Esplêndida

Julia Quinn · Capítulo 17 de 27

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Esplêndida

Capítulo 16

 

Caminhar sozinha até sua casa deu a Emma tempo para avaliar a malfadada conversa com Alex. E ela não demorou a entender exatamente o que acontecera. Belle lhe havia contado sobre a primeira incursão de Alex na alta sociedade, e Emma sabia que ele ainda era incansavelmente assediado por causa de seu título e sua riqueza. Também sabia que Alex detestava mulheres que o desejavam por essas razões.

Emma se deu conta de que, ao ser questionada sobre sua motivação, dera a pior resposta possível. Praticamente a primeira palavra que saíra de sua boca fora “dinheiro”. Mas, pensou ela, com raiva, ele havia perguntado o que a levara a pedi-lo em casamento, não por que ela queria se casar com ele. Se Alex tivesse perguntado por que, Emma provavelmente teria engolido o orgulho e confessado que o amava, rezando para que ele respondesse que sentia o mesmo.

Mas o fato de entender a reação de Alex não signi cava que o perdoasse por sua injustiça. Ele jamais deveria ter tirado uma conclusão tão rápida e tão cruel sobre ela. Emma achou que tinham construído uma relação mais sólida do que aquilo. Acreditara que Alex era seu amigo, não apenas mais um admirador. E, como amigo, ele deveria ter con ado nela o bastante para ao menos perguntar a que ela se referia quando dissera ter agido por dinheiro. Se ele realmente gostasse dela, teria percebido que havia mais no que ela estava dizendo do que simplesmente ganância. E teria lhe dado a chance de explicar a situação delicada em que Ned se encontrava.

Emma respirou fundo, tentando conter as lágrimas que ameaçavam rolar. Se Alex não con ava nela como amiga, ela não via como ele poderia con ar nela como esposa. E isso provavelmente signi cava que ele não a amava.

Emma apressou o passo quando dobrou a última esquina que levava ao quarteirão onde morava. Não tinha dúvida de que Alex acabaria recuperando o bom senso e se dando conta do que acontecera. A teimosia dele fazia páreo com a dela, mas Alex haveria de notar que a imagem de Emma como uma alpinista social interessada no dinheiro dele simplesmente não se sustentava à luz de dois meses de amizade sólida. Ele talvez até se desculpasse. Mas Emma achava que não seria capaz de perdoá-lo por não ter con ado nela. Eles poderiam ter sido muito felizes juntos. Teriam tido um casamento maravilhoso. Bem, pensou ela maldosamente, ele mesmo arruinara a própria chance de felicidade.

Infelizmente, arruinara a dela também.

E foi por esse motivo que, quando nalmente entrou pela porta da frente da casa dos Blydons, Emma só conseguiu se conter pelo tempo necessário para subir correndo a escada até o quarto, onde explodiu em lágrimas. Trancou a porta com um movimento rápido do pulso, se jogou na cama e encharcou a fronha em minutos.

Emma chorou com soluços altos, de rasgar o peito, que faziam todo o seu corpo estremecer e pareciam retorcer sua alma. Não se deu conta do barulho que estava fazendo, tampouco percebeu as batidas hesitantes na porta – primeiro Ned, depois Belle e, nalmente, Caroline. Um pedaço do seu coração havia sido arrancado naquela tarde, e Emma chorava sua perda. Nunca mais con aria no próprio julgamento no que se referia aos homens. E a parte mais angustiante disso tudo era saber que ainda o amava. De certa forma, Alex a traíra, e ainda assim ela o amava. E não achava que deixaria de amá-lo algum dia.

E doía demais. O pai lhe dissera que o tempo cura todas as feridas, mas Emma se perguntava se ainda tinha tempo de vida su ciente para sarar aquela dor imensa dentro do peito. Alex a ferira. Profundamente.

Mas, quando as lágrimas lentamente começaram a cessar, outra emoção se juntou à tristeza, à mágoa e à dor: raiva. Uma raiva pura e implacável. Como ele ousara tratá-la de forma tão insensível? Se Alex não conseguia con ar nela, a mulher com quem supostamente queria passar o resto da vida, devia ser um homem mais frio, mais cruel e mais cínico do que a aristocracia londrina jamais poderia supor. Ele que vivesse o resto da vida sozinho, com aquele coração de pedra.

Ela estava com ódio.

Quando nalmente destrancou a porta e Ned caiu cambaleando dentro do quarto, seus olhos ainda estavam vermelhos e injetados, mas ela não chorava mais. Estava fumegando de raiva.

Ned entrou e fechou a porta rapidamente.

– Pelo amor de Deus, o que aconteceu? Você está bem? – perguntou ele, segurando-a pelos ombros e examinando atentamente o rosto da prima. – Ele a machucou?

Emma desviou o olhar. A preocupação do primo com seu bem-estar aplacou a maior parte da explosão de raiva que a dominava.

– Não sicamente, se é a isso que se refere.

– Ele recusou seu pedido de casamento, não foi? – presumiu Ned. – Que idiota. Qualquer tolo percebe que o homem está apaixonado por você.

– Acho, então, que ele é o mais tolo de todos – tentou brincar Emma. – Porque ele mesmo não sabe disso.

Ela atravessou o quarto e cou olhando para fora da janela por um instante, sem realmente prestar atenção, antes de en m se voltar para o primo.

– Sinto muito mesmo, Ned. Sei quanto você precisa do dinheiro. Mas acho que agora não vou conseguir ter acesso a ele – disse Emma, e deixou escapar uma risadinha amarga. – A menos que você se case comigo, é claro.

Ned a encarou, espantado.

– Embora eu não ache que combinaríamos como casal – continuou ela com ironia. – Sinceramente, acho que eu cairia na gargalhada se você tentasse me beijar. Não daria certo. Sinto muito.

– Pelo amor de Deus, Emma! – explodiu Ned. – Eu não me importo com o dinheiro. Não sou um pobretão. Vou dar um jeito de conseguir.

Ned foi até ela e puxou-a para um abraço fraternal.

– Estou preocupado é com você. Aquele desgraçado a magoou, não foi?

Emma assentiu, sentindo-se ligeiramente melhor agora que Ned a abraçava – um abraço fazia maravilhas por um coração partido.

– Na verdade, a única coisa que me impede de chorar neste exato momento é a raiva que estou sentindo dele. E também – acrescentou timidamente – chorei tanto que acho que desidratei.

– Aceita um copo d’água?

– Aceito, sim.

– Espere um instante, vou chamar uma criada.

Ned levou Emma até a cama, onde ela se sentou obedientemente, então atravessou o quarto e abriu a porta.

Belle cambaleou para dentro.

– Ah, pelo amor de Deus, Belle – disse Ned, irritado. – Você estava ouvindo atrás da porta?

Belle se levantou do chão com o máximo de dignidade que conseguiu, que não era muita, levando-se em consideração que havia caído de barriga no chão.

– O que você esperava? – retrucou ela, exasperada. – Vocês passaram os últimos dois dias se esgueirando pela casa, obviamente conspirando para levar adiante algum plano nefasto, e não tiveram a decência de me incluir.

Belle bufou para Ned e Emma, as mãos plantadas na cintura.

– Não ocorreu a nenhum dos dois que eu talvez pudesse gostar de saber o que está acontecendo? Não sou idiota, sabiam? Eu poderia ter ajudado – disse ela, e fungou com desdém. – Ou ao menos me divertiria tentando.

Emma apenas tou a prima com o olhar perdido.

– Não havia nenhum plano nefasto – disse, nalmente.

– E, seja como for, não era da sua conta – falou Ned, rabugento.

– Tolice – retorquiu Belle. – Se fosse só problema seu, não seria da minha conta. E se fosse só problema de Emma, não seria da minha conta. Mas se o problema é de vocês dois, então é da minha conta, sim.

– O modo como o seu raciocínio funciona é impressionante – comentou Ned, com ironia.

– Eu me esqueci completamente do que estávamos falando – acrescentou Emma.

– É claro! – falou Belle em um tom dramático e ao mesmo tempo com certa ironia. – Então eu chego em casa do parque hoje e descubro a minha única prima aos prantos, trancada no quarto, e, quando tento consolá-la, o meu caríssimo irmão me impede dizendo “É melhor deixar Emma em paz. Você nem sabe por que ela está aborrecida. Saia daqui”.

Emma se virou para Ned, com as sobrancelhas erguidas de curiosidade.

– Você realmente disse “Saia daqui”? Que coisa horrível.

– Ora, eu posso ter dito – respondeu Ned, na defensiva. – Caso não se lembre, você parecia estar morrendo aqui dentro. Eu estava muito preocupado.

Emma se levantou, virou-se para Belle e pegou as mãos da prima.

– Sinto muito por você ter se sentido excluída, Belle. Com certeza não foi essa a nossa intenção. O fato é que Ned estava com um problema, eu tinha a solução, e tudo aconteceu tão rápido que nos esquecemos de contar a você.

– E me desculpem pela cena que eu z – falou Belle, envergonhada. – Mas agora precisam me contar o que está acontecendo.

– O que você quer saber? – perguntou Emma – O problema ou a solução?

– As duas coisas.

– Ora, para resumir, eu pedi Alex em casamento.

Belle afundou na cama, quase puxando Emma com ela.

– O quê?

– E o desgraçado recusou – acrescentou Ned, furioso.

– Ele o quê? Não, ele não fez isso.

– Fez, sim – con rmou Emma, assentindo lentamente.

– Por quê? – perguntou Belle, incrédula.

– Na verdade, isso é um pouco pessoal – disse Emma, hesitante, então apressou-se a acrescentar: – E não contei nada a Ned a respeito.

– Mas por quê? Você não poderia esperar que ele zesse o pedido? É assim que costuma acontecer. Tenho certeza de que Alex a pediria em casamento, mais cedo ou mais tarde.

– Na verdade, eu não tinha muito tempo.

– Como assim, Emma? Você não é exatamente uma solteirona.

– É aí que eu entro – adiantou-se Ned. – Emma estava se sacri cando no altar do casamento por minha causa.

Belle recuou e olhou para Emma sem entender.

– Você faria isso por Ned?

– De qualquer modo – continuou Ned em um tom alto, fazendo questão de ignorar a implicância da irmã. – Eu me meti em uma confusão. Uma dívida de jogo.

– Quanto? – perguntou Belle sem rodeios.

– Dez mil libras.

– O quê?! – exclamou Belle, com a voz aguda.

– Essa foi exatamente a minha reação – murmurou Emma.

– Você cou louco?

– Escute, eu já ouvi tudo isso de Emma – falou Ned com um suspiro. – Basta dizer que Woodside estava trapaceando.

– Ah, não, não o visconde Benton – disse Belle com um gemido. – O homem é um porco.

– Ele é pior do que você pensa – acrescentou Emma. – Ele ofereceu trocar o pagamento da dívida por você.

– Por mim? Ah, não, você não está querendo dizer que…

– Na verdade, acho que ele quer se casar com você, Belle. E provavelmente achou que comprometer sua virtude seria a única maneira de fazer com que você concordasse.

Belle estremeceu.

– Estou me sentindo extremamente suja de repente. Acho que gostaria de tomar um banho.

– Eu tenho um pouco de dinheiro que a família da minha mãe deixou – explicou Emma. – Pensei em dá-lo a Ned, para que ele não precisasse contar aos seus pais a respeito da dívida, mas não posso tocar nessa soma antes de me casar.

– Ah, meu Deus – sussurrou Belle. – O que vamos fazer?

– Acho que não tenho escolha – disse Ned. – Terei que recorrer a um agiota.

– A menos que… – disse Emma, pensativa, as palavras se perdendo no caminho.

– A menos que o quê? – perguntou Ned, atento. – A última vez que você disse “a menos que” foi quando decidiu pedir Ashbourne em casamento. A única coisa que conseguiu com isso foi um coração partido.

A menção ao seu estado emocional abalado quase fez uma lágrima rolar pelo rosto de Emma, mas ela piscou rapidamente para afastá-la.

– Seu idiota – sussurrou Belle, chutando a canela do irmão.

– Desculpe, Emma – desculpou-se ele na mesma hora. – Eu não deveria ter dito isso. Não era para soar assim.

– Está tudo bem – falou Emma baixinho, olhando por cima do ombro para não ter que encarar os primos enquanto recuperava a compostura. – É que estávamos aqui conversando e tudo parecia tão… não sei… normal. Quase esqueci que estava triste. Você apenas me lembrou de como estou me sentindo, só isso.

– Desculpe – repetiu Ned.

– Está tudo bem. Tenho certeza de que vou me lembrar disso uma centena de vezes antes de dormir hoje à noite. Assim como tenho certeza de que vou morrer de raiva outra centena de vezes. Mas talvez, apenas por enquanto, vocês dois possam me ajudar a esquecer.

– Muito bem! – disse Belle rapidamente, retomando o rumo da conversa.– Você tinha dito “a menos que”. Acho que pensou em algum plano.

Emma cou olhando pela janela por mais um instante, antes de

nalmente responder.

– Ah, sim. Certo. Vou dizer o que acho que devemos fazer.

Belle e Ned se inclinaram para a frente, em expectativa.

– Acho que deveríamos roubar a promissória que Ned assinou para Woodside.

– O quê? – perguntaram os primos de Emma em uníssono, incrédulos.

– Se Woodside não tiver a promissória, não vai poder cobrar a dívida. Nem conseguirá convencer ninguém de que Ned não a pagou. É um belo plano.

– Talvez funcione – disse Ned, pensativo. – Quando você pretende fazer isso?

– É melhor começarmos imediatamente. Não temos muito tempo, e não sabemos quantas vezes teremos que tentar antes de achar o papel.

– Mas como vamos ter certeza de que ele não estará em casa quando você for roubar a promissória? – perguntou Belle. – Acho que ele não sai toda noite. E eu com certeza não conheço muito bem os hábitos do visconde para conseguir prever quando, e se, ele vai sair.

Emma olhou nos olhos da prima.

– É aí que você entra – falou, em um tom decidido.

Belle se encolheu visivelmente.

– Não estou gostando nem um pouco…

– Ah, pelo amor de Deus, Belle. Não estou pedindo para se prostituir. Só o que precisa fazer é mandar um bilhetinho em tom de erte para Woodside dizendo que está ansiosa para vê-lo no…

Emma mordeu o lábio e levantou os olhos enquanto examinava mentalmente sua agenda de compromissos.

– No baile de lady Mottram, amanhã à noite. Já sabemos que ele está completamente obcecado por você. Não tenho dúvida de que o homem vai correr para encontrá-la no baile. Basta ngir e mantê-lo entretido por algumas horas enquanto entramos na casa dele e pegamos a promissória.

– E como você sugere que eu faça isso? Ele provavelmente vai achar que Ned decidiu sacri car a minha virgindade por 10 mil libras.

– Melhor ainda – disse Emma, assentindo. – Nesse caso, Woodside com certeza não vai sair do baile antes de você.

– Só não deixe que ele a arraste para o jardim – aconselhou Ned.

– Ou para uma varanda – acrescentou Emma. – Varandas com frequência são pouco iluminadas. Já ouvi dizer que muita coisa acontece nelas.

– O que devo dizer quando as pessoas perguntarem por vocês dois? – indagou Belle. – Porque vocês sabem que vão perguntar. Acho que não fui a um único baile sozinha em toda a temporada.

– Você não estará sozinha – retrucou Emma. – Tenho certeza de que a sua mãe e o seu pai estarão lá também.

– Ora, devo dizer que isso é reconfortante – disse Belle, destilando sarcasmo em cada palavra. – Não acha que eles carão ao menos um pouco curiosos me vendo passar tanto tempo com um homem que desprezo completamente?

– Belle, você é uma mulher inteligente – declarou Ned em um tom decisivo. – Tenho certeza de que vai pensar em alguma coisa.

– Ninguém vai questionar a ausência de Ned – comentou Emma. – Ele é homem, e os homens podem ir aonde quiserem. Quanto a mim, ora, pode-se dizer que não estou me sentindo muito bem. Meu afastamento de Alex provavelmente será o assunto do momento até o baile e todos vão mesmo esperar que eu esteja de coração partido.

– Essa vai ser a missão mais horrível, repulsiva e desprezível que já assumi – declarou Belle com um suspiro, com a expressão de quem acabara de tomar um copo de leite azedo.

– Mas você aceita? – perguntou Emma, esperançosa.

– É claro que sim.

 

Alex passou a noite de terça-feira com uma garrafa de uísque à mão.

Em algum ponto de seu estupor alcoólico, ele se pegou encantado com o maravilhoso talento de Emma como atriz. Ela certamente precisava ser muito boa para ter conseguido enganá-lo por dois meses inteiros. Ele estivera tão certo de que a conhecia bem, de que a conhecia de verdade tal e qual conhecia Dunford, Sophie e a mãe dele. Emma havia se tornado uma parte tão integral da vida de Alex que ele com frequência era capaz de prever o que ela ia dizer antes mesmo que abrisse a boca. Quem teria imaginado que havia uma mente estratégica tão perspicaz por trás das madeixas ruivas? Ou que ela provavelmente era a pessoa que subia mais rápido em árvores em todas as Ilhas Britânicas? (Ele não vira aquilo pessoalmente, mas Belle e Ned juravam que era verdade.)

Com certeza uma mulher que conseguia escalar uma árvore, colocar uma minhoca em um anzol (sim, ele ouvira tudo sobre isso também) e calcular uma longa divisão matemática com enorme facilidade não poderia ser uma megerazinha gananciosa como ele a acusara de ser naquela tarde.

Mas quando ele perguntara a Emma o motivo de tê-lo pedido em casamento, ela dissera na mesma hora: dinheiro.

No entanto, a verdade era que nenhuma mulher que estivesse interessada em se casar apenas por dinheiro admitiria isso ao homem em questão.

Mas Emma dissera que precisava de dinheiro. Aquilo era irrefutável.

No entanto, era curioso constatar que ela mesma tinha bastante dinheiro. Alex conhecia o Estaleiro Dunster e sabia que era muito bem-sucedido. A verdade era que ela não precisava realmente da fortuna dele. Se não estivesse tão furioso naquela tarde, talvez Alex tivesse se lembrado desse fato.

Alguma coisa não fazia sentido, mas Alex estava bêbado demais para descobrir o quê.

Acabou adormecendo no escritório.

E acordou com uma ressaca horrível na quarta-feira de manhã.

Alex subiu com di culdade a escada e desabou na cama, onde, entre o latejar de suas têmporas e o imenso desconforto no estômago, começou a se perguntar se talvez não tivesse havido algum mal-entendido. Com certeza fazia mais sentido que as ações de Emma ao longo de um período de dois meses fossem mais relevantes do que um comentário super cial feito no calor do momento.

Se esse raciocínio estivesse certo, então ele havia demonstrado ser o maior dos imbecis.

Por outro lado, o comentário de Emma sobre precisar de dinheiro havia validado todas as opiniões que ele tivera sobre as mulheres por quase dez anos. Com certeza uma década era mais relevante do que dois meses.

Alex deixou escapar um gemido. Ainda sentia a cabeça turva demais para tomar decisões importantes e, para dizer a verdade, tinha medo de como se sentiria em relação a si mesmo quando nalmente chegasse a uma conclusão sobre o que verdadeiramente acontecera na tarde do dia anterior.

Ele se amaldiçoou pela própria covardia e voltou a dormir. Era mais fácil do que pensar em Emma.

Quando nalmente acordou, algumas horas depois do meio-dia, não foi com seu valete cutucando-o com cuidado, nem com a luz do sol entrando pela janela. Na verdade, foi brutalmente despertado por Dunford, que havia conseguido adular Smithers para que o deixasse entrar. Depois disso, passara direto pelo valete sem lhe dar a menor atenção, o que fez o homem se retirar ofendido para a cozinha, onde tomava uma xícara de chá forte para se recuperar.

– Acorde, Ashbourne! – gritou, sacudindo Alex pelos ombros. – Pelo amor de Deus, homem, acho que não temos mais muito tempo.

Alex abriu os olhos com relutância. Cristo, parecia que alguém havia selado suas pálpebras com cera.

– O que você está fazendo no meu quarto?

Dunford recuou diante do cheiro forte do hálito de Alex.

– Pelo amor de Deus, Ashbourne, você está fedendo a álcool. O que você fez na noite passada? Entornou um barril?

– Não me lembro de ter convidado você para vir até o meu quarto – retrucou Alex, irritado.

Dunford torceu o nariz.

– O fedor que você está exalando de um modo geral é realmente impressionante.

– Na verdade, não me lembro de jamais ter convidado você a entrar no meu quarto.

– Não se sinta tão lisonjeado. Há muitos outros quartos onde eu preferiria estar. No entanto, estamos em apuros. Medidas desesperadas se fazem necessárias.

Alex lançou um olhar de irritação ao amigo enquanto se levantava com di culdade da cama e ia até o lavatório, onde havia uma bacia cheia de água, deixada ali na noite anterior. Jogou água no rosto e piscou algumas vezes enquanto a temperatura gelada começava a restaurar a circulação para seu cérebro.

– Dunford, de que você está falando?

– Alguma coisa está acontecendo na casa dos Blydons. Alguma coisa muito estranha. Acho que precisamos interceder.

Alex fechou os olhos por um momento.

– Lamento, mas acho que você terá que agir sozinho. Acredito que não sou mais bem-vindo na casa dos Blydons.

Dunford ergueu as sobrancelhas.

– Emma e eu tivemos um desentendimento – disse Alex, apenas.

– Entendo.

Alex duvidava que o amigo entendesse.

– Pode ter sido apenas um mal-entendido – murmurou. – Nesse caso, talvez eu seja o maior idiota que já existiu na face da terra.

Dunford se absteve de fazer qualquer comentário.

Alex olhou atentamente para o amigo. Os dois se conheciam há anos, e ele con ava na opinião de Dunford.

– Qual é a sua opinião sobre Emma? Você passou bastante tempo com ela. O que pensa dela de verdade?

– Penso que você é um idiota se não se casar com ela.

– Acredita que ela se casaria por dinheiro?

– Pelo amor de Deus, Ashbourne, Emma tem fortuna própria. Ela não precisa se casar por dinheiro.

Alex teve a sensação de que um nó se desfazia em seu peito, de que o cinismo frio que carregara por anos começava a se esfarelar.

– Mas você acha que ela é gananciosa? – perguntou, quase desesperado. – Algumas mulheres nunca parecem satisfeitas.

Dunford encarou Alex com uma expressão rme e cálida.

– Você acha que Emma é gananciosa, Ashbourne? Ou está com medo de arriscar?

Alex se deixou cair em uma cadeira, o rosto estampando todo o desespero abjeto que sentia.

– Não sei de mais nada – falou em um tom cansado, e apoiou a cabeça em uma das mãos.

Dunford foi até a janela e cou observando as ruas cheias de Londres. Suspirou baixinho, ciente de que o amigo estava confuso mas ainda precisava se agarrar ao que lhe restava de orgulho. Assim, Dunford manteve os olhos xos no carvalho alto do outro lado da rua quando falou:

– Eu o conheço há pelo menos uma década, Ashbourne, e nesse tempo foram poucas as ocasiões em que pensei em lhe dar algum conselho, mas vou fazer isso agora – disse Dunford, e então parou por um instante, tentando organizar as palavras na mente. – Você passou os últimos dez anos resignado ao destino de um casamento que, se não fosse infeliz, seria ao menos insatisfatório. Então conheceu Emma e, de repente, surgiu a possibilidade de um casamento feliz. Mas você se tornou tão descon ado das mulheres que só o que consegue fazer é procurar motivos pelos quais Emma não seria uma boa esposa. E acho que faz isso porque sabe que, se arriscasse dar uma chance a Emma e não fosse feliz, isso seria muito, muito mais doloroso do que qualquer casamento por conveniência que possa ter imaginado.

Alex fechou os olhos. Não estava acostumado a ter as próprias emoções expostas daquela forma.

– Mas há uma coisa que você esqueceu – continuou Dunford, em um tom brando. – Se arriscar com Emma e for feliz, você vai ser mais feliz do que jamais sonhou ser possível. E tenho a impressão de que ela vale o risco.

Alex engoliu com di culdade enquanto se levantava da cadeira e ia até Dunford, junto à janela.

– Bem, saiba que não é fácil ouvir alguém destrinchando minha alma – falou, muito sério. – Mas obrigado.

A sombra de um sorriso curvou os lábios de Dunford.

– No entanto, não acredito que ela vá querer me ver – disse Alex, soturno. – Acho que realmente estraguei tudo. Talvez o que z seja irreparável.

Dunford inclinou a cabeça para o lado.

– Que besteira. Nada é irreparável. Além do mais, ela talvez não tenha escolha.

Alex ergueu uma sobrancelha.

– Acho que ela e Belle se meteram em algum tipo de encrenca – explicou Dunford. – Foi por isso que vim até aqui.

– O que aconteceu? – perguntar Alex rapidamente, já sentindo uma onda de pânico dominá-lo.

– Não sei exatamente. Passei na casa dos Blydons para ver Belle hoje de manhã, e enquanto eu a esperava descer escutei quando deu instruções a um criado para entregar uma carta ao visconde Benton o mais rápido possível.

– Woodside! – exclamou Alex. – Por que Belle iria querer qualquer proximidade com aquele desgraçado?

– Não faço ideia. Na verdade, tenho absoluta certeza de que Belle detesta o homem. Ele vem lançando olhares maliciosos para ela há mais de um ano. Mais de uma vez ela me implorou que a ajudasse a escapar dele. Por que você acha que dançamos juntos com tanta frequência?

Alex colocou a ponta do polegar entre os dentes enquanto tentava encontrar alguma explicação para o comportamento de Belle.

– Há alguma coisa errada – concluiu, muito sério.

– Eu sei. E piora. Quando Belle estava prestes a entrar na saleta onde eu a esperava, Emma desceu correndo. Acho que ela não me viu a princípio, porque agarrou Belle pelo braço e sussurrou, em um tom urgente: “Você mandou? Garantiu que Malloy dissesse a ele que é de in nita urgência? Não vai funcionar se ele não se encontrar com você no baile de lady Mottram”.

– E depois disso?

– Emma reparou na minha presença, cou muito vermelha e começou a gaguejar. Acho que nunca a vi tão descomposta antes. Quando me dei conta, ela já estava correndo escada acima.

– Você questionou Belle a respeito disso?

– Eu tentei, mas ela me contou uma história absurda, de uma peça que as duas estavam pregando em Ned. Acho que Belle não notou que eu a escutei quando encaminhava o bilhete para Woodside.

– Precisamos fazer alguma coisa – disse Alex, em um tom decidido. – Woodside não tem escrúpulos. Seja lá o que as duas têm em mente, elas não têm noção de onde estão se metendo.

– Mas não podemos impedi-las se nem sequer sabemos o que está acontecendo.

Alex levou as mãos à cintura.

– Basta confrontar as duas hoje à noite.

– Certo – concordou Dunford, assentindo com vigor.

– No baile de lady Mottram.