Esplêndida
Capítulo 6
Emma deixou escapar um suspiro de alívio assim que fechou a porta do quarto. Embora tivesse conhecido o duque de Ashbourne naquele dia, soube instintivamente que ele era um homem de palavra e que não provocaria um escândalo irreparável seguindo logo atrás dela de volta ao salão. Ele esperaria pelo menos quinze minutos antes de reaparecer.
Ela se moveu silenciosamente pelos corredores escuros da casa dos primos até emergir no patamar da escada que levava ao salão fortemente iluminado. Então parou por um momento para observar a cena. Tia Caroline certamente havia se superado daquela vez. A festa estava de tirar o fôlego. Flores exóticas e de cores fortes enfeitavam as mesas do bufê encostadas às paredes do salão. Centenas de velas cor de mar m também haviam sido espalhadas por todo o local. Mas a parte mais espetacular eram os convidados. Homens arrojados e mulheres elegantes rodopiavam sem esforço pela pista de dança, girando ao som da música tocada pela orquestra que Caroline contratara. As damas estavam especialmente reluzentes, joias cintilavam sem o menor pudor à luz de velas, sedas e cetins de cores fortes utuavam no ar. Os casais pareciam se mover em harmonia ao som da música, como se coreografados, transformando o salão de baile em um caleidoscópio de luz e cor.
Enquanto sorria diante da beleza do espetáculo, Emma se deu conta de que ela mesma era o foco da atenção. De pé no topo da escada, acabara, sem querer, dando uma oportunidade para que todo o salão de baile parasse para olhá-la. E foi exatamente o que todos zeram.
– Estou de nitivamente apaixonado – declarou John Millwood, um dos amigos de Ned da universidade, com quem Emma dançara mais cedo naquela noite.
Ned deu uma gargalhada gostosa. Seus olhos eram de um azul tão brilhante quanto os da irmã, embora os cabelos fossem escuros como mogno.
– Esqueça, John. Você jamais conseguiria acompanhar o ritmo dela. Além do mais, achei que estava apaixonado pela minha irmã.
– Certo, bem, ainda estou, eu acho. O problema é que você tem muitas mulheres bonitas embaixo do seu teto. Isso não é justo.
Ned fez uma careta.
– Você não diria isso se tivesse que lidar com a quantidade de pretendentes que batem à porta o tempo todo. Achei que havia sido ruim no ano passado, quando era só a Belle, mas agora, com Emma aqui também, vai ser o inferno.
Naquele momento, mais dois amigos deles se aproximaram, apressados.
– Ned, você simplesmente precisa nos apresentar à sua prima – exclamou o jovem lorde Lin eld.
O companheiro dele, Nigel Eversley, assentiu, concordando.
– Temo que vocês terão que apelar à minha mãe para isso. Desisti de tentar registrar quantas pessoas querem ser apresentadas a Emma.
– Ela é deslumbrante, simplesmente deslumbrante – declarou John, com um suspiro.
– Não sei se consigo aguentar muito mais disso – reclamou Ned, com um suspiro.
– É claro que todos nós caríamos satisfeitos se você simplesmente concordasse em falar bem de nós para a sua irmã – sugeriu Nigel, ansioso.
– Fiz isso no ano passado – retrucou Ned. – E não serviu de nada, caso você não se lembre.
– Você podia, então, tentar falar muito bem de nós – sugeriu George Lin eld.
– Vocês três simplesmente precisam aceitar que a última coisa que as mulheres da minha família fazem é me dar ouvidos – comentou Ned com ironia. – Nada do que eu diga as in uencia.
– Uma mulher dócil, é disso que eu preciso – resmungou George.
– Pode desistir de achar uma na minha família – falou Ned com uma risadinha.
– Meu Deus, o que aconteceu com as mulheres dóceis? Não existem mais? – continuou George em tom de lamento.
– São todas feias e tediosas – concluiu John. – Ah, Deus, lá vem ela!
E, realmente, Emma vira o primo e estava se encaminhando direto para o grupo de rapazes.
– Olá, Ned – falou com suavidade, uma beldade em cetim violeta. – Boa noite, John. Gostei muito da nossa dança mais cedo.
John abriu um sorriso radiante diante das palavras simpáticas dela. Emma virou-se então para os dois homens que ainda não conhecia e sorriu para eles, em expectativa, esperando que Ned os apresentasse.
O primo rapidamente fez as honras.
– Emma, esses são lorde George Lin eld e o Sr. Nigel Eversley. Estudamos todos juntos em Oxford. George, Nigel, essa é minha prima, Srta. Emma Dunster.
Os dois homens se esbarraram na tentativa de pegar a mão dela. Emma pareceu vagamente envergonhada, ao mesmo tempo que cava claro que estava achando graça da cena.
– Com licença, Lin eld – disse Nigel com voz grave, tentando parecer mais velho do que os seus 21 anos. – Acredito que eu estava tentando beijar a mão da Srta. Dunster.
– Você me dê licença, Eversley, creio que eu estava pegando a mão dela.
– Deve estar enganado.
– É mesmo? Acho que é você quem está enganado.
– Você está totalmente enganado se acha que estou enganado.
– Santo Deus! – exclamou Emma. – Parece que tia Caroline está me chamando. Foi um prazer imenso conhecer vocês.
E, com isso, ela se afastou, apressada, tentando encontrar a tia.
– Ah, maravilha, Lin eld. Absolutamente brilhante – falou Nigel com sarcasmo. – Olha só o que você fez.
– O que eu z? Se você não tivesse tropeçado nos próprios pés para tentar agarrar a mão dela…
– Se me dão licença – disse Ned, baixinho –, acho que minha mãe também está me chamando.
Ned se afastou rapidamente e seguiu Emma, torcendo para que a prima soubesse onde encontrar a tia.
Do outro lado do salão, Belle dançava com William Dunford. Tinham se conhecido no ano anterior e, depois de ele cortejá-la por algumas semanas, os dois perceberam que não combinavam romanticamente, mas acabaram se tornando amigos próximos.
– Espero que a sua prima seja pobre – comentou William, rindo, enquanto observava Lin eld e Eversley tropeçando um no outro para tentar cumprimentar Emma.
– É mesmo? – perguntou Belle, achando o comentário divertido. – Por quê?
– A sua família já vai estar cercada de pretendentes caso ela seja pobre. Se a sua prima tiver dinheiro, então, todos os caçadores de fortuna da Inglaterra vão bater na sua porta.
Belle riu.
– Não me diga que está planejando fazer uma tentativa…
– Bom Deus, não – exclamou Dunford com um sorriso, os olhos castanhos se aquecendo com a lembrança da obsessão de Alex por Emma. – Não que ela não seja excepcionalmente bela, é claro.
– E também é muito inteligente – ressaltou Belle.
– Imagine só! – brincou Dunford. – Sinceramente, Belle, nunca duvidei nem por um momento de que ela fosse tão inteligente quanto você. Só acho que sua prima já vai estar bastante ocupada sem a minha participação.
– O que você quer dizer?
– Ah, nada, nada – despistou ele, examinando o salão em busca de Alex. – Nada mesmo. A propósito, já mencionei que você ca fantástica de azul?
Belle deu um sorriso irônico.
– Que pena que eu esteja usando verde então.
Emma tentava encontrar a tia quando Ned a alcançou.
– Acho que você não sabe onde mamãe está – disse Ned, pegando dois copos de limonada de uma mesa próxima.
– Não faço a menor ideia – respondeu Emma. – Obrigada, estou morrendo de sede.
– Imagino que, se carmos parados aqui por tempo su ciente, ela nos encontrará. Acho que mamãe ainda tem cerca de duzentas pessoas que deseja lhe apresentar.
Emma riu.
– Sem dúvida.
– Preciso me desculpar pela cena ali atrás, Emma. Não pensei que os dois agiriam de forma tão ridícula.
– Não pensou que quem agiria de forma tão ridícula? – perguntou Belle, surgindo à direita de Ned, com Dunford ao seu lado.
– Lamento ter apresentado Emma a George Lin eld e Nigel Eversley.
– Ah, Ned, diga que você não fez isso! A pobre Emma será atormentada por eles por meses.
– Não se preocupe, Emma – disse Ned em um tom tranquilizador. – Eles são bons camaradas depois que você os conhece melhor. Só perdem a cabeça quando estão perto de uma mulher bonita.
Emma riu com gosto.
– Nossa, Ned, acho que você acabou de me elogiar. Seria a primeira vez.
– Que besteira. Caso não se lembre, eu não conseguia parar de elogiar seu gancho de direita depois que você quebrou o nariz daquele batedor de carteiras em Boston.
Dunford deduziu que não precisava se preocupar com a possibilidade de Emma ter qualquer problema para lidar com Alex, mas começou a se perguntar se o amigo seria capaz de lidar com a americana. Ele se virou para Ned e disse:
– Blydon, acho que não fui apresentado à sua prima.
– Ah, perdão, Dunford. Passei a noite toda apresentando Emma. É difícil lembrar quem ainda não foi contemplado.
– Emma, esse é William Dunford – interveio Belle. – Um grande amigo meu. Dunford, estou certa de que você sabe que essa é minha prima, Srta. Emma Dunster.
– É claro que sim – disse Dunford, pegando a mão de Emma e levando-a graciosamente aos lábios. – É um prazer nalmente ser apresentado à senhorita. Ouvi falar muito a seu respeito.
– É mesmo? – perguntou Emma, intrigada.
– Mas eu mal falei dela… – protestou Belle.
Dunford deu um sorriso enigmático e foi salvo de ter que se aprofundar no assunto graças a lady Worth.
– Emma querida – chamou Caroline. – Quero que conheça lady Summerton.
Os quatro se viraram e viram Caroline vindo na direção deles com uma dama rechonchuda, usando um vestido roxo e um turbante combinando. Emma achou que ela parecia um pote de geleia de uva.
– Não olhe agora – sussurrou Belle –, mas essa é uma daquelas tontas sobre as quais a alertamos, Emma.
– Estou tão feliz em conhecê-la – disse lady Summerton, efusiva. – Você fez uma entrada e tanto na sociedade. Não acontecia nada parecido desde a apresentação de Belle no ano passado – disse a mulher atarracada, que então respirou fundo, virou-se para a tia de Emma e continuou: – E, Caroline, você deve estar tão orgulhosa. Essa é sem dúvida a festa do ano. Ora, até o duque de Ashbourne compareceu. Acho que ele não comparece a um baile como este há mais de um ano. Você deve estar felicíssima!
– Sim, sim – disse Caroline. – Ouvi dizer que ele passou por aqui, mas não o vi.
– Duvido que ele já tenha partido – disse Dunford com um sorriso malicioso. – Na verdade, estou certo de que ele tem planos para permanecer a noite toda aqui.
– Planejando me torturar, sem dúvida – murmurou Emma baixinho.
– Disse alguma coisa, minha querida? – perguntou Caroline.
– Não, não, estava só pigarreando – disse Emma, pigarreando.
– Gostaria de outro copo de limonada? – perguntou Dunford em um tom solícito, mas, pela sua expressão, Emma descon ou que o rapaz ouvira o que ela dissera.
– Não, obrigada – disse Emma, levantando o copo que tinha na mão. – Ainda tenho um pouco.
Ela sorriu para Dunford e tomou um bom gole da bebida.
– Ora – declarou lady Summerton, como se ninguém tivesse dito nada depois de o seu último monólogo. – Estou certa de que nem mesmo Ashbourne ousaria partir sem se despedir da an triã, Caroline. Tenho certeza de que ele logo estará aqui. Absoluta certeza.
– Eu também – concordou Dunford.
Ele observava Emma com um brilho divertido nos olhos. Ela deu um sorrisinho, sentindo-se profundamente desconfortável.
– É claro – continuou lady Summerton – que não estou certa de que você deveria deixá-lo chegar perto de sua sobrinha, Caroline. Ashbourne tem uma reputação terrível. Se dá valor à sua, minha jovem, deve car longe dele – acrescentou ela para Emma.
– Certamente vou tentar – retrucou Emma, animada.
– Sabem o que eu ouvi? – perguntou lady Summerton, em um sussurro, a ninguém em particular.
– Com certeza não consigo imaginar – falou Ned.
– Ouvi dizer – lady Summerton começou a contar, fazendo uma pausa para chamar atenção e se inclinando para a frente em uma pose conspiratória – que Ashbourne, bem, vamos dizer, “disse adeus” à cantora de ópera e nalmente decidiu voltar seus olhos para as damas respeitáveis. Acho que ele está procurando uma esposa.
Emma engasgou com a limonada.
– Você está bem, querida? – perguntou Caroline. – A sua dor de cabeça ainda está incomodando?
– Não, com certeza não é a minha dor de cabeça que está me incomodando.
Lady Summerton continuou.
– Clarissa Trent está interessada nele. A mãe dela me contou. E sabe o que mais?
Apenas Caroline foi atenciosa – e educada – o bastante para murmurar:
– O quê?
– Acho que ela tem chance de conquistá-lo.
– Imagino que a moça vá car desapontada – previu Dunford.
– Bem, ela realmente disse que estava se guardando para um duque – comentou Belle em tom cáustico.
– Eu preferiria não falar sobre Clarissa – declarou Ned.
– Emma, você está se sentindo bem? – perguntou Caroline. – Parece um pouco pálida.
Um silêncio constrangedor recaiu sobre o pequeno grupo. Por m, lady Summerton, que nunca apreciara pausas nas conversas, comentou:
– Bem, estou certa de que ele vai aparecer logo, Caroline. Pare de se preocupar.
Até Caroline, com seus modos impecáveis, não conseguiu evitar murmurar baixinho:
– Não sabia que eu estava preocupada.
– O que foi, querida? – perguntou lady Summerton.
– Nada, nada mesmo – disse Caroline, lançando um olhar signi cativo para Emma. – Estava só pigarreando.
Emma dirigiu-lhe um sorriso conspiratório.
– Talvez seja melhor pegarmos uma limonada para a senhora, tia querida.
– Realmente não acho que será necessário, sobrinha querida.
– Ora, estou certa de que ele vai aparecer logo – declarou lady Summerton.
Emma estimou que já teriam se passado pelo menos quinze minutos desde que voltara para o baile e teve que admitir, para sua infelicidade, que lady Summerton provavelmente estava certa. Ela se perguntou como, em nome de Deus, conseguiria passar por todos os trâmites de uma conversa educada com o homem que, havia pouco, quase a violara em seu quarto. A covardia nalmente foi a solução escolhida, e ela deu um sorrisinho débil.
– Na verdade, tia Caroline, estou me sentindo um pouco cansada. Talvez um pouco de ar fresco ajude.
Dunford se adiantou na mesma hora, ansioso para provocar o ciúme de Alex ao caminhar com Emma pelos jardins.
– Seria um prazer acompanhá-la até os jardins, Srta. Dunster.
– Terei di culdade em conhecer a convidada de honra se você insistir em monopolizar o tempo dela – disse uma voz profunda.
Emma precisou se conter para não se encolher visivelmente no momento em que todos se voltaram para encarar Alex.
– Ora, Vossa Graça – disse lady Summerton, empolgada –, estávamos exatamente falando do senhor.
– É mesmo? – perguntou Alex laconicamente, xando um olhar fulminante na mulher desagradável.
– Ah, sim, estávamos – balbuciou lady Summerton.
Emma cou impressionada com a força da presença do homem. Sua
gura alta, de ombros largos, parecia dominar o salão de baile. Na
verdade, um silêncio pairou sobre os convidados que, sem exceção, viraram o pescoço para olhar o duque tão conhecido. Emma teve que admitir que com certeza valia a pena olhar para ele. Ashbourne exalava uma força primitiva que os trajes de noite mal pareciam conter. Seus cabelos negros rebeldes se recusavam a se assentar em qualquer espécie de penteado e uma mecha caía sobre sua testa. Mas, sem dúvida, eram os olhos verdes atentos que o faziam parecer tão perigoso. E naquele exato momento aqueles olhos verdes estavam xos nela.
– Srta. Dunster, eu presumo – falou ele, em um tom suave, pegando a mão dela.
– C-como vai? – conseguiu dizer Emma.
Ela sentiu como se um relâmpago a atingisse quando ele levou sua mão aos lábios. E, embora só tivesse passado uma noite em meio à sociedade de Londres, Emma sabia que os lábios do duque haviam permanecido demasiado tempo sobre a pele clara do dorso de sua mão.
– Estou muito bem, na verdade, agora que a conheci.
Lady Summerton cou sem fôlego. Caroline ergueu as sobrancelhas em uma expressão de choque. Dunford riu. Ned e Belle encaravam abertamente a cena, sem o menor pudor. Emma se perguntou se o rubor que dominara seu rosto seria de um carmim profundo ou apenas um leve rosado.
– Muito gentil – disse ela, por m.
– Ora, Ashbourne, essa deve ser a primeira vez que vejo alguém se referindo a você como gentil – comentou Dunford, com ironia.
– É muito gentil, quero dizer, amável de sua parte ter vindo esta noite, Vossa Graça – falou Caroline.
– É verdade – acrescentou Belle, que não tinha nada para dizer, mas sentiu que era necessário falar alguma coisa.
– Sua irmã está bem? – perguntou Caroline. – Ficamos tristes quando ela disse que não poderia vir.
– Sophie está muito bem, obrigado. Passamos por um susto essa tarde, mas agora está tudo bem.
– Um susto? – perguntou lady Summerton, arregalando os olhos de interesse. – Como assim?
– Meu sobrinho, Charlie, quase foi atropelado por um coche. Ele teria sido morto se uma jovem criada não tivesse atravessado a rua e o empurrado para fora do caminho do veículo.
Emma sentiu o olhar de Belle xo nela. Por isso levantou os olhos, evitando propositalmente o olhar da prima.
– Graças a Deus ele não se feriu – disse Caroline com evidente preocupação. – A criada está bem?
– Ah, sim – respondeu Alex com um sorriso. – Ela está esplêndida.
Emma decidiu que o teto era muito interessante.
– É uma valsa que estou ouvindo? – perguntou Alex em um tom inocente. – Lady Worth, me daria a permissão de dançar com sua sobrinha?
Emma intrometeu-se antes que Caroline pudesse responder.
– Acho que prometi essa dança a outro cavalheiro.
Ela estava certa de que não prometera a dança a ninguém, mas aquilo foi o melhor que conseguiu pensar naquelas circunstâncias. Ela olhou desesperada para Ned, em busca de ajuda. Mas o primo com certeza não tinha a menor vontade de antagonizar o poderoso duque, e descobriu rapidamente as maravilhas do teto que tanto haviam fascinado Emma momentos antes.
Alex xou os olhos verdes nela.
– Tolice – disse apenas, voltando-se novamente para Caroline. – Lady Worth?
Caroline assentiu, autorizando, e Alex envolveu Emma nos braços. Quando chegaram ao centro da pista de dança, ele sorriu calorosamente para ela e disse:
– Você é quase tão linda no salão de baile quanto no quarto.
Emma enrubesceu fortemente.
– Por que você precisa dizer essas coisas? Seu objetivo é mesmo arruinar a minha reputação na noite da minha apresentação à sociedade?
Alex ergueu as sobrancelhas diante da perturbação dela.
– Não estou querendo me gabar, mas acredito que desde que eu não a arraste para fora do salão e a viole no jardim, só estou engrandecendo a sua reputação. Não faço esse tipo de coisa com frequência – explicou ele. – As pessoas vão querer saber por que estou tão interessado em você.
Emma teve que concordar com o argumento.
– Ainda assim, não precisa fazer tanta questão de me constranger.
– Desculpe – disse ele apenas.
Emma levantou os olhos diante do tom sério e cou surpresa ao ver a sinceridade absoluta em seus olhos.
– Obrigada – disse, baixinho. – Desculpas aceitas.
Ela o encarou por algum tempo, mas sentiu-se desconfortável com a carícia íntima do olhar do duque e abaixou rapidamente a cabeça, concentrando-se na gravata dele.
– Você talvez queira sorrir para mim – sugeriu Alex. – Ou, se não conseguir fazer isso, ao menos levante os olhos. Estão todos nos observando.
Emma reconheceu que ele tinha razão e ergueu o rosto.
– Bem melhor assim. É doloroso, sabe, ter você em meus braços e não poder olhar nos seus olhos.
Emma não sabia o que dizer. Depois de um instante, Alex quebrou o silêncio.
– Pode me chamar de Alex, se quiser.
Emma recuperou um pouco da sua rapidez de raciocínio.
– Vossa Graça vai servir perfeitamente, tenho certeza.
– Mas eu preferiria que você usasse o meu primeiro nome.
– Realmente pre ro não usar.
Alex cou feliz ao ver que Emma recuperara um pouco da língua ferina. Ela parecera muito perdida quando começaram a valsar.
– Você vai parecer terrivelmente boba me chamando de Vossa Graça enquanto eu a chamo de Emma.
– Não lhe dei permissão para usar o meu primeiro nome – disse ela.
– Sinceramente, Emma, acho que não será necessária qualquer permissão depois do que vivemos juntos há menos de uma hora.
– Precisa mesmo me lembrar disso? Gostaria que você esquecesse.
– É mesmo? Acho que está mentindo para si mesma.
– O senhor acha demais, Vossa Graça – disse Emma com uma dignidade tranquila. – Simplesmente não me conhece.
– Mas gostaria de conhecer.
O sorriso de Alex era de nitivamente malicioso e Emma cou encantada com o modo como um simples sorriso era capaz de transformar o rosto do homem.
Poucos momentos antes, Alex parecera duro e intratável, quase fazendo lady Summerton sair correndo de medo com um simples olhar. Agora, sem o cinismo habitual, ele parecia quase travesso, os olhos banhando-a com seu verde cálido.
Emma sentiu todas as suas faculdades mentais a abandonarem quando Alex a puxou mais para perto.
– Acho que está tentando me confundir de propósito.
– E estou conseguindo?
Ela o encarou por um longo instante antes de responder, muito séria:
– Sim.
Os braços de Alex apertaram mais o corpo pequeno dela.
– Meu Deus, não consigo acreditar que me disse isso aqui – falou ele, a voz subitamente rouca. – Você é sincera demais para o seu próprio bem.
Emma abaixou os olhos, sem compreender o que a levara a confessar os próprios sentimentos tão abertamente.
– Acha que sou honesta demais? – perguntou Emma em um tom suave. – Ora, mas se eu ainda nem terminei… Nos conhecemos da forma menos convencional, o que provavelmente é o motivo pelo qual somos capazes de falar um com o outro com tanta sinceridade. Acho você um homem gentil mas muito severo, e acho que você é capaz de me magoar mesmo sem ter intenção. Vou car em Londres por poucos meses, e gostaria que a minha estadia aqui, com minha família, fosse a mais feliz possível. Por isso estou pedindo que você, por favor, que longe de mim.
– Acho que não consigo.
– Por favor.
Alex estava impressionado com o fato de que essas duas palavras saídas dos lábios de Emma tinham o poder de fazer com que ele se sentisse um cafajeste. Ainda assim, ele achava que, depois de ter aberto a alma para ele, Emma não merecia nada menos que a mais completa honestidade.
– Acho que você não está entendendo quanto a quero.
Emma cou imóvel na mesma hora.
– A valsa acabou, Vossa Graça.
– De fato.
Ela se desvencilhou dos braços dele.
– Adeus, Vossa Graça.
– Até amanhã, Emma.
– Acho que não.
E, com isso, ela se afastou, movendo-se com agilidade em meio aos convidados até alcançar a tia.
Alex cou parado, observando-a se afastar pelo salão, os cabelos reluzindo sob a luz de velas. A honestidade rme de Emma, ao mesmo tempo que o enervara, também intensi cara seu desejo por ela. Ele não entendia exatamente o que sentia pela jovem, e aquela falta de controle em relação às próprias emoções o deixava muito irritado consigo mesmo. Com um passo rápido, Alex deu as costas com determinação para os almofadinhas e mães ansiosas que pareciam prestes a envolvê-lo em alguma conversa. Por sorte, rapidamente localizou Dunford, que estava parado na lateral do salão, observando-o.
– Vamos sair daqui – falou para o amigo, emburrado.
Inferno. Emma simplesmente teria que aceitar que ele não seria capaz de deixá-la em paz.