Esplêndida

Julia Quinn · Capítulo 19 de 27

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Esplêndida

Capítulo 18

 

Emma cou encarando-o, boquiaberta.

– No entanto – continuou Alex, em um tom mais moderado –, acho que este não é o lugar mais apropriado para isso. Conseguiu encontrar a maldita promissória?

A resposta veio em um tom presunçoso.

– Encontrei, sim – disse, e acenou com o papel diante do rosto dele.

– Nesse caso, espero que me dê licença, porque vou jogá-la pela janela.

Alex pegou o braço de Emma e puxou-a pelo escritório.

– Espere! – exclamou ela. – Meu casaco! Está en ado na fresta embaixo da porta. Também preciso pegar a vela.

Emma atravessou correndo o escritório, pegou o casaco e se enrolou rapidamente nele.

– Que belo meliante você está se saindo – murmurou ela com ironia.

Alex pegou a vela da mesa em um gesto irritado e apagou-a, mas não antes de lançar um olhar fulminante na direção de Emma.

– Já vou, já vou – disse ela rapidamente, já se encaminhando para a janela.

E obviamente não foi rápida o bastante, porque Alex a levantou no colo e jogou-a ele mesmo pela janela, fazendo com que ela aterrissasse nos braços de Dunford, que já estava à espera.

– Você também está aqui? – perguntou Emma com a voz fraca.

– Se eu fosse você, caria grata pela minha presença. Ashbourne está quase a ponto de explodir.

Emma não duvidava daquilo. Ela se virou para encarar Ned.

– O que está acontecendo? Por que eles estão aqui?

O primo apenas deu de ombros.

– Pode colocá-la no chão agora, Dunford – disse Alex, descendo pela janela. – Sua vela – disse, estendendo-a para Emma, que a en ou no bolso. – Vamos sair daqui.

– Não devemos fechar a janela novamente? – sugeriu Emma.

Com muita paciência, Alex se voltou novamente para a janela.

– Dunford, pode apoiar o meu pé?

Dunford juntou as mãos para formar o apoio e Alex esticou a mão para fechar a janela.

– Na verdade – disse Emma, assim que os pés de Alex voltaram a tocar o chão –, ela não estava toda fechada. Estava uns 10 centímetros aberta.

Alex respirou fundo. Emma engoliu em seco ao ver um músculo começar a pulsar na bochecha dele. Mas Alex se manteve rme e se virou para o amigo.

– Dunford?

O outro homem voltou a fazer o apoio com as mãos e ergueu Alex, que levantou a janela alguns centímetros.

– Está bom assim? – perguntou na voz mais perigosamente solícita que Emma já ouvira.

Ela ainda estava furiosa com ele.

– Um pouco mais alto – falou, impertinente.

Alex levantou a janela mais alguns centímetros.

– Um pouco mais baixo.

Ele abaixou-a um pouco.

– E agora?

– Talvez um pouco… ai!

Emma esfregou as costelas no lugar onde Ned lhe dera uma cotovelada.

– Assim está bom – disse, por m, encarando o primo com severidade. – Ah, consegui a sua promissória! – falou, e estendeu o papel para Ned. – Quase me esqueci de dizer. É esta, não é?

Ned desdobrou o papel e deixou escapar um suspiro de alívio ao lê-lo.

– Não sei como agradecer, Emma.

– Ah, não foi nada, Ned. Na verdade, eu me diverti muito.

– Eu, por outro lado, não me diverti nada – falou Alex muito lentamente, incapaz de controlar a fúria que ameaçava explodir sobre Emma.

Ficara tão preocupado com ela. Em pânico. Foram oito longas horas entre o momento em que Dunford lhe contara que Emma e Belle estavam metidas em algum plano esquisito até nalmente ir ao baile de lady Mottram para confrontá-la. Oito longas horas andando de um lado para o outro, jogando as mãos para o alto e se perguntando o que Emma estaria aprontando e se ela estava correndo algum perigo. Fora uma tarde de agonia, em que ele quase morreu de culpa pelo modo como a havia tratado no dia anterior. Então, quando descobrira que Emma planejava invadir a casa de Woodside, a vontade de Alex fora dar um murro na parede. Oito horas de frenesi e pavor absolutos, e tudo isso com o estômago vazio, tinham consequências dramáticas em um homem, e a declaração de Emma de que estava se divertindo certamente não apaziguara o péssimo humor dele.

Emma recuou instintivamente ao ver a expressão sombria no rosto de Alex.

– Podemos ir agora ou vou precisar jogar você por cima do ombro? – perguntou Alex com uma calma ameaçadora.

Emma engoliu uma risada nervosa, percebendo sabiamente que uma risadinha naquela hora seria terrivelmente inapropriada – e provavelmente perigosa para o bem-estar dela.

– Isso não será necessário – balbuciou.

Alex virou seu olhar ameaçador para Ned.

– Acho que você é capaz de voltar sozinho para casa.

Ned assentiu.

– E Emma? Ela vai precisar de um acompanhante.

Alex passou o braço pelo dela e puxou-a contra a lateral do corpo.

– Eu acompanharei Emma. A sua prima e eu temos alguns assuntos a discutir.

– Poderíamos muito bem ter essa conversa amanhã – disse ela, tentando se desvencilhar de Alex, mas ele a manteve rme no lugar.

– Acho que não.

Alex assentiu para Ned em despedida e começou a descer a rua tão rápido que Emma quase teve que correr para acompanhar seu passo. Dunford seguiu os dois a uma distância respeitável.

– Precisa mesmo me arrastar? – arquejou Emma, sentindo os pés quase voando pela rua.

– Se você for esperta, vai manter a boca fechada pelos próximos minutos.

– Bem, minhas pernas não são tão longas quanto as suas – disse ela, em um tom nada satisfeito. – Não consigo andar tão rápido assim.

Alex parou de repente. Emma, que vinha no embalo, esbarrou nele.

– O que foi agora? – perguntou, irritada.

– Ainda posso jogar você por cima do meu ombro – alertou ele em um tom sombrio.

Ela o fulminou com o olhar.

– Nem ouse, seu rato encardido.

Alex soltou o ar lentamente enquanto abria e fechava o punho, tentando desesperadamente não perder o controle da tensão que disparava pelo seu corpo.

– Ande – falou furioso, puxando-a mais uma vez pela rua.

– Aonde estamos indo, a nal? Caso não tenha percebido, eu moro na direção oposta.

– Vamos para a casa de Dunford. Fica a poucas quadras de distância. Podemos pegar uma carruagem lá.

– Ótimo. Porque espero que você me leve imediatamente de volta para casa – disse Emma, petulante. – Seu comportamento esta noite está sendo deplorável.

Alex estacou mais uma vez. E, mais uma vez, Emma esbarrou na lateral do corpo dele.

– Você está tentando me deixar com raiva – sibilou ele.

Emma ergueu o nariz.

– Não me importo nem um pouco com os seus sentimentos, Vossa Graça.

Alex quase rangeu os dentes ao ouvir o tom obsequioso com que Emma se referiu ao seu título. Ele apontou o dedo como se estivesse prestes a dizer alguma coisa. Seu rosto se contorceu, o maxilar cou tenso e ele se esforçou para encontrar as palavras. Por m, baixou o dedo. Ainda lhe sobrava dignidade su ciente para não sacudi-la no meio da rua. Para não mencionar o fato de Dunford estar menos de 2 metros atrás deles.

– Continue andando – disse, tenso, voltando a andar na direção da casa do amigo.

Poucos minutos depois, Alex parou na frente da bela casa de Dunford. Emma arrancou a mão da dele, cruzou os braços em um gesto desa ador e fulminou-o mais uma vez com o olhar.

Dunford se juntou a eles cerca de quinze segundos depois, deu uma olhada no casal enfurecido e disse:

– Vou chamar minha carruagem.

Ele subiu os degraus da frente de dois em dois. Ao chegar diante da porta, se virou e perguntou:

– Ahn, por que vocês não esperam no saguão? Algumas festas devem estar acabando por agora e tenho certeza de que não querem que ninguém veja os dois parados na rua. Ainda mais com você usando, bem, essa fantasia, Emma.

Ela subiu direto os degraus.

– Eu com certeza não quero me ver envolvida em algum escândalo que acabaria me obrigando a casar com esse monstro.

Alex não disse nada, apenas subiu os degraus atrás dela. Quando os dois estavam em segurança no saguão da casa de Dunford, Emma olhou de relance para ele. O músculo da bochecha ainda pulsava e a tensão no maxilar e no pescoço era visível. Alex sem dúvida estava furioso. Talvez até mais furioso do que ela mesma. Mas Emma não entendia por que ele sequer se importava. Alex havia deixado muito claro na tarde anterior o desdém que sentia por ela, e vê-lo na casa de Woodside, aparentemente para salvá-la de algum perigo, era realmente estranho.

– A carruagem está pronta – disse Dunford com a voz calma, quando voltou ao saguão alguns minutos depois, as mãos atrás das costas.

Alex pegou novamente o braço de Emma. Antes de se virar, dirigiu-se a Dunford:

– Obrigado por toda a ajuda.

– Vai passar por aqui amanhã?

– Talvez ainda não tenha terminado com ela até amanhã.

Antes que Emma pudesse questioná-lo sobre aquela declaração soturna, Alex puxou-a pela porta e pelos degraus da frente. Depois de jogá-la dentro da carruagem sem a menor cerimônia, ele foi até o cocheiro, deu algumas instruções e subiu, sentando-se ao lado dela.

Emma cruzou os braços com uma expressão rebelde e afundou o corpo no canto do assento macio. Ele não arrancaria nem uma palavra dela, jurou silenciosamente para si mesma. Não conseguia imaginar por que Alex achava que tinha o direito de se meter na vida dela, de fazer as coisas do jeito dele e tratá-la como uma mala inconveniente. Ela bufou, furiosa, cerrou os lábios e cou olhando com determinação pela janela. Depois de um minuto ou dois, no entanto, descobriu que não era mais capaz de conter a raiva que sentia e explodiu:

– Seu piolho autoritário! Não consigo acreditar no modo como agiu essa noite.

– Um rato, um monstro e um piolho. Tudo isso em apenas uma noite – zombou Alex. – Esse deve ser um dos meus bons dias.

– Imagino que sim – disse ela irritada, voltando a olhar pela janela. – O que é isso? – gritou subitamente, virando-se para encarar Alex. – Acabamos de passar pela minha casa. Para onde estamos indo?

– Para a minha casa.

– Outro exemplo da sua maldita arrogância! – falou ela, furiosa. – Que direito você tem de me tirar de casa?

– Caso não se lembre, eu não tirei você da sua casa, mas da casa de Woodside. E, acredite em mim, para você é muito melhor estar presa nas minhas garras do que nas dele.

– Exijo que mande esta carruagem dar meia-volta neste instante, e que me leve para casa.

– Sinceramente, não vejo como você possa exigir alguma coisa no momento, Emma.

Ela recuou.

– Está me ameaçando?

Alex se inclinou para a frente até o seu nariz quase tocar o dela.

– Estou.

Como se aproveitasse a deixa, a carruagem parou. Alex desembarcou rapidamente e, como Emma não se moveu do assento, ele se debruçou para dentro do veículo, puxou-a para fora e jogou-a por cima do ombro.

– Está dispensado! – gritou ele para o cocheiro.

Alex subiu os degraus com Emma chutando e grunhindo em seu ombro (ela teve presença de espírito su ciente para se dar conta de que gritar resultaria em vários espectadores, um escândalo enorme e, provavelmente, no casamento mais desprezível), entrou no saguão e fechou a porta com um chute.

– Pode me colocar no chão? – exigiu Emma nalmente.

– Ainda não – declarou Alex, subindo outro lance de escada.

– Para onde você está me levando? – perguntou ela, furiosa, tentando virar a cabeça para descobrir onde estava.

– Para um lugar onde possamos conversar.

– Onde possamos conversar ou onde você possa me dar um sermão?

– Está abusando da minha paciência, milady.

– É mesmo? – perguntou Emma em um tom sarcástico. – Estava torcendo para que já a tivesse esgotado.

Alex passou por outra porta, que também fechou com um chute, e

nalmente jogou Emma em cima de uma cama grande de quatro

colunas. Ela disparou em direção à porta na mesma hora, mas Alex bloqueou seu caminho, voltou a colocá-la em cima da cama, atravessou o quarto e trancou a porta com um clique ressoante.

– Por que você…

Ele jogou a chave pela janela.

– Você cou maluco?

Emma correu até a janela e avaliou a distância até o chão.

– Você nunca vai conseguir descer por aí sem se machucar – falou Alex. – Agora você é minha audiência cativa, minha cara, e, acredite em mim, tenho algumas coisas para lhe dizer.

– Ótimo! – retorquiu Emma. – Também tenho algumas coisas para lhe dizer.

– Emma – falou ele com uma suavidade perigosa. – Você vai levar um susto.

– Muito bem – declarou ela, cruzando os braços. – Fale logo.

Alex examinou cuidadosamente as feições dela. Emma não parecia nem um pouco arrependida, mas ele estava tão furioso com ela que começou o sermão assim mesmo.

– Antes de mais nada… – esbravejou.

– Eu vou tirar o casaco, está bem? – interrompeu Emma em um tom sarcástico. – Parece que serei sua convidada aqui por algum tempo.

– Fique à vontade.

Ela desabotoou o casaco, despiu-o e deixou-o sobre uma cadeira próxima.

– Pelo amor de Deus, o que você está usando? – gritou Alex.

Emma abaixou os olhos para a calça que usava.

– Sinceramente, Alex. Eu não poderia sair por aí em um vestido de noite para invadir a casa de alguém.

Os olhos dele percorreram o corpo esguio, cada curva indecentemente marcada pela calça. Sentiu os músculos tensos e sua fúria cou mais in amada com a reação traiçoeira do próprio corpo a ela.

– Acaba de me dar mais um motivo para esbravejar com você – disse. – Não posso acreditar que o seu primo deixou que saísse de casa vestida assim.

– Ah, sinceramente – debochou Emma. – Você não disse nada a respeito no estúdio de Woodside. Eu não estava usando casaco quando você me encontrou lá – lembrou.

– Não reparei – retrucou Alex. – Estava escuro.

Ela deu de ombros.

– Termine logo o seu sermão, está certo? Tive um longo dia.

Alex respirou fundo. Tinha certeza de que ela estava tentando provocá-lo deliberadamente. Poderia jurar que sim. Emma tinha todo o direito de estar furiosa pelo modo como ele se comportara na véspera. Mas aquilo não era desculpa para o óbvio desprezo pelo próprio bem-estar que ela demonstrara naquela noite.

– Você tem ideia do tipo de perigo em que se colocou hoje à noite? – perguntou Alex nalmente, tentando manter o tom calmo.

– Nosso plano era ótimo – retrucou Emma. – E obviamente funcionou.

– Ah, é mesmo? Conte mais sobre esse seu plano. O que pretendia fazer se Woodside voltasse para casa e a surpreendesse enquanto você estava invadindo o escritório dele?

– Belle o está mantendo ocupado no baile de lady Mottram. Ela prometeu que não o deixaria ir embora antes da meia-noite.

– E se ela não conseguisse? – indagou Alex. – O seu primo certamente não é forte o bastante para conter sicamente um homem adulto.

– Ah, use a cabeça – retrucou Emma, irritada. – Woodside vem babando por Belle há um ano. Ele jamais deixaria um baile enquanto ela estivesse ertando com ele.

– Mas você não tinha como ter certeza disso. Ele poderia ter passado mal e precisado ir embora.

– Isso se chama risco calculado, Vossa Graça. Nós corremos riscos assim todos os dias de nossas vidas.

– Maldição, Emma! – explodiu Alex, passando a mão pelos cabelos. – Essa deve ter sido a coisa mais estúpida que você já fez! Se Woodside pegasse você, ele poderia jogá-la na prisão! Ou ter feito coisa pior! – acrescentou signi cativamente.

– Eu tinha que arriscar. Ned estava encrencado e precisava de ajuda. Eu não abandono as pessoas que amo – falou ela com rispidez.

Alex chegou ao limite naquele momento. Pegou Emma pelos ombros, sacudiu-a e se agarrou a ela como se estivesse se agarrando à própria vida.

– Tem ideia de como eu estava preocupado com você? Tem?

Emma sentiu a garganta apertada e fechou os olhos com força enquanto tentava sufocar as lágrimas que molhavam seu rosto há quase um dia inteiro. Precisava se recompor. Não podia permitir que Alex a visse chorar.

Alex parou de sacudi-la, mas não a soltou, e Emma achou o toque dele estranhamente reconfortante. O calor do corpo de Alex parecia atravessar a camisa que ele usava, e uma pequena parte de Emma desejou colar o corpo ao dele e se deixar envolver por seus braços fortes. Mas uma parte bem maior ainda estava profundamente magoada com o ataque brutal da véspera. A descon ança de Alex causara uma ferida muito profunda.

– Eu não sabia que se importava, Vossa Graça – respondeu ela, bem baixinho.

– Ora, mas eu me importo! – foi a resposta acalorada de Alex, que deu as costas a Emma e bateu com as mãos na escrivaninha. – Eu me importo muito! Que inferno… Quase enlouqueci, hoje, sabendo que você estava envolvida em algum plano absurdo, e sem poder impedi-la.

– Como você soube? – perguntou Emma, sentando-se na beira da cama.

– Dunford ouviu uma conversa entre você e Belle, mais cedo, à tarde – explicou Alex. – Ele ouviu você dizer algo sobre como era importante que Belle se encontrasse com Woodside à noite, no baile de lady Mottram. Levando em conta o caráter de Woodside, eu e ele camos malucos.

– Eu teria imaginado que você caria satisfeito em me atirar aos lobos.

– Cometi um erro ontem – falou Alex, a voz rouca, ainda de costas para Emma. – Sinto muito.

Emma arregalou os olhos, chocada, ao ouvi-lo admitir aquilo. Alex era um homem orgulhoso, e ela acreditava que se desculpar não fosse uma coisa fácil para ele. Ali, apoiado contra a mesa, cada linha do corpo dele mostrava tensão e dor. Ela sabia que não estava sendo fácil. E Alex provavelmente estava devastado de culpa pelo comportamento que tivera. Emma sentiu o coração apertado por ele – não conseguiria evitar mesmo se tentasse, pois amava demais aquele homem. No entanto, nem os seus sentimentos mais ternos conseguiriam apagar a dor que Alex lhe causara.

– Aceito o seu pedido de desculpas – disse ela com uma dignidade tranquila.

Alex se virou, com a esperança e a dúvida colidindo em seus olhos.

– Mas isso não signi ca que vou ser capaz de esquecer – acrescentou Emma com tristeza. – Não vamos conseguir voltar ao ponto onde estávamos.

– Emma, se você precisava do dinheiro para ajudar Ned, poderia ter me pedido.

– O que eu deveria ter feito, Alex? Procurado você e pedido um empréstimo de 10 mil libras?

– Eu teria dado o dinheiro.

– Tenho certeza disso, mas eu não me sentiria confortável com a situação, e acho que Ned também não. Além do mais, pareceu tolice, já que tenho mais do que o su ciente. Tenho uma herança a receber bem aqui em Londres. Está depositada em um fundo até eu completar 21 anos.

Emma engoliu em seco, nervosa, desviou os olhos e xou-os em uma tapeçaria medieval pendurada na parede.

– Ou até eu me casar.

– Entendo.

– Eu não pedi você em casamento só pelo dinheiro – disse Emma de supetão, em um tom apaixonado, ainda sem conseguir se virar e encontrar o olhar esmeralda dele. – Acho que foi isso que me deu a ideia de fazer o pedido, mas não foi esse o motivo. Foi uma desculpa, eu acho. Eu queria muito você e estava me sentindo encurralada. Os homens podem escolher com quem querem se casar e quando, mas as mulheres têm que car sentadas em casa, esperando um pedido. Tive medo de que você nunca fosse criar coragem de pedir a minha mão.

Alex suspirou. Se ela tivesse esperado mais três dias, toda aquela confusão teria sido evitada.

– O dinheiro foi só uma desculpa – continuou Emma, triste. – Acho que pensei que, se tivesse um motivo muito urgente, então eu poderia desa ar a tradição e eu mesma fazer o pedido em vez de esperar. Acho que não teria tido coragem se não precisasse do dinheiro para ajudar Ned.

Alex foi até a cama, se sentou ao lado de Emma e pegou a mão dela.

– Você consegue entender por que eu reagi daquela maneira? – perguntou enquanto acariciava a palma da mão dela com o polegar. – Passei toda a minha vida adulta sendo assediado por mulheres gananciosas, ansiosas por um título. Quando você disse que precisava de dinheiro… não sei o que aconteceu. Acabei perdendo o controle.

Emma levantou os olhos para ele, profundamente magoada.

– Só não entendo como você pôde pensar isso de mim. Você não me conhece?

Alex desviou os olhos, incapaz de pensar em qualquer palavra que pudesse expressar o remorso que estava sentindo.

O silêncio pareceu interminável até Emma nalmente dizer:

– Você devia ter con ado em mim.

– Eu sei. Sinto muito.

– Consigo entender que você tenha chegado à conclusão errada – falou ela, a voz falhando. – Mas você nem sequer parou para pensar. Você me tratou como uma meretriz qualquer, me jogou para fora da sua casa. Você nem sequer pediu uma explicação.

Alex não conseguiu olhá-la nos olhos.

Emma enxugou uma lágrima que ameaçava escorrer pelo seu rosto.

– Achei que você me conhecesse o su ciente para perceber que eu não sou uma “megerazinha gananciosa”.

Ele se encolheu quando ela repetiu as palavras cruéis que ele havia soltado no momento da raiva.

– Eu sei que errei, Emma. Acredite em mim, não demorei muito para perceber que havia me enganado em relação a você.

– Não sei. Eu me sinto muito desconfortável sabendo que você não con a em mim.

– Mas eu con o. Agora eu con o.

Emma abriu um sorriso triste.

– Isso é o que você diz. E tenho certeza de que acredita no que está falando, mas eu não tenho certeza de que não tiraria a mesma conclusão precipitada outra vez. Você passou dez anos odiando as mulheres. Não é fácil se livrar de uma emoção tão forte nutrida durante uma década.

– Eu não odeio as mulheres, Emma.

– Ódio, descon ança… Dá no mesmo.

– Admito que não tinha a maioria das mulheres na mais alta conta – disse Alex, apertando a mão dela com mais força. – Eu não conhecia nenhuma, a não ser as da minha família, que fosse digna do meu respeito. Mas você mudou isso. Você acabou com as ideias preconcebidas que eu tinha em relação às mulheres.

Emma umedeceu os lábios enquanto se lembrava da terrível cena na sala de recepção de Alex.

– Obviamente isso não é verdade.

– Pelo amor de Deus, Emma, me dê uma chance! – disse Alex, colocando-se de pé, subitamente nervoso. – Você tem razão! Eu me comportei como um idiota ontem, porque não con ei nos meus instintos. Eu sabia que você era tudo o que eu queria em uma mulher, mas tive medo de admitir. Está satisfeita?

Alex atravessou o quarto, respirando fundo várias vezes. Então cou parado, as mãos na cintura, olhando para a mesma tapeçaria que havia capturado o olhar de Emma minutos antes. E não se virou para ela quando nalmente voltou a falar:

– Mas agora você está fazendo a mesma coisa comigo. Não con a em mim o su ciente para acreditar que eu aprendi alguma coisa depois da cena de ontem.

– Ah, Alex – disse Emma em um gemido, escondendo o rosto nas mãos. – Eu estou tão confusa… Acho que estou confusa desde o momento em que nos conhecemos.

– Você está confusa? – falou Alex, virando-se para ela, os lábios torcidos em um sorriso sarcástico. – Você virou a minha vida de cabeça para baixo. Tem ideia do número de malditos bailes aos quais compareci nos últimos dois meses?

Emma o encarou perplexa enquanto ele continuava:

– Mais do que nos últimos dez anos! Não gosto de festas. Detesto festas. Mas fui a todas elas… de bom grado! Só para estar perto de você.

Emma continuou a tá-lo com os olhos marejados.

– Gostaria de saber o que fazer – disse ela com tristeza. – Você poderia… poderia só…

Emma mordeu o lábio enquanto tentava encontrar as palavras.

– Poderia me abraçar? Só um pouquinho?

Alex levantou a cabeça ao ouvir o pedido, e seu coração começou a bater muito rápido. Então sentou-se ao lado de Emma e passou os braços ao redor dela, pousando os lábios na pele delicada perto da sua orelha.

Emma fechou os olhos, perdida no conforto e no aconchego dos braços dele. Quando voltou a falar, sua voz saiu muito baixa e abalada.

– Acho que, se você continuar me abraçando, talvez eu consiga esquecer como estou magoada.

Alex abraçou-a com mais força.

– Sinto muito, Emma – murmurou. – Sinto tanto…

Emma assentiu, nalmente deixando as lágrimas que vinha contendo escorrerem por seu rosto.

– Eu sei. E sinto muito por ter deixado você tão preocupado hoje à noite. Embora não sinta por ter feito o que z – acrescentou, com uma fungada e um sorriso tímido. – Mas sinto muito por ter preocupado você.

Alex puxou-a contra o peito.

– Ah, Emma, meu Deus – disse com a voz rouca. – Por favor, nunca mais me coloque em uma situação como essa.

– Não vou fazer isso de novo. Ou ao menos vou tentar não fazer.

Alex se afastou para conseguir ver o rosto dela.

– Eu z você chorar – sussurrou, tocando o rosto dela. – Sinto tanto.

Dentro do abrigo quente dos braços de Alex, Emma chorou todas as lágrimas que vinha guardando dentro de si nos últimos dois dias, que vinha tentando corajosamente esconder dos olhos preocupados dos parentes. A cada lágrima que caía, tinha a sensação de tirar um peso da alma, e lentamente ela sentiu a tensão começar a deixá-la. Em algum momento, as lágrimas cessaram, e Alex pousou o corpo adormecido de Emma sobre a cama enorme. Com um sorriso satisfeito no rosto, ele descalçou os sapatos dela, cobriu-a bem e lhe deu um beijo de boa-noite.