Esplêndida
Capítulo 8
Ao longo das semanas seguintes, a vida de Emma entrou em uma espécie de rotina – ainda que empolgante e divertida. Do dia para a noite, ela se tornara um dos membros mais disputados da sociedade londrina. Ficou rapidamente decidido (por quem quer que fosse que decidisse esse tipo de coisa) que, por mais que os cabelos ruivos de Emma fossem lamentáveis, o resto com certeza não era. Assim, ela foi elevada à categoria de beldade, apesar da cor do cabelo. Algumas matronas mais conservadoras a consideravam um tanto ousada demais (ainda mais com “aqueles cabelos ruivos”), mas a maior parte da aristocracia decidiu que gostava de conversar com uma mulher capaz de falar sobre outros assuntos além de tas e anáguas. Dessa forma, Emma e Belle (que conquistara uma reputação semelhante no ano anterior, embora na versão loira) iam de festa em festa, se divertindo muito e aproveitando a imensa popularidade da qual gozavam. Para Emma, aquele foi um delicioso período de interlúdio em uma vida que, com certeza, a levaria de volta ao pai em Boston, onde ela, como lha única, acabaria desa ando os padrões correntes da indústria e assumiria o estaleiro.
A única complicação, é claro, era o duque de Ashbourne, que emergira de seu exílio autoimposto e assumira com determinação seu lugar na sociedade. Ninguém tinha qualquer dúvida do motivo do súbito reaparecimento dele.
– Ele está de nitivamente cercando Emma – resmungou Caroline, certa vez.
Ao que a suposta “presa” respondeu com astúcia:
– Não sei se ele está realmente interessado em mim ou se tem apenas prazer em me emboscar.
É claro que aquela declaração era apenas uma meia-verdade. Nas semanas anteriores, Emma tinha visto Alex quase todos os dias, e a amizade entre eles acabara se fortalecendo bastante. Emma estava certa de que Alex gostava sinceramente dela como pessoa, não apenas como uma espécie de troféu a ser conquistado. No entanto, aquela amizade com frequência era comprometida pela tensão sexual e, bem, Alex realmente parecia gostar de emboscar Emma.
Ele era rápido como um leão e tinha prazer em surpreendê-la. Certa vez, Emma tinha ido a uma apresentação musical a que Alex dissera que não pretendia comparecer. Ela estava parada distraidamente perto de uma janela aberta quando sentiu uma mão quente agarrar a dela. Emma tentou se desvencilhar, mas não conseguiu, e logo ouviu uma voz conhecida sussurrar:
– Sem escândalo.
– Alex?
Emma olhou ao redor. Com certeza alguém havia percebido uma mão se esgueirando pela janela. Mas não. O resto dos presentes estava envolvido em seus próprios ertes e não reparou na expressão vibrante de Emma.
– O que você está fazendo aqui? – sussurrou ela, com urgência, mantendo um sorriso agradável xo no rosto.
– Vamos até o jardim – ordenou ele.
– Enlouqueceu?
– Talvez. Me encontre lá.
Emma se amaldiçoou umas cinquenta vezes por ser tão tola, inventou uma história sobre um rasgo no vestido e saiu do salão. Alex estava esperando por ela no jardim, escondido entre as árvores.
– O que você está fazendo aqui? – repetiu ela assim que o viu.
Alex agarrou de novo a mão dela e puxou-a mais para dentro das sombras do jardim.
– Achei que você devia estar com saudade – respondeu ele, animado.
– Com certeza não estava!
Emma tentou puxar o braço, mas ele não a soltou.
– Ora, é claro que estava. Não tem problema admitir.
Emma resmungou e murmurou alguma coisa baixinho sobre aristocratas arrogantes, mas bastou uma olhada no sorriso travesso de Alex para que se visse forçada a admitir que estava, sim, com saudade dele.
– E você? Sentiu a minha falta? – devolveu ela.
– O que você acha?
Emma se sentiu ousada.
– Acho que sim.
Alex, então, xou os olhos na boca de Emma com ardor e intensidade tamanhos que ela teve certeza de que ele iria beijá-la. Emma sentiu a boca seca, entreabriu os lábios e viu o corpo oscilar na direção dele. Mas Alex apenas soltou a mão dela abruptamente, deu um largo sorriso e murmurou:
– Até amanhã, meu bem.
E, em um piscar de olhos, desapareceu.
Eram momentos como esse que embaralhavam os sentimentos de Emma, deixando-a confusa. Não importava quantas noites ela casse acordada pensando nele, parecia não conseguir organizar os pensamentos em relação a Alex.
Por um lado, a atitude dominadora dele a irritava profundamente. Alex estava sempre tentando mandar nela, embora, pensou Emma, presunçosa, estivesse descobrindo que aquela não era uma tarefa fácil. Por outro lado, ele estava provando ser bastante conveniente, já que a sua mera presença era capaz de espantar a maioria dos pretendentes mais persistentes dela; uma sorte, já que Emma não queria pretendente algum. Ela era sempre requisitada nas festas, mas conseguia se desvencilhar habilmente de qualquer pedido constrangedor de casamento.
Para complicar ainda mais as coisas, Emma estava descobrindo que Alex era uma companhia realmente divertida. Ele desa ava constantemente o intelecto dela e, embora lhe dissesse as coisas mais absurdas, Emma nunca se cansava de sua presença. No entanto, ela jurou para si mesma que Alex jamais ouviria um elogio desses saindo dos lábios dela; o ego dele certamente não precisava daquele agrado. Mas o que mais confundia Emma era a reação física. A mera visão dele tinha o poder de deixar o corpo dela vibrando de expectativa. Emma não sabia exatamente expectativa de quê, embora imaginasse que Alex soubesse. Certa vez, quando estava con denciando aquelas sensações a Belle (que já estava em Hamlet, no seu grande desa o de ler toda a obra de Shakespeare), Emma disse que a única forma de descrever sua reação a Alex era como se experimentasse uma sensação de “realidade ampliada”.
– Sei que é piegas e banal – comentara Emma –, mas parece que co mais consciente de tudo quando ele está por perto. O perfume das ores
ca mais forte. A limonada ca mais doce. O champanhe, mais potente.
E é tão difícil não olhar para ele, não acha? São aqueles olhos verdes… Alex deveria ter nascido gato. Minha respiração ca curta, eu sinto a pele vibrar.
Belle foi direta:
– Acho que você está apaixonada.
– De forma nenhuma! – protestou Emma, ultrajada.
– É melhor aceitar logo – aconselhou Belle, sempre prática. – Nesta época em que vivemos, é raro encontrar alguém que se ama, e ainda mais raro ter dinheiro su ciente para poder fazer alguma coisa a respeito. A maior parte das pessoas precisa se casar levando a família em consideração.
– Não seja boba, Belle. Eu com certeza não quero me casar com esse homem. Seria um inferno viver com ele. Consegue imaginar? Alex é insuportável, arrogante, dominador…
– E faz você vibrar.
– A questão é – disse Emma, ignorando a prima – que eu não quero me casar com um inglês. E ele não quer se casar de forma alguma.
No entanto, a falta de interesse do duque de Ashbourne em passar à condição de homem casado não o impedia nem um pouco de ertar abertamente com Emma em todas as ocasiões possíveis. Para ser justa, Emma precisava admitir que ela também tinha a sua participação no
erte, embora reconhecidamente não fosse tão habilidosa quanto ele.
Estava se tornando motivo de grande diversão para a alta sociedade observar Alex e Emma se enfrentando, e já haviam começado a surgir apostas nos melhores clubes de cavalheiros de Londres sobre quando os dois nalmente se casariam.
Mas se algum dos jovens lordes que zeram tal aposta tivesse se dado o trabalho de perguntar a Emma a respeito da situação, ela o teria informado com toda a tranquilidade de que os sinos de casamento certamente não dobrariam em um futuro próximo. Antes de mais nada, ela não queria se casar. Em segundo lugar, Alex não queria se casar. E a con rmação vinha do fato de Alex não haver tentado beijá-la nem sequer uma vez desde aquela primeira noite, quando lhe roubara um beijo no quarto. Aquilo era o que mais confundia Emma. Ela descon ava que era tudo parte de um grande plano, já que estava certa de que Alex ainda a desejava. De vez em quando ela o pegava observando-a com um brilho ardente nos olhos que a fazia tremer. Naqueles momentos, o olhar dele parecia queimá-la, deixando-a zonza e ofegante. Então, depois de um instante, ele desviava rapidamente o olhar e quando Emma voltava a ver o seu rosto a fachada fria e imperturbável estava de volta ao lugar.
A relação dos dois – por vezes amigável, por vezes tensa – prosseguiu tranquilamente até a noite do baile dos Lindworthys.
Emma jamais teria suspeitado que aquela noite pudesse vir a ser, de algum modo, diferente de qualquer outra. Mas estava particularmente empolgada para comparecer àquele baile, porque Ned acabara de voltar de uma viagem a passeio de um mês a Amsterdã, com os amigos da universidade, e ela estava com saudade do primo. A residência dos Blydons estava em uma agitação só enquanto todos se preparavam para a noite.
– Emma Dunster! Você pegou os meus brincos de pérola?
Belle apareceu subitamente na porta do quarto de Emma, resplandecente em um vestido de seda azul-gelo decotado.
Emma, que estava sentada diante da penteadeira tentando arrumar os cabelos, ignorou a pergunta enquanto esticava a mão para pegar um frasco de cristal de perfume.
– Seu pai vai matar você quando a vir nesse vestido.
Belle puxou o corpete do vestido mais para cima.
– Não é pior do que o seu.
– Sim, mas note que estou usando um xale – disse Emma, abrindo um sorriso jovial.
– Que você sem dúvida vai tirar assim que chegar à casa dos Lindworthys, certo?
– Sem dúvida.
Emma aplicou algumas gotas de perfume na lateral do pescoço.
– Mas eu não tenho um xale que combine com este vestido. Você tem?
– Só este que eu estou usando.
Emma indicou com um gesto o xale mar m que estava ao redor de seus ombros nus. O tecido pálido cintilava contra o verde-escuro do vestido de seda que ela escolhera para a noite.
– Inferno… – praguejou Belle, um tanto alto demais.
– Eu ouvi! – disse a mãe dela, do quarto que cava no m do corredor.
Belle gemeu.
– Juro que ela deve ter seis pares de ouvidos, com essa audição tão boa.
– Também ouvi isso!
Emma riu.
– Se fosse você, eu caria quieta.
Belle fez uma careta.
– Quanto aos brincos…
– Não sei por que você acha que eu pegaria os seus quando tenho um lindo par. Você provavelmente guardou no lugar errado e esqueceu.
Belle soltou um suspiro dramático.
– Ora, não sei onde…
– Ah, aqui estão vocês! – chamou Ned, en ando a cabeça dentro do quarto de Emma. – Espetaculares, como sempre – disse ele, examinando a irmã mais detidamente. – Belle, tem certeza de que deveria sair com esse vestido? Se eu esticar só um pouco o pescoço – e assim ele fez para demonstrar –, consigo ver até o seu umbigo.
Belle cou boquiaberta, horrorizada.
– Não consegue, não! – retrucou com a voz aguda, e deu um soquinho no braço do irmão.
– Ora, talvez não até o umbigo, mas quase – disse Ned, com um sorriso. – Além do mais, nosso pai jamais vai deixar você sair de casa vestida assim.
– Metade das mulheres da alta sociedade está usando vestidos assim. É um estilo perfeitamente aceitável.
– Talvez para você e para mim – retrucou Ned –, mas não para mamãe e papai.
Belle levou as mãos à cintura.
– Você veio até aqui por algum motivo ou só com a esperança de me torturar?
– Na verdade, estava querendo saber se você tem certeza que Clarissa Trent não vai ao baile hoje.
– Seria bem feito para você se ela aparecesse, irmão miserável – falou Belle, irritada. – Mas pode car tranquilo, estou certa de que Clarissa foi passar uma longa temporada no campo.
– Emma?
Ned queria ter absoluta certeza de que a moça cruel que zombara dele no início da temporada social não estaria presente para magoá-lo de novo.
– Até onde sei, ela deixou Londres – respondeu Emma.
Examinava a própria imagem no espelho e tentava decidir se gostava do penteado que Meg criara para ela.
– Provavelmente foi lamber as feridas – palpitou Belle, acomodando-se na cama de Emma.
– Do que você está falando? – perguntou Ned, entrando no quarto e se encarapitando ao lado da irmã.
– Temo que Clarissa tenha cado um pouco aborrecida quando percebeu que Ashbourne estava determinado a cercar Emma – disse Belle com um risinho debochado. – Clarissa cou se jogando em cima dele sem o menor pudor, e devo dizer que, a princípio, Sua Graça foi muito educado com ela. Anormalmente educado para os padrões dele, se quer saber a minha opinião. Acho que ele estava tentando impressionar Emma com suas boas maneiras.
– Duvido – comentou Emma com ironia.
– Ora, o que aconteceu? – perguntou Ned, impaciente.
– Essa é a parte boa – disse Belle, inclinando-se para a frente e abrindo um sorriso cintilante. – Cerca de uma semana atrás ela realmente colou nele, e, pode acreditar em mim, o vestido de Clarissa era bem mais decotado do que o meu.
– E? – insistiu Ned.
– E Ashbourne simplesmente a encarou com um de seus famosos olhares gélidos e disse…
Emma a interrompeu e abaixou a voz em uma imitação de Alex:
– “Srta. Trent, estou conseguindo ver o seu umbigo.”
Ned cou boquiaberto.
– Ele não disse isso!
– Não, mas gostaria que tivesse dito.
Emma deu uma gargalhada e Belle explodiu em risadinhas.
– Mas o que ele realmente disse? – perguntou Ned.
– Acho que foi: “Srta. Trent, faça a gentileza de se afastar da minha pessoa.”
Ned estava encantado.
– E aí? O que aconteceu?
– Por um momento, achei que Clarissa iria desmaiar – falou Belle, animada. – Pelo menos uma dezena de pessoas ouviu o comentário do duque, e ela vinha dizendo a todos que estava determinada a agarrá-lo. O que é um absurdo, é claro, porque é óbvio para todos que Ashbourne só tem olhos para Emma. En m, depois de lançar seu olhar mais assassino a todos ao redor, ela saiu correndo do salão de baile e nunca mais ninguém a viu. Meu palpite é que ela vai passar mais ou menos um mês recolhida antes de voltar para tentar cravar as garras no duque de Stanton.
– Mas o homem tem bem mais de 60 anos! – exclamou Ned.
– E já cou viúvo três vezes – acrescentou Emma.
– Você sabe como são mulheres do tipo de Clarissa – falou Belle com um suspiro. – Ela en ou na cabeça que quer um duque. Ashbourne obviamente estava em primeiro lugar na lista, já que ainda é jovem, mas duvido que ela seja tão exigente. Ela quer um título, e quer agora. Pode anotar o que eu digo: se Clarissa não conseguir um duque, vai começar a investir em marqueses e condes. É nesse momento que você vai precisar tomar cuidado, Ned.
– Mas sou só um visconde.
– Não seja tolo. Você será conde algum dia, e Clarissa sabe disso.
– Ora, pode estar certa de que a evitarei com perseverança, agora que sei como ela realmente é.
– Sabe, Ned, acho que você me deve um favor – declarou Emma. – Você provavelmente ainda estaria babando por ela se eu não tivesse mandado aquele falso bilhete de amor.
Ned fez uma careta diante da ideia de estar em dívida com Emma.
– Por mais que eu deteste admitir, você provavelmente está certa. Mas não se atreva a voltar a interferir na minha vida, entendeu?
– Ah, eu jamais sonharia com isso – garantiu Emma em um tom inocente.
Tanto Ned quanto Belle a encararam com descon ança.
– Deve estar quase na hora de irmos – disse Emma, se levantando.
Como se seguindo a deixa, Caroline entrou no quarto. Ela usava um lindo vestido azul-escuro que destacava os impressionantes olhos azuis que passara aos dois lhos. Seus cabelos castanhos estavam presos no alto da cabeça, e Caroline com certeza não parecia ter idade para ser mãe de dois adultos.
– Realmente está na hora – anunciou ela, e com um rápido movimento de cabeça examinou o quarto todo até seus olhos pararem na
lha. – Arabella Blydon! – exclamou, horrorizada. – O que você está vestindo, pelo amor de Deus? Não me lembro de ter lhe dado permissão para usar um vestido tão decotado.
– Não gostou? – perguntou Belle, a voz hesitante. – Acho que me favorece bastante.
– Eu disse a Belle que era possível ver até o umbigo dela – falou Ned com a voz arrastada.
– Edward! – disse Caroline com severidade.
Emma bateu no ombro do primo com a bolsinha, e lhe lançou um olhar de alerta. Caroline olhou de relance para os dois antes de continuar o sermão dirigido à lha.
– Não sei o que você estava pensando. Esse vestido vai colocar ideias erradas na cabeça dos homens.
– Mamãe, todas estão usando vestidos como este, agora.
– “Todas” não inclui a minha lha. Onde você arrumou isso?
– Eu e Emma o compramos na loja de madame Lambert.
Caroline se voltou para encarar a sobrinha.
– Emma, você deveria ter sido mais prudente.
– Na verdade – falou Emma com sinceridade –, acho que Belle está linda.
Caroline arregalou os olhos e se voltou rapidamente para a lha.
– Você pode usar esse vestido quando se casar – anunciou.
– Mamãe! – protestou Belle.
– Muito bem! – bufou Caroline. – Vamos perguntar ao seu pai. Henry!
Os três membros da geração mais jovem gemeram.
– Agora estou encrencada… – resmungou Belle.
– Sim, querida?
Henry Blydon, o conde de Worth, entrou lentamente no quarto. Seus cabelos castanhos tinham várias mechas prateadas, mas ele ainda conservava o ar de elegância e afabilidade que conquistara o coração de Caroline um quarto de século antes. Blydon sorriu com carinho para a esposa, que indicou a lha com um olhar.
– Belle – disse ele com tranquilidade –, você está nua.
– Ah, está bem! Vou trocar de vestido!
E Belle saiu irritada do quarto.
– Ora, não foi difícil, não é mesmo? – disse ele, sorrindo para a esposa. – Estou esperando vocês no andar de baixo.
Caroline revirou os olhos e seguiu o marido.
– Posso acompanhá-la, cara Emma? – perguntou Ned, rindo e oferecendo o braço à prima.
– Mas é claro, caríssimo Edward.
Os dois desceram a escada atrás do casal mais velho. Belle provou ser muito rápida para trocar de roupa e, em quinze minutos, a família estava a caminho da mansão dos Lindworthys.
Quando chegaram, Belle, que agora usava um vestido de seda cor-de-rosa, puxou Emma de lado.
– É melhor você se manter bem, bem longe de papai e mamãe quando tirar o xale – aconselhou.
– Sei muito bem disso.
Emma esperou que Henry e Caroline fossem engolidos pela multidão antes de se voltar para Ned e dizer, com um autoritarismo zombeteiro:
– Pode tirar o meu xale agora, Edward.
Ele respondeu com gentileza exagerada:
– Ah, mas você sabe que anseio por ser seu servo.
Ned tirou o xale de Emma com destreza e entregou-o a um dos criados dos Lindworthys.
– Emma – perguntou ele com cautela –, você tem noção de que o seu vestido é tão decotado quanto o que Belle estava usando, não é?
– É claro. Nós os compramos juntas. Você consegue ver até o meu umbigo? – perguntou ela com ousadia.
– Tenho medo de tentar. Ashbourne poderia surgir das sombras e torcer o meu pescoço.
– Não seja bobo. Ah, veja! Lá está John Millwood. Vamos cumprimentá-lo.
Emma, Ned e Belle abriram caminho até onde estava John e logo se perderam na multidão.
Alex chegou logo depois e, como sempre, se amaldiçoou mentalmente por mais uma vez se submeter à tortura que era ir a um grande baile em Londres. Aquele tipo de evento só era tolerável por ele saber que encontraria Emma e que, com sorte, conseguiria se afastar com ela e desfrutar da sua companhia sem uma centena de espectadores ao redor.
Infelizmente, Emma estava sempre cercada de admiradores, e aquilo ia se tornando profundamente irritante. Todo dia Alex jurava para si mesmo que desistiria daquele hábito absurdo de car andando atrás dela, e todo dia se via ansiando por vê-la – e sentir seu cheiro, e tocá-la. Assim, acabava vestindo os trajes de noite pretos e saía para participar da interminável ronda de festas.
A parte mais difícil era a decisão tola que tomara de não tentar sequer beijá-la. Como via Emma quase todas as noites nos últimos dois meses, estava se tornando extremamente difícil manter as mãos longe dela. E quando achava que já havia memorizado cada curva dos lábios de Emma, ela o surpreendia com um novo tipo de sorriso, e ele se via imediatamente dominado pelo desejo de agarrá-la e beijá-la enlouquecidamente. Alex acordava no meio da noite sabendo que estivera sonhando com Emma, com o corpo rígido e quente de desejo.
E nenhuma outra mulher conseguia satisfazer aquele desejo. Já havia algum tempo que Alex parara de visitar sua amante, e ela o informara educadamente de que havia encontrado outro admirador que a mantivesse. Tudo o que ele fez foi suspirar de alívio, feliz por se ver livre da despesa.
A princípio, Alex resolvera manter distância física de Emma porque queria dar a ela tempo para aprender a con ar nele. Quando os dois
nalmente zessem amor – e ele estava certo de que fariam, só se
perguntava se Emma tinha noção da inevitabilidade daquele fato –, queria que fosse perfeito. Queria que ela se entregasse a ele porque o desejava, e apenas a ele. Queria que ela se entregasse por também acordar no meio da noite encharcada de desejo.
Alex só torcia para que isso acontecesse logo, porque se sentia enlouquecendo aos poucos.
– Ashbourne!
Ele se virou e viu Dunford atravessando a multidão e vindo em sua direção.
– Olá, Dunford, é um prazer revê-lo. Por acaso viu Emma?
– Nossa, realmente nos tornamos um pouco monotemáticos ultimamente, não acha?
Alex deu um sorriso envergonhado que não lhe era característico.
– Desculpe.
– Sem problema.
Dunford afastou com um gesto de mão o pedido de desculpas do amigo.
– Mas você sabe onde ela está?
– Pelo amor de Deus, Ashbourne, quando você vai se casar com a moça e acabar com esse sofrimento? Faça dela sua duquesa de uma vez e poderá vê-la 24 horas por dia.
– Sinceramente, Dunford, não chega a tanto – disse Alex, afastando a ideia de casamento com um movimento rápido de cabeça. – Você sabe como me sinto em relação ao assunto.
Dunford ergueu as sobrancelhas.
– Você sabe que terá que se casar em algum momento, se quiser ter um herdeiro. Seu pai se reviraria no túmulo se o título saísse da família.
Alex se encolheu diante da ideia.
– Ora, ao menos tenho Charlie. Ele pode não ser um Ridgely, mas certamente é tão próximo do meu pai em laços de parentesco quanto qualquer lho que eu pudesse ter.
– Emma também vai ter que se casar em algum momento. E talvez não seja com você.
Alex cou surpreso com a onda ardente de ciúme que percorreu seu corpo ao pensar em Emma nos braços de outro homem. Mas, determinado a manter a fachada impassível, disse apenas:
– Saberei lidar com isso se acontecer.
Dunford apenas balançou a cabeça, convencido de que o amigo negava o óbvio. Se Alex não estava apaixonado por Emma, certamente estava obcecado por ela, e aquilo já era uma desculpa melhor para um casamento do que o que normalmente se encontrava na aristocracia.
– Por acaso vi Emma, sim, alguns minutos atrás – disse ele, por m. – Ela estava cercada de homens.
Alex grunhiu.
– Pelo amor de Deus, homem, ela está sempre cercada de homens. Acostume-se – disse Dunford, rindo. – Deveria agradecer por a maioria deles ter pavor de você. Pelo menos metade dos sujeitos que costumam cercar Emma se afasta à mera menção do seu nome.
– Bem, isso é uma bênção.
– Se bem me lembro, ela estava por ali – disse Dunford, apontando para o outro extremo do salão. – Perto da mesa de limonada.
Alex assentiu brevemente para o amigo e sorriu.
– Foi, como sempre, um prazer, Dunford.
Ele deu as costas e começou a abrir caminho entre a multidão. Enquanto seguia na direção da área onde esperava que Emma estivesse, foi várias vezes emboscado por homens e mulheres ansiosos por uma audiência com o in uente duque de Ashbourne. Alex lançou a alguns deles seu famoso olhar gélido, assentiu para outros, trocou algumas palavras com um casal e meramente grunhiu para os menos afortunados que o alcançaram quando ele nalmente chegava ao seu destino.
Ele não estava de bom humor.
E foi então, é claro, que nalmente avistou Emma. Seus cabelos
amejantes sempre tornavam fácil encontrá-la. Dito e feito: ela e Belle
estavam cercadas por um bando de rapazes cujo único problema na vida parecia ser decidir a qual das primas deveriam declarar amor eterno.
A visão dos admiradores de Emma não melhorou em nada o humor de Alex.
Ele se aproximou um pouco mais. Ela estava deslumbrante, mas isso Alex já esperava. Emma sempre parecia deslumbrante para ele. Seus cabelos estavam presos no alto da cabeça, com algumas mechas soltas emoldurando o rosto delicado. Os olhos violeta cintilavam sob a luz de velas. Ela jogou a cabeça para trás e riu de alguma piada, dando a Alex uma visão desobstruída do pescoço longo e pálido, dos ombros macios e da insinuação dos… Alex franziu a testa. Ele de nitivamente podia ver um pouco mais do que uma mera insinuação dos seios. Não que o vestido fosse indecente, é claro. Emma tinha bom gosto su ciente para não se vestir de forma vulgar. Mas… maldição… se ele conseguia ver a curvatura dos seios dela, isso signi cava que todos os outros homens naquele salão de baile também conseguiam.
O humor de Alex, que já não estava bom, se deteriorou rapidamente. Ele abriu caminho entre a aglomeração ao redor de Emma e Belle.
– Olá, Emma – disse, irritado.
– Alex! – exclamou ela, os olhos cintilando com um entusiasmo sincero.
Alex se aproximou dela, ignorando todos ao redor.
– Acredito que você tenha reservado esta dança para mim – declarou, pegando-a pela mão e levando-a quase à força para a pista de dança.
– Sinceramente, Alex, você precisa parar de ser tão autoritário – repreendeu ela, bem-humorada.
– Ah, uma valsa – comentou ele quando a orquestra começou a tocar. – Que sorte.
Então arrebatou-a nos braços e eles começaram a girar lentamente pelo salão.
Emma se perguntou brevemente por que Alex estava com um humor tão estranho, mas afastou a preocupação, preferindo desfrutar o calor delicioso que só conseguia encontrar nos braços dele. Uma das mãos de Alex estava apoiada de leve no quadril dela, mas o calor da pele dele fazia com que Emma sentisse que estava sendo marcada a ferro. A outra mão segurava a dela, e Emma tinha certeza de que milhares de pequenos raios estavam sendo disparados por seu braço e indo direto ao coração. Ela fechou os olhos e deixou escapar um som baixo e ronronante do fundo da garganta. Sentia-se absolutamente satisfeita.
Alex ouviu o som murmurado e abaixou os olhos para ela. Emma estava de olhos fechados, com o rosto ligeiramente erguido na direção do dele. Ela parecia ter acabado de fazer amor. O corpo de Alex reagiu de imediato: todos os músculos se contraíram e ele sentiu seu membro enrijecendo dolorosamente. E grunhiu.
– Disse alguma coisa? – perguntou Emma, abrindo os olhos.
– Nada que eu possa lhe falar no meio de um salão de baile lotado – resmungou Alex, começando a guiá-la na direção das portas francesas que levavam ao jardim dos Lindworthys.
– Ah, que intrigante.
– Gostaria que você soubesse exatamente quanto – murmurou Alex.
– O que disse?
Em meio ao burburinho da multidão no salão de baile, Emma não conseguira compreender o que ele dissera.
– Nada – falou Alex em um tom mais alto, mas a palavra saiu mais ríspida do que ele pretendera.
– O que há de errado com você esta noite? Está de nitivamente ranzinza.
Antes que Alex pudesse responder, a orquestra terminou a valsa e ele e Emma se inclinaram em uma cortesia um para o outro, um ato mecânico. Quando encerraram as amenidades sociais, Emma repetiu a pergunta, dessa vez em um tom mais determinado:
– Alex! Pelo amor de Deus, qual é o problema com você?
– Quer mesmo saber qual é o problema? – perguntou Alex bruscamente. – Quer?
Emma assentiu, hesitante, em dúvida se estava fazendo o que seria mais recomendável.
– Pelo amor de Deus, Emma, todos os homens neste salão estão devorando você com os olhos – disse ele, irritado, e puxou-a na direção das portas francesas.
– Sinceramente, Alex, você me diz isso todas as noites.
– Hoje estou falando sério – sussurrou. – Você está praticamente se derramando de dentro desse vestido.
– Alex, você está fazendo uma cena – retrucou Emma, agora também irritada.
Ele parou de arrastá-la, mas continuou a sair com ela para o jardim, agora em um passo mais respeitável.
– Não entendo por que está tão furioso. Pelo menos metade das mulheres com menos de 30 anos está usando vestidos muito mais reveladores do que o meu.
– Não me importo com as outras mulheres! Inferno. Não quero você ostentando seus encantos para que o mundo todo veja.
– Ostentando meus encantos? Você está me fazendo parecer vulgar. Não me insulte – alertou Emma, a voz tensa.
– Não me provoque, Emma. Você vem me manipulando há quase dois meses e estou chegando ao meu limite.
Ele puxou-a para trás de uma sebe alta que os protegia da vista do salão de baile.
– Não tente colocar a culpa dessa situação em mim. Você é que está sendo exageradamente sensível em relação ao estilo do meu vestido!
De repente, Alex estendeu a mão e segurou-a pelos braços, puxando-a mais para perto.
– Maldição, Emma, você é minha. Já passou da hora de você entender isso.
Ela o encarou, perplexa. Embora as atitudes dele durante as semanas anteriores sem dúvida provassem sua natureza possessiva, aquela era a primeira vez que Alex realmente verbalizava isso. Seus olhos verdes ardiam de fúria e desejo, mas havia mais alguma coisa ali. Desespero.
Emma subitamente se sentiu desconfortável.
– Alex, acho que você não sabe o que está dizendo.
– Ah, Deus, gostaria de não saber!
E, em um movimento súbito, ele puxou-a para junto do corpo, as mãos fortes se en ando nos cabelos dela.
Emma cou sem ar com a intensidade da força que sentiu emanando dele. Alex segurou-a daquele jeito por um longo momento, o nariz de um colado ao do outro. Ele respirava de modo irregular, como se estivesse perdido em meio a uma batalha interna.
– Ah, Emma – disse nalmente, com a voz rouca –, se ao menos você soubesse o que causa em mim.
E, com isso, ele abaixou lentamente a boca para capturar a dela.
O primeiro contato foi insuportavelmente doce, e Emma pôde sentir o corpo de Alex estremecer enquanto ele se esforçava para conter a própria paixão. Os lábios dele roçaram suavemente os de Emma e ele esperou por uma reação. Emma não conseguiu se conter e passou os braços ao redor do pescoço dele. Aquele foi todo o encorajamento de que Alex precisava, e então ele desceu as mãos pelas costas dela, pressionando-a com mais força ainda contra si.
– Esperei tanto tempo para abraçar você assim – murmurou ele contra a boca de Emma.
Ela estava perdida em um mar de paixão recém-descoberto.
– A-acho que gosto disto – comentou ela timidamente, en ando os dedos pelos cabelos negros e cheios dele.
O grunhido baixo que Alex deixou escapar era a expressão da mais pura satisfação masculina.
– Eu sabia que seria perfeito. Sabia que você retribuiria com a mesma paixão – disse ele enquanto beijava o queixo dela, a trilha de beijos descendo pelo pescoço.
Emma jogou a cabeça para trás, sem entender direito aquelas novas sensações, mas também não querendo detê-lo, como sabia que deveria fazer.
– Ah, Alex – disse ela em um gemido, abraçando-o com mais força.
Alex rapidamente tirou vantagem do som baixo que escapou dos lábios dela e capturou mais uma vez a boca aberta, deixando a língua avançar para acariciá-la mais fundo. O toque muito íntimo provocou tamanho prazer que Emma cou surpresa por ainda conseguir car de pé. Ela simplesmente não achara que fosse possível sentir algo com tamanha intensidade. Nem mesmo o primeiro beijo que haviam trocado ilicitamente no quarto dela era comparável. O primeiro beijo havia sido excitante porque ela não conhecia Alex na época. Mas agora conhecia, e bem. E saber que era ele quem a abraçava daquela forma tornou a intimidade entre os dois ainda mais espetacular. Tudo o que Emma sabia era que queria car ainda mais colada a ele, muito mais. Queria tocá-lo do modo como ele a estava tocando. Hesitante, ela roçou a língua contra o céu da boca dele. Para seu deleite, a reação de Alex foi imediata. Ele disse o nome dela em um gemido rouco e puxou-a rapidamente para si, de modo a deixá-la intimamente imprensada contra a ereção dele.
Emma cou surpresa diante da evidência do desejo de Alex, e essa constatação penetrou na névoa de desejo que a envolvia. Ela se deu conta de repente de que estava se encaminhando muito rápido para uma situação com a qual provavelmente não conseguiria lidar.
– Alex? – chamou baixinho.
Ele interpretou o chamado dela como outro gemido de desejo.
– Ah, sim, Emma, sim… – respondeu.
Os lábios dele alcançaram o lóbulo da orelha dela e começaram a sugar lentamente enquanto sua mão cobria o seio de Emma. Tudo o que ele estava fazendo era absurdamente perfeito e Emma precisou reunir forças para repetir o nome dele, agora com um pouco mais de empenho.
– O que foi, meu bem? – perguntou Alex, segurando o rosto dela entre as mãos enquanto se preparava para se deliciar mais uma vez com seus lábios.
– Acho que é hora de parar… – falou ela, trêmula.
Alex estava em agonia. Ele sabia que Emma estava certa, porém seu corpo latejava, exigia alívio. Mas a verdade era que ele não poderia fazer amor com ela no meio do jardim dos Lindworthys. Alex soltou Emma lentamente e virou de costas, com as mãos nos quadris, enquanto se esforçava para recuperar o autocontrole.
– Alex? Você está com raiva de mim?
Ele não se moveu.
– Não – disse lentamente, a respiração ainda pesada. – Estou com raiva de mim.
Emma tocou seu ombro em um gesto de consolo.
– Não se culpe. Foi tanto culpa sua como minha. Eu poderia ter parado antes.
Alex se virou para encará-la.
– Poderia? – perguntou ele, com um sorriso irônico que não alcançava os olhos. Ele respirou fundo de novo. – Bem, Emma, você se dá conta de que isso muda as coisas?
Ela assentiu, pensando que aquelas palavras eram um eufemismo. No entanto, se perguntava exatamente como as coisas iam mudar.
– Talvez você deva se esgueirar até o lavatório antes de voltar ao salão de baile. Seu cabelo está todo bagunçado – aconselhou Alex, com medo de perder o controle novamente caso se permitisse falar de qualquer outro assunto que não fosse banal. – Já estive aqui antes. Se der a volta por aquele canto, há uma entrada lateral que leva ao corredor principal. De lá, você deve conseguir encontrar o lavatório sem problema.
Em um re exo, Emma levou a mão à cabeça e tentou minimizar rapidamente o dano.
– Muito bem. Se você voltar agora, vou arrumar os cabelos e não aparecerei até terem se passado mais quinze minutos – disse ela com a voz ofegante e alterada. – Isso deve evitar as fofocas.
– Parece que estamos criando o hábito de orquestrar retornos separados a salões de baile.
Emma deu um sorrisinho tímido para ele antes de se virar e sair correndo.