonbirt que exigiam cuidadosa administração, e Alex não gostava de deixar todos os detalhes a cargo dos supervisores. Os arrendatários mereciam mais do que um senhor de terras ausente, e ele tinha cadernos e mais cadernos de anotações nos quais tentava manter o registro do progresso dos arrendatários e de suas necessidades.

Assim, enquanto Alex se ocupava com o trabalho, Emma se dedicou a conhecer sua nova casa. Sua primeira tarefa foi fazer com que a cama da duquesa fosse levada embora. Uma rápida ida a Londres para visitar a família e comprar móveis resultou na redecoração da sala íntima em tempo recorde. Então ela tratou de aprender sobre a administração da residência ancestral dos Ashbournes. Depois de conhecer todos os criados, Emma passou algum tempo com os que ocupavam uma posição mais alta na hierarquia doméstica, fazendo perguntas sobre o gerenciamento das tarefas. Foram reuniões duplamente bem-sucedidas, porque, além de aprender mais sobre o funcionamento interno de Westonbirt, Emma estabeleceu uma relação de con ança com os criados. Todos apreciaram sinceramente o interesse da nova patroa pelo bem-estar geral e caram lisonjeados por ela procurá-los para pedir

orientações em seu novo papel de senhora de Westonbirt.

Mas havia um limite para o tempo que se passava redecorando a casa e conversando com os criados, e Emma logo se viu com pouco que fazer. A e ciente equipe de criados garantia que a casa funcionasse com a precisão de um relógio, quase sem nenhuma intervenção da parte dela. Assim, certa manhã, cerca de três semanas depois do casamento, Emma tomou a iniciativa de bater na porta do escritório de Alex.

– Entre.

Emma en ou a cabeça pela porta.

– Incomodo?

Ele pousou na escrivaninha os papéis que estava lendo.

– Não, de jeito nenhum. Já está na hora da refeição?

Emma balançou a cabeça.

Alex olhou pela janela.

– Está um dia lindo. Que tal pedirmos à Sra. Goode que nos prepare um piquenique?

– Seria maravilhoso. Mas na verdade só passei para ver como você está. O que são esses papéis que você estava lendo?

Alex franziu o cenho diante do inesperado interesse da esposa.

– São a respeito de uma participação que eu tenho em uma plantação de açúcar no Caribe.

– Ah. Posso dar uma olhada?

– Com certeza – disse ele, e entregou os papéis a ela. – Mas acredito que você não vai achá-los muito interessantes. Além do mais, estão em francês.

Emma pegou os documentos e examinou-os. Seu francês não era tão bom quanto o de Alex, mas era bom o bastante para que ela tivesse uma ideia geral do que diziam as cartas do administrador da plantação. Uma estação ruim havia resultado em uma colheita ruim. Alex provavelmente não veria o retorno do investimento que zera por mais um ano. Ela devolveu os papéis a ele.

– Isso não é bom – comentou.

– Subestimei seu francês.

Emma sorriu.

– Aprendemos uma coisinha ou outra nas Colônias.

– Nos Estados Unidos – corrigiu Alex.

– Touché. Estou na Inglaterra há tempo demais.

Alex se levantou, passou os braços ao redor dela e lhe deu um beijo casto no nariz.

– Sim, bem, você é inglesa agora.

Ela suspirou satisfeita, desfrutando o calor do abraço.

– Alex? – disse contra o peito dele.

– Hum?

– Andei pensando. Passei as últimas três semanas conhecendo todos os criados e aprendendo como administrar a casa, mas agora que já z tudo isso realmente não me restou muita coisa para fazer.

Alex levantou o rosto dela para que o encarasse.

– Eu não a mantenho ocupada? – perguntou com a voz rouca.

Emma enrubesceu. A paixão que compartilhavam ainda a deixava um pouco constrangida quando discutida à luz do dia.

– Você mantém minhas noites ocupadas. E minhas refeições. E temos nosso passeio diário a cavalo, é claro. Mas a verdade é que não tenho nada para fazer enquanto você está trabalhando.

– Entendo… Bem, não vejo por que você não poderia cuidar da contabilidade da casa. A nal, era você que cuidava disso na empresa do seu pai. Tenho certeza de que está à altura da tarefa. Norwood vem fazendo isso há anos, mas não acho que ele goste muito da função. Ele prefere ser apenas um velho mordomo.

Emma se animou consideravelmente.

– Isso seria fantástico, Alex. Vou procurá-lo agora mesmo – disse Emma, e em seguida se inclinou e beijou o rosto do marido. – E vou pedir à Sra. Goode que prepare aquela cesta de piquenique. Que tal nos encontrarmos no saguão à uma da tarde?

Alex assentiu e Emma saiu do escritório para ir em busca de Norwood. Ela o encontrou em uma pequena sala de refeições, inspecionando a prataria que fora recentemente polida por uma criada contratada havia pouco tempo.

– Ah, Norwood! – chamou Emma, ao ver o topo da cabeça calva dele antes de entrar no cômodo.

O mordomo endireitou o corpo na mesma hora.

– Sim, duquesa?

– Estou planejando assumir a contabilidade da casa. Sua Graça me disse que você não gosta muito da tarefa, e devo admitir que adoro trabalhar com números.

– Sim, duquesa. E, perdoe-me a ousadia, mas gostaria de lhe agradecer. Meus olhos já não são mais como antes e aqueles numerozinhos são um desa o.

Emma deu um sorriso luminoso para o homem.

– Então tudo saiu melhor do que o planejado! E você não precisa me pedir perdão. Não fui criada na Inglaterra, não estou acostumada a tanta formalidade. Não hesite em me procurar se houver algum problema, certo?

– Obrigado, duquesa.

– Você deveria ter comentado com Sua Graça sobre a sua visão – acrescentou Emma, balançando a cabeça. – Ele teria entregado a contabilidade a outra pessoa.

Norwood abriu um pequeno sorriso – o primeiro que Emma via naquele homem de postura tão solene.

– Isso pode ser verdade, duquesa, mas ele nem sempre foi tão, vamos dizer, acessível.

Emma fez uma careta.

– Suponho que não. Mas não deixe que isso o aborreça, certo? É tudo fachada. Basta ver como ele cuida dos arrendatários. Ainda assim, concordo que não é muito agradável ser o alvo do temperamento dele.

Norwood, que não estava acostumado a ter longas conversas com os patrões, teve o bom senso de não perguntar à patroa como sabia tanto sobre o temperamento de Sua Graça.

– De qualquer modo, gostei muito da nossa conversa – continuou Emma. – Vamos agora pegar os livros de contabilidade? Gostaria muito de saber como você vem trabalhando.

Norwood levou Emma para um pequeno escritório perto da cozinha. Foram necessários apenas alguns minutos para que ela descobrisse que, por mais escrupuloso que fosse em seus cálculos, o mordomo vinha usando o sistema de contabilidade mais confuso que ela já vira. Depois de agradecer profusamente a Norwood pelo excelente trabalho realizado, Emma atacou os livros, examinando com cuidado todas as contas para que pudesse encontrar a forma mais e ciente de manter o registro das despesas. No entanto, antes que se desse conta da passagem do tempo, já era quase uma da tarde, e ela precisou correr até o saguão de entrada, onde se encontrou com Alex para saírem para o piquenique que haviam combinado.

– Na verdade, não posso demorar muito – disse ela, sem preâmbulos. – Norwood é um amor, mas ele fez uma confusão nos livros de contabilidade, e estou ansiosa para arrumar tudo.

Alex sorriu, satisfeito com o interesse dela pela casa.

– Pensei em irmos até o bosque do outro lado do riacho – sugeriu ele.

Emma franziu o cenho.

– Vamos levar pelo menos vinte minutos caminhando até lá, e outros vinte para voltar. Não posso gastar todo esse tempo se ainda formos sair a cavalo por volta das quatro. Por que não comemos em um dos pátios?

– Eu estava querendo um lugar mais reservado…

Emma enrubesceu fortemente.

– Tenho certeza de que seria, bem, interessante, mas realmente quero voltar para os livros de contabilidade.

Alex suspirou, aceitando a derrota, e se encaminhou para a porta que levava ao pátio ao norte da casa.

– Precisamos fazer alguma coisa a respeito desse receio que você tem da luz do dia – disse ele. – As pessoas também fazem bebês quando o sol está brilhando, sabia?

Emma não pensou que isso era possível, mas seu rosto cou ainda mais quente.

– Mas é meio esquisito tirar a roupa no meio do… ah, não sei!

– É esse o problema? – perguntou Alex tranquilamente, com um brilho travesso nos olhos. – Ora, com certeza não é necessário tirarmos toda a roupa, embora eu deva dizer que seria divertido.

 

Depois do piquenique, Emma voltou à sua tarefa com os livros de contabilidade, que acabaram exigindo muito menos do seu tempo do que ela imaginara a princípio. No entanto, quando terminou, percebeu que, por mais que fosse precisar fazer entradas mais frequentes em seus novos registros, realmente não havia necessidade de fazer o somatório das contas mais do que uma vez por mês. Ela suspirou. Ora, agora só tinha que se preocupar em arrumar uma forma de se ocupar por trinta dias naquele mês. Fevereiro seria uma bênção, imaginou.

Mas não ia reclamar com Alex. Ele era um homem ocupado demais para passar o dia inteiro entretendo a esposa. Além do mais, não queria dar a ele a impressão de que estava infeliz com o casamento. Assim, decidiu seguir o exemplo de Belle e tomar o caminho do aprimoramento intelectual. Por isso, no dia seguinte, Emma subiu em uma escada de madeira na biblioteca e pegou uma cópia de Tudo está bem quando termina bem.

Três dias depois, já estava lendo Cymbeline e pronta para seguir adiante. E convencida de que precisava de óculos. Shakespeare era muito bom, mas não o bastante para que lesse mais de duas peças por dia. Emma esfregou os olhos e deixou o livro de lado. Depois foi novamente até o escritório de Alex e bateu com rmeza na porta.

– Entre.

Emma entrou e fechou a porta. Alex estava, como sempre, sentado atrás da enorme escrivaninha com um maço de papéis nas mãos.

– Mais sobre a plantação de açúcar? – perguntou ela, educadamente.

– O quê? Ah, não, isso é um relatório de algumas terras que eu tenho em Yorkshire. O que a traz aqui esta tarde?

Emma respirou fundo.

– Bem, a questão é que estou entediada, Alex.

Ele a encarou, espantado.

– O quê?

– Não com você – apressou-se em dizer Emma. – Mas você passa a maior parte do dia trabalhando, e está se tornando realmente um desa o me manter ocupada.

– Entendo.

Ele se recostou na cadeira, a expressão um tanto perplexa.

– E quanto ao trabalho que eu lhe passei?

– É muito interessante – respondeu Emma. – E me ensinou muito sobre Westonbirt, mas realmente não preciso fechar as contas mais do que uma vez por mês.

– Ah. Bem, tenho certeza de que ainda há muito a fazer. E quanto aos cardápios? Sempre me pareceu que as mulheres passam grande parte do tempo decidindo cardápios.

– Não sei quais são as mulheres que você vem observando, mas eu raramente levo mais de dez minutos para decidir todos os cardápios do dia com a cozinheira.

– Um hobby, talvez.

– Alex, detesto aquarelas, sou péssima no piano e, se ler outro livro, vou precisar de óculos com lentes realmente grossas. Não quero reclamar, mas preciso encontrar alguma coisa com a qual me ocupar.

Alex suspirou. Ainda tinha muito a fazer naquela tarde. Estava atrasado com tudo. O tempo que passara cortejando Emma o afastara dos negócios e exigira alguma energia, e agora ele tentava recuperar o atraso. Para piorar, o administrador das terras em Yorkshire acabara de escrever informando que uma doença misteriosa estava abatendo uma grande quantidade de ovelhas. A interrupção da esposa não viera em bom momento.

– Não sei, Emma – disse Alex, passando as mãos pelos cabelos. – Faça o que quer que as mulheres casadas fazem o dia todo. Tenho certeza de que vai conseguir se manter ocupada.

Emma cou irritada e endireitou o corpo. Ouvira um tom de condescendência na voz do marido? Alex não poderia ter escolhido um comentário melhor para irritá-la, nem se tentasse. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas se conteve.

– Entendo. Bem, obrigada. Se me der licença, vou tentar me ocupar.

E, com isso, deu as costas a ele e saiu. Alex balançou a cabeça e voltou ao trabalho.

Vinte minutos mais tarde, Emma reapareceu na porta usando um vestido verde-escuro de viagem. Alex ergueu as sobrancelhas diante da mudança de roupa, mas lhe ofereceu um sorriso gentil assim mesmo.

– Achei que você deveria saber – avisou ela enquanto calçava um par de luvas – que estou indo visitar a sua irmã. Vou passar uma semana com ela.

Alex deixou cair os papéis que segurava.

– O que… por quê?

– Parece que preciso descobrir o que as mulheres casadas fazem o dia todo para poder seguir o seu conselho.

E, com isso, ela se virou e se encaminhou para a porta da frente, onde os criados já colocavam um baú na carruagem.

– Emma, volte aqui imediatamente! – chamou Alex, chegando até ela em segundos. – Você está exagerando e sabe muito bem disso. Não há razão alguma para você me deixar.

Eles voltaram ao escritório.

– Alex, não estou deixando você – falou Emma em um tom doce, erguendo o corpo e beijando-o no rosto. – Estou só indo visitar a sua irmã.

– Maldição, Emma – insistiu ele. – Não quero que você vá.

Ela precisou de toda a força de vontade que possuía para não se jogar nos braços do marido e dizer a ele que também não queria ir. Mas, embora aquela visita a Sophie tivesse começado com a intenção de ensinar uma lição a Alex, ela se dera conta de que realmente precisava aprender o que as mulheres casadas faziam com o tempo livre, caso contrário caria louca.

– Alex – começou a dizer Emma –, vou sentir muito a sua falta…

– Então não vá.

– Mas eu realmente preciso ir. Estou tendo um pouco de di culdade em me ajustar à vida de casada.

– Isso não é verdade! – disse Alex, indignado.

– Não a esse lado da vida de casada – ressaltou Emma. – Mas preciso encontrar um modo de ocupar os meus dias. Preciso me sentir útil e me recuso a apelar para o bordado. Você consegue entender?

Alex suspirou, desanimado. Ele entendia, mas não gostava nada daquilo. Havia se acostumado a ter Emma por perto. Westonbirt pareceria insuportavelmente vazia sem ela.

– Eu poderia ordenar que você casse, sabia? Legalmente.

Emma cou rígida enquanto o choque causado pela frase parecia estrangular seu coração.

– Você não faria isso – sussurrou ela.

Alex deixou os braços caírem junto ao corpo, derrotado.

– Não, eu não faria.

Eles caram se encarando por um longo instante até Emma

nalmente car na ponta dos pés e beijá-lo.

– Agora preciso ir, meu bem. Quero chegar lá antes que escureça.

Alex seguiu-a pela casa.

– Sophie está esperando por você?

– Não, pensei em fazer uma surpresa a ela.

– Quantos criados vão com você?

– Dois.

– Acho que não são o bastante. É melhor levar um terceiro.

– Dois são su cientes, meu bem. Terei o cocheiro comigo também.

Ele a ajudou a subir na carruagem.

– Parece que vai chover – comentou Alex, examinando o céu carregado de nuvens escuras.

– Não vou derreter, Alex.

Ele cou emburrado e, naquele momento, Emma soube exatamente como ele havia sido quando criança.

– Você estará de volta em uma semana?

– Uma semana.

– Você sabe que pode voltar mais cedo. Não precisa car lá por uma semana.

– Eu volto em uma semana, Alex.

Ele ergueu o corpo e deu um último beijo na esposa – tão apaixonado que todos os criados viraram discretamente a cabeça. Era bom mostrar a ela o que estaria perdendo. Viu que sua tática havia funcionado porque, quando nalmente se afastou, Emma estava

vermelha e com os olhos desfocados, mas infelizmente ele teria que lidar com o desconforto de uma ereção. Alex murmurou as últimas despedidas, fechou a porta da carruagem com relutância e observou a esposa desaparecer no caminho de acesso à casa.

Ele en ou as mãos nos bolsos e voltou, chutando sem piedade as pedras no chão. Talvez fosse passar a semana em Londres. Talvez não sentisse tanta falta de Emma lá.

 

A gravidez de Sophie tinha começado a se tornar mais evidente, por isso ela deixara a casa de Londres e se mudara para a propriedade Wilding, em East Anglia. Infelizmente, East Anglia sempre parecia ser a parte mais chuvosa da Inglaterra e, quando a carruagem de Emma parou diante da casa de campo da amiga, caía um temporal.

– Ah, meu Deus! – exclamou Sophie ao ver a cunhada à sua porta. – O que está fazendo aqui? Vocês brigaram? Ah, meu Deus, isso é péssimo, é terrível! Ele vai ter que rastejar…

– Rastejar realmente não será necessário – interveio Emma. – Se eu puder entrar e me aquecer, conto tudo que aconteceu.

– Ah, é claro! Desculpe! Entre, entre – disse Sophie, conduzindo a cunhada rapidamente até uma saleta. – Para sua sorte, acabei de pedir para Bingley acender a lareira. Sente-se aqui perto do fogo. Eu vou buscar algumas mantas.

Emma tirou as luvas e esfregou as mãos perto das chamas, estremecendo enquanto o calor levava embora parte da umidade que a envolvia.

– Aqui estão! – anunciou Sophie, entrando na sala com os braços carregados de mantas. – Também pedi para servirem chá. Nada como um chá para aquecer.

– Obrigada.

– Tem certeza de que não quer se trocar? Posso pedir para alguém passar um dos seus vestidos imediatamente, ou você pode pegar um dos meus emprestado. Talvez se sinta mais aquecida depois de tirar essas roupas molhadas.

– Não estão molhadas, só um pouco úmidas – explicou Emma. – E quero estar aqui quando o chá chegar ainda quente. Nunca consegui entender como vocês, ingleses, esperam para tomar o chá morno.

Sophie deu de ombros.

– Imagino que você esteja se perguntando por que apareci sem avisar.

– Bem, sim.

– Na verdade, não é por nenhum problema com o seu irmão. Muito pelo contrário. Estou muito feliz com o nosso casamento.

– Eu sabia que se sentiria assim.

– O problema é que não tenho nada para fazer o dia inteiro enquanto Alex está ocupado. Antes do casamento eu tinha os compromissos sociais, mas realmente não quero voltar para aquela agitação neste momento. Além disso, a temporada social está chegando ao m.

– Hum, e você não é muito boa com instrumentos musicais, não é mesmo?

– Sophie – disse Emma com toda a seriedade. – Evito me aproximar do piano por compaixão a Alex, a todos os criados, na verdade a todas as criaturas vivas que possam ouvir o que se passa em Westonbirt.

Sophie abafou uma risada.

– E, de qualquer modo, não quero me dedicar a um hobby. Quero fazer alguma coisa útil. Em Boston, eu ajudava meu pai a administrar o estaleiro. Cuidava de toda a contabilidade, e ele me consultava em quase todas as decisões importantes que precisava tomar. Eu passava muitos dias no escritório e no estaleiro. E adorava. Na verdade, relutei muito diante da ideia de vir para a Inglaterra porque não queria deixar o negócio.

– Bem, confesso que co muito feliz por você ter perdido a batalha – brincou Sophie. – Mas entendo o que quer dizer. Infelizmente, aqui na Inglaterra é bastante incomum que uma mulher da alta sociedade administre um negócio.

– Também é bastante incomum em Boston – comentou Emma, desanimada.

– Por mais odioso que isso seja, acho que a maioria das pessoas não a levaria a sério. E, se ninguém a levar a sério, você estará, é claro, condenada ao fracasso, já que ninguém estará disposto a comprar qualquer produto ou serviço que estiver oferecendo. Então, é claro, depois que você fracassar, todos vão dizer “Eu avisei” e “Foi por isso que eu não a apoiei desde o começo”.

– Eu sei. Foi exatamente por isso que o meu pai quis que eu viesse para a Inglaterra. Ele sabia que o negócio afundaria se eu assumisse a administração, embora eu seja capaz de fazer um trabalho melhor do que a maioria dos homens.

Sophie esfregou o queixo.

– Mas você sabe que uma mulher da alta sociedade pode administrar uma instituição de caridade.

– Uma instituição de caridade?

– Sim. Se você zer a coisa do jeito certo, não vejo como uma instituição de caridade seria muito diferente de administrar um negócio.

– Você está certa – disse Emma lentamente, os olhos começando a se iluminar. – Primeiro é preciso angariar fundos, depois recolhê-los. E então cuidar para que o dinheiro seja administrado corretamente e os fundos, aplicados com sabedoria.

Sophie sorriu, sentindo que realmente zera uma boa ação naquele dia.

– E se a pessoa responsável pela ação de caridade resolvesse, vamos dizer, construir uma escola, ou um hospital, então essa pessoa teria que supervisionar os operários e as despesas. Seria muito estimulante. Isso sem mencionar quanto bene ciaria a comunidade.

– Excelente – disse Sophie, batendo palmas. – Serei a primeira a apoiar qualquer obra que deseje fazer. Fará isso perto de Westonbirt, não é? Seria muito conveniente, na verdade, se você começasse uma ação na região. Acho que os arrendatários gostam muito de mim, eu sempre levava cestas para eles na Páscoa e no Natal… Sei que no momento não posso fazer muita coisa – disse, dando uma palmadinha na barriga –, mas posso ajudar com o planejamento e tudo o mais, assim que você começar, e…

– Sophie. – Emma interrompeu a tagarelice da cunhada em uma voz risonha. – Você será a primeira que vou chamar.

– Ótimo. Vou esperar ansiosamente.

Sophie serviu uma xícara de chá para Emma.

– Agora me diga, quanto tempo pretende car? Imagino que esteja ansiosa para voltar para perto do meu irmão agora que solucionou seu problema, mas realmente não acho que deveria pegar a estrada hoje à noite. Está cando tarde e parece que a chuva não vai dar trégua.

Emma tomou um gole de chá, deixando que o líquido quente aquecesse sua garganta.

– Na verdade, eu disse a Alex que passaria uma semana aqui.

– Santo Deus, por quê? Vocês só estão casados há um mês. Com certeza você não quer car uma semana longe dele, quer?

– Não – disse Emma com um breve suspiro. – Mas ele foi absurdamente condescendente quando eu disse que me sentia entediada e…

– Não precisa dizer mais nada – falou Sophie, levantando a mão. – Sei exatamente do que você está falando. Não precisa car uma semana, mas talvez queira tentar aguentar uns quatro dias. Alex precisa aprender a não subestimar você.

– Sim, acho que sim, mas…

A voz de Emma se perdeu e ela levantou os olhos para a cunhada. Era como se todo o sangue tivesse fugido do rosto de Sophie, que deixou a xícara cair ruidosamente sobre o pires.

– Sophie?

Emma virou a cabeça para acompanhar o olhar da cunhada. Um homem atraente, com olhos castanhos cálidos e cabelos claros, estava na porta.

– Oliver? – disse Sophie em um sussurro. – Oliver, meu amor! Senti tanto a sua falta!

Emma piscou para conter uma lágrima inesperada enquanto via a cunhada se jogar nos braços do marido. Discreta, manteve o olhar baixo enquanto o casal se beijava e se abraçava e diziam com palavras e olhares quanto haviam sentido falta um do outro durante os últimos meses.

– Sophie – disse Oliver nalmente, afastando-se, mas se recusando a soltar a mão da esposa –, talvez você deva me apresentar a sua amiga.

Sophie riu, feliz.

– Ah, Oliver, você não vai acreditar, mas Emma não é só minha amiga, ela é minha cunhada. Alex se casou!

Oliver cou boquiaberto.

– Você está brincando…

Sophie balançou a cabeça, e Emma abriu um sorriso tímido.

– Ora, ora, não acredito. Ashbourne se casou. Deve ser uma dama e tanto, Vossa Graça.

– Ah, por favor, me chame de Emma.

– E americana! – acrescentou Oliver, reparando no sotaque dela.

Emma trocou algumas amabilidades com o conde de Wilding, mas, por mais que o casal tentasse esconder, era óbvio que queriam car a sós. Por isso Emma murmurou qualquer coisa sobre estar profundamente cansada da viagem e pediu que lhe servissem o jantar no quarto. Emma deu boa-noite ao casal e seguiu para se recolher, parando antes na biblioteca para pegar um exemplar de Hamlet.

Na manhã seguinte, Emma colocou mais uma vez o vestido de viagem, já lavado e passado. Sophie apareceu de roupão na mesa do café da manhã, os olhos um tanto turvos, mas parecendo absurdamente feliz.

– Diante das circunstâncias, acho que vou encurtar a minha estadia e passar algum tempo com os meus primos – avisou Emma.

– Você não precisa fazer isso, querida – apressou-se em dizer Sophie, abafando um bocejo.

Emma deu um sorriso de quem sabia o que estava acontecendo. Sophie não dormira muito naquela noite.

– Não, acredite em mim, pre ro assim. Você merece algum tempo a sós com o seu marido e o seu lho. Mas agradeceria muito se pudesse mandar um mensageiro levar este bilhete a Alex informando-o da mudança de planos.

– Ah, sim, com certeza, mas certi que-se de não voltar antes de quatro dias. E, se puder, tente car cinco.

Emma apenas sorriu e comeu a omelete à sua frente.